sábado, 24 de junho de 2017

"Caridade espírita" quase nada ajudou o Brasil


Principal argumento para blindar a deturpação da Doutrina Espírita e proteger a reputação dos "médiuns" que vivem do culto à personalidade, a "caridade espírita" não faz jus a sua fama de "transformadora" e "revolucionária" que seus adeptos tanto alardeiam por aí.

A "caridade" praticada pelo "espiritismo" brasileiro se limita a tarefas pontuais, dentro das definições do Assistencialismo. Até aí, nada demais, diante de "casas espíritas" que fazem projetos assistenciais e acolhem um grupo de pessoas pobres. O problema é o fato de que a medida é usada para proteger os deturpadores e tentar abafar qualquer questionamento, além de servir para a propaganda e promoção pessoal de seus ídolos religiosos, sobretudo "médiuns".

Para começar, nem tudo que é considerado oficialmente "caridade" no "espiritismo" brasileiro deve ser considerada como tal. As "cartas dos mortos" de Francisco Cândido Xavier, por exemplo, foram um processo pernicioso e perigoso que mistura fraudes com obsessão, além de alimentar o sensacionalismo através da divulgação da grande mídia.

Em primeiro lugar, isto é um ato de obsessão, na qual se evoca o nome do falecido sem muita necessidade, dentro de um clima de emotividade ao mesmo tempo piegas e mórbida, e ignorando se o espírito do falecido realmente está ou não disponível para trazer tal mensagem. Em certos casos, mas poucos, talvez estivesse disponível, não fosse o fato do "médium" Chico Xavier produzir mensagens fake, da mente do próprio mineiro.

A fraude foi diagnosticada por diversas fontes, e se torna, para desespero dos chiquistas, verídica. Há o estranho aspecto de muitas mensagens começarem com "Querida mamãe" e apresentarem propagandismo religioso explícito. Além do mais, muitas das mensagens apresentam claramente problemas de caráter pessoal do respectivo autor, como assinaturas diferentes das originais e aspectos de personalidade que contradizem com o que a respectiva pessoa foi em vida.

É a mesma queixa que se dá em relação aos autores famosos, quando Humberto de Campos, Olavo Bilac, Auta de Souza, Casimiro de Abreu, Augusto dos Anjos e outros "aparecem" nos livros de Chico Xavier com graves falhas quanto aos respectivos estilos e personalidades, praticamente refletindo, invariavelmente, a mesma linguagem e o mesmo pensamento pessoal do "médium", trazendo fortes indícios de terem sido obras fake.

As "mensagens dos mortos" não podem ser consideradas "caridade" porque acabam prolongando as tragédias humanas. Em vez das pessoas poderem encarar as tragédias de seus entes queridos no sossego da privacidade e num luto que poderia ser mais curto, a situação se prolonga e se complica com a exploração pitoresca e sensacionalista dessas supostas mensagens e pelo fato delas apresentarem indícios de fraudes, alimentados pela "leitura fria".

Para quem não sabe, a "leitura fria" é um método psicológico no qual o entrevistador colhe informações do entrevistado por meio de uma conversa em tom intimista. Com isso, o entrevistador não colhe apenas as informações que são ditadas pelo entrevistado, mas colhe também outras, mais sutis ou subliminares, que são trazidas pelo modo com que as pessoas falam ou reagem a respeito de alguma ideia.

Além disso, há várias denúncias de que as supostas mensagens espirituais seriam compostas de diversas informações colhidas não só da "leitura fria" ou das fontes diversas (imprensa, diários pessoais, conversas informais durante eventos "espíritas"), mas até mesmo dos formulários preenchidos pelos pacientes quando recorrem ao "auxílio fraterno".

Foi aí que veio uma pegadinha, num "centro espírita" em Campo Grande, Rio de Janeiro, em que a atriz Márcia Brito - que foi a Flora Própolis da Escolinha do Professor Raimundo - afirmou ter se impressionado quando a suposta mensagem atribuída ao falecido filho Ryan Brito citou o celular e RG da mãe. Ela se esqueceu que forneceu essas informações quando preencheu o formulário que sempre se faz num "auxílio fraterno".

Há muitas estranhezas nisso, não bastasse o fato do Brasil ter mais "médiuns" do que naturalmente se poderia ter. E também pelo fato dos "médiuns" não terem o caráter intermediário, mas serem sempre as atrações principais, com direito ao culto à personalidade, apesar de toda a roupagem de pretensa humildade. Além disso, os "médiuns", no Brasil, viram dublês de pensadores e de filantropos, garantindo assim seu estrelato.

E isso se reflete também na forma como os "espíritas" veem a "caridade", mais preocupados com o prestígio religioso do "benfeitor espírita", quase sempre um "médium", do que com os resultados alcançados, que, através de minuciosas pesquisas, se revelam bastante medíocres.

As próprias ações apresentam caraterísticas de Assistencialismo e não de Assistência Social. Só para entender a diferença dos dois, Assistência Social é uma caridade que transforma e o Assistencialismo é apenas uma caridade paliativa, que minimiza efeitos drásticos. Numa comparação mais metafórica, a Assistência Social elimina a doença da pobreza, o Assistencialismo apenas alivia suas dores e seus sintomas, sem no entanto trazer a cura.

O que vemos é o aspecto constrangedor de todo o estardalhaço que se faz com a "caridade espírita" diante de tão pouca coisa. As "caravanas" de Chico Xavier foram um espetáculo bastante ostensivo, exibicionista, mas cujo objetivo é muito frouxo: doar roupas e cestas básicas e oferecer sopas, um ato meramente paliativo, só considerado urgente em situações de calamidade pública.

Há muita diferença entre calamidade pública e pobreza extrema, porque na calamidade pública - recentemente houve um trágico incêndio num edifício residencial em Londres, mas a História registra o drama da Segunda Guerra Mundial - as perdas são inevitáveis em situações drásticas, de graves conflitos e catástrofes naturais.

Na pobreza extrema, o que ocorre são distorções sociais consequentes do descaso político, mas próprias de situações de aparente paz social e que podem ser resolvidas não pela caridade paliativa, mas por políticas profundas de emprego, educação e assistência social que instituições não-religiosas, envolvendo sindicatos e entidades de trabalhadores rurais, estão mais preparadas para fazer.

O grande problema dessa "caridade espírita" é que os mantimentos que a população recebe se esgotam em três semanas, se levarmos em conta que muitos pobres compõem famílias numerosas. Enquanto os "espíritas" saem comemorando por meses uma "caridade" feita num fim de semana ou numa efeméride, seus "beneficiados" voltaram à mesma situação carente de antes.

Há também outro problema, que se refere ao estrelato dos "médiuns". Enquanto a Mansão do Caminho não consegue ajudar, ao longo de seus 65 anos de existência, sequer 1% da população de Salvador (em índices nacionais, a coisa seria pior), Divaldo Franco faz turismo para fazer palestras para ricos e poderosos no Primeiro Mundo, promovendo a deturpação e espalhando as traições doutrinárias que o baiano fez ao legado kardeciano.

A realidade em que vive o Brasil não conseguiu superar a pobreza extrema e os moradores de rua só crescem, diante desse quadro político neoconservador que promove a exclusão social através das reformas trabalhista e previdenciária do governo Michel Temer.

Por sua pretensão de grandeza e pelo alto prestígio dos "médiuns", que se autoproclamam "os maiores ativistas sociais" do Brasil, se a "caridade espírita" tivesse realmente funcionado, o Brasil teria atingido níveis impressionantes de desenvolvimento social.

Não adianta os "espíritas" dizerem que a "tarefa é complexa", ou que "houve obstáculos no caminho", "os espíritos inferiores não deixaram" ou coisa parecida, porque a pretensão de grandeza faz com que muitos palestrantes "espíritas" digam, num dia, que "estão vencendo os obstáculos", mas, no dia seguinte, desmentem dizendo que "não foi possível realizar a tarefa".

O que concluímos é que a "caridade espírita", seja de forma quantitativa e qualitativa, só trouxe resultados medíocres. Houve ajuda, mas ela está bem abaixo das expectativas e ela não traz mérito algum à doutrina deturpadora, porque não se pode usar a "caridade" como escudo para trair Allan Kardec, porque usar o "pão dos pobres" como justificativa para a deturpação é rebaixar a "bondade" como um ato permissivo a qualquer leviandade. Isso não é "bondade" verdadeira.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

"Espiritismo" e a lógica do marido traíra

MUITOS IMAGINAM QUE ALLAN KARDEC ACEITARIA AS TRAIÇÕES À SUA DOUTRINA.

O "espiritismo" brasileiro é deturpado e movido à desonestidade doutrinária. Comete deslizes por opção, decidindo por más escolhas que, tardiamente, são dissimuladas pela vergonha causada pela repercussão negativa.

Extremamente igrejista, o "espiritismo" brasileiro se rebaixou a um sub-Catolicismo de cunho medieval, um clone mais mofado da Igreja Católica. As desculpas, usadas aqui e ali, atribuídas sobretudo à "afinidade com os ensinamentos cristãos" não procede, porque essa desculpa é meramente de cunho religioso e institucional.

As pessoas aceitam que o "espiritismo" traia Allan Kardec por uma série de desculpas: as "tradições religiosas" brasileiras, a "afinidade com Jesus Cristo", a "proteção espiritual de padres, freiras e santos", e, principalmente, "a opção pela caridade". Neste último item, é impossível evitar a seguinte pergunta: "Como assim"?

Quer dizer, é então possível deturpar o Espiritismo, com sua catolicização sem batina nem ouro mas com suas ambições à parte, pregando moralismo medieval, defendendo a Teologia do Sofrimento que Kardec nunca iria defender, falando bobagens como "combater o inimigo em si mesmo" que só incentivam o suicídio que os "espíritas" tanto condenam, e no entanto uma mera "filantropia" pode ser vista como "atestado de fidelidade a Allan Kardec"?

Imagine um homem que trai a própria mulher com suas aventuras na vida noturna. Ele tenta disfarçar, diz que fará uma "hora extra" de trabalho, e, por isso, não poderá voltar para casa cedo. Enquanto a esposa imagina que o marido está no seu rigor profissional que o obriga a ter mais tempo para a sua atividade, ele se esbalda em orgias ao lado da mulherada, eventualmente levando uma das amantes para o hotel.

Mas esse homem também é conhecido por atividades assistenciais (leia-se Assistencialismo). Doa mantimentos com regularidade, compra um enxoval de roupas para os pobres, entrega tudo isso numa casa de "caridade", joga bola com meninos pobres, compra cobertor que ele coloca em mendigos que estão dormindo na ocasião etc.

Será que estas atividades fariam do homem um marido fiel? Ele traindo a esposa é uma coisa, é um ato desonesto. Não haveria lógica em usar a "caridade" para atribuir a ele uma fidelidade conjugal, porque tal atitude é completamente diferente da infidelidade conjugal. Ele continua sendo um traidor ou, como a linguagem mais corrente, um "traíra".

As pessoas falam que o "espiritismo" brasileiro, só pela roupagem de "caridade", está sendo "fiel aos ensinamentos de Allan Kardec". Só que isso é falso, apesar da referência a uma de suas famosas frases, "fora da caridade não há salvação". Mas isso é muito mal interpretado e usado levianamente para defender a deturpação igrejeira, a "catolicização" que vai contra os conhecimentos trazidos pela Codificação.

Além disso, a "caridade" acaba sendo apenas um artifício para que se legitimem as pregações de ideias contrárias aos postulados kardecianos, e remetem mais a um bom-mocismo que serve para a promoção pessoal dos "médiuns". A "caridade" acaba sendo apenas um pano de fundo para práticas nada honestas do "espiritismo" brasileiro, nos quais até devaneios esotéricos são defendidos como "postulados espíritas", quando eles se encontram inexistentes na Codificação.

A metáfora do marido traíra é, portanto, bastante ilustrativa. Assim como a do político corrupto que não vai virar "honesto" distribuindo cestas básicas em campanhas eleitorais. Daí a necessidade de compreender que a suposta filantropia em nenhum momento inocenta os deturpadores do Espiritismo de seus atos levianos e nem os deixa imunes de sofrer os efeitos dessas más atitudes.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

"Espiritismo" e a analogia da consulta médica


O seguinte texto pode esclarecer como reagem os "espíritas" brasileiros em relação ao sofrimento humano.

Um paciente no consultório médico faz sua queixa de uma grave doença que lhe causa dores insuportáveis. Ele recorreu ao doutor confiante de que pudesse obter alguma receita ou remédio para cura, e por isso estava ali na sua exposição.

- Eu não consigo andar, de tanta dor!! Não consigo fazer as coisas do dia a dia, mas também tenho dificuldades para descansar. Perco o sono todas as noites, diante da dor que eu sinto, preciso de sua ajuda para me dar um remédio para a cura. Faço todas as recomendações que o senhor lhe der.

O médico, porém, responde com uma pergunta:

- Amigo, eu acho que você deve conviver com a dor. Deve aceitá-la, talvez até gostar dela, e ter paciência o máximo que puder.

- Como assim, doutor? Eu peço a cura e tento me esforçar para aguentar as dores que sinto agora, com a força da minha mente para evitar gemer, e você me diz para eu gostar da dor?

- Meu amigo, isso é um desafio que você tem que ter. Se eu curar você da doença, como é que você irá aprender com a vida?

- Eu estou deixando de fazer até as coisas mais desafiadoras, doutor! Só estou sentindo dor! Até as coisas mais simples estou tendo dificuldade para fazer! Perco sono toda noite!

- Já reservou um tempo para preces?

- Olha, doutor, faço preces o tempo inteiro. Digo sempre para Jesus me ajudar a suportar a dor, mas a coisa é difícil, é angustiante. Nem dá para mentalizar direito, com tanta dor no corpo!

- Amigo, confie e tenha paciência. Aguente a dor. Aguente quantos anos forem necessários. Se morrer, é porque você recebeu o abraço de Deus.

- Mas eu sinto dor. Eu gastei transporte e reservei um tempo para sua consulta, para você dizer para eu aceitar a dor até não se sabe quando, ou talvez até o fim da vida? E acha que vou perder essa vida, na qual eu nasci para alguma missão, assim de bandeja, jogando a vida no lixo?

- Entenda, amado amigo. Sua missão é sentir dor, que irá moldar sua alma. Se eu lhe desse a cura, como você se comportaria com isso?

- Eu me comportaria bem, seria feliz e prestativo, faria todo tipo de atividade, não teria medo de desafios, aprenderia a vida da melhor forma.

- Por que você não faz tudo isso sentindo dor? Veja o céu azul, os pássaros cantando, o rio mantém seu curso mesmo com os gritos de dor e os conflitos das espécies.

- Por que está me dizendo isso?

- Veja bem. Todos sentem os piores flagelos e a Terra gira, as flores nascem, crescem e morrem, os passarinhos voam e os belos ruídos da Natureza ressoam harmoniosamente.

- Mas eu sinto dor. Como é que posso me relaxar para ver o céu azul e os passarinhos? Meu corpo sofre de intensa dor.

- Mude seus pensamentos que a dor logo sai.

- Não dá. É orgânico. Tento mentalizar o fim da dor e ela só se agrava. Só para andar até aqui tive dificuldades, e ainda vim de longe, pegando mais de um ônibus!

- Meu amigo, tenha paciência e fé em si mesmo...

- Não posso. Tentei tudo. Que médico é esse que tem a cura nas mãos mas prefere que eu fique aguentando a dor? Depois eu critico o seu trabalho e o senhor não gosta e sai chorando. Se eu soubesse a sua resposta, nunca teria vindo aqui. Teria ficado em casa convivendo com a dor.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Brasil ainda é um país preconceituoso

CENA DE "BAILE FUNK" DE UNIVERSITÁRIOS EM PERNAMBUCO - PRECONCEITO SE ROMPE COM... PRECONCEITO.

O Brasil é um país ainda marcado de muito preconceito. São preconceitos que existem até em pessoas que se dizem "contra o preconceito", como na recente onda da pretensa cultura popular de mercado, em que uma imagem caricatural do povo pobre era defendida por uma facção de intelectuais e celebridades como se fosse "fim do preconceito", confundindo "romper o preconceito" com aceitação passiva, não raro bem mais preconceituosa que qualquer rejeição.

Na onda conservadora dos últimos dois anos, houve várias demonstrações de preconceitos e humilhações sociais, partindo de cyberbullyings ou de relatos de teor machista, racista e homofóbico. A coisa ficou tão aberrante que vieram fenômenos pitorescos como o "pobre de direita", que defende o privilégio dos ricos, e o "patriota entreguista", capaz de parar para ouvir o Hino Nacional Brasileiro, mas que defende a venda de nossas riquezas para empresas estrangeiras.

Até a imagem da mulher solteira é depreciada, de maneira mais agressiva do que se imagina. A campanha da mídia do entretenimento de promover uma imagem depreciativa da mulher solteira, que só curte noitadas e praia, se "sensualiza" demais e enche o corpo de tatuagem, piercing e silicone, mas que comete gafes quando tenta opinar sobre alguma coisa, é um "convite" para a mulher que quiser se emancipar procurar um marido com algum cargo de liderança ou poder.

A arrogância com que certas mulheres siliconadas se projetam, com um falso feminismo e um suposto empoderamento não esconde que essas mulheres, que são as que mais vendem a imagem pejorativa da "solteiríssima", abusando de seu narcisismo e caindo em contradição quando, num momento, se afirmam serem "solteiras e felizes" e, em outro, soltam bordões como "estou à procura de um príncipe encantado" e "os homens fogem de medo de mim".

A cultura popular é a que mais sofre com a imagem preconceituosa, e não é pela rejeição aos "sucessos do povão", mas à própria expressão de uma imagem caricatural das classes populares, nas quais se legitimam como "qualidades positivas" situações que, em verdade, são bastante negativas para o povo pobre: a prostituição, o comércio de produtos piratas ou contrabandeados, o alcoolismo, a pedofilia, as moradias precárias nas favelas, a ignorância, entre outros.

É chocante que, durante muito tempo, prevaleceu um discurso de "ruptura do preconceito" que recomendava a aceitação dessa imagem degradada do povo pobre. Um discurso que era difundido pela Rede Globo mas foi também inserido na mídia de esquerda. Era, portanto, um discurso hipócrita, mas cujo apelo emotivo fazia atrair o apoio de muita gente e fabricar uma pretensa unanimidade entre as pessoas que se achavam progressistas e modernas.

A hipocrisia era tanta que, se alguém rejeita o "funk" por conhecê-lo profundamente, é "preconceituoso", mas se outro acha o "funk" genial sem ouvir e sem saber do que se trata, ele é tido como "sem preconceitos", quando na verdade o primeiro é que estabeleceu um conceito ao gênero e o último é que estabeleceu uma visão pré-concebida da coisa.

Os movimentos LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros ou travestis) também ainda são muito estereotipados. A "mulher sapatão" de comportamento agressivo e o gay estereotipado que se veste de drag queen revela ainda uma visão espetacularizada da coisa, muito diferente da sobriedade que se vê nas relações homoafetivas que acontecem no exterior. Até as passeatas LGBT que ocorrem nas capitais são presas a uma estética "carnavalizada" que não raro compromete a causa.

O preconceito é tanto que poucos imaginam que as mulheres siliconadas que "sensualizam demais" são crias do machismo. O Brasil ainda se apega tão selvagemente ao machismo que muitos ainda têm medo de ver um feminicida conjugal, desses que mataram mulheres pela "defesa da honra", falecerem de repente. Se eles morrem mesmo, nem a imprensa se dispõe a noticiar, diante desse medo.

Há até o preconceito que leva as pessoas a adotar uma postura seletiva a tipos sociais que cometem o mesmo descuido de saúde. Digamos que três tipos de homens fumam demais: o ator de teatro, o roqueiro e o feminicida conjugal e todos morrem de infarto na casa dos 55 anos.

A sociedade moralista vê a morte do primeiro com resignação, a do segundo com alívio e a do terceiro com desespero. Há quem diga, pasmem, sobre o óbito do feminicida: "Mas já, assim tão cedo?". E isso quando suas mulheres teriam sido mortas, quase sempre, com bem menos idade.

No caso do racismo, a expressão de grupos musicais de "pagode", seja ele "romântico" ou "sensual", também revela esse preconceito contra os próprios negros que interpretam tais canções. Seja a imagem auto-ridicularizada de certos conjuntos, letras sobre "macacos" e "baratas da vizinha", seja o apelo "sensual" de negros caricatos da Bahia, que trabalham o estereótipo pejorativo do "tarado abobalhado", a negritude que tais intérpretes dizem defender é, na verdade, bastante depreciada.

E isso tudo ainda é temperado com a ideia restritiva de "bondade" ao institucionalismo religioso. Embora o discurso apele para defender a "bondade" como uma "virtude de todos e de qualquer um", com ídolos religiosos "reconhecendo" até a generosidade de muitos ateus, a verdade é que sempre existe um empenho para privatizar a "bondade" como uma virtude que tenha sempre um selo religioso, como nos selos de garantia de produtos industrializados.

Mas isso ainda é pouco, se percebermos, no caso do "espiritismo" brasileiro, a "bondade" serve de escudo para proteger os deturpadores. O "espiritismo" brasileiro agora conhece o preço caríssimo da catolicização, expressa na quase totalidade das "casas espíritas" e em quase toda a literatura produzida, de romances "mediúnicos" a livros teóricos, e tenta abafar os questionamentos profundos com todas as alegações de "bondade" e "caridade", por meio de apelos emocionais.

Só que isso mostra mais preconceito. A ideia das pessoas de que todo apelo emocional é "positivo" e "saudável" as conforta e qualquer religião que venha com ilustrações de corações fofinhos é sempre "digna de confiança". Só que esquecemos que esse gênero de apelos emocionais, o Ad Passiones, é reconhecido como um tipo de falácia, que é a mentira veiculada como se fosse "verdade indiscutível".

Da mesma forma, também poucos imaginam que o "espiritismo" possa fazer Assistencialismo. Mas faz. Poucos percebem, quando defendem os "médiuns" pela suposta caridade que fazem, que os resultados obtidos são muito medíocres e bastante inexpressivos, afinal se essa "caridade" funcionasse, o Brasil teria atingido padrões escandinavos de qualidade de vida, até pela grandeza e triunfalismo que se costuma associar aos ídolos "espíritas".

Isso cria uma postura bastante ridícula. É muito comum os "espíritas", diante de um suposto progresso humanitário, dizer num momento que "já estamos progredindo" e, em outro, desmentir isso, dizendo que "não foi possível". Dizer taxativamente uma coisa e depois desmentir é um hábito e isso também é usado para mascarar o Assistencialismo, diante dos resultados medíocres obtidos: alegam "terem dificuldades" para "levar adiante os progressos sociais".

A figura do "médium" acaba sendo distorcida diante de tantos preconceitos que se tem da atividade. Perdendo o caráter intermediário original da atividade, o "médium" vira um sacerdote do "espiritismo", sendo o centro das atenções e dublê de pensador e ativista social. E, através de "mediunidades" que claramente soam fake, os "médiuns" nem precisam receber os mortos, diante da arrogância deles em "falar em nome deles" e se promover às custas dos nomes dos falecidos.

O Brasil tem três problemas que permitem tantos preconceitos, aberrações e retrocessos. Um é a desinformação generalizada, combinada com a baixa escolaridade. Outro é o moralismo severo que quer controlar demais a liberdade humana. Terceiro, oposto ao segundo, é a libertinagem que quer condenar até a moral mais prudente.

Isso cria sentimentos surreais como ter medo de ver feminicidas conjugais falecerem e aparecerem nos obituários de imprensa, ou de exaltar a "caridade espírita" em função mais do prestígio do "benfeitor" do que o "mero detalhe" dos "beneficiados". E isso quando funkeiras dançam com os glúteos exibidos para a plateia enquanto se autoproclamam a "melhor definição de feminista" que se tem no Brasil. Depois acusam as feministas do Primeiro Mundo de verem Harry Potter demais...

terça-feira, 20 de junho de 2017

"Médiuns" e palestrantes "espíritas" repetem orgulho dos fariseus

A PRETENSÃO DE QUERER TER RESPOSTAS PARA TUDO - O "MÉDIUM" DIVALDO FRANCO E SUA EXTRAVAGÂNCIA DE QUERER POSSUIR A VERDADE.

O "espiritismo" brasileiro repete práticas, crenças e procedimentos que não apenas causaram vergonha e constrangimento ao pedagogo Allan Kardec como refletem os mesmos vícios dos antigos sacerdotes fariseus que viveram nos tempos de Jesus de Nazaré.

A extravagância da pose "ilustrada", o discurso verborrágico, a falsa humildade, a pretensão de sabedoria absoluta, a pressa em estar mais perto de Deus, tudo isso Jesus reprovava, com muita energia, dos antigos sacerdotes em sua época.

Pode parecer chocante aos brasileiros, desinformados de tudo hoje em dia, verificar esse vício nos oradores e escritores do "movimento espírita", mas eles demonstram, até com certa evidência, esses vícios bastante extravagantes, que só não causam constrangimento às pessoas porque elas estão entorpecidas e seduzidas pelo apelo emotivo das paixões religiosas.

Mas um texto, extraídi de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec (tradução de José Herculano Pires), do Capítulo 07, Bem-Aventurados os Pobres de Espírito, no texto Quem Se Elevar Será Rebaixado, um trecho retirado do Novo Testamento nos alerta para a presunção de encurtar o caminho para o céu, que domina as ambições de muitos palavreadores "espíritas", mesmo aqueles que buscam o tempo todo simular o máximo de humildade nas poses, gestos e palavras:

 "Então se chegou a ele a mãe dos filhos de Zebedeu, com seus filhos, adorando-o e pedindo-lhe alguma coisa. Ele lhe disse: Que queres? Respondeu ela: Dize a estes meus dois filhos que se assentem no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda. E respondendo Jesus, disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber? Disseram-lhe eles: Podemos. Ele lhes disse: É verdade que haveis de beber o meu cálice; mas, pelo que toca a terdes assento à minha direita ou à minha esquerda, não me pertence conceder-vos, mas isso é para aqueles a quem meu Pai o tem preparado. E quando os dez ouviram isto, indignaram-se contra os dois irmãos. Mas Jesus os chamou a si e lhes disse: Sabeis que os príncipes das nações dominam os seus vassalos, e que os maiores exercitam sobre eles o seu poder. Não será assim entre vós; mas aquele que quiser ser o maior, esse seja o vosso servidor, e o que entre vós quiser ser o primeiro, seja o vosso escravo; assim como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em redenção de muitos. (Mateus, XX: 20-28)".

Os "espíritas", em vez de servir, querem ser servidos. Eles falam tanto que as pessoas aguentem o sofrimento, mudem seus pensamentos, abram mão de suas habilidades e se submetam a sacrifícios extremos. Falam tanto em defesa da servidão dos outros, mas eles mesmos, os "espíritas", nem de longe querem ajudar os sofredores, apenas criando um discurso prolixo cuja mensagem poderia se resumir a poucas palavras: "Se vira!".

Os sofredores, evidentemente, fazem sua parte. Tudo o que os "espíritas" pedem aos sofredores, estes já o fizeram. Tiveram jogo de cintura, meteram a cara, mudaram seus pensamentos, forjaram sorriso e alegria em momentos tristes, perdoaram algozes, ampliaram a paciência, tiveram perseverança e até oraram, oraram e oraram muitas preces. Assumiram arrependimentos, reconheceram erros e tudo o mais. Fizeram o inimaginável para vencerem na vida e não venceram.

Quando os sofredores reclamam da falta de sorte, não é por estarem de braços cruzados. Eles fizeram sua parte no serviço que até lhes foi excessivo. O sofrimento que, em tese, se impôs "dentro de suas capacidades de suportá-lo", ultrapassou tais capacidades. Foi como uma dívida que, mesmo totalmente paga, se renova em juros exorbitantes.

O sofredor acaba encarando uma espécie de estelionato moral. Já não é mais encarar dificuldades, mas suportar encrencas e até danos morais pesados, com as circunstâncias ocorrendo para esmagar suas almas e reduzi-las a uma apatia e uma depressão intensas, e, mesmo assim, o "espiritismo" ainda recomenda alegria e esperança nesses momentos de asfixia.

Confundindo desafios com desgraças, aprendizados com prejuízos, os ideólogos "espíritas" parecem não ver a diferença entre natação e afogamento. Uma coisa é a pessoa encarar novas habilidades em tarefas complicadas mas não degradantes, outra coisa é a pessoa ser alvo de humilhação e empecilhos só para obter um menor e relativo benefício.

Uma coisa é nadar contra a correnteza com energia e cautela, para conseguir um caminho para a superfície. Outra coisa é se afogar ao ser tragado pelo mar em onda ameaçadora, com tubarões nas proximidades a devorar o indivíduo, diante de enrascadas sem fim.

O "espiritismo" se revela uma religião desumana, tamanho foi o grau de deturpação que fez, na religião brasileira, mais próxima do imperador Constantino do que de Allan Kardec. E a hipocrisia gritante de tantos palestrantes "espíritas" assusta, porque eles traem Kardec o tempo inteiro, mas também juram com insistência que lhe são "absolutamente fiéis".

Os "espíritas", mesmo forjando "sincera humildade", se tornam extravagantes e presunçosos. Querem ter a posse da verdade, mesmo que não assumam isso no discurso. Lutam para ficar com a palavra final em qualquer coisa, mesmo sob o preço de dizerem uma coisa em um texto ou palestra e, em outra exposição escrita ou falada, dizer uma coisa completamente diferente.

Se acham "sábios" e querem conquistar o céu com seu balé de palavras lindas. Mas às vezes os "espíritas" ferem, com seus juízos de valor em torno do sofrimento alheio. Acham que é fácil um sofredor se dividir entre o trabalho na enxada e a prece, sobrecarregando a mente já estressada que, não raro, é capaz de ferir o pé com a enxada, por um erro de atenção.

Os "espíritas" juram que praticam "caridade plena", e posam cercados de crianças saltitantes durante os festejos da doutrina igrejeira. Fazem uma caridade que só traz resultados medíocres e pequenos, mas comemora demais como se tivesse feito "até demais" pelos necessitados. Quanta leviandade comemorar demais pelo quase nada que se faz!

E como os "espíritas", aparecendo ao lado de personagens ilustres nas fotos de imprensa, querem tanto alcançar o céu. Já imaginam que Divaldo Franco, por exemplo, já tem uma cerimônia pronta para quando retornar à "pátria espiritual".

Acham que Francisco Cândido Xavier já conquistou o "céu". Quanta ingenuidade! Diante de tantas confusões que o grande deturpador da causa espírita fez, não se espera dele que, na volta ao mundo espiritual e na preparação para o reencarne, tenha se revelado o mais ordinário dos ordinários, decepcionado em ver as promessas de ingresso ao Céu se comprovarem muito distantes.

Os "espíritas", se nos basearmos nas parábolas contadas por Jesus, se encaixam naqueles extravagantes religiosos que se exaltam, se não no discurso, mas nas posturas e nos artifícios mais sutis. Os "médiuns", deixando o papel intermediário que lhes deveria caber como obrigação, vivem no culto à personalidade e bancam os dublês de pensadores e ativistas, virando eles mesmos versões atuais dos antigos sacerdotes reprovados firmemente por Jesus.

Desta maneira, os sofredores que tanto recorreram ao "espiritismo" para pedir pão e levaram serpentes, têm o maior mérito de serem consolados, porque tudo fizeram de receita para vencer na vida, e muitos não puderam vencer.

Mas os verdadeiros perdedores são aqueles oradores e escritores que vivem no turismo das belas cidades, exibindo suas coreografias de palavras lindíssimas, investindo num arremedo de caridade só para serem vistos como "bondosos" e fazendo todo um teatro de boas palavras e boas emoções visando o ingresso mais rápido ao Céu. Muitos que pensaram assim já foram rebaixados, ao retornarem ao além-túmulo. Quem sabe o umbral não está cheio desses "bons espíritas"?

segunda-feira, 19 de junho de 2017

O lugar dos espíritas autênticos, segundo os deturpadores do Espiritismo


De repente, houve uma onda de deturpadores do Espiritismo fazendo "emocionados elogios" aos espíritas autênticos. Não se trata apenas da habitual bajulação a Allan Kardec, nem na apropriação tendenciosa dos alertas do espírito Erasto, mas de evocar os nomes de espíritas brasileiros autênticos, como José Herculano Pires e Deolindo Amorim.

Os deturpadores andam publicando textos de espíritas autênticos ou fazendo relatos biográficos dos mesmos. Aparentemente, atendem a uma necessidade de lembrar dos espíritas que lutaram pela valorização dos postulados espíritas originais, mas sendo essa atitude vinda justamente daqueles que praticam o igrejismo e exaltam também outros deturpadores, isso é para desconfiar.

Afinal, é bom demais para ser verdade. A ideia é evitar os conflitos nos bastidores do "movimento espírita" que eclodiram depois que o presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, se aposentou, em 1970, quatro anos antes de morrer.

Sem Wantuil, começaram a se revelar irregularidades a respeito do poder centralizado da Federação "Espírita" Brasileira e sua ganância financeira em torno das vendas de seus livros. Isso criou um conflito entre as federações regionais e a federação nacional que deu origem à "fase dúbia", um "roustanguismo com Kardec" que reagiu ao nome de J. B. Roustaing, símbolo da FEB.

Desta feita, as federações regionais, que passaram a comandar o "movimento espírita" nos últimos tempos, com a FEB apenas atuando de maneira formal, sem intervir nos interesses gerais do movimento, já que a atual fase do "movimento espírita" priorizaria a autonomia das federações regionais.

O que chama a atenção, no entanto, é o simulacro de recuperação das bases doutrinárias, feito pela "fase dúbia". Os ideais igrejeiros originários de Jean-Baptiste Roustaing passaram a coexistir com a aparente apreciação do pensamento kardeciano original. Igrejismo e cientificismo se misturaram e uma promiscuidade ideológica se viu surgir e crescer, dissimulada por apelos à "caridade" e à "fraternidade", tipicamente igrejeiros.

Diferente da Era Wantuil, o "movimento espírita" fez um pacto mais áureo do que o Pacto Áureo de 1949. As federações regionais conquistaram autonomia, influenciadas pelo prestígio dos "médiuns" Francisco Cândido Xavier, mineiro, e Divaldo Pereira Franco, baiano. Um acordo foi feito também para evitar qualquer desavença com os espíritas autênticos, como Herculano Pires e, em tese, até mesmo os mais entusiasmados igrejeiros tinham que se autoproclamar "kardecistas".

O termo "kardecismo" surgiu aí, depois de supostas mensagens espirituais de Adolfo Bezerra de Menezes, um dos fundadores da FEB, alegar "arrependimento" por ter sido roustanguista e passar a apelar para todos "kardequizarem", o que dá o tom da mensagem, já que a expressão "kardequizar" soa como uma corruptela do termo "catequizar", termo referente à pedagogia católica trazida pelos antigos jesuítas, no período colonial.

Só que o termo "kardecista" acabou se desvinculando da essência kardeciana original, daí que os verdadeiros espíritas sempre se afirmam "kardecianos" e não "kardecistas". Isso porque o "kardecismo", que é a "fase dúbia" do "movimento espírita", enfatizou ainda mais ideais roustanguistas, trazidos sobretudo por meio de romances "espíritas" e pelas palestras dos "médiuns" que já descaraterizaram a atividade original e intermediária do médium espiritual.

A "fase dúbia" representou a ascensão de Divaldo Franco, então um emergente entre os astros do "movimento espírita". Mas representou também a reinvenção do mito de Chico Xavier, antes pupilo de Wantuil de Freitas, e desfez-se, no "médium" mineiro, aquela imagem pitoresca e sensacionalista que causou confusões, vide episódios como o julgamento do caso Humberto de Campos e as fraudes da farsante Otília Diogo.

Até o fim da Era Wantuil, Chico era blindado pela TV Tupi. Geralmente, nos Diários Associados, Chico "levava surra" da revista O Cruzeiro e era "socorrido" pela TV Tupi. Mas como o "médium" sempre trouxe energias estranhas - Chico está associado à "maldição dos filhos mortos" por boa parte de seus seguidores verem seus filhos morrerem de repente - , a proteção da TV Tupi também teve seu preço muito caro.

Depois que até a revista O Cruzeiro fez as pazes com Chico Xavier, e após o desfecho do caso Otília Diogo, em que Chico, espécie de "Aécio Neves pré-delação da JBS" dos "espíritas" no sentido da blindagem absoluta, foi inocentado apesar da cumplicidade, a TV Tupi ainda veiculou uma novela "espírita" que a dramaturga Ivani Ribeiro adaptou livremente do livro Nosso Lar, a famosa A Viagem.

Aí os Diários Associados naufragaram na crise, a revista O Cruzeiro se descaraterizou em 1975 - mudou seu projeto gráfico para algo mais simplório e com linha editorial copiada da revista Visão - e a TV Tupi entrou em decadência, forçando a empresa fundada por Assis Chateaubriand (aposentado em 1960 e morto em 1968) a vender boa parte de seu espólio e enfrentar uma greve de funcionários que tinham o pagamento salarial atrasado.

Diante desse quadro, a blindagem de Chico Xavier passou a ser das Organizações Globo, que romperam com a antiga animosidade ao "médium" e contribuíram para reinventar seu mito, enfatizando a suposta caridade com base no que o inglês Malcolm Muggeridge fez com Madre Teresa de Calcutá.

Sem enfatizar façanhas como ser um suposto porta-voz de intelectuais já falecidos ou de supostas práticas de psicofonia e materialização, deixou-se de lado os "dons fantásticos" para reduzir o "médium" a um "carteiro de Deus", forjando mensagens igrejeiras supostamente em nome de pessoas anônimas mortas, prestando um "serviço" aos parentes desses entes queridos.

Era uma construção ideológica que deu mais certo do que apelar para a literatura "espiritual", que soava claramente fake. Não sendo mais os "mortos famosos", mas os "anônimos", os escândalos eram minimizados. Fora esse apelo, Chico ainda seguiu rigorosamente o roteiro que Muggeridge fez para inventar o mito de Madre Teresa.

Com isso, também forçou-se a associação de Chico Xavier com a Doutrina Espírita original, num recurso próprio da "fase dúbia". O maior ídolo do "movimento espírita", oriundo da fase Wantuil, era reinventado e reembalado de forma a ser "digestível" não só por espíritas autênticos, mas também por ateus, esquerdistas e outros perfis ideológicos.

Com a recente estratégia de bajular os espíritas autênticos, os deturpadores do Espiritismo usam uma tática habilidosa, a de estabelecer um vínculo tendencioso com os verdadeiros nomes brasileiros da Doutrina Espírita, para o caso de uma grave crise atingir o "movimento espírita". Mas isso é como políticos do PSDB exaltando personalidades do PT, um oportunismo que não tem a menor credibilidade.

Essa estratégia, no entanto, revela o verdadeiro lugar que os deturpadores do Espiritismo no Brasil reservam aos espíritas autênticos: a "morada" teórica dos livros e do passado biográfico, já que eles estão mortos. Eles que se reduzam à letra "desencarnada" das exposições teóricas, enquanto a "prática espírita" se volta ao mais escancarado igrejismo. Tenta-se ser "kardeciano" na teoria, mas na prática continua-se sendo roustanguista, até mais do que quando se assumia o nome de Roustaing.

A "fase dúbia", com suas múltiplas dissimulações, tentava aproveitar todo tipo de oportunismo. Isso não faz do "espiritismo" uma religião melhor. Pelo contrário, confundir contradição e equilíbrio é algo deplorável, e o que se observa no "espiritismo" brasileiro é um grande engodo doutrinário que só parece "apresentável" para o público leigo. Até este conhecer a podridão nos bastidores, vai achar que "tudo é lindo" no "espiritismo" brasileiro.

domingo, 18 de junho de 2017

A bajulação dos deturpadores aos espíritas autênticos


Nada como um deturpador igrejeiro do "movimento espírita" sair bajulando e exaltando os espíritas autênticos. Não bastassem as bajulações um tanto tendenciosas a Allan Kardec e seus espíritos relacionados - de Jesus de Nazaré a Erasto - , as adulações envolvem também espíritas brasileiros autênticos, como José Herculano Pires e Deolindo Amorim.

Na crise em que vive o "espiritismo" brasileiro, não são poucos os "médiuns" e os palestrantes que deturpam o Espiritismo a correr para o barco adversário, como piratas que migram para o navio inimigo. Assim, tentam "exaltar" a sabedoria e a coerência dos autênticos batalhadores da Doutrina Espírita, como se isso representasse um serviço exemplar para a propagação do verdadeiro Espiritismo.

Mas não é. A bajulação a Herculano, Deolindo, Carlos Imbassahy e outros não é garantia que o deturpador aprendeu realmente a lição e vai se tornar "espírita para valer". A aparente confraternização esconde, sob a beleza do seu discurso e a aparente pureza de seus gestos, objetivos bastante levianos de arrivismo e até de vínculo com causas que lhes são contrárias.

Quantas vítimas dessa adulação viscosa, essa baba de ovo, essa saliva escorrendo pela boca, de pessoas que deturpam o sentido de fraternidade, pregando uma espécie de "fraternidade para mim mesmo", na qual se exalta todo mundo que representa algo positivo e avançado para se obter vantagens pessoais e estabelecer vínculo com as personalidades realmente valiosas que passaram pela Terra.

Quantos bajuladores baratos se escondem em livros, palestras e títulos tão nobres. No "espiritismo" brasileiro, abrigo para tantas mentes medíocres, trapaceiras e canastronas, tantos são os que bajulam todo mundo que estiver ligado a algo positivo. Há aqueles que bajulam até mesmo Ernesto Che Guevara e Jimi Hendrix, talvez para causar impressão no público mais jovem.

Ah, quanta falta de observação de muitos brasileiros, iniciantes, leigos ou mesmo habituais no "espiritismo" brasileiro, de quantas incoerências existem em muitos palestrantes, em parte "médiuns", em outra parte apenas pretensos intelectuais, que com seu balé de palavras bonitas veiculam ideias que se chocam entre si, sendo capazes de escrever uma coisa num texto e outra completamente diferente em outro.

Quantos bajuladores arrancam aplausos com suas belas palavras! Ah, que veneno pode representar um elogio vindo de um bajulador barato, ferindo mais do que uma maledicência aberta! Quantos traidores não estão por trás daqueles que apertam a mão de pessoas de perfil mais avançado, dando-lhe os mais elaborados louvores verbais, para depois apunhalá-los pelas costas praticando ideias contrárias as dos bajulados.

Os brasileiros não observam isso com cautela e aceitam que escritores e palestrantes "espíritas" digam uma coisa num momento e outra depois. Num momento, ficam com o cientificismo de Kardec e juram fidelidade absoluta. Num outro momento, o traem com igrejismo extremado, e ficam com os deturpadores que usam a "caridade" como escudo para seus trabalhos de catolicização do Espiritismo.

Quanta podridão há nos bastidores do "movimento espírita". Quantos roustanguistas de carteirinha se dizem "absolutamente fiéis" a Kardec. Quantos exércitos de palavras são feitos para mostrar o bom mocismo dos deturpadores, que pensam que se pode falar em "caridade" e "fraternidade" para legitimar ideias contrárias à Codificação.

Diante desse esforço hercúleo dos Golias da palavra, dos Constantinos da fé a pregar mistificação, o "espiritismo", que tanto se gaba em "valorizar o Conhecimento", ainda condena o questionamento aprofundado, que tão levianamente define como "falta de perdão", usando expressões fortes como "tóxico do intelectualismo" para esconder seu medo de ser questionado.

Pois Kardec, que aceitava o debate e a controvérsia, nunca aprovaria esse engodo doutrinário, essa "lavagem de porco" a que se reduziu o "espiritismo" no Brasil, misturando igrejismo e cientificismo, ideias fantasiosas e outras realísticas, teorias mediúnicas corretas com mediunidade fake, e pregando a Teologia do Sofrimento sem assumir no discurso essa teoria medieval. O amor não pode proteger a hipocrisia.