terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O perigo terrível da retratação ante os deturpadores do Espiritismo


A fraqueza humana diante da rendição aos deturpadores da Doutrina Espírita revela um perigo terrível da retratação. A tarefa de questionar os deslizes do "movimento espírita" e perder a firmeza no meio do caminho fez com que os deturpadores sempre triunfassem, sempre apoiados na mitificação religiosa e no aparato de bondade.

O arrivismo com que agiram os ídolos do "movimento espírita", se deixando valer dos clichês de humildade, bondade e misericórdia e se deixando valer pela encenação do coitadismo, fez com que os recados de Erasto sobre a deturpação do Espiritismo tivessem sido em vão no Brasil.

A Doutrina Espírita acabou sendo dominada pelos "inimigos internos". É doloroso para muitos, mas creditar Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco como "inimigos internos do Espiritismo" é coerente, porque eles apresentam caraterísticas de deturpadores graves, praticando irregularidades já identificadas em O Livro dos Médiuns de Allan Kardec.

Para piorar, Chico Xavier e Divaldo Franco, e sobretudo este último, fizeram espalhar a deturpação de tal forma que existem até traduções em francês de suas obras e federações "espíritas" à maneira do "movimento espírita" brasileiro em países como Portugal, Espanha ou mesmo a França, que parece ter esquecido as lições kardecianas originais.

No Brasil, há um cacoete de que, quando os deturpadores mostram uma suposta imagem de "amor" e "bondade", os críticos da deturpação recuam. É o truque da "misericórdia" e do "coitadismo". É fácil um deturpador do Espiritismo, quando as contestações contra seu trabalho se intensificam, ele logo põe crianças pobres e velhinhos doentes à sua frente, como escudo para as críticas não avançarem.

É patético que, numa comunidade de debates sobre a deturpação espírita, um internauta, mesmo aparentemente bem intencionado, diga que a "mediunidade" de Chico Xavier e Divaldo Franco são "100% confiáveis", se existem provas de contradições, pastiches e plágios em seus livros que desmontam facilmente essa ingênua constatação.

Não se pode limitar a identificação dos erros dos dois a uma incompreensão dos textos kardecianos, como se fosse possível incluir os dois "médiuns" no panteão dos espíritas autênticos, como se eles servissem para alguma coisa se caso houver recuperação das bases doutrinárias originais. Mas está comprovado que eles não servem.

O deslumbramento religioso faz com que as pessoas deixem os questionamentos pela metade. Como se a mera consideração às traduções mais honestas dos livros kardecianos, como as de José Herculano Pires, bastassem. Lê-se essas traduções e paramos por aí. Fica muito fácil. O problema é que isso é apenas o começo de um longo caminho.

As fraudes mediúnicas, várias delas grotescas e vindas de "médiuns" tidos como "gabaritados" e dotados de imunidade social plena, preocupam e não podem ser ignoradas só porque passamos a entender melhor Kardec. Se entendermos melhor a teoria mas não encaramos a questionar a prática, tudo fica em vão. É quase que aceitar a deturpação quando ela sai do papel.

Há quadros supostamente espirituais - como se não bastasse a estranha facilidade com que se "recolhem" pintores de épocas e países diferentes para "se reunirem" num mesmo evento filantrópico - que não refletem os estilos dos pintores falecidos atribuídos e as assinaturas sempre se assemelham, denunciando o estilo pessoal do suposto médium.

Esse questionamento, sobretudo no caso do baiano José Medrado - no qual se observa vestígios do seu estilo pessoal em "diferentes" pinturas e uma mesma caligrafia, seja qual for o nome do pintor - , choca e derruba a doce ilusão das elites baianas, esnobes e alienadas, de fantasiar com fictícias reuniões culturais feitas sob o pretexto da caridade. Uma caridade que essas elites, por conta própria, são incapazes de fazer.

Soa doloroso avançar nos questionamentos da deturpação do Espiritismo e no distanciamento das lições e dos avisos de Kardec. Mas a retratação é que, sim, é perigosa, porque legitima os deturpadores sob a desculpa da "bondade".

Entender a boa teoria é ótimo, conhecer os textos kardecianos é fundamental, essencial e obrigatório para quem quer realmente seguir Kardec. Mas isso é só o começo do caminho, pois a deturpação é um processo muito mais engenhoso do que imagina, e a "bondade" muitas vezes é só uma armadilha para se deixar passar qualquer conceito deturpador.

O próprio espírito Erasto já alertou para aumentarmos a vigilância justamente quando os deturpadores do Espiritismo mostrarem coisas aparentemente "boas" e "amorosas". Convém manter firme o questionamento e avançar no sentido da lógica, em vez de recuar no sentido da complacência aos ídolos religiosos.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

O mito do "coração do mundo" e o perigo da "invenção do inimigo"

CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE AUSCHWITZ, ALEMANHA - Os judeus também estariam respondendo por "resgates espirituais"?

Francisco Cândido Xavier deveria ser muito mais criticado e contestado do que adorado e aceito. É vergonhoso que a complacência que envolve o anti-médium mineiro, que fará 15 anos de falecimento em junho próximo, que atinge até uma parcela dos que acreditam recuperar as bases kardecianas mantendo os "médiuns-estrelas" no pedestal.

Chico Xavier causou muita confusão, por seus próprios atos. Esse mito de "amor e bondade" e "humildade", fabricado pela FEB e reciclado pela Rede Globo de Televisão, com base no que o católico inglês Malcolm Muggeridge fez de Madre Teresa de Calcutá, que nunca passou de um marketing religioso que restringe, institucionalmente, a prática de bondade como um subproduto da religião, não pode colocar os erros do anti-médium mineiro debaixo do tapete.

O "bondoso médium" foi um dos mais terríveis, deploráveis e perigosos deturpadores da Doutrina Espírita de todos os tempos. E se ele é muito adorado e cultuado, esse sentimento consiste no processo obsessivo da "fascinação", um dos mais perigosos por consistir numa armadilha que leva muitas pessoas à cegueira e ao fanatismo.

Só mesmo a burrice predominante no Brasil - considerado um dos países mais ignorantes do mundo - pode atribuir alguma superioridade a Chico Xavier, alvo de preocupante apego emocional de seus seguidores, que se dizem dotados de "energias elevadas", mas que se espumam de raiva e rancor quando são contrariados, mesmo de maneira leve e construtiva.

Chega-se mesmo à hipocrisia dos chiquistas dizerem, quanto às críticas severas a Chico Xavier: "ele não está aí para reclamar". No entanto, também os mortos que tiveram seus nomes usurpados nas irregulares psicografias de Xavier também não estavam aí para reclamar e ninguém se preocupou.

Humberto de Campos foi usado e abusado, da forma leviana e oportunista, a ponto de Chico querer ser o "dono" do autor maranhense. Humberto também não esteve aí para reclamar, enquanto Chico e Antônio Wantuil de Freitas faziam, a quatro mãos, textos que eram creditados ao autor falecido aos 48 anos, com uma autobiografia deixada incompleta. Os textos em nada refletem o estilo de Humberto, mas muitos trechos lembram o estilo das mensagens de Chico Xavier ele mesmo.

Humberto foi usado e usurpado por Chico Xavier para adotar posturas nada generosas. No livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, Chico atribuiu a Humberto posições sutilmente racistas, como atribuir inferioridade social a negros e índios e corroborar o mito católico do "julgamento de Jesus", que teria sido inventado pelo Catolicismo medieval para botar a culpa da condenação de Jesus de Nazaré ao povo judeu e não ao Império Romano.

Aliás, o referido livro, não bastasse ter sido feito mediante um acordo entre a FEB e o Estado Novo, reflete uma perigosa utopia em relação ao Brasil, definida pela promessa do país se tornar um líder político-religioso do mundo inteiro.

Claro que as pessoas vão dizer que é paranoia pensarmos em teocracia ou imperialismos. Mas o problema é a teoria e a prática serem muito diferentes. E o grande alerta em relação a esse projeto do Brasil sonhado por Chico Xavier é que ele pode se tornar um grave perigo para a humanidade.

Afinal, o discurso belo, a utopia de união dos povos, de solidariedade, reconciliação é apenas uma teoria. As pessoas até se esquecem que o mundo já mostrava o triste exemplo dos regimes tirânicos da Alemanha e Itália que também representavam promessas de "algo positivo" para seus respectivos povos.

A ameaça consiste no "obstáculo" que se poderá criar. Para uma "coisa boa" crescer, uma "coisa ruim" tem que ser destruída. E o que serão as "coisas ruins", os "obstáculos" a serem destruídos quando o Brasil se tornar um império mundial e o "espiritismo" brasileiro uma teocracia, é algo muito misterioso, que não temos ideia precisa de como será, mas que é muito preocupante.

A "invenção do inimigo" é algo que não vem na carta de apresentação de um projeto teocrático-imperial. A apresentação sempre mostra apenas o lado positivo, da "solidariedade entre os povos", da "união entre os divergentes" etc. Quem representar risco para o êxito dessa perigosa empreitada é que se torna o inimigo a ser eliminado, e é aí que se vê o "ovo da serpente" dessa "linda utopia".

Indícios dessa ameaça estão no desprezo à Ciência, quando ela ultrapassa os limites permitidos pelo "espiritismo" brasileiro. Cientistas como Wolfgang Bargmann, cientista alemão que nos anos 1940 estudou a glândula pineal (falsamente atribuída ao "espírito" de André Luiz pelos "espíritas) e Percival Lowell, que previu descobertas sobre Marte feitas em 2004, seriam jogados ao limbo.

Da mesma forma, o famoso juízo de valor dos "espíritas", de acusar as pessoas que sofrem desgraças de "pagarem" por supostos resgates morais em vidas passadas - algo feito sem provas, já que o "espiritismo" brasileiro é mal instruído em vida espiritual - é uma senha de como a dita "religião da bondade" pode se tornar um poder totalitário dos mais cruéis.

Daí para condenar pessoas à morte por causa de "resgates morais" e "reajustes espirituais" será um pulo. E o moralismo tem dessas coisas. Vide, por exemplo, o que ocorre com o feminicídio conjugal, em que homens evocam "valores da Família, do Amor e do Casamento", além da "defesa da honra masculina" para tirar a vida de suas companheiras, uma atrocidade brutal feita "na melhor das intenções" e que durante muito tempo teve a garantia da impunidade quase plena.

A culpabilização da vítima é uma prática feita com muita frequência pelos "espíritas". Até o "iluminado" Chico Xavier teria feito das suas, acusando as vítimas do incêndio em um circo em Niterói de terem sido "romanos sanguinários". O fato de botar na responsabilidade de Humberto de Campos (mal disfarçado pelo codinome Irmão X) só agrava a situação do "médium", porque fez uma acusação leviana e cruel e, além disso, botou em nome de outro para se livrar de culpa.

Há um lado sombrio do projeto do "coração do mundo" porque nossa humanidade é complexa. A utopia do "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho" pressupõe um futuro de querubins dando as mãos e os discordantes do projeto serem "punidos" com perdão, misericórdia.

Mas essa perspectiva também havia quando o imperador Constantino criou a Igreja Católica Apostólica Romana, na qual se falava também em discurso de união, em valorização dos ensinamentos cristãos e na divulgação da paz e da fraternidade em todo o povo. A realidade, mostrou, porém, uma teocracia sanguinária e punitivista, da qual participou, tardiamente, o jesuíta Manuel da Nóbrega, o mesmo Emmanuel que teria prefaciado Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho.

