quinta-feira, 17 de agosto de 2017

"Espiritismo" brasileiro e o fim da utopia da Nova Era


Para quem gosta de sonhar com a Nova Era, através de devaneios místicos e religiosos, melhor se contentar com ilustrações como a publicada nesta postagem, entre outras cuja beleza remete mais à imitação das estéticas de discos de rock progressivo do que de um prenúncio do que vai ser a humanidade no futuro.

A utopia da Nova Era, consagrada nos anos 1960 pelos movimentos de Contracultura e anunciada como "certa" na década de 1990, após a derrubada do Muro de Berlim em 1989, motivou o auge de muitos movimentos religiosos e esotéricos, levando multidões ao misticismo na esperança de se prepararem para os "novos tempos", sob a promessa de um "coração mais puro" e "energias mais favoráveis".

Livros de autoajuda e obras religiosas passaram a vender como pipoca na entrada do cinema. Gurus surgiram, desde o ramo empresarial da autoajuda - sob o rótulo de Empreendedorismo - até a religião "espírita", passando pelo modismo da "inteligência emocional", passaram a se projetar, prometendo "salvar o mundo" com um repertório de palavras bonitinhas.

E como o açúcar das palavras descia bem nos estômagos das almas sonhadoras, muitas pessoas passaram a atribuir o passaporte para o céu dos malabaristas das palavras, sempre em pose de mansuetude, voz doce, oratória habilidosa e um pedantismo confuso mas tão bem revestido de pretensa erudição que garante um equivocado mas apaixonado rótulo de "filósofo".

No "espiritismo" brasileiro, a utopia da Nova Era, que no contexto brasileiro só foi de fato efetivada nos anos 1990, pois na época hippie (1966-1970) o país vivia sob a ditadura militar, representou a consagração da "fase dúbia", aquela em que os "espíritas" bajulam Allan Kardec mas seguem o legado de Jean-Baptiste Roustaing, num falso equilíbrio doutrinário entre "místicos" e "científicos", que privilegia os primeiros.

A partir daí, palestras e congressos "espíritas", com cartazes com ilustrações futuristas e desenhos de humanoides em formas anatômicas, supondo pretenso cientificismo biopsicológico, surgiram mascarando o igrejismo com pedantismo intelectual, fazendo a fortuna e o prestígio de supostos médiuns, como Divaldo Franco, a fazer turismo pelo mundo com o balé de belas palavras, religiosamente piegas e intelectualmente ocas.

Tudo isso funcionou quando os retrocessos sociais, já latentes nos anos 1990, não eram explícitos e não pareciam ameaçar os relativos progressos sociais garantidos pela evolução tecnológica e pelos programas de bem-estar social, incluindo o controle nas economias dos países. A globalização sugeria uma utopia de que as fronteiras seriam rompidas e a solidariedade iria avançar por toda a humanidade, espalhando justiça social até em ambientes mais sombrios.

Só que tudo isso foi por água abaixo. A violência tornou-se maior, e cada vez mais praticada por pessoas de melhor condição econômica e supostamente com significativa educação moral. O reacionarismo tornou-se uma bandeira da rebeldia juvenil, contrariando a crença de que a juventude fosse um oásis de ideias progressistas e de vanguarda. O consumismo tornou-se desenfreado e até as religiões tornaram-se motivação não para a solidariedade, mas para o egoísmo e a cupidez.

O próprio "espiritismo" não tardou a revelar seus equívocos, gravíssimos. Depois dos últimos escândalos entre 1966 e 1975, envolvendo desde a farsa da "médium" Otília Diogo, que teve a cumplicidade de Francisco Cândido Xavier, até o fim da trajetória do prepotente Antônio Wantuil de Freitas à frente da FEB, passando por uma ameaça de publicação, pela FEESP, de traduções ainda mais roustanguistas da obra kardeciana, a "fase dúbia" nem de longe cumpriu o prometido equilíbrio.

A estabilidade forçada é mantida pelo "movimento espírita" pela sorte de muitos acordos, seja entre diferentes expositores "espíritas" que mantém a sua "diversidade doutrinária" (eufemismo para visões pessoais sobre temas e práticas doutrinários), seja entre eles e a Justiça, que nunca investiga as irregularidades doutrinárias (que envolvem até falsidade ideológica em obras "mediúnicas"), e a grande mídia, que sempre divulga uma imagem positiva do "espiritismo" brasileiro.

É, portanto, uma estabilidade forçada pelas circunstâncias, num momento em que o "topo da pirâmide social" vive em acordos sucessivos que evitem o desgaste definitivo da plutocracia, mesmo diante de graves crises e escândalos de arrancar os cabelos. Se existe até acordo para a imprensa não publicar óbitos de criminosos ricos, que "desaparecem" como semi-deuses em "ascensão ao Senhor", então tudo é feito para que a Torre de Babel contemporânea seja construída sem maiores conflitos.

Vivemos um período delicado de profundos retrocessos sociais e quando os maiores casos de sordidez humana se encontram em pessoas de significativo status social. A ilusão de que os erros graves se atenuam conforme a posição social de seu praticante, crença ainda persistente em muitas pessoas, anestesia a sociedade e abre caminho para pessoas ainda mais perversas que se protegem pela marquize do prestígio, do dinheiro e da visibilidade.

Com os profundos retrocessos sociais, o "espiritismo", ele mesmo perdido em tentar explicar a suposta "fidelidade a Kardec" mediante o apreço às ideias de J. B. Roustaing, se encontra na mais aguda crise, que atinge níveis insustentáveis. A esperança dos deturpadores da Doutrina Espírita comandarem mais uma promessa de "recuperação das bases espíritas originais" continua forte, mas ela será sempre inútil, porque os defeitos serão sempre mantidos.

Essa promessa já foi dada há 40 anos, deu na "fase dúbia" que conhecemos e o resultado foi desastroso. O "espiritismo" ganhou em popularidade, sobretudo com a blindagem da Rede Globo aos "médiuns espíritas", até hoje tidos como "intocáveis", mas aumentou sua hipocrisia, pois seu igrejismo de herança roustanguista nunca esteve tão fortalecido, apesar de tantas e insistentes alegações de "respeito rigoroso e fidelidade absoluta" ao legado kardeciano.

E agora com os tempos sombrios em que se vive, e o questionamento dado às utopias místicas e esotéricas que prometeram a "salvação da humanidade", o sonho da Nova Era se esfacela e põe em xeque as doutrinas e movimentos que se apoiaram nessa ideia, incluindo o próprio "espiritismo" brasileiro.

É possível que, num prazo mais tardio, a humanidade se evoluirá, mas a perspectiva será muitíssimo diferente do que sonhavam as utopias místicas e esotéricas, incluindo alguns movimentos religiosos. Novos paradigmas se formarão que escaparão das predições igrejeiras de gurus de ocasião, pretensos profetas, falsos sábios e, sobretudo, os "médiuns espíritas" que, aos poucos, veem a posse da verdade escaparem de suas mãos.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Protestos de Charlottesville e a tese da "Data-Limite" de Chico Xavier


No último fim de semana, um grande protesto de grupos neo-nazistas reunidos numa praça em Charlottesville, contra a retirada da estátua do combatente confederado e escravocrata Robert E. Lee, proposta pela prefeitura dessa cidade do Estado da Virgínia, nos EUA, põe em xeque as perspectivas otimistas, sobretudo da parte do "espiritismo" brasileiro.

A manifestação, no contexto dos EUA, reflete uma onda ultraconservadora que mostra uma inclinação de muitos jovens a movimentos obscurantistas. A adesão de jovens a grupos terroristas e entidades fascistas atinge índices assustadores, revelando não só um aparente descontentamento com os rumos da sociedade contemporânea e o fracasso de muitos ideais progressistas, como também a "noção de novidade" que certas causas retrógradas apresentam para quem tem menos de 45 anos.

Outro protesto, de negros e outras minorias sociais que fizeram uma "muralha humana" no campus da Universidade da Virgínia, também ocorreu e houve confronto entre as duas manifestações, com a polícia tentando resolver a situação, prendendo vários agressores.

O ápice nem se deu pelas multidões saindo à noite marchando e segurando tochas, lembrando os primórdios do tenebroso movimento Klu Klux Klan (cuja sigla KKK chama a atenção por coincidir com a grafia das risadas dadas pelos chamados "fascistas mirins" na Internet).

Ele se deu quando o jovem neo-nazista, James Alex Fields Jr., que dirigia um carro, avançou sobre uma multidão de manifestantes anti-fascistas, ferindo vários deles, causando uma vítima fatal, a ativista Heather Heyer, de 32 anos. A morte dela rendeu comparações com a da deputada britânica Jo Cox, assassinada em 2016 por um neo-nazista inglês, que está preso, como no caso de Fields Jr..

Fields Jr. teve o pedido de liberdade condicional sob fiança negado porque a defensoria pública se recusou a defender o preso. A recusa se deu porque uma das vítimas do atropelamento foi um familiar de um funcionário da Defensoria Pública, o que fez a Justiça local exigir que Fields Jr. arrume um advogado de defesa.

O lamentável episódio ocorreu nos EUA e, aparentemente, nada contradiz em relação à suposta profecia do "médium" Francisco Cândido Xavier, sobre a tal "data-limite" que supostamente prevê um período de turbulências e regeneração espiritual.

A "profecia" tem valor factual duvidoso, é cheia de erros de abordagem geológica (como o Chile ser poupado de uma onda de explosões vulcânicas no Círculo de Fogo do Pacífico) e sociológica (pressupõe que eslavos migrem para o calorento Nordeste brasileiro, se esquecendo que os eslavos, ao chegar ao Brasil no século XX, escolheram a região Sul) e nem todos os seguidores de Chico Xavier acreditam nessas "previsões", trazidas por Geraldo Lemos Neto.

Da nossa parte, consideramos que Chico Xavier teria feito tais "profecias", sim, porque em outras ocasiões, como em livros "psicográficos" e na entrevista ao programa Pinga Fogo, na TV Tupi, em 1971, ele teria dito coisas semelhantes. Além disso, a "profecia" segue o ideal de "coração do mundo" e "pátria do Evangelho" que Xavier sempre desejou ao Brasil.

Dois aspectos, porém , revelam o equívoco e o risco da "profecia" do anti-médium mineiro. Um é que o protesto neo-nazista de Charlottesville foi apoiado por muitos internautas nas redes sociais, que citaram sobretudo o ídolo deles, Jair Bolsonaro. No Brasil, também há a ascensão de grupos fascistas. Uma suposta organização, intitulada "International Klans", espalhou folhetos colados em vários lugares em Niterói, Estado do Rio de Janeiro.

Isso contraria a tendência de que o Brasil se tornaria "mais progressista" num contexto destes. É verdade que existem também muitos brasileiros condenando o episódio, mas o cenário sócio-político dominado por forças conservadoras que retomaram o poder em maio de 2016 revela a ascensão de forças sociais retrógradas e reacionárias, que tomaram as rédeas numa pauta socialmente mais excludente e obscurantista.

Os próprios "espíritas" parecem complacentes com esse cenário, até demonstrando, mesmo sem assumir no discurso, o apoio ao governo Michel Temer e aos grupos reacionários que comandaram a onda ultraconservadora. Um deles, curiosamente, é denominado "Revoltados On Line", incluído entre outros "iluminados" (como o Movimento Brasil Livre e o Endireita Brasil), que os "espíritas" atribuíram como "articuladores do processo de regeneração da humanidade no Brasil".

