quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O encontro entre o Deturpador e o Prefake


Numa época em que o senador Aécio Neves é presenteado pela impunidade e que um engodo alimentar é lançado pelo prefeito de São Paulo, João Dória Jr., descobre-se mais provas de que o "espiritismo" brasileiro, que vende uma falsa imagem de "progressista", está alinhado com o atual cenário político do Brasil, de métodos fisiológicos e perfil ideológico conservador.

Mesmo na Bahia, onde há uma predominância de movimentos sociais e personalidades progressistas, o "espiritismo" brasileiro se revela bastante conservador. Os "médiuns" José Medrado e Divaldo Franco sinalizaram, sutilmente, apoio ao grupo político dos herdeiros de Antônio Carlos Magalhães. Consta-se que José Medrado seria um parente distante do político populista de direita, Marcos Medrado, conhecido por ser um dos representantes baianos da bancada ruralista do Legislativo.

É claro que eles tentam se passar por ecumênicos, mas o "espiritismo" brasileiro sempre se manifestou eminentemente conservador. O "médium" Francisco Cândido Xavier é conhecido por apoiar a ditadura militar, mesmo na sua pior fase, regida pelo terrível AI-5 e com ações de tortura comandadas pelo DOI-CODI, e logo quando parte da direita que apoiou o golpe militar de 1964 migrou para a oposição.

Parece chocante, mas o próprio Chico Xavier, em um programa de TV dirigido para milhões de telespectadores e hoje disponível no YouTube, disse com todas as palavras verdadeiros desaforos contra pessoas humildes, condenando os movimentos camponeses e operários, além de pedir para que oremos pelos generais (e, por conseguinte, pelos torturadores) que estavam construindo um "reino de amor" do Brasil futuro, um "reino" feito sob o banho de sangue de muitos brasileiros inocentes.

Chico Xavier, que setores das esquerdas ingenuamente lhe demonstram simpatia, também apoiou o candidato à Presidência da República, Fernando Collor, na disputa contra Luís Inácio Lula da Silva. Este, mais tarde vitorioso em duas eleições presidenciais, recebeu a pretensa solidariedade do "médium" e latifundiário João Teixeira de Faria, o João de Deus, que como "coronel" goiano tem preferência ideológica aos políticos do PSDB que dominam o Estado de Goiás.

João de Deus teria dado o "beijo da morte" na ex-primeira-dama Marisa Letícia da Silva. Antes do "médium" dizer que estava orando por ela, a esposa de Lula parecia ter consideráveis chances de se recuperar de um AVC, no começo deste ano. Foi João de Deus dizer que "orava por ela" para, pouco depois, ela falecer, com 67 anos incompletos.

José Medrado é contratado pela Rádio Metrópole FM, de Salvador, cujo dono foi um "filhote" da ditadura militar, o engenheiro e dublê de radiocomunicador, Mário Kertèsz. A origem da emissora se deu num esquema de corrupção quando Kertêsz era prefeito da capital baiana e uma grande verba pública destinada a obras importantes foi desviada para a aquisição de rádios e TVs.

Apadrinhado por Antônio Carlos Magalhães, Kertèsz foi filiado à ARENA e sua primeira gestão como prefeito de Salvador se deu como prefeito-biônico, nomeado pelos militares. Na segunda gestão onde ocorreu a corrupção que o fez adquirir rádios e TVs, ele era eleito pelo PMDB e foi designado pelo padrinho político, com quem se reconciliou após um breve rompimento, a destruir o Jornal da Bahia, antigo periódico de esquerda baiano, que Kertèsz reduziu a um tabloide policialesco.

Ultimamente, porém, Mário Kertèsz resolveu se apropriar das forças baianas de esquerda, de tal forma que exerceu sobre elas um monopólio de visibilidade. Por duas vezes este ano, o "filhote da ditadura" buscou promoção pessoal entre os movimentos esquerdistas de todo o Brasil ao entrevistar o ex-presidente Lula.

O "espiritismo" brasileiro, portanto, está associado a forças conservadoras de tal forma que as poucas pessoas de esquerda que se declaram "espíritas" - na orientação adotada pelo "movimento" brasileiro - parecem bastante deslocadas da realidade e tomadas de profunda ingenuidade diante da fachada "filantrópica" da doutrina brasileira.


DIVALDO FRANCO E A RAÇÃO HUMANA

A atitude conservadora ganhou novos ingredientes depois que o "movimento espírita", de forma sutil, manifestou defesa convicta ao governo Michel Temer e a grupos reacionários como o Movimento Brasil Livre e o Revoltados (!) On Line. Sabe-se que os textos sobre apologia ao sofrimento cresceram desde 2016, o que indica que os "espíritas" defendem medidas restritivas como a reforma trabalhista, a reforma previdenciária e a terceirização total no mercado de trabalho.

Sobre a reforma trabalhista, os "espíritas" defendem itens como o fim dos encargos salariais, sob a tese do "desapego material", e a prevalência do negociado sobre o legislado no acordo de patrões com empregados, que combina o espírito de servidão destes últimos com a utopia do "diálogo fraterno" que os "espíritas" atribuem a estes dois entes profissionais.

Agora é a vez de Divaldo Franco, que não escondeu seu apoio ao prefeito de Salvador, Antônio Carlos Magalhães Neto, o ACM Neto, cortejar logo um dos políticos mais desmoralizados do Brasil, o prefeito de São Paulo João Dória Jr., apelidado de prefake e eleito em 2016 por causa do modismo da anti-política que contaminou setores conservadores da sociedade brasileira.



João Dória Jr., que outrora era apresentador de programas que entrevistavam pessoas ricas, está associado a medidas deploráveis como o "Acelera São Paulo", que aumentou o padrão mínimo de velocidades de veículos, causando várias mortes nas avenidas marginas da capital paulista.

Outra medida deplorável foi a de mandar acordar os moradores de rua com jatos d'água, uma atitude imoral, assustadora e, pelo choque térmico que pode causar, nociva à saúde. Dória também reprimiu uma cracolândia, atrapalhando a ação de psicólogos para educar os viciados a largar o consumo, e fez com que o ponto de venda e consumo de crack se mudasse para uma área residencial, ameaçando a segurança e o conforto dos moradores.

Pois João Dória Jr. foi o homenageado, no último dia 08, do evento do Movimento Você e a Paz, comandado por Divaldo Franco, na etapa realizada em São Paulo, no Parque do Ibirapuera. Habitualmente inclinado a atacar desafetos, João Dória Jr. "desejou paz" a Alberto Goldman, veterano político que trocou farpas com o prefeito paulistano.

No evento, João Dória Jr. lançou o programa "Alimento para Todos", no qual apresentou o "granulado nutricional", um pote cheio de bolinhas granuladas que seria composto de restos de comida processados sob uma técnica industrial que não foi divulgada. Também não foram divulgados os critérios nutricionais, a forma como se faz o processamento e a procedência dos alimentos a serem aproveitados. O granulado é pejorativamente apelidado de "ração humana".

Enquanto Divaldo Franco, que muitos acreditam como "sábio" e "filantropo" e mesmo muitos contestadores da deturpação espírita têm muito medo de questionar sua trajetória com profundidade e firmeza, apoia o granulado, que Dória pretende destinar para a população pobre, os movimentos sociais e entidades sérias de diversos setores condenam a iniciativa.

O Conselho Federal de Nutricionistas, por exemplo, já afirmou que o granulado, a ser distribuído sob o codinome "Allimento" (com "l" duplo), definiu a iniciativa como "danosa à dignidade humana". Outros movimentos sociais apontam outros aspectos prejudiciais à iniciativa do prefake.

Entre tais aspectos, enumera-se o fato do desprezo de Dória por iniciativas que emancipassem de verdade o povo pobre e os moradores de rua, numa cidade como São Paulo, em que favelas são dizimadas total ou parcialmente por constantes incêndios. Além disso, criar uma ração humana em vez de melhorar o acesso da população às cestas básicas é um ato comparável ao de oferecer uma ração animal para cachorros domésticos, o que indica um profundo e cruel preconceito social.

Pela ótica dos "espíritas", a "ração humana" seria uma "maneira alternativa" de "trazer benefícios alimentares aos necessitados". "Qualquer iniciativa é bem vinda, se for para matar a fome dos famintos", é o que se resume esta tese, ignorando aspectos diversos da iniciativa do prefeito paulistano, que contrariam os princípios de dignidade e respeito humanos.

Sobre o apoio de Divaldo Franco à iniciativa e ao prefake, isso não surpreende, apesar da complacência que o "médium" baiano recebe até mesmo daqueles que contestam a deturpação espírita, mas recuam no meio do caminho.

O "médium" baiano é conhecido por ser, depois de Chico Xavier, o maior deturpador da Doutrina Espírita, tendo sido ambos antigos católicos e discípulos de Jean-Baptiste Roustaing. Divaldo foi denominado, pelo jornalista José Herculano Pires, com o incômodo título de "impostor", pela forma com que o baiano expressava conceitos do Espiritismo.

Quanto a Divaldo e Dória, digamos que a sintonia de vibrações os uniu, e muito. Ambos adoram deixar os assistidos à própria sorte e saírem viajando em busca de prêmios e condecorações. O bairro de Pau da Lima, de Salvador, é um dos mais perigosos da capital baiana. Já São Paulo aumentou seus índices de violência quando Dória seguia viagem pelo resto do país, querendo se promover para uma possível candidatura à Presidência da República. Esta atitude desagradou até seu partido, o PSDB.

A ração humana pode render muitos episódios e desgastar a imagem de João Dória Jr.. E se ele recebe as bênçãos de Divaldo Franco, isso significa que o "espiritismo" brasileiro também se encontra numa retumbante decadência, o que deveria causar uma grande vergonha naqueles que ainda acreditam que o próprio Divaldo irá recuperar as bases kardecianas originais. Sonhem, amigos...

terça-feira, 17 de outubro de 2017

João de Deus usou atriz global para se promover e abafar investigações

JOÃO DE DEUS JÁ SE PROMOVIA ÀS CUSTAS DE FAMOSOS DO BRASIL E DO EXTERIOR, COMO A APRESENTADORA ESTADUNIDENSE OPRAH WINFREY.

Muitos ainda têm medo de enfrentar a deturpação do Espiritismo. Mesmo os questionadores mais dedicados recuam com medo quando chegam a um certo ponto, muitas vezes seduzidos pelas paisagens fantasiosas que ilustram as fotos dos "médiuns espíritas", ilustrações cheias de crianças sorridentes, céus azuis com brancas nuvens e jardins floridos. Em certos casos, os "médiuns" aparecem cercados de coraçõezinhos vermelhos e fofinhos.

Esse "cenário de Teletubbies" que desarmou muitos dos críticos da deturpação espírita, fazendo com que os deturpadores, com uma certa arrogância, disparassem falácias do tipo: "Viram? Nosso trabalho do bem (sic) desarma até os mais céticos, que podem resistir durante décadas, mas um dia são tomados pela força da fé", é resultante do recurso falacioso mais usado pelos "espíritas", o Argumentum Ad Passiones, ou simplesmente Ad Passiones.

Pois é o Ad Passiones, sobretudo na sua forma mais perigosa, o "bombardeio de amor" - expresso pela simulação de afetividade e generosidade que os "espíritas" fazem ao acolher visitantes - que fez com que o esperto Francisco Cândido Xavier, o "Aécio Neves da fé espírita", tenha seduzido Humberto de Campos Filho e, assim, evitado os processos recorrentes dos herdeiros do escritor maranhense.

