terça-feira, 23 de maio de 2017

O "espiritismo" e o Brasil preso no atraso


Quem não está tomado de paixões religiosas poderá prestar muita atenção nas doutrinárias "espíritas" e nas reuniões ditas "mediúnicas", sobretudo aquelas que marcaram a trajetória ao anti-médium mineiro Francisco Cândido Xavier.

Serão observadas energias confusas e pesadas, não porque os "amiguinhos pouco inclinados" precisam "aprender", mas porque eles é que dominam os ambientes, já que o "espiritismo", que optou desde o início pela tendência igrejeira de Jean-Baptiste Roustaing, atraiu para si energias maléficas e nocivas para muitas famílias, que contraem azar com o menor contato "amoroso" com esta doutrina igrejeira.

O "espiritismo" é um reflexo de um Brasil que mistura ambições, dissimulações, fingimentos, e tantos sentimentos, sensações e intenções bastante sombrios, mascarados pela hipocrisia que apela para os mais belos aparatos de bondade, beleza e quase perfeição.

A religião que só evoca o nome de Allan Kardec no nome, todavia, comete traições da mais extrema gravidade aos seus postulados e alertas. Não adianta o "espírita" igrejeiro fingir "querer aprender Kardec" para ter boa conta no Espiritismo autêntico. Aprende a boa teoria, numa "decoreba" doutrinária, mas depois que sai da aula volta ao seu igrejismo mais gosmento.

O quanto o Brasil está atrasado. Nas redes sociais, o que se revelou foi que uma considerável parte dos brasileiros, mesmo aqueles de elite, diploma universitário e aparentemente com alguma base informativa razoável, ainda parece dotada de valores medievais, com sérios preconceitos sociais que o aparato de modernidade, ou a pouca idade e a aparente conectividade na Internet não conseguem esconder.

As paixões religiosas, que, fora do institucionalismo religioso, apelam para aparatos como o Assistencialismo e o Ad Passiones e se apoiam na pós-verdade para explicar qualquer absurdo ou retrocesso na vida, dentro da religião propriamente dita naufragam num mar de ilusões movidas pelo açúcar excessivo das palavras e das imagens comoventes ou alegres.

O "espiritismo" brasileiro tornou-se, então, um caso gravíssimo e é assustador que ninguém se encoraje a questionar essa religião, que na prática tornou-se uma "prima pobre" da Cientologia, fartamente denunciada nos EUA, com documentários exibidos até em emissoras comerciais. Aqui até a mídia mais progressista corrobora os devaneios "espíritas" mais próprios da Rede Globo de Televisão e da revista Veja.

A onda conservadora que varreu o Brasil a partir de maio de 2016, mas que já estava latente desde o começo da década de 1990 apela para uma agenda de retrocessos assustadora, porque, dependendo do saudosismo doentio de uns e de outros, podemos regredir, em alguns aspectos, ao ano de 1974, mas, em outros, pode-se regredir até antes de 1792. Há movimentos querendo a revogação até do Sete de Setembro, movidos por neuroses extremamente doentias.

E o próprio "espiritismo" regrediu tanto que a promessa de "aprender melhor Kardec", que foi o principal aspecto da "fase dúbia" que domina o "movimento espírita" desde 1975, foi em vão. O que se viu foi o acentuamento do igrejismo, mesmo mascarado por evocações pedantes e tendenciosas à Ciência e Filosofia, ao ponto de abraçar a Teologia do Sofrimento e rebaixar o legado kardeciano a uma forma repaginada do velho Catolicismo jesuíta, de caraterísticas medievais.

Que apenas Chico Xavier fosse um devoto da Teologia do Sofrimento (fato confirmado não por assumir teoricamente essa ideologia, mas pelas ideias professadas, ou seja, um "conteúdo" manifesto sem o "rótulo"), vá lá, pela formação social que ele teve. Mas a Teologia do Sofrimento, até pela influência que ele exerceu no "movimento espírita", passou a ser o maior princípio do "espiritismo" brasileiro, muito mais do que qualquer postulado kardeciano, mesmo os mais deturpados.

Até os meios de popularizar o "espiritismo" brasileiro enfatizam mais o igrejismo, como os romances "espíritas", as sessões "mediúnicas", as reuniões nos "centros espíritas", o conteúdo das publicações desta doutrina. Poucos percebem que muitas dessas ideias e práticas tidas como "kardecistas" (termo que já se torna pejorativo em relação a Kardec) são na verdade herança de J. B. Roustaing.

O atraso do "espiritismo" brasileiro é profundo e assustador, vendo que muitos incautos imaginam que Chico Xavier e Divaldo Franco são os "donos do futuro". Duas pessoas retrógradas, o primeiro um caipira ortodoxo e ultraconservador, o outro um sujeito com ares de professor dos anos 1930, dos velhos tempos da oratória rebuscada, das ideias truncadas e do pretenso saber hierarquizado, pomposo e pedante.

Evidentemente, quem é seduzido pelas paixões religiosas, acha que isso "não faz sentido". Vai tentar argumentar, com sua "ginástica intelectual" e seu malabarismo retórico, que isso "não existe" e que o "espiritismo" é futurista e que o Brasil é o "país mais moderno do mundo", e que no Brasil só os "romanos" é que sofrem os prejuízos graves tão conhecidos no nosso cotidiano.

