terça-feira, 23 de maio de 2017

O "espiritismo" e o Brasil preso no atraso


Quem não está tomado de paixões religiosas poderá prestar muita atenção nas doutrinárias "espíritas" e nas reuniões ditas "mediúnicas", sobretudo aquelas que marcaram a trajetória ao anti-médium mineiro Francisco Cândido Xavier.

Serão observadas energias confusas e pesadas, não porque os "amiguinhos pouco inclinados" precisam "aprender", mas porque eles é que dominam os ambientes, já que o "espiritismo", que optou desde o início pela tendência igrejeira de Jean-Baptiste Roustaing, atraiu para si energias maléficas e nocivas para muitas famílias, que contraem azar com o menor contato "amoroso" com esta doutrina igrejeira.

O "espiritismo" é um reflexo de um Brasil que mistura ambições, dissimulações, fingimentos, e tantos sentimentos, sensações e intenções bastante sombrios, mascarados pela hipocrisia que apela para os mais belos aparatos de bondade, beleza e quase perfeição.

A religião que só evoca o nome de Allan Kardec no nome, todavia, comete traições da mais extrema gravidade aos seus postulados e alertas. Não adianta o "espírita" igrejeiro fingir "querer aprender Kardec" para ter boa conta no Espiritismo autêntico. Aprende a boa teoria, numa "decoreba" doutrinária, mas depois que sai da aula volta ao seu igrejismo mais gosmento.

O quanto o Brasil está atrasado. Nas redes sociais, o que se revelou foi que uma considerável parte dos brasileiros, mesmo aqueles de elite, diploma universitário e aparentemente com alguma base informativa razoável, ainda parece dotada de valores medievais, com sérios preconceitos sociais que o aparato de modernidade, ou a pouca idade e a aparente conectividade na Internet não conseguem esconder.

As paixões religiosas, que, fora do institucionalismo religioso, apelam para aparatos como o Assistencialismo e o Ad Passiones e se apoiam na pós-verdade para explicar qualquer absurdo ou retrocesso na vida, dentro da religião propriamente dita naufragam num mar de ilusões movidas pelo açúcar excessivo das palavras e das imagens comoventes ou alegres.

O "espiritismo" brasileiro tornou-se, então, um caso gravíssimo e é assustador que ninguém se encoraje a questionar essa religião, que na prática tornou-se uma "prima pobre" da Cientologia, fartamente denunciada nos EUA, com documentários exibidos até em emissoras comerciais. Aqui até a mídia mais progressista corrobora os devaneios "espíritas" mais próprios da Rede Globo de Televisão e da revista Veja.

A onda conservadora que varreu o Brasil a partir de maio de 2016, mas que já estava latente desde o começo da década de 1990 apela para uma agenda de retrocessos assustadora, porque, dependendo do saudosismo doentio de uns e de outros, podemos regredir, em alguns aspectos, ao ano de 1974, mas, em outros, pode-se regredir até antes de 1792. Há movimentos querendo a revogação até do Sete de Setembro, movidos por neuroses extremamente doentias.

E o próprio "espiritismo" regrediu tanto que a promessa de "aprender melhor Kardec", que foi o principal aspecto da "fase dúbia" que domina o "movimento espírita" desde 1975, foi em vão. O que se viu foi o acentuamento do igrejismo, mesmo mascarado por evocações pedantes e tendenciosas à Ciência e Filosofia, ao ponto de abraçar a Teologia do Sofrimento e rebaixar o legado kardeciano a uma forma repaginada do velho Catolicismo jesuíta, de caraterísticas medievais.

Que apenas Chico Xavier fosse um devoto da Teologia do Sofrimento (fato confirmado não por assumir teoricamente essa ideologia, mas pelas ideias professadas, ou seja, um "conteúdo" manifesto sem o "rótulo"), vá lá, pela formação social que ele teve. Mas a Teologia do Sofrimento, até pela influência que ele exerceu no "movimento espírita", passou a ser o maior princípio do "espiritismo" brasileiro, muito mais do que qualquer postulado kardeciano, mesmo os mais deturpados.