Mas existe também, sob uma outra abordagem, o risco da ideia do "Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho" rumar para um projeto tirânico, combinando teocracia com imperialismo. Ideias de religiões dominantes, como o Catolicismo medieval, e de um poder político centralizador, como tentou ser a Alemanha nazista, são um grave alerta disso.

Alegações de que a "pátria do Evangelho" não representará essa ameaça por causa da vocação de "tolerância" dos "espíritas" são verossímeis, mas bastante perigosas. Afinal, os "espíritas" brasileiros já revelaram, por outro lado, a inclinação de fazer juízo de valor e a atribuição de "resgates morais" para justificar os prejuízos de outrem.

Com o "espiritismo" brasileiro cada vez mais voltado à Teologia do Sofrimento e cada vez mais caminhando para ser uma versão rediviva do velho Catolicismo jesuíta e medieval, que vigorou no período colonial, também podem impulsionar para esse dado sombrio da doutrina igrejeira. A experiência do Catolicismo da Idade Média, também anunciada com belos pretextos, é um bom alerta à humanidade.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

"Espiritismo" e os tesouros e títulos da Terra


Os "espíritas" deveriam olhar para si mesmos, já que se preocupam com o argueiro dos olhos dos outros e se esquecem das traves dos seus próprios. No "Correio Espírita" deste mês, uma matéria fala das "novas necessidades da civilização", entre elas a de abrir mão de "tantas necessidades", como as dos títulos e tesouros da Terra.

Cada vez mais voltado para a Teologia do Sofrimento, corrente medieval da Igreja Católica, o "espiritismo" brasileiro, há muito catolicizado - apesar das bajulações, carregadas de muita hipocrisia, a Allan Kardec e seus relacionados - aos moldes do velho jesuitismo medieval, sempre apela para os outros abrirem mão até mesmo de quase tudo.

Se depender das pregações "espíritas", estaríamos reduzidos a animais domésticos que apenas demonstram afeto e simpatia para outrem, se alimentando talvez de algum verde e algum alimento qualquer nota e nos preocuparmos apenas a sobreviver e olhar a paisagem.

Seríamos, neste caso, um misto de cachorrinhos obedientes e fofos, de avestruzes a baixar a cabeça o tempo todo e de papagaios a apenas reproduzir os sons dos outros. A razão, a ética, a transparência e a sinceridade são apenas "pequenos" e, talvez, "desnecessários", detalhes.

Os "espíritas", sintonizados com o governo Michel Temer - ao qual nunca declararam apoio oficial, mas subliminarmente comprovam estarem solidários a ele - , sempre estão pedindo para os sofredores aceitarem sua coleção de desgraças, "na esperança de um futuro melhor", pouco se importando com os sobressaltos, infortúnios, angústias, impasses e tragédias por eles sofridos.

A ênfase do sofrimento desmascara os "espíritas", que se vangloriam pela suposta fidelidade absoluta a Allan Kardec, mas o traem de maneira bastante cruel e irresponsável. A apologia do sofrimento humano, que está na pauta de quase todas as obras "espíritas", é uma herança não dos postulados originais de Kardec, mas dos delírios católicos trazidos por Jean-Baptiste Roustaing.

E aí se tem o apelo de "abrir mão de tudo". Há apelos como "O rapaz quer uma mulher de caráter e inteligência? Que aceite aquela periguete burra e ensine coisas a ela!" ou "A moça quer um príncipe encantado e só chegou aquele rapaz sombrio que já cometeu um feminicídio? Seja complacente ao olhar tristonho dele e seja sempre submissa a ele" que são dados aos montes nas "casas espíritas".

Mas o "espírito de renúncia" os "espíritas" apelam para os outros. Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Quanto aos "espíritas", eles mesmos esquecem que seus maiores ídolos são os mais afoitos e privilegiados na coleção de títulos e tesouros na Terra.

O que pensar nos "médiuns" que excursionam pelo planeta, vendo as maiores relíquias turísticas das grandes capitais do Brasil e do mundo, se hospedando nos melhores hotéis, fazendo plateias para ricos e posando ao lado de juristas, autoridades e aristocratas, enquanto a "revolucionária caridade" que dizem praticar traz resultados tão medíocres e inexpressivos para a população carente?

A glorificação que marcou as carreiras de Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco, dois grandes deturpadores da Doutrina Espírita, que publicaram livros cujos conceitos e ideias causam arrepio de tanto contrariarem os postulados espíritas originais, é bastante ilustrativa desses tesouros e títulos terrenos.

O próprio Chico Xavier, católico medieval protegido de Antônio Wantuil de Freitas (então presidente da FEB) e, dos anos 1970 até a posteridade póstuma de hoje, blindado pela Rede Globo de Televisão como se fosse um Aécio Neves da filantropia, colecionou medalhas e títulos concedidos pela sociedade elitista.

E Divaldo Franco, então? Um sujeito ainda mais espertalhão, mas "santificado" pela sua habilidosa pose de mansuetude, delicadeza vocal e pedantismo, sempre passeando pelo mundo como um pretenso ativista social, enquanto sua "admirável caridade" nunca ajudou sequer 1% da população brasileira, é ainda mais afoito na coleção de tesouros e títulos da Terra.

Só os dois anti-médiuns, que se consagraram pelo culto à personalidade, colecionaram medalhas, diplomas e condecorações por causa de uma imagem de "caridade" que, embora cause deslumbramento a muita gente, nunca trouxe resultados profundos para a humanidade, constituindo no que especialistas definem como a técnica fajuta do Assistencialismo, uma "caridade" que serve mais para promover o "benfeitor" do que ajudar de verdade os mais necessitados.

O mito de que Chico Xavier "doou os direitos autorais para a caridade" é hipócrita. O que o "médium" fez foi deixar os direitos autorais para Wantuil e depois, quando este se aposentou, Xavier criou um jogo de cena fingindo ter se decepcionado com o uso de suas obras "mediúnicas" para alimentar os interesses comerciais da federação.

Chico Xavier apenas não tocava em dinheiro, mas sempre viveu de um considerável conforto e tinha a blindagem das elites e dos grandes empresários de mídia. Desde os anos 1970 Xavier tornou-se um protegido da Rede Globo, conhecida pela manipulação traiçoeira do inconsciente coletivo das pessoas, a ponto de impor costumes, modos de ver o mundo e, principalmente, os políticos que o povo brasileiro deveria amar ou odiar.

É como os maiores aristocratas fazem hoje. Chico abriu um precedente: não gostava de tocar em dinheiro. Hoje os mais ricos pregam a "morte da moeda" e se servem de um cartão eletrônico para pagar suas contas, criando uma movimentação financeira "invisível" e feita apenas dentro dos bancos.

A própria "moeda" do livro Nosso Lar, de 1943, o chamado Bônus-Hora, lembra um cartão de crédito. Serve para o uso do transporte (BRT?), para ir ao cinema, para comprar alimentos. Se é certo que muito suposto pioneirismo atribuído a Chico Xavier é grosseiramente duvidoso, há um "relativo pioneirismo" no caso dos cartões de crédito, que na época era um artigo de luxo para fregueses de estabelecimentos comerciais, serviços e instituições financeiras.

Neste sentido, o Bônus-Hora era um cartão de crédito "universalizado", numa obra de ficção não-assumida que foi lançada numa época em que até a classe média tinha que pagar as coisas usando "dinheiro vivo", pois a popularização do cartão de crédito só se deu a partir da segunda metade da década de 1950 e, no Brasil, do começo da década seguinte.

Quanto aos títulos, Chico Xavier e Divaldo Franco, além dos prêmios que recebiam das elites e das autoridades, também recebiam títulos informais e um tanto hipócritas como "sábios", "mestres" e até "filósofos", "intelectuais" e "pensadores". Mas até a denominação de "espíritos iluminados" e "símbolos do amor ao próximo" também se inserem nesse contexto de títulos terrenos, movidos pelas paixões religiosas, tão materialistas e mórbidas quanto os chamados gozos materiais profundos.

E AS FORTUNAS DO ALÉM-TÚMULO?

O que poucos conseguem cogitar é que também existe a ilusão das "fortunas do outro lado". É como se os "espíritas" adiassem seu materialismo para o pós-morte. Evocam o "espírito de renúncia", com sua pretensa humildade e falsa modéstia, e saem pregando a defesa do sofrimento alheio prometendo o "socorro de Deus na hora certa (sic)".

O problema é que, entre os "espíritas", existe uma ânsia muito grande do "acesso ao Céu", depois do retorno ao que eles entendem como "pátria espiritual". Com suas crendices místicas, acreditam que o retorno ao mundo espiritual será como no desembarque de um aeroporto, onde algumas pessoas queridas lhe aguardam para receber o desencarnado dentro de um cenário de um "chão de nuvens brancas" e um céu sempre azulado, como num paraíso de filme de Hollywood.

Em relação a uma figura como Divaldo Franco, já existe até a narrativa de seu retorno ao além-túmulo, toda pronta: uma grande cerimônia, com corais de anjos, autoridades de vários planetas, cerimônia de discursos e concessão de medalhas e prêmios, e além disso Jesus tendo que comparecer ao evento para chamar o "médium" para ir ao convívio definitivo com Deus. É bom demais para ser verdade que isso possa ser assim, ainda mais envolvendo um deturpador grave do Espiritismo.

Asneiras semelhantes a esta já foram narradas a respeito de Chico Xavier. Uma narrativa supôs que ele estava com sua mãe e alguns amigos antes falecidos, até que veio Jesus para chamar o "médium" para o "mundo dos puros" e Xavier foi "sugado" como um espectro por um aspirador de pó. Narrativa ridícula, até porque o anti-médium mineiro, em verdade, levou um grande choque ao saber que nada disso ocorreu e que, alertado por seus graves erros, já deve ter reencarnado para pagar pelo que fez.

Isso é um jogo de linguagem e psicologia. E revela uma ilusão tão pior quanto os materialismos da Terra. Uma ilusão de que tesouros e títulos "verdadeiros" existam no "além-túmulo", o que representa uma transferência da ambição humana para "o outro lado". A roupagem de "humildade" e "pureza espiritual" não isenta os efeitos nocivos que se nota no materialismo terreno e isso traz até uma sensação ainda pior nos "espíritas" que encerram sua vida material.

Pois, quando eles retornam ao além-túmulo, eles são os que mais sentem choques, extremamente violentos e traumatizantes, diante da desilusão de que o "outro lado" não lhe oferece sequer os descontos de futuras reencarnações expiatórias.

O materialismo é transferido para o mundo espiritual, mas a realidade do além-túmulo lhes decepciona, de forma que os verdadeiros umbrais são apenas reflexos das desilusões dos "espíritas", considerados apenas "puros" ou "quase puros" em função das mesmas paixões materiais da Terra, muito mal disfarçadas por um espiritualismo de fachada.

sábado, 5 de agosto de 2017

Intolerância religiosa e intolerância à mentira


Incidentes eventualmente ocorrem em casas religiosas, dentro do cenário lamentável de convulsões sociais que domina na Internet mas, com muita certeza, vai além dos limites digitais até pelos impulsos temperamentais de muitas pessoas.

Há poucos dias o centro de umbanda Casa do Mago, no bairro de Humaitá, Rio de Janeiro, foi alvo de ataques e tentativa de incêndio. Não é o primeiro ataque. O caso mostra indícios de intolerância religiosa, um mal que contamina o mundo e atinge o Brasil.