Há muito mais corrupção nos bastidores do "espiritismo" brasileiro do que nos porões do que a direita imagina ser o Partido dos Trabalhadores. Ninguém desconfia, por exemplo, quem paga para os palestrantes "espíritas" ficarem excursionando pelo Brasil e pelo mundo para expor um repertório de palavrinhas bonitinhas e piegas, em troca de medalhas e outros prêmios. A situação chega a ser pior do que as seitas neopentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus.

Isso se deve porque, embora as seitas neopentecostais estejam comprometidas com um projeto retrógrado de país, tentando frear na marra os avanços sociais e fazer prevalecer valores sociais antiquados - através de projetos educacionais como a Escola Sem Partido - , elas não têm o pior defeito praticado pelos "espíritas": a desonestidade doutrinária, que faz com que os "espíritas" entrem em contradição e dissimulem o tempo todo.

A situação chega ao ponto de reduzir o legado de Allan Kardec a uma doutrina mitômana, dissimuladora, mistificadora. Os críticos da deturpação espírita, que admitem que o "espiritismo" brasileiro é catolicizado, mesmo assim se sentem ofendidos, sem razão, quando há necessidade de ir adiante com os questionamentos. Eles se contentam com a promessa vã de que os próprios deturpadores vão "aprender melhor o pensamento de Kardec", algo que se revelou inútil.

O igrejismo que contaminou o "espiritismo" brasileiro tornou-se tão intenso - mesmo sob a verborragia pseudocientífica de Divaldo Franco e o carisma forjado de Chico Xavier - que a figura do "médium" passou a assumir caraterísticas dos antigos escribas e sacerdotes reprovados por Jesus de Nazaré em seu tempo, como o culto à personalidade, a falsa humildade e o discurso rebuscado.

E quem acha que criticar os "médiuns espíritas" e outras figuras da doutrina brasileira é ato de "intolerância religiosa" e "ódio ao trabalho do bem", é bom deixar claro que tais críticas se baseiam em alertas e questionamentos trazidos pelo próprio Allan Kardec, que preveniu ao mundo a deturpação que, infelizmente, encontrou um campo fértil no ingênuo e complacente Brasil.

JOÃO DE DEUS

O "espiritismo" brasileiro, além disso, é blindado pela mesma Rede Globo de Televisão que defendeu a ditadura militar e combate os movimentos progressistas. A Globo blinda Chico Xavier para concorrer com os "pastores eletrônicos" das concorrentes.

Para a Globo, a figura do "médium espírita" lhe é vantajosa, por ser um "sacerdote sem batina" cuja penetração social aparentemente independe de institucionalismo religioso. Com isso, a Globo vê no "espiritismo" um "Catolicismo à paisana", podendo persuadir religiosamente as pessoas sem despertar qualquer desconfiança a respeito disso.

A habilidade da Globo manipular as pessoas não pode ser subestimada: ela manipula até uma parcela de seus próprios detratores, inserindo-lhes valores, gírias, crenças e paradigmas culturais que são próprios da emissora, e que podem ser, no futuro, a herança da família Marinho, tida erroneamente como um patrimônio "acima do poder midiático e ideológico dominantes".

Com Chico Xavier morto e Divaldo Franco aposentado, a Globo promove seu mais novo "médium-sacerdote", o latifundiário e curandeiro João Teixeira de Faria, o João de Deus. Exposto a celebridades estrangeiras, através de um lobby mais ambicioso no qual se inclui uma afiliada da Globo em Goiás, João de Deus se expôs até a personalidades estrangeiras como a apresentadora Oprah Winfrey. Shirley MacLaine e Naomi Campbell também fizeram consultas com o "médium".

Há aspectos muito sombrios em torno de João de Deus, que o establishment religioso promove como um cruzamento de Zé Arigó com o curandeiro do programa O Povo na TV (SBT), Roberto Lengruber, depois desmascarado como charlatão.

João de Deus é latifundiário e teria acumulado riquezas e adquirido propriedades com o desvio de parte do dinheiro da caridade para a Casa Dom Inácio de Loyola, localizada em Abadiânia, interior de Goiás, Estado brasileiro considerado um dos mais conservadores do país.

Por outro lado, assim como Chico Xavier pode estar associado à "maldição dos filhos mortos", João de Deus estaria associado também a energias negativas, sobretudo quando a Marisa Letícia Lula da Silva, mulher do ex-presidente Lula, sofreu um AVC e, internada, parecia ter alguma chance de cura. Foi João de Deus orar por dona Marisa, para ela depois falecer. Consta-se que o jornalista Marcelo Rezende também teria sido "beneficiado" pelas energias de João de Deus ao morrer.

As energias negativas seriam seletivas, apenas atingindo personalidades que causam risco às energias conservadoras respaldadas pelo "espiritismo" brasileiro, atualmente fundamentado para recuperar as bases do Catolicismo jesuíta do Brasil colonial.

Daí que muitos que recorrem a Chico, Divaldo e João sofrem alguma maldição ou ela atinge algum ente querido. Recentemente, o desenhista Maurício de Souza perdeu um filho prematuramente depois que criou animações da Turma da Mônica com Chico Xavier. Famosos como Nair Bello, Ana Rosa e Augusto César Vannucci, adeptos de Xavier, tiveram históricos de perda prematura de filhos.

O episódio de Camila Pitanga, que perdeu o amigo e colega de novela Domingos Montagner, deveria chamar a atenção. Ateia e de esquerda, ela recorreu a João de Deus para agradecer o fato de ter sido salva da tragédia. Ela em si recebe boas energias, mas também foi indicada por alguém - a novela, Velho Chico, teve no elenco o "espírita" e ativista de direita Carlos Vereza, que viveu Adolfo Bezerra de Menezes no cinema, e é um dos membros do reacionário Instituto Millenium.

Com isso, Camila acabou sendo usada como garota-propaganda não só de um cambaleante "espiritismo" igrejeiro praticado no Brasil, como também de um "médium" de valor duvidoso que é blindado pela Rede Globo de Televisão, que, sabe-se, recorre ao "espiritismo" para exercer seu poder, através de um respaldo religioso feito para enfrentar, de maneira sutil, as seitas neopentecostais.

O que chama a atenção é que a atriz foi convidada para tal ato de propaganda quando João de Deus é alvo de investigações criminais. Um texto do Jornal Opção, com detalhes, fala dos crimes de morte causados por exercício irregular da função, já que a "cirurgia mediúnica", atividade do "médium", é feita à revelia da ciência e sob métodos e técnicas duvidosos até sob o ponto de vista higiênico.

A técnica de usar apenas tesoura ou outro objeto cortante para perfurar a barriga e retirar um caroço é até um clichê dessa sub-medicina cuja credibilidade poderia ser posta em xeque (e podemos dizer xeque-mate) por um simples aspecto: João de Deus não realizou cirurgia em si mesmo, quando estava sofrendo de câncer.

Isso se torna vergonhoso e deplorável se percebermos que, em condições muito mais adversas, o cirurgião russo Leonid Rogozov, em 1961, realizou cirurgia em si mesmo, só precisando de dois assistentes, um para fornecer os instrumentos, e outro para mostrar o espelho para Rogozov olhar a área de sua cirurgia. Leonid sobreviveu e só faleceu 39 anos depois, com os efeitos naturais da velhice, em 2000, aos 76 anos de idade.

Duas pessoas haviam morrido depois que João de Deus realizou as "cirurgias". O norte-americano de ascendência latina Javier Villa Real Bustus (ironicamente, Javier é "Xavier" em espanhol) e a austríaca Martha Rauscher morreram após recorrerem à "cirurgia". A morte de Martha chegou a ser noticiada pelo portal G1, da Globo, sem que o nome dela nem o de João de Deus seja citado, o que sugere a blindagem da corporação da família Marinho ao "médium".

Quase não há investigações contra João de Deus. Segundo uma delegada de Abadiânia, ele não é denunciado. Como de praxe no "espiritismo", ninguém se atreve a denunciar os "médiuns" achando que é "intolerância religiosa" e "impiedade ao trabalho do bem", vide o famoso caso de Chico Xavier, cujo histórico de confusões e irregularidades, causadas por decisão, vontade ou consentimento do "médium" mineiro, o fizeram um equivalente religioso do conterrâneo Aécio Neves.

Há apenas uma investigação, em Abadiânia, contra João de Deus, que ocorre em segredo de Justiça, e a que está em andamento contra Javier Bustus, na qual o "médium", por sua atividade irregular, poderá responder por homicídio doloso ou culposo. Um texto explicando os problemas da "cura mediúnica" aponta problemas legais que podem indicar crimes diversos, não só o de charlatanismo, mas também de lesão corporal, entre outros.

O uso de uma atriz, ateia e de esquerda, para visitá-lo, a pretexto de agradecimento por uma graça, foi o recurso que João de Deus, blindado pela Globo, usou para abafar a má imagem trazida pelas denúncias que, se não são muitas, são graves, como a de charlatanismo ou de acúmulo abusivo de bens.

João de Deus também acumula uma fortuna surpreendente para alguém que vive "só da caridade".Tem um latifúndio, no interior de Goiás na divisa com Mato Grosso, com área equivalente a 18 parques do Ibirapuera (em São Paulo): 597 alqueires. Só a propriedade é avaliada no valor de cerca de R$ 2 milhões.

O "médium" não cobra por consultas e cirurgias na Casa Dom Inácio de Loyola. Mas ele já cobrou consultas em vários consultórios que administra, também cobra dinheiro por seus remédios e já cobrou taxas para uma palestra e amostras de suas atividades em eventos "espíritas" no exterior. É um bilionário com muita fome de dinheiro para alguém que quer ser associado à humildade e à simplicidade, não bastasse o culto à personalidade tão caraterístico dos "médiuns espíritas".

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O erro grave de um "pensamento" de Chico Xavier


Isso é que é levar gato por lebre. Os brasileiros, acostumados com a deturpação do Espiritismo, com um "espiritismo" igrejeiro que a cada vez mais se desenha como a forma atualizada do antigo Catolicismo jesuíta medieval, não têm o hábito de leitura e exageram na sua religiosidade que atrofia a compreensão da vida real.

Dito isso, observa-se um "pensamento" do "médium" Francisco Cândido Xavier que mostra um sério erro, uma contradição que derruba o sentido da frase, que parece agradável aos seus seguidores e simpatizantes, por ser um aparato de belas palavras que se revela oco e sem muita coerência. O "pensamento" é simplesmente este, que acompanha a ilustração acima:

"NINGUÉM PODE VOLTAR ATRÁS E FAZER UM NOVO COMEÇO. MAS QUALQUER UM PODE RECOMEÇAR E FAZER UM NOVO FIM".

São duas frases. Na primeira, fala-se que um "novo começo" é impossível. Mas, na segunda, diz-se ser possível, para qualquer um, "recomeçar". Se observarmos a semântica, veremos que Chico Xavier cometeu uma contradição grave, dizendo que "é impossível um novo começo, mas qualquer um pode recomeçar". "Novo começo" e "recomeço" (ato de recomeçar) são sinônimos.

Em parte, o "conselho" de Chico Xavier - fruto de suas tendenciosas frases de efeito, à maneira que Madre Teresa de Calcutá fazia em seu contexto - remete à reencarnação, o que nos leva a um novo questionamento, que se trata da questão da possibilidade de se fazer aquilo que a morte súbita impediu determinadas pessoas de fazerem ou continuarem fazendo.