Até os meios de popularizar o "espiritismo" brasileiro enfatizam mais o igrejismo, como os romances "espíritas", as sessões "mediúnicas", as reuniões nos "centros espíritas", o conteúdo das publicações desta doutrina. Poucos percebem que muitas dessas ideias e práticas tidas como "kardecistas" (termo que já se torna pejorativo em relação a Kardec) são na verdade herança de J. B. Roustaing.

O atraso do "espiritismo" brasileiro é profundo e assustador, vendo que muitos incautos imaginam que Chico Xavier e Divaldo Franco são os "donos do futuro". Duas pessoas retrógradas, o primeiro um caipira ortodoxo e ultraconservador, o outro um sujeito com ares de professor dos anos 1930, dos velhos tempos da oratória rebuscada, das ideias truncadas e do pretenso saber hierarquizado, pomposo e pedante.

Evidentemente, quem é seduzido pelas paixões religiosas, acha que isso "não faz sentido". Vai tentar argumentar, com sua "ginástica intelectual" e seu malabarismo retórico, que isso "não existe" e que o "espiritismo" é futurista e que o Brasil é o "país mais moderno do mundo", e que no Brasil só os "romanos" é que sofrem os prejuízos graves tão conhecidos no nosso cotidiano.

São argumentos desesperados de gente que quer ter a posse da verdade, sem saber sequer a natureza das situações que existem, e que são bastante sombrias. Ver que os brasileiros estão regredindo até para os padrões sociais de 79 d.C, quando Pompeia e Herculano foram destruídas pelas lavas e pedras do Vesúvio. Quantos Vesúvios teria que ter o Brasil diante de tantas Pompeias e Herculanos?

segunda-feira, 22 de maio de 2017

"Espiritismo" e o poder descomunal da Rede Globo


Existe uma frase irônica que diz que o Brasil é uma concessão da Rede Globo. O poder descomunal e sem limites da rede televisiva, surgida em 1965, se expressa na determinação de comportamentos, costumes, gírias, visões de mundo, vestuários e até gosto musical, com um poder manipulador sem precedentes na História do Brasil. A Globo até escolhe e derruba presidentes da República de acordo com seus interesses estratégicos, se comportando como se fosse um partido político.

Se você fala "balada" para definir a "vida noturna" ou "galera" para definir todo tipo de grupo social, acha o ex-presidente Lula "o maior corrupto do Brasil de todos os tempos", adora ver futebol nos fins de noite de quartas-feiras, enxerga a realidade como se fosse uma novela e acha que tratar bem as crianças é fazer festinha todo fim de semana, isso significa que não há escapatória: você de alguma forma é influenciado pela Rede Globo, por mais que odeie a emissora.

Muitas pessoas também falam "cliente" em vez de "freguês", a ponto de alguns imaginarem por que Eduardo Paes, afeito a tantas tolices, não determinou a mudança de nome de dois bairros homônimos cariocas, na Ilha do Governador e em Jacarepaguá, de Freguesia para Clientela. Também é influência da Globo, que chegou ao ponto de definir como será o vocabulário a ser falado pela população.

Os "espíritas" também não sabem que a imagem de "filantropo" associada a Francisco Cândido Xavier, tão tida como "espontânea" e "natural", também é fruto da manipulação da Rede Globo, que precisava de um ídolo religioso "ecumênico" para tentar neutralizar a ascensão de pastores neopentecostais que arrendavam horário em emissoras concorrentes, como Edir Macedo, mais tarde dono da Rede Record.

Chico Xavier já era um ídolo religioso inventado pela habilidade publicitária do então presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, para impulsionar a venda de livros. Reunindo estereótipos de devoção católica, ingenuidade caipira e o apelo sensacionalista da suposta paranormalidade, Chico Xavier tornou-se um mito arrivista, mais próximo de um velocino de ouro do que de um equivalente brasileiro de Jesus de Nazaré, personalidade já bastante deturpada por católicos e evangélicos.

O mito de Chico Xavier, no entanto, era bastante confuso nas mãos do agressivo Wantuil. E a alegação, depois mentirosa, de que Chico "recebia" mensagens de literatos mortos, só causou problemas e foi essa malandragem que acabou trazendo ao "espiritismo" brasileiro as energias malévolas que acabaram permanecendo neste movimento religioso, por mais que seus líderes e adeptos reneguem tal realidade.