Condenamos a intolerância religiosa. Quando criticamos o "espiritismo" brasileiro, a nossa intolerância não é religiosa, mas contra as mentiras e desonestidades praticadas pela doutrina, que originalmente se fundamentou nas bases de Jean-Baptiste Roustaing e se consolidou com os arrivismos do roustanguista Antônio Wantuil de Freitas, durante muito tempo presidente da FEB.

Estas são más escolhas que cobraram o preço caríssimo aos "espíritas" brasileiros. Foi um caminho de perdição no qual os "espíritas" tentam dissimular, não medindo escrúpulos de cometer contradições e equívocos graves, cobrando coerência dos outros mas praticando suas próprias incoerências.

Hoje os "espíritas" tentam reparar tudo. Se na véspera defenderam a Teologia do Sofrimento, depois se atrevem a dizer que "ninguém veio para sofrer". Num momento dizem que as pessoas devem abrir mão de suas necessidades, noutro citam o ensinamento cristão "Pedi e obtereis". Há muito dizem renegar o nome de Roustaing cujas ideias continuam seguindo inteiramente. Deturpadores, os "espíritas" brasileiros querem comandar a recuperação das bases espíritas originais.

É sempre assim. Corre-se atrás do próprio rabo e, mais uma vez, temos a velha e mofada promessa dos "espíritas" brasileiros em recuperar as bases doutrinárias. Pessoas que se formaram nas ideias roustanguistas e que, oportunistas, dizem reprovar a deturpação, bajulam até Erasto e, furando a fila, querem liderar o processo de recuperação das ideias kardecianas que eles mesmos traíram e distorceram com muito gosto.

E isso não envolve só "peixes pequenos". Esquecemos que as piores mordidas não vêm de "sardinhas", mas de "tubarões". Mesmo os tão adorados Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco não são inocentes na deturpação do Espiritismo. Afinal, Chico Xavier e Divaldo Franco deturparam com muito prazer e consciência de seus atos, porque seu igrejismo feito ao arrepio dos ensinamentos de Allan Kardec foi feito durante anos, com obras de grande repercussão.

Ninguém faz isso por acidente ou boa-fé. Se observarmos bem, Chico Xavier, por exemplo, professou seu igrejismo até o fim. Um catolicismo medieval, dos tempos do Brasil-colônia, existente até em obras produzidas nos anos 80 e 90 e em depoimentos então dados. Isso não é algo feito sem querer, até porque o igrejismo xavieriano era alvo de duras críticas desde meados dos anos 1930.

A intolerância religiosa é um erro condenável, por representar um ato violento, de ódio, de egoísmo e de disputas entre seitas religiosas rivais. Mas o grande perigo também está quando se tolera religiões comprometidas com a falsidade, com a cupidez, com a ganância, mesmo quando se traveste do mais verossímil verniz de humildade, de modéstia, de despretensão.

O que não se pode tolerar é a falsidade, as contradições, a dissimulação. E o quanto o "espiritismo" fez para Kardec virar refém dos próprios deturpadores, que se servem do Assistencialismo exibindo as populações carentes como troféus para tentar calar os críticos.

Os "espíritas" tentam dizer que "são os que mais praticam caridade". Mas o Brasil só mergulha numa decadência sem fim, aumentando as populações de miseráveis nas ruas, crescendo os assaltos que, por ironia, desafiam justamente a gula das elites em retomar seus privilégios, defendendo propostas retrógradas como a reforma trabalhista para que os patrões ganhem tudo e os empregados, quase nada.

Afinal, são justamente as elites que estão mais vulneráveis aos assaltos e latrocínios, pois o que os patrões deixam de pagar, em salários e encargos, para manterem seus altos padrões de vida, é o que acaba sendo cobrado pelos ladrões, muitos deles antigos miseráveis aos quais lhes foram negadas todas as oportunidades de trabalho.

O moralismo severo dos "espíritas", que, afeitos à Teologia do Sofrimento, nunca se mostraram sensíveis às dificuldades dos sofredores e infortunados da sorte. Em vez disso, ficam entre a indiferença, o egoísmo e a falsidade. Dizem que os sofredores "pagam pelos próprios erros", apelam para eles suportarem e até amarem suas desgraças, mas, depois, hipócritas, os "espíritas" tentam trazer um discurso de "esperança", pedindo para os sofredores ficarem olhando passarinhos.

Quantos erros que fazem o "espiritismo", em muitos aspectos, pior do que as seitas neopentecostais! Pelo menos as seitas neopentecostais (como a Igreja Universal do Reino de Deus), retrógradas e grotescas, oferecem situações bastante cômicas, pois figuras como Edir Macedo, R. R. Soares, Silas Malafaia e Waldomiro Santiago são tão pitorescas que, às vezes, soam até cômicas.

Como tolerar isso? Moralismo retrógrado, fakes mediúnicos - só o "Humberto de Campos" trazido por Chico Xavier simboliza esses "espíritos" que não condizem ao que eram na Terra - , tantas dissimulações, tanto charlatanismo (sim, os "espíritas" são charlatães), isso mancha a história do que se entende como Espiritismo no Brasil, e do qual até seus "heróis" estão associados a fraudes e erros vergonhosos, que fariam Kardec passar a mão na testa de tanta preocupação.

Voltando a Casa do Mago, ela é definida como "centro espírita", mas era um cento de umbanda que assimilava elementos esotéricos e católicos. E os ataques devem ser sofridos por desafetos de lideranças da casa. Ataques como estes devem ser combatidos de acordo com a lei e não se devem fazer vandalismos em hipótese alguma, por eles serem deploráveis em sua própria natureza.

Mas, tenhamos bom senso. A tolerância religiosa, por outro lado, também não deve ser a tolerância da mentira e da mistificação. Que as religiões construam suas fantasias e lendas, é compreensível, mas elas não devem exercer supremacia nem mesmo monopólio sobre a realidade.

As religiões não podem estar acima dos homens, acima das sociedades. Elas podem ser extintas e podem ser duramente criticadas. As religiões refletem os interesses de uma parcela de homens que se acha "com vínculo direto com Deus". Em muitos casos, isso revela ilusões e ambições materialistas muito maiores do que sugere seu pretenso espiritualismo e divinização.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

"Espíritas" dizem que Pátria do Evangelho "já surgiu"


O "espiritismo" brasileiro, pelo jeito, está no clima do "Fica Temer". Apoia as pautas retrógradas do governo, se não de forma assumida, mas de um jeito explícito, conforme os muitos textos que os "espíritas" diversos publicam fazendo apologia ao sofrimento humano e apelando para os indivíduos abrirem mão até de seus talentos e necessidades.

Na edição do "Correio Espírita" deste mês, uma das matérias tenta afirmar que a chamada "Pátria do Evangelho", prevista pelo anti-médium mineiro Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier, "já surgiu", dois anos antes do chamado prazo da "data-limite".

A alegação do periódico, em outras palavras, é que o Brasil está passando por momentos de muita turbulência, retrocessos, confusões e conflitos, entre tantos erros e desastres, porque "está informando" aos brasileiros dos males que o país sofreu há décadas, já que esse quadro não apresenta aspectos inéditos na história do país.

Comparando com uma água suja, o texto contrapõe a esse quadro a ideia de que "está surgindo" a "pátria do Evangelho", um conceito que, segundo os "espíritas", iria guiar o progresso moral da humanidade planetária, a partir do exemplo do Brasil.

O conceito de "pátria do Evangelho" é cheio de equívocos. Embora o "espiritismo" brasileiro se vanglorie em professar "fidelidade absoluta" aos postulados espíritas originais, a tese de "pátria do Evangelho" seria refutada por Allan Kardec, cuja linha de raciocínio não admite, pelo sua lógica e coerência, que um país possa ser considerado "líder" do mundo, mesmo que sob pretextos religiosos.

IDEIA ROUSTANGUISTA

A ideia de "pátria do Evangelho" é a maior herança deixada por Jean-Baptiste Roustaing, o advogado francês que, com seu livro Os Quatro Evangelhos, forneceu as bases doutrinárias que o "espiritismo" brasileiro pratica até hoje. O nome de Roustaing é renegado, mas o legado deixado por ele é seguido até por aqueles que se dizem "totalmente fiéis a Kardec".

O próprio livro Os Quatro Evangelhos fala de uma "religião unificadora" que sintetizaria várias crenças religiosas em torno de uma só, que em tese seria o Espiritismo, nas concepções de Roustaing, ou seja, dotado de conteúdo católico.

Chico Xavier escreveu, com o presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, o livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho. Tendenciosamente, os dois atribuíram a autoria do livro ao "espírito Humberto de Campos", quando a única "presença" do autor maranhense se deu em um trecho plagiado de um capítulo do livro deste, O Brasil Anedótico, "A lei das aposentadorias".

O livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho - cujo tema nem é original, mas um reaproveitamento, sob a orientação de Wantuil, do tema "Brasil, Berço da Humanidade, Pátria do Evangelho", que Leopoldo Machado escreveu e expôs na FEB em 1934 - revela um conteúdo ufanista, bem ao gosto do caipira conservador Chico Xavier, que como todo interiorano sonhava ver o país natal "mandar no mundo".

O conteúdo é igrejeiro, de um catolicismo medieval explícito, e que comprova que o conceito de "coração do mundo" e "pátria do evangelho", que os "espíritas" definem como "algo maravilhoso", é, na verdade, uma ideia bastante perigosa e traiçoeira.

Primeiro, por pressupor a supremacia mundial de uma única nação sobre as outras. Na teoria, tudo é muito bonito, mas na prática, revela um imperialismo ameaçador, que pode praticar atos genocidas ao longo dos tempos sob a alegação da "vontade divina". Para um projeto de "pátria divina" prosperar, eliminam-se obstáculos à causa da nação poderosa. Daí surgirem cruzadas, inquisições, queimadas de pessoas, torturas, enforcamentos e fuzilamentos, entre vários outros holocaustos.

A supremacia religiosa é também perigosa, sob este ponto de vista, e ela pode justificar as tiranias que podem cometer suas atrocidades "em nome de Deus". Os "espíritas" mostraram que podem ter em mãos desculpas para o prejuízo alheio, supondo, sem provas lógicas, encarnações passadas para tornar aceitável a desgraça do outro. O mito dos "reajustes espirituais", "resgates morais" e "resgates coletivos" pode permitir que até genocídios sejam feitos.

Exemplos como a Alemanha nazista e o catolicismo medieval do Império Bizantino (antigo Império Romano do Oriente) mostram o quanto é perigosa a ideia de uma nação dominar o mundo política ou religiosamente. Nada disso é anunciado no discurso, mas as circunstâncias que virão ao longo dos anos trarão condições para que os "líderes fraternos" possam recorrer até ao extermínio em massa para proteger seu projeto político-religioso.

O Catolicismo medieval, que se deu sob o mesmo enunciado "fraterno" da "pátria do Evangelho", foi marcado por violenta supremacia, que custou as vidas de milhões e milhões de inocentes que contrariavam as crenças da "Santa Igreja". Mais adiante, os jesuítas José de Anchieta e Manuel da Nóbrega (o Emmanuel dos "espíritas") apoiaram o assassinato de um homem só por ele seguir a religião protestante.

