quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Chico Xavier pegou carona em caso criminal que seria resolvido sem ele

MAURÍCIO GARCEZ HENRIQUE, MORTO POR DISPARO ACIDENTAL FEITO POR AMIGO.

Um episódio que comprova o quanto o "médium" Francisco Cândido Xavier beneficiou e foi beneficiado pelo sensacionalismo jornalístico que o transformou num "super-médium" e num dublê de filantropo e pensador, associando a ele uma suposta solução de um crime que mostrava indícios de que seria resolvido sem sua colaboração.

O fato foi esse. Em 08 de maio de 1976, Maurício Garcez Henrique estava na casa do amigo José Divino Nunes, no bairro de Campinas, em Goiânia. Enquanto conversavam na sala, Maurício pegou o revólver da mala do pai de José Divino e descarregou a arma, tirando as balas e, de brincadeira, fingiu apontar a arma ao amigo que logo disse para largar o objeto.

José tomou o revólver de Maurício, que foi para a cozinha buscar cigarros. Enquanto isso, José ligava o aparelho de som e girava o dial para mudar a estação de rádio. De repente, o revólver fez um disparo, Maurício soltou um grito e José foi logo socorrê-lo, estando este gravemente ferido. Maurício morreu depois.

O caso foi registrado na 6ª Vara Criminal de Goiânia e, a princípio, José Divino foi acusado de homicídio doloso, quando há intenção de matar, mas de acordo com depoimento de José e de seus familiares, o que ocorreu foi homicídio culposo, feito sem intenção de tirar a vida de outrem. Ainda assim, o caso permaneceu um mistério nunca oficialmente resolvido.

Mas eis que, dois dias depois, "super" Chico Xavier aparece sob a promessa "heroica" de resolver a situação. No dia 27 de maio de 1978, ele dá início a uma série de supostas psicografias atribuídas ao espírito de Maurício das quais a primeira carta está reproduzida a seguir, reproduzindo sempre aquele estilo igrejeiro e piegas das "cartas mediúnicas", que seguem o mesmo pensamento e começam com saudações como "querida mamãe" ou "querida mamãe, papai, Fulana minha irmã etc". Vejamos:

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Querida Mamãe, meu querido pai, querida Maria José e querida Nádia.

Estou em oração, pedindo para nós a benção de Deus. Não posso escrever muito; venho até aqui, com meu avô Henrique, só para lhes pedir resignação e coragem.

Peço-lhes não recordar a minha volta para cá, criando pensamentos tristes. O José Divino e nem ninguém teve culpa em meu caso. Brincávamos a respeito da possibilidade de se ferir alguém, pela imagem no espelho; sem que o momento fosse para qualquer movimento meu, o tiro me alcançou, sem que a culpa fosse do amigo, ou minha mesmo. O resultado foi aquele. Hospitalização de emergência, para deixar o corpo longe de casa.

Se alguém deve pedir perdão, sou eu, porque não devia ter admitido brincar, ao invés de estudar.
Mas meu avô e outros amigos me socorreram e fui levado para Anápolis, para ser tratado por uma enfermeira que dirige uma escola de fé e amor ao próximo, que nos diz ser a irmã Terezona, amiga das crianças.

Soube que ela conhece meu avô e nossa família, sendo agora uma benfeitora, que preciso agradecer e mencionar.

Quanto ao mais, rogo à Nádia e à Maria José, minhas queridas irmãs, para não reclamarem e nem se ressentirem contra ninguém. Estou vivo e com muita vontade de melhorar.

Queridos pais, tudo acontece para o nosso bem e creio que seria pior para mim se houvesse enveredado pelos becos dos tóxicos, dos quais muita pouca gente consegue voltar sem graves perdas do espírito.

Estou com saudades, mas estou encarando a situação com fé em Deus e com a certeza de um futuro melhor.

Recebam, querido papai e querida mamãe, com as nossas queridas Nádia e Maria José, e com todos os nossos, um abraço de muito carinho e respeito, do filho que lhes pede perdão pelos contratempos havidos.

Prometendo melhorar, para faze-los tão felizes quando eu puder, sou o filho e o irmão saudoso e agradecido,

Maurício Garcez Henrique.

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No livro Lealdade, organizado por Hércio Marcos Cintra Arantes e lançado originalmente em 1982 por uma pequena editora - hoje o livro é comercializado pela igrejista editora IDE - , há um histórico dos fatos e da "colaboração" de Chico Xavier para supostamente resolver o crime.

O juiz da 6ª Vara Criminal de Goiânia na época (1978-1979), Orimar de Bastos, havia acolhido a "psicografia" e, tomado de uma certa fascinação obsessiva, declarou:

"Temos que dar credibilidade à mensagem psicografada por Francisco Cândido Xavier, anexada aos autos, onde a vítima relata o fato e isenta de culpa o acusado, discorrendo sobre as brincadeiras com o revólver e o disparo da arma. Coaduna este relato com as declarações prestadas por José Divino, quando do seu interrogatório".


O DOCUMENTO DE IDENTIDADE DE MAURÍCIO E UM FRAGMENTO DA CARTA LANÇADA POR CHICO XAVIER: ASSINATURAS BASTANTE DIFERENTES.

Mas alguns fatores estranhos devem ser observados. Orimar achou que as assinaturas eram semelhantes e que, com a coincidência do relato de José Divino e o conteúdo da carta, estava provada a inocência de José Divino, hipótese que no entanto poderia ter sido provada de outra forma, sem a necessidade da suposta mensagem mediúnica. Pelo contexto, é bem provável que Maurício perdoasse José, não precisando que a "psicografia" informasse isso.

Todavia, as assinaturas, analisadas acima, comparando o fragmento do manuscrito lançado por Chico Xavier e a assinatura presente no documento de identidade de Maurício, percebe-se que Orimar foi apressado e nem deve ter se lembrado das assinaturas. Talvez o juiz fosse muito ocupado para analisar as coisas e deve ter dado seu parecer através de uma primeira e precipitada impressão.

As caligrafias são totalmente diferentes. Não há uma hipótese que indique semelhança, e observa-se que a caligrafia da suposta psicografia tem o mesmo estilo da caligrafia pessoal do "médium". Mesmo uma boa vontade não consegue colher semelhança alguma nas duas assinaturas, em relação a Maurício, mas também não consegue desmentir a semelhança muito grande com a caligrafia pessoal de Chico Xavier.

