domingo, 3 de janeiro de 2016

Valem pastiches, plágios e falsificações como "pão para os pobres"?

NA ESQUERDA, O VERDADEIRO QUADRO DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS, DE CÂNDIDO PORTINARI. À DIREITA, A ATRIBUIÇÃO DE AUTORIA AO MESMO PINTOR, DA PARTE DO "MÉDIUM" JOSÉ MEDRADO, É FALSA.

É muito perigoso acreditar que o "amor permite tudo", o "amor pode tudo". É bem mais traiçoeiro e leviano do que se pode acreditar. A atitude do "movimento espírita" em combater a lógica e o bom senso pode ser menos rígida que a do Catolicismo medieval, mas nem por isso deixa de ser grave e preocupante.

É estarrecedor que a Justiça dos homens tenha se acanhado diante das falsidades trazidas pelos "espíritas", desde que um processo judicial movido por herdeiros de Humberto de Campos (1886-1934) colocou Francisco Cândido Xavier e a Federação "Espírita" Brasileira nos bancos dos réus. A hesitação de juízes e juristas foi precedente para atitudes aberrantes diante das fraudes "espíritas".

Chico Xavier acabou se transformando em "dono" de Humberto de Campos. O legado original deste genial autor maranhense mal consegue ser divulgado pelos membros da Academia Brasileira de Letras, onde Humberto fez parte, e hoje mesmo seu legado original não consegue sobreviver sem a sombra perniciosa de Chico Xavier.

Num país de pouca leitura - recentemente, os "livros para colorir" chegaram a dominar o mercado de livros de textos, com pelo menos três títulos nas listas dos vinte mais vendidos - , as pessoas acreditam que o Humberto de Campos que escrevia como autor laico teria "voltado", como espírito, escrevendo como se fosse um padre, com uma qualidade literária inferior à que teve em vida.

Há quem tente justificar essa diferença com alegações do tipo "ele passou a estudar, no além, as obras religiosas e a vida do Cristo", para não dizer bobagens como "tomado de tanto amor, ele se esqueceu de seu próprio estilo, doando como pôde na missão de transmitir a 'sabedoria cristã'".

Recentemente, pintores "mediúnicos" tentam camuflar sua capacidade de parodiar estilos diversos com a alegação de que são "obras espirituais". Cria-se uma insólita e duvidosa reunião de diferentes pintores falecidos e marca-se um "festival" de pinturas que, numa observação simples, não seguem o estilo original dos artistas atribuídos.

A dúvida já está no fato de ser "fácil demais" chamar tantos pintores diferentes. Se é muito difícil reunir todos os colegas de colégio de uma turma de 25 anos atrás, maior dificuldade estará em chamar todos os pintores impressionistas, expressionistas, barrocos e cubistas, de diversos lugares, tendências díspares e que, muito provavelmente, dificilmente poderiam ir a esse encontro.

Vemos essas pinturas e elas se revelam falsas. Mas o problema é que é impossível acionar a Justiça para tais fraudes. Os juristas, no Brasil, têm o rabo preso, e os casos de Joaquim Barbosa e Sérgio Moro são exemplos de como a Justiça ainda é medrosa para certos "peixes grandes".

Imagine jogar para o banco dos réus uma figura como José Medrado, o "bondoso médium" da Cidade da Luz (cujo terreno foi adquirido irregularmente, como "invasão de colarinho branco"), que faz de suas "psicopictografias" o suposto "pão dos pobres", para crianças que são alojadas e isoladas do convívio humano, durante as palestras na "iluminada casa espirita"!

Os juristas de 1944 já acharam "muito doloroso" botar no banco dos réus um "caipira humilde" como Chico Xavier, mesmo quando ele, esperto, tenha se aproveitado da popularidade de Humberto de Campos para usurpar seu nome e promover o sensacionalismo através de supostas psicografias, nas quais nada do estilo original de Humberto se observa, nem mesmo em uma vírgula!

Será que a bondade pode ser motivo para práticas fraudulentas? Mentira de amor não dói? É válido transformar em "pão para as crianças" e "abrigo para os velhinhos" a fraude, o pastiche, o plágio? E provar tais aberrações, mesmo que jogue "figuras de bem" contra a parede, pode ser visto como "calúnia" e "perseguição"?

Isso causa um grande problema. Não só com Humberto de Campos, Cândido Portinari, Auta de Souza, Claude Monet, Pierre-Auguste Renoir, ou, mais recentemente, Raul Seixas e Cazuza. Tantas almas do além são usurpadas nesses processos fraudulentos, e os juízes deixam passar numa boa. Se tudo for "pela caridade", vale qualquer farsa.

O Brasil está refém do deslumbramento religioso e dos estereótipos igrejistas de "amor e bondade". Como Malcolm Muggeridge, com seu documentário sobre Madre Teresa de Calcutá, conseguiu dar sua contribuição para o misticismo brasileiro, é coisa admirável. Os estereótipos do documentário Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God) ajudaram a fortalecer o já intenso misticismo religioso, que permite tantas farsas e tantas aberrações.

E o pior é que eles podem falsificar tudo e saírem impunes nessa. E nós, quando queremos apenas investigar tais irregularidades, ainda somos considerados "perseguidores de homens de bem". Afinal, quem é mais leviano nessa situação? Os "espíritas", é claro, que usam o amor para cometerem seus abusos e desonestidades.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.