Chico Xavier era blindado pela Rede Tupi, o que mostra o quanto o poder televisivo adora mitos que misturem paranormalidade e beatitude católica. Um "católico sem ser católico" é o que o "espírita" acabou se tornando, virando uma marquize de fé para católicos não-praticantes com preguiça de encarar a ginástica do senta-e-levanta das missas dominicais.

Mas, morto Wantuil, Chico Xavier passou a ter o mito "redesenhado" pela Rede Globo de Televisão. Eliminaram-se os aspectos confusos e, da "mediunidade", destacou-se menos a suposta comunicação com os intelectuais do além-túmulo e se enfatizou mais as "cartas" dos "anônimos falecidos".

Fora esse detalhe, o mito de Chico Xavier obedeceu rigorosamente o roteiro que o inglês Malcolm Muggeridge bolou para outro mito religioso duvidoso, Madre Teresa de Calcutá. Tida como "símbolo de caridade", Madre Teresa, que por ironia se assemelhava fisicamente à Bruxa do Mar (Sea Hag, em inglês), vilã das estórias do Popeye, foi mais tarde denunciada pelo jornalista Christopher Hitchens por ter mantido doentes e miseráveis em condições sub-humanas em suas "casas de assistência".

Chico Xavier, que defendeu o golpe militar de 1964 e apoiou a ditadura, com suas próprias palavras, num programa de TV de grande audiência - e, hoje, também muito visto no YouTube - , seguiu o mesmo roteiro de Muggeridge: chegava a uma "casa de caridade", era recebido pela multidão, carregava bebê no colo, saudava populares, cumprimentava miseráveis nas ruas, entrava na casa, via doentes na cama e meninos pobres tomando sopa e depois ia à mesa no salão dar depoimentos que vão virar frases de efeito, supostos "pensamentos de sabedoria".

A Rede Globo, portanto, recriou Chico Xavier de uma forma "limpa", adaptando para o contexto brasileiro o roteiro de Malcolm Muggeridge no documentário sobre Madre Teresa e aplicou a fórmula em seus programas jornalísticos, a partir de uma edição do Globo Repórter, mas depois seguida pelo Fantástico e pelo Jornal Nacional.

As pessoas que levam naturalmente a abordagem televisiva como se fizesse parte de suas vidas pessoais passou a assimilar o mito de Chico Xavier naturalmente. Sem a batina católica, o "médium", promovido a um pretenso filantropo - praticando o mesmo Assistencialismo que serve para a promoção pessoal do apresentador Luciano Huck - , servia tanto para alimentar as fortunas dos dirigentes da FEB e federações regionais quanto para reforçar o poder da Rede Globo.

No primeiro caso, considerando que o poder centralizador da FEB deu lugar a um poder relativo frente às federações regionais, já que estas comandavam a "fase dúbia" do "movimento espírita" (um igrejismo fantasiado de "recuperação das bases kardecianas"), o mito de Chico Xavier, sem as confusões pitorescas da Era Wantuil, criava a esperada estabilidade de um ídolo religioso que fazia o "milagre" de vender livros e outros produtos que enriquecessem os cofres dos dirigentes "espíritas", sob o pretexto do "pão dos pobres".

No segundo caso, se permitia a popularização de um "católico sem batina" cujo apelo poderia ser "ecnumênico", atingindo, se possível, até os ateus. É um grande truque publicitário, que faria com que um ídolo religioso fosse adorado "sem pretensões" e "sem vínculos institucionais", ou seja, um ídolo religioso que ultrapassasse barreiras da própria religião "espírita", de forma a barrar a influência dos pastores eletrônicos das seitas neopentecostais, derivadas da pioneira Igreja Nova Vida.

Com isso, empurrava-se a adoração do moderno "velocino de ouro" que sempre foi Chico Xavier, alvo de doentias paixões religiosas (tão perigosas quanto as paixões do sexo e da fortuna) até para setores das esquerdas, em que pese o "médium" ter esculhambado os movimentos sociais, como camponeses e operários, na TV, e ter defendido a ditadura militar, pedindo para o povo orar em favor de generais (e, por conseguinte, torturadores) que "construiriam o reino de amor do futuro".