Quanto às informações da carta, o próprio livro Lealdade fala de visitas constantes dos familiares de Maurício a Uberaba, o que poderia sugerir o fornecimento de informações através da "leitura fria". Há no Grupo Espírita da Prece, onde trabalhou Chico Xavier, uma equipe de funcionários - que o "espiritismo" chama de "tarefeiros" - treinados para analisar gestos, formas de dicção e informações dadas pelos clientes para colher dados para supostas psicografias.

Há também as consultas de fontes da imprensa, geralmente fornecidas por familiares ou mesmo por integrantes de "centros espíritas" dos locais dos incidentes. Há também objetos pessoais, como diários ou algumas cartas ou anotações diversas, relacionadas ao morto ou escritas por ele. Hoje até o perfil nas redes sociais serve para colher essas informações.

Junta-se tudo isso e cria-se um repertório para forjar uma falsa psicografia de conteúdo verossímil. A sorte, por exemplo, é se uma tia ou um primo de um morto fornecerem informações que não são de conhecimento do pai e da mãe do dito cujo, e com isso se espalha a falácia de que a "psicografia" apresentou informações que "a família do morto desconhecia absolutamente".

A "contribuição" de Chico Xavier, portanto, além de desnecessária, era duvidosa para servir de prova de inocência de José Divino. A inocência já tinha probabilidade de quase certeza, e outros meios como perícias e outras investigações poderiam chegar ao resultado, sem a "ajuda psicográfica".

Por outro lado, a atuação do "médium" se revelou uma intromissão, que favoreceu a imprensa sensacionalista e garantiu a projeção de um ídolo religioso através dessa fraude que causou a comoção pública e fez as "casas espíritas" de todo o país lotarem, diante de apelo tão fortemente emocional.

O episódio representou, mais uma vez, o espetáculo pitoresco da suposta mediunidade, feito à revelia da Ciência Espírita, criar uma falsa ideia do que seria o trabalho mediúnico, mediante conceitos que eram difundidos ao arrepio dos ensinamentos kardecianos originais. Portanto, a "psicografia" foi, na verdade, inútil, e só serviu para os propósitos acima citados.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Atenção, esquerdistas! Fundador de Caros Amigos, Léo Gilson Ribeiro reprovou Chico Xavier


Não há como entender por que setores das chamadas esquerdas sentem alguma complacência com o "médium" Francisco Cândido Xavier. Ele sempre foi um católico ortodoxo, bastante conservador, apoiou o golpe de 1964, defendeu a ditadura civil-militar, apoiou Fernando Collor de Mello para presidente da República em 1989 e era defensor da Teologia do Sofrimento, corrente mais retrógrada do Catolicismo.

Não bastasse isso, Chico Xavier foi definido como "progressista" de graça, sem qualquer motivo que tenha um pingo de consistência ou verossimilhança. Ele sempre condenava o questionamento, a crítica, em sua maior divergência com Allan Kardec, que sempre estimulou o debate a ponto de, no desenvolvimento das ideias, o pedagogo francês preferir a prevalência da Ciência sobre o Espiritismo.

Quantos apelos para a aceitação do sofrimento em silêncio, à submissão aos algozes, à resignação com os infortúnios da vida! Isso é progressista? Pois enquanto as esquerdas mais cordeirinhas - que caem facilmente em armadilhas com apelos emocionais de pessoas pobres sorridentes (o "funk", subproduto da mídia hegemônica, é exemplo disso) - aceitam o retrógrado Chico Xavier, lembremos de um dos grandes intelectuais brasileiros.

Léo Gilson Ribeiro, falecido há dez anos, havia feito, na revista Realidade, em 1971, uma crítica severa às supostas psicografias do anti-médium mineiro, em referência sobretudo a obras que causaram indignação nos meios literários, como o livro Parnaso de Além-Túmulo - estranhamente reparado cinco vezes - e as obras que levam o nome de Humberto de Campos ou Irmão X.

"Era doutor em literatura pelas universidades de Hamburgo e Heidelberg e amigo pessoal do escritor Guimarães Rosa e da poeta Hilda Hilst; com toda essa bagagem, tornou-se um dos críticos literários mais influentes e mais respeitados do país. Foi premiado com o Jabuti em 1968 e com o Esso (de reportagem) em 1969", diz um texto de Caros Amigos, a respeito da morte de Léo.

Léo era um renomado intelectual que atuou como repórter e redator na revista Realidade, nos anos 1960 e 1970, e foi um dos fundadores no fim dos anos 1990, da revista Caros Amigos, um dos principais periódicos da mídia alternativa.

"Durante toda a sua vida Leo Gilson foi um batalhador pela cultura das letras no Brasil. Atacava ferinamente as traduções malfeitas, as edições improvisadas – procurava impor o respeito ao leitor. Combateu incansavelmente a incultura nacional, procurando difundir a boa literatura por todos os meios a seu alcance", diz outro texto da nota fúnebre de Caros Amigos.

A mesma nota acrescenta: "Profundo conhecedor da literatura universal, não se conformava com o fato de os brasileiros não terem maior consideração pela sua própria leitura; achava, por exemplo, perfeitamente cabível que o poeta Carlos Drummond de Andrade fosse considerado como sendo de estatura mundial e merecedor do Nobel".

"Além dos muitos ensaios publicados, escreveu livros de crítica literária entre os quais se destacam “Cronistas do Absurdo” (ed. José Álvaro, 1964) e “O Continente Submerso” (Editora Best-Seller,1988). No teatro escreveu a peça “Balada de Manhattan” que recebeu o Prêmio Governador do Estado em 1971 e traduziu textos de Tennessee Williams e Steven Berkoff", finaliza a nota sobre o escritor feita pela Caros Amigos.

Léo também foi defensor dos movimentos sociais e reprovava o totalitarismo do comunismo soviético, pois seu esquerdismo era democrático e ele fazia essa defesa no seu trabalho jornalístico, sendo um dos grandes batalhadores da mídia alternativa no Brasil.

O comentário de Léo Gilson Ribeiro sobre Chico Xavier é bastante contundente e traz uma análise, desagradável para muitos, sobre as irregularidades das supostas psicografias literárias, nas quais se observa claramente que estas fogem dos estilos originais dos mortos alegados.

Portanto, não é um intolerante religioso que fala contra o "bondoso trabalho" de um suposto médium, mas um crítico literário que é profundo conhecedor dos escritores brasileiros e não faz o tipo do especialista complacente que vê semelhanças onde não existem, tal como aqueles que confundem A com H. Léo tornou-se famoso por essa frase que encerra esta postagem, que podemos usar como recado aos esquerdistas que ainda sentem alguma complacência com os "médiuns espíritas":

"Uma coisa é clara: Quando o ‘espírito’ sobe, sua qualidade desce. É inconcebível que grandes criadores de nossa língua, depois da morte, fiquem por aí gargarejando o tatibitate espírita". 