São argumentos desesperados de gente que quer ter a posse da verdade, sem saber sequer a natureza das situações que existem, e que são bastante sombrias. Ver que os brasileiros estão regredindo até para os padrões sociais de 79 d.C, quando Pompeia e Herculano foram destruídas pelas lavas e pedras do Vesúvio. Quantos Vesúvios teria que ter o Brasil diante de tantas Pompeias e Herculanos?

segunda-feira, 22 de maio de 2017

"Espiritismo" e o poder descomunal da Rede Globo


Existe uma frase irônica que diz que o Brasil é uma concessão da Rede Globo. O poder descomunal e sem limites da rede televisiva, surgida em 1965, se expressa na determinação de comportamentos, costumes, gírias, visões de mundo, vestuários e até gosto musical, com um poder manipulador sem precedentes na História do Brasil. A Globo até escolhe e derruba presidentes da República de acordo com seus interesses estratégicos, se comportando como se fosse um partido político.

Se você fala "balada" para definir a "vida noturna" ou "galera" para definir todo tipo de grupo social, acha o ex-presidente Lula "o maior corrupto do Brasil de todos os tempos", adora ver futebol nos fins de noite de quartas-feiras, enxerga a realidade como se fosse uma novela e acha que tratar bem as crianças é fazer festinha todo fim de semana, isso significa que não há escapatória: você de alguma forma é influenciado pela Rede Globo, por mais que odeie a emissora.

Muitas pessoas também falam "cliente" em vez de "freguês", a ponto de alguns imaginarem por que Eduardo Paes, afeito a tantas tolices, não determinou a mudança de nome de dois bairros homônimos cariocas, na Ilha do Governador e em Jacarepaguá, de Freguesia para Clientela. Também é influência da Globo, que chegou ao ponto de definir como será o vocabulário a ser falado pela população.

Os "espíritas" também não sabem que a imagem de "filantropo" associada a Francisco Cândido Xavier, tão tida como "espontânea" e "natural", também é fruto da manipulação da Rede Globo, que precisava de um ídolo religioso "ecumênico" para tentar neutralizar a ascensão de pastores neopentecostais que arrendavam horário em emissoras concorrentes, como Edir Macedo, mais tarde dono da Rede Record.

Chico Xavier já era um ídolo religioso inventado pela habilidade publicitária do então presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, para impulsionar a venda de livros. Reunindo estereótipos de devoção católica, ingenuidade caipira e o apelo sensacionalista da suposta paranormalidade, Chico Xavier tornou-se um mito arrivista, mais próximo de um velocino de ouro do que de um equivalente brasileiro de Jesus de Nazaré, personalidade já bastante deturpada por católicos e evangélicos.

O mito de Chico Xavier, no entanto, era bastante confuso nas mãos do agressivo Wantuil. E a alegação, depois mentirosa, de que Chico "recebia" mensagens de literatos mortos, só causou problemas e foi essa malandragem que acabou trazendo ao "espiritismo" brasileiro as energias malévolas que acabaram permanecendo neste movimento religioso, por mais que seus líderes e adeptos reneguem tal realidade.

Chico Xavier era blindado pela Rede Tupi, o que mostra o quanto o poder televisivo adora mitos que misturem paranormalidade e beatitude católica. Um "católico sem ser católico" é o que o "espírita" acabou se tornando, virando uma marquize de fé para católicos não-praticantes com preguiça de encarar a ginástica do senta-e-levanta das missas dominicais.

Mas, morto Wantuil, Chico Xavier passou a ter o mito "redesenhado" pela Rede Globo de Televisão. Eliminaram-se os aspectos confusos e, da "mediunidade", destacou-se menos a suposta comunicação com os intelectuais do além-túmulo e se enfatizou mais as "cartas" dos "anônimos falecidos".

Fora esse detalhe, o mito de Chico Xavier obedeceu rigorosamente o roteiro que o inglês Malcolm Muggeridge bolou para outro mito religioso duvidoso, Madre Teresa de Calcutá. Tida como "símbolo de caridade", Madre Teresa, que por ironia se assemelhava fisicamente à Bruxa do Mar (Sea Hag, em inglês), vilã das estórias do Popeye, foi mais tarde denunciada pelo jornalista Christopher Hitchens por ter mantido doentes e miseráveis em condições sub-humanas em suas "casas de assistência".

Chico Xavier, que defendeu o golpe militar de 1964 e apoiou a ditadura, com suas próprias palavras, num programa de TV de grande audiência - e, hoje, também muito visto no YouTube - , seguiu o mesmo roteiro de Muggeridge: chegava a uma "casa de caridade", era recebido pela multidão, carregava bebê no colo, saudava populares, cumprimentava miseráveis nas ruas, entrava na casa, via doentes na cama e meninos pobres tomando sopa e depois ia à mesa no salão dar depoimentos que vão virar frases de efeito, supostos "pensamentos de sabedoria".

A Rede Globo, portanto, recriou Chico Xavier de uma forma "limpa", adaptando para o contexto brasileiro o roteiro de Malcolm Muggeridge no documentário sobre Madre Teresa e aplicou a fórmula em seus programas jornalísticos, a partir de uma edição do Globo Repórter, mas depois seguida pelo Fantástico e pelo Jornal Nacional.

As pessoas que levam naturalmente a abordagem televisiva como se fizesse parte de suas vidas pessoais passou a assimilar o mito de Chico Xavier naturalmente. Sem a batina católica, o "médium", promovido a um pretenso filantropo - praticando o mesmo Assistencialismo que serve para a promoção pessoal do apresentador Luciano Huck - , servia tanto para alimentar as fortunas dos dirigentes da FEB e federações regionais quanto para reforçar o poder da Rede Globo.

No primeiro caso, considerando que o poder centralizador da FEB deu lugar a um poder relativo frente às federações regionais, já que estas comandavam a "fase dúbia" do "movimento espírita" (um igrejismo fantasiado de "recuperação das bases kardecianas"), o mito de Chico Xavier, sem as confusões pitorescas da Era Wantuil, criava a esperada estabilidade de um ídolo religioso que fazia o "milagre" de vender livros e outros produtos que enriquecessem os cofres dos dirigentes "espíritas", sob o pretexto do "pão dos pobres".