Os "espíritas", que geralmente desprezam a vida material, achando que se pode desperdiçar uma ou duas encarnações com desgraça, adiando projetos de vida, acreditam que o que se deixou de fazer numa encarnação, se pode fazer perfeitamente em outra. Só que não é assim. As oportunidades perdidas são para sempre, e os planos de vida inevitavelmente têm que ser iniciados do zero.

Imagine um casal de namorados que vivem felizes e unidos. De repente, a mulher morre em um acidente de trânsito e o namorado fica só. Tempos adiante, os dois reencarnam, mas não como namorados, e sim como irmãos, filhos de um mesmo pai e mãe. Os dois poderão ter a mesma experiência de namoro de antes? Não.

A referida situação encontra outros contextos diferentes. Se a sociedade permitir que irmão e irmã sejam namorados - existem tribos que aceitavam tal condição - , os dois poderiam repetir a experiência de namoro da encarnação anterior. Mas até isso é uma mudança de contexto, a coisa não ocorre da forma que era antes. Já no caso da tendência da civilização de hoje, que não recomenda namoro entre irmãos consanguíneos, a experiência da vida anterior se anula na nova encarnação.

Os "espíritas" até falam em "paixões materialistas" para arrumar uma desculpa para ignorarem as perdas que uma encarnação interrompida prematuramente traz e que não pode ser compensada totalmente na encarnação posterior. Acham que a única coisa que o ser humano tem que fazer é "se entender com as pessoas", quase que com a passividade (ou melhor, a pazsividade) de um animal doméstico, sem que se observem aspectos diferentes da diversidade humana.

Mas os próprios "espíritas", que enxergam o mundo espiritual como se fosse uma reserva dos mesmos bens e valores materialistas considerados malignos na Terra, caem em contradição e ignoram que as adversidades pesadas desgastam os sofredores e que o sofrimento extremo nem sempre produz pessoas de moral elevada, podendo também produzir bandidos, farsantes e tiranos.

Com isso, soou mais uma vez inútil o "pensamento" de Chico Xavier, que, prestando atenção, não é mais do que um tolo joguinho de palavras sem pé nem cabeça. E é vergonhoso que há quem considere o "médium" um "filósofo", a exemplo de Divaldo Franco, o que mostra o quanto os brasileiros andam atolados na ignorância e na mistificação viciadas.

domingo, 15 de outubro de 2017

As decadências de Nuzman e Weinstein: e se fosse com um "médium espírita"?

O DIRIGENTE OLÍMPICO CARLOS ARTHUR NUZMAN E O PRODUTOR CINEMATOGRÁFICO HARVEY WEINSTEIN, EM SEUS TEMPOS DE ALEGRIA.

Nos últimos dias, dois homens considerados de grande admiração enfrentaram seu inferno astral. O hoje ex-presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, o jogador de vôlei aposentado Carlos Arthur Nuzman, e o produtor executivo de Hollywood, Harvey Weinstein, fundador da Miramax e um dos donos da Weinstein Company, foram denunciados por graves escândalos.

Nuzman foi denunciado por participação no esquema de corrupção em torno das Olimpíadas Rio 2016, que incluiu compra de votos para a aprovação do Rio de Janeiro, cidade há muito decadente e afundada num provincianismo que não condiz com a antiga reputação moderna da ex-Cidade Maravilhosa, como sede dos jogos olímpicos do ano passado. Parecia que era ontem que Nuzman era o mestre de cerimônias do evento, diante de um apagado presidente Michel Temer.

Já o produtor Harvey Weinstein é conhecido por uma grande porção de filmes destacados nos quais ele participou como produtor comum ou produtor executivo, de Pulp Fiction a O Discurso do Rei, e foi denunciado por assédio sexual e estupro por uma grande quantidade de atrizes de Hollywood e outras do cinema europeu.

Os dois são exemplos de como pessoas dotadas de grande reputação podem cair mediante erros considerados graves. No Brasil, casos assim ainda pegam muita gente de surpresa, acreditando que o "alto da pirâmide" é um paraíso de pessoas responsáveis que apenas se envolvem, "de vez em quando", em "pequenas (sic) confusões".

E o que dizer dos "médiuns espíritas", que, não bastasse as traições, de extrema gravidade, que fazem com os postulados espíritas originais de Allan Kardec, ainda são acusados de charlatanismo e falsidade ideológica, através de obras fakes tidas como "mediúnicas"? A complacência generalizada a eles se torna tão preocupante, chegando ao ponto dos críticos da deturpação do Espiritismo se afrouxarem nas críticas, nunca levando adiante os questionamentos.

As irregularidades, de extremíssima gravidade (não, não é exagero), de "médiuns" como Francisco Cândido Xavier, Divaldo Franco, José Medrado e João de Deus, não deveriam ser aceitas confortavelmente, sob a desculpa das "mensagens de amor" e de todo o aparato de meiguice e humildade a que estão associados os "médiuns", considerados "sacerdotes" de um suposto espiritismo cada vez mais voltado a resgatar o Catolicismo jesuíta medieval do Brasil-colônia.

Só o que Chico Xavier fez com Humberto de Campos e outros literatos do além, já é algo que merece repúdio total e intransigente. Não é intolerância à religião, mas intolerância à mentira, à fraude, à mistificação. Além do mais, até a "admirável caridade" das "cartas dos mortos" é uma dupla perversidade: além das cartas serem fake (não apresentam as assinaturas originais dos falecidos), elas exploram de maneira ostensiva e sensacionalista as tragédias familiares.

São coisas de arrepiar os cabelos, mas, como no Brasil as pessoas aceitam muitas coisas de maneira submissa, é mais assustador ver a complacência com que os brasileiros sentem em relação a estes deturpadores máximos que desfiguraram o legado de Kardec.

Chega-se ao ponto dos próprios críticos da deturpação, que em muitos momentos parecem corretos em apontar o igrejismo nas obras dos "médiuns espíritas" e seus palestrantes associados, recuarem e acreditarem ingenuamente que os próprios deturpadores "aprenderão melhor a Doutrina Espírita original". Isso é como acreditar que as raposas possam recuperar o galinheiro que destruíram.

Essas pessoas se esqueceram totalmente dos avisos de Allan Kardec e espíritos mensageiros como Erasto, que recomendavam o máximo de firmeza e nenhuma relativização aos erros trazidos pelos deturpadores. Erasto chegou a dizer que se deve tomar cuidado sobretudo quando os mistificadores do Espiritismo transmitem "coisas boas", como se observa nas "mensagens amorosas e edificantes" que se serve sob o cardápio do igrejismo medieval.

A coisa chega a ser aberrante. Na sociedade em que vivemos, se um familiar trai, ele causa decepção e amargura. Se é um cônjuge, causa rancor e fúria. Se é um amigo, causa repugnância e pavor. Mas se é um "médium espírita" que trai, as pessoas ficam complacentes e acreditam ingenuamente que tal traição teria sido instruída por "amiguinhos doentios", eufemismo para espíritos inferiores.

Não, nada disso. Os erros dos "médiuns" são de sua responsabilidade pessoal, mesmo quando sob influência de terceiros. Chico Xavier, Divaldo Franco, João de Deus, José Medrado e outros têm que pagar pelos seus erros graves e não botar na conta dos que supostamente os desviaram do bom caminho.

Esses "médiuns", como deturpadores da doutrina, já devem ser duramente responsabilizados, em vez da atitude lamentável de saírem impunes e imunes a tudo, porque essa atitude complacente revela o quanto os brasileiros são tomados de fascinação obsessiva e subjugação aos "médiuns espíritas", iludidos com os cenários de céus azuis ensolarados, jardins floridos, crianças sorridentes, borboletas e coelhinhos fofinhos que se somam ao personalismo sedutor desses ídolos religiosos.

Convém as pessoas saírem desse mundo de sonho e fantasia, e não convém usarem de "ginástica intelectual" para explicar o apego aos "médiuns" que arruinaram o legado de Kardec. Caso contrário, levarão um grave e doloroso tombo, diante de escândalos que podem ser revelados ou relembrados a qualquer momento.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Fascinação obsessiva e subjugação protegem "médiuns espíritas" no Brasil


Infelizmente, questionar as irregularidades do "espiritismo" brasileiro é um ato muito difícil. Isso é assim não porque essas irregularidades não passam de falácia ou fofoca de bastidor, mas porque as pessoas, num dado momento, deixam de ter a firmeza necessária e recomendada pelo próprio Allan Kardec, em seu tempo.

Mesmo os críticos da deturpação do Espiritismo chegam a um ponto em que se afrouxam. Num dado momento, são tomados do apelo à emoção que os ditos "médiuns espíritas" recorrem quando são duramente questionados, e o coração mole das pessoas se rende a essa retórica de sonho e fantasia, mas que é reconhecida, lá fora, como o recurso falacioso do Argumentum Ad Passiones, o "apelo à emoção".

Aí, alegações constrangedoras, vindos dos próprios espíritas autênticos, mas de vontade débil e movidos pela complacência fácil, vêm à tona: uns chegam a dizer bobagens como "Deixa pra lá, tudo é Amor!", e chegam mesmo a acreditar que os próprios deturpadores tenham condições para recuperar as bases espíritas originais.

Uns acabam se irritando quando há uma tentativa de desqualificar os "médiuns" deturpadores, mesmo se os questionamentos contra estes se baseiam na obra kardeciana original, sobretudo O Livro dos Médiuns. Sim, pessoas que deveriam zelar pela Doutrina Espírita original ficam defendendo os deturpadores pela habitual desculpa de que eles "pelo menos, fazem caridade". É uma espécie de "rouba mas faz" dos "espíritas".

Vivemos, no Brasil, uma sociedade viciada e presa em velhos paradigmas. É uma sociedade conservadora, que prefere sacrificar o novo e salvar o velho. E, num momento de crise em que se vive, quando a tendência deveria ser sacrificar velhos paradigmas, ainda que muito agradáveis, o que ocorre é praticamente o inverso.

As pessoas são tomadas de sensações emocionais como a "fascinação obsessiva" e a "subjugação", processos obsessivos que já haviam sido alertados por Allan Kardec, de forma bastante explícita, clara e concisa, para todo mundo estar bem informado.

Só que não. As pessoas se sentem fascinadas com os deturpadores do Espiritismo, "médiuns" que aparecem ao lado de crianças sorridentes e dóceis, cumprimentados com pompons, rosas e buquês de flores e cujas fotos são inseridas em paisagens de céu azul ou de jardins floridos. Tudo isso parece agradável, mas é muito, muito traiçoeiro. Só no Brasil é que isso é aceito sem qualquer questionamento.

Aqui os próprios questionadores da deturpação espírita deixam seus questionamentos no meio do caminho, quando a coisa ameaça se aprofundar. Em vez de seguirem os alertas da própria obra kardeciana, que apela para um questionamento firme e rigoroso, as pessoas melam e, cheias de dedos, investem sempre nas mesmas desculpas: "mas ele (o deturpador) é tão bonzinho", "ele ajudou muita gente", "ele nunca defendeu baixarias" e outros argumentos falaciosos.

Os brasileiros chegam a inverter avisos trazidos pela obra kardeciana original. "Melhor cair um homem do que cair uma multidão", dizia Kardec sobre o combate aos deturpadores da Doutrina Espírita. Em vez disso, os brasileiros preferem defender: "Melhor cair a população inteira do Brasil do que cair um ídolo religioso".