A tese do "coração do mundo" também seria reprovada por Allan Kardec, que nunca apoiaria projetos em que uma nação deteria o poder no planeta, mesmo com as "mais nobres intenções". A ideia do "Brasil Coração do Mundo" também revela um devaneio materialista, uma patriotada religiosa que nunca passou de uma utopia arrivista de um caipira do interior de Minas Gerais.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A situação hipócrita das energias "espíritas"


Várias pessoas que até desejam abandonar os chamados "prazeres mundanos" se queixam das energias que contraem depois que fazem "tratamentos espirituais" em "centros espíritas". O desejo de superar tais hábitos é traído pela atração de situações que só reforçam esses costumes, de maneira ainda mais grave e leviana.

Rapazes que, na vida normal, atraíam moças de beleza mais modesta mas de um caráter mais inteligente e decente, reclamam que, depois de fazer "tratamentos espirituais" ou simplesmente ir a uma doutrinária ou ler um livro "espírita", veem a energia se reverter e as moças que eles costumavam atrair eram desviadas de seu acesso.

Algumas moças davam sumiço sem qualquer explicação. Outras se casavam com outros homens. Outras faleciam por tragédias repentinas. Não bastasse isso, os rapazes passavam a atrair outros tipos de mulheres, de perfil mais fútil, mais leviano e de um meio social duvidoso.

Os rapazes que estavam resignados em não conquistar as moças mais bonitas da escola passaram a "ter a oportunidade" até de namorar "aquela funkeira" que foi casada com um machão ciumento. São assediados por moças vindas de comunidades nas quais elas são desejadas por homens "da pesada", capazes de matar quem estiver sendo objeto de atenção dessas moças.

O "espírita", vendo isso, desperta seu lado Amigo da Onça, sempre com uma pose bondosa e palavras bonitas. "Isso que você diz ser problema e risco de tragédia é uma oportunidade para promover a fraternidade, ensinar valores sublimes e sempre promover a reforma íntima e a superação de diferenças", costuma dizer alguém do tipo, com a sensibilidade de quem acha que pimenta nos olhos dos outros é refresco.

Muitas pessoas sofrem infortúnios à toa depois que entram em contato com algum evento, atividade ou produto "espírita". Elas se queixam de contraírem AZAR! E isso não é porque as pessoas contraem más energias do seu mau humor pessoal, porque essas pessoas se esforçam em desenvolver boas energias, paciência, perseverança, jogo de cintura e tudo. Não há como culpar a vítima por ela não ter feito o que, na verdade, fez até demais!!

No emprego, também as energias maléficas são contraídas. Como a doutrina que diz reprovar a ganância materialista permite aos seus "assistidos" que eles se empreguem em empresas corruptas ou vulneráveis, como jornais comunitários em que o editor-chefe tem alguma animosidade com um grupo criminoso que domina o local?

As pessoas reclamam, e com razão. Se esforçam em abrir mão de paixões materialistas, mudam os pensamentos, reformam seus interesses, e isso com paciência ante a dor, dissolvendo irritações iniciais, remodelando desejos em instantes de muita tristeza e até depressão. Mudam sentimentos, habilidades e visões para depois só atraírem oportunidades ligadas aos desejos e interesses que haviam abandonado.

Mas os "espíritas" se acham com razão, protegidos pelo prestígio religioso e preocupados em serem desmascarados na sua hipocrisia, pondo a perder seu esforço atlético em forjar boas palavras e bons sentimentos visando a ânsia de reduzir as encarnações necessárias para conquistar um lugar no céu.

O "espiritismo" age na hipocrisia, porque condena o sensualismo e a ganância humana, mas entrega seus "assistidos" a situações vinculadas a essas qualidades negativas, sob a desculpa de "levar a luz" aos "ambientes de trevas".

Mas, além de subestimar sofrimentos anteriores, e desprezar que as pessoas mudaram, os "espíritas" ignoram que não dá para mostrar a "luz" para quem "não quer ver", principalmente quando nesses ambientes levianos se encontra gente arrivista que, se muda as atitudes e os interesses, não é pelo remorso pelo que fez de errado, mas apenas deixou de fazer por puro tendenciosismo.

O rapaz que aceita nunca mais ter aquela colega de escola dos seus sonhos mudou seus valores e interesses com muita dor, irritação e tristeza. Mas não é para trocar a "garota mais linda da escola" pela "periguete" do bairro. E ele não conseguirá mudar os valores que a "periguete" acredita, porque, se ela mudar, não será por vontade própria, mas de maneira tendenciosa, sempre visando alguma vantagem ou promoção pessoal em troca.

A pessoa que quer trabalhar em locais decentes tem em seu acesso um emprego numa empresa corrupta, cujo patrão, um arrivista ganancioso, precisa de profissionais diferenciados apenas como trampolim para a promoção pessoal dele. A pessoa não quer trabalhar nesses ambientes, mesmo que a profissão na empresa corrupta lhe garanta visibilidade e ascensão social, e não entende porque, depois das energias "espíritas", a pessoa mudou para receber as "mesmas oportunidades".

Isso é um grande desrespeito ao ser humano que muda seus sentimentos, reformula seus valores diante de decepções na vida. Não é tarefa fácil. A pessoa que sofre faz sua parte para reformular sentimentos e interesses com paciência, humildade, autocrítica, perseverança e jogo de cintura. Cria novas habilidades, novos interesses, novos desejos, para tudo ser feito em vão.

As pessoas acabam se sentindo brinquedos das adversidades humanas. Um rapaz que, pelas frustrações da vida, abre mão do sensualismo e quer uma moça que não seja a "musa da escola" mas pelo menos atraente, discreta e inteligente, passa a ser assediado apenas por moças que representam até uma forma ainda mais grosseira de sensualismo.

Para piorar, moças que veem na futilidade um ideal de ascensão social e não estão aí para serem reeducadas por um rapaz mais modesto, que só lhes serve como trampolim para alguma promoção pessoal dessas mulheres fúteis.

Daí o desrespeito. Muitas pessoas querem mudar seus sentimentos e seus interesses e até admitem a desilusão e, dentro de uma dose moderada, o sofrimento. É como um doente que faz tudo para se curar de antiga doença, segue todas as recomendações e restrições, se trata, mas, em vez de estar curado, é exposto, ainda que de maneira mais grave e cruel, à mesma doença da qual se quer se livrar.

E tudo isso dentro de uma seita que se revela hipócrita, com sua fase dúbia que um dia exalta o legado de Allan Kardec e no outro endeusa os deturpadores, dentro de um espetáculo de palavras bonitinhas e sentimentalismo piegas que supostamente é feito pelo equilíbrio moral e pela fraternidade, mas só traz energias que complicam ainda mais a vida das pessoas.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Famílias e a ideologia higienista do entretenimento "popular"

CRIANÇAS POBRES TAMBÉM PODEM CHORAR POR NÃO TER O CONVÍVIO COM O PAI.

Um fato é ilustrativo. Um colunista de jornal anunciou que uma apresentadora de TV estava em crise no casamento com um executivo da emissora. Ao saber disso, o filho adolescente fica apavorado e pergunta aos pais se isso é verdade. Pouco depois, um portal de celebridades publica nota desmentindo a crise conjugal que, dizem, ocorre mesmo, diante do fato da apresentadora andar aparecendo sozinha ultimamente.

Isso não ocorre quando os filhos são de musas que trabalham com fenômenos popularescos. O filho de uma conhecida funkeira está na mesma faixa etária do filho da apresentadora e nunca teve essa neurose. A funkeira, pelo menos aparentemente, segue "solteira" e anda dando declarações sobre "rapazes carentes" e em "querer dar uns beijinhos no Carnaval".

E olhe que, no caso da apresentadora e do marido, não há necessariamente uma cumplicidade ou uma afinidade pessoal, pois o estigma da "mulher do diretor" denota mais uma relação patriarcal do que uma união de afins. E mostra o quanto, entre as elites, se preocupa mais na solidez das estruturas familiares do que nas famílias pobres às quais têm nas musas popularescas um "modelo a ser seguido".

A realidade mostra que é nas classes pobres que há maior necessidade de haver estruturas conjugais mais sólidas. A baixa escolaridade não permite compreender as mudanças nas estruturas familiares - mães solteiras e pais LGBT - , dotadas de uma nova complexidade sociológica, e muitas famílias pobres seguem opções religiosas bastante conservadoras.

Por outro lado, as famílias pobres, principalmente as numerosas, se complicam quando há apenas a presença da mãe solteira. A vida se complica e, não raro, os filhos mais velhos, ainda adolescentes, têm que assumir as responsabilidades do pai, forçando a entrada na vida adulta na qual mesmo as crianças pequenas são empurradas para o mercado informal, para reforçar a precária renda familiar.

Estudos do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) mostram que a entrada dos homens pobres na criminalidade, em muitos casos, é influenciada pelo gosto de aventura e da violência que lhes servem para afirmar uma masculinidade que não é desenvolvida saudavelmente pelo convívio paternal, ausente na vida destes jovens. Em outras palavras, o crime serve para compensar a carência da afirmação masculina na infância, com a falta do convívio paterno.

Há uma finalidade higienista sutil e nunca oficialmente assumida quando a mídia do entretenimento enfatiza a vida de solteira apenas a mulheres famosas ligadas à hipersexualização e à difusão de valores machistas, mesmo dissimulados sob um falso feminismo. O "funk" acaba sendo a trilha sonora dessa campanha que só faz reafirmar a ideologia machista no Brasil.

É uma campanha que atira para todos os lados. Há a exploração da imagem depreciativa da mulher solteira, vista como "excessivamente hedonista", vivendo apenas pelo sexo e pela curtição. Mesmo adotando posturas politicamente corretas como um falso feminismo, isso não vai além do simulacro ou da caricatura. É um "feminismo de glúteos" que só contribui para reafirmar o machismo "sem macho" trabalhado por essas musas.

É um processo muito mais grave e muito mais cruel do que se imagina. Mostra ainda a influência da sociedade machista em "negociar" a emancipação feminina, sempre garantindo uma vantagem para o machismo, de uma forma ou de outra.

A mulher, dentro desse machismo "moderado", tem duas escolhas: se ela quer adotar uma postura mais sóbria, aprimorar conhecimentos, ser discreta e ter opiniões próprias, ela tem que viver sob a sombra de um marido, geralmente alguém dotado de uma posição de comando, sendo empresário, executivo ou profissional liberal. Uma emancipação feminina "vigiada" e "patrocinada" pela figura do marido.

Já a mulher que aceita fazer um papel de brinquedo sexual, vivendo das exibições obsessivas do corpo, ou, se apela para performances musicais, chegar ao ponto de exibir seus glúteos siliconados aos olhos dos rapazes da plateia, então ela não precisa sequer ter namorado, porque, cumprindo as normas machistas por conta própria, não precisa do "zelo" de um homem.

Nota-se, na mídia do entretenimento, que as mulheres que afirmam sua "solteirice" com maior convicção são justamente ex-integrantes do Big Brother Brasil, funkeiras, cantoras emergentes de axé-music, musas de times de futebol, ou sub-celebridades que "vivem do corpo". Poucas solteiras que aparecem na mídia fogem desses estereótipos marcados pelo sexo e pela curtição.