A "bondade" de Chico Xavier é tão fictícia quanto uma novela da Globo, pois vemos que sua "caridade" quase nada ajudou. Era muita ostentação para atos frouxos de mero Assistencialismo, parecidos com os que Luciano Huck faz ultimamente, que trazem muito pouca ajuda, não transformam a sociedade e só servem para a promoção pessoal do "benfeitor", idolatrado em excesso pelo muito pouco que fez.

Foi uma campanha tão bem construída que criou uma falsa unanimidade, o que mostra o quanto os efeitos da fábrica de consenso podem ser produzidos. A Globo determina que gíria deve ser falada ou que ídolo religioso deve simbolizar um paradigma de "bondade" que garanta o sossego dos privilegiados extremos, "resolvendo" a pobreza sem ameaçar as fortunas dos ricos e poderosos, e criando uma figura que se torna alvo de idolatria cega típica das mais mórbidas paixões religiosas.

As pessoas acabam achando tudo natural, assimilando o que a TV determina como se fosse a voz de suas próprias consciências. Isso é muito perigoso e mostra o quanto a mente de um executivo da Rede Globo pode, depois, se converter numa suposta vontade popular a ponto de ser endossada até mesmo por aqueles que aparentemente odeiam a emissora. Se a Rede Globo consegue exercer sua influência até nos seus detratores, isso significa um perigoso privilégio de poder. Um poder descomunal.

domingo, 21 de maio de 2017

Chris Cornell e o suicídio "por acidente"

A BANDA DE ROCK DE SEATTLE, EUA, SOUNDGARDEN - Chris Cornell é o terceiro da esquerda para a direita, sem jaqueta.

Há poucos dias, faleceu o cantor e guitarrista Chris Cornell. Tendo feito sua carreira com eventuais trabalhos solo e à frente de bandas como Soundgarden, Audioslave e Temple of the Dog, o músico era um dos nomes do grunge que marcou a cidade de Seattle, no noroeste dos EUA, na década de 1990.

O grunge foi um movimento marcado pela tragédia, desde quando ainda não fazia sucesso. Em 1990, bem antes do sucesso do Nirvana, o vocalista de outra banda, Andrew Wood, do Mother Love Bone, foi encontrado morto. Meses depois, os remanescentes do grupo formaram o Pearl Jam com outro vocalista, Eddie Vedder, que, pelo jeito, deve ser um dos principais sobreviventes do gênero.

Em 1994, foi a vez de Kurt Cobain, o controverso líder da banda Nirvana, que maior sucesso teve no grunge. Em 2002, o vocalista do Alice In Chains, Layne Staley, faleceu. Até o "forasteiro" do gênero, o grupo Stone Temple Pilots (que não veio de Seattle, mas de San Diego, Califórnia), teve sua tragédia: o vocalista original e fundador da banda, Scott Weiland, faleceu por overdose aos 48 anos, em 2015.

A maioria dessas mortes se deu por overdose, mas Chris Cornell seguia tratamento contra as drogas. Ele tinha que tomar um remédio para ansiedade, Ativan, cujos efeitos colaterais seriam uma angústia e um estresse extremos, que provocam desejos suicidas.

Segundo sua viúva, Vicky Cornell, o marido parecia bem. Além de seguir naturalmente sua carreira musical, ele parecia um marido e um pai exemplar. Fora esses efeitos causados pelo remédio, que além do mal-estar o faziam ficar com a mania de balbuciar palavras, ele levava uma vida normal e se relacionava bem com os familiares e amigos. Musicalmente, parecia mais experiente e consolidado como músico e compositor.

Chris Cornell morreu por enforcamento, aos 52 anos. O falecimento comoveu o cenário roqueiro e até o veterano Jimmy Page, famoso pela banda Led Zeppelin, elogiou o músico. A perda do líder do Soundgarden chegou a ser considerada como o fim de um cenário que já havia sido mutilado por tantas tragédias, e que parece ter nas bandas Pearl Jam e Mudhoney seus últimos remanescentes.