Numa época de profundo reacionarismo social, a "queda de multidões" é defendida pelo higienismo social que é movido por catarses diversas. Seja a pistolagem que dizima trabalhadores, a truculência policial que mata jovens negros e pobres, a ignorância que estimula matanças familiares, o feminicídio em que o primeiro caso inspira centenas de outros, e a onda dos "bolsomitos" que promete matar "comunistas".

Diante desse banho de sangue que acontece em todo o Brasil, o apego à religiosidade faz com que os "espíritas", tomados da mais profunda fascinação obsessiva ou, em certos casos - como nos profissionais de Justiça - , a subjugação, sintam-se reféns dos próprios deturpadores do Espiritismo, endeusados por diversos artifícios, seja a retórica "amorosa" do Ad Passiones e sua forma mais perigosa, o "bombardeio de amor", e a caridade superficial do Assistencialismo.

Os brasileiros não têm ainda uma educação social que os faça abrirem mão da zona do conforto de complacências mil. Preferem manter suas fantasias, porque questioná-las é motivo de aparente confusão. Se comportam como adultos que se irritam quando falam que Papai Noel não existe e reagem com ginástica mental (nome dado à mania de argumentar ideias sem coerência) a todo questionamento que derrubasse suas crenças fantasiosas e idealistas.

Os "médiuns espíritas" não são as "fadas-madrinhas" que muitos acreditam ser, tão falsamente associados a uma ideia de meiguice e altruísmo que não passam de retórica igrejista. Eles deveriam ser abominados só por difundir ideias que traem, frontalmente, os postulados espíritas originais, pois não é com os discursos de "vamos defender a paz" e "somos todos irmãos no amor ao Cristo" que a desonestidade doutrinária será inocentada e livre de qualquer responsabilidade.

Devemos também considerar que o ato de aprender melhor o Espiritismo nem de longe é uma punição para os deturpadores. Arrivistas, eles veem nessa condição um atenuante para seus erros e um estímulo para suas vaidades e ambições, e devemos também prestar atenção na contradição que eles fazem por trás da promessa de "não só entender Kardec, mas vivê-lo diariamente", como falam alguns deturpadores mais demagógicos.

Pois, se num momento eles expõem, na palavra "desencarnada", o texto correto de Kardec e as ideias corretas da Ciência Espírita, em outro voltam a pregar o igrejismo mais gosmento, o mais catolicizado, vaticanizado e dotado da mais enjoativa pieguice, dessas que parecem com certos doces que são gostosos quando ingeridos mas depois causam dor de cabeça e náuseas profundas.

As pessoas deveriam abrir mão dessa imagem adocicada dos "médiuns espíritas" que mais parecem vindas de novelas da TV. Se muitas pessoas se decepcionam até quando seus próprios familiares e amigos de infância cometem alguma traição, por que vamos consentir com as traições diárias que os deturpadores do Espiritismo fazem com Allan Kardec?

Devemos nos lembrar do aviso de Erasto, espírito mensageiro, em O Livro dos Médiuns. Com base nele, observa-se que os deturpadores do Espiritismo podem às vezes apresentar coisas boas, mas é aí que se deve tomar maior cautela. Afinal, quanto veneno não pode estar por trás no açúcar de "palavras de amor" e "gestos de caridade" trazidos pelos "médiuns espíritas" e outros palestrantes que se comprometem a deturpar o trabalhoso legado de Allan Kardec?

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Jornal Nacional encerra edição dando "boa noite com fé". Apelo religioso?


Na edição do último dia 07 de outubro, o Jornal Nacional, apresentado pelos suplentes Rodrigo Bocardi e Sandra Annenberg, encerrou quando ele cumprimentou os espectadores com um apelo religioso: "Boa Noite com fé", disse Rodrigo.

O encerramento chamou a atenção do público e empolgou os católicos, fazendo com que, aparentemente, a Rede Globo de Televisão pretendesse usar a Igreja Católica para enfrentar os pastores eletrônicos das seitas neopentecostais, quase todos arrendadores de horários em emissoras concorrentes, pois o "bispo" da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo, é dono de um grande complexo midiático em todo o Brasil, ancorado pela Record TV, de São Paulo.

No entanto, o que podemos inferir é que a Rede Globo deve ter o "espiritismo" como carta em suas mangas, não o Catolicismo, por ser este mais explícito. O "espiritismo" brasileiro já se constitui num "catolicismo à paisana", sem os aparatos e as formalidades caraterísticos da Igreja Católica.

Mesmo os ritos copiados do Catolicismo os "espíritas" usam sob outros nomes e sem um aparato mais pomposo: água fluidificada (a água benta dos católicos), o auxílio fraterno (confessionário), a doutrinária (missa), os "espíritos de luz" (santos) e os livros de Francisco Cândido Xavier (Bíblia), entre outros.

O "espiritismo" é blindado pela Rede Globo a ponto de haver filmes e novelas de temática "espírita". O próprio Chico Xavier virou hoje um ídolo popular por uma ajuda decisiva da Rede Globo, que o promoveu como pretenso filantropo nos moldes que o católico inglês Malcolm Muggeridge fez com Madre Teresa de Calcutá. Ou seja, aquela imagem piegas de "bondade" e "caridade" que mais parece vinculada à mística religiosa mais retrógrada e sob uma narrativa digna de dramalhão novelesco.

A Globo não poderia apostar num padre católico de forma explícita - mesmo eventos como "Santa Missa ao Lar" ou fenômenos como os padres Marcelo Rossi e Fábio de Mello são cautelosamente promovidos pela emissora - porque isso poderia despertar a reação dos neopentecostais, que partiriam para cima da Globo numa disputa explícita de supremacia religiosa através da guerra midiática.

Com o "espiritismo", ele mesmo tomado de verniz "científico" e de falsa despretensão, a Globo pode investir num proselitismo religioso sem despertar desconfianças. Além disso, o suposto ecumenismo dos "espíritas" faz com que isso, aliado ao poder próprio da Globo, possa atrair mais fiéis que as seitas neopentecostais, sem que isso possa ser explicitamente percebido pelo público médio.

"Médiuns espíritas" são promovidos a sacerdotes e usados pela Rede Globo como mitos religiosos a concorrer com Edir Macedo, R. R. Soares, Silas Malafaia e companhia e tratados como se fossem um misto de "ativistas", "filantropos" e até mesmo dublês de filósofos, criando uma aura de "humildade", "heroísmo" e "despretensão religiosa" típicos aos que, fora do âmbito religioso, se trabalha em figuras de pouca confiabilidade como Luciano Huck, assumidamente fã de Chico Xavier.

O "espiritismo" brasileiro é blindado pela Rede Globo tal qual, até pouco tempo atrás, o PSDB era beneficiado. Escândalos e irregularidades de extrema gravidade trazidos pelos "espíritas" a partir da própria deturpação feita sobre o legado deixado por Allan Kardec nunca são devidamente investigados.

Isso se dá ao ponto de até a usurpação do hoje esquecido escritor Humberto de Campos pela obra igrejista de Chico Xavier manter a impunidade de décadas, sendo favorecida pela retirada dos livros originais do autor maranhense, para dificultar o acesso de muitos leitores à obra original de Humberto, cuja comparação com os livros "espirituais" iria desmascarar, de uma forma ou de outra, o conteúdo estes, que não condizem ao estilo original do escritor falecido há mais de 80 anos.

Portanto, o "boa noite" de Rodrigo Bocardi pode abrir caminho não exatamente à parceria da Rede Globo com a Igreja Católica, mas com o "movimento espírita", favorecendo interesses dos dois lados. Da Globo, por se aliar a uma religião sem formalidades, e dos "espíritas", por usar o poder midiático para tentarem se salvar de sua grave decadência.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Por que não há motivo para o "espiritismo" sofrer intolerância religiosa?

IMPRENSA SENSACIONALISTA COSTUMA CONFUNDIR UMBANDA COM "ESPIRITISMO" (NOTEM A EXPRESSÃO "MÃE DE SANTO"). A CONFUSÃO, QUE ANTES IRRITAVA OS "ESPÍRITAS", HOJE É SUA "TÁBUA DE SALVAÇÃO".

O "espiritismo" brasileiro, em crise, adotou uma estratégia insólita. Depois de décadas tentando se livrar das confusões com o umbandismo, a doutrina que deturpou o legado de Allan Kardec em prol de um sub-catolicismo de moldes medievais agora mudou de ideia e passou a gostar da confusão com as religiões afro-brasileiras devido às circunstâncias infelizes por estas sofridas.

Hoje a imprensa sensacionalista, considerada de baixíssima qualidade e que normalmente subestima a inteligência de seu público (que, apesar de sua baixa escolaridade, não é burro e deveria ser tratado com mais respeito pela mídia "popular"), anda creditando como "centros espíritas" os terreiros de umbanda e candomblé que estão sendo vítimas de ataques de intolerância religiosa, sobretudo de parte de seitas neopentecostais, que não aceitam conviver junto a essas expressões religiosas.

O que se vê, depois da retomada ultraconservadora no Brasil, após a queda da presidenta Dilma Rousseff, é a liberação dos mais profundos e perversos preconceitos sociais. A catarse de uma parcela da sociedade brasileira permite práticas que vão desde o cyberbullying até o fanatismo religioso, aumentando casos de pistolagem e feminicídios e mostrando a sordidez moral que está por trás até mesmo de pessoas consideradas "de bem" e "melhor instruídas".

Hoje vemos empresas consideradas de grande importância para o público consumidor, associadas a fatos infelizes como propagandas que aludem a ideias machistas e racistas ou a práticas escravistas no mercado de trabalho. Marcas como Dove, McDonalds, Riachuelo, Volkswagen, O Boticário, Marisa e outras se envolveram em episódios infelizes de propagandas socialmente preconceituosas e acusações de promover trabalho análogo à escravidão (a chamada "escravidão moderna").

O que vemos é a chamada luta de classes e o escancaramento das neuroses e outros defeitos da chamada sociedade privilegiada. O "alto da pirâmide" está mostrando a sua podridão e os defeitos que se acumularam sobretudo desde o auge da ditadura militar, o ano de 1974, que criou um "padrão ideal" de comportamento e valores sociais que nos últimos anos se encontram em declínio.

As neuroses chegam a atingir níveis surreais, criando medos inimagináveis em setores "importantes" da sociedade. Com tantas personalidades valiosas morrendo prematuramente, há um medo tão grande de ver feminicidas impunes idosos morrendo que, se eles realmente morrem, a imprensa não noticia, mesmo se seus crimes tivessem "parado o país". Mas não se pode dizer sequer que eles estão muito doentes, mesmo tendo eles contribuído para isso no decorrer da vida.

Mas a sociedade tem até medo de que sistemas de transporte por ônibus cancelem a chamada pintura padronizada - no qual diferentes empresas de ônibus exibem o mesmo visual, enfatizando o logotipo da prefeitura ou do governo estadual - , o que faria com que a liberação da respectiva identidade visual de cada empresa (que facilitaria o cidadão na hora de ir e vir e até para identificar a empresa que presta mau serviço) mandasse certas pessoas para o psicanalista.