Enquanto isso, a mulher que procura, mesmo com imperfeições, sair dessa imagem hipersexualizada e obsessivamente lúdica, sempre tem a sombra de um marido poderoso. Como ela escolhe sair de estigmas machistas da mulher-objeto ou da mulher-festeira, então ela precisa ter sua independência simbolicamente monitorada pelo marido com alguma posição de poder.

Nessa "negociação" entre machismo e feminismo, aberrações acontecem. A mulher casada geralmente aparece sozinha nos eventos, podendo até viajar sem a companhia do marido, "ocupado nos negócios". Há casos de mulheres casadas que vivem "vida de solteira", por mais que declarem que continuam "casadíssimas".

Enquanto isso, no terreno pantanoso da "cultura" popularesca, há mulheres-objeto que escondem sua vida de casadas, "interrompidas" tendenciosamente porque, no mercado do erotismo "popular", há o princípio de que "ser solteiro vende mais". Há relatos de uma siliconada que inventou ter contraído uma dengue, que se curou mais rápido que o normal, trazendo desconfiança de que ela seria uma mulher casada e teria viajado para passar um fim de semana com o marido.

Nesse cenário um tanto louco, o que se nota é um processo de higienismo social, agravado sobretudo pela imagem depreciativa dos homens pobres que a imprensa "popular" e programas policialescos de TV transmitem, de maridos depravados a bandidos sanguinários.

É uma forma de criar instabilidades familiares, evitar a união de casais afins - em Salvador, a mídia representada pelas rádios FM chega mesmo a estimular moças pobres a rejeitar homens afins só pelo fato deles jogarem futebol nos domingos - e, portanto, evitar que se formem cidadãos ativos em estruturas familiares mais sólidas.nas classes populares.

É estarrecedor o contraste que se vê, numa família mais de elite, o padrão "comercial de margarina" com o marido e a mulher se comportando como meros amiguinhos diante do filho, com uma estabilidade forçada pelas conveniências sociais, pelas relações de amigos, pelos negócios, pela ascensão profissional da esposa, etc.

Enquanto isso, a criança pobre do sexo masculino, quando encontra tempo para brincar, não pode ver as crianças de classes mais abastadas saindo, cada uma ou cada mais delas, com o pai, porque sairá chorando. A falta do convívio do pai traz tristeza ao menino, que, diante do ambiente sobrecarregado e hostil em que vive, acaba virando machista ou criminoso até como uma forma de auto-defesa de uma formação masculina que não pôde aprender na vida familiar.

Isso dá margem a uma série de conflitos e desordens que contribuem para o aumento da violência nas classes populares, forçando os quadros de extermínio que, registrados no Censo do IBGE e de outras instituições que lidam com estatística, causam muita preocupação, em muitos casos sendo definido como uma não-assumida "limpeza social" nas populações pobres.

A projeção das "solteiras" siliconadas também desenvolve um sentimento misândrico nas jovens pobres que acabam também contribuindo para a "limpeza" noutro sentido, com a drástica redução demográfica dos pobres, não como um meio de equilíbrio populacional, mas como um meio de fazer certas etnias "desaparecerem" na sociedade brasileira.

Esse dado sombrio revela o que está por trás do "acordo" entre machismo e feminismo que faz com que mulheres emancipadas tenham que ter marido e mulheres-objetos não, fazendo com que, tanto em um caso quanto em outro, a supremacia masculina sempre leve alguma vantagem, ainda que simbólica, no caso do "popular".

E cria um jogo de interesses tão voraz que, no mundo pantanoso em que vivemos, há nas elites mulheres casadas que levam "vida de solteira", enquanto, na "cultura" popularesca, há mulheres bem casadas e felizes com seus maridos que, em nome da fama, precisam fazer o papel de "solteironas convictas", condição que o mercado erótico impõe para estimular o sucesso dos objetos sexuais.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Livro de Chico Xavier e "André Luiz" mostra conceito roustanguista de Zoantropia


Um livro de Francisco Cândido Xavier mostra claramente um conceito trazido pela obra Os Quatro Evangelhos, de Jean-Baptiste Roustaing. O livro Libertação, de 1949, da "série André Luiz", que narra supostas colônias espirituais e supostos umbrais, a partir do drama de uma rebelião de "espíritos das trevas" reunidos numa entidade chamada "Dragões do Mal", é descrita uma punição já trazida pela obra de Roustaing. A obra é uma espécie de ficção científica de qualidade menor.

Ela consiste na Zoantropia, descrita no livro, não exatamente com esta palavra, mas pela descrição de formas animalescas que espíritos condenados incorporavam em seu perispírito, como o caso de uma senhora que em encarnação precedente cometeu duplo homicídio e depois suicídio. As formas animalescas foram descritas de forma repugnante, como na alegoria de demônios nas antigas ilustrações medievais. Vejam um trecho, extraído da página 84, no capítulo 12:

"Impressionado com a lição que recebíamos, contemplei a paisagem ao redor, cotejando-a com a da câmara em que Margarida experimentava aflição e tortura. Os impedimentos aqui eram muito mais difíceis de vencer. O cubículo transbordava imundície. Nas celas contíguas, entidades de repugnante aspecto se arrastavam a esmo. Mostravam algumas características animalescas, de pasmar. A atmosfera para nós se fizera sufocante, saturada de nuvens de substâncias escuras, formadas pelos pensamentos em desequilíbrio de encarnados e desencarnados que perambulavam no local, em deplorável posição.

Confrontando as situações, monologava mentalmente: por que motivo singular não operara nosso orientador no quarto da simpática senhora, que amava por filha espiritual, para entregar-se, ali, sem reservas, ao trabalho de assistência cristã? Vendo-lhe, porém, a solicitude na solução do problema
afetivo que atormentava o adversário, entendi, pouco a pouco, através da ação do mentor magnânimo, a beleza emocionante e sublime do ensinamento evangélico: 'Ama o teu inimigo, ora por aqueles que te perseguem e caluniam, perdoa setenta vezes sete'".

Note-se sempre o mesmo apelo "científico" que se encerra com um apelo igrejista. É praxe no "espiritismo" brasileiro: há, seja em trechos de livros, em livros inteiros ou em palestras e artigos, toda uma verborragia que evoca tendenciosamente fatos e personagens científicos, ou descrições supostamente científicas, e no final há sempre apelos igrejeiros de "fraternidade", "perdão" e "caridade", dentro de uma perspectiva análoga à da Igreja Católica.

É, portanto, um trecho que revela o quanto a obra é inspirada em Os Quatro Evangelhos de Roustaing, pela forma com que se fala das condenações humanas - Kardec refutava o o punitivismo na natureza das reencarnações - e pelo igrejismo em que se recorre para a "salvação humana".

SUPOSTO ESPÍRITO EM FORMA ANIMALESCA, QUE O ANTIGO ASSISTENTE DE WALDO VIEIRA, WAGNER BORGES, DISSE TER REGISTRADO EM CÂMERA.

COLABORAÇÃO DE WALDO VIEIRA

Nas obras de Chico Xavier, observa-se certas "parcerias" que desmontam a veracidade mediúnica. No caso de "Humberto de Campos / Irmão X", observa-se que os livros foram quase todos escritos, a quatro mãos, por Chico Xavier e Antônio Wantuil de Freitas, presidente da FEB.

No caso de "André Luiz", o que vemos é que, depois dos primeiros trabalhos terem sido feitos por Chico e Wantuil, sendo Nosso Lar embasado na tradução em português, já publicada na FEB, de A Vida Além do Véu (Life Beyond the Veil), do reverendo inglês George Vale Owen, a colaboração de Waldo Vieira, antes possivelmente limitada a sugestões, tornou-se mais tarde co-autoral.

Observa-se que George V. Owen publicou A Vida Além do Véu em mais de um volume, o que indica uma certa semelhança com o livro de Roustaing. Suposta psicografia, trazida não por um católico mas por um protestante, também revela uma interpretação da temática espírita através de paixões religiosas terrenas.

Neste caso, Chico Xavier preferiu fazer diferente, colocando suas "séries" e outros livros atribuídos a outros autores espirituais. Consta-se que, dos anos 1970 até o fim, as atividades bibliográficas de Chico Xavier tenham sido mais raras e que boa parte dos livros, dessa época, que levam o seu nome não tiveram sua participação em uma única vírgula, sendo apenas trabalhos feitos por editores da FEB nos quais Chico apenas avaliava rapidamente e aprovava.

Voltando ao caso "André Luiz", Libertação já mostra Waldo Vieira como colaborador, com o tema da Zoantropia mais tarde inserido na Conscienciologia e Projeciologia, seita criada por Waldo depois que rompeu com Chico Xavier, devido ao escândalo da fraude de Otília Diogo, a ilusionista que se passava pela irmã Josefa e outros supostos espíritos materializados. É provável que o livro ...E a Vida Continua já não tenha os dedos de Waldo nem Wantuil (já doente), mas de Chico e editores da FEB.

Um ex-colaborador de Waldo Vieira, o "médium" carioca Wagner Borges, havia filmado um suposto espírito tomado de Zoantropia, ou seja, apresentando formas animalescas, o que pode dar indícios de fraude. Não há uma tese científica que pode indicar tal existência e mesmo abordagens ufológicas, quando atribuem tais seres a "extra-terrestres", são ainda bastante especulativas.

Não é impossível, no entanto, que esse "ser" seja, na verdade, alguém fantasiado - usando alguma máscara nos olhos com efeito fosforescente e usando umas asas de fantasia carnavalesca - , que corre num cenário noturno de relva diante de filmagens de baixa resolução. Com a "escola" que se tem do "espiritismo" deturpador e fraudulento, tudo se pode esperar em mentiras e armações.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

"Espiritismo" e o turismo das belas palavras


O "espírita", sabemos, costuma dizer que "ninguém nasceu para fazer turismo". Fazem apologia ao sofrimento humano sob a desculpa de que "são desafios e aprendizados", o que, a princípio, nada tem de mais, mas o juízo de valor dos "espíritas" diante do "remédio além da dose" tomado pelos sofredores revela a hipocrisia que este movimento religioso faz da desgraça humana.

Em primeiro lugar, os apelos que várias páginas "espíritas" fazem para os sofredores aguentarem sofrimentos, mudarem desejos, abrirem mão do máximo de necessidades, fazendo concessões a cada desgraça acumulada a ponto de perderem sua individualidade e seu prazer na vida, revelam uma propaganda subliminar do governo Michel Temer e seu pacote macabro de retrocessos. Em outras palavras, o "movimento espírita" APOIA o governo Temer.

Em segundo lugar, esses apelos, aceitos por causa do aparato de filantropia de seus ideólogos - o que lhes garante aparente bondade, garantindo-lhes a posse da verdade por causa desse status de prestígio religioso - , garantem as festas nas quais os palestrantes "espíritas" são premiados com medalhas e condecorações, títulos de "cidadãos municipais ou nacionais" aqui ou ali, em eventos supostamente espíritas no exterior ou em homenagens de aristocratas ou autoridades políticas.

O balé de belas palavras que praticamente se reduziu o "movimento espírita", mesmo com amargos conselhos para "aguentar o sofrimento" - nos quais seus ideólogos apelam para as pessoas "suportarem tudo com fé e esperança" - faz o seu turismo mundo afora, seguindo o rastro do verborrágico Divaldo Franco.