BRASIL FRAGILIZADO

Mas outro aspecto que se deve considerar é que o Brasil está "infartado demais" para obter o status de "coração do mundo". Em certo sentido, ainda bem. Não seria positivo para os brasileiros que o país se tornasse líder do mundo, da mesma forma que os estadunidenses se sentem prejudicados quando os EUA se atrevem a cuidar dos assuntos de outros países.

A crise que assola o Brasil, e que os "espíritas" acham "positivo" para "despertar a consciência" das pessoas quanto ao "evangelho", faz com que o país sul-americano voltasse a ter não só a condição de nação subdesenvolvida, mas também de nação em baixa reputação no resto do planeta.

Não são raros os momentos em que a imprensa da Europa e dos EUA revela perplexidade com tantos fatos lamentáveis ocorridos no Brasil em dimensões surreais. O golpe político que se deu em maio de 2016 criou uma série de incidentes que fizeram o país ser visto com estranheza por jornalistas, celebridades, intelectuais e autoridades de maior conceito no restante do planeta.

"ESPÍRITAS" APOIAM O GOVERNO TEMER

O que se mostrou também é que o "movimento espírita" brasileiro apoiou, com entusiasmo mas sem assumir no discurso, o golpe político de maio de 2016. As passeatas dos "coxinhas", nas quais se pedia até "intervenção militar" (eufemismo para golpe militar), eram vistas pelos "espíritas" como "despertar da humanidade" e "início do processo de regeneração".

A julgar pelo que os "espíritas" falam, teríamos que acreditar que as "crianças-índigo" seriam os rapazes do Movimento Brasil Livre, Revoltados On Line (na ironia dos "espíritas" condenarem a ideia de revolta) e Vem Pra Rua, as "crianças-cristais" seriam os irmãos Eduardo e Flávio Bolsonaro e o pai destes, Jair Bolsonaro, um potencial líder para cumprir a missão do "coração do mundo".

O apoio do "espiritismo" ao governo Temer é tal que o próprio presidente citou a frase "Não fale da crise, trabalhe", semelhante à que Emmanuel havia dito em seu tempo: "Não reclame, trabalhe e ore". O otimismo de Temer em relação ao "fim da recessão" também segue exatamente o mesmo sentido do otimismo dos "espíritas" quanto à "chega de uma nova era" para o Brasil.

Desde maio de 2016, os "espíritas", cada vez mais identificados com a Teologia do Sofrimento - corrente medieval da Igreja Católica - , passaram a publicar mais textos fazendo apologia ao sofrimento humano, como se já estivessem preparando os cidadãos às reformas restritivas do governo Temer, como a reforma trabalhista e a reforma previdenciária, que desfazem direitos trabalhistas históricos.

Textos apelando para amar a desgraça e abrir mão das próprias necessidades e talentos foram publicados, em muitos casos deixando a máscara de muitos palestrantes espíritas, antes famosos por seus textos e oratórias vibrantes, caírem, revelando neles moralistas extremamente severos e intransigentes.

Para terminar, vemos uma grande ironia do anúncio da "pátria do Evangelho" diante de um cenário em que a plutocracia política luta para permanecer no poder, com ou sem Temer. E isso mostra o quanto o "espiritismo" está retrógrado e o papo de "pátria do Evangelho" mostra o quanto esta doutrina está repetindo os mesmos discursos, no desespero paranoico de ficar com a posse da verdade. Mas a realidade se dará à revelia dos "espíritas", o que lhes será muito doloroso.

sábado, 29 de julho de 2017

Os apelos que "blindam" o "espiritismo" no Brasil

Vídeo fundamental para análise de duas armadilhas que especialistas do mundo inteiro já estudam e que soam ainda inéditas no Brasil.


sábado, 22 de julho de 2017

Até quando a Doutrina Espírita será refém dos deturpadores?


O "espiritismo" brasileiro vive a mais aguda crise de seus 133 anos, mas, a exemplo de 1975, quando o roustanguismo foi posto em xeque e, com a morte do ex-presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, abrindo caminho para a "fase dúbia", que aposta num "roustanguismo sem Roustaing e com Allan Kardec".

Hoje a "fase dúbia" é que causa efeitos danosos, pois o roustanguismo não se podia disfarçar numa pretensa promessa de "recuperar as bases espíritas originais". Há constantes conflitos entre a exposição, aparentemente correta, da teoria original de Allan Kardec, com ideias e práticas trazidas pelos deturpadores da Doutrina Espírita.

Isso acaba resultando numa vergonhosa seletividade da apreciação da obra kardeciana, ou então na hipócrita postura de certos palestrantes em fingir reprovar a "vaticanização" e evocar até mesmo os alertas de Erasto contra os deturpadores do Espiritismo, sem perceberem que são os próprios oradores e escritores "espíritas" os maiores criticados pelo espírito do discípulo de Paulo de Tarso.

A recente bajulação de "espíritas" aos kardecianos autênticos, como Deolindo Amorim (pai do jornalista e "ansioso blogueiro" Paulo Henrique Amorim) e José Herculano Pires (sobrinho do contador caipira Cornélio Pires), sinaliza o auge dessa "postura dúbia", na qual os deturpadores do Espiritismo vão longe demais em suas contradições.

Isso porque o "espiritismo" virou um engodo que mistura valores igrejeiros com alguns postulados espíritas originais que conseguem ser veiculados. O evidente conflito que as ideias kardecianas têm com livros de forte acento católico como os de Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco sinalizam esse gravíssimo problema, que hoje atinge níveis insustentáveis.

A crise é tão grande que os palestrantes "espíritas" praticamente estão falando apenas com seus fiéis incondicionais. Oficialmente, o número de pessoas que se dizem "espíritas", segundo o Censo brasileiro de 2010, nunca passou de 2% desde o primeiro recenseamento que incluiu tal informação, o de 1940, mas há quem diga que o número de adeptos do "movimento espírita" está diminuindo e estacionando em torno de 0,8%.

Em Salvador, reduto de Divaldo Franco e José Medrado, o "espiritismo" está decaindo, com a perda drástica de seguidores, forçando o fechamento de "centros espíritas" menores ou a redução de seus horários de funcionamento, para, ao menos, economizar energia elétrica e consumo de água.

Surgiram até mesmo rumores, espalhados por conversas nas ruas, de que o Centro Espírita Paulo e Estêvão - que há sofreu um "racha" na sua cúpula, com dissidentes migrando para um "centro" no bairro do Uruguai - iria reduzir suas instalações no bairro de Amaralina, nas proximidades da comunidade do Nordeste de Amaralina, dominada pela violência.

A decadência do "espiritismo" faz com que seus palestrantes caprichem no exército das "belas palavras", mas em muitos casos eles dão um "tiro no pé" quando, desde que Michel Temer assumiu o poder, eles passaram a fazer textos em apologia ao sofrimento humano, vestindo a camisa da Teologia do Sofrimento, já defendida, em outros tempos, por Chico Xavier.

Isso só agrava a crise no "espiritismo" e faz as pessoas se afastarem das "casas espíritas", constrangidas com tantos apelos para aceitar e se conformar com as dificuldades e desgraças que muitos sofredores acumulam sem solução nem compensação nas suas vidas.

As pessoas chegam a pegar mais de um ônibus e viajar para longe, procurando solução nas "casas espíritas", mas voltam para casa recebendo como respostas "espirituais" coisas como "não há problema algum" ou "você tem que ver a coisa sob outro prisma e ver que sua coleção de desgraças é ótima para sua vida". Como se sofrer demais só fizesse bem, ignorando que sofrimento demais também produz tiranos, criminosos, vigaristas e suicidas.

Só que esse quadro de crise extrema só consegue sinalizar que o "espiritismo" corre atrás do próprio rabo, pensando como "única salvação" o mesmo lero-lero dos deturpadores do Espiritismo prometerem "aprender melhor a Doutrina Espírita". Alguns deturpadores, exaltados no pretensiosismo, chegam a dizer, hipócritas, que "todos não devem só entender Kardec, mas viver Kardec, tirá-lo dos centros espíritas e vivê-lo 24 horas de cada dia da nossa vida".

É aquele velho papo das raposas que prometem reconstruir o galinheiro. E mais uma vez a esperança de que Allan Kardec seja melhor compreendido e adequadamente praticado será em vão. Quem garante, afinal, que a exposição correta da teoria espírita não coexista, mais uma vez, com delírios mistificadores como "crianças-índigo" e "colônias espirituais" (concebidas à maneira dos condomínios de luxo vistos nos classificados), ou na evocação de padres e até milagres católicos?

Mais uma vez o Espiritismo se torna, no Brasil, refém dos deturpadores. A ameaça que já havia sido alertada pelo próprio Allan Kardec e por mensageiros espirituais como Erasto foi muito bem sucedida no Brasil, a ponto dos deturpadores se acharem "mais espíritas do que Kardec".

O mais grave disso é que o poder dos deturpadores brasileiros cresceu tanto - e ainda sob o apoio de uma mídia hegemônica e ultraconservadora, como a TV Tupi, no passado, e, hoje, a Rede Globo - que eles invadiram a França, berço do Espiritismo.

É deplorável que os próprios deturpadores do Espiritismo tomem as rédeas da doutrina no Brasil. Eles viraram os "donos" do Espiritismo. Mancharam até o termo "kardecista" que, ironicamente, soa pejorativo entre os espíritas autênticos, que agora preferem ser chamados de "kardecianos".

E é preocupante ver que, mais uma vez, a promessa de "revalorização" do pensamento original de Allan Kardec seja dada pelos próprios deturpadores que o traem. Os deturpadores do Espiritismo, mesmo os "conceituados" Chico Xavier e Divaldo Franco, deturparam sabendo muito bem o que faziam, com longo histórico de traições ao pensamento kardeciano original e com obras de grande repercussão e produzidas por muitos anos para um grande público.

Daí que, se os deturpadores traíram os postulados espíritas originais, não foi por acidente, boa fé ou falta de tempo, mas porque fizeram com muita consciência de seus atos, em muitos casos agindo por má-fé, mesmo.

Por isso, esperamos o dia em que veremos quando o Espiritismo brasileiro deixará de ser refém dos deturpadores, que cometem traições de extrema gravidade mas cometem o cinismo de se dizerem "rigorosamente fiéis" à obra original kardeciana e ainda falam em "viver Kardec". Com os hipócritas no comando, não há como recuperar, para valer, o bom senso e a coerência original de Allan Kardec.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Um deturpador do Espiritismo não pode ser Patrimônio da Humanidade


Um artigo de um portal "espírita" veio com a seguinte "viagem": define o "médium" Francisco Cândido Xavier como um "patrimônio mundial da humanidade", às custas dos mesmos devaneios igrejistas e idólatras de sempre.

O texto, que chega a ser piegas de tão emocionalmente apelativo, evoca aquele mesmo mito de "filantropia" e "humildade" atribuído a Chico Xavier e que é uma imagem "glorificada", porém bastante confusa e cheia de contradições.

Aliás, o mito de Chico Xavier é movido por esse discurso de contradição, de contraste. O "ignorante" que "virou sábio", o "grandioso" que se manifestava pela "pequenez de sua alma", o "fraco" que "tornou-se forte e resistente a tudo" e tantas visões e ideias delirantes, sentimentaloides, tão piegas que chegam a soar cafonas.

Comparações com outros "iluminados" como Divaldo Franco e Madre Teresa de Calcutá - católica "adotada" pelos "espíritas" - também são tendenciosas e delirantes. Sempre aquela ideia igrejeira e um tanto adulatória de "caridade" e "evolução humana", baseado em clichês da adoração católica que remetem ao baba-ovo dos súditos medievais ao Clero que exercia seu poder ferrenho naqueles tempos.