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Ditadura apoiou "médiuns espíritas" para frear crescimento do ativismo sócio-político

O OPERÁRIO LUÍS INÁCIO LULA DA SILVA, UM DOS MAIORES ATIVISTAS POLÍTICOS DO BRASIL.

É bom demais para ser verdade. "Médiuns espíritas", conhecidos pelo seu igrejismo ultraconservador, de repente viraram dublês de "ativistas", de "pensadores" e de "filantropos", deturpando e vinculando à sua imagem o legado dos verdadeiros ativistas políticos e sociais, sem que haja uma desconfiança séria a respeito disso.

A complacência aos "médiuns" é quase generalizada e mesmo os contestadores da deturpação espírita não avançam muito, paralizando-se diante do apelo fácil das paisagens floridas, dos céus ensolarados, das crianças sorridentes e dos apelos discursivos à "paz", à "caridade" e à "fraternidade". Tudo feito de forma que até quem é lesado por esses "médiuns" reage a eles com gratidão.

Tudo isso poderia permanecer como está, não fosse o lodo de tantas contradições, várias gravíssimas, que envolvem os "médiuns" e o contexto social em que se vive no Brasil. É uma trajetória de muitas confusões, que a preguiça mental, ante apelos emocionais tão bonitos, mas perigosos, permite deixar para lá e ver coerência onde não existe, o que só faz sentido ocorrer num país marcado por tantos absurdos como o Brasil.

Há uma grande confusão entre a reação da sociedade ultraconservadora aos trabalhos de Allan Kardec, na França, e a revolta que, por exemplo, intelectuais tiveram contra as atividades do suposto médium mineiro Francisco Cândido Xavier, das quais claramente revelam atitudes arrivistas de decisão própria do beato brasileiro.

Isso porque, no primeiro caso, sabe-se que o pedagogo francês teve uma trajetória discreta, límpida, modesta e cujos trabalhos de pesquisa não tiveram patrocínio, tendo sido os investimentos vindos do próprio professor, que apenas enfrentou a oposição de católicos conservadores por causa dos trabalhos científicos dos fenômenos paranormais.

É muitíssimo diferente do que se viu com Chico Xavier. Sua trajetória se deu com uma traquinagem literária, um livro de poemas supostamente de vários autores espirituais, Parnaso de Além-Túmulo, que se revelou uma fraude, remendado cinco vezes e com erros de estilística gravíssimos. O livro, que se valeu mais pelo sensacionalismo, revelou-se depois ser obra de Chico, do então presidente da FEB Antônio Wantuil de Freitas e de jornalistas e editores da federação.

A trajetória de Chico Xavier foi marcada por confusões que partiram das próprias decisões feitas ou apoiadas pelo "médium". Não se trata, portanto, de uma trajetória límpida, tamanha a coleção de pontos sombrios dos quais a razão se deve dar não ao suposto médium (embora se lhe seja dada, com muita insistência, devido a paixões religiosas), mas a seus contestadores, pelas incoerências imensas apontadas.

Mas o Brasil é um país atrasado no qual existem confusões de abordagem marcadas por apegos emocionais de um lado e complacências, conformismos e desigualdades de outro, confusões mentais e emotivas que foram construídas desde o período ditatorial e pela insistente manipulação midiática.

"MÉDIUNS" ANESTESIAVAM A SOCIEDADE BRASILEIRA

O que era o poder na ditadura militar? Na verdade, o que chamamos de "ditadura militar" era uma ditadura civil-militar, como hoje vemos uma ditadura jurídica do consórcio entre o Poder Judiciário propriamente dito, a Polícia Federal e o Ministério Público. Se hoje quem conduz o poder são juízes e procuradores, naquele tempo quem conduzia eram os generais. Mas eles tinham como base de apoio forças conservadoras ligadas, sobretudo, ao meio empresarial e midiático.

Hoje estamos acostumados como os "médiuns espíritas", muitos ficam alegremente confusos entre defini-los como "semi-deuses" ou "pessoas simples" (neste caso uma "divinização" às avessas) e aceita-se suas contradições e erros de tal forma que, se surgir um novo "médium", dotado de expressiva popularidade, acusado de estuprar uma adolescente, a culpa seria da vítima, acusada de ter sido "meretriz da antiga Gália" (a Gália romana corresponde à França de hoje).

Os "médiuns", para muitos, podem fazer o que querem, acham que podem tudo e, quando erram, acredita-se que eles estão isentos de sofrer os efeitos de seus próprios erros. A permissividade é tanta e em níveis estratosféricos que setores das esquerdas políticas brasileiras endeusam os "médiuns espíritas" mesmo sendo eles, no fundo, figuras bastante conservadoras e alinhadas à direita ideológica, embora se autoproclamem ideologicamente "neutros".

Pode parecer hoje algo difícil de explicar, mas, se o poder midiático da Rede Globo de Televisão passou a adotar os "médiuns espíritas" como ídolos religiosos "de todas as crenças" para combater a ascensão dos pastores eletrônicos como Edir Macedo e R. R. Soares. A imagem "ecumênica" dos "médiuns espíritas" era apenas um truque publicitário, de forma a tentar atrair pessoas dos mais diversos tipos de crenças, inclusive os ateus.

A ditadura apoiou essa estratégia, pois o poder político-militar-empresarial que respaldava o regime via nos "médiuns" uma forma de anestesiar a sociedade brasileira diante de um cenário de crise política e convulsões sociais, após o fracasso do "milagre brasileiro" em 1973-1974.

A ideia é transmitir um ideal de "paz, caridade e fraternidade" que promovesse o conformismo social dentro de valores sociais conservadores e evitar a mobilização social, por ela estar associada, em tese, a um grupo de figurões religiosos tidos como "superiores" por supostamente "falar com os mortos" e se julgarem "no caminho próximo a Deus".

São valores conservadores e retrógrados, baseados numa religiosidade que, no mundo desenvolvido, só fazia sentido na Idade Média, mas, no Brasil, ela persiste até hoje, e que pega desprevenidos até quem tenta contestar a "fé espírita" - fundamentada em valores do Catolicismo jesuíta do período colonial - e para no caminho diante de um turbilhão de apelos emotivos belos, porém traiçoeiros.

Sob o ponto de vista da ditadura, a ascensão dos "médiuns espíritas" seria uma forma de domesticar a sociedade, apelando para velhos paradigmas religiosos - não nos podemos esquecer que as principais religiões brasileiras apoiaram o golpe de 1964, sendo a Marcha da Família Unida pela Liberdade, que pediu a ditadura, tão "ecumênica" quanto o Você e a Paz - , também foi promovida para frear a ascensão de verdadeiros ativistas sociais e políticos.