Divaldo chegou mesmo a fazer pior do que os desastres já cometidos por Francisco Cândido Xavier. Se Chico Xavier cometeu barbaridades para garantir a deturpação espírita, a ponto do professor lionês ser deixado de lado ou virar um boneco de brinquedo ao sabor dos deturpadores de plantão.

Isso porque, se Chico Xavier cometeu pastiches e plágios literários, participou de fraudes de materialização e superexpôs as tragédias de famílias anônimas que perderam entes queridos, além de inserir ideias anti-kardecianas em seus livros, Divaldo corroborou com isso e espalhou as ideias contrárias aos postulados espíritas originais no exterior, através de suas aristocráticas palestras.

Difícil dizer qual é o mais hipócrita, se Chico ou Divaldo, mas a verdade é que ambos têm motivos diferentes de hipocrisia, mas igualmente gravíssimos. Divaldo Franco deturpou o Espiritismo de maneira tão irresponsável quanto Chico Xavier, mas sobre o anti-médium baiano lhe pesam dois agravantes: o de espalhar as mistificações para o mundo e fingir que é um autêntico seguidor de Kardec, coisa que Chico até tentou fazer, mas sem muita verossimilhança.

A coisa é tão grave e preocupante que Divaldo espalha como "fenômeno humanista" uma farsa chamada "crianças-índigo", criada por um casal de desocupados para ganhar dinheiro com esoterismo barato, o que rendeu tanto sucesso que isso subiu na cabeça dos dois cônjuges que, entrando em conflito de interesses por causa da ganância de cada um, resolveram se divorciar. Se as "crianças-índigo" ou "crianças-cristais" separaram um casal, elas iriam unir a humanidade planetária?

É muito fácil dizer aos outros para aguentarem o sofrimento, que ninguém nasceu para fazer turismo, que ninguém está aqui para passeio etc. E os "espíritas"? Eles ficam fazendo passeio, turismo, mostrando seu maravilhoso balé de palavras bonitas, recebendo medalhas, acumulando tesouros na Terra, se envaidecendo com o carinho dos ricos e dos poderosos, enquanto espalham a desonestidade doutrinária de um "kardecismo" que entra em colisão com as lições originais de Allan Kardec.

E isso é feito sob o pretexto da "caridade", da "bondade", do "pão dos pobres", do "abrigo aos necessitados" etc. Só que essa filantropia é muito pouca e inexpressiva, e não é por falta de recursos. Festejam-se demais os "filantropos espíritas" pela pouca ajuda que fazem, extremamente medíocre, inócua e inexpressiva para reputações tão robustas na aparência, tão frágeis e mesquinhas na essência.

Essa "caridade" é apenas fachada para as deturpações que os astros do "movimento espírita" fazem no Brasil e no mundo. Uma "bondade" que mais serve para vitrine do "benfeitor" dotado de prestígio religioso. Este fica viajando pelo mundo sob a desculpa de estar "doando a mensagem de paz e fraternidade", quando na verdade o que ele faz é empastelar e desmoralizar o legado kardeciano, colocando ideias que nada têm a ver para iludir as pessoas. E isso não é bom.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Se existe a pós-verdade, também existe a pós-ética?

E SE ESSES QUADROS FALSOS TIVESSEM SIDO FEITOS "PELO PÃO DOS POBRES"? A POLÍCIA OS APREENDERIA?

Um dos fenômenos mais preocupantes da humanidade, nos últimos tempos, é a pós-verdade, que é a veiculação de mentiras ou meias-verdades que, dependendo da divulgação repetida e do status do emissor de cada mensagem, passam a ser consideradas "verdades indiscutíveis", a ponto de qualquer contestação, mesmo com provas lógicas e verídicas, se torna difícil de abalá-las.

A pós-verdade chamou a atenção quando consultas populares de todo tipo resultaram em vitórias inusitadas e preocupantes. O Brexit, opção de saída da Grã-Bretanha da União Europeia, venceu o Bristay (opção de permanência), surpreendendo a todos (e isso depois de um neo-fascista ter assassinado uma parlamentar favorável ao Bristay), como também a vitória do reacionário Donald Trump para a presidência dos EUA.

Tudo isso foi motivado por uma série de boatos ou meias-verdades, como alegar que a rival de Trump e opção do presidente Barack Obama para sua sucessão, a democrata Hillary Clinton, era "agente do FBI", em referência ao famoso birô de informações secretas dos Estados Unidos.

No Brasil, a pós-verdade é sustentada sobretudo pela atuação tendenciosa de setores do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal, das quais se destacam o juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, ambos do Paraná, que provocaram a saída da presidenta Dilma Rousseff, uma "culpada sem culpa", devido à campanha difamatória da mídia dominante e a ação corporativista do Congresso Nacional, que votou o impeachment.

A pós-verdade é motivada sobretudo pelo status quo que garante a ilusão de imunidade para certos agentes sociais, aos quais mesmo os graves defeitos permitem condescendência e impunidade. Entre eles, o Poder Judiciário, o mercado financeiro e os ídolos religiosos. E também o PSDB. No Brasil, ser "espírita" e pertencer ao PSDB garantem impunidade, só estão sujeitos a punição os "peixes pequenos".

No caso do "espiritismo", o que se vê é uma blindagem preocupante, que faz com que famosos casos de pastiches literários e fraudes de pinturas mediúnicas, permaneçam impunes e até aceitos pela sociedade, em que pese o alto grau de gravidade que tais falsificações sugerem.

A pós-verdade já investe na legitimação dessas obras sob a desculpa esfarrapada de que elas "ao desafiar a lógica das pessoas, corrompe seus níveis de percepção fazendo parecer uma mudança de estilo ou alguma contradição à obra terrena, mas evocam uma diferença que nós não estamos preparados a entender".

Sacaram? A falácia é muito linda. É muito fácil falar isso ou em coisas como o "homem-espírito", justificar diferenças aberrantes de estilo ou nuances pessoais porque na suposta mensagem espiritual o emissor da mesma "doou seu estilo para a caridade" ou "passou a falar da linguagem universal do amor". Mas tais falácias são muito mais um alerta do que algo confortador.

O caso Humberto de Campos é aberrante. As obras supostamente espirituais que levam seu nome, trazidas por Francisco Cândido Xavier, se comprovaram grandes fraudes, pastiches literários extremamente grotescos. Tudo é diferente no "Humberto de Campos espírito", mas usa-se a falácia das "mensagens de amor" e das "lições de vida" para forçar sua legitimação através da exploração das fraquezas emocionais das pessoas.

Chico Xavier tornou-se o maior caso de impunidade existente em toda a História do Brasil. Como um católico ortodoxo, mas de práticas paranormais, além de ser um poeta e escritor mediano que, imitando os estilos de autores mortos, dizia evocar seus espíritos, tornou-se um arrivista bem-sucedido a ponto de ser considerado quase um "deus" por seus fanáticos seguidores, isso mostra o quanto a pós-verdade pode fazer na fabricação de consensos e na sustentação de mitos e ídolos.

Ele criou uma escola ruim de "mentiunidade" que observamos fraudes até na pictopsicografia, quando pretensos médiuns de pintura lançam obras atribuídas a diversos espíritos de pintores, que viveram épocas diferentes uns dos outros, como se fosse fácil chamar todos eles para um mesmo evento. Se é difícil chamarmos todos os colegas da escola primária para, trinta anos depois, todos se reencontrarem, quanto mais os pintores do além que viveram tempos muito diferente.

As pinturas destoam dos estilos pessoais de cada pintor falecido a quem se atribui autoria. Em compensação, os quadros de "diferentes autores espirituais" apresentam uma semelhança de estilo conforme o respectivo "médium", ou seja, ele deixa passar seu estilo pessoal nos mais diferentes quadros. O caso de José Medrado é ilustrativo e o "médium" baiano não mede escrúpulos para usar uma mesma caligrafia, a pessoal, para assinar os quadros atribuídos a "diferentes autores espirituais".

Isso é grave, mas o mais grave é a impunidade que isso representa. Se alguém tem um prestígio social e um considerável número de amigos, mantém uma aparente casa de caridade abrigando crianças pobres e velhinhos miseráveis e doentes, ele pode criar falsas mensagens espirituais que nunca estará sujeito a qualquer tipo de punição ou suspeita.

Ele pode até mesmo usurpar um nome carismático como o do ator Domingos Montagner, se aproveitando do sucesso que ele deixou em vida, e criar mensagens apócrifas que tenham sempre recados "positivos" e apelos religiosos. Ninguém mexe, e mesmo a menor suspeita é dissolvida pela carteirada religiosa.

Chico Xavier, um espertalhão por trás da aparência de "caipira frágil", garantiu sua impunidade no caso Humberto de Campos quando se aproveitou da dor saudosa da mãe do escritor, Ana de Campos Veras, escrevendo mensagens gentis de "palavras bonitas", para arrancar comoção da pobre senhora.

Não bastasse isso, Chico Xavier também seduziu o cético Humberto de Campos, convidando-o para uma "doutrinária" num "centro espírita" em Uberaba e lhe mostrou atividades de "caridade paliativa" - um fenômeno que ainda será largamente questionado, por beneficiar mais o benfeitor do que o auxiliado - , como mulheres cozinhando sopinha e um idoso doente de comportamento abobalhado.

A própria "caridade paliativa" é uma pós-verdade. Uma "bondade" que mais serve para o êxtase religioso das pessoas do que para realmente ajudar as pessoas. O nível de ajuda ao próximo, em termos quantitativos e qualitativos, é ínfimo e inexpressivo, e a estranheza surge quando a "bondade" serve mais para dar cartaz ao "benfeitor" do que para realizar, de fato, alguma grande ajuda.

No "espiritismo" deturpador e mistificador que temos, indagamos se, além da pós-verdade, teremos também a pós-ética? Pessoas dotadas de status quo elevado podem se sair ilesos de toda fraude ou equívoco cometido? Já não basta a impunidade judicial a crimes cometidos por pessoas ricas, a coisa já começa a ir ao ponto da impunidade social, quando o criminoso, impune pela Justiça, passa também a ser querido pela sociedade.

Isso mostra o quadro preocupante que se vê no Brasil, que um dia uma parcela deslumbrada da sociedade sonhou em ser a nação dominante no planeta. Com os retrocessos ocorridos, de maneira sucessiva e aberrante, o país, que nunca se tornaria o tão sonhado "coração do mundo" - até porque essa alegação possui conotação fascista - , perderá o tão prometido destaque na medida em que volta a ser um mero "quintal dos EUA". O que é apostar no status quo...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Por que o "espiritismo" brasileiro virou uma religião ultraconservadora?

O REACIONÁRIO PADRE JESUÍTA MANUEL DA NÓBREGA FOI ADOTADO PELO "MOVIMENTO ESPÍRITA" SOB O CODINOME EMMANUEL.

O "espiritismo" brasileiro vende uma falsa imagem de doutrina progressista, comprometida com o equilíbrio de ciência, filosofia e moral, mas mostra sérias e gravíssimas contradições que a colocam como uma das religiões mais retrógradas existentes no Brasil, ao lado de tendências protestantes da linha neopentecostal (pentecostais com maior apelo midiático).

Que esperássemos que o "espiritismo" adotasse postura com algum teor de conservadorismo, isso é verdade. Mas não imaginávamos que, mesmo na fase dúbia, em que o "movimento espírita" lançava mão de todo tipo de dissimulação para que seu igrejismo fosse aceito até por ateus, socialistas e kardecianos autênticos, essa postura se tornasse ainda mais acentuada.