No segundo caso, se permitia a popularização de um "católico sem batina" cujo apelo poderia ser "ecnumênico", atingindo, se possível, até os ateus. É um grande truque publicitário, que faria com que um ídolo religioso fosse adorado "sem pretensões" e "sem vínculos institucionais", ou seja, um ídolo religioso que ultrapassasse barreiras da própria religião "espírita", de forma a barrar a influência dos pastores eletrônicos das seitas neopentecostais, derivadas da pioneira Igreja Nova Vida.

Com isso, empurrava-se a adoração do moderno "velocino de ouro" que sempre foi Chico Xavier, alvo de doentias paixões religiosas (tão perigosas quanto as paixões do sexo e da fortuna) até para setores das esquerdas, em que pese o "médium" ter esculhambado os movimentos sociais, como camponeses e operários, na TV, e ter defendido a ditadura militar, pedindo para o povo orar em favor de generais (e, por conseguinte, torturadores) que "construiriam o reino de amor do futuro".

A "bondade" de Chico Xavier é tão fictícia quanto uma novela da Globo, pois vemos que sua "caridade" quase nada ajudou. Era muita ostentação para atos frouxos de mero Assistencialismo, parecidos com os que Luciano Huck faz ultimamente, que trazem muito pouca ajuda, não transformam a sociedade e só servem para a promoção pessoal do "benfeitor", idolatrado em excesso pelo muito pouco que fez.

Foi uma campanha tão bem construída que criou uma falsa unanimidade, o que mostra o quanto os efeitos da fábrica de consenso podem ser produzidos. A Globo determina que gíria deve ser falada ou que ídolo religioso deve simbolizar um paradigma de "bondade" que garanta o sossego dos privilegiados extremos, "resolvendo" a pobreza sem ameaçar as fortunas dos ricos e poderosos, e criando uma figura que se torna alvo de idolatria cega típica das mais mórbidas paixões religiosas.

As pessoas acabam achando tudo natural, assimilando o que a TV determina como se fosse a voz de suas próprias consciências. Isso é muito perigoso e mostra o quanto a mente de um executivo da Rede Globo pode, depois, se converter numa suposta vontade popular a ponto de ser endossada até mesmo por aqueles que aparentemente odeiam a emissora. Se a Rede Globo consegue exercer sua influência até nos seus detratores, isso significa um perigoso privilégio de poder. Um poder descomunal.

domingo, 21 de maio de 2017

Chris Cornell e o suicídio "por acidente"

A BANDA DE ROCK DE SEATTLE, EUA, SOUNDGARDEN - Chris Cornell é o terceiro da esquerda para a direita, sem jaqueta.

Há poucos dias, faleceu o cantor e guitarrista Chris Cornell. Tendo feito sua carreira com eventuais trabalhos solo e à frente de bandas como Soundgarden, Audioslave e Temple of the Dog, o músico era um dos nomes do grunge que marcou a cidade de Seattle, no noroeste dos EUA, na década de 1990.

O grunge foi um movimento marcado pela tragédia, desde quando ainda não fazia sucesso. Em 1990, bem antes do sucesso do Nirvana, o vocalista de outra banda, Andrew Wood, do Mother Love Bone, foi encontrado morto. Meses depois, os remanescentes do grupo formaram o Pearl Jam com outro vocalista, Eddie Vedder, que, pelo jeito, deve ser um dos principais sobreviventes do gênero.

Em 1994, foi a vez de Kurt Cobain, o controverso líder da banda Nirvana, que maior sucesso teve no grunge. Em 2002, o vocalista do Alice In Chains, Layne Staley, faleceu. Até o "forasteiro" do gênero, o grupo Stone Temple Pilots (que não veio de Seattle, mas de San Diego, Califórnia), teve sua tragédia: o vocalista original e fundador da banda, Scott Weiland, faleceu por overdose aos 48 anos, em 2015.

A maioria dessas mortes se deu por overdose, mas Chris Cornell seguia tratamento contra as drogas. Ele tinha que tomar um remédio para ansiedade, Ativan, cujos efeitos colaterais seriam uma angústia e um estresse extremos, que provocam desejos suicidas.

Segundo sua viúva, Vicky Cornell, o marido parecia bem. Além de seguir naturalmente sua carreira musical, ele parecia um marido e um pai exemplar. Fora esses efeitos causados pelo remédio, que além do mal-estar o faziam ficar com a mania de balbuciar palavras, ele levava uma vida normal e se relacionava bem com os familiares e amigos. Musicalmente, parecia mais experiente e consolidado como músico e compositor.

Chris Cornell morreu por enforcamento, aos 52 anos. O falecimento comoveu o cenário roqueiro e até o veterano Jimmy Page, famoso pela banda Led Zeppelin, elogiou o músico. A perda do líder do Soundgarden chegou a ser considerada como o fim de um cenário que já havia sido mutilado por tantas tragédias, e que parece ter nas bandas Pearl Jam e Mudhoney seus últimos remanescentes.

O "espiritismo" brasileiro costuma ter uma má vontade com suicidas. A doutrina igrejeira brasileira considera o suicídio um "crime hediondo", enquanto considera o homicídio um "crime culposo", expressando um moralismo estranho, que culpabiliza a vítima e transforma o algoz num "agente involuntário" de uma suposta justiça moral.