A ideia é evitar que figuras como Martin Luther King, Malcolm X ou mesmo os artistas folk e outros ativistas diversos - LGBT, proletários, negros, hippies etc - florescessem no Brasil. Por isso os "médiuns espíritas", mesmo formados num contexto ultraconservador e educados por um Catolicismo ortodoxo e medieval, se passam por "ecumênicos" e forjem sua suposta neutralidade ideológica e seu pretenso pacifismo fraternal.

Isso não é uma atitude realmente pacificadora. Não há almoço grátis, diz o ditado popular. Os "médiuns", com seu culto à personalidade, querem ter o vínculo de imagem a tudo que for ativismo sócio-político, e fazem isso misturando alhos com bugalhos, juntando figuras realmente admiráveis como Charles Chaplin e Martin Luther King com figuras de valor duvidoso como Madre Teresa de Calcutá, acusada de deixar seus assistidos em condições degradantes.

A ideia é fazer concorrência com ativistas sócio-políticos como o líder operário Luís Inácio Lula da Silva, num contexto em que figuras progressistas como Juscelino Kubitschek e João Goulart tiveram mortes muito estranhas. Embora Lula, com o tempo, se revelasse também complacente com os "espíritas", era um propósito da ditadura civil-militar usar os "médiuns" para frear a ascensão dele como símbolo da redemocratização.

Os "espíritas" nunca lutaram pela redemocratização. Apoiaram a ditadura civil-militar do começo ao fim, e apenas achavam que as casernas iriam "aposentar o porrete" em algum momento. Religião ultraconservadora, o "espiritismo" brasileiro prega a Teologia do Sofrimento e, portanto, defende a permanência de cenários políticos conservadores, desejando apenas que "moderem" sua repressão, e sempre apelava para o povo brasileiro aceitar o sofrimento e reagir em silêncio e sem queixumes.

Por isso a sociedade conservadora, seja a ditadura civil-militar, seja os aliados de cunho jurídico, empresarial, midiático etc, defendeu a ascensão dos "médiuns espíritas", que eram alimentados pelo sensacionalismo televisivo e pela imprensa hegemônica, de forma a serem eles considerados "donos" de paradigmas "ideais" ligados aos conceitos de "caridade", "solidariedade" e "paz".

Muitos estão acostumados com isso, mas não deveriam. Afinal, os "médiuns espíritas" se revelam traidores do Espiritismo original, devido à veiculação de ideias que vão contra os ensinamentos originais da doutrina de Kardec.

Do mesmo modo, os "médiuns" também pregam valores moralistas retrógrados, defendendo até a "paz sem voz" do sofrimento aceito sem queixumes, embora essas pregações ocorram de uma forma que force o apoio até de progressistas de esquerda e de ateus. Isso se deve porque os "médiuns" se tornaram a mais bem sucedida armação da História do Brasil, com seus apelos emotivos muito fortes, que dominam e escravizam o inconsciente coletivo das multidões.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Confusão na convenção do PSDB. Cadê a fraternidade?


Comparado com o "espiritismo" brasileiro quanto à blindagem - se bem que os "espíritas" já obtém larga vantagem - , o PSDB, Partido da Social Democracia Brasileira (que, apesar do nome, segue um perfil neoliberal e ideologicamente conservador), elegeu seu novo presidente nacional.

Dando fim à gestão de Aécio Neves - figura adorada pelos "espíritas" e que tinha recíproca admiração por Francisco Cândido Xavier (o "médium" sonhava com um líder político com as caraterísticas que ele mesmo, no final da vida, viu em Aécio) - , o católico Geraldo Alckmin, um dos membros da Opus Dei (corrente católica neomedieval, surgida na Espanha do ditador Francisco Franco - curiosa ironia, esse nome), foi eleito presidente do partido.

Os adeptos de Aécio Neves se esqueceram dos "princípios de fraternidade" e iniciaram um protesto, seguido de um bate-boca e ameaça de agressões, em vez de "orar em silêncio" pelo destino futuro de seu ex-comandante. Mas também até os adeptos de Chico Xavier adoram algum desentendimento, seja interno, como no caso de dizer se ele era ou não autor das supostas profecias da "data-limite", ou externo, quando reagem rispidamente a qualquer questionamento ao "médium" mineiro.

A ameaça de declínio político do senador mineiro, que perdeu o comando do PSDB, pode também representar o fim da realização de um sonho de Chico Xavier, que desejava que o futuro do Brasil estivesse nas mãos de um líder com perfil liberal, relativamente jovem e comprometido com ideais conservadores associados à paz e à solidariedade dos povos.

Aécio Neves, que visitou Chico Xavier no final de vida do "médium", se sentiu identificado com ele. Chico teve a mesma retribuição, vendo em Aécio o possível líder que em 1952 havia sido descrito por mensagem atribuída ao suposto espírito André Luiz. A aparente previsão foi divulgada no "centro espírita" Jesus de Nazareno, em Congonhas (MG), em 23 de dezembro de 1952.

Na época do falecimento de Chico Xavier, Aécio Neves - amigo de outro figurão comparado, desta vez em suposta filantropia, ao "médium", o apresentador Luciano Huck, outro fã ardoroso do religioso - havia dado depoimentos entusiasmados sobre o beato de Pedro Leopoldo e Uberaba:

"Chico Xavier é uma referência única de trabalho e solidariedade não só para os mineiros, mas para todos os brasileiros. Mesmo estando em estágio avançado de sua doença, ele continuava recebendo peregrinos que viajavam para encontrá-lo. Ele será sempre um exemplo de vida e humanidade muito importante. Ele era uma figura muito confortadora para todos, independente da religião de cada um".

"Em sua grandiosa simplicidade, ele será sempre uma referência para todos que, de alguma forma, têm responsabilidade pública. Minas, o Brasil, o mundo ficou menor com a morte de Chico Xavier".

O SONHO DE CHICO XAVIER DE VER UM CONTERRÂNEO LIBERAL GOVERNANDO O "CORAÇÃO DO MUNDO" E "PÁTRIA DO EVANGELHO" ESTÁ CADA VEZ MAIS DISTANTE. NA FOTO, AÉCIO NEVES DANDO ENTREVISTA COMO EX-PRESIDENTE NACIONAL DO PSDB.