São neuroses descomunais, que fazem com que, nas redes sociais, haja ataques racistas em série, em cyberbullying organizado por grupos de internautas, capazes de humilhar negros que difundem mensagens positivas nos seus perfis pessoais. E isso quando o racismo é considerado crime, mas o internauta ignora riscos ao assumir sua truculência virtual, ainda que seja o de ver seu computador ou celular apreendido pela polícia para investigação criminal.

Dito isso, observa-se que o "espiritismo" brasileiro anda "muito feliz" com os últimos tempos. Sua narrativa é conservadora, achando "positiva" a queda de Dilma Rousseff e do PT pela "falta de amor (sic) ao próximo", definindo como "regeneração" as passeatas dos "coxinhas" que defendiam até a intervenção militar e exibiam símbolos nazi-fascistas e apoiando as "reformas" do governo Michel Temer como meios de "moderar" o "materialismo" dos infortunados.

A narrativa dos "espíritas" destoa da realidade que até a imprensa estrangeira consegue tirar de letra. Segundo os "espíritas", foi iniciado um "período de libertação" que anda pontuado de "muitas dificuldades", mas que deve ser encarado "com fé e esperança" diante da aceitação de uma série de restrições que são feitas para "promover a moderação dos instintos humanos", eufemismo para a aceitação das desigualdades sociais que, aos olhos dos conservadores, soam "equilibradas".

O "espiritismo" brasileiro se comprova cada vez mais conservador e cada vez mais afinado com os tempos atuais. Ele, portanto, não tem motivos para se queixar de intolerância religiosa. Comunga com os neopentecostais em muitas causas, como a reprovação do aborto até em casos de estupro e ameaça à saúde e a defesa de projetos educacionais análogos à Escola Sem Partido.

O que está por trás dos apelos dos "espíritas" pela "liberdade religiosa" - um dos assuntos tratados este mês pelo "Correio Espírita" - e "contra a intolerância" é, na verdade, uma interpretação equivocada das circunstâncias. Mesmo o vandalismo que atingiu o mausoléu de Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier, foi um ato de intolerância comum, mais uma intolerância a uma pessoa famosa do que a uma figura religiosa.

A intolerância religiosa atinge expressões religiosas ligadas a setores mais pobres da sociedade, como a umbanda ou canbomblé, ou a grupos étnicos diferentes dos padrões ocidentais, como o islamismo. O "espiritismo", apesar de sua roupagem "humilde" e "informal", é uma religião aristocrática, e uma das mais toleradas e blindadas do Brasil, no qual nem seus piores erros são alvos de investigação séria e imparcial, como se o "espiritismo" fosse um PSDB da religião.

O próprio Chico Xavier esteve associado às piores usurpações literárias, das quais se observa irregularidades explícitas de estilo e elementos pessoais. Obras "psicográficas" atribuídas a Olavo Bilac, Auta de Souza e Humberto de Campos fogem drasticamente dos estilos pessoais originais e o caso deste último, escritor que em vida resenhou Parnaso de Além-Túmulo, revelou-se, na verdade, uma porção de atitudes arrivistas e oportunistas promovidas pelo suposto médium mineiro.

Só que, em vez de haver uma investigação séria, temos a seletividade da Justiça. Basta uma mensagem fake dizer "somos todos irmãos" e supostamente promover a paz para que ela seja aceita sem críticas. Cria-se apenas um simulacro de investigação judicial, jornalística ou acadêmica, para que tudo seja aceito em nome das "mensagens de amor" e o resto se usa a desculpa do "mistério da espiritualidade".

O "espiritismo" é protegido até demais. Os "espíritas" fazem o que querem com o legado de Allan Kardec, reduzem a Doutrina Espírita a um igrejismo retrógrado mas querem passar a falsa impressão de que "professam fidelidade absoluta e rigorosa aos postulados espíritas originais". São protegidos até da maior rede de televisão do Brasil, a Rede Globo.

A religião "espírita" é de elite. Os "centros espíritas" são comandados por pessoas de classe média alta, os palestrantes "espíritas" costumam fazer exposições para ricos e acumulam medalhas e condecorações, além de aparecer ao lado de aristocratas em eventos reportados nas colunas sociais. Os valores morais defendidos são moralistas e têm um forte conteúdo conservador.

Esse conteúdo conservador remete, frequentemente, à Teologia do Sofrimento, doutrina derivada do Catolicismo medieval que faz apologia às desigualdades sociais. Ela pede "misericórdia" aos abusos dos privilegiados ou prepotentes, que "não sabem o que fazem e pagarão pelos atos um dia", enquanto apela para sofredores e desgraçados aceitarem e até amarem seus infortúnios, sob o pretexto de "serem salvos um dia".

A Teologia do Sofrimento, que virou a bandeira do "espiritismo" no Brasil, mais do que os postulados de Kardec, vê o sofrimento de Jesus de Nazaré sob o ponto de vista de seus condenadores. Apesar disso, a ideologia, que teve como adeptos fervorosos Chico Xavier e Madre Teresa de Calcutá, é associada à ideia de "humildade" e "libertação" humanas.

Isso tudo faz do "espiritismo" uma religião até mais tolerada que as seitas neopentecostais, pois estas, apesar do poder que exercem sobretudo no Poder Legislativo - no qual compõem um bloco chamado "bancada da Bíblia" - , ainda são denunciadas por escândalos e irregularidades cometidos, além de muitas de suas posturas reacionárias sofrerem repercussão negativa na sociedade, até mesmo dentro dos próprios evangélicos.

No "espiritismo", há históricos de fraudes literárias, juízos de valor perversos, acúmulos de riqueza com o "dinheiro da caridade", casos de falsidade ideológica relacionadas a pessoas mortas, exploração das tragédias familiares e apologias à desgraça humana, e não há um único questionamento oficial que causasse ampla repercussão na sociedade.

Pelo contrário, quando surge algum questionamento trazido pela mídia alternativa, ela é enquadrada, erroneamente e de forma leviana, a atos de intolerância religiosa, permitindo a chamada "carteirada" na qual os "espíritas" usam do prestígio pessoal em seus meios para apelar "liberdade religiosa" como pretexto para fazerem tudo o que quiserem, jogando a coerência, o bom senso, a lógica, a ética e o respeito humano na lata de lixo.

Não há motivo, portanto, dos "espíritas" sofrerem intolerância religiosa. Mesmo o vandalismo contra o mausoléu de Chico Xavier foi um ato de intolerância social comum. Se o mausoléu fosse, por exemplo, de Tancredo Neves, Carlos Lamarca, Emílio Garrastazu Médici e Hebe Camargo, o vandalismo teria sido rigorosamente o mesmo, com todos os detalhes.

O fato do vandalismo ter atingido um memorial de um ídolo religioso não garante, em si, que seja ato de intolerância religiosa. Ainda mais em se tratando de uma religião como o "espiritismo", protegida pelos setores da sociedade conservadora que retomou o poder.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Vandalismo em Uberaba e o oportunismo dos "espíritas"

MISTURANDO ALHOS COM BUGALHOS - EURÍPEDES HIGINO, PELO MENOS, PODERIA RETIRAR A MAQUETE DE ALLAN KARDEC, DETURPADO PELO IGREJISMO DE CHICO XAVIER.

O ato de vandalismo em torno do busto do "médium" Francisco Cândido Xavier, que faz frente ao seu mausoléu em Uberaba, foi apenas um ato de vandalismo comum. O "espiritismo" brasileiro é uma das religiões mais blindadas do país, protegida pela maior rede de televisão do país - a Rede Globo - e suas irregularidades nem de longe chegam a ser sequer investigadas na grande imprensa.

Diante do episódio, o filho adotivo de Chico Xavier, Eurípedes Higino, quis embarcar no "modismo" dos ataques por intolerância religiosa, que vitimam apenas crenças muçulmanas e afro-brasileiras ou outras similares, fazendo com que o "espiritismo" em crise se promova mais uma vez pelo vitimismo.

Eurípedes acredita que o ato "teria sido por intolerância religiosa", mas a verdade é que o ato foi apenas contra uma personalidade muito popular em um município. Como em toda declaração vinda de "espíritas", Eurípedes quis se jogar para a plateia na onda da intolerância religiosa, que deve ser esclarecida, pois não é todo ataque a uma religião que representa um ato nesse sentido.

A verdade sobre a intolerância religiosa é que as religiões mais atacadas são aquelas que estão associadas a expressões populares, como a umbanda, o candomblé e o islamismo, entre outros. Mas o "espiritismo" é uma religião aristocrática e há décadas não sofre a repressão que sofria da sociedade excessivamente moralista da primeira metade do século XX.

A comparação com o "funk carioca" - que também usa de argumentos vitimistas e triunfalistas semelhantes aos "espíritas", além de uma pretensa humildade - é ilustrativa. O "funk" também apela para a repressão às rodas de samba há cem anos para alegar vitimismo diante da suposta rejeição da sociedade atual, superestimada pelos funkeiros, porque eles também são blindados pelas elites do entretenimento, por empresas multinacionais e também pela Rede Globo de Televisão.

O "espiritismo" virou um "genérico" do Catolicismo. Tornou-se uma religião das elites, nas quais os maiores astros, os "médiuns" - que romperam com a função intermediária dos médiuns originais para se tornarem "sacerdotes" do "movimento espírita" - , estão associados a práticas de Assistencialismo (caridade de baixa eficiência e alta publicidade pessoal do "benfeitor") e a um aparato de belas palavras e outros apelos emocionais (Argumentum Ad Passiones, um tipo de falácia).

Enquanto os pobres são tratados de maneira paternalista e domesticada, feito cachorrinhos de família, típica da retórica "assistencial" copiada do Catolicismo mais conservador (simbolizado pela Madre Teresa de Calcutá), os "médiuns" e demais palestrantes "espíritas" fazem turnês para fazer palestras para ricos ou receber prêmios de autoridades e instituições.

Isso é algo que vai contra a imagem de "humildade" e "desapego material" tão associada aos "médiuns" e sua "bondade de novela da Globo", na medida em que os "humildes médiuns" colecionam medalhas e outros prêmios que simbolizam tesouros supérfluos na Terra, que glorificam demais por uma caridade sem muitos resultados porque, se assim fosse, o Brasil teria atingido um padrão escandinavo de qualidade de vida, tal é a autoproclamada grandeza dos "espíritas".

Voltando ao caso de Eurípedes Higino, há uma grande incoerência, como se vê na fotografia do alto, dele exibir as maquetes de Chico Xavier e de Allan Kardec, duas figuras de trabalhos bastante antagônicos. Não há como relativizar isso, porque a simples leitura dos livros de Chico Xavier revela um contraste aberrante e da mais extrema gravidade com os postulados espíritas originais.

E isso foi feito de propósito, pois devemos alertar que a deturpação do Espiritismo por Xavier (ou por Divaldo Franco e similares) não pode ser um ato acidental, feito sem querer ou pela falta de tempo para se dedicar ao estudo da teoria espírita original. Não há como fugir da responsabilidade negativa da deturpação.

Isso se deve pelos seguintes motivos. Chico e Divaldo deturparam o Espiritismo através de uma longa obra desenvolvida por várias décadas. Essas obras, em grande quantidade, tiveram enorme repercussão para um público gigantesco e tiveram grande popularidade. Não há como fazer isso sem ter a consciência exata dos atos.

Além disso, Chico e Divaldo continuaram promovendo igrejismo mesmo depois da promessa dada por eles de "aprender melhor a obra de Kardec". A desculpa das "palavras boas" e das "mensagens positivas" não os inocenta da desonestidade doutrinária e da traição dada ao pensamento espírita original, porque a disparidade de ideias e a traição intelectual não podem ser dissimulados por um palavreado bonitinho e agradável.