Muitos ainda não conseguem entender por que Francisco Cândido Xavier havia sido defensor da ditadura militar. Alguns ingênuos acham que ele foi induzido para tal, ou que era ingênuo em acreditar que a ditadura salvasse o país etc.

Os chiquistas costumam se contradizer, dando responsabilidades irreais a Chico Xavier - como os atributos de "filósofo" e "cientista" - quando elas são agradáveis, mas, quando as responsabilidades são reais e desagradáveis, como defender a ditadura militar e apoiar a fraude da farsante Otília Diogo (quando Chico demonstrava animação nos bastidores, acompanhando a farsa de perto), eles tentam livrar a culpa com argumentos confusos e sem a menor coerência.

Desde quando a Federação "Espírita" Brasileira adotou o roustanguismo, nota-se a tendência conservadora de descartar o conteúdo iluminista do cientificismo de Allan Kardec, considerado "muito complicado", e deu-se preferência ao religiosismo de Jean-Baptiste Roustaing, cheio de fantasias, mas com ideias condizentes às tradições católicas vigentes no Brasil.

Aliás, ocorreu uma coisa curiosa. Enquanto a Igreja Católica, mesmo dentro de seus limites ideológicos, tentava se reformular a partir do século XIX, o "espiritismo" recuava para ser uma versão repaginada do Catolicismo jesuíta português, de conteúdo medieval, tamanha a evocação de espíritos jesuítas que depois se deu nas "casas espíritas".

E isso se tornou mais intenso quando Chico Xavier revelou conversar não só com o espírito da falecida mãe, Maria João de Deus, como também com o espírito de um jesuíta, o padre Manuel da Nóbrega, rebatizado Emmanuel.

Chico Xavier personificava o caipira ultraconservador, como é típico nas cidades do interior do país. Católico beato e ortodoxo, adorador de imagens de santos (sobretudo Nossa Senhora da Abadia), Xavier só diferia pela paranormalidade, mas nunca foi alguém que possa ser digno de ser considerado progressista, moderno ou futurista. Nunca.

E como no Brasil existe tanta dissimulação de discurso, com pessoas fazendo ou prometendo fazer uma coisa e praticam outra diferente e oposta, o "espiritismo", sobretudo na fase dúbia, iniciada em meados dos anos 1970, após o fim da era Wantuil de Freitas, passou a se vender como "doutrina futurista", promovendo uma falsa imagem de movimento progressista que só dissimulava seu igrejismo entusiasmado.

Nesta fase dúbia, o "espiritismo" enfatizava não mais o alto clero da FEB, mais assumidamente roustanguista, mas as federações regionais, que adotam um roustanguismo mais enrustido, adulando formalmente Allan Kardec. A fase dúbia foi o auge de Chico Xavier e a ascensão de Divaldo Franco, deturpadores do legado kardeciano que fingiram apoiar a recuperação das bases espíritas originais.

A fase dúbia tem uma fachada supostamente moderna, progressista e futurista. Tentou cooptar até mesmo ateus e esquerdistas. Mas escondia os mesmos postulados igrejeiros do roustanguismo, e os dissimulava com falsas citações de assuntos e personalidades científicos.

Misturando alhos com bugalhos - prática muito comum no Brasil - a fase dúbia do "espiritismo" brasileiro misturava conceitos deturpados trazidos por Chico Xavier e Divaldo Franco com ideias corretamente trazidas por Allan Kardec, transformando os postulados "espíritas" brasileiros num verdadeiro engodo.

Isso não impede que conceitos conservadores sejam difundidos. Chico Xavier sempre foi adepto da Teologia do Sofrimento, a mais medieval das correntes católicas que fazia apologia das desgraças humanas como "caminho para as bênçãos". "Sofra sem mostrar sofrimento",dizia Chico com suas palavras, sempre aconselhando as pessoas a "sofrer sem queixumes", uma prova explícita de sua ligação com a Teologia do Sofrimento, também apoiada por Madre Teresa de Calcutá.

Isso já dá margem a conceitos ultraconservadores que aos poucos foram crescendo, na medida em que a retomada conservadora tornou-se possível tirar os "espíritas" do armário e deixar de lado a atitude "duas caras" de bancar ao mesmo tempo progressista e científico e conservador e igrejeiro.

Os juízos de valor dos "espíritas" diante das desgraças humanas, a propaganda conservadora que Chico Xavier representava com suas mensagens e com a exploração de tragédias familiares - que foram prato cheio para o sensacionalismo da mídia - , se destacavam de tal forma que o suposto caráter progressista não passava de um rótulo que não colava e saía fácil do frasco "espírita".

Apenas a suposta filantropia, na verdade a "caridade paliativa" que serve mais para impressionar as massas do que para ajudar os necessitados, já arrancava, e mesmo assim de maneira complacente, o apoio de ateus e esquerdistas. Mas isso não justificava, afinal, o fato de Chico Xavier ter defendido a ditadura militar, esculhambado operários e camponeses, e, antes, ofendido as vítimas da tragédia de um circo, o faz claramente um cidadão profundamente conservador.

Além disso, Chico Xavier tornou-se mito nos últimos anos por causa da ajuda da Rede Globo, que criou um mito "limpo" de pretenso filantropo, a exemplo do que Malcolm Muggeridge fez de Madre Teresa. Um símbolo de um padrão de "bondade" que não ameaça as elites e é narrado pelo discurso midiático como se fosse conto de fadas, o que arranca fácil lágrimas de quem sofre fraquezas emocionais extremas.

A partir de Chico Xavier e de um verborrágico Divaldo Franco - ele também uma personificação de um paradigma conservador, de velho professor catedrático dos anos 1930-1940 que simboliza um pretenso saber hierarquizado e pomposo - , o "espiritismo" desenvolveu um ideário conservador que, aos poucos, tornou-se ainda mais explícito, o que pode fazer a fase dúbia, se não desaparecer, pelo menos perder o destaque em prol de uma retomada neo-roustanguista no "movimento espírita".

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Seria a "moral espírita" uma moral elitista?


Embora o "espiritismo", em tese, dê mais valor a dois mandamentos moisaicos - "Amai a Deus sobre todas as coisas" e "Amai o próximo como a si mesmo" - , observa-se dois outros mandamentos, próprios da doutrina de raiz roustanguista, bem mais valorizados por seus palestrantes: "Ao sofredor se deve aceitar as desgraças impostas" e "o sofredor deve perdoar seu algoz nos seus abusos".

Vinculado à Teologia do Sofrimento, corrente medieval da Igreja Católica, o "movimento espírita" tem motivos históricos para isso. A doutrina tem raiz roustanguista que, por seu ranço católico rigoroso, se baseou em Os Quatro Evangelhos para restaurar elementos do Catolicismo jesuíta português, que mantém muitas abordagens medievais, para compor a doutrina que de "kardecista" só tem o nome.

Em certos aspectos, o "espiritismo" brasileiro é mais católico do que o próprio Catolicismo, e, apesar da fachada "futurista" que toma emprestado o aparato da Doutrina Espírita original, o "movimento espírita" carrega um conteúdo ideológico mais próximo do Catolicismo medieval, como se a doutrina da FEB tivesse aproveitado do "espólio" descartado pelos católicos no final do século XIX.

Daí o acolhimento fácil a um beato católico ortodoxo, Francisco Cândido Xavier, cuja única diferente era de ter sido um paranormal. Um rezador de terços, adorador de imagens de santos, moralista retrógrado, caipira ultraconservador que adorava circo e que, por isso, tomou emprestado suas atividades ilusionistas para "anabolizar" uma paranormalidade que existia, mas era limitada: dizia conversar com os espíritos da mãe e de um antigo padre jesuíta muito conhecido de nossa História.

Chico Xavier virou então um mito do "movimento espírita" e, com isso, o anti-médium mineiro - o termo "anti-médium" se refere à recusa do "médium" se manter numa função intermediária, devido ao "culto à personalidade" - inseriu vários dogmas e ritos católicos, dos quais a Teologia do Sofrimento, corrente que toma o sofrimento como "caminho mais curto para se chegar a Deus".

Ultimamente, as pregações "espíritas" se dedicam a enfatizar a Teologia do Sofrimento, em que até um tal "poeta alegre" de Portugal se torna um animado propagandista. A ideia de dizer que a pessoa é beneficiada pelos prejuízos revela, portanto, muito mais do que uma moral conservadora que faz apologia à opressão, mas também uma moral elitista que parece legitimar as desigualdades sociais.

Sim, porque vejamos a quem se dirige os apelos de "aceitação do sofrimento" e de "perdão ao agressor", criando um espetáculo de "misericórdia" que aparece muito lindo e muito comovente, mas estabelece posições desiguais na justiça humana, desigualdades aceitas sob a desculpa de que "as coisas serão melhores na vida espiritual".

Quando se fala na "aceitação do sofrimento", se dirige ao sofredor, ao oprimido, ao desafortunado. Se um injustiçado morreu, atribui-se um juízo de valor de "pagamento de crime da vida passada". Note-se que esse discurso sempre se dá para as vítimas, e não para os algozes.

Aos algozes, se dirige outro discurso. "Perdõe, sempre e incondicionalmente", revela a "moral espírita", num discurso aparentemente belo, mas de uma complacência estranha, que contrasta quando, do lado do sofredor, se mantém uma exigência severa de aceitar o "remédio amargo" mesmo quando está acima da dose necessária, causando os efeitos colaterais.

No caso da tragédia de Bophal, na Índia, quando um vazamento de gases tóxicos de uma usina da britânica Union Carbide, em 1984, deixou vários mortos, a "santa" Madre Teresa de Calcutá, quando foi perguntada sobre o caso, ela fez um pedido às pessoas para perdoar os algozes, no caso os empresários britânicos, cujo descaso propiciou o acidente. "Perdoe, perdoe", disse Madre Teresa, com um tom moralista e antipático, lembrando o "nosso" Chico Xavier.

O "espiritismo" tem até um princípio, nunca assumido no discurso, que é o do "fiado espírita". É uma crença de que os algozes têm uma encarnação inteira e relativamente longa para cometer abusos e crimes dos quais só sofrerão os efeitos drásticos em encarnações posteriores. É como se, numa promoção, fosse permitido a alguém praticar todo tipo de mal, sem sofrer consequências danosas para si, só tendo que "pagar pelo que fez" a partir da próxima encarnação.

Isso mostra o quanto a "moral espírita" é uma moral elitista e o caso da pediatra de Rondonópolis, Mato Grosso do Sul, explicitou essa postura. E ela não é um caso isolado, pois até os "espíritas" mais "responsáveis" têm o mesmo juízo de valor severo, cruel e punitivo,

É só ver o teor das "mensagens positivas" que pedem para as pessoas "aceitarem o sofrimento". Apenas difere na sua forma, mas a essência não difere da declaração da pediatra que não quis atender uma menina vítima de estupro porque ela "estava pagando pelo que fez em vidas passadas" e se recusava a atender alguém com "problemas espirituais".

Não é diferente. De um lado, diz-se que a vítima é "culpada" e está "pagando pelo que fez". De outro, o palestrante que, com um tom paternal, diz para a pessoa "aceitar o sofrimento", porque "o que é uma vida de desgraças diante das bênçãos da eternidade?", como se fosse moleza aguentar infortúnios que esmagam a alma durante anos sucessivos. Não são os palestrantes "espíritas" a sofrer desgraças...