Aécio Neves é mineiro como Chico Xavier e estabeleceu sua trajetória às custas de muita confusão. Ambos, político e "médium", são protegidos da mídia hegemônica e simbolizam valores sociais conservadores sob uma roupagem pretensamente moderna.

Apesar de seu perfil antiquado, das ideias ultraconservadoras e por ter sido um católico ortodoxo - que só cometia "heresia" na prática de paranormalidade, mais precária do que se imagina (na prática Xavier só se comunicava com os espíritos da mãe e de Emmanuel) - , Chico Xavier é visto como "moderno", "futurista" e até "progressista" por muitos seguidores, movidos pelos apelos emocionais associados a ele através das paixões religiosas.

A exemplo de Aécio, Chico Xavier cometeu muitos atos duvidosos, desde a apropriação de pessoas mortas em supostas psicografias, a exploração ostensiva e sensacionalista das tragédias familiares e o envolvimento em fraudes de materialização, não bastasse a própria deturpação do Espiritismo, com obras que deixariam envergonhado o próprio Allan Kardec, se então vivesse no Brasil.

Apesar desses atos, Chico foi blindado e, com a ajuda marqueteira do poder midiático associado à FEB, virou um "semi-deus" e um ídolo religioso marcado pelo fanatismo e deslumbramento de multidões, símbolo da catarse coletiva que retomou o poder em 2016, clamando por valores conservadores, pelo apego à fé em detrimento da razão e pela volta à submissão hierárquica, que na Economia é representada pelas "reformas" trabalhista e previdenciária do governo Michel Temer.

Com a decadência política de Aécio Neves - que, se Chico estivesse vivo em 2014, teria, com certeza, apoiado o tucano na campanha presidencial - , a sociedade conservadora, na qual se insere o "movimento espírita", tenta algum esforço para lançar um candidato "jovem" e "liberal" com imagem de "conciliador" e defenda valores que apelem para o "respeito à fé" e o "apoio ao livre-mercado".

Resta agora Luciano Huck, o mais próximo do perfil sonhado por Chico Xavier (neste caso, como arremedo de filantropia que marca a trajetória de ambos), voltar atrás e reconsiderar sua candidatura à Presidência da República. Dizem rumores que sua aparente desistência é uma estratégia e que Luciano esperaria o povo pedir para ele ser presidente para ele se lançar, no próximo ano, oficialmente candidato. A "Pátria do Evangelho", neste caso, seria o "caldeirão".

domingo, 10 de dezembro de 2017

Divaldo Franco não tem moral para criticar obras anti-doutrinárias


A deturpação do "movimento espírita" tornou-se um processo tão engenhoso que os deturpadores passam a criticar a deturpação dos outros, pois no Brasil quem pratica a "vaticanização" do Espiritismo, mesmo quem diz criticar a própria "vaticanização" que praticam, se acha em posição de tamanho prestígio que se julga acima até mesmo da própria Codificação.

Faz-se o "espiritismo à moda da casa" que embora no discurso não se declare o "melhor de todos", se coloca numa posição que se faz de equivalente ou superior à própria Codificação. Ou seja, os deturpadores, no seu complexo de superioridade, chegam se achar acima do próprio Allan Kardec, como penetras numa festa que se acham mais anfitriões do que o próprio anfitrião.

Uma palestra do anti-médium baiano Divaldo Pereira Franco é extremamente risível no que se diz à denúncia de uma série de obras anti-doutrinárias e pseudo-mediúnicas que surgem sob o nome do Espiritismo, algo que é bastante constrangedor, vindo daquele definido por José Herculano Pires como impostor e adepto de Jean-Baptiste Roustaing.

As queixas de Divaldo envolvem sobretudo obras de Ramatis e outras figuras de conteúdo bastante esotérico. Só que há rumores de que o próprio Divaldo, que se recusa a assumir seu roustanguismo - ele alega "não ter tido tempo" para ler Os Quatro Evangelhos, mas nós sabemos que obras ele realmente não teve tempo para ler com profundidade - , também é simpatizante de Ramatis e adora esoterismo, como Horóscopos e coisa parecida.

Uma prova dessa sua inclinação é que ele encampou para si uma grande piada esotérica, a das "crianças-índigo", uma espécie de combinação entre misticismo, discriminação social "positiva" - quando a discriminação sugere uma imagem falsamente positiva de um tipo social ou humano - , uma farsa esotérica feita para aquecer o mercado de livros de auto-ajuda, que produz milionários a cada temporada.

Além do mais, Divaldo Franco nem de longe é alguém que possa falar em nome da pureza doutrinária, ele que é o maior deturpador ainda vivo do Espiritismo e o maior da história da Doutrina Espírita depois de Chico Xavier. Suas obras são do mais puro igrejismo, suas paletras, da mais velha verborragia dos oradores à maneira dos da República Velha, e sua pretensão de "ter respostas prontas para tudo" é algo que não condiz a uma qualidade de intelectual tão atribuída a ele.

Muito pelo contrário, sabemos que um verdadeiro intelectual, um autêntico sábio, não traz respostas, mas perguntas. Não é alguém que necessariamente tenha respostas para todas as coisas, mas alguém que tem a iniciativa de lançar ideias e problemas antes não devidamente analisados.

Num país como o Brasil, considerado o terceiro mais ignorante do mundo e no qual as redes sociais - que mais divinizam os "médiuns espíritas" - são reduto de estupidez e reacionarismo extremos, a ideia mais popular de "sábio" é associada ao sujeito de poses aristocráticas, discurso verborrágico, pedantismo, pretensões de responder tudo e ares de pretensa erudição. Divaldo faz esse tipo.

Divaldo e Chico publicaram, ao longo das décadas, obras do mais escancarado igrejismo de raiz roustanguista. Muitas de suas ideias são lançadas ao arrepio dos ensinamentos kardecianos originais, e a malandragem de se supor, na "catolicização" do Espiritismo, que isso "está de acordo com Kardec" por causa da alegada "afinidade com Jesus Cristo", não resolve uma série de problemas identificados com a deturpação que atinge o legado da Codificação.

As próprias obras de Chico Xavier e Divaldo Franco são, portanto, anti-doutrinárias. Isso se revela numa leitura atenta, e na comparação cautelosa e sem a permissividade das paixões religiosas, e quem não está acostumado a tais questionamentos sairá bastante chocado ao saber que, por exemplo, o livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho (de autoria de Chico Xavier e Antônio Wantuil de Freitas, mas atribuído levianamente ao espírito de Humberto de Campos), está mais próximo de Os Quatro Evangelhos de J. B. Roustaing do que de qualquer obra kardeciana original.