O "espiritismo" brasileiro costuma ter uma má vontade com suicidas. A doutrina igrejeira brasileira considera o suicídio um "crime hediondo", enquanto considera o homicídio um "crime culposo", expressando um moralismo estranho, que culpabiliza a vítima e transforma o algoz num "agente involuntário" de uma suposta justiça moral.

NINGUÉM SE SUICIDA POR DIVERSÃO

Cada vez mais voltado à Teologia do Sofrimento, já que o "espiritismo" brasileiro regrediu a ponto de, hoje, estar reduzido a uma versão repaginada do velho Catolicismo jesuíta do Brasil-colônia (é constrangedor ver o legado de Kardec reduzido, no Brasil, a um "outro Catolicismo", apenas sem as formalidades da Igreja Católica propriamente dita), o "espiritismo" não consegue compreender que ninguém se suicida por diversão.

Mesmo o entretenimento macabro do Jogo da Baleia Azul reflete neuroses ocultas por trás. O idealizador do jogo declarou que queria fazer uma "limpeza social" na humanidade, ao incluir o suicídio como "etapa final". Mas quem se suicida é porque têm em sua mente dificuldades e angústias que consideram incapazes de superar.

Os "espíritas" é que, em seu moralismo, acabam incentivando o suicídio. Confundem desgraça com desafio, sofrimento com aprendizado, e ainda ficam felizes quando pessoas acumulam desgraças aqui e ali, dizendo, com um mal-disfarçado sadismo, para as pessoas fazerem mais preces para superar as suas dificuldades extremas.

O moralismo "espírita" fala até em "amar o sofrimento" e apelam à pessoa a "combater sua pior inimiga, que é ela mesma". Diante desse apelo, os "espíritas" deveriam tomar muito cuidado com as palavras, porque esse papo de "vencer a si mesmo" é, na prática, um apelo acidental ao suicídio. E como o angustiado extremo não vê diferença entre sofrer na vida ou no além-túmulo, ela vai se destruir mais ainda ao ouvir que ela é "inimiga de si mesma".

O "espiritismo" não consegue ver as razões do suicídio. Reprova o suicídio até com raivosa energia, mas não consegue ver as condições que levam a pessoa a se matar. Nem todos têm os mesmos interesses e vontades, e as pessoas não só são empurradas para enfrentar barreiras de difícil superação, mas também oportunidades erradas, pressões de conveniências e um quadro de injustiças e desigualdades que só permitem que as pessoas compactuem para "vencerem na vida".

O Brasil é um país desestruturado, marcado pelo profundo atraso social, com forças diversas querendo que haja retrocessos que "devolvam" a sociedade brasileira a cenários lamentáveis em que apenas uns poucos detém vantagens exorbitantes, enquanto outros estabelecem a negociação do cheiro de mofo com o ar puro, com vantagem maior ao primeiro.

É essa volta forçada a 1974, época de uma "democracia" castrada, que hoje causa a crise política em níveis extremos, uma crise que não é muito diferente ao "espiritismo" de postura "dúbia" que se tornou incapaz de disfarçar sua intenção em ser tão somente um "outro Catolicismo", mais informal porém muito mais conservador.

E é esse conservadorismo que faz com que os "espíritas" condenem o suicídio, mas de maneira contraditória apelam para as pessoas aguentarem as muitas desgraças acumuladas na vida e enfrentem obstáculos difíceis de serem superados. E é gozado que, para uma religião que defende a servidão e a submissão, seus membros ainda pedem para os sofredores fazerem mais preces. Com tanto trabalho que os infortunados têm na vida, que tempo eles terão para se recolherem para orar?

sábado, 20 de maio de 2017

Apoiado por "espíritas", governo Michel Temer sofre grave crise


2016. Com a saída de Dilma Rousseff e a ascensão do vice Michel Temer ao poder - implantando um projeto político oposto ao da titular afastada do poder - , os "espíritas" vieram com um novo discurso: pediram para os sofredores "amarem o sofrimento", "abrirem mão de suas próprias necessidades e talentos" e "perdoarem os abusos dos algozes".