NINGUÉM SE SUICIDA POR DIVERSÃO

Cada vez mais voltado à Teologia do Sofrimento, já que o "espiritismo" brasileiro regrediu a ponto de, hoje, estar reduzido a uma versão repaginada do velho Catolicismo jesuíta do Brasil-colônia (é constrangedor ver o legado de Kardec reduzido, no Brasil, a um "outro Catolicismo", apenas sem as formalidades da Igreja Católica propriamente dita), o "espiritismo" não consegue compreender que ninguém se suicida por diversão.

Mesmo o entretenimento macabro do Jogo da Baleia Azul reflete neuroses ocultas por trás. O idealizador do jogo declarou que queria fazer uma "limpeza social" na humanidade, ao incluir o suicídio como "etapa final". Mas quem se suicida é porque têm em sua mente dificuldades e angústias que consideram incapazes de superar.

Os "espíritas" é que, em seu moralismo, acabam incentivando o suicídio. Confundem desgraça com desafio, sofrimento com aprendizado, e ainda ficam felizes quando pessoas acumulam desgraças aqui e ali, dizendo, com um mal-disfarçado sadismo, para as pessoas fazerem mais preces para superar as suas dificuldades extremas.

O moralismo "espírita" fala até em "amar o sofrimento" e apelam à pessoa a "combater sua pior inimiga, que é ela mesma". Diante desse apelo, os "espíritas" deveriam tomar muito cuidado com as palavras, porque esse papo de "vencer a si mesmo" é, na prática, um apelo acidental ao suicídio. E como o angustiado extremo não vê diferença entre sofrer na vida ou no além-túmulo, ela vai se destruir mais ainda ao ouvir que ela é "inimiga de si mesma".

O "espiritismo" não consegue ver as razões do suicídio. Reprova o suicídio até com raivosa energia, mas não consegue ver as condições que levam a pessoa a se matar. Nem todos têm os mesmos interesses e vontades, e as pessoas não só são empurradas para enfrentar barreiras de difícil superação, mas também oportunidades erradas, pressões de conveniências e um quadro de injustiças e desigualdades que só permitem que as pessoas compactuem para "vencerem na vida".

O Brasil é um país desestruturado, marcado pelo profundo atraso social, com forças diversas querendo que haja retrocessos que "devolvam" a sociedade brasileira a cenários lamentáveis em que apenas uns poucos detém vantagens exorbitantes, enquanto outros estabelecem a negociação do cheiro de mofo com o ar puro, com vantagem maior ao primeiro.

É essa volta forçada a 1974, época de uma "democracia" castrada, que hoje causa a crise política em níveis extremos, uma crise que não é muito diferente ao "espiritismo" de postura "dúbia" que se tornou incapaz de disfarçar sua intenção em ser tão somente um "outro Catolicismo", mais informal porém muito mais conservador.

E é esse conservadorismo que faz com que os "espíritas" condenem o suicídio, mas de maneira contraditória apelam para as pessoas aguentarem as muitas desgraças acumuladas na vida e enfrentem obstáculos difíceis de serem superados. E é gozado que, para uma religião que defende a servidão e a submissão, seus membros ainda pedem para os sofredores fazerem mais preces. Com tanto trabalho que os infortunados têm na vida, que tempo eles terão para se recolherem para orar?

sábado, 20 de maio de 2017

Apoiado por "espíritas", governo Michel Temer sofre grave crise


2016. Com a saída de Dilma Rousseff e a ascensão do vice Michel Temer ao poder - implantando um projeto político oposto ao da titular afastada do poder - , os "espíritas" vieram com um novo discurso: pediram para os sofredores "amarem o sofrimento", "abrirem mão de suas próprias necessidades e talentos" e "perdoarem os abusos dos algozes".

De repente o "espiritismo" saiu do armário e vestiu a camisa da Teologia do Sofrimento (corrente medieval da Igreja Católica), que apenas era mais explícita na obra pessoal de Francisco Cândido Xavier (mesmo aquelas que supostamente levam os nomes de personalidades mortas, famosas ou não).

Eram apelos por vezes taxativos, que pediam para o sofredor deixar de reclamar da vida e conhecer as "belas lições" das desgraças acumuladas. Uns até diziam para as pessoas "olharem os passarinhos", ver o "rio tomando seu curso" etc. A frequência com que os "espíritas" faziam tais apelos chamava a atenção e sugeria uma imagem subliminar.

Embora os "espíritas", aparentemente, não tenham dado ênfase ao apelo de "orar pelo novo governante para que ele governe pensando no próximo e baseado nos princípios cristãos", o "espiritismo", no fundo uma religião ultraconservadora, deixou subentendido seu apoio ao governo do presidente Michel Temer, hoje em crise por causa de denúncias dadas por empresários do grupo JBS, que controla vários setores, como alimentos (em especial carnes), higiene pessoal e calçados.

Algumas posturas sinalizam isso. Periódicos como "Correio Espírita" e "médiuns independentes" (sem vínculo com a FEB) como Robson Pinheiro associaram as passeatas do "Fora Dilma" a supostos processos de "regeneração" e "despertar da humanidade", mesmo quando tais manifestações exibissem cartazes nazistas, apelos pela "intervenção militar" (eufemismo para golpe militar) e seus grotescos líderes juvenis estimulassem seus seguidores até a baixarem as calças em plena rua.

A situação fez o "espiritismo" cair a ficha e revelou o lado sombrio da "fase dúbia", a contraditória etapa do "movimento espírita", vigente desde a saída de Antônio Wantuil de Freitas da FEB em 1971 e sua morte em 1974, na qual os "espíritas" igrejeiros fingiram abandonar o roustanguismo para prometer uma nunca praticada "recuperação das bases kardecianas originais".