Imagine se alguém ensina errado por uma plateia enorme de alunos e durante anos e anos, com a exata consciência do que está fazendo, rompendo de propósito com o projeto pedagógico original? Esse mau professor será aprovado por isso e servirá de referência para o projeto educacional que ele tanto renegou? Ou será que algo que claramente foi feito de propósito pode ser considerado algo feito "sem querer?

É por isso que há uma grande disparidade entre as obras dos "médiuns espíritas" brasileiros e o pensamento original de Kardec. Seria muito bom que Eurípedes Higino se livrasse da maquete de Kardec, se ele quiser ter um mínimo de coerência. Até porque ele é filho adotivo e um dos herdeiros do "médium" que seguiu ideias contrárias aos postulados espíritas originais.

domingo, 1 de outubro de 2017

Ataque a busto de Chico Xavier não foi intolerância religiosa. Foi vandalismo comum


O filho adotivo de Francisco Cândido Xavier, Eurípedes Higino, acusou de "intolerância religiosa" o ato de vandalismo contra o busto do "médium", situado no seu mausoléu em Uberaba, na região do Triângulo Mineiro, em Minas Gerais.

O busto sofreu um segundo ataque, dois anos depois do anterior, e o vidro foi quebrado com marcas de pancadas, ato ocorrido na manhã de ontem. Uma vendedora de flores telefonou para Eurípedes para comunicar a ocorrência.

"Desagradável. Isso foi maldade, vandalismo. Não acredito que iriam roubar, não. Imagine como a gente fica quando algo assim acontece. Mesmo que fosse um ser humano qualquer, já ficaríamos tristes; agora imagina sendo com o meu pai, Chico Xavier, que nunca mexeu com ninguém e é referência de caridade e bondade", disse Eurípedes, que cuida do mausoléu.

Ele acredita ter sido um ato de intolerância religiosa, algo que não procede. O "espiritismo" brasileiro é uma das religiões mais toleradas de todo o Brasil. O que pode ter sido foi um ato de vandalismo comum que atinge estátuas relacionadas com pessoas famosas, qualquer uma que fosse. Se a estátua fosse, por exemplo, de Tancredo Neves, o ato teria sido rigorosamente o mesmo.

É possível que o vandalismo tenha partido de alguém ao mesmo tempo miserável e usuário de drogas, que passa pelo lugar eventualmente. O vandalismo pode ser um ato de alguém com impulso para apedrejar ou destruir símbolos municipais, independente de crença religiosa ou plano ideológico. 
Se houvesse, por exemplo uma estátua em homenagem ao ex-presidente Lula, o ato de vandalismo também teria sido rigorosamente o mesmo, sem tirar nem pôr.

Quem sofre intolerância religiosa, no Brasil, na verdade são crenças relacionadas aos povos muçulmano e afro-brasileiro. O "espiritismo" não está no mapa da intolerância religiosa, e sofre uma grande blindagem social, sendo sobretudo o movimento religioso blindado pelas Organizações Globo e por setores conservadores e elitistas da sociedade.

EURÍPEDES HIGINO ENTRE AS MAQUETES DO TRAIDOR E DA VÍTIMA, RESPECTIVAMENTE CHICO XAVIER E ALLAN KARDEC.

Condenamos o ato de vandalismo, por ser uma grande desordem social. Mas temos que discordar de Eurípedes Higino não só na sua declaração sobre intolerância religiosa mas também na sua alegação de que Chico Xavier "nunca mexeu com ninguém".

Sim, Chico Xavier mexeu com muita gente, e da pior forma. Ele começou usurpando os mortos, na obra poética Parnaso de Além-Túmulo, de 1932, que pode ser considerada um dos pioneiros em publicação de textos fake, que hoje são comuns na Internet, impulsionando sobretudo as páginas de fake news, de notícias mentirosas e geralmente de caráter bastante conservador e de extrema-direita.

Isso não é uma declaração rancorosa ou intolerante. É só fazer uma leitura cuidadosa no conteúdo de Parnaso de Além-Túmulo, que chama a atenção pela estranheza com que se alterou em sucessivas edições, trocando autores e reparando textos.

Os poemas atribuídos a personalidades mortas destoam severamente dos estilos originais dos mesmos. Autores como Olavo Bilac e Auta de Souza estão associados a poemas que nem de longe seguem seu estilo, e reproduzem, tão somente, o pensamento pessoal de Chico Xavier, algo que é condenável, por mais que as mensagens sugiram conteúdo "positivo" e "moralmente relevante".

A denúncia do livro foi aliás um dos dois "fogos amigos" que desqualificaram o trabalho de Chico Xavier. E desmentem a veracidade dos atos de Chico, revelando, mesmo por acidente e da parte de seus apoiadores, aquilo que se atribui a "acusações violentas" de opositores do anti-médium mineiro.

Um "fogo amigo" foi dado pela "médium" e amiga de Chico, Suely Caldas Schubert, no seu livro Testemunhos de Chico Xavier, originalmente de 1986. Foi divulgada uma carta na qual Chico agradece o presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, e um dos membros do conselho editorial, Luiz da Costa Porto Carreiro Neto, pelas revisões feitas para a sexta e última edição de Parnaso, porque Chico "não tinha tempo disponível" para analisar o conteúdo da obra.

Isso confirma que o livro era uma fraude feita por Chico, Wantuil e por redatores e editores que já trabalhavam com um periódico da federação, O Reformador. E comprovou as acusações de Alceu Amoroso Lima, um católico conservador que, tempos depois, passou a dianteira de Chico quando passou a se opor à ditadura militar, defendida com muita convicção pelo "médium" em 1971, como comprovam as declarações para o programa Pinga Fogo, da TV Tupi, na época.

O segundo "fogo amigo" foi dado durante as fraudes da suposta materializadora Otília Diogo, nos anos 1960. Oficialmente, diz-se que Chico Xavier foi "enganado" pela "médium", posteriormente desmascarada em 1970, quando foi apreendido material para a farsa da Irma Josefa e outros personagens, entre fantasias e outros objetos.

O fotógrafo Nedyr Mendes da Rocha registrou os bastidores da "materialização", e mostra Chico Xavier com pose de atento, conversando animadamente com demais pessoas, demonstrando estar a par de tudo e revelando entusiasmo e atenção. Isso desmente a tese de que o "médium" foi enganado, porque fotos mostram que Chico já sabia de toda a farsa e dava o maior apoio. O episódio resultou no rompimento de Waldo Vieira, antigo discípulo de Chico, com seu antigo ídolo e parceiro.

Chico também é conhecido por usurpar o prestígio de Humberto de Campos. O "médium" mexeu com o autor maranhense, sim, este que fez um comentário sobre Parnaso dotado de suave ironia (o autor e ensaísta não aprovava a concorrência de mortos e vivos na literatura brasileira), algo que não agradou Chico, que teria se "vingado" depois que Humberto morreu, usurpando seu nome através de um suposto sonho em que o escritor de O Brasil Anedótico teria se encontrado com o "médium".

Chico foi beneficiado pela seletividade da Justiça - hoje conhecida pelas atuações de gente como Gilmar Mendes e Sérgio Moro - e sofreu impunidade no processo dos herdeiros de Humberto de Campos. Isso porque a obra supostamente espiritual revela-se explicitamente distante do estilo original do autor maranhense, algo facilmente comprovável com uma leitura comparativa.

Segundo especialistas e de acordo com nossas próprias pesquisas, o estilo original de Humberto de Campos era culto mas informal, de narrativa ágil e fluente, com temas laicos e uma linguagem descontraída. Era um escritor parnasiano quase modernista, de textos impecáveis mesmo quando investia no humor cáustico sob o codinome de Conselheiro XX ("conselheiro vinte").

Já os livros "espirituais" atribuídos a Humberto ou Irmão X ("irmão X") revelam estilo bem diferente. A escrita, rebuscada e prolixa, a narrativa mais pesada, o conteúdo moralista e de forte apelo igrejeiro, a linguagem mais tristonha. A disparidade é tanta que, se há indício de plágio, ela remete mais ao Velho Testamento do que à própria obra original do autor maranhense.

TRAIDOR E VÍTIMA

Mas a pessoa com que Chico Xavier mexeu de maneira mais deplorável foi Allan Kardec. Isso é muito mais do que explícito, e o "médium" mineiro simplesmente arruinou o legado do pedagogo francês, que foi um trabalho quase solitário, penoso e pago com o próprio dinheiro.

É até uma constrangedor ver que Eurípedes Higino - ele mesmo envolvido com denúncias de corrupção - posar ao lado das maquetes de Chico e de Kardec, o traidor e a vítima, quando se sabe que a obra de Xavier representa abertamente um insulto aos postulados espíritas originais, pois as ideias do "médium" têm muito mais a ver com o velho Catolicismo jesuíta medieval, trazido pelo espírito de Emmanuel, evocado por ele.

Isso não é invenção. Análises comparativas sobre os livros de Kardec e os livros de Xavier mostram uma clara disparidade de conteúdo e grave contraste de ideias, algo que não pode ser visto como um acidente ou uma falta de aprendizado. Chico Xavier deturpou o Espiritismo com muita consciência do que estava fazendo, e fez isso durante muitos anos, com grande repercussão e grande alcance público e com mais de 400 livros. Não se faz algo sem querer desta forma.

sábado, 30 de setembro de 2017

"Espiritismo" brasileiro abriu caminho para o golpe de 1964?


Até parece que o "espiritismo" brasileiro é a religião mais golpista do Brasil. O fim de governos progressistas, em momentos recentes da História do Brasil, coincidem com ocasiões que favoreceram o "movimento espírita", e dois grandes momentos revelam o mau agouro que a doutrina que sonha com a "pátria do Evangelho" tanto inspira nas pessoas.

Em 1944, a seletividade da Justiça dos homens, movida pelas paixões religiosas, absolveu o "médium" Francisco Cândido Xavier, no processo movido pelos herdeiros de Humberto de Campos, mesmo quando as supostas psicografias que levam o nome do autor maranhense apresentem, de forma surpreendentemente comprovada, irregularidades muito graves em relação à obra original do mesmo autor.

As irregularidades são tão grandes que o "espírito Humberto de Campos" nem chega a representar plágios da obra do autor maranhense. Com uma narrativa que lembra a de um sacerdote católico, os plágios remetem mais ao próprio Novo Testamento do que à obra do autor de O Brasil Anedótico. O suposto espírito mais parece um evangelista resgatado da poeira do tempo do que um escritor brasileiro que foi membro da Academia Brasileira de Letras.

É irônico que um dos raros plágios do autor maranhense em Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho (escrita a quatro mãos por Chico Xavier e o presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas) remete a este livro cômico.

Pouco depois da absolvição dos juristas de 1944 - que lembram atuações irregulares ou tendenciosas de hoje vindas de gente como Gilmar Mendes, Sérgio Moro, Marcelo Bretas e Deltan Dallagnol - , Chico Xavier veio com Lázaro Redivivo em 1945, se apropriando, com apetite redobrado, do prestígio de Humberto, agora usando o codinome Irmão X para "evitar maiores dissabores", nos dizeres do esperto "médium".