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

"Espiritismo" brasileiro é o Catolicismo medieval redivivo


Poucos percebem, mas o Brasil tem a mania de absorver novidades sob o filtro da corrente decadente ou obsoleta. Sempre que alguma coisa nova surgindo, seja dentro do Brasil ou vinda de fora, há sempre uma "adaptação" que não raro compromete a essência inovadora original, praticamente se moldando aos valores conservadores que deveriam ter sido rompidos, mas predominam no "novo" fenômeno.

Há o caso, na História do Brasil, do Iluminismo que muito tardiamente foi inserido no país em sua plenitude. No calor dos movimentos iluministas, sua assimilação foi parcial e condicionada, e boa parte de seus adeptos ainda mantinha preconceitos escravistas bastante firmes. Alguns "iluministas" brasileiros eram também senhores de engenho ou, de certa forma, exploradores de escravos.

Nos últimos tempos, temos um feminismo duplamente filtrado pelo conservadorismo machista. Cria-se um maniqueísmo estranho em que dois estereótipos machistas da mulher, a "escrava do lar" (às vezes pejorativamente apelidada de "rainha do lar") e a mulher-objeto, esta errônea mas tendenciosamente definida como "feminista".

Isso porque existe uma manobra do establishment machista no qual a mulher que aceita fazer o papel de objeto sexual - como se observa nas siliconadas em geral ou em "musas" e intérpretes do "funk" e do "pagodão baiano" - está dispensada de viver sob o vínculo conjugal de um homem, já que a mulher, no caso, cumpre direitinho o papel que o machismo lhe reserva, por mais que ela crie arremedo de ativismo feminista.

Já a mulher que recusa a cumprir esse papel de objeto sexual, adotando uma postura clean, se associando a bons referenciais culturais (sem aderir ao "populacho" cultural desenvolvido pela mídia comercial) e procurando ter opinião própria para diversos assuntos, o "sistema" aconselha a essa mulher - que poderia ser solteirona em países como França, Bélgica e Suíça - a manter um vínculo conjugal com um homem, de preferência se casando com um empresário ou profissional liberal.

É a novidade do feminismo filtrada, por um lado ou por outro, pelo conservadorismo machista, que de duas formas tenta domar a emancipação feminina, levando em conta a "necessidade" da mulher obedecer paradigmas machistas. Se ela obedece, não precisa ter marido. Se não obedece, precisa se casar com um homem associado a uma função profissional de comando ou liderança.

Há muitos e muitos exemplos que fazem com que o Brasil sempre adie algum progresso social. Novidades só conseguem ser integralmente assimiladas muito tarde, e quando seu potencial de inovação se torna dissolvido com a rotina. A novidade sempre surge deturpada e, quando ela é moldada para se assemelhar à fonte original, ela já se tornou rotineira e óbvia.

É desta forma que a novidade trazida por Allan Kardec chegou ao Brasil. A Doutrina Espírita, pelo caráter inovador que representou entre 1857 e 1869, época em que o pedagogo francês produziu e divulgou ideias, foi filtrada pelos brasileiros, que se sentiram incomodados com os conhecimentos lógicos sofisticados da obra kardeciana.

MUDANÇAS NA IGREJA CATÓLICA

Tinha que haver um filtro, e por sorte dos conservadores é que o Catolicismo passava por mudanças no Brasil, e a herança jesuíta já havia sido superada com o fim das atividades da Companhia de Jesus ordenadas, ainda no século XVIII, pelo Marquês de Pombal, fruto de um programa austero de corte de investimentos para reparar os gravíssimos prejuízos do devastador terremoto seguido de tsunami que atingiu Lisboa em 1755.

Os adeptos do Catolicismo jesuíta português, de valores medievais, não aceitavam as transformações da Igreja Católica que, mesmo mantendo seus dogmas e ritos só descartados no século XX - como as missas rezadas em latim - , em parte aproveitaram a novidade do Espiritismo para arrumar um jeito de transformarem a nova doutrina numa dissidência católica.

As primeiras organizações "espíritas" tomaram como base a obra deturpada de Jean-Baptiste Roustaing, Os Quatro Evangelhos, aparentemente resultante de uma psicografia feita por uma médium francesa evocando os quatro evangelistas João, Mateus, Lucas e Marcos.

O roustanguismo tornou-se o DNA do "movimento espírita" que no Brasil aproveitou a novidade para inserir nele um povoado de personalidades jesuítas (mais tarde viria Emmanuel, o antigo Padre Nóbrega do período colonial) e conceitos igrejeiros, adaptando cada rito, dogma ou atividade católica à rotina "espírita". As igrejas viraram "centros espíritas", a água-benta virou "água fluidificada" e o confessionário virou "auxílio fraterno", e por aí vai.

É certo que, desde os primórdios da FEB, houve um esforço para abafar essa opção e fingir a fidelidade a Allan Kardec. Desde a fraudulenta "psicografia" com um pseudo-Kardec pedindo atenção à "revelação da revelação" (bandeira roustanguista) se usa o pedagogo francês para dissimular a deturpação de Roustaing, alvo de muita controvérsia.

Essa manobra teve seu auge quando veio a tendência dúbia, na década de 1970, quando um lobby de federações estaduais reagiu à cúpula centralizadora da FEB fingindo buscar recuperar as bases kardecianas. A tendência dúbia, na prática, foi o palanque de Divaldo Franco e o abrigo de Francisco Cândido Xavier.

Aliás, o caso de Chico Xavier é ilustrativo. Ele era associado a uma fase em que o roustanguismo era explícito, mas não tão entusiasmado quanto antes. Chico era católico e tornou-se um mito claramente igrejeiro, quando ele não escondia que era católico rezador de terços e adorador de imagens de santos.

Mas, na tendência dúbia, não bastasse o renascimento do mito de Chico Xavier como "filantropo" e "carteiro de Deus", montado habilidosamente com a ajuda da Rede Globo (logo ela!), houve uma corrente que queria reembalar e vender o mito do anti-médium mineiro como um suposto "cientista", "filósofo" e "profeta", através da profecia da "data-limite".

A corrente representada por Juliano Pozzati, Geraldo Lemos Neto e outros é a radicalização da tendência dúbia, na qual se capricha no simulacro do "kardecismo mais autêntico", criando arremedos de ciência e filosofia encharcados de misticismo ocultista. Nela Chico Xavier é transformado em "cientista" e "filósofo" a partir de uma suposta previsão sobre as transformações humanas em 2019, uma espécie de pastiche de Nostradamus.

Mas como a tendência dúbia virou alvo de críticas severas, já que a promessa de recuperação das bases kardecianas não passou de conversa para boi dormir, mantendo a mesma desonestidade doutrinária de antes, o "movimento espírita" pode entrar numa nova fase, diante do contexto de retomada conservadora.

O "movimento espírita", na fase dúbia, oficialmente denominada "kardecismo autêntico" (uma "fidelidade" prometida a Kardec, mas nunca cumprida), caiu em inúmeras contradições. Do pretenso cientificismo de Pozzari, Lemos Neto e companhia à devoção milagreira de Chico Xavier e do "curandeiro" João de Deus, o "espiritismo" brasileiro tornou-se a religião com maior número de contradições e maior gravidade das mesmas, entre as religiões existentes.

Ao mesmo tempo em que havia falsas críticas à "vaticanização do Espiritismo", como em Alamar Régis Carvalho, havia também sutis evocações à medieval Teologia do Sofrimento, não só trazida por Chico Xavier mas também em textos e palestras de Richard Simonetti e Orson Peter Carrara. Já o baiano José Medrado parece estar inclinado à Teologia da Prosperidade, bandeira neopentecostal e voltada aos princípios da meritocracia.

Fala-se num neo-roustanguismo que, evidentemente, não voltará a evocar Roustaing, mas seguirá um igrejismo semelhante a Os Quatro Evangelhos. E isso mostra o quanto o "espiritismo" nunca passou de um Catolicismo medieval redidivo, apenas "temperado" com suposta mediunidade e aparente homeopatia, como supostos diferenciais.

Esses supostos diferenciais, no fundo, não fizeram os "espíritas" diferirem muito dos católicos pois, fora as batinas, das igrejas luxuosas, da pompa e o "senta-e-levanta" das missas, o "espiritismo" brasileiro é igualzinho ao Catolicismo, sendo muitas vezes mais católico do que os próprios católicos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Plutocracia, pós-verdade e convulsões sociais


Na crise política em que vivemos, uma parábola ilustrativa explica a situação. Num galinheiro em crise, as galinhas acusam o galo de corrupto, desonesto e predador, sob influência de umas duas ou três galinhas que influenciam a opinião geral do lugar.

Com isso, as três galinhas usam todo tipo de persuasão para convencer as demais de que a raposa é o animal certo para comandar o galinheiro, devido a atribuições supostamente técnicas, éticas e moderadas. É certo que algumas galinhas mais radicais querem um lobo para comandar o galinheiro, mas a maioria já se sente satisfeita com o governo da raposa, considerada "mais equilibrada".

É isso que vivemos no país de hoje, em que as elites retomam o poder depois de uma crise econômica e político-institucional que teve um desfecho mais retrógrado. A onda ultraconservadora que há anos já existia na Internet, mesmo antes do Orkut e durante seus primórdios, ocupou o poder através de um sistema de argumentos de convencimento que adotam uma roupagem lógica ou são apoiados pelo apelo emocional da catarse.

O fenômeno da pós-verdade e a onda de ódio e reacionarismo na Internet, vinda de jovens de perfil mais "irreverente" e dos quais não se esperava posições tão reacionárias, revelam a convulsão social que atinge a sociedade nos últimos anos.

É assustador que os ataques de intolerância social diversos nas redes sociais ocorra em grande frequência e com uma força tirânica, na qual os internautas que lideram esses espetáculos de ofensas gratuitas de toda espécie se acham numa impunidade plena, a ponto de reagirem a qualquer advertência com o famoso "KKKKKKKKKK" (risadas, em internetês).

A adesão de pessoas de boa índole aos valentões da Internet fez o ovo da serpente crescer. No começo, pessoas de bem, só porque estavam numa mesma comunidade numa rede social que o valentão, aderiram a campanhas de cyberbullying, acreditando no jeito "divertido" do encrenqueiro.

Depois a coisa se evolui para uma acomodação bovina, uma ilusão de felicidade porque o governo Michel Temer representa supostas qualidades de superioridade técnica e moderação política. As pessoas vão para a praia felizes sem saber que, à menor ressaca, pessoas não poderão ser internadas em hospitais superlotados, e não se fala só de hospitais públicos, pois o êxodo para os hospitais privados já transforma vários deles em arremedos de hospitais públicos, tanto pelo desserviço quanto pela alta demanda.

Os retrocessos no Brasil ocorrem como se uma avalanche de neve caísse em alta velocidade sobre nosso país. A situação é de catástrofe, mas as pessoas vão para as praias e praças como se estivessem no Paraíso. Até quem fuma, como nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre, vive essa ilusão de que nada de ruim vai acontecer, quando a tragédia é só uma questão de minutos.