De repente o "espiritismo" saiu do armário e vestiu a camisa da Teologia do Sofrimento (corrente medieval da Igreja Católica), que apenas era mais explícita na obra pessoal de Francisco Cândido Xavier (mesmo aquelas que supostamente levam os nomes de personalidades mortas, famosas ou não).

Eram apelos por vezes taxativos, que pediam para o sofredor deixar de reclamar da vida e conhecer as "belas lições" das desgraças acumuladas. Uns até diziam para as pessoas "olharem os passarinhos", ver o "rio tomando seu curso" etc. A frequência com que os "espíritas" faziam tais apelos chamava a atenção e sugeria uma imagem subliminar.

Embora os "espíritas", aparentemente, não tenham dado ênfase ao apelo de "orar pelo novo governante para que ele governe pensando no próximo e baseado nos princípios cristãos", o "espiritismo", no fundo uma religião ultraconservadora, deixou subentendido seu apoio ao governo do presidente Michel Temer, hoje em crise por causa de denúncias dadas por empresários do grupo JBS, que controla vários setores, como alimentos (em especial carnes), higiene pessoal e calçados.

Algumas posturas sinalizam isso. Periódicos como "Correio Espírita" e "médiuns independentes" (sem vínculo com a FEB) como Robson Pinheiro associaram as passeatas do "Fora Dilma" a supostos processos de "regeneração" e "despertar da humanidade", mesmo quando tais manifestações exibissem cartazes nazistas, apelos pela "intervenção militar" (eufemismo para golpe militar) e seus grotescos líderes juvenis estimulassem seus seguidores até a baixarem as calças em plena rua.

A situação fez o "espiritismo" cair a ficha e revelou o lado sombrio da "fase dúbia", a contraditória etapa do "movimento espírita", vigente desde a saída de Antônio Wantuil de Freitas da FEB em 1971 e sua morte em 1974, na qual os "espíritas" igrejeiros fingiram abandonar o roustanguismo para prometer uma nunca praticada "recuperação das bases kardecianas originais".

A "fase dúbia", que se autoproclamava "kardecista" (termo que se tornou pejorativo entre os espíritas autênticos, que preferem a denominação "kardeciana") e prometia "kardequizar" (termo que subentende um igrejismo dissimulado, sugerindo uma corruptela do termo "catequizar"), reduziu a apreciação das ideias originais de Allan Kardec à palavra morta (ou desencarnada?) da teoria, mas a prática não só continuava sendo igrejeira e catolicizada como ela se acentuou mais neste sentido.

A catolicização se acentuou sobretudo nas atividades "espíritas" de entretenimento, como a veiculação de romances, novelas e canções "espíritas" que mais parecem versões informais do Catolicismo, aliadas de uma ótica "espiritualista" que lembra mais os contos de fadas, com dramalhões moralistas dignos dos mais piegas folhetins televisivos.

O "espiritismo" acabou entrando no "espírito do tempo" (olha o trocadilho), no qual empresários, celebridades e até esportistas passaram a deixar claros seus preconceitos sociais e suas intenções de reverter as conquistas sociais do povo, defendendo retrocessos sociais profundos que façam mais as pessoas sofrerem do que serem beneficiadas de maneira profunda e definitiva.

Se, por exemplo, o publicitário Nizan Guanaes passou a defender as medidas impopulares de Michel Temer e o empresário da "moderna" loja Riachuelo (que agora usa a insólita logomarca RCHLO), Flávio Rocha, defendendo a precarização do emprego, vemos Divaldo Franco sorridente acusando, no seu juízo de valor, os refugiados do Oriente Médio de terem sido "tiranos colonizadores" em encarnação anterior.

O "espiritismo" mostrou a que veio, como se fosse uma versão "modesta" da Cientologia, e provou ser na verdade um subproduto de uma sociedade ao mesmo tempo ultraconservadora e dissimulada, metida a moderna, como se pudesse subordinar o futuro ao passado mais retrógrado. Tornou-se a religião do neo-conservadorismo, até mais do que as seitas neopentecostais, que podem ser "neo" pentecostais, mas seu conservadorismo, pelo menos, é assumidamente "velho".