Diante disso, o governo Getúlio Vargas, que aos poucos suavizava os arbítrios do Estado Novo, foi deposto do poder pelo seu ex-ministro e general do Exército, Eurico Gaspar Dutra, que depois tornou-se presidente do Brasil até 1950, quando o próprio queremismo fez Vargas ser eleito e voltar ao poder, numa época de entressafra no "movimento espírita".

A queda de Getúlio Vargas, através de seu suicídio em 1954, se deu quando o "espiritismo" tentou explorar o lado "psicófono" de Chico Xavier, uma atividade pouco mencionada no "movimento espírita". Essa "mediunidade oral", que pelo jeito resultou num retumbante fracasso, não era outra tarefa atribuída ao "médium", que também atuava como "observador" de supostas experiências de materialização espiritual.

Entre 1958 e 1960, o desgaste do governo Juscelino Kubitschek se deu numa época em que a FEB teve que se virar com o sobrinho Amauri Xavier, que ameaçou denunciar, quase seis décadas antes das delações premiadas da Operação Lava Jato, o esquema de supostas psicografias do "movimento espírita", inclusive o envolvimento de Chico Xavier.

Amauri foi internado num sanatório do interior de São Paulo, que existe até hoje, e teria sofrido maus tratos, semelhantes aos de um furtador de uma loja apreendido pelo gerente. Tendo como único vício provável o de ser viciado em álcool, Amauri morreu cedo demais para um vício assim - dez anos a menos do que se espera de gente assim - , tendo sido provavelmente envenenado em 1961.

Juscelino ainda presenteou a FEB com o título de "Instituição de Utilidade Pública" e ainda manifestou generosidade com Chico Xavier. A "gratidão" dos "espíritas" com Juscelino foi dar início a uma série de infortúnios que criou uma maré de azar para o então presidente e seus relacionados (como João Goulart e Márcia Kubitschek), sendo uma epidemia de azar que chegou até o ator José Wilker, que interpretou o político mineiro numa minissérie da Rede Globo.

Juscelino não conseguiu eleger o sucessor que ele apoiava, o marechal Henrique Teixeira Lott, derrotado pelo populista de direita Jânio Quadros. Também Juscelino não conseguiu voltar à Presidência da República, tendo sido um dos primeiros parlamentares cassados pelo golpe militar, que cancelou as eleições presidenciais de 1965 que o mineiro tanto sonhava concorrer, acreditando que sairia vencedor.

O "movimento espírita" e a FEB apoiaram o golpe militar de 1964. Para aqueles que acham "absurda" essa constatação contra a "doutrina do amor ao próximo", é bom deixar claro que a revelação foi dada pelo experiente historiador Jorge Ferreira, ele mesmo autor de uma detalhada biografia de João Goulart, o vice de Juscelino e depois presidente deposto em 1964.

O próprio Chico Xavier, pela sua formação conservadora de mineiro interiorano e pelo seu moralismo retrógrado manifesto em muitas obras e depoimentos, defendeu o golpe militar de 1964 e saiu defendendo a ditadura militar na sua pior fase, como claramente se observou no programa Pinga Fogo da TV Tupi de São Paulo, em 1971.

É bom deixar claro que, naquele ano de 1971, parte da direita que apoiava o golpe militar passou a se opor ao regime. É irônico que Carlos Lacerda, o político que mais apoiou o golpe militar, e Alceu Amoroso Lima, que denunciou a farsa do livro Parnaso de Além-Túmulo como "invenção de editores da FEB", outro apoiador do golpe, passaram a repudiar a ditadura, que estava em sua fase mais violenta.

Já o anticomunista Chico Xavier, que muitos acreditavam ser "progressista" e cuja imagem "bondosa" - construída por sucessivas manobras discursivas da FEB e, depois, da Rede Globo de Televisão - seduzia até setores ideológicos de esquerda (recentemente, uma blogueira declaradamente comunista cometeu uma gafe ao reclamar que As Mães de Chico Xavier, co-produção da Globo Filmes, era boicotada pela grande mídia), disse que a ditadura "estava construindo um reino de amor".

É também curioso que, pouco depois de ter falecido, em junho de 2002, Chico deixou a poeira dissolver seu sua influência material e o governo Fernando Henrique Cardoso entrou no seu ocaso. É bom deixar claro que dois conservadores, o apresentador Luciano Huck e o político Aécio Neves, choraram a morte do "médium" dando louvores apaixonados àquele que consideram "seu mestre".

E aí tivemos um breve período progressista governado pelo PT. Até que a crise política ceifou pela metade o governo da presidenta Dilma Rousseff e as manifestações dos "coxinhas" eram apoiadas abertamente pelo "movimento espírita", que chegou a falar no "início de um período de regeneração". Os "espíritas", depois, sinalizaram apoio subliminar ao governo Michel Temer. Isso mostra que o "movimento espírita" brasileiro nada tem de progressista, do contrário que muitos acreditam.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Reportagem omite nome de João de Deus e sugere blindagem da Globo ao "médium"


Cinco anos atrás, um caso de uma austríaca de 80 anos que faleceu na Casa Dom Inácio, "centro espírita" de Abadiânia, Goiás, em circunstâncias misteriosas - apesar do falecimento ter ocorrido durante idade considerada avançada - , rendeu uma reportagem do portal G1, das Organizações Globo, que no entanto resolveu omitir o nome do "médium" que atende o lugar, o famosíssimo João Teixeira de Faria, o João de Deus.

A reportagem chega a citar o nome da casa, do lugar e do fato de que ela atende milhares de pessoas e "realiza cirurgias espirituais". Mas em nenhuma passagem é citada o nome de João de Deus, se limitando apenas a mencionar o nome de seu secretário, Francisco Lobo Sobrinho, o Chico Lobo.

A ideia não é necessariamente omitir a relação com João de Deus, mas dificultar a busca na Internet. João de Deus é o terceiro "médium" blindado pela Rede Globo de Televisão, que transforma os "médiuns espíritas" em sacerdotes à paisana, promovidos a ídolos religiosos com um discurso filantrópico que lembra o duvidoso Criança Esperança com toques de dramaturgia de novela.

Com Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier, morto, e com Divaldo Franco se aposentando de suas atividades, João de Deus é hoje a terceira aposta da Globo, no seu empenho em promover um ídolo religioso tido como "acima de todas as crenças e todas as ideologias", como num processo sutil de passar a rasteira nos pastores eletrônicos neopentecostais que atuam nas emissoras concorrentes.

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Austríaca morre dentro de centro espírita de Abadiânia, em Goiás

Polícia Civil instaurou inquérito para apurar morte da mulher de 80 anos. Estrangeira veio ao Brasil para fazer tratamento espiritual com o médium.

Do Portal G1 - 10 de fevereiro de 2012, com informações da TV Anhanguera (afiliada da Rede Globo em Goiás)

  A Polícia Civil de Abadiânia, a 85 quilômetros de Goiânia, instaurou inquérito para apurar a morte de uma austríaca de 80 anos, a pedido do Ministério Público. Ela morreu na última quinta-feira (2) na Casa Dom Inácio, centro religioso mundialmente conhecido pelos tratamentos espirituais.

 Segundo testemunhas, a mulher estava na Casa Dom Inácio na última quinta, quando, por volta das 22h, teria passado mal e sido socorrida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Os enfermeiros tentaram reanimá-la, mas ela não resistiu.

 Secretário do médium reponsável pelos atendimentos espirituais, Francisco Lobo Sobrinho, conhecido como Chico Lobo, falou sobre o caso à reportagem da TV Anhanguera. Ao contrário do que consta no inquérito, ele negou que estivesse no local na hora da morte da austríaca. Segundo Chico Lobo, o médium também não estava presente.

 De acordo com a polícia, a forma que o corpo da austríaca teria sido retirado de dentro da casa chama a atenção. Segundo uma testemunha, um funcionário de uma funerária de Anápolis, identificado apenas como Júnior, teria feito o transporte do corpo em uma camionete descaracterizada.

Tratamento

 A austríaca estava hospedada numa pousada em Abadiânia desde o dia 21 de janeiro. Ela veio ao Brasil, juntamente com duas amigas, para fazer um tratamento espiritual com o médium responsável pela casa.



 Mais de mil pessoas são atendidas todos os dias na Casa Dom Inácio, 80% delas estrangeiras. Além de atendimento espiritual, o centro oferece até cirurgias.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

"Desaparecimento" de Humberto de Campos nas livrarias revela covardia e hipocrisia dos "espíritas"

ANTIGOS VOLUMES DE HUMBERTO DE CAMPOS SÃO VENDIDOS NA INTERNET, MAS INEXISTEM EDIÇÕES NOVAS EM CATÁLOGO NAS LIVRARIAS.

Assim como a não publicação do livro O Enigma Chico Xavier Posto à Clara Luz do Dia, obra de jornalismo investigativo de Attila Paes Barreto, lançado em 1944, a obra original de Humberto de Campos, em que pese uma grande coleção lançada em 2014 mas já fora de catálogo, nunca teve uma reedição mais recente que colocasse o autor ao acesso do grande público nas livrarias brasileiras.

O livro de Attila Paes Barreto, sabemos, que explica várias irregularidades da atividade "mediúnica" de Francisco Cândido Xavier e traz os bastidores do processo judicial dos herdeiros de Humberto de Campos, numa linguagem que, para os padrões dos deslumbrados religiosos, soa agressiva, mas contém detalhes muito consistentes sobre o tema abordado, além de argumentos e explicações sobre fatos sombrios do "médium" mineiro.

Se um livro desses, de jornalismo investigativo, não tem sequer arquivo em PDF disponível na Internet, Chico Xavier, que foi uma espécie de Aécio Neves da religião brasileira (o próprio Aécio deu altos louvores ao conterrâneo na ocasião de sua morte, em 2002), tem livros sobre a risível "profecia da Data-Limite", cheia de erros de abordagem sociológica e geológica.

Publicações que evocam fantasias religiosas que protegem a reputação de um ídolo do gênero são, não apenas prioridade, mas exclusividade diante de outras que investigam seus aspectos sombrios. O Brasil não tem a vantagem do Primeiro Mundo, onde fenômenos como Madre Teresa de Calcutá e a Cientologia têm fartos documentos revelando seus aspectos irregulares e sombrios.

O Brasil é marcado por um profundo fanatismo religioso, aparentemente "inofensivo" porque apoiado por um aparato de belas imagens e belas palavras. A formação religiosa do Brasil é extremamente conservadora e apegada a fantasias associadas à mística da fé e apoiadas por relatos imaginários e sentimentais que exercem supremacia até sobre a realidade dos fatos, a lógica e o bom senso. A pós-verdade já existia no Brasil que mais aproveitou o legado do Catolicismo medieval até hoje.

Os defensores da tese da veracidade das supostas psicografias de Chico Xavier usam a falácia de que "certos aspectos escapam da razão humana", que definem como "materialista", tentando creditar o "misterioso" como se fosse "verídico". Houve até um simpatizante "não-espírita" que manifestou seu empenho de "lutar pela autenticidade do livro Parnaso de Além-Túmulo", como se fosse possível, em vez de provar autenticidade, "desejar autenticidade", querendo proteger um ídolo religioso.

O sujeito, Jorge Caetano Júnior, tentou alegar que um poema atribuído ao espírito de Casimiro de Abreu, "A Terra", apresentava "semelhanças indiscutíveis" em relação à obra original do poeta fluminense. No entanto, ele, para "provar" sua tese, usou apenas duas primeiras estrofes. Mas, na penúltima estrofe, aparecem versos que Casimiro nunca teria sido capaz de escrever e refletem claramente o pensamento pessoal de Chico Xavier:

"Sabe encontrar a ventura / Nesse jardim de pujanças, / E enche-se de esperanças / Para sofrer e lutar".