A propósito, num tempo de convulsões sociais e imprudência das próprias elites, ficamos perguntando se a tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria (RS), ocorrida há quatro anosa, não poderia também ocorrer em Trancoso ou Jurerê Internacional. A ilusão de invulnerabilidade e imunidade das elites, num tempo em que se radicalizam as medidas de exclusão social e as expressões de profundo preconceito elitista, também sinaliza um quadro perigoso para as elites.

A pós-verdade dos argumentos "objetivos", que sempre protegem aqueles que cometem abusos e assumem posturas sociais desumanas, em que o egoísmo é justificado com desculpas "altruístas" em linguagens "técnicas", "acadêmicas" ou falácias de roupagem "lógica" e motivação "pragmática" (como dizer que o "ruim" é melhor do que o "pior"), permite essa desigualdade de condições, em que os mais egoístas sempre triunfam.

E é mais assustador que o "espiritismo", cada vez mais inclinado à Teologia do Sofrimento - que pede para o sofredor aceitar desgraças e ainda perdoar o algoz pelos abusos cometidos - , consente com os abusos dos egoístas, e ainda cometendo o descaramento de definir o momento atual, de instabilidade social crônica e violenta, como uma "época de regeneração e libertação". Onde, "espíritas"?

É muito fácil criar um desfile de palavras bonitas, pedindo para as pessoas aceitarem o sofrimento, abrirem mão de suas necessidades, achar que viver uma encarnação de desgraças é o caminho para a "libertação na vida futura", enquanto se vê gente abusando e acumulando privilégios em longos anos, sem que os efeitos drásticos de sua ganância se voltem contra ela.

É um surto de posturas egoístas aqui e ali que se acham na liberdade de serem expressos, algo que talvez fizesse sentido nos tempos do nazi-fascismo. que assusta o Brasil. Ver que até uma religião, que se gaba em dizer que "promove a bondade" - uma "bondade" feita mais para impressionar as massas do que para ajudar os necessitados - , está conivente com o tenebroso momento atual do Brasil, é de causar muita aflição.

A mentira tomou o poder, protegendo o egoísmo. Alegações "técnicas" e "objetivas", motivações "pragmáticas", chantagens e humilhações nas redes sociais, tudo isso reflete o porquê de tantos retrocessos. Temos um Brasil que sempre foi ultraconservador e que agora perdeu vergonha de assumir seus preconceitos e perversidades.

Essas pessoas integram elites há tempos privilegiadas ou são seu suporte de apoio nas classes média e baixa. Essa "frente ampla" do retrocesso, capaz de defender a entrega das riquezas brasileiras para magnatas estrangeiros, empobrecendo o país, exerce uma supremacia que deveria ser contestada e combatida sem complacências.

Também temos que revelar que o status quo de juristas, políticos, celebridades, empresários, famosos, acadêmicos e até ídolos religiosos que hoje prevalecem no seu prestígio e poder, são pessoas de visão obsoleta e decadente da realidade.

De Sérgio Moro a Divaldo Franco, passando por Luciano Huck, Henrique Meirelles e Aécio Neves, essa plutocracia não representa o povo e também não representa os novos tempos, mas tão somente paradigmas antigos e interesses estratégicos de grupos sociais privilegiados, que tentaram resistir aos progressos do tempo, mas que, agora em declínio, precisam ser recuperados à força, para retomar a supremacia que nunca foi extinta de fato.

Mas o Brasil ainda terá um preço caro diante dessa arrancada forçada para trás, como numa marcha-a-ré em que o condutor acelera demais sem olhar para trás e acaba provocando um acidente com essa manobra tão arriscada. As convulsões sociais existem, mas elas se voltarão às elites, pelo apetite desmedido de retomar o poder.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Brasil e o moralismo seletivo de parte da sociedade


Pouco tempo atrás, faleceu, vítima de Acidente Vascular Cerebral, a ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva. Ela era mulher do ex-presidente Lula, uma das pessoas mais hostilizadas e desmoralizadas do país, ele mesmo atingido por boatos violentos e calúnias das mais assustadoras.

O que mais espanta é que, nas redes sociais, muita gente "comemorou" a morte de Marisa Letícia e há quem diga que o marido "está na fila". O ódio seletivo dos anti-petistas revela um país de moralismo tendencioso movido pelas conveniências.

Só para se ter uma ideia, essas mesmas pessoas não se indignam com os escândalos que acontecem no governo Michel Temer e que são de arrepiar os cabelos. A escolha do fluminense Wellington Moreira Franco para um cargo estratégico do atual governo, aparentemente "semelhante" à escolha de Lula como chefe da Casa Civil do governo Dilma Rousseff, não causou a menor revolta popular.

Quando Lula fazia cerimônia de posse para a Casa Civil - ato anulado depois por pressão do juiz Sérgio Moro e decisão de Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal - , criou-se um grande movimento de protesto organizado pelo Movimento Brasil Livre e outros grupos, pedindo a saída de Dilma Rousseff. Naquela época, a nomeação de Lula era vista como uma "afronta ao povo brasileiro", segundo a visão conservadora difundida na época.

Quanto à nomeação de Moreira Franco, falou-se que ele "já estava no governo" e que "era uma formalidade que vai fortalecer a República", ninguém reagiu, e a imprensa apenas deu lacônicas notícias dizendo que o ex-governador do Rio de Janeiro é citado várias vezes em delações da Operação Lava Jato. Os membros do governo Temer usaram como desculpa o fato de que "todos são delatados" e isso "não abala" o cenário político no poder.

Vivemos um período de seletividade ética. As pessoas que "comemoram" morte de petistas nas redes sociais são as mesmas que se arrepiam quando um assassino rico está gravemente doente. Isso segue um padrão moralista que chega a dar tratamentos diferentes a pessoas que, por exemplo, anunciam estar em estágios avançados de câncer.

Se o portador de câncer é um ator de teatro de vanguarda, a sociedade moralista se resigna e até reza para ele sair vivo desta, mas se ele morre, ela se conforma. Se o portador de câncer é um músico de heavy metal, a sociedade moralista já torce para ele "bater as botas" o mais rápido possível. Agora, se ele é um homem rico que cometeu um feminicídio conjugal e está impune, a sociedade moralista se sente ofendida, achando que o câncer é "mimimi" e o rapaz está "firme e forte".

É estranho isso. Afinal, não são pessoas rancorosas e vingativas que pressentem tragédias com feminicidas, que, pelo ato que cometeram - mataram namoradas ou esposas - , sabendo do risco de suas atitudes, são os mais vulneráveis a pressões emocionais e instintivas que é bem menos provável que pessoas assim pudessem viver mais do que 60 anos de idade. Muitos que alertam isso são amigos e pessoas que mais amam os referidos homens, e sabem que homicidas não são invulneráveis.

Pelo contrário, são pessoas que aceitam linchamento de pobres que furtam gado de fazenda, de vendedores ambulantes que, acidentalmente, derrubam o retrovisor de um carrão por um manuseio, sem querer, de sua caixa de produtos, é que acham "preconceituoso" dizer que um feminicida rico, por ter fumado demais ou por aparecer extremamente magro e abatido, pode falecer de repente (e, se falece, não ganha uma nota na imprensa, apesar de ser figura de grande repercussão).

Marisa Letícia, por ser esposa de um carismático líder político que contraria os interesses da mídia dominante, podia, segundo a sociedade moralista seletiva, morrer pelas pressões emocionais que ela não causou e que, a contragosto, contraiu pela campanha caluniosa da grande imprensa e da Internet. Mas um empresário, médico, jornalista ou promotor que assassinou a esposa por ciúmes não pode morrer pelas pressões emocionais causadas pelas consequências de seus próprios atos?

A seletividade moral também faz com que páginas virtuais de jornalismo investigativo e questionamento de valores estabelecidos, porém obsoletos e injustos, tenham mais risco de serem banidas do que páginas de calúnias e ofensas, cujos autores demonstram um claro rancor e se apropriam de maneira leviana e difamatória do material produzido pelas suas vítimas.

No Brasil se vê cada vez mais se multiplicarem casos de pessoas expressando pontos de vista elitistas dos mais ofensivos, algo inimaginável até três anos atrás. Pessoas que já defendem abertamente a redução de salários, a venda das riquezas brasileiras para empresas estrangeiras, o fim da educação pública - a educação gratuita seria um "privilégio" de escolas religiosas comprometidas com o projeto medieval Escola Sem Partido, das neopentecostais às "espíritas" e a privatização de tudo.

Claro que esse reacionarismo sempre esteve latente desde a década de 1990, por conta de retrocessos vividos pela grande mídia - da multiplicação de programas policialescos de TV até o reacionarismo gradual da emissora paulista 89 FM, que virou a "Jovem Pan do rock", sem falar da Rede Globo da revista Veja e outros - , e se intensificou nos tempos do Orkut, com sociopatas entrincheirados até em comunidades como o inócuo "Eu Odeio Acordar Cedo". Mas hoje o pessoal foi longe demais.

Até na busologia existe caso de blogue de calúnias, feito por um ex-funcionário de prefeitura da Baixada Fluminense frustrado de não ter seguido carreira política nem ter integrado o governo do então prefeito carioca Eduardo Paes. O infeliz havia resolvido criar sua página para, de etapa em etapa, desfazer seus desafetos um a um até sobrar ele para comandar a busologia carioca.

Caluniar virou moda, para uma sociedade que mal consegue digerir conceitos de moralismo repressivo com os de liberdade de expressão. Essa má digestão que gera uma disenteria moral violenta, reflete o medo que uma parcela da sociedade tem com as mudanças nos tempos e com a perda total de paradigmas e privilégios que faziam mais sentido em meados dos anos 1970.

O medo de ver um outro tipo de presidente da República no poder. Ou o medo de ver gente menos arrivista passando a perna nos ambiciosos doentios. Ou ver aquele feminicida rico e relativamente jovem, que acabou de sair da cadeia, ser encontrado morto em casa porque sofreu um infarto fulminante por ter visto, na televisão, uma antiga canção que embalava o namoro dele com sua vítima. Ou o medo de ver outros valores mais dignos derrubando privilégios antes imbatíveis.

E o pior é que, na religião, como as vingativas seitas neopentecostais e o complacente "espiritismo", nota-se mais um consentimento a esse cenário de horror do que mesmo lamento e pesar. Os neopentecostais preocupados em voltar aos tempos bíblicos de um Deus "genocida" e os "espíritas" pedindo para os sofredores aceitarem e até agradecerem algozes pelas desgraças vividas. Para piorar, o juízo de valor "espírita" de supor uma "vida passada" ao sofredor é de um cinismo chocante.

Afinal, os "espíritas" simplesmente emporcalharam o legado de Allan Kardec, com um roustanguismo muito mal disfarçado com pretenso Espiritismo de conceitos igrejeiros e uma concepção medieval e ultraconservadora de "bondade", que é restrita ao assistencialismo. Uma "caridade" que só serve para justificar a produção de mensagens fake "espirituais" e a divulgação de conceitos deturpados que envergonhariam Kardec.

Até pelas responsabilidades que deveria assumir na prática, e não numa teoria marcada pelo balé de belas palavras, os "espíritas" estão em situação ainda mais grave, pelas contradições que esconde por baixo do tapete, enquanto aguardam que os críticos da deturpação espírita se retratem e aceitem os "médiuns" dotados de culto à personalidade como "espíritas autênticos, mas mal informados", apenas pelo pretexto da filantropia e das palavras bonitas.