Já o "espiritismo" é o "velho" travestido de "novo". A gente até pergunta se o governo Temer é um governo "espírita". Todos os ingredientes estão lá: um moralismo castrador, a precarização da vida na perspectiva de "melhorias futuras", a renúncia aos próprios projetos de vida, a restrição da qualidade de vida, etc. Temer chegou a citar a frase "Não fale de crise, trabalhe!", lembrando Emmanuel: "Não reclame! Trabalhe e ore!".

O "espiritismo" brasileiro chegou ao ponto de, com seu moralismo e igrejismo extremos, regredir aos moldes do Catolicismo jesuíta do Brasil-colônia. Na prática, rebaixou-se a uma versão repaginada do Catolicismo medieval, porque se comporta mais como um "outro Catolicismo", sem as formalidades da Igreja Católica, mas também com velhos valores católicos que os católicos propriamente ditos abandonaram. O "espiritismo" vive do lixo descartado pela Igreja Católica.

E, diante da crise aguda do governo Temer, o próprio "espiritismo" vive também uma grave crise. Com uma série grande de contradições que não se resolvem, os "espíritas" tentam apelar, além dos aparatos de Ad Passiones (imagens e textos que apelam para a emoção) e Assistencialismo (caridade que pouco ajuda e só promove o "benfeitor" da ocasião), para uma "solução" que na verdade foi a fonte do próprio problema, a "promessa de estudar melhor a obra de Kardec".

Essa promessa já foi feita na "fase dúbia", diante da crise do roustanguismo, do fim da Era Wantuil e das crises no "movimento espírita" que reduziram o poderio da FEB e fizeram roustanguistas históricos "virarem kardecistas" para agradar personalidades como Herculano Pires e Deolindo Amorim, espíritas autênticos que denunciaram a deturpação.

Pois essa promessa é que deu com os burros n'água. Os deturpadores prometeram "estudar melhor Kardec" e continuaram praticando seu igrejismo, enquanto fingiam compreender a teoria kardeciana. Agora que suas contradições vêm à tona, fazem a mesma promessa, como cães que correm atrás do próprio rabo. Só que será a mesma coisa de hoje, e as contradições nunca se resolverão. Daí a crise aguda do "espiritismo" brasileiro, no Brasil do governo "espírita" de Michel Temer.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Nos acostumamos mal com o "espiritismo" deturpado


O Brasil vive uma situação vergonhosa. Se acostuma fácil com absurdos e realidades surreais, convivendo com eles durante décadas, a ponto de reagir, não só com estranheza, mas com certa indignação, quando se revela a verdadeira natureza de tais absurdos.

Há pelo menos 73 anos, convivemos com um "espiritismo" que fingimos estar de acordo com as ideias de Allan Kardec. De fato, o "espiritismo" brasileiro era deturpado até uma década antes da fundação da Federação "Espírita" Brasileira, mas ele se consagrou quando a Justiça se recusou a punir a farsa "psicográfica" de Francisco Cândido Xavier e seu "Humberto de Campos" que falava mais como um melancólico padre católico do que o altivo intelectual que era o autor maranhense.

Coisas absurdas, quando se consagram, ganham um aspecto de falsa estabilidade. É como num cálculo complexo de Matemática, que envolve várias operações, das quais a primeira é feita de maneira errada, enquanto as outras aplicadas corretamente. O resultado será sempre errado, mas o aparato dos bons cálculos depois do primeiro malfeito dá a falsa impressão de ser um cálculo corretíssimo do começo ao fim.

As pessoas não percebem o fedor de certos ambientes, as armadilhas sob a relva, o excesso de "açúcar" em palavras e narrativas aparentemente belas, e permanecem nas zonas de conforto de tal forma que acreditam até em maneiras erradas de sair da zona de conforto.

Vivemos num país cheio de erros gravíssimos e achamos natural. Muitos tentam até manter essa situação, porque lhes parece agradável, misturando pompa excessiva, pieguice e falsa modéstia aqui e ali. Como numa operação matemática começada errada, as pessoas tentam criar uma falsa estabilidade num contexto social brasileiro que deixa o resto do mundo de cabelos em pé.