Não se deseja autenticidade. Autenticidade se prova e, se ela não existe, não é porque alguém gosta muito do farsante que irá defini-lo como honesto, e atribuir sua fraude como algo verídico. A ideia de "encher de esperanças para sofrer e lutar" nunca teria sido escrita por um poeta ultrarromântico, sendo tais ideias próprias da Teologia do Sofrimento, defendida por Chico Xavier que, arrivista, gostava botar suas ideias na "boca dos mortos" para forçar o apoio do grande público.

São esses pontos sombrios que se quer evitar no caso Humberto de Campos. O próprio Jorge Caetano parece saber, na sua esperteza, que não poderia levar a reprodução do poema até o fim, para evitar um flagrante. A dificuldade de trazer Humberto de Campos para as estantes das livrarias, complicando o acesso do grande público, sobretudo juvenil, à obra do autor maranhense, é um artifício para evitar que se identifiquem irregularidades na suposta obra espiritual que leva o mesmo nome.

Muitos jovens, em processo de aprendizado escolar e em desenvolvimento do intelecto, se limitam a ser "desviados", pela mídia do entretenimento, para a leitura de bobagens como os livros escritos por youtubers. Há o risco deles, em sua curiosidade, compararem os livros originais de Humberto de Campos com as obras "espirituais" e apontar irregularidades evidentes, que numa simples leitura saltam aos olhos.

As irregularidades são tão grandes que um leitor que conheça a obra original de Humberto de Campos dificilmente evitará o constrangimento após a leitura das supostas obras mediúnicas. A impressão que se tem, mediante tão grave disparidade, é que as obras mais lembram arremedos ruins do Novo Testamento do que qualquer obra do autor maranhense e antigo imortal da Academia Brasileira de Letras.

E essa manobra do mercado literário de, se não esconder, mas dificultar o acesso à obra original de Humberto de Campos, revela a covardia e a hipocrisia dos "espíritas" que querem evitar a leitura comparativa entre obras originais do escritor e supostas obras mediúnicas.

Além disso, isso revela também as relações de poder que estão por trás de um mercado literário, que protegem um ídolo religioso que publica obras fake mas que é blindado pela Rede Globo de Televisão (que produziu até filme biográfico, protagonizado pelo falecido Nelson Xavier), ela mesma também influente no seu poder e tráfico de influência no mercado editorial.

Dessa forma, prevalece a aberrante situação surreal de um escritor que não tem obras originais facilmente disponíveis no mercado, porque isso é feito para favorecer obras fake que só valem pelo conteúdo religioso, porque claramente estas escapam severamente do estilo original do escritor, com o agravante que as obras "psicográficas" são de qualidade literária muito inferior. Ver o público desvendando essa irregularidade irá contrariar interesses mercadológicos e comerciais em jogo.

domingo, 24 de setembro de 2017

A perigosa ascensão de jovens fascistas derruba a ideia de "crianças-índigo"

ARTHUR MOLEDO, DO MOVIMENTO BRASIL LIVRE, FAZENDO CARETA, E EDUARDO BOLSONARO, FILHO DE JAIR, SEGURANDO UMA PLACA FAZENDO APOLOGIA À VIOLÊNCIA.

A catarse coletiva, que se volta para a histeria religiosa e a mitificação e o fanatismo cegos - que no "espiritismo" é expressa na imagem glamourizada dos "médiuns" e sua "caridade de novela da Globo" - , também se volta para manifestações de ódio, o que pode parecer dois aspectos bastante opostos, mas não são.

A verdade é que hoje existe o contexto ultraconservador que reúne tanto a "bondade espírita" quanto os manifestos reaças que se observa desde os tempos do Orkut, com as ondas de ataques coletivos de cyberbullying - ataques combinados por vários internautas que simulam fóruns de discussão feitos para insultar internautas de sua escolha - que hoje culminaram no chamado "tribunal do Facebook".

Antes tidas como possíveis paraísos de revoluções sociais de caráter progressista e arrojado, as redes sociais da Internet se transformaram em redutos de puro obscurantismo social, em que pessoas expressam abertamente seus preconceitos, em certos casos sem o cuidado de esconder seus nomes, e muitos deles atuam humilhando, de maneira perversa, internautas que não correspondem aos padrões sociais e pontos de vista aceitos pelos jovens mais conservadores.

O reacionarismo crescente nas redes sociais é um reflexo da decadência de uma parcela da pirâmide social - o "topo" da mesma - , que prevalecia soberana desde o auge da ditadura militar e sobreviveu ao período de redemocratização e de breves políticas progressistas, como a Era PT (2003-2016).

Hoje o "alto da pirâmide", já dotado de avançado estado de perecimento, luta para sobreviver acima de tudo e de todos, implantando uma pauta social retrógrada, na qual se defende até o fim das conquistas trabalhistas e a volta dos velhos padrões sub-humanos dos primórdios da Revolução Industrial, mais os padrões escravagistas que vigoraram no período colonial no Brasil.

O "alto da pirâmide" também luta para que suas convicções estejam acima de toda compreensão lógica da realidade. A coerência é jogada na lata de lixo. Esse processo ganhou o nome de "pós-verdade", um fenômeno não originário do Brasil, mas que encontra em nosso país um terreno fértil para exercer supremacia nos tempos sombrios em que vivemos.

Até os "espíritas" adoram a "pós-verdade". Francisco Cândido Xavier foi o que mais simbolizou os paradigmas de pós-verdade no Brasil. Chico Xavier, de criador de confusões, pastichador literário e deturpador do Espiritismo, tornou-se o "dono da verdade", sobre a qual exerce, mesmo postumamente, um monopólio de prevalência pessoal, garantida pelas paixões religiosas.

É um quadro desolador, que se torna mais preocupante quando se observa, nas ruas das grandes cidades, sobretudo as capitais do Sul e do Sudeste - hoje mergulhados num surto provincianista e reacionário - , uma despreocupação muito grande das pessoas, que agem como se estivessem num paraíso florido quando ignoram a catástrofe social que está em andamento.

Os próprios "espíritas", com sorridente cinismo, estão apoiando os rumos ultraconservadores do Brasil de hoje e o que se observa nas publicações e palestras "espíritas" são combinações de apelos para os desafortunados "aceitarem (e até amarem) o sofrimento" com outros que falam em "esperanças" e "tempos melhores já em andamento (sic)".

O periódico "Correio Espírita", de Niterói, chegou a ventilar que a "Pátria do Evangelho" sonhada por Chico Xavier já foi inaugurada. O periódico, corroborando os devaneios de diversos "espíritas" - de Divaldo Franco ao escritor Robson Pinheiro - , já afirmou que o período atual é "de profunda regeneração social".

Com base nessas alegações, inferimos, que a ideia deles de que o Brasil, "mesmo com dificuldades, ingressou numa nova fase de mudanças benéficas que colocarão o país em posição de destaque no mundo". Ou seja, a causa do "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho" teria se "concretizado" de acordo com o que diz o "movimento espírita".

Só que, na prática, vemos o Brasil retomar sua posição subalterna no concerto das nações. E, para piorar, a interpretação subliminar da ideia de "coração do mundo" e "pátria do Evangelho" remete a um misto de imperialismo com teocracia, fazendo surgir a perspectiva sombria de que os espíritos medievais que reduziram a Doutrina Espírita, da forma como é feita no Brasil, a uma reciclagem do Catolicismo jesuíta do período colonial, estariam, com isso, querendo recriar o Império Romano.

Enquanto "espíritas" ficam falando em "despertar da humanidade", "conscientização da juventude" e "início de um período de regeneração", o que vemos é o contrário. Enquanto "espíritas" sonham com a fantasiosa ideia de "crianças-índigo", supostos prodígios comprometidos com o progresso moral e intelectual da humanidade, o que se observa é a manifestação cada vez mais aberta de preconceitos sociais e incitações ao ódio e à violência.

Na foto que ilustra esta postagem, observa-se o filho do político Jair Bolsonaro, o também parlamentar Eduardo Bolsonaro, segurando uma placa com a frase "Eu vou pacificamente te matar". Ele aparece sorrindo, com uma pistola em outra mão, ao lado de um integrante do Movimento Brasil Livre (MBL), Arthur Moledo, que segura um fuzil enquanto faz uma careta de puro escracho.

O MBL, que comandou as passeatas contra a presidenta Dilma Rousseff, depois expulsa do poder, tem como principais membros-fundadores Renan Santos, Kim Kataguiri e Fernando Holiday, em plena ascensão pessoal. Holiday foi eleito vereador por São Paulo, pelo direitista DEM. Kataguiri é um dublê de intelectual que é convidado para palestras e vai lançar um livro de artigos (muito mal escritos e desinformativos) publicados na Folha de São Paulo.

A ascensão dos jovens fascistas ganhou impulso quando eles conseguiram, através de uma campanha nas redes sociais, cancelar prematuramente uma exposição sobre diversidade sexual chamada Queermuseu, no Santander Cultural, em Porto Alegre, que se encerraria no próximo mês mas foi encerrada há poucos dias.

Promovido pelo banco espanhol, o evento não era uma baixaria, mas uma coleção de obras que estimulavam o debate e o questionamento social, focalizando sobretudo a causa LGBTT (sigla que se refere a lésbicas, gays, bissexuais, trangêneros e travestis). Mesmo assim, o evento foi atacado por supostas alusões à pedofilia e zoofilia.

Outro fato preocupante é que as encrencas em que se meteu o deputado Jair Bolsonaro - pai de Eduardo, que por sua vez foi acusado de tentar agredir verbalmente uma ex-namorada e tem como delirante proposta legislativa a criminalização do comunismo - , além de renderem punições brandas ao ex-militar, também lhe favorecem em visibilidade e valentia, sendo um dos políticos com potenciais chances de vencer as eleições presidenciais do Brasil.

Isso é muito perigoso. Jair segue aquele tipo de político de extrema-direita que nem mesmo as elites empresariais brasileiras, associadas ao capitalismo dos EUA, querem como governante. Essas elites, que tomam as rédeas da população brasileira, temem que Jair Bolsonaro atue como um direitista que "vai longe demais", como os extremistas que, a serviço do capitalismo, podem governar de forma personalista e prejudicar até mesmo as determinações do empresariado.

Ainda assim, a ideia de que um governo fascista é uma hipótese provável para o Brasil é assustadora e real. O trágico cenário brasileiro não é uma paranoia, porque, infelizmente, existem debilidades sociais brasileiras que podem abrir caminho para um quadro desse porte.

A continuidade de pautas reacionárias, com um Legislativo indiferente ao povo e um Judiciário atuando de maneira seletiva conforme interesses dominantes, pode fazer o Brasil regredir ainda mais, causando uma ameaça maior aos brasileiros.

A ascensão da juventude reacionária dos "bolsomitos" (seguidores dos Bolsonaro), do MBL, do Vem Pra Rua e dos Revoltados On Line (nome que é um aviso aos "espíritas", que dizem condenar a revolta e apostam nestes movimentos reacionários para "regenerar o Brasil"), ao menos, derrubou a tese de "criança-índigo", na medida em que mostram jovens cada vez mais truculentos e trogloditas, que apostam em valores retrógrados e na coerção violenta para defender seus interesses.