Para piorar as coisas, sabemos que tanto Chico Xavier, Divaldo Franco e Madre Teresa, na verdade, escondem aspectos bastante sombrios que derrubam por definitivo tais mitos. Chico e Divaldo marcaram suas trajetórias como deturpadores graves do Espiritismo e Madre Teresa foi acusada de uma espécie de "holocausto do bem", alojando doentes e pobres em condições sub-humanas.

Além disso, a frequente acusação de obras fake nas atividades mediúnicas não envolve apenas "médiuns" tidos como "pouco conceituados" - o jogo de interesses no "movimento espírita" jogam a culpa apenas em "peixes pequenos" dos mais obscuros "centros espíritas", tão obscuros que são até inexistentes, porque nenhum "centro" quer assumir a culpa dos erros - , como se só a "Maricota da Alfaiataria" ou o "Zé dos Pneus" fizessem mediunidade fake.

As obras fake envolvem até mesmo os "conceituadíssimos" Chico e Divaldo, nos quais irregularidades de extremo grau de gravidade são observadas. O caso Humberto de Campos foi ilustrativo, com a "obra espiritual" não condizendo com o estilo original do autor maranhense.

Mas como a Justiça brasileira é seletiva, os "ancestrais" de Sérgio Moro inocentaram Chico Xavier, apesar do aberrante contraste entre o Humberto original e o "espiritual", fáceis de serem detectados por uma simples leitura de livros.

Não há como apelar, neste caso, para "mistérios" como a comunicação dos espíritos e a natureza da produção mediúnica, porque neste caso a disparidade de estilos, em que pesem semelhanças pontuais, é suficiente para observarmos a fraude na obra supostamente mediúnica.

Chico Xavier fez coisas muito negativas que eliminam qualquer mérito de adoração à sua pessoa. Produziu obras fake sob a colaboração de terceiros, mas sem excluir sua responsabilidade pessoal nas fraudes. A conclusão, mediante análises profundas nos casos e suas polêmicas, é que Chico Xavier realmente fez os pastiches literários, mas não sozinho, tendo a colaboração de Wantuil de Freitas, presidente da FEB e de uma equipe de redatores e consultores literários a serviço da FEB.

Além de deturpador do Espiritismo e criador de pastiches literários, Chico se apropriava de tragédias familiares, mediante a "caridade" de produzir "cartas mediúnicas". Além de serem obras fake, elas superexpuseram e prolongavam as tragédias familiares das perdas dos entes queridos, mesmo com a suposta manifestação dos mortos em cartas "psicografadas". Isso porque, embora o luto pareça "superado", as mortes dos entes passavam mais tempo virando assunto corrente em conversas.

Isso alimentava o sensacionalismo e comprometia a privacidade das famílias envolvidas. Além disso, há indícios de que Chico Xavier sentia um fetiche pelos mortos prematuros, e há uma maldição em torno de vários devotos ou simpatizantes do "médium" cujos filhos tiveram morte precoce: Augusto César Vannucci, Ana Rosa, Nair Bello e, mais recentemente, o desenhista Maurício de Souza.

Não há como apostar no tal "artigo espírita" que define, na cara dura, Chico Xavier como "Patrimônio Mundial da Humanidade". Isso é mais ou menos como dar um prêmio Nobel da Paz ao presidente Michel Temer. Que o articulista goste de Chico Xavier, é o seu direito, mas ele não pode sair por aí dando um título dessa envergadura de forma tão irresponsável.

Até porque, sendo Chico Xavier um deturpador gravíssimo da Doutrina Espírita - não é um ato acidental por suposta "falta de tempo", até pelo resultado farto de mais de 400 livros de uma carreira de 70 anos, grande demais para definir a deturpação como um "erro sem propósito" - , o artigo deslumbrado do blogueiro "espírita", na verdade, é uma avacalhação ao legado do pedagogo Allan Kardec. Um achincalhe (ou não seria aCHICAlhe?).

É até risível que o próprio blogueiro "espírita" já tenha falado mal da "vaticanização do Espiritismo", uma postura hipócrita, já que percebemos que muitos do que criticam essa "vaticanização" são os seus próprios praticantes, na tentativa de estabelecerem um falso vínculo com o Espiritismo autêntico e tentar impressionar a opinião pública.

Pois se o Espiritismo sucumbiu à "vaticanização", Chico Xavier é o maior culpado disso, ele tendo sido um católico ortodoxo em crenças, adorador de imagens, rezador de terços e devotos de sua corrente mais medieval, a Teologia do Sofrimento, algo nunca assumido no discurso mas claramente exposto em ideias e frases do "médium".

Além disso, Chico fez o Espiritismo sucumbir às armadilhas que haviam sido avisadas, infelizmente em vão, pelo espírito de Erasto, em mensagens publicadas na obra kardeciana. Vieram não só os falsos cristos e falsos profetas, mas o falso Kardec, o falso Erasto e outros a temperar a vaidade dos traidores da Doutrina Espírita, que são os primeiros a alegar "fidelidade absoluta" e "rigoroso respeito" à obra de Allan Kardec que não medem escrúpulos em trair de maneira voraz.

O próprio Chico Xavier se fez de falso cristo e falso profeta. Um falso profeta que se julgava "dono" do futuro da humanidade, a arriscar predições de ordem científica e geopolítica com graves erros de abordagem, como supor que eslavos pudessem viver no calor do Nordeste brasileiro ou o Chile fosse poupado dos mesmos fenômenos sísmicos e vulcânicos que pudessem eliminar do mapa o Japão e o Estado da Califórnia, nos EUA, partes do mesmo Círculo de Fogo do Pacífico do país sulamericano.

Mas também Chico era o falso cristo, sempre caprichando no seu coitadismo de mineiro que "comia quieto". Reagia com o vitimismo dos espertalhões que se faziam de vítimas, deixando a fúria para seus seguidores que, tomados de fanatismo violento, derrubavam a ilusão de que os seguidores do "médium" eram pessoas dotadas de "energias elevadas e positivas".

Há relatos de chiquistas que ameaçaram até de morte os contestadores dos supostos méritos de Chico Xavier. O falecido analista espírita (autêntico), Jorge Murta, havia recebido comentários bastante agressivos dos devotos do "médium". Os repórteres de O Cruzeiro que desmascararam Otília Diogo - parceira de Chico Xavier numa farsa de materialização da suposta Irmã Josefa - também receberam muitas ameaças, carregadas de fúria e de "inimaginável" rancor.

Chico também faltou com a palavra. Ele sempre dizia para ninguém "julgar quem quer que fosse". Ele julgou os humildes (sim, HUMILDES) frequentadores do Gran Circo Norte-Americano, que sofreu um incêndio criminoso de consequências muito trágicas, em sua temporada em Niterói, no final de 1961, de terem sido romanos sanguinários que viveram na Gália, no século II.

Tentando se livrar da culpa, Chico cometeu um agravante: atribuiu a acusação a Humberto de Campos, falecido há mais de 30 anos na ocasião do juízo de valor (dado em 1966), e muito mal disfarçado pelo pseudônimo de Irmão X. Essa leviandade, de alto teor imoral e ofensivo à memória de Humberto, se deu depois de Chico ter seduzido o homônimo filho dele com técnicas de love bombing (tipo mais perigoso de Ad Passiones, "apelo à emoção") e Assistencialismo, em 1957.

Com o mesmo julgamento de valor, mas envolvendo as vítimas do acidente com um avião da TAM, há dez anos, no Aeroporto de Congonhas em São Paulo, rendeu um processo judicial por danos morais. Como Chico Xavier, o "médium" Woyne Figner Sacchetin, de São José do Rio Preto, atribuiu a culpa ao pioneiro da aviação Alberto Santos Dumont.

Não há como relativizar isso e "admitir" que Chico Xavier "errou, mas merece todo o mérito de superioridade". É uma malandragem típica daquele aluno trapaceiro, desordeiro e de péssimo aprendizado que, por ser apenas um bom amigo de seus coleguinhas, recebe um "10" quando seu conceito nem merecia uma nota "2".

Além do mais, Chico Xavier pode ter seus adeptos e seguidores, mas eles não podem sair por aí se dizendo "espíritas autênticos", supor "fidelidade absoluta" a Kardec ou dizer que o "médium" de Pedro Leopoldo e Uberaba é Patrimônio Mundial da Humanidade. Isso é forçar a barra demais colocando Xavier acima do próprio Kardec, este sim um espírita mundialmente reconhecido.

Que os adeptos de Chico Xavier se contentem em vê-lo como apenas uma saudosa (para eles) celebridade de Uberaba, e como um católico informal de ideias medievais. Que os chiquistas parem de forçar tanto a barra, porque é inútil transformar o deturpador num "deus".

É constrangedor que o articulista houvesse escrito comentários contra a "vaticanização do Espiritismo" e até reprovado a ação de alguns chiquistas em transformar Chico Xavier em "deus". Ele deveria ver a trave no seu olho, antes de ver o argueiro de outrem. Em seu "artigo espírita", ao julgar Chico Xavier um "patrimônio mundial da humanidade", o blogueiro "espírita" fez um texto bastante "vaticanizado" que de certa forma "endeusou" o maior deturpador da história do Espiritismo.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Analistas da mídia deveriam investigar as associações da Globo com "espiritismo" e "funk"


A Rede Globo é, eventualmente, alvo de muitos questionamentos e investigações. No último fim de semana, o Domingo Espetacular, da concorrente da emissora carioca, a Rede Record (hoje com o nome de fantasia de Record TV), publicou uma reportagem que, entre outras coisas, divulga que a Globo criou uma empresa-fantasma para uma conta bancária nas Ilhas Virgens Britânicas, mesmo reduto de depósitos bancários de políticos do PSDB.

O poderio da Rede Globo é tão descomunal que existe até uma frase irônica dizendo que "o Brasil é uma concessão da Rede Globo". Especialistas apontam que a influência da Globo é tão grande no inconsciente coletivo da população brasileira que ela atinge até mesmo uma parte daqueles que dizem repudiar a emissora.

Afinal, de que adianta cantar "o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo", se as formas de ver, pensar, falar, vestir, ouvir música, analisar o mundo etc são assimiladas justamente pelos programas da emissora? De que adianta falar mal da Globo se fala as gírias trazidas pela emissora, como "balada", difundida pelo programa Caldeirão do Huck?

Dois fenômenos que poucos imaginam terem um forte vínculo com a Rede Globo deveriam também ser investigados e analisados, o "espiritismo" brasileiro e o "funk". É certo que os dois tiveram uma ação "independente" do poder midiático, mas foi a partir da aliança com a Globo que os dois se fortaleceram e, contraditoriamente, tentam se "sobressair" e se "desapegar" de qualquer associação com o poder midiático que os fez crescer e se ampliar.

De que forma "espiritismo" e "funk" representaram uma excelente parceria com a Globo? Em ambos os casos, é um caminho de mão dupla, indicando uma cumplicidade que não deve ser subestimada. Não se trata de um meio "inocente" de divulgação do "amor espírita" e da "alegria do funk", mas de um processo de manipulação da população no qual a própria Globo realimentaria seu poder de influência e dominação.

Em ambos os fenômenos, "espiritismo" e "funk", nota-se um elemento muito comum: a apropriação do povo pobre, feita de maneira paternalista, espetacularizada e domesticadora. Há aspectos aparentemente opostos, como a "moralidade espírita" e a "sensualidade do funk" que, no entanto, se inserem num mesmo contexto conservador de dominação social pelo poder midiático através da exploração caricatural das classes mais pobres.

A Globo construiu uma narrativa atribuindo messianismo tanto no "espiritismo" quanto no "funk". Remoldou um ídolo religioso confusamente concebido, Francisco Cândido Xavier, com base no roteiro do inglês Malcolm Muggeridge, transformando-o no "filantropo Chico Xavier" que tão tolamente fascina muitos de seus seguidores e simpatizantes.

Já no "funk" a Globo também criou uma narrativa de "cultura das periferias" e seu arsenal financeiro é capaz de pagar seus intérpretes e propagandistas a se infiltrarem nos movimentos sociais de esquerda, de forma a desviar o foco e evitar os debates progressistas autênticos com a desnecessária "polêmica" do "funk" e suas baixarias.

As virtudes humanas acabam sendo transformadas em estereótipos. O "ativismo" do "funk" segue, rigorosamente, o mesmo discurso paternalista do projeto Criança Esperança e uma visão de "periferia" que parece ter surgido em alguma reportagem do Jornal Nacional. Mas o "espiritismo" também se apoia numa "filantropia de fachada" como a do mesmo Criança Esperança.

Chico Xavier, por sua vez, encarnou um protótipo de "homem caridoso" que parece ter sido concebido por algum roteiro de novela melodramática de época transmitido às 18 noras, a tal "novela das seis".

A Globo não esconde que trabalha estes dois fenômenos em suas atrações de entretenimento. Luciano Huck foi escolhido pela Furacão 2000 o "embaixador do funk". "Espíritas" exaltam a "importância da Globo" na divulgação da "doutrina espírita". Novelas inserem tanto temáticas "espíritas" como eventos de "funk" em seus enredos.

Mas isso não é coincidência. A Globo não está apropriando de dois fenômenos "independentes". Há fortes indícios de que ela e os dois fenômenos atuam juntos (quer dizer, cada um destes dois com a Globo) num processo de manipulação da opinião pública e do inconsciente coletivo, estabelecendo visões distorcidas relacionadas à caridade humana e à expressão cultural popular.

LIMITAR O PROGRESSO SOCIAL DAS CLASSES POPULARES

O processo das respectivas parcerias da Globo com "funk" e "espiritismo" visam tocar o "corpo" e a "alma" das classes populares, de forma a produzir um progresso social bastante limitado, que garanta a preservação dos privilégios das elites e, obviamente, do poderio da própria corporação midiática.

A figura do "médium espírita", transformada numa grande aberração, que perdeu o caráter intermediário para se tornar uma figura espetacularizada e dotada de culto à personalidade - apesar do verniz de "humildade" tão associado ao "médium" - , virou um dublê de pensador, de ativista e de filantropo para que verdadeiros pensadores, ativistas e filantropos não sejam apreciados pelos brasileiros.

Afinal, os verdadeiros pensadores difundem ideias que vão contra os interesses das classes dominantes, que promovem tantas desigualdades sociais. Os verdadeiros ativistas representam uma ameaça ao poder e os privilégios dominantes. Os verdadeiros filantropos simbolizam o mito de Robin Hood, de "tirar dos ricos" para dar aos pobres, além de, em vez de "dar peixe", ensinarem as classes populares a "pescar".

No "funk", também há uma preocupação com o controle social. A ideia é difundir, mesmo nos mais empenhados círculos de esquerda dos movimentos sociais, que "é melhor um povo pobre reclamando do que se mobilizando por melhorias", criando um processo lúdico no qual se superestima apenas meras questões comportamentais, enquanto se insere no povo pobre a "consciência" do "orgulho de ser pobre", impedindo as classes populares de reivindicar melhorias profundas.

A Globo trabalha, com "espiritismo" e "funk", um discurso tão sutil que quase ninguém percebe o "vírus global" nesses dois fenômenos, que conseguem se penetrar até em meios sociais aparentemente hostis ao poder da corporação da família Marinho. Mas a presença da Globo no "espiritismo" e no "funk" é certeira e decisiva no mecanismo de dominação e manipulação do povo em geral.

Os "médiuns espíritas" acabam tendo muitas utilidades. Sacerdotes sem batina, nomes como Chico Xavier, Divaldo Franco, João de Deus, José Medrado e outros são utilizados para concorrer com os pastores eletrônicos de forma bem sutil. Sem a vestimenta católica e com um discurso "ecumênico", eles podem atrair para si pessoas de diversas religiões, fazendo com que o "espiritismo", promovido à "religião da Globo", tenha mais fiéis do que a Igreja Universal do Reino de Deus e similares.

Os "médiuns" também podem desviar a atenção da população para intelectuais autênticos que apontam problemas no poderio das elites, como tantos analistas políticos e midiáticos que o mercado não quer ver bastante populares.

Além disso, combinando mistificação religiosa, moralismo ultraconservador e uma retórica "digestível" à maneira dos "gurus" de auto-ajuda, os "médiuns espíritas" podem dominar multidões com seus "balés de belas palavras" e vender, sob o falso rótulo de "esclarecimento", dogmas religiosos medievais e preceitos moralistas que impedem a população de agir em prol de um progresso social mais aprofundado.

Desta forma, "espiritismo" e "funk" tentam restringir esse progresso a níveis toleráveis pelo poder das elites. Um povo pobre que se limita a rebolar, em vez de pedir, por exemplo, a reforma agrária. Ou um povo pobre que se limita a tomar sopinha, concedida pelos "médiuns filantropos", ou aceitar uma pedagogia nos moldes da Escola Sem Partido que a Mansão do Caminho e instituições "espíritas" similares já oferecem à população, uma educação sem estímulo à compreensão crítica da realidade.

Um povo pobre rebolando e tomando sopinha, em vez de lutar por reforma agrária e criar pequenas propriedades agrícolas que ameacem o poder dos grandes latifúndios é o objetivo da máquina da Globo, quando endeusa o "espiritismo" e seus "médiuns" associados à "filantropia de novela global" e quando exalta o "funk" como aquilo que as elites (mesmo as acadêmicas, que se dizem "de esquerda") esperam que seja a "verdadeira cultura popular".

"Espiritismo" e "funk" também são blindados pelo suposto vínculo com as classes pobres, que trata o povo pobre como troféu para cada um dos dois fenômenos, de forma a evitar críticas e questionamentos, mesmo os mais objetivos e consistentes.

Mesmo assim, é possível combater a complacência e não se iludir com instituições ou pessoas que se promovem às custas da associação com pessoas pobres sorridentes. Isso significa um paternalismo muito estranho e revela táticas muito sutis e traiçoeiras de dominação social e manipulação da opinião pública, através do apelo retórico do Ad Passiones ("apelo à emoção").

Por baixo dos panos, valores conservadores, estratégicos para o poder da Rede Globo e das elites associadas direta ou indiretamente a ela, são difundidos, como o machismo no "funk" e a apologia ao sofrimento humano, princípio da Teologia do Sofrimento, nos textos e palestras "espíritas" difundidos no Brasil.

Portanto, é preciso ter firmeza e objetividade, e é necessário investigar, sem medo, a ligação do "espiritismo" e do "funk" com a máquina do poder da Rede Globo. Evitar tal investigação, sob o pretexto de não mexer na zona do conforto da "bondade espírita" e da "alegria das periferias com o funk", seria deixar que o poder da Globo deixe um legado na população, mantendo assim a influência da família Marinho que poderá se renovar sob o primeiro sinal de decadência de seu "império".

Assim, deve-se investigar se há dinheiro da Globo financiando turnês de "médiuns" pelo Brasil e pelo mundo, ou quem é que patrocina os "bailes funk". E como entidades do "funk" e a Federação "Espírita" Brasileira atuam nesse processo de manipulação do inconsciente coletivo, a ponto de fazer as pessoas, mesmo as ditas "progressistas", adotarem uma visão bastante conservadora do que é "melhoria de vida" das classes populares.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

"Caridade" defendida por "espíritas" é conservadora

"ESPÍRITAS" PRATICAM ASSISTENCIALISMO, QUE NÃO CURA A DOENÇA DA POBREZA MAS SÓ "ALIVIA" A DOR DA MISÉRIA EXTREMA.

No Caldeirão do Huck exibido há pouco mais de uma semana, houve o caso do vendedor de balas que sonhava ser juiz. Explorando dramas pessoais para reforçar sua imagem de "bom moço", Luciano Huck deixou passar uma certa ponta de cinismo: "A história é boa". O drama foi relatado com muitos momentos de intensos choros por parte do jovem vendedor, de origem humilde.

Os brasileiros ainda não conseguem entender o oportunismo de muitas pessoas que se promovem com a suposta proteção aos pobres. O Assistencialismo, medida que promove mais o benfeitor e até ajuda os necessitados, mas realiza ajudas pontuais, em baixa quantidade de pessoas e baixa qualidade de benefícios, ainda precisa ser informado para mais pessoas.

O Assistencialismo é uma "caridade" cujo valor está mais na "assinatura" do suposto benfeitor do que nos benefícios trazidos, muito poucos e medíocres. Pouquíssimos são os "emancipados", e, mesmo assim, de maneira mediana. E a maioria dos "benefícios" é provisória, como os mantimentos que terminam em duas semanas.

No caso dos mantimentos, ocorre até uma coisa desrespeitosa. Enquanto os pobres voltam a posição de carência anterior, os "filantropos" continuam comemorando "aquela caridade" que praticaram. Quanto cinismo, travestido de tantas "demonstrações de amor"!!

As pessoas ainda ficam presas às paixões religiosas. Até mesmo a turma do "não é bem assim", que tenta sempre arrumar um discurso "racional" para suas convicções. E, no "espiritismo" brasileiro, a "caridade" virou um escudo para proteger o estrelismo dos "médiuns" e fazer manter o culto à personalidade que eles recebem, sob o rótulo de "humildade".

A deturpação do Espiritismo é, assim, legitimada, e a "caridade" vira uma grande carteirada para que se permitissem as traições preocupantes feitas com o legado de Allan Kardec. Verdadeiras desonestidades doutrinárias são feitas, mas elas se deixam passar incólumes no Brasil porque as pessoas se rendem facilmente à paixão religiosa e sua cegueira emocional.

Alguns tresloucados até surgem, dizendo "Pouco importa a desonestidade ou não, tudo é amor!!", com um certo cinismo e uma cegueira emotiva das mais doentias. Pessoas que vivem a masturbação com os olhos das comoções fáceis, que sem querer acaba revelando o caráter sombrio das "estórias de superação": o fato de pessoas se divertirem às custas do sofrimento dos outros, mesmo daqueles que "conseguem sair" desse sofrimento.

Isso revela outro aspecto bem mais duro: a sociedade brasileira é ultraconservadora. Ela só aceita a "caridade" quando ela se submete ao institucionalismo religioso ou algo parecido. Uma "caridade" que tem mais a cara do "filantropo" do que uma marca de resultados transformadores. É certo que a retórica dessa "caridade" exagera, dizendo que ela é "transformadora" e "revolucionária", mesmo quando os resultados são medíocres e inexpressivos.