O mais contrangedor é quando Divaldo Franco deu a sua receita para não aceitar as obras anti-doutrinárias: o silêncio. Segundo ele, deve-se apenas orar em silêncio que as obras fracassam e desaparecem. Essa recomendação também vai contra os ensinamentos kardecianos originais.

Afinal, o próprio Kardec já recomendou o debate e o questionamento como formas de zelar pela pureza doutrinária. O que desagrada muitos brasileiros é que esse questionamento, cujo roteiro está em obras como O Livro dos EspíritosO Evangelho Segundo o Espiritismo e O Livro dos Médiuns, além de muitos artigos da Revista Espírita, acaba tendo como alvos os próprios "médiuns espíritas", eles mesmos os que mais investem em um massivo e persistente trabalho anti-doutrinário.

Se existe uma profusão de trabalhos anti-doutrinários, o próprio Divaldo, assim como Chico, devem ser responsabilizados por isso. O "médium" não pode achar que, tomado de prestígio religioso e social, seja isento de responsabilidades graves, e no caso das violações aos ensinamentos espíritas originais, os dois foram os primeiros a fazer e não podem ser inocentados de tão gravíssima influencia.

Em outras palavras, se Divaldo está preocupado com as obras anti-doutrinárias, ele deveria parar de ver o argueiro dos olhos de outros deturpadores e ver a trave nos seus próprios olhos, porque se há obras reconhecidamente anti-doutrinárias, foi ele e Chico Xavier os maiores responsáveis.

Um "médium" tem que ser responsabilizado, como eu, você e qualquer pessoa que comete um ato grave. O próprio Divaldo, recentemente, permitiu, no Você e a Paz, homenagear um político decadente como João Dória Jr. e aceitar, sem pedir qualquer perícia ou documentação técnica a respeito, que se lançasse um engodo alimentício rejeitado por entidades sérias de saúde pública e visto pelos movimentos sociais como uma "ofensa à dignidade humana".

Sabemos que muitos seguidores de Divaldo Franco irão protestar, mas ele tem sua responsabilidade pelo episódio da "farinata", porque cometeu decisões de muita gravidade. Ter prestígio religioso nunca pode permitir que se fuja a certas responsabilidades, e é constrangedor que "médiuns espíritas" só sejam responsabilizados quando cometem atos positivos, mas quando são atos negativos a culpa sempre vai para terceiros, para não dizer os "obsessores do além-túmulo".

Isso revela o estrago que a deturpação causou em todo o legado trabalhoso do Espiritismo. A aberrante figura dos "médiuns", movida pelo culto à personalidade, e uma intrincada série de artimanhas para que a deturpação fosse bem sucedida e aceita por todos, mostra o quanto de confusão se provocou, por culpa de Chico Xavier, Divaldo Franco e seus seguidores.

Não são os veteranos de toda uma série de confusões que podem falar mal da confusão dos outros, se os primeiros influíram de maneira decisiva para que isso acontecesse. A deturpação se espalhou como pólvora e essa sucessão de obras anti-doutrinárias se deu porque, há muito tempo, essa pólvora foi acesa por Chico Xavier e Divaldo Franco, os pioneiros traidores do Espiritismo.

sábado, 9 de dezembro de 2017

"Espiritismo", credulidade infantil e carteirada religiosa


Afastado dos postulados originais de Allan Kardec, apesar de toda a bajulação e todos os artifícios em prol de seu nome, o "espiritismo" brasileiro tornou-se, no imaginário de muitos, uma espécie de contos-de-fadas de gente grande. É claro que ninguém assume isso dessa forma, mas o tratamento que se dá às estórias de "superação e fé" trazidas pelas palestras e obras "espíritas" diz muito a respeito disso.

Os apelos emocionais que tentam compensar a aridez doutrinária, com as insossas frases dos "médiuns" ilustradas por paisagens de jardins floridos, céu azul, o brilho do Sol, os passarinhos voando sobre rosas etc, refletem muito esse processo de infantilização do inconsciente dos mais velhos através do "espiritismo" feito no Brasil.

Apelos sobre "paz e fraternidade" ou "amor e solidariedade" são feitos de forma a desarmar os contestadores, seduzidos pelo céu azul e pelas lindas flores e pelo tom de poesia de certos apelos visuais ou textuais. Tudo isso é feito para que se aceite não só os desvios doutrinários há décadas cometido pelos "espíritas" brasileiros, mas até mesmo para progressistas aceitarem os valores ultraconservadores defendidos pela igrejeira doutrina brasileira.

A deturpação do Espiritismo tornou-se um engenhoso projeto no qual é preciso firmeza na contestação e no questionamento. Desculpas dos mais diversos níveis, das mais ridículas às mais habilidosas, são lançadas para permitir a deturpação do legado de Allan Kardec, com o detalhe surreal de que há também a fingida declaração de "fidelidade aos postulados espíritas originais".

Essa fingida fidelidade chega ao ponto de, formados por ideias roustanguistas, os deturpadores do Espiritismo, ao viajarem na França, vão correndo para ver o túmulo de Kardec enterrado no cemitério de Père-Lachaise, em Paris. Posam para fotos, esbanjam vaidade e ainda adotam a postura esnobe de dizer que "estão se sentindo em casa". Traem Kardec mas têm a arrogância de estufar o peito e dizer que são "os mais fiéis discípulos" do pedagogo lionês.

A credulidade dos brasileiros, sobretudo para os "médiuns espíritas", que perderam a função intermediária e, apesar da pose de "humildade" e de todo aparato de "simplicidade", perdem feio em humildade em relação aos verdadeiros médiuns do tempo de Kardec, que, mesmo aristocráticos, eram discretos, quase anônimos, só queriam cumprir sua tarefa e não bancavam dublês de filantropos nem de pensadores.

A desinformação generalizada que, nas redes sociais, faz com que pessoas se arrisquem até em transmitir visões racistas sem saber que isso dá cadeia, também faz com que se aceite uma série de aberrações que transformam o Espiritismo, no Brasil, em um engodo doutrinário, num clone do Catolicismo cheio de bolor, ferrugem e mofo.

As pessoas fazem excesso de relativismos para se manterem na zona de conforto de aceitar que a vida vai mal, e, incapazes de superar de verdade as suas dificuldades, se contentam com o entretenimento barato de ir às "casas espíritas" se divertir às custas da desgraça alheia, através de espetáculos de "estórias de superação", que servem de "masturbação para os olhos" através da produção de comoções.

As pessoas aceitam tudo. Aceitam que os "médiuns espíritas" vivam no culto à personalidade, aceitam que a fascinação obsessiva lhes tome os instintos hipnotizados pelas fotos de Francisco Cândido Xavier. Aceitam que obras literárias fake, falsamente atribuídas a autores mortos, sejam vistas como "autênticas" só por causa de frases fáceis como "sejamos todos irmãos" e "busquemos a paz maior em Deus e no Cristo".

Qualquer um que tenha algum prestígio e seja querido por um número considerável de pessoas, se lançar uma série de livros usando nomes de gente já morta, com obras risíveis e pedestres de auto-ajuda e moralismo religioso, será endeusado de forma que essas obras caricaturais, verdadeiras paródias do que foram os respectivos mortos tidos como "autores espirituais", sejam vistas como "genuínas" e se sobreponham, se depender do caso, até às obras originais produzidas em vida.

MERCADO LITERÁRIO E CARTEIRADA RELIGIOSA

Daí que Humberto de Campos passou a ser envolvido num absurdo que outro escritor prematuramente falecido, Sérgio Porto, através de seu pseudônimo Stanlislaw Ponte Preta, poderia muito bem ter incluído no FEBEAPÁ, o Festival de Besteiras que Assola o País.

Isso porque Humberto deixou de ter seus títulos originais publicados com regularidade no mercado literário brasileiro. No entanto, as obras supostamente mediúnicas, que uma simples leitura pode comprovar que fogem do estilo original do autor maranhense, continuam livremente publicadas e até relançadas na Bienal do Livro, que em toda edição conta com uma instalação pomposa da FEB, com uma foto gigantesca de Chico Xavier.

A carteirada religiosa, no Brasil, infelizmente é a mais importante. Só por se apoiar de pretextos e alegações divinas ou sobrenaturais, a carteirada religiosa do "espiritismo" brasileiro se acha acima da ética, do bom senso, da lógica, da coerência. Qualquer absurdo é só arrumar uma desculpa fácil: "há aspectos que escapam dos caprichos terrenos da compreensão humana". Quanta cara-de-pau, não é mesmo?

Pode-se usurpar o morto que escolher, desde que haja acordos entre diferentes "médiuns" sobre quem é que vai ser "dono" de um morto da ocasião. Existe um que é "dono" de Raul Seixas, outro que é "dono" de Renato Russo, há quem se julgue "dono" de Getúlio Vargas e temos que nos preparar sobre quem vai ser "dono" de Teori Zavascki, Eduardo Campos e Domingos Montagner.

A carteirada religiosa garante tudo e, o que é mais absurdo, pode-se até seduzir os familiares do morto para eles aceitarem as armações do "médium". Em 1957, Humberto de Campos Filho foi seduzido por Chico Xavier através de um assédio moral de cunho religioso, por meio do convite a uma doutrinária "espírita" e um espetáculo ostensivo de mero Assistencialismo.

Recentemente, a atriz Márcia Brito, ex-mulher do ator e dublador Nizo Neto, este filho de Chico Anysio e Rose Rondelli, que havia perdido, devido a um afogamento, o filho do ex-casal, Ryan Brito, tentou justificar a suposta autenticidade da "mensagem psicográfica" dele da seguinte maneira: avisou os céticos que, em vez de duvidarem da "psicografia", que conheçam o "trabalho filantrópico" do "médium".

Isso foi o mesmo que justificar uma coisa com outra totalmente diferente. Sabemos que a "caridade" feita pelos "espíritas" é o Assistencialismo, que não "cura" a pobreza mas alivia seus "sintomas", mas, independente de pensar em tais questões, o que dar sopa aos pobres tem a ver com divulgar uma mensagem atribuída a um morto?

Foi constrangedora a declaração da mãe de Ryan Brito, até porque ela se valeu de uma abordagem contrária ao que recomendou Allan Kardec no Conselho Universal do Ensino dos Espíritos: procurar duvidar da mensagem supostamente espiritual, até que se tenha certeza, por critérios rigorosos, que a mesma pareça algo digno de aparente autenticidade.

Esses critérios Kardec havia descrito: procurar médiuns de diferentes procedências, sem relação alguma entre si, para cada um deles divulgar uma mensagem de algum morto solicitado. Não se pode contentar com um único médium, que pode ser um mistificador, nem com semelhanças em relação à natureza pessoal do morto, por si mesmas. Isso porque, com toda semelhança que houver, se há um único aspecto contrário à natureza pessoal do morto, a veracidade é derrubada de vez.

Questões como estas os "espíritas" brasileiros jogam debaixo do tapete. É constrangedor que eles se julguem "rigorosamente fiéis a Allan Kardec", mas em muitos casos essa fidelidade tão alegada em peitos estufados e cabeças erguidas nem de longe é cumprida.

Um exemplo é a falta de rigor com que o "médium" Divaldo Franco teve em relação à "farinata" do prefeito de São Paulo, João Dória Jr. Ele não pediu documentos de perícia técnica, exame nutricional ou coisa parecida. Pedir isso não seria ofensivo, mas um atestado de responsabilidade. Divaldo, em vez disso, deixou que se lançasse oficialmente um alimento que, por sua má repercussão, foi depois descartado. Não fosse o silêncio da mídia, o "médium" teria caído em um escândalo terrível.

Por sorte, permite-se tudo no "espiritismo", sob a pregação fácil, simplória mas, nem por isso, isenta de hipocrisia, de mensagens de "amor e caridade" ou "paz e fraternidade". Cria-se a falácia de que o "amor pode tudo", mesmo que seja para jogar a ética, a lógica, a coerência e o bom senso no lixo. O próprio Divaldo lançou uma lenda de que, em nome da "caridade", o espírito do dr. Adolfo Bezerra de Menezes se "materializou" (?!) e furtou um caminhão a pedido de Chico Xavier.

Isso vai contra os postulados espíritas originais e revela uma grande farra que o "espiritismo" brasileiro, lançando mão de um monte de apelos emocionais, dignos de contos infantis, faz com o legado de Allan Kardec, garantindo a seus pregadores, sobretudo "médiuns", uma imunidade em dimensões estratosféricas, sendo vistos até como "espíritas autênticos" mesmo traindo as lições kardecianas.

Daí que ser "médium" hoje é a atividade mais fácil no Brasil. Faz-se o que quiser, lançando obras fake, difundindo ideias retrógradas, promovendo Assistencialismo, traindo Kardec. É melhor do que ser político do PSDB: ninguém investiga, ninguém pune, e os "médiuns" podem se passar por progressistas até quando veiculam valores do mais puro obscurantismo.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Dilma Rousseff recebeu livro de Chico Xavier nas mãos da FEB. Oh, azar!!