Se a bondade se reduz a essa exploração feita pelo prestígio religioso, com simulacros de filantropia que ajudam muito pouco e só servem para dar cartaz ao "benfeitor" da ocasião, às custas da comoção coletiva e pelo mel das palavras, então não conseguiremos sair desse cenário calamitoso em que se vive o país, marcado pela raiva e pelo moralismo seletivo.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Brasil precisa de um freio para deter as elites reacionárias


O reacionarismo social está intenso e o grau de humanidade zero se observa em pessoas que se dizem instruídas, de boa posição social e cujas vidas são conduzidas pela religiosidade. O terrível cenário dos últimos meses, em que as elites começaram a despejar preconceitos sociais escancarados, revela que o Brasil de Michel Temer é, na verdade, um gigantesco pesadelo social.

Temos moralistas sem moral, defendendo redução de salários, fim dos serviços públicos e gratuitos e que dão pitacos até nas relações amorosas dos outros. Pessoas que já não medem escrúpulos em defender a escravidão, o sucateamento das instituições públicas, em defender que as riquezas brasileiras sejam entregues aos estrangeiros etc. Vivemos um surto reacionário no qual as elites acham que podem fazer o que querem.

Empresários que já não escondem seus surtos elitistas. Juristas que não escondem seu moralismo medieval. E há até mesmo religiosos, como os "espíritas", que pedem para os sofredores aguentarem seu sofrimento "sem queixumes" e, de forma bem suspeita, "misericórdia" para os algozes que cometem seus abusos, porque estes "um dia terão o que merecem" (provavelmente na próxima encarnação - é o "fiado espírita").

Que a sociedade elitista tinha lá seus surtos de violência, como os assassinatos do campo e os crimes de feminicídio, movidos respectivamente pelo "direito à propriedade" e "legítima defesa da honra", é óbvio, mas hoje o reacionarismo social está indo longe demais.





Pessoas que pedem morte a petistas - reproduzimos, via Diário do Centro do Mundo, uma seleção de comentários no Facebook pedindo a morte da ex-primeira-dama Marisa Letícia, mulher do ex-presidente Lula, que sofreu acidente vascular cerebral - , se arrepiam quando se fala que um rico homem que matou a própria esposa ou namorada por ciúme doentio, possa, pelas próprias pressões emocionais que sente, sofrer um infarto fulminante, sobretudo antes de 50 anos.

A título de exemplo, quando se lembrou do antigo crime feminicida do empresário Doca Street (que matou a socialite Ângela Diniz em Búzios, por ciúme doentio), que no final do ano passado completou 40 anos, a imprensa relembrou o fato sem esclarecer os leitores se Doca morreu ou continua vivo.

Há rumores de que Doca ainda está vivo, mas realiza tratamento contra um câncer, contraído pelo seu passado de fumante inveterado. Por ironia, Doca atingiu em 2016 a mesma idade do músico canadense Leonard Cohen, 82 anos, que, depois que lançou seu derradeiro álbum, se declarou "pronto para morrer". E morreu. Independente do paradeiro de Doca, é doloroso demais para a sociedade patriarcalista saber que ele pode morrer um dia. Certos brasileiros "não podem morrer".

Há um grande medo, quando a tragédia chega nas portas das elites. O homem que é capaz de cercar sua própria esposa ou namorada num quarto doméstico para alvejá-la a tiros ou matá-la a facadas, é o mesmo que tem medo de morrer de repente, seja no leito de um hospital, seja infartando em casa, ou caindo na rua por algum mal súbito.

As mulheres podem ser mortas antes dos 40 anos ou até dos 30 ou 25, mas seus assassinos não podem morrer antes dos 85. Morrer aos 50, então, soa "ofensivo". Estes podem "reconstruir" suas vidas - na verdade, uma recuperação inútil de atributos materiais, uma reconstrução de suas vaidades e privilégios mundanos - , mas suas vítimas tiveram encarnações para sempre extintas, cabendo reencarnar do zero, porque o mundo nunca permanece o mesmo.

Isso mostra o tom da sociedade moralista em que vivemos. Uma sociedade surreal que já aceita que se mantenham as injustiças sociais por possuírem uma visão medieval de justiça social, revela o profundo atraso em que se vive o Brasil. Há espíritos atrasados que, dependendo do tipo, pensam que ainda vivem nos EUA macartistas ou no auge do Império Romano.

As elites no Brasil se mostram mofadas, emboloradas. Fazem a chamada "revolta do bolor", no qual há a indignação do bolor contra o fungicida. O Brasil sempre teve como cacoete negociar o novo com os padrões velhos, toda novidade era sempre filtrada por aspectos velhos, pois, em vez do novo combater o velho, o novo se adapta e se molda de acordo com o velho.

É isso que faz com que, por exemplo, o "espiritismo" brasileiro tenha se moldado não no cientificismo de legado iluminista de Allan Kardec, mas pelo Catolicismo jesuíta do Brasil colonial, herdeiro do Catolicismo português, de orientação medieval. Embora os "espíritas" tentem alegar que "repudiam" a teocracia medieval católica, demonstram terem herdado seus postulados. Um livro como Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho tem conteúdo puramente medieval.

O que ocorreu foram adaptações, como permitir que a expressão do pensamento científico e intelectual se limitasse às suas especialidades, ou agisse para confirmar ou sustentar as teses igrejeiras e misfiticadoras dos "espíritas". Quando a ciência se ajoelha aos pés do igrejismo "espírita", tudo bem. Quando se submete a apoiar a figura festejada, porém retrógrada, de Chico Xavier, os "espíritas" batem palmas para os cientistas e intelectuais.

Mas quando o "espiritismo" recebe, da Ciência e das demais atividades intelectuais, uma série de questionamentos sobre suas práticas e dogmas, investigando irregularidades e tudo, os "espíritas" mostram seu lado cruelmente medieval, criminalizando a ciência através de juízos de valor perversos por meio de expressões como "overdose de raciocínio" e "tóxico do intelectualismo".

A sociedade precisa se renovar e as estruturas de status quo estão sendo extremamente caducas, podres, obsoletas. Algum freio tem que ser imposto às elites que, protegidas pela "superioridade" material do dinheiro, da fama, do poder político, da posição empresarial, do diploma tecnocrático e do prestígio religioso, estão cometendo seus abusos e suas visões retrógradas da sociedade, tratando valores perecidos como se fossem "coisa nova".

Do empresário Flávio Rocha, da rede de lojas Riachuelo, que defendeu a precarização do mercado de trabalho, à pediatra "espírita" que se recusou a atender uma criança vítima de estupro alegando "resgates espirituais", passando por internautas reacionários que existem aos montes nas redes sociais, é preciso uma sacudida para evitar que tais abusos sejam cometidos.

Os retrocessos do Brasil são excessivos e estão deixando o resto do mundo de cabelos em pé. Mas pelo menos acabou-se a ilusão do "Coração do Mundo", porque, a dois anos da "data-limite", não há meios do Brasil retomar as condições determinadas para tal supremacia político-religiosa. Ainda bem. Afinal, queremos um Brasil mais justo, e não mais um império teocrático a mandar no planeta.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Brasil, retrocessos e 'cyberbullying'


O Brasil vive um contexto em que os detentores de práticas reacionárias de todo tipo, dos políticos envolvidos com o governo Michel Temer (inclusive o próprio presidente) aos valentões da Internet, chamados de cyberbullies, se acham no pleno controle de seus atos mesquinhos, achando que, à menor adversidade, podem dar a volta por cima e até cometer represálias.

Isso é muito preocupante, sobretudo num cenário de estabilidade forçada em que o jogo de interesses tudo faz para fazer prevalecer e permanecer um sistema de privilégios de poder e de valores conservadores ou retrógrados em que seus detentores parecem gozar de imunidade e impunidade.

Escândalos graves ocorrem, confusões e impasses atingem tais pessoas, e tudo depois é abafado ou atenuado com a blindagem garantida pela ilusão que varia desde a posição social, a brecha das leis e a própria privacidade da aparente segurança no lar.

No caso do cyberbullying, isso faz de seu praticante um pretenso "rei" da Internet. Ele comanda campanhas de ataque contra alguém que simboliza um ponto de vista ou mesmo uma posição social ou etnia que não corresponde ao que ele gosta. Através de uma comunidade na qual ele participa, qualquer uma - pode ser "Eu Odeio Acordar Cedo", "Eu Curto Sertanejo" ou "Eu Estou com a Galera na Balada" - ele chama outros membros associados para participar de uma humilhação.

É aí que, por exemplo, espaços de recados da vítima viram falsos chats em que primeiro são escritos comentários irônicos, que depois "evoluem" para ofensas e agressões para terminar com ameaças de morte ou coisa parecida.

Não obstante, o líder de tais agressões organiza um blogue ofensivo, no qual usurpa o acervo pessoal da vítima - como textos de blogues ou fotos pessoais - para reproduzi-los indevidamente para fins de calúnia e difamação, escrevendo comentários ofensivos ou fazendo paródias com fim claramente depreciativo.

A ilusão da impunidade faz com que o agressor, quando é denunciado por tal página ofensiva, reaja ainda com gozações, e, sabendo do endereço da vítima, visita a cidade desta para fazer ameaças, pouco se importando se sua valentia-ostentação desperte a desconfiança de milicianos ou traficantes que fazem ponto no local e confundem o cyberbully com um membro de uma quadrilha rival.

Crente de que pode tudo, o valentão digital mantém no seu ciclo vicioso. Cria textos de ofensa, é criticado e denunciado com isso, e reage com mais textos de ofensa. Quando denunciado com mais intensidade, vai para a cidade da vítima fazer ameaças. e fica repetindo tudo como num disco riscado.

Estamos acostumados a achar e admitir que mudanças só tendem para o pior e tragédias e fracassos são sempre para pessoas humanistas e de visão mais progressista. O Brasil tem o vício de puxar as coisas para trás, proteger valores ultraconservadores ainda que sob o preço do sangue alheio. E garantir abusos de pessoas dotadas de algum privilégio ou influência social.

Hoje esses valores estão em crise e são essas pessoas que surtam. Mais do que propagadores do ódio e praticantes de desordens nas redes sociais, os cyberbullies são "patrulheiros" de valores antiquados ou pré-estabelecidos, que correm o risco de soar obsoletos por causa das campanhas na Internet.

Daí que páginas ofensivas atingem porta-vozes de causas humanistas ou de visões questionadoras sobre o "estabelecido". enquanto os agressores acham que estão protegidos. A verdade é que isso exige que as leis devam ser revistas, criando punições duras na Internet.

Tudo isso tem que ser feito não para reprimir aqueles que trazem informações que vão contra dados oficiais e nem sempre verídicos ou transparentes, mas para intimidar quem realmente queira depreciar e ofender quem discorda do "estabelecido", mesmo usando como pretexto alegações morais ou criem farsas como parodiar e depois criar falsas denúncias contra a blogueira Lola Aronovich.

A verdade, também, é que muitos dos cyberbullies são empresários, políticos, celebridades, busólogos, membros de fãs-clubes de ídolos popularescos, produtores de rádios, filhos de advogados e juristas, entre outros de alguma forma ou de outra alinhados com o esquema de poder. Alguma coisa tem que ser feita para dar um freio a esses abusos, pois as pessoas detentoras de alto status social já estão indo longe demais com seus interesses e opiniões retrógrados.