Vivemos numa sociedade moralista que, em parte, se traveste de "moderna" e "progressista" mediante diversas conveniências sociais. O Brasil é marcado pelo "jeitinho", pelo jogo de interesses que transforma pessoas antiquadas em "modernas" e faz causas novas sempre serem desfiguradas ao sabor dos interesses conservadores.

O "espiritismo" brasileiro é um exemplo. Da novidade originalmente lançada por Allan Kardec, a doutrina se reduziu a uma reles formalidade, a um jogo de aparências na qual seus palestrantes ignoram escrúpulos em produzir textos que se contradizem entre si, uns bajulando Erasto, outros elogiando Emmanuel, se valendo mais por palavras soltas e tendenciosamente utilizadas, como "solidariedade", "paz", "amor", "fraternidade" e "caridade".

No nível ideológico, o "espiritismo" brasileiro até regrediu em relação ao original francês. Enquanto a doutrina original de Allan Kardec seguia o rumo do Iluminismo e do Século das Luzes na França (um período de profundos avanços tecnológicos, científicos e culturais no país europeu do século XIX), o "espiritismo" brasileiro caminhou para trás, se aproximando mais e mais do velho Catolicismo jesuíta português, de moldes medievais, que vigorou no Brasil durante o período colonial.

A falsa imagem de "moderna" e "progressista" a que oficialmente está associado o "espiritismo" brasileiro é uma fantasia trabalhada pela grande mídia, que, com sorte, pode juntar em seu discurso uma estrutura verossímil de teorias e imagens que fazem com que essa visão seja amplamente aceita e garanta uma pretensa unanimidade e uma aparente estabilidade na opinião pública.

Mas isso não se condiz na prática, porque tudo no "espiritismo" brasileiro é conservador. O moralismo igrejeiro, popularizado pelas ficções "espíritas", e a espetacularização dos "médiuns", transformados em ídolos religiosos à maneira medieval, não raro personificando a condição de pseudo-sábios, comprova o quanto o "espiritismo" brasileiro é conservador, e, digamos, até mesmo ultraconservador.

Ideologicamente, a defesa do golpe militar de 1964, da ditadura militar, dos movimentos "Fora Dilma" e do programa do governo Michel Temer - as reformas trabalhista e previdenciária estão bem ao gosto dos "espíritas" - e as parcerias com veículos de mídia conservadores como TV Tupi e Rede Globo também eliminam a tão celebrada imagem "progressista" do "espiritismo" brasileiro.

A apreciação da Teologia do Sofrimento e seus mitos - "aceitar o sofrimento", "combater o inimigo dentro de você mesmo", "aguentar mais desgraças possíveis em troca de bênçãos futuras" - revela essa inclinação medieval do "espiritismo", nunca oficialmente constatada, pelo horror que os "espíritas" têm em ver a visão oficial e fantasiosa, que mostra um "espiritismo de conto de fadas", até porque a dissimulação e a aversão ao questionamento são caraterísticas comuns entre os "espíritas".

A situação do "espiritismo" é de tal forma tão aberrante que a Igreja Católica abraçou um progressismo que os "espíritas" não conseguiram abraçar. Ver que o papa Francisco adota posturas avançadas, ainda que dentro dos limites dogmáticos do Catolicismo, é algo para envergonhar os "espíritas", afundados na areia movediça do medievalismo.

E isso se tornou o preço caro da catolicização do Espiritismo no Brasil, porque isso contaminou a doutrina de tal forma que agora ser "espírita", no nosso país, está mais próximo do imperador romano Constantino do que de Allan Kardec, muito bajulado e quase nunca devidamente estudado. O "espiritismo" já se tornou até mesmo ultraconservador, e um dia a máscara de "progressista" irá cair.

terça-feira, 11 de julho de 2017

"Bondade" de Chico Xavier foi mito criado pela Rede Globo para competir com Igreja Universal


A Igreja Universal do Reino de Deus completa 40 anos e isso tem muito a ver com os rumos que o "espiritismo" brasileiro haviam tomado com uma pequena ajudinha da grande mídia. Sem mais a ação marqueteira de Antônio Wantuil de Freitas, o ex-presidente da Federação "Espírita" Brasileira que faleceu em 1974, outra estratégia tinha que ser feita.

Não se podia mais assumir o roustanguismo, apesar da evidente herança das ideias do advogado de Bordéus, pioneiro deturpador do Espiritismo, deixou na doutrina igrejeira brasileira. Tinha que haver uma postura contraditória e confusa, porém bastante agradável, que pudesse trazer às federações regionais uma autonomia e uma reputação iguais ou superiores às da direção nacional.

Morto Wantuil, seus herdeiros tiveram desavenças com os herdeiros do falecido, e houve também escândalos nos quais os espíritas autênticos saíram denunciando aqui e ali. Daí que se construiu a "fase dúbia" do "movimento espírita", na qual, para agradar os espíritas "científicos", uma boa parcela de roustanguistas, se distanciando do "alto clero" da FEB, fingiu se comprometer com a recuperação das bases kardecianas.

Daí o nome "kardecismo", que define a "fase dúbia". A ênfase no rótulo "kardecista" é tendenciosa e falsa, fundamentada no neologismo "kardequizar", uma corruptela da pedagogia católica do verbo "catequizar" (referente ao que os jesuítas fizeram com índios, negros e mestiços no período colonial), tanto que o espírita autêntico prefere ser considerado "kardeciano" e não "kardecista".

A FEB apenas era considerada como instituição, sem que seus dirigentes pudessem ter o poder, a projeção e a reputação comparáveis aos de Wantuil. O destaque era dado mais aos "médiuns", Francisco Cândido Xavier e o então emergente Divaldo Franco, que passariam a ser os "sacerdotes" desse roustanguismo enrustido, dissimulado através da tendenciosa apreciação da teoria espírita original e das bajulações feitas a Allan Kardec.

E aí entra o caso da Igreja Universal do Reino de Deus. O movimento neopentecostal, dissidente da Igreja Nova Vida, estava crescendo com os pastores eletrônicos - que usam a televisão para fazer pregações - R. R. Soares e Edir Macedo. O "missionário" R. R. (Romildo Ribeiro) fundou a Igreja Internacional da Graça de Deus, mas foi seu cunhado e ex-assistente Edir que arrancou na dianteira.

A IURD já se revelava um projeto ambicioso e isso preocupava a Rede Globo de Televisão, emissora das Organizações Globo que estava em ascensão vertiginosa por causa da ditadura militar e que precisava exercer uma influência totalitária na formação de comportamentos e modos de vida da população brasileira. Se existe mídia hegemônica, a Rede Globo é o poder dessa mídia levado às últimas consequências.

FEB e Globo, pensando em expandir seus poderes, desfizeram a antiga animosidade e passaram a se tornar parceiras, criando um casamento feliz que dura até hoje. E precisavam reagir à ascensão de R. R. e, sobretudo, Edir, que pareciam, na época (idos de 1977-1978), criar um complexo midiático próprio.

O resultado veio mais tarde. No começo da década de 1990, Edir Macedo tornou-se dono de todo o espólio da Record, grupo midiático cujo núcleo central é a TV Record de São Paulo, a mais antiga emissora de televisão em atividade no Brasil.

Mesmo assim, já no final da década de 1970 a Globo precisava criar um ídolo religioso para fazer frente aos pastores eletrônicos, um "católico sem batina" que fosse "digerível" para o maior número de extratos sociais, com penetração até mesmo em ateus e esquerdistas, que em parte são também manipulados pela engenhosa máquina hipnótica da programação "global".

A "AJUDINHA" DO INGLÊS MALCOLM MUGGERIDGE

E foi aí que entrou Chico Xavier, pioneiro deturpador do Espiritismo no Brasil e antigo pupilo de Wantuil de Freitas. O "médium" mineiro já tinha um mito tendencioso, mas ele causava uma grande confusão por causa dos apelos sensacionalistas referentes à apropriação de nomes de escritores mortos ou de supostas práticas como a materialização de espíritos. Tais confusões chegaram a colocar o "médium" no banco dos réus, em 1944.

O mito tinha que ser relançado de maneira mais "limpa", embora o apelo das "cartas" atribuídas a parentes mortos também fosse um perigoso sensacionalismo. Em todo caso, para respaldar essa prática um tanto duvidosa, que expõe de maneira pitoresca as tragédias familiares, tinha que haver um discurso clean, que vendesse a imagem de Chico Xavier como um pretenso filantropo.

Esse discurso buscou inspiração no documentário Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God), que o jornalista e ativista católico, o inglês Malcolm Muggeridge (1903-1990), fez para construir o mito de Madre Teresa de Calcutá, transformando-a num pretenso símbolo de "caridade plena". Esta imagem de Madre Teresa permanece, apesar de revelações recentes apontarem que ela deixava os miseráveis que aparentemente socorria em condições sub-humanas.

O roteiro de "caridade" envolvia uma narrativa "limpa" que produzia um apoio unânime de uma sociedade conservadora e beata, como é em boa parte o Ocidente e, principalmente, em todo o Brasil. A narrativa do "filantropo" segurando bebê no colo e oferecendo sopas para os pobres virou um paradigma de "caridade" bastante conservador, mas defendido com unhas e dentes pela mesma sociedade que se enfurece com governos de esquerda que propõem a inclusão social.

Isso porque a "caridade" religiosa é uma "ajuda ao próximo" que, em que pese os discursos de "transformação" e "promoção de qualidade de vida", só realiza ajudas pontuais, de resultados sociais ínfimos.

Ajuda-se os pobres sem mexer nas estruturas de desigualdades sociais, ou seja, sem ameaçar os privilégios dos ricos. Conservadora, a sociedade prefere uma caridade "modesta" que não mexe nos tesouros dos ricos do que governos do PT, por exemplo, que ampliam oportunidades para o povo pobre com medidas que atingem privilégios elitistas "sagrados".

Por isso faz muito sentido ver que a Rede Globo passou a gostar, e muito, de Chico Xavier e da figura do "médium" transformada em uma aberração surreal no Brasil, perdendo a função intermediária para ser o "centro das atenções", praticando o "culto à personalidade" e inspirando nos seus seguidores a "fascinação" e a "subjugação" que Kardec considerava tipos perigosos de obsessão espiritual.

Chico Xavier foi então remodelado rigorosamente com as mesmas receitas que promoveram Madre Teresa de Calcutá. É curioso até que os "espíritas" brasileiros, que adotaram Madre Teresa como se fosse um ícone de sua religião, não escondem suas comparações entre ela e o "médium" brasileiro, ambos exaltados em suas paixões religiosas.

Xavier foi ótimo, também, para o poder da Rede Globo de Televisão e um dos maiores êxitos de sua máquina manipuladora, juntamente com a vitória eleitoral de Fernando Collor de Mello, ex-presidente e atual senador, e o "funk carioca". Todos verdadeiros sucessos do discurso manipulador da Globo, capaz de influenciar até mesmo uma parcela daqueles que se dizem odiar a emissora e rejeitar seu poder.

Como o "funk carioca", Chico Xavier também tornou-se uma pretensa unanimidade pela associação "positiva" ao povo pobre. Infelizmente, o Brasil não consegue entender as armadilhas desse discurso, no qual a associação tendenciosa ao povo pobre, através de um paternalismo pretensamente "solidário", transforma qualquer explorador em "santo" ou algo parecido, pouco importando os interesses arrivistas e traiçoeiros que podem estar por trás.

No caso de Chico Xavier, ele virou um "filantropo de novela", e as pessoas que pensam compreenderem o mundo de maneira realista ao adorarem ele e outros "médiuns", como Divaldo Franco e João Teixeira de Faria, o João de Deus, na verdade estão vendo os conceitos de "bondade" e "caridade" na maneira simplória das antigas novelas transmitidas pela Rede Globo.

Diante disso, a dócil imagem dos "médiuns" transformados em "filantropos" é boa demais para ser verdade. As pessoas adoram, se sentem felizes, mas isso é uma grande ilusão. Tudo isso partiu de um engenhoso discurso, favorecido pela narrativa hegemônica da Rede Globo, para usar os supostos médiuns como "santos sem batina", "sacerdotes" feitos para concorrer com os pastores midiáticos e suas pregações espetaculares.

Nos 40 anos da Igreja Universal do Reino de Deus, pode-se também lembrar os 40 anos do mito de pretenso filantropo de Chico Xavier, um mito fundamentado no Assistencialismo (a "caridade" que ajuda pouco e promove mais o "benfeitor" de ocasião), cuja retórica permitiu consolidar a deturpação do Espiritismo ao associar os deturpadores a uma suposta imagem de "bondade" e "amor ao próximo". E tudo isso com a ajuda manipuladora da Rede Globo.

domingo, 9 de julho de 2017

Áreas de "centros espíritas" tiveram ocorrência de assaltos


Que todo lugar é perigoso, isso é verdade. Mas as áreas de "centros espíritas", até pela natureza desleal da doutrina igrejeira, famosa por suas traições aos ensinamentos originais de Allan Kardec, só pode atrair energias ainda piores.

Nos últimos dias, duas áreas onde se localizam "centros espíritas" tiveram ocorrência de assaltos, em horários noturnos e diante de várias pessoas. Um assalto ocorreu numa mercearia no Jardim Icaraí, em Niterói, no Grande Rio, na noite do último dia 29 de junho, e outro, no último dia 05 de julho, num "centro espírita" de Jaboatão dos Guararapes, na Grande Recife.

Em Jaboatão a ocorrência foi mais trágica. Um grupo de assaltantes invadiu o Grupo Espírita Amor ao Próximo, localizado no bairro Piedade. O lugar ao redor parece ermo, mas a palestra estava lotada, feita pelo psicólogo Liszt Rangel. A palestra se encerrou cerca de 21 horas. Dois suspeitos teriam estado na palestra, fingindo-se espectadores.

Um PM, o cabo Alexandro Alves de Melo, de 29 anos, que assistia à palestra, tentou impedir o assalto, dando início ao tiroteio. Dois suspeitos foram mortos, mas o policial foi baleado e, gravemente ferido, morreu no hospital. Uma frequentadora, de 57 anos, também foi gravemente ferida e faleceu.

O GEAP contava com 150 pessoas assistindo à palestra na ocasião. Um suspeito de ser líder da quadrilha foi detido pela polícia. Outros suspeitos também foram presos. Armas e objetos roubados foram apreendidos. Algumas pessoas saíram feridas, sem gravidade, incluindo outros assaltantes.


Em Niterói, a mercearia Tay foi invadida por um assaltante, por volta da 19h50. Apesar da baixa iluminação, a área, o entorno das ruas Mariz e Barros e João Pessoa, é movimentado e fica numa área de muitos bares e restaurantes. O horário está dentro do período de retorno das pessoas do local de trabalho para casa.

O assaltante rendeu os funcionários, mas um deles conseguiu reagir, brigando com o ladrão. Uma funcionária chamada Mariana, de 19 anos, também tentou ajudar mas foi baleada e depois socorrida para um hospital. O bandido conseguiu fugir, e nada foi roubado. O local fica próximo a um "centro espírita", o Irmã Rosa, localizado numa das ruas próximas à esquina.

Em Niterói, ocorrências em áreas de "casas espíritas" são muito comuns. Em várias ocasiões, mesmo durante a tarde, assaltos já ocorreram na Rua Tavares de Macedo, em Icaraí, onde fica uma "livraria espírita". No Barreto, um membro de um "centro espírita" situado no bairro foi assassinado por um bandido na entrada do lugar, aparentemente sem roubar objetos.

O Instituto Dr. March, situado no Fonseca, também causa estranheza pelo lugar ao redor ser tomado pela decadência. Perto do local existem casas em ruínas, incluindo uma, de arquitetura modernista, que até tentou ser recuperada, mas o local virou um depósito de entulho e lixo.

O local também é cercado por áreas ermas, incluindo matagal e ruas vazias, já perigosas para se caminhar durante a tarde. Perto do Instituto Dr. March, dois assaltos já ocorreram em plena luz do dia, em dois dias seguidos, por volta de sete horas da manhã.

Em outros locais, há também indícios de mau agouro. No Rio de Janeiro, o Centro Espírita Leon Denis, em Bento Ribeiro, se localiza em área de ocorrências violentas, na região de Madureira. Recentemente, houve um assalto no Shopping Madureira, durante à tarde e, também no mesmo turno, um ex-dirigente de escola de samba foi assassinado, num horário de considerável movimento.

Em Salvador, o Centro Espírita Paulo e Estêvão, frequentado pelas elites da capital baiana, se localiza na proximidade do Nordeste de Amaralina, com altos índices de criminalidade. A Mansão do Caminho, fundada pelo "médium" Divaldo Franco, se localiza em Pau da Lima, área também de muita violência. O Centro Espírita Bezerra de Menezes (antigo Núcleo Assistencial Cavaleiros da Luz), no Uruguai, também se localiza em área de intensa violência.

Os "espíritas" alegam que a localização em áreas perigosas é uma forma de "estabelecer boas energias" nos lugares. Mas o efeito, na prática, é o oposto, até pelos conhecidos deslizes que o "movimento espírita" acumula no conjunto da obra, entre desonestidades e dissimulações, e que contribuem para atrair energias ainda mais negativas.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Técnica duvidosa de análise de textos testou obras de Chico Xavier


O que é a nossa imprensa. Um texto de Yahoo! Finanças falando sobre o teste de um programa eletrônico para analisar o estilo de obras de Francisco Cândido Xavier começou mal com o título mostrando um erro em português, "Máquinas põe Chico Xavier à prova e resultado é surpreendente".

Sem qualquer questionamento, a reportagem, num contexto em que nosso jornalismo é tão decadente que apresenta textos gramaticalmente errados, desinformativos e até mentirosos, com a grande imprensa praticando até fake news, como se nota o noticiário político. O assunto, o uso da "inteligência artificial" para analisar os estilos de três supostos autores espirituais publicados pelo "médium", revela uma técnica bastante duvidosa e sem eficácia verdadeira.

Ela vem de uma máquina chamada Deep Learning, utilizada pela empresa Stilingue, para analisar obras dos três supostos autores, Emmanuel, André Luiz e Humberto de Campos. O processo se dá a partir da leitura digital de uma enorme quantidade de dados.

Nesse processo, o computador passa a "compreender" as relações entre os dados sem precisar saber o que é um substantivo e um verbo. Com isso, o programa tem condições de, por exemplo, "reescrever" a Bíblia, "reconhecendo" que, antes de cada frase, terá que colocar um número antes como indicativo de um versículo.

A técnica foi usada para tentar reconstituir o estilo do dramaturgo inglês William Shakeaspeare, e conseguiu-se imitar seu estilo, mas apresentando certa margem de erros. No teste feito com as obras de Chico Xavier, o aparelho apresentou "êxito", como se os estilos dos supostos autores espirituais fosse "realmente diferente".

Juntando um livro de cada um, tentou-se misturar os supostos autores de forma que um tentasse escrever a obra de outro. A máquina apontou suposta diferença de estilo, quando aparentemente um suposto autor não conseguiu reproduzir o estilo de outro. Como Emmanuel reescrevendo um livro atribuído a Humberto de Campos.

A TÉCNICA NÃO VALEU

A técnica deve ser um dos apelos desesperados para tentar salvar a reputação de Chico Xavier e tentar supor alguma autenticidade de suas obras supostamente mediúnicas. Ultimamente, devido aos escândalos causados por denúncias de fraudes sobre seus livros, a propaganda sobre o "médium" estava concentrada nas ações de "filantropia" (Assistencialismo) e nas "cartas" atribuídas a parentes mortos de famílias não-famosas.

Há vários pontos a analisar sobre essa técnica, que pode ser válida, por exemplo, para identificar doenças e genes, mas é bastante duvidosa quando a questão é analisar estilos literários. Sabe-se que um robô não pode definir se um estilo é diferenciado ou autêntico e, havendo margem de erros, é capaz também de apontar estilos diferentes confrontando dois livros de um mesmo autor em que um foi lançado na juventude e outro na fase mais idosa.

A técnica que avaliou os livros de Chico Xavier não garantiu autenticidade na suposta psicografia. O que podemos avaliar, a respeito da suposta diferença de estilos nos livros atribuídos a Emmanuel, André Luiz e Humberto de Campos se deve a algumas considerações:

1) Informações não-oficiais, porém verídicas, mostram que tais livros, na verdade, são uma autoria coletiva, mas de gente da Terra: Chico Xavier teria feito às obras com parceria, geralmente com o presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas e vários colaboradores, entre redatores, revisores e consultores literários. Isso se constata porque Chico era incapaz de reproduzir estilos diferentes sozinho, mas também se atribuir autenticidade às "psicografias", apresentará irregularidades sérias em relação aos estilos originais que os autores alegados deixaram em vida.

2) Entendendo as supostas psicografias, evidentemente que Chico Xavier, considerando suas psicografias fake - classificação desagradável a muitos de seus fiéis, mas bastante realista - , teria que criar "estilos diferentes" para cada suposto autor, como o padre e "pensador espírita" Emmanuel, o médico e "cientista" André Luiz e a paródia igrejeira do falecido Humberto de Campos.

3) O uso de apenas três livros - os nomes das obras não foram citados na reportagem - é insuficiente para que os resultados fossem "surpreendentes". Além disso, os "acertos" são frágeis, em se tratando de um mero programa eletrônico, e não serão os algoritmos que irão afirmar que a suposta psicografia de Chico Xavier é autêntica.

4) O critério de colocar um autor para "reescrever" livro de outro é também duvidoso. Faltou também analisar a obra original de Humberto de Campos confrontada com a obra do suposto espírito. Evidentemente, o resultado apontaria diferenças de estilo se o Humberto de Campos original "reescrevesse" os livros do suposto espírito e vice-versa.

Nada substitui o conhecimento humano e, por isso, a análise de conteúdo, combinada com um profundo saber literário, já afirma que a literatura "mediúnica" de Chico Xavier é bastante irregular, apresentando exatamente as mesmas caraterísticas de erros estilísticos que as obras fake que se observam na Internet.

É bastante doloroso para muitos admitir que Chico Xavier foi o pioneiro dos textos fake, mas isso, infelizmente (para eles), é verdade, porque uma simples leitura é bastante para observar que os supostos autores espirituais não condizem nas "psicografias" porque, em que pese as eventuais semelhanças, elas escapam dos estilos e das personalidades originais dos mortos alegados.

Daí que não dá para apelar para tolices como "o espírito estava tão tomado de amor que se esqueceu do próprio estilo" ou "o espírito doou seu estilo para a caridade". Bobagens como "linguagem universal do amor" também condizem. É necessário abrir mão das paixões religiosas e admitir que obras fake também podem ser produzidas a pretexto de transmitir "mensagens positivas". Também pode-se usar o "amor" para enganar as pessoas.