Ser medíocre, sórdido e dissimulado, no Brasil, é erroneamente considerado como originalidade, e isso nunca fez o país sair da situação viciada em que se atola, se apegando a paradigmas de atraso diante de várias desculpas, como a falsa promessa do atraso "se modernizar" e do sórdido se "limpar", além de sempre apelarmos para o "velho" para conduzir o "novo" no nosso país.

Para conduzir a Doutrina Espírita, por exemplo, apelamos para um caipira ultraconservador, com uma mentalidade ainda apegada ao Segundo Império e que era um católico ortodoxo, de inclinação medieval. E o pior é que as pessoas se apegam a ele por uma idolatria cega e excessivamente piegas, que também é uma demonstração de um sentimentalismo velho, que cheira a mofo tóxico misturado com poeira forte acumulada há muitos e muitos anos.

Sim, estamos falando exatamente de Francisco Cândido Xavier, do Chico Xavier que ainda é alvo de extrema idolatria de seus fanáticos seguidores ou de simpatizantes que, agindo por boa-fé, se deixam levar pelo estereótipo do "velhinho frágil" de "sorriso choroso" que representa velhos paradigmas de devoção religiosa e virtudes morais ideologicamente conservadoras.

O Brasil é extramente conservador e frequentemente nos chocamos quando vemos pessoas que pareciam modernas se revelarem tão obscurantistas. Não se trata apenas de um rebelde Lobão, roqueiro que se revelou ultrarreacionário, nem de jovens com aparência de surfistas que nas redes sociais defendem a intervenção militar e se declaram fãs de Jair Bolsonaro.

Mesmo pessoas tidas como progressistas, como artistas performáticos, ativistas feministas, pessoas de comportamento provocativo etc, se revelam conservadoras. O Brasil acumulou tanto seu conservadorismo que aqui o feminismo precisa negociar duplamente com o machismo para ter vez na sociedade brasileira.

Nesta negociação, ou a mulher trabalha seu feminismo sob a "proteção" de um marido poderoso - seja ele empresário, político, executivo ou profissional liberal - , ou ela se submete ao machismo recreativo fazendo o papel de "objeto sexual".

Nos últimos tempos, diante da crise da hipersexualização brasileira, a cantora de "funk" Valesca Popozuda tornou-se remanescente entre aquelas que ainda se projetam não só com a imagem de "objetos sexuais" mas como arremedos sutilmente depreciativos da imagem da "feminista solteira", que no Primeiro Mundo nada tem a ver com "funk" nem com hipersexualização.

O que se vê é que o Brasil acumulou mofo em seus valores sociais. Mesmo quando havia os governos progressistas de Lula, o ultraconservadorismo social era latente, em muitos casos escancarado (como na campanha de veículos midiáticos como Rede Globo e Veja), em outros dissimulado (quando pessoas reacionárias em valores culturais fingiam um falso progressismo político visando obter vantagens e promoção pessoal).

Até a chamada "cultura popular" foi alvo de uma campanha que visava mais manter os padrões simbólicos da pobreza social - como o alcoolismo, a prostituição e o comércio de produtos velhos, piratas ou clandestinos - do que desejar melhorias ao povo pobre, que só poderia ser "assistido" pelo paternalismo da intelectualidade complacente, uma espécie de Assistencialismo cultural.

E aqui entra um grave problema que se torna a desculpa usada para defender os deturpadores do Espiritismo e garantir a reputação deles. É o Assistencialismo que, em muitos casos, é feito sob o rótulo de "Assistência Social".

Sabe-se que Assistência Social é uma filantropia que transforma profundamente, não raro ameaçando os privilégios dos ricos, enquanto o Assistencialismo é apenas uma filantropia pontual e parcial, que beneficia muito pouco e expõe mais o benfeitor, que se promove demais com tão pouca ajuda.

Não bastasse o "médium espírita" ser uma monstruosa aberração no Brasil, devido ao "culto à personalidade" que os ditos "médiuns" recebem por virarem dublês de pensadores a espalhar a deturpação espírita, eles, com seu arremedo de filantropia, