segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O topo da pirâmide social em chamas


O topo da pirâmide social está em chamas porque as pessoas que detém vários tipos de privilégios sociais, do porte de arma ao prestígio religioso, passando pelos privilégios da fama, do dinheiro, dos diplomas, da tecnocracia, da visibilidade, do poder político etc passam por decadência severa, pois tais privilégios foram alcançados de forma tendenciosa e revelam agora suas ruínas.

Todos tentam se salvar. A partir do governo Michel Temer, que, isolado do povo brasileiro, tenta apenas se manter no prazo de seu mandato, mesmo com graves denúncias de corrupção contra si, o topo da pirâmide segue apagando seu incêndio com querosene, e, com sorte, sob o consentimento ou a indiferença popular.

Desde 2016 se viveu um momento negativamente único. Segmentos sociais se mobilizaram para retomar a supremacia antes plena durante a ditadura militar, e reagiram de forma violenta às mais diversas transformações sociais. A marcha-a-ré forçada da retomada do ultraconservadorismo, não apenas para manter os privilégios que restaram mas para recuperar os antigos, tornou-se a tônica dos últimos tempos.

A situação é tão surreal que existe até o medo de se ver homicidas ricos morrerem. No Brasil, há pelo menos três idosos - dois feminicidas e um fazendeiro mandante - , responsáveis por homicídios de grande repercussão em todo o país, que apresentam indícios de doenças graves que sugerem que eles poderão falecer a qualquer momento.

Todavia, a sociedade conservadora reage a tais tragédias de maneira insólita, se revoltando apenas por serem informados das doenças desses homicidas. Informar sobre a vulnerabilidade trágica de homicidas ricos não tão idosos assim, então, enfurece a sociedade moralista, sem razão lógica aparente.

E a imprensa nem se arrisca a noticiar tais tragédias, se elas realmente tiverem que acontecer. Mesmo quando, em tempos de convulsões sociais insólitas, a morte de um petista é mais festejada que a de um homicida rico impune (ainda que por doenças como infarto, potencial entre pessoas do tipo), foi-se o tempo em que a imprensa noticiava sem qualquer problema os falecimentos de um Michel Frank, Leopoldo Heitor ou Otto Willy Jordan. Se fosse hoje, eles morreriam sob o silêncio dos jornais.

Se há um medo paranoico desses, que faz com que a mídia prefira transformar os obituários num quase paraíso, povoados de grandes artistas, ativistas sociais e gente digna de um prêmio Nobel, isso ilustra a paranoia que o alto da pirâmide social vive, com o medo da perda dos privilegiados, ainda que sejam aqueles que, sob juízos de valor moralistas ("direito à propriedade" e "honra masculina"), decidam tirar a vida de outrem, produzindo a tragédia alheia e tentando fugir da própria tragédia.

Há um clima de "ninguém sai", como no famoso conto de Luiz Fernando Veríssimo sob um jogo de baralho, que tenta preservar quase todos os personagens do "topo da pirâmide". O esforço de fazer com que o ano de 1974 nunca terminasse e os protagonistas dos mais diversos retrocessos sociais, feitos para proteger seus privilégios de todo tipo, torna-se desmedido e desesperado, a ponto de deixar o Brasil em situações tipicamente kafkianas.

As reformas trabalhista e previdenciária são dois exemplos. Dois processos de reverter as conquistas trabalhistas, favorecendo mais as finanças dos patrões e deixando os empregados em situações degradantes como eram antes de 1930. Elas são um meio de aliviar as obrigações financeiras do patronato com seus empregados, liberando-os até para atrasar salários, extinguir encargos trabalhistas e vincular as ajudas de custos aos salários propriamente ditos.

No âmbito da mobilidade urbana, existe até um apego neurótico aos ônibus padronizados, que agora começam a ser pejorativamente apelidados de "ônibus iguaizinhos", quando diferentes empresas de ônibus têm uma mesma cor e, em certos casos, uma empresa de ônibus chega a ter dois ou mais pinturas se atuar em diversas áreas ou com diversos tipos de veículos.

O horror de ver a pintura padronizada ser cancelada, um dia, em Curitiba, São Paulo e Belo Horizonte, ou em outras cidades que adotam esta medida - que complica a vida dos passageiros, que, com seus inúmeros compromissos pessoais, ainda têm que parar para ver a diferença de uma empresa e de outra para não embarcar no ônibus errado - , não é atenuado quando se observa que é justamente esse "baile de máscaras" sobre rodas que favorece a corrupção político-empresarial.

Isso ficou comprovado quando se denunciou a corrupção das empresas de ônibus do Rio de Janeiro, através da Operação Ponto Final, derivada da Operação Lava Jato, que chegou a prender, por alguns dias, empresários da "máfia dos transportes" carioca. Não por acaso, cidades onde adotam pintura padronizada, como Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Curitiba e Florianópolis revelam piores escândalos no setor de transportes.

Isso se dá por uma razão simples. O fato de esconder diferentes empresas de ônibus dificulta a identificação das mesmas, porque elas apresentam o mesmo visual, o mesmo design. O passageiro comum não consegue ver qual a empresa que presta mau serviço.

É claro que se a empresa mostrar sua identidade visual o serviço não melhora em si e a corrupção não desaparece, mas o passageiro têm mais condições de poder denunciar a empresa infratora. Já imaginou se as linhas intermunicipais fluminenses já tivessem pintura padronizada, a exemplo das paulistas? Haveria muito mais dificuldade de combater empresas de atuação desastrada como a Transmil, da Baixada Fluminense, devido à mesma pintura de outras de melhor serviço.

Mas o status quo que combina tecnocracia, poder político e poder econômico bate o pé e tenta manter os "ônibus iguaizinhos" a todo custo. Tanto que, nos últimos anos, cidades como São Luís, Fortaleza, Brasília, Juiz de Fora, Porto Alegre e Belo Horizonte tentam mudar o design da pintura padronizada, apenas "mudando a máscara" e "trocando o seis pelo meia-dúzia". "Mudar para continuar o mesmo", mantendo um sistema de ônibus que confunde os passageiros no seu ritual de ir e vir.

As pessoas não se indignam porque ainda confiam na "superioridade" dos diplomas, do poder político, do dinheiro, da fama, do prestígio social, etc etc. E isso, nos diversos âmbitos sociais, é que faz as pessoas se consentirem até das gafes, dos equívocos e até dos crimes cometidos pelo pessoal do "alto da pirâmide".

Mesmo nos crimes de homicídio, as pessoas parecem se lembrar do bordão dito por Jesus de Nazaré, "quem estiver sem pecado que atire a primeira pedra", se esquecendo que Jesus disse uma ironia, para intimidar as pessoas de se lançarem contra a vida alheia.

Acham que homicidas que agem movidos por bandeiras "morais" como "direito à propriedade" e "defesa da honra masculina" são semi-deuses, por isso não podem ser considerados vulneráveis nem ter sua tragédia divulgada na sociedade. Um homem rico que tira a vida da própria mulher é tratado como se fosse um deus que quebrou um copo de vidro. Ninguém imagina que um homicida desses sofre pressões sociais diversas e intensas, que o tornam altamente vulnerável à sua tragédia pessoal.

Há todo um sentimento que mistura complacência, indiferença, consentimento e até diversão, se colocarmos todos os erros, encrencas e crimes cometidos no "alto da pirâmide". No caso da corrupção dos políticos do PSDB, conhecidos como "tucanos", há, entre as pessoas, uma certa resignação, movida pela visão equivocada de não se levar essa corrupção a sério, tratada como se fosse uma peça de um espetáculo cômico.

Desta maneira, políticos como José Serra, Aécio Neves, Fernando Henrique Cardoso e Geraldo Alckmin, ou então similares como os peemedebistas Michel Temer, Romero Jucá, Geddel Vieira Lima e Moreira Franco, muito diferentes da suposta corrupção petista que desperta ódio descomunal, têm seus episódios de corrupção narrados como se fossem palhaçada de circo, mais divertindo as pessoas do que causando qualquer tipo de indignação.

No "espiritismo" brasileiro, o que se nota é uma profunda complacência com os supostos médiuns que produzem mediunidade fake, difundem ideias católicas-medievais ao arrepio dos ensinamentos kardecianos originais e se promovem às custas do Assistencialismo, forma fajuta de caridade que mais promove o "benfeitor" do que beneficia os necessitados.

A imagem dos "médiuns", feitas à maneira das fadas-madrinhas dos contos de fadas mescladas com os mestres das estórias de fantasias, faz do "espiritismo" brasileiro uma espécie de contos-de-fadas para gente grande, oferecendo o "açúcar das palavras" como forma de fazer a deturpação de raiz roustanguista, mas servida sob o rótulo de "fidelidade absoluta a Allan Kardec", se tornar aceita sem qualquer tipo de reserva.

Os próprios ídolos "espíritas", palestrantes, escritores ou "médiuns", se valem desse prestígio religioso que, por mais que seja mascarado pelo verniz de "simplicidade" e "humildade", os insere também no rol de privilegiados do topo da pirâmide social, até pela presunção de "proximidade com Deus" que expressa este tipo de privilégio.

Hoje vemos a decadência dos mais diversos tipos de privilégios sociais. Até o prestígio religioso desafia a zona de conforto de muitos acreditarem que a religião está acima de todas as coisas e que os mesmos ídolos religiosos que cometeram os erros gravíssimos que arruinaram suas doutrinas irão consertá-las, como raposas prometendo reconstruir os galinheiros.

O que vemos é que os antigos detentores de privilégios sociais de toda ordem, e que pareciam modernos entre 1964 e 1974, se desgastam e fazem com que o topo da pirâmide seja um reduto de bolor tóxico de estruturas sociais arcaicas e mofadas. O consentimento social, marcado pela ignorância, pela catarse e pelo apego a valores retrógrados, é que sustenta os últimos suspiros desse "topo" que perece de forma acelerada e irreversível.

sábado, 19 de agosto de 2017

Intolerância religiosa? Não seria concorrência religiosa?


Há muito mito em torno da intolerância religiosa. Na verdade, a intolerância é apenas um pretexto para a concorrência religiosa, e as religiões, salvo raras exceções - o "espiritismo" brasileiro NÃO É uma delas - , querem apenas disputar espaços e ampliar domínios.

O discurso vitimista apareceu, recentemente, nas manifestações de supremacistas de Charlottesville, no Estado da Virgínia, EUA, quando fizeram sua marcha. Eles reclamavam que eram "vítimas de humilhações" e adotavam um discurso vitimista. Em certo sentido, eles também reclamavam da "intolerância" contra eles.

Tempos atrás, as seitas neopentecostais também faziam um discurso de que sofriam "intolerância" e "preconceito". Hoje, são os mesmos que, com representantes no Congresso Nacional, a chamada "bancada da Bíblia", estabelecem projetos que se voltam claramente à exclusão social e à intolerância às chamadas minorias sociais.

É preciso ter cautela com esse discurso de intolerância, porque, por outro lado, há a permissividade das religiões de se imporem à realidade e criarem um "mundo paralelo" que, agindo em supremacia sobre a realidade objetiva, pode se tornar perigoso.

Tolerar religião não pode ser sinônimo de tolerar mentiras ou supremacias. A religião não está acima da humanidade nem da realidade, a fé não está acima da lógica e do bom senso. Paciência, o ser humano é um ser racional e a falácia do "tóxico do intelectualismo" só serve para que o obscurantismo de certas crenças não deva ser questionado.

O "espiritismo" brasileiro, cada vez mais se transformando numa versão repaginada do velho Catolicismo jesuíta e medieval do Brasil-colônia, usa o pretexto da "intolerância" para não ser duramente criticado. A traição que a doutrina brasileira faz dos ensinamentos de Allan Kardec é notória e explícita, mas os "espíritas" querem se manter em contradições e ainda se acham "rigorosamente fiéis" ao pedagogo francês que traem com muito gosto.

A realidade é que religiões são criações humanas. Elas podem perecer, desaparecer e coisa e tal. Isso é muito doloroso para muitos e o que se nota é que vários movimentos de extrema-direita e de grupos jihadistas se apoiam na religião para estabelecer sua supremacia.

O problema é que a "intolerância do eu" é que é sempre lamentável, vista como injustiça e preconceito. Mas a "intolerância do outro" é que é "necessária". O "eu" tem seus espaços, mas quer o do "outro", e se o "outro" rejeita o avanço do "eu", o "eu" é "discriminado". Mas se é o "outro" que perde os espaços pelo avanço do "eu", então o avanço é "merecido", é uma "conquista de espaço".

Na cultura popular, manifestações de valor duvidoso trabalhadas pela mídia empresarial, definidas como "brega" ou "extremamente popular", durante anos usaram a desculpa do "preconceito" para ampliar seus espaços e se inserir nos redutos de gente considerada mais culta e instruída. O midiático "funk" é um típico exemplo desse discurso ativista.

Enquanto isso, manifestações culturais autênticas, mesmo as de origem pobre, são tão discriminadas que correm o risco de virar peças de museu. O samba está morrendo aos poucos e sofrendo a supremacia de formas caricaturais - o chamado "pagode romântico" - que apenas imitam o som de uma meia-dúzia de sambistas genuínos que as rádios permitem tocar.

As mulheres-objetos, fruto de uma ideologia machista, também quiseram se apropriar do feminismo de forma que o próprio feminismo virasse refém de glúteos apelativos. Pior: criticar isso era visto como "machista", enquanto as mulheres-objetos vendiam a imagem de "donas do corpo" ostentando para machistas sexualmente desvairados nas redes sociais.

Criticar a degradação da cultura popular também foi visto como "intolerância" e "preconceito". Mas era o "preconceito do eu", a "intolerância do eu". Quantas vezes uma Emma Watson, com seu feminismo humanista, foi esculhambada pelas feministas brasileiras que defendiam o "feminismo" de glúteos siliconados, da embriaguez toda noite e do cigarro que destrói o organismo aos poucos.

Voltando ao "espiritismo", quantas vezes os "espíritas" se esquecem do "eu", quando falam para os outros aceitarem as adversidades da vida? Aos "outros", pedem paciência, resignação, amor ao sofrimento, abandono de necessidades, confundindo qualidade de vida com luxo.

Eles falam ao "outro" como se este fosse o "eu". Mas o palestrante "espírita", ele mesmo o "eu" do seu discurso, não tem paciência para a chegada ao céu, insistindo numa carreira de palavras bonitas, que escondem e disfarçam, de maneira cosmética, as arrepiantes contradições que comete ao trair os ensinamentos de Allan Kardec com ideias igrejeiras.

E o que dizer do suposto médium Divaldo Franco? Criticá-lo faz muitas pessoas tremerem de medo e muitas lágrimas se derramam diante de tantos comentários contra seu ídolo religioso. Mas Divaldo, com sua verborragia e pose de mansuetude, fez um juízo de valor severo contra refugiados do Oriente Médio, acusados, na cara dura, de terem sido "colonizadores sanguinários que queriam recuperar seus tesouros na Europa".

Diante desta e de tantas coisas, refletimos que o discurso de intolerância religiosa requer muita cautela. Há intolerâncias e "intolerâncias". A a intolerância às crenças afro-brasileiras, uma injustiça contra a manifestação cultural de um povo com sua cultura própria. Essa intolerância, sim, deve ser questionada e combatida pela sociedade, respeitando uma cultura de um povo diferente.

Já no caso do "espiritismo" brasileiro, ele nem de longe sofre intolerância. É blindado pela mídia e sua contradições e irregularidades - sobretudo nas atividades ditas "mediúnicas" - são até aceitas e estimuladas pela sociedade. O "espiritismo" é até protegido demais e a menor crítica, mesmo construtiva, faz seus palestrantes chorarem. Intolerância, mesmo, vem dos próprios "espíritas", que não aceitam críticas.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

"Espiritismo" brasileiro e o fim da utopia da Nova Era


Para quem gosta de sonhar com a Nova Era, através de devaneios místicos e religiosos, melhor se contentar com ilustrações como a publicada nesta postagem, entre outras cuja beleza remete mais à imitação das estéticas de discos de rock progressivo do que de um prenúncio do que vai ser a humanidade no futuro.

A utopia da Nova Era, consagrada nos anos 1960 pelos movimentos de Contracultura e anunciada como "certa" na década de 1990, após a derrubada do Muro de Berlim em 1989, motivou o auge de muitos movimentos religiosos e esotéricos, levando multidões ao misticismo na esperança de se prepararem para os "novos tempos", sob a promessa de um "coração mais puro" e "energias mais favoráveis".

Livros de autoajuda e obras religiosas passaram a vender como pipoca na entrada do cinema. Gurus surgiram, desde o ramo empresarial da autoajuda - sob o rótulo de Empreendedorismo - até a religião "espírita", passando pelo modismo da "inteligência emocional", passaram a se projetar, prometendo "salvar o mundo" com um repertório de palavras bonitinhas.

E como o açúcar das palavras descia bem nos estômagos das almas sonhadoras, muitas pessoas passaram a atribuir o passaporte para o céu dos malabaristas das palavras, sempre em pose de mansuetude, voz doce, oratória habilidosa e um pedantismo confuso mas tão bem revestido de pretensa erudição que garante um equivocado mas apaixonado rótulo de "filósofo".

No "espiritismo" brasileiro, a utopia da Nova Era, que no contexto brasileiro só foi de fato efetivada nos anos 1990, pois na época hippie (1966-1970) o país vivia sob a ditadura militar, representou a consagração da "fase dúbia", aquela em que os "espíritas" bajulam Allan Kardec mas seguem o legado de Jean-Baptiste Roustaing, num falso equilíbrio doutrinário entre "místicos" e "científicos", que privilegia os primeiros.

A partir daí, palestras e congressos "espíritas", com cartazes com ilustrações futuristas e desenhos de humanoides em formas anatômicas, supondo pretenso cientificismo biopsicológico, surgiram mascarando o igrejismo com pedantismo intelectual, fazendo a fortuna e o prestígio de supostos médiuns, como Divaldo Franco, a fazer turismo pelo mundo com o balé de belas palavras, religiosamente piegas e intelectualmente ocas.

Tudo isso funcionou quando os retrocessos sociais, já latentes nos anos 1990, não eram explícitos e não pareciam ameaçar os relativos progressos sociais garantidos pela evolução tecnológica e pelos programas de bem-estar social, incluindo o controle nas economias dos países. A globalização sugeria uma utopia de que as fronteiras seriam rompidas e a solidariedade iria avançar por toda a humanidade, espalhando justiça social até em ambientes mais sombrios.

Só que tudo isso foi por água abaixo. A violência tornou-se maior, e cada vez mais praticada por pessoas de melhor condição econômica e supostamente com significativa educação moral. O reacionarismo tornou-se uma bandeira da rebeldia juvenil, contrariando a crença de que a juventude fosse um oásis de ideias progressistas e de vanguarda. O consumismo tornou-se desenfreado e até as religiões tornaram-se motivação não para a solidariedade, mas para o egoísmo e a cupidez.

O próprio "espiritismo" não tardou a revelar seus equívocos, gravíssimos. Depois dos últimos escândalos entre 1966 e 1975, envolvendo desde a farsa da "médium" Otília Diogo, que teve a cumplicidade de Francisco Cândido Xavier, até o fim da trajetória do prepotente Antônio Wantuil de Freitas à frente da FEB, passando por uma ameaça de publicação, pela FEESP, de traduções ainda mais roustanguistas da obra kardeciana, a "fase dúbia" nem de longe cumpriu o prometido equilíbrio.

A estabilidade forçada é mantida pelo "movimento espírita" pela sorte de muitos acordos, seja entre diferentes expositores "espíritas" que mantém a sua "diversidade doutrinária" (eufemismo para visões pessoais sobre temas e práticas doutrinários), seja entre eles e a Justiça, que nunca investiga as irregularidades doutrinárias (que envolvem até falsidade ideológica em obras "mediúnicas"), e a grande mídia, que sempre divulga uma imagem positiva do "espiritismo" brasileiro.

É, portanto, uma estabilidade forçada pelas circunstâncias, num momento em que o "topo da pirâmide social" vive em acordos sucessivos que evitem o desgaste definitivo da plutocracia, mesmo diante de graves crises e escândalos de arrancar os cabelos. Se existe até acordo para a imprensa não publicar óbitos de criminosos ricos, que "desaparecem" como semi-deuses em "ascensão ao Senhor", então tudo é feito para que a Torre de Babel contemporânea seja construída sem maiores conflitos.

Vivemos um período delicado de profundos retrocessos sociais e quando os maiores casos de sordidez humana se encontram em pessoas de significativo status social. A ilusão de que os erros graves se atenuam conforme a posição social de seu praticante, crença ainda persistente em muitas pessoas, anestesia a sociedade e abre caminho para pessoas ainda mais perversas que se protegem pela marquize do prestígio, do dinheiro e da visibilidade.

Com os profundos retrocessos sociais, o "espiritismo", ele mesmo perdido em tentar explicar a suposta "fidelidade a Kardec" mediante o apreço às ideias de J. B. Roustaing, se encontra na mais aguda crise, que atinge níveis insustentáveis. A esperança dos deturpadores da Doutrina Espírita comandarem mais uma promessa de "recuperação das bases espíritas originais" continua forte, mas ela será sempre inútil, porque os defeitos serão sempre mantidos.

Essa promessa já foi dada há 40 anos, deu na "fase dúbia" que conhecemos e o resultado foi desastroso. O "espiritismo" ganhou em popularidade, sobretudo com a blindagem da Rede Globo aos "médiuns espíritas", até hoje tidos como "intocáveis", mas aumentou sua hipocrisia, pois seu igrejismo de herança roustanguista nunca esteve tão fortalecido, apesar de tantas e insistentes alegações de "respeito rigoroso e fidelidade absoluta" ao legado kardeciano.

E agora com os tempos sombrios em que se vive, e o questionamento dado às utopias místicas e esotéricas que prometeram a "salvação da humanidade", o sonho da Nova Era se esfacela e põe em xeque as doutrinas e movimentos que se apoiaram nessa ideia, incluindo o próprio "espiritismo" brasileiro.

É possível que, num prazo mais tardio, a humanidade se evoluirá, mas a perspectiva será muitíssimo diferente do que sonhavam as utopias místicas e esotéricas, incluindo alguns movimentos religiosos. Novos paradigmas se formarão que escaparão das predições igrejeiras de gurus de ocasião, pretensos profetas, falsos sábios e, sobretudo, os "médiuns espíritas" que, aos poucos, veem a posse da verdade escaparem de suas mãos.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Protestos de Charlottesville e a tese da "Data-Limite" de Chico Xavier


No último fim de semana, um grande protesto de grupos neo-nazistas reunidos numa praça em Charlottesville, contra a retirada da estátua do combatente confederado e escravocrata Robert E. Lee, proposta pela prefeitura dessa cidade do Estado da Virgínia, nos EUA, põe em xeque as perspectivas otimistas, sobretudo da parte do "espiritismo" brasileiro.

A manifestação, no contexto dos EUA, reflete uma onda ultraconservadora que mostra uma inclinação de muitos jovens a movimentos obscurantistas. A adesão de jovens a grupos terroristas e entidades fascistas atinge índices assustadores, revelando não só um aparente descontentamento com os rumos da sociedade contemporânea e o fracasso de muitos ideais progressistas, como também a "noção de novidade" que certas causas retrógradas apresentam para quem tem menos de 45 anos.

Outro protesto, de negros e outras minorias sociais que fizeram uma "muralha humana" no campus da Universidade da Virgínia, também ocorreu e houve confronto entre as duas manifestações, com a polícia tentando resolver a situação, prendendo vários agressores.

O ápice nem se deu pelas multidões saindo à noite marchando e segurando tochas, lembrando os primórdios do tenebroso movimento Klu Klux Klan (cuja sigla KKK chama a atenção por coincidir com a grafia das risadas dadas pelos chamados "fascistas mirins" na Internet).

Ele se deu quando o jovem neo-nazista, James Alex Fields Jr., que dirigia um carro, avançou sobre uma multidão de manifestantes anti-fascistas, ferindo vários deles, causando uma vítima fatal, a ativista Heather Heyer, de 32 anos. A morte dela rendeu comparações com a da deputada britânica Jo Cox, assassinada em 2016 por um neo-nazista inglês, que está preso, como no caso de Fields Jr..

Fields Jr. teve o pedido de liberdade condicional sob fiança negado porque a defensoria pública se recusou a defender o preso. A recusa se deu porque uma das vítimas do atropelamento foi um familiar de um funcionário da Defensoria Pública, o que fez a Justiça local exigir que Fields Jr. arrume um advogado de defesa.

O lamentável episódio ocorreu nos EUA e, aparentemente, nada contradiz em relação à suposta profecia do "médium" Francisco Cândido Xavier, sobre a tal "data-limite" que supostamente prevê um período de turbulências e regeneração espiritual.

A "profecia" tem valor factual duvidoso, é cheia de erros de abordagem geológica (como o Chile ser poupado de uma onda de explosões vulcânicas no Círculo de Fogo do Pacífico) e sociológica (pressupõe que eslavos migrem para o calorento Nordeste brasileiro, se esquecendo que os eslavos, ao chegar ao Brasil no século XX, escolheram a região Sul) e nem todos os seguidores de Chico Xavier acreditam nessas "previsões", trazidas por Geraldo Lemos Neto.

Da nossa parte, consideramos que Chico Xavier teria feito tais "profecias", sim, porque em outras ocasiões, como em livros "psicográficos" e na entrevista ao programa Pinga Fogo, na TV Tupi, em 1971, ele teria dito coisas semelhantes. Além disso, a "profecia" segue o ideal de "coração do mundo" e "pátria do Evangelho" que Xavier sempre desejou ao Brasil.

Dois aspectos, porém , revelam o equívoco e o risco da "profecia" do anti-médium mineiro. Um é que o protesto neo-nazista de Charlottesville foi apoiado por muitos internautas nas redes sociais, que citaram sobretudo o ídolo deles, Jair Bolsonaro. No Brasil, também há a ascensão de grupos fascistas. Uma suposta organização, intitulada "International Klans", espalhou folhetos colados em vários lugares em Niterói, Estado do Rio de Janeiro.

Isso contraria a tendência de que o Brasil se tornaria "mais progressista" num contexto destes. É verdade que existem também muitos brasileiros condenando o episódio, mas o cenário sócio-político dominado por forças conservadoras que retomaram o poder em maio de 2016 revela a ascensão de forças sociais retrógradas e reacionárias, que tomaram as rédeas numa pauta socialmente mais excludente e obscurantista.

Os próprios "espíritas" parecem complacentes com esse cenário, até demonstrando, mesmo sem assumir no discurso, o apoio ao governo Michel Temer e aos grupos reacionários que comandaram a onda ultraconservadora. Um deles, curiosamente, é denominado "Revoltados On Line", incluído entre outros "iluminados" (como o Movimento Brasil Livre e o Endireita Brasil), que os "espíritas" atribuíram como "articuladores do processo de regeneração da humanidade no Brasil".

Mas existe também, sob uma outra abordagem, o risco da ideia do "Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho" rumar para um projeto tirânico, combinando teocracia com imperialismo. Ideias de religiões dominantes, como o Catolicismo medieval, e de um poder político centralizador, como tentou ser a Alemanha nazista, são um grave alerta disso.

Alegações de que a "pátria do Evangelho" não representará essa ameaça por causa da vocação de "tolerância" dos "espíritas" são verossímeis, mas bastante perigosas. Afinal, os "espíritas" brasileiros já revelaram, por outro lado, a inclinação de fazer juízo de valor e a atribuição de "resgates morais" para justificar os prejuízos de outrem.

Com o "espiritismo" brasileiro cada vez mais voltado à Teologia do Sofrimento e cada vez mais caminhando para ser uma versão rediviva do velho Catolicismo jesuíta e medieval, que vigorou no período colonial, também podem impulsionar para esse dado sombrio da doutrina igrejeira. A experiência do Catolicismo da Idade Média, também anunciada com belos pretextos, é um bom alerta à humanidade.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

"Espiritismo" e os tesouros e títulos da Terra


Os "espíritas" deveriam olhar para si mesmos, já que se preocupam com o argueiro dos olhos dos outros e se esquecem das traves dos seus próprios. No "Correio Espírita" deste mês, uma matéria fala das "novas necessidades da civilização", entre elas a de abrir mão de "tantas necessidades", como as dos títulos e tesouros da Terra.

Cada vez mais voltado para a Teologia do Sofrimento, corrente medieval da Igreja Católica, o "espiritismo" brasileiro, há muito catolicizado - apesar das bajulações, carregadas de muita hipocrisia, a Allan Kardec e seus relacionados - aos moldes do velho jesuitismo medieval, sempre apela para os outros abrirem mão até mesmo de quase tudo.

Se depender das pregações "espíritas", estaríamos reduzidos a animais domésticos que apenas demonstram afeto e simpatia para outrem, se alimentando talvez de algum verde e algum alimento qualquer nota e nos preocuparmos apenas a sobreviver e olhar a paisagem.

Seríamos, neste caso, um misto de cachorrinhos obedientes e fofos, de avestruzes a baixar a cabeça o tempo todo e de papagaios a apenas reproduzir os sons dos outros. A razão, a ética, a transparência e a sinceridade são apenas "pequenos" e, talvez, "desnecessários", detalhes.

Os "espíritas", sintonizados com o governo Michel Temer - ao qual nunca declararam apoio oficial, mas subliminarmente comprovam estarem solidários a ele - , sempre estão pedindo para os sofredores aceitarem sua coleção de desgraças, "na esperança de um futuro melhor", pouco se importando com os sobressaltos, infortúnios, angústias, impasses e tragédias por eles sofridos.

A ênfase do sofrimento desmascara os "espíritas", que se vangloriam pela suposta fidelidade absoluta a Allan Kardec, mas o traem de maneira bastante cruel e irresponsável. A apologia do sofrimento humano, que está na pauta de quase todas as obras "espíritas", é uma herança não dos postulados originais de Kardec, mas dos delírios católicos trazidos por Jean-Baptiste Roustaing.

E aí se tem o apelo de "abrir mão de tudo". Há apelos como "O rapaz quer uma mulher de caráter e inteligência? Que aceite aquela periguete burra e ensine coisas a ela!" ou "A moça quer um príncipe encantado e só chegou aquele rapaz sombrio que já cometeu um feminicídio? Seja complacente ao olhar tristonho dele e seja sempre submissa a ele" que são dados aos montes nas "casas espíritas".

Mas o "espírito de renúncia" os "espíritas" apelam para os outros. Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Quanto aos "espíritas", eles mesmos esquecem que seus maiores ídolos são os mais afoitos e privilegiados na coleção de títulos e tesouros na Terra.

O que pensar nos "médiuns" que excursionam pelo planeta, vendo as maiores relíquias turísticas das grandes capitais do Brasil e do mundo, se hospedando nos melhores hotéis, fazendo plateias para ricos e posando ao lado de juristas, autoridades e aristocratas, enquanto a "revolucionária caridade" que dizem praticar traz resultados tão medíocres e inexpressivos para a população carente?

A glorificação que marcou as carreiras de Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco, dois grandes deturpadores da Doutrina Espírita, que publicaram livros cujos conceitos e ideias causam arrepio de tanto contrariarem os postulados espíritas originais, é bastante ilustrativa desses tesouros e títulos terrenos.

O próprio Chico Xavier, católico medieval protegido de Antônio Wantuil de Freitas (então presidente da FEB) e, dos anos 1970 até a posteridade póstuma de hoje, blindado pela Rede Globo de Televisão como se fosse um Aécio Neves da filantropia, colecionou medalhas e títulos concedidos pela sociedade elitista.

E Divaldo Franco, então? Um sujeito ainda mais espertalhão, mas "santificado" pela sua habilidosa pose de mansuetude, delicadeza vocal e pedantismo, sempre passeando pelo mundo como um pretenso ativista social, enquanto sua "admirável caridade" nunca ajudou sequer 1% da população brasileira, é ainda mais afoito na coleção de tesouros e títulos da Terra.

Só os dois anti-médiuns, que se consagraram pelo culto à personalidade, colecionaram medalhas, diplomas e condecorações por causa de uma imagem de "caridade" que, embora cause deslumbramento a muita gente, nunca trouxe resultados profundos para a humanidade, constituindo no que especialistas definem como a técnica fajuta do Assistencialismo, uma "caridade" que serve mais para promover o "benfeitor" do que ajudar de verdade os mais necessitados.

O mito de que Chico Xavier "doou os direitos autorais para a caridade" é hipócrita. O que o "médium" fez foi deixar os direitos autorais para Wantuil e depois, quando este se aposentou, Xavier criou um jogo de cena fingindo ter se decepcionado com o uso de suas obras "mediúnicas" para alimentar os interesses comerciais da federação.

Chico Xavier apenas não tocava em dinheiro, mas sempre viveu de um considerável conforto e tinha a blindagem das elites e dos grandes empresários de mídia. Desde os anos 1970 Xavier tornou-se um protegido da Rede Globo, conhecida pela manipulação traiçoeira do inconsciente coletivo das pessoas, a ponto de impor costumes, modos de ver o mundo e, principalmente, os políticos que o povo brasileiro deveria amar ou odiar.

É como os maiores aristocratas fazem hoje. Chico abriu um precedente: não gostava de tocar em dinheiro. Hoje os mais ricos pregam a "morte da moeda" e se servem de um cartão eletrônico para pagar suas contas, criando uma movimentação financeira "invisível" e feita apenas dentro dos bancos.

A própria "moeda" do livro Nosso Lar, de 1943, o chamado Bônus-Hora, lembra um cartão de crédito. Serve para o uso do transporte (BRT?), para ir ao cinema, para comprar alimentos. Se é certo que muito suposto pioneirismo atribuído a Chico Xavier é grosseiramente duvidoso, há um "relativo pioneirismo" no caso dos cartões de crédito, que na época era um artigo de luxo para fregueses de estabelecimentos comerciais, serviços e instituições financeiras.

Neste sentido, o Bônus-Hora era um cartão de crédito "universalizado", numa obra de ficção não-assumida que foi lançada numa época em que até a classe média tinha que pagar as coisas usando "dinheiro vivo", pois a popularização do cartão de crédito só se deu a partir da segunda metade da década de 1950 e, no Brasil, do começo da década seguinte.

Quanto aos títulos, Chico Xavier e Divaldo Franco, além dos prêmios que recebiam das elites e das autoridades, também recebiam títulos informais e um tanto hipócritas como "sábios", "mestres" e até "filósofos", "intelectuais" e "pensadores". Mas até a denominação de "espíritos iluminados" e "símbolos do amor ao próximo" também se inserem nesse contexto de títulos terrenos, movidos pelas paixões religiosas, tão materialistas e mórbidas quanto os chamados gozos materiais profundos.

E AS FORTUNAS DO ALÉM-TÚMULO?

O que poucos conseguem cogitar é que também existe a ilusão das "fortunas do outro lado". É como se os "espíritas" adiassem seu materialismo para o pós-morte. Evocam o "espírito de renúncia", com sua pretensa humildade e falsa modéstia, e saem pregando a defesa do sofrimento alheio prometendo o "socorro de Deus na hora certa (sic)".

O problema é que, entre os "espíritas", existe uma ânsia muito grande do "acesso ao Céu", depois do retorno ao que eles entendem como "pátria espiritual". Com suas crendices místicas, acreditam que o retorno ao mundo espiritual será como no desembarque de um aeroporto, onde algumas pessoas queridas lhe aguardam para receber o desencarnado dentro de um cenário de um "chão de nuvens brancas" e um céu sempre azulado, como num paraíso de filme de Hollywood.

Em relação a uma figura como Divaldo Franco, já existe até a narrativa de seu retorno ao além-túmulo, toda pronta: uma grande cerimônia, com corais de anjos, autoridades de vários planetas, cerimônia de discursos e concessão de medalhas e prêmios, e além disso Jesus tendo que comparecer ao evento para chamar o "médium" para ir ao convívio definitivo com Deus. É bom demais para ser verdade que isso possa ser assim, ainda mais envolvendo um deturpador grave do Espiritismo.

Asneiras semelhantes a esta já foram narradas a respeito de Chico Xavier. Uma narrativa supôs que ele estava com sua mãe e alguns amigos antes falecidos, até que veio Jesus para chamar o "médium" para o "mundo dos puros" e Xavier foi "sugado" como um espectro por um aspirador de pó. Narrativa ridícula, até porque o anti-médium mineiro, em verdade, levou um grande choque ao saber que nada disso ocorreu e que, alertado por seus graves erros, já deve ter reencarnado para pagar pelo que fez.

Isso é um jogo de linguagem e psicologia. E revela uma ilusão tão pior quanto os materialismos da Terra. Uma ilusão de que tesouros e títulos "verdadeiros" existam no "além-túmulo", o que representa uma transferência da ambição humana para "o outro lado". A roupagem de "humildade" e "pureza espiritual" não isenta os efeitos nocivos que se nota no materialismo terreno e isso traz até uma sensação ainda pior nos "espíritas" que encerram sua vida material.

Pois, quando eles retornam ao além-túmulo, eles são os que mais sentem choques, extremamente violentos e traumatizantes, diante da desilusão de que o "outro lado" não lhe oferece sequer os descontos de futuras reencarnações expiatórias.

O materialismo é transferido para o mundo espiritual, mas a realidade do além-túmulo lhes decepciona, de forma que os verdadeiros umbrais são apenas reflexos das desilusões dos "espíritas", considerados apenas "puros" ou "quase puros" em função das mesmas paixões materiais da Terra, muito mal disfarçadas por um espiritualismo de fachada.

sábado, 5 de agosto de 2017

Intolerância religiosa e intolerância à mentira


Incidentes eventualmente ocorrem em casas religiosas, dentro do cenário lamentável de convulsões sociais que domina na Internet mas, com muita certeza, vai além dos limites digitais até pelos impulsos temperamentais de muitas pessoas.

Há poucos dias o centro de umbanda Casa do Mago, no bairro de Humaitá, Rio de Janeiro, foi alvo de ataques e tentativa de incêndio. Não é o primeiro ataque. O caso mostra indícios de intolerância religiosa, um mal que contamina o mundo e atinge o Brasil.

Condenamos a intolerância religiosa. Quando criticamos o "espiritismo" brasileiro, a nossa intolerância não é religiosa, mas contra as mentiras e desonestidades praticadas pela doutrina, que originalmente se fundamentou nas bases de Jean-Baptiste Roustaing e se consolidou com os arrivismos do roustanguista Antônio Wantuil de Freitas, durante muito tempo presidente da FEB.

Estas são más escolhas que cobraram o preço caríssimo aos "espíritas" brasileiros. Foi um caminho de perdição no qual os "espíritas" tentam dissimular, não medindo escrúpulos de cometer contradições e equívocos graves, cobrando coerência dos outros mas praticando suas próprias incoerências.

Hoje os "espíritas" tentam reparar tudo. Se na véspera defenderam a Teologia do Sofrimento, depois se atrevem a dizer que "ninguém veio para sofrer". Num momento dizem que as pessoas devem abrir mão de suas necessidades, noutro citam o ensinamento cristão "Pedi e obtereis". Há muito dizem renegar o nome de Roustaing cujas ideias continuam seguindo inteiramente. Deturpadores, os "espíritas" brasileiros querem comandar a recuperação das bases espíritas originais.

É sempre assim. Corre-se atrás do próprio rabo e, mais uma vez, temos a velha e mofada promessa dos "espíritas" brasileiros em recuperar as bases doutrinárias. Pessoas que se formaram nas ideias roustanguistas e que, oportunistas, dizem reprovar a deturpação, bajulam até Erasto e, furando a fila, querem liderar o processo de recuperação das ideias kardecianas que eles mesmos traíram e distorceram com muito gosto.

E isso não envolve só "peixes pequenos". Esquecemos que as piores mordidas não vêm de "sardinhas", mas de "tubarões". Mesmo os tão adorados Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco não são inocentes na deturpação do Espiritismo. Afinal, Chico Xavier e Divaldo Franco deturparam com muito prazer e consciência de seus atos, porque seu igrejismo feito ao arrepio dos ensinamentos de Allan Kardec foi feito durante anos, com obras de grande repercussão.

Ninguém faz isso por acidente ou boa-fé. Se observarmos bem, Chico Xavier, por exemplo, professou seu igrejismo até o fim. Um catolicismo medieval, dos tempos do Brasil-colônia, existente até em obras produzidas nos anos 80 e 90 e em depoimentos então dados. Isso não é algo feito sem querer, até porque o igrejismo xavieriano era alvo de duras críticas desde meados dos anos 1930.

A intolerância religiosa é um erro condenável, por representar um ato violento, de ódio, de egoísmo e de disputas entre seitas religiosas rivais. Mas o grande perigo também está quando se tolera religiões comprometidas com a falsidade, com a cupidez, com a ganância, mesmo quando se traveste do mais verossímil verniz de humildade, de modéstia, de despretensão.

O que não se pode tolerar é a falsidade, as contradições, a dissimulação. E o quanto o "espiritismo" fez para Kardec virar refém dos próprios deturpadores, que se servem do Assistencialismo exibindo as populações carentes como troféus para tentar calar os críticos.

Os "espíritas" tentam dizer que "são os que mais praticam caridade". Mas o Brasil só mergulha numa decadência sem fim, aumentando as populações de miseráveis nas ruas, crescendo os assaltos que, por ironia, desafiam justamente a gula das elites em retomar seus privilégios, defendendo propostas retrógradas como a reforma trabalhista para que os patrões ganhem tudo e os empregados, quase nada.

Afinal, são justamente as elites que estão mais vulneráveis aos assaltos e latrocínios, pois o que os patrões deixam de pagar, em salários e encargos, para manterem seus altos padrões de vida, é o que acaba sendo cobrado pelos ladrões, muitos deles antigos miseráveis aos quais lhes foram negadas todas as oportunidades de trabalho.

O moralismo severo dos "espíritas", que, afeitos à Teologia do Sofrimento, nunca se mostraram sensíveis às dificuldades dos sofredores e infortunados da sorte. Em vez disso, ficam entre a indiferença, o egoísmo e a falsidade. Dizem que os sofredores "pagam pelos próprios erros", apelam para eles suportarem e até amarem suas desgraças, mas, depois, hipócritas, os "espíritas" tentam trazer um discurso de "esperança", pedindo para os sofredores ficarem olhando passarinhos.

Quantos erros que fazem o "espiritismo", em muitos aspectos, pior do que as seitas neopentecostais! Pelo menos as seitas neopentecostais (como a Igreja Universal do Reino de Deus), retrógradas e grotescas, oferecem situações bastante cômicas, pois figuras como Edir Macedo, R. R. Soares, Silas Malafaia e Waldomiro Santiago são tão pitorescas que, às vezes, soam até cômicas.

Como tolerar isso? Moralismo retrógrado, fakes mediúnicos - só o "Humberto de Campos" trazido por Chico Xavier simboliza esses "espíritos" que não condizem ao que eram na Terra - , tantas dissimulações, tanto charlatanismo (sim, os "espíritas" são charlatães), isso mancha a história do que se entende como Espiritismo no Brasil, e do qual até seus "heróis" estão associados a fraudes e erros vergonhosos, que fariam Kardec passar a mão na testa de tanta preocupação.

Voltando a Casa do Mago, ela é definida como "centro espírita", mas era um cento de umbanda que assimilava elementos esotéricos e católicos. E os ataques devem ser sofridos por desafetos de lideranças da casa. Ataques como estes devem ser combatidos de acordo com a lei e não se devem fazer vandalismos em hipótese alguma, por eles serem deploráveis em sua própria natureza.

Mas, tenhamos bom senso. A tolerância religiosa, por outro lado, também não deve ser a tolerância da mentira e da mistificação. Que as religiões construam suas fantasias e lendas, é compreensível, mas elas não devem exercer supremacia nem mesmo monopólio sobre a realidade.

As religiões não podem estar acima dos homens, acima das sociedades. Elas podem ser extintas e podem ser duramente criticadas. As religiões refletem os interesses de uma parcela de homens que se acha "com vínculo direto com Deus". Em muitos casos, isso revela ilusões e ambições materialistas muito maiores do que sugere seu pretenso espiritualismo e divinização.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

"Espíritas" dizem que Pátria do Evangelho "já surgiu"


O "espiritismo" brasileiro, pelo jeito, está no clima do "Fica Temer". Apoia as pautas retrógradas do governo, se não de forma assumida, mas de um jeito explícito, conforme os muitos textos que os "espíritas" diversos publicam fazendo apologia ao sofrimento humano e apelando para os indivíduos abrirem mão até de seus talentos e necessidades.

Na edição do "Correio Espírita" deste mês, uma das matérias tenta afirmar que a chamada "Pátria do Evangelho", prevista pelo anti-médium mineiro Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier, "já surgiu", dois anos antes do chamado prazo da "data-limite".

A alegação do periódico, em outras palavras, é que o Brasil está passando por momentos de muita turbulência, retrocessos, confusões e conflitos, entre tantos erros e desastres, porque "está informando" aos brasileiros dos males que o país sofreu há décadas, já que esse quadro não apresenta aspectos inéditos na história do país.

Comparando com uma água suja, o texto contrapõe a esse quadro a ideia de que "está surgindo" a "pátria do Evangelho", um conceito que, segundo os "espíritas", iria guiar o progresso moral da humanidade planetária, a partir do exemplo do Brasil.

O conceito de "pátria do Evangelho" é cheio de equívocos. Embora o "espiritismo" brasileiro se vanglorie em professar "fidelidade absoluta" aos postulados espíritas originais, a tese de "pátria do Evangelho" seria refutada por Allan Kardec, cuja linha de raciocínio não admite, pelo sua lógica e coerência, que um país possa ser considerado "líder" do mundo, mesmo que sob pretextos religiosos.

IDEIA ROUSTANGUISTA

A ideia de "pátria do Evangelho" é a maior herança deixada por Jean-Baptiste Roustaing, o advogado francês que, com seu livro Os Quatro Evangelhos, forneceu as bases doutrinárias que o "espiritismo" brasileiro pratica até hoje. O nome de Roustaing é renegado, mas o legado deixado por ele é seguido até por aqueles que se dizem "totalmente fiéis a Kardec".

O próprio livro Os Quatro Evangelhos fala de uma "religião unificadora" que sintetizaria várias crenças religiosas em torno de uma só, que em tese seria o Espiritismo, nas concepções de Roustaing, ou seja, dotado de conteúdo católico.

Chico Xavier escreveu, com o presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, o livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho. Tendenciosamente, os dois atribuíram a autoria do livro ao "espírito Humberto de Campos", quando a única "presença" do autor maranhense se deu em um trecho plagiado de um capítulo do livro deste, O Brasil Anedótico, "A lei das aposentadorias".

O livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho - cujo tema nem é original, mas um reaproveitamento, sob a orientação de Wantuil, do tema "Brasil, Berço da Humanidade, Pátria do Evangelho", que Leopoldo Machado escreveu e expôs na FEB em 1934 - revela um conteúdo ufanista, bem ao gosto do caipira conservador Chico Xavier, que como todo interiorano sonhava ver o país natal "mandar no mundo".

O conteúdo é igrejeiro, de um catolicismo medieval explícito, e que comprova que o conceito de "coração do mundo" e "pátria do evangelho", que os "espíritas" definem como "algo maravilhoso", é, na verdade, uma ideia bastante perigosa e traiçoeira.

Primeiro, por pressupor a supremacia mundial de uma única nação sobre as outras. Na teoria, tudo é muito bonito, mas na prática, revela um imperialismo ameaçador, que pode praticar atos genocidas ao longo dos tempos sob a alegação da "vontade divina". Para um projeto de "pátria divina" prosperar, eliminam-se obstáculos à causa da nação poderosa. Daí surgirem cruzadas, inquisições, queimadas de pessoas, torturas, enforcamentos e fuzilamentos, entre vários outros holocaustos.

A supremacia religiosa é também perigosa, sob este ponto de vista, e ela pode justificar as tiranias que podem cometer suas atrocidades "em nome de Deus". Os "espíritas" mostraram que podem ter em mãos desculpas para o prejuízo alheio, supondo, sem provas lógicas, encarnações passadas para tornar aceitável a desgraça do outro. O mito dos "reajustes espirituais", "resgates morais" e "resgates coletivos" pode permitir que até genocídios sejam feitos.

Exemplos como a Alemanha nazista e o catolicismo medieval do Império Bizantino (antigo Império Romano do Oriente) mostram o quanto é perigosa a ideia de uma nação dominar o mundo política ou religiosamente. Nada disso é anunciado no discurso, mas as circunstâncias que virão ao longo dos anos trarão condições para que os "líderes fraternos" possam recorrer até ao extermínio em massa para proteger seu projeto político-religioso.

O Catolicismo medieval, que se deu sob o mesmo enunciado "fraterno" da "pátria do Evangelho", foi marcado por violenta supremacia, que custou as vidas de milhões e milhões de inocentes que contrariavam as crenças da "Santa Igreja". Mais adiante, os jesuítas José de Anchieta e Manuel da Nóbrega (o Emmanuel dos "espíritas") apoiaram o assassinato de um homem só por ele seguir a religião protestante.

BRASIL FRAGILIZADO

Mas outro aspecto que se deve considerar é que o Brasil está "infartado demais" para obter o status de "coração do mundo". Em certo sentido, ainda bem. Não seria positivo para os brasileiros que o país se tornasse líder do mundo, da mesma forma que os estadunidenses se sentem prejudicados quando os EUA se atrevem a cuidar dos assuntos de outros países.

A crise que assola o Brasil, e que os "espíritas" acham "positivo" para "despertar a consciência" das pessoas quanto ao "evangelho", faz com que o país sul-americano voltasse a ter não só a condição de nação subdesenvolvida, mas também de nação em baixa reputação no resto do planeta.

Não são raros os momentos em que a imprensa da Europa e dos EUA revela perplexidade com tantos fatos lamentáveis ocorridos no Brasil em dimensões surreais. O golpe político que se deu em maio de 2016 criou uma série de incidentes que fizeram o país ser visto com estranheza por jornalistas, celebridades, intelectuais e autoridades de maior conceito no restante do planeta.

"ESPÍRITAS" APOIAM O GOVERNO TEMER

O que se mostrou também é que o "movimento espírita" brasileiro apoiou, com entusiasmo mas sem assumir no discurso, o golpe político de maio de 2016. As passeatas dos "coxinhas", nas quais se pedia até "intervenção militar" (eufemismo para golpe militar), eram vistas pelos "espíritas" como "despertar da humanidade" e "início do processo de regeneração".

A julgar pelo que os "espíritas" falam, teríamos que acreditar que as "crianças-índigo" seriam os rapazes do Movimento Brasil Livre, Revoltados On Line (na ironia dos "espíritas" condenarem a ideia de revolta) e Vem Pra Rua, as "crianças-cristais" seriam os irmãos Eduardo e Flávio Bolsonaro e o pai destes, Jair Bolsonaro, um potencial líder para cumprir a missão do "coração do mundo".

O apoio do "espiritismo" ao governo Temer é tal que o próprio presidente citou a frase "Não fale da crise, trabalhe", semelhante à que Emmanuel havia dito em seu tempo: "Não reclame, trabalhe e ore". O otimismo de Temer em relação ao "fim da recessão" também segue exatamente o mesmo sentido do otimismo dos "espíritas" quanto à "chega de uma nova era" para o Brasil.

Desde maio de 2016, os "espíritas", cada vez mais identificados com a Teologia do Sofrimento - corrente medieval da Igreja Católica - , passaram a publicar mais textos fazendo apologia ao sofrimento humano, como se já estivessem preparando os cidadãos às reformas restritivas do governo Temer, como a reforma trabalhista e a reforma previdenciária, que desfazem direitos trabalhistas históricos.

Textos apelando para amar a desgraça e abrir mão das próprias necessidades e talentos foram publicados, em muitos casos deixando a máscara de muitos palestrantes espíritas, antes famosos por seus textos e oratórias vibrantes, caírem, revelando neles moralistas extremamente severos e intransigentes.

Para terminar, vemos uma grande ironia do anúncio da "pátria do Evangelho" diante de um cenário em que a plutocracia política luta para permanecer no poder, com ou sem Temer. E isso mostra o quanto o "espiritismo" está retrógrado e o papo de "pátria do Evangelho" mostra o quanto esta doutrina está repetindo os mesmos discursos, no desespero paranoico de ficar com a posse da verdade. Mas a realidade se dará à revelia dos "espíritas", o que lhes será muito doloroso.