O ENTÃO PRESIDENTE DA FEB, NESTOR JOÃO MASOTTI, DANDO SEU "PRESENTE DE GREGO" PARA DILMA ROUSSEFF, NA BIENAL DO LIVRO DE 2011.

O "espiritismo" brasileiro, pelas suas energias confusas, pela sua desonestidade doutrinária e pelas dissimulações das mais diversas sustentadas pelo discurso fácil da "fraternidade" e da "caridade", traz vibrações negativas que atingem a vida de quem não segue alguma ideologia conservadora ou alguma ameaça representa ao conservadorismo de caráter político, social, econômico, cultural etc.

Consultando a Internet em busca de informações envolvendo os deturpadores do legado de Allan Kardec - nome muito bajulado pelos brasileiros, mas criminosamente traído por práticas herdadas do igrejismo roustanguista - , chegamos a esse registro da XV Bienal do Livro, em setembro de 2011, no Rio de Janeiro.

Nela o então presidente da FEB, Nestor João Masotti, entregou o livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de 1938, de autoria de Francisco Cândido Xavier e Antônio Wantuil de Freitas, mas atribuído ao espírito Humberto de Campos, que nunca teria escrito uma patriotada igrejeira dessas.

Como em muitos "beijos de morte" do "espiritismo" que faz muitos devotos perderem seus filhos em tragédias vindas do nada e fazem muitos pobres coitados contraírem azar depois de fazerem "tratamentos espirituais", Dilma Rousseff acabou contraindo azar, pois, pouco tempo após receber o "iluminado livro", passou a sofrer uma decadência política da qual ela perdeu todo o controle da situação.

Ela passou a ser hostilizada e caluniada, e, a partir do final de 2015, começou a sofrer derrotas inexplicáveis, como se ela se tornasse protagonista de uma adaptação do livro O Processo, de Franz Kafka, o que faz muitos críticos do golpismo político dizerem que Josef K deu lugar a Dilma R.

E não foi sem luta que Dilma foi derrotada. A situação surreal era que todo processo de defesa de Dilma Rousseff e toda a solidariedade que se estendia até o exterior - famosos como Harry Belafonte, Viggo Mortensen e Susan Sarandon e até uma parte do Legislativo dos EUA se manifestaram solidários à presidenta - foram inúteis e ela acabou sendo afastada do poder em definitivo no dia 31 de agosto de 2016.

É bom deixar claro que, apesar de sua fingida imparcialidade, a FEB sempre defendeu movimentos golpistas. Esteve na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, o movimento "ecumênico" que pediu o golpe militar que se deu naquele 1964. Seu maior propagandista, Chico Xavier, defendeu abertamente a ditadura militar, e, em 1989, apoiou o candidato à Presidência da República, Fernando Collor de Mello, em detrimento a Luís Inácio Lula da Silva.

A FEB apoiou o golpe político contra Dilma Rousseff. Definiu as pesseatas do "Fora Dilma" como "sinal de regeneração e despertar humano", só faltando definir como "crianças-índigo" os grotescos integrantes do Movimento Brasil Livre e do Revoltados On Line (ué, o "espiritismo" não era contra a revolta?) e três filhos de Jair Bolsonaro (Carlos, Flávio e Eduardo) como "cristais".

O "espiritismo" soa como uma maldição em personalidades progressistas. Foi Juscelino Kubitschek dar o título de "entidade de utilidade pública" à FEB, dando-lhe consideração e respeito, para contrair azar e perder para sempre o futuro político, não se elegendo sequer para um assento na Academia Brasileira de Letras (antiga casa de Humberto de Campos), que hoje abriga nulidades como Merval Pereira, escritor medíocre e jornalista pior ainda que só tem aparência de autor parnasiano.

Juscelino faleceu num estranho acidente de carro em 1976. Mas ele espalho o mau agouro "espírita" para seus pares, como João Goulart (deposto num golpe e, anos depois, morto de maneira estranha), o marechal Henrique Lott (que teve filha assassinada por um "amigo"), Márcia Kubitschek e até José Wilker, que interpretou Juscelino no cinema.

Já Fernando Collor, e, depois, Aécio Neves, são políticos que, com solidariedade recíproca de Chico Xavier, tornaram-se sortudos, eles que estão envoltos em episódios de corrupção. Tanto que Collor foi "agraciado" com a eliminação daqueles que poderiam trazer denúncias mais graves contra o suposto "caçador de marajás", como PC Farias, morto em circunstâncias nunca esclarecidas.

Recentemente, a vítima do mau agouro foi Marisa Letícia Lula da Silva, mulher do ex-presidente Lula, que sofreu um AVC que, com toda sua delicadeza, tinha possibilidades de cura, mas foi só receber as "preces" do "médium" e latifundiário goiano João Teixeira de Faria, o João de Deus, para morrer em seguida.

A título de comparação, o mesmo João de Deus acolheu o presidente Michel Temer, durante uma operação deste para retirada de um nódulo. Mais idoso que Marisa (ela tinha 67 e ele, 77) e com 90% de obstrução nas artérias, Temer sobreviveu e teve alta em poucos dias, como se tivesse tido uma gripe e não uma cirurgia para tratar de um grave problema.

O próprio Temer tem mais sorte de se livrar de processos políticos do que Dilma Rousseff, que tudo fez para se salvar e recuperar o seu mandato, mas não conseguiu. Temer, com uma popularidade quase nula de 3% e com um projeto político extremamente retrógrado que envolve desmonte de direitos trabalhistas, venda de riquezas para estrangeiros e quebra de nossa soberania, consegue se salvar no poder e ainda com a cara-de-pau de comprar seus juízes e parlamentares.

Temer age de acordo com interesses próprios do egoísmo humano. Mas teve mais sorte que Dilma, associada a um projeto político mais altruísta e justo. Só essa distribuição desigual de vibrações do "espiritismo" mostra o quanto esta doutrina, na verdade uma deturpação criminosa do legado de Kardec, é marcada por energias tão maléficas, que fazem até com que os "médiuns" tenham uma blindagem igual ou superior que os políticos do PSDB.

Isso mostra o quanto ler um livro de Chico Xavier traz muito mais azar do que passar debaixo de uma escada ou quebrar um espelho. A essas alturas, as pessoas podem sair por aí correndo para lá e para cá sob escadas ou ficar quebrando espelhos por esporte que nenhum azar ocorrerá em suas vidas. Azar mesmo traz é uma religião marcada pela desonestidade doutrinária, capaz de trair seu precursor e depois jurar falsa fidelidade. Isso influi nas más energias, mais do que se pode imaginar.