A "fase dúbia", que se autoproclamava "kardecista" (termo que se tornou pejorativo entre os espíritas autênticos, que preferem a denominação "kardeciana") e prometia "kardequizar" (termo que subentende um igrejismo dissimulado, sugerindo uma corruptela do termo "catequizar"), reduziu a apreciação das ideias originais de Allan Kardec à palavra morta (ou desencarnada?) da teoria, mas a prática não só continuava sendo igrejeira e catolicizada como ela se acentuou mais neste sentido.

A catolicização se acentuou sobretudo nas atividades "espíritas" de entretenimento, como a veiculação de romances, novelas e canções "espíritas" que mais parecem versões informais do Catolicismo, aliadas de uma ótica "espiritualista" que lembra mais os contos de fadas, com dramalhões moralistas dignos dos mais piegas folhetins televisivos.

O "espiritismo" acabou entrando no "espírito do tempo" (olha o trocadilho), no qual empresários, celebridades e até esportistas passaram a deixar claros seus preconceitos sociais e suas intenções de reverter as conquistas sociais do povo, defendendo retrocessos sociais profundos que façam mais as pessoas sofrerem do que serem beneficiadas de maneira profunda e definitiva.

Se, por exemplo, o publicitário Nizan Guanaes passou a defender as medidas impopulares de Michel Temer e o empresário da "moderna" loja Riachuelo (que agora usa a insólita logomarca RCHLO), Flávio Rocha, defendendo a precarização do emprego, vemos Divaldo Franco sorridente acusando, no seu juízo de valor, os refugiados do Oriente Médio de terem sido "tiranos colonizadores" em encarnação anterior.

O "espiritismo" mostrou a que veio, como se fosse uma versão "modesta" da Cientologia, e provou ser na verdade um subproduto de uma sociedade ao mesmo tempo ultraconservadora e dissimulada, metida a moderna, como se pudesse subordinar o futuro ao passado mais retrógrado. Tornou-se a religião do neo-conservadorismo, até mais do que as seitas neopentecostais, que podem ser "neo" pentecostais, mas seu conservadorismo, pelo menos, é assumidamente "velho".

Já o "espiritismo" é o "velho" travestido de "novo". A gente até pergunta se o governo Temer é um governo "espírita". Todos os ingredientes estão lá: um moralismo castrador, a precarização da vida na perspectiva de "melhorias futuras", a renúncia aos próprios projetos de vida, a restrição da qualidade de vida, etc. Temer chegou a citar a frase "Não fale de crise, trabalhe!", lembrando Emmanuel: "Não reclame! Trabalhe e ore!".

O "espiritismo" brasileiro chegou ao ponto de, com seu moralismo e igrejismo extremos, regredir aos moldes do Catolicismo jesuíta do Brasil-colônia. Na prática, rebaixou-se a uma versão repaginada do Catolicismo medieval, porque se comporta mais como um "outro Catolicismo", sem as formalidades da Igreja Católica, mas também com velhos valores católicos que os católicos propriamente ditos abandonaram. O "espiritismo" vive do lixo descartado pela Igreja Católica.

E, diante da crise aguda do governo Temer, o próprio "espiritismo" vive também uma grave crise. Com uma série grande de contradições que não se resolvem, os "espíritas" tentam apelar, além dos aparatos de Ad Passiones (imagens e textos que apelam para a emoção) e Assistencialismo (caridade que pouco ajuda e só promove o "benfeitor" da ocasião), para uma "solução" que na verdade foi a fonte do próprio problema, a "promessa de estudar melhor a obra de Kardec".

Essa promessa já foi feita na "fase dúbia", diante da crise do roustanguismo, do fim da Era Wantuil e das crises no "movimento espírita" que reduziram o poderio da FEB e fizeram roustanguistas históricos "virarem kardecistas" para agradar personalidades como Herculano Pires e Deolindo Amorim, espíritas autênticos que denunciaram a deturpação.

Pois essa promessa é que deu com os burros n'água. Os deturpadores prometeram "estudar melhor Kardec" e continuaram praticando seu igrejismo, enquanto fingiam compreender a teoria kardeciana. Agora que suas contradições vêm à tona, fazem a mesma promessa, como cães que correm atrás do próprio rabo. Só que será a mesma coisa de hoje, e as contradições nunca se resolverão. Daí a crise aguda do "espiritismo" brasileiro, no Brasil do governo "espírita" de Michel Temer.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Nos acostumamos mal com o "espiritismo" deturpado


O Brasil vive uma situação vergonhosa. Se acostuma fácil com absurdos e realidades surreais, convivendo com eles durante décadas, a ponto de reagir, não só com estranheza, mas com certa indignação, quando se revela a verdadeira natureza de tais absurdos.

Há pelo menos 73 anos, convivemos com um "espiritismo" que fingimos estar de acordo com as ideias de Allan Kardec. De fato, o "espiritismo" brasileiro era deturpado até uma década antes da fundação da Federação "Espírita" Brasileira, mas ele se consagrou quando a Justiça se recusou a punir a farsa "psicográfica" de Francisco Cândido Xavier e seu "Humberto de Campos" que falava mais como um melancólico padre católico do que o altivo intelectual que era o autor maranhense.

Coisas absurdas, quando se consagram, ganham um aspecto de falsa estabilidade. É como num cálculo complexo de Matemática, que envolve várias operações, das quais a primeira é feita de maneira errada, enquanto as outras aplicadas corretamente. O resultado será sempre errado, mas o aparato dos bons cálculos depois do primeiro malfeito dá a falsa impressão de ser um cálculo corretíssimo do começo ao fim.

As pessoas não percebem o fedor de certos ambientes, as armadilhas sob a relva, o excesso de "açúcar" em palavras e narrativas aparentemente belas, e permanecem nas zonas de conforto de tal forma que acreditam até em maneiras erradas de sair da zona de conforto.

Vivemos num país cheio de erros gravíssimos e achamos natural. Muitos tentam até manter essa situação, porque lhes parece agradável, misturando pompa excessiva, pieguice e falsa modéstia aqui e ali. Como numa operação matemática começada errada, as pessoas tentam criar uma falsa estabilidade num contexto social brasileiro que deixa o resto do mundo de cabelos em pé.

Ser medíocre, sórdido e dissimulado, no Brasil, é erroneamente considerado como originalidade, e isso nunca fez o país sair da situação viciada em que se atola, se apegando a paradigmas de atraso diante de várias desculpas, como a falsa promessa do atraso "se modernizar" e do sórdido se "limpar", além de sempre apelarmos para o "velho" para conduzir o "novo" no nosso país.

Para conduzir a Doutrina Espírita, por exemplo, apelamos para um caipira ultraconservador, com uma mentalidade ainda apegada ao Segundo Império e que era um católico ortodoxo, de inclinação medieval. E o pior é que as pessoas se apegam a ele por uma idolatria cega e excessivamente piegas, que também é uma demonstração de um sentimentalismo velho, que cheira a mofo tóxico misturado com poeira forte acumulada há muitos e muitos anos.

Sim, estamos falando exatamente de Francisco Cândido Xavier, do Chico Xavier que ainda é alvo de extrema idolatria de seus fanáticos seguidores ou de simpatizantes que, agindo por boa-fé, se deixam levar pelo estereótipo do "velhinho frágil" de "sorriso choroso" que representa velhos paradigmas de devoção religiosa e virtudes morais ideologicamente conservadoras.

O Brasil é extramente conservador e frequentemente nos chocamos quando vemos pessoas que pareciam modernas se revelarem tão obscurantistas. Não se trata apenas de um rebelde Lobão, roqueiro que se revelou ultrarreacionário, nem de jovens com aparência de surfistas que nas redes sociais defendem a intervenção militar e se declaram fãs de Jair Bolsonaro.

Mesmo pessoas tidas como progressistas, como artistas performáticos, ativistas feministas, pessoas de comportamento provocativo etc, se revelam conservadoras. O Brasil acumulou tanto seu conservadorismo que aqui o feminismo precisa negociar duplamente com o machismo para ter vez na sociedade brasileira.

Nesta negociação, ou a mulher trabalha seu feminismo sob a "proteção" de um marido poderoso - seja ele empresário, político, executivo ou profissional liberal - , ou ela se submete ao machismo recreativo fazendo o papel de "objeto sexual".

Nos últimos tempos, diante da crise da hipersexualização brasileira, a cantora de "funk" Valesca Popozuda tornou-se remanescente entre aquelas que ainda se projetam não só com a imagem de "objetos sexuais" mas como arremedos sutilmente depreciativos da imagem da "feminista solteira", que no Primeiro Mundo nada tem a ver com "funk" nem com hipersexualização.

O que se vê é que o Brasil acumulou mofo em seus valores sociais. Mesmo quando havia os governos progressistas de Lula, o ultraconservadorismo social era latente, em muitos casos escancarado (como na campanha de veículos midiáticos como Rede Globo e Veja), em outros dissimulado (quando pessoas reacionárias em valores culturais fingiam um falso progressismo político visando obter vantagens e promoção pessoal).

Até a chamada "cultura popular" foi alvo de uma campanha que visava mais manter os padrões simbólicos da pobreza social - como o alcoolismo, a prostituição e o comércio de produtos velhos, piratas ou clandestinos - do que desejar melhorias ao povo pobre, que só poderia ser "assistido" pelo paternalismo da intelectualidade complacente, uma espécie de Assistencialismo cultural.

E aqui entra um grave problema que se torna a desculpa usada para defender os deturpadores do Espiritismo e garantir a reputação deles. É o Assistencialismo que, em muitos casos, é feito sob o rótulo de "Assistência Social".

Sabe-se que Assistência Social é uma filantropia que transforma profundamente, não raro ameaçando os privilégios dos ricos, enquanto o Assistencialismo é apenas uma filantropia pontual e parcial, que beneficia muito pouco e expõe mais o benfeitor, que se promove demais com tão pouca ajuda.

Não bastasse o "médium espírita" ser uma monstruosa aberração no Brasil, devido ao "culto à personalidade" que os ditos "médiuns" recebem por virarem dublês de pensadores a espalhar a deturpação espírita, eles, com seu arremedo de filantropia, representação típica do Assistencialismo que hoje é questionado através do exemplo midiático de Luciano Huck.

Poucos percebem o quanto é vergonhoso haver, no caso das caravanas "filantrópicas" de Chico Xavier, tanto espetáculo, tanta ostentação e tanta euforia, além de tanto aparato de fileiras de carros desfilando pelas cidades, só para uma mera doação de mantimentos e roupas velhas. Os mantimentos, entregues a famílias numerosas ou a muitos indivíduos pobres, se esgotam em duas semanas, mas o "carnaval" feito pelo Assistencialismo dura, no mínimo, um ano.

Poucos também percebem o quanto o suposto "maior filantropo do Brasil", Divaldo Franco, é tão festejado por sua Mansão do Caminho que não ajuda 1% da população brasileira, enquanto o suposto médium faz pomposas turnês pelas maiores cidades da Europa e dos EUA, fazendo palestras para ricos, recebendo medalhas e títulos e só trazendo migalhas para os assistidos, enquanto o bairro de Pau da Lima é entregue à criminalidade ocorrida até à luz do dia.

É até risível que os brasileiros endeusem demais quem ajuda pouco, achando que basta ter um rótulo religioso para ser considerado "filantrópico" (uma noção tipicamente medieval, submeter a bondade a um subproduto da religião). Isso quando os mesmos brasileiros são convidados a desmoralizar com muito ódio o ex-presidente Lula, que buscava resolver as mais aprofundadas desigualdades sociais com seu projeto político progressista de valorização do emprego e qualidade de vida.

Constatações assim chocam as pessoas, que, diante de um Brasil emporcalhado com valores retrógrados e injustiças sociais aprofundadas, se acostumam com essa realidade cruel e absurda, em muitos e muitos aspectos. Quando pensam em sair da "zona de conforto", jogam fora o que mais precisam, enquanto se apegam ao supérfluo, ao fútil e até ao nocivo.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Quando o sofredor torna-se escravo das ilusões dos outros


Em muitos casos, o problema, no sofrimento humano, não é a desilusão nem a desgraça em si. Se ocorrerem na dose moderada, como um remédio tarja preta para uma doença grave, a pessoa pode até aprender certos impasses e armadilhas e conhecer seus próprios limites.

O grande problema é que, além das desilusões e desgraças serem excessivas e, em muitos casos, há mais prejuízos do que desafios - como a pessoa que, querendo promover um debate na Internet, é vítima de cyberbullying e ganha até blogue de difamação de um desafeto mais afoito - , os sofredores ainda têm que ser escravos das ilusões dos outros.

Isso cria um enorme quadro de injustiças. Afinal, existem pessoas que sofrem demais, acumulando sobressaltos, traumas, decepções pesadas e estresses que mais as desanimam do que revigoram, e outras que naufragam no mar da ilusão sem fim.

E como a realidade não é tão simples como se imagina, vemos o quanto pessoas que se dizem ter jogo de cintura e capacidade de darem a volta por cima são impotentes. Há até casos, nas famílias, muito comuns, de pais quererem que seus filhos fossem não somente obedientes e servis a eles, mas também representassem as ilusões juvenis que os pais já não têm mais condições de viver.

Sim, os filhos se transformam em instrumentos dos desejos frustrados dos pais, vivendo a "juventude" que os pais não viveram! E isso é apenas um aspecto, num contexto em que o mercado de trabalho acolhe mais humoristas do que pessoas capazes de algum ofício, com patrões se gabando porque torcem por um time de futebol enquanto seus melhores empregados torcem por outro.

Como a Teologia do Sofrimento representa muita ilusão para seus detentores. Quantos pregadores da apologia ao sofrimento alheio, adeptos da frase "quanto pior, melhor", que pouco se importam em ver os desafortunados não apenas aguentarem suas limitações, sua perda de controle sobre o próprio destino, mas também se sujeitarem à se servirem das ilusões dos outros.

É o rapaz que quer namorar uma mulher de caráter, mas atrai para si uma mulher fútil e sexualmente impulsiva. Ou a mulher que quer namorar um homem de caráter, mas atrai para si um homem fútil que só pensa em dinheiro. Mas isso é apenas o que há de manjado na subordinação à ilusão alheia.

Quantas ilusões as pessoas dotadas de maior status quo, que se acham resolvidas na vida, contraem para si. E o fato do sofredor "ter jogo de cintura" para "vencer na vida", não só aguentando desgraças, perdendo o controle de seu próprio destino, mas também se sujeitando a servir à ilusão alheia, nem de longe traz alguma evolução ou proveito, antes criando apenas um tipo de "escravo social".

ESCRAVIDÃO SOCIAL

Certa vez, no programa Encontro com Fátima Bernardes, o surfista Adriano de Souza, o Mineirinho, havia descrito uma ideia bem típica das que compõem a Teologia do Sofrimento: "se você encarar as dificuldades, você vence fácil".

Descontando a asneira da frase - é claro que, se alguém encara uma dificuldade, nunca irá vencer fácil, porque, mesmo que a vitória seja garantida, ela é sempre difícil - , o que se observa é que o fato de "vencer na vida" oculta situações de conveniências, jogos de interesses, abandono até de vocações, que mais mutilam o aprendizado humano do que realmente o aprimoram.

Que "vitória na vida" não pode esconder jogos de interesses, que reduzem o sofredor a uma "mentira humana", pegando a primeira oportunidade que obtém, nem sempre a mais proveitosa, nem sempre a mais vantajosa? Que acordos podem ser feitos diante da desgraça alheia, "amputando" talentos, "decapitando" vocações, para a pessoa apenas obter dinheiro e algum prestígio social?

Muitos brasileiros ainda se apegam às ilusões do sofrimento extremo do outro ou da caridade paliativa. No caso da "caridade", muitos se esquecem do quanto de propaganda há, que promove demais o "benfeitor" diante do pouquíssimo benefício que traz. Ou o quanto de lavagem de dinheiro, de desvios de verbas públicas, de superfaturamentos que estão por trás de ações "filantrópicas".

E com que dinheiro Divaldo Franco usou para viajar tanto para o exterior espalhar a deturpação do Espiritismo? Ou será que ele viaja carregado pela luz que parte de sua mente serena e seu balé de palavras dóceis?

E o sofrimento humano? Ele apenas cria gênios e figuras humanistas? Não. Em muitos casos, o sofrimento além da conta cria suicidas, tiranos, assassinos, corruptos, ladrões, porque a falta de controle do próprio destino esmaga muitas almas, semeando não o amor e a perseverança, mas o ódio, a depressão, o medo, a vingança, a malícia e a cupidez.

E a escravidão social, que faz da pessoa que tanto necessita de uma evolução moral e humana, se reduzir a uma mentira de si mesmo, servindo às ilusões de outrem, não garante o progresso espiritual, antes sendo apenas uma forma de sobrevivência "dentro do possível" que desperdiça um prazo estimado em 80 anos com uma vida "qualquer nota". Tantos sorrisos fingidos por nada, apenas para agradar aos outros, auxiliar arrivistas e agradar privilegiados.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Mensagens duvidosas praticamente "paralisam" trabalho mediúnico no Brasil


Mediunidade, no Brasil, está desmoralizada. Não bastasse o culto à personalidade que cercam os ditos "médiuns" brasileiros, transformados em celebridades e convertidos em dublês de pensadores e ativistas, o trabalho dito mediúnico sempre apresentou irregularidades sérias.

A ação é comparável a um trote telefônico, no qual o telefonista se passa pelo parente da vítima e inventa um falsete no qual a "leitura fria", muitas vezes, é feita. Como no seguinte exemplo de um hipotético diálogo:

- Alô! Ah, pela voz você é o Eusébio, meu primo? Oi, Eusébio! Sou Laura, aqui do Rio de Janeiro! Que bom receber sua ligação aí de Campina Grande. Dois anos de saudades! Como estão as coisas aí na Paraíba? - diz a vítima.

- Ah, Laura, minha querida! - diz o estelionatário - Sou eu, o Zezé!

- Esse Zezé! Aqui estamos fazendo uma feijoada e me lembro muito de quando você passava o domingo para comer um prato desses!

- Ah, sim! - diz o sequestrador. - Me lembro muito, a gente papeava horas e horas.

Passada a conversa, o "primo" dá o seu golpe.

- Ah, Laurinha, me faz um favor? Estou passando por dificuldades, muitas dívidas, e por isso preciso de seu dinheiro. Uma ajudinha de nada, uns 35 mil reais. Me desculpe, é que estou tão enrolado que você deve se chatear, mas você não vai negar um favor a seu primo, né? Você retira o dinheiro da sua poupança e ajuda o seu priminho em dificuldades, viu? Fico muito agradecido com o seu carinho!

Certamente isso é desagradável e perigoso. É uma ameaça que faz o coração bater. Mas, infelizmente, no "espiritismo" brasileiro não é diferente e a falta de estudo da Ciência Espírita e o hábito comum entre os brasileiros de não ter concentração para certas tarefas, influi nessas fraudes, que não são apenas de gente "de baixo status", mas muitos "médiuns" tidos como "gabaritados" são os que mais o fazem.

Sobre Francisco Cândido Xavier, tido como "o mais conceituado de todos", há denúncias sérias e muito graves de irregularidades mediúnicas. Supostas cartas de pessoas mortas que apresentam problemas na caligrafia ou em dados pessoais, não raro havendo apenas a caligrafia do "médium", até mesmo na assinatura, e com mensagens padronizadas, como iniciar dizendo "querida mamãe" e terminar pedindo "a união das pessoas na fraternidade em Cristo".

Botar essa irregularidade por baixo do tapete por causa da suposta figura filantrópica de Chico Xavier - uma imagem "admirável" construída pelo poder midiático da Rede Globo para neutralizar a ascensão de pastores midiáticos como Edir Macedo - é uma leviandade e uma omissão, porque as irregularidades mediúnicas são um problema muito mais grave do que se pode parecer.

Quem prestar atenção nas sessões "mediúnicas" de Chico Xavier e similares, se verá uma energia traiçoeira que parece "tranquila" e "agradável", mas é confusa e maléfica. A "paz" equivale à suposta "luminosidade" das antigas missas católicas da Idade Média, que primavam pela aparente beleza e benevolência, que mascaravam a ganância e, em muitos casos, a tirania de muitos sacerdotes.

Se a pessoa se despir das paixões religiosas, verá que essas sessões "mediúnicas" se revelam espetáculos de orgias tão mórbidos quanto os do sexo, das drogas e do dinheiro. E, seguindo um padrão de deturpação da Doutrina Espírita para um igrejismo irresponsável, tais sessões se nivelam aos mais baixos entretenimentos das tábuas Ouija, um recreio irresponsável que atrai espíritos zombeteiros diante de pretensas consultas oraculares.

É chocante ver mães saltitando, infantilizadas, quando ouvem mensagens supostamente atribuídas a filhos mortos, gritando "É meu filho, é meu filho", sem saber que ela é enganada por toda essa atmosfera de love bombing, o "bombardeio de amor" cuja força traiçoeira corresponde a uma "pornografia sem sexo".

Essas sessões já pecam pelo fato de estimular a obsessão por pessoas mortas, revelando a falta de zelo de muitas famílias com seus entes, para depois os perderem por uma tragédia vinda do nada. Pecam também pela energia maléfica de Chico Xavier (cujas fotos antigas, antes de usar óculos escuros, revelam um olhar traiçoeiro e agressivo), que tratava as mortes prematuras com um certo exotismo.

Junta-se a isso a exploração sensacionalista da grande mídia a esses "médiuns" que recebem culto à personalidade, a diversão às custas das mortes dos entes queridos - cujos espíritos, em verdade, se sentem incomodados com tais ambientes que lhes lembram um velório às avessas e deles se afastam - e o igrejismo medieval do "espiritismo" brasileiro, que tudo isso acaba se equivalendo àqueles trotes telefônicos de sequestradores e estelionatários.

Diante de tantas denúncias a respeito, essas atividades acabaram ficando mais raras no "movimento espírita", incapaz de tentar explicar as inúmeras e infinitas irregularidades, não raro "eternizadas" em livros, explorando levianamente e de forma sensacionalista a tragédia alheia, reduzindo dramas humanos a uma diversão para a "masturbação com os olhos" das comoções fáceis pelas estorietas narradas por eventos e obras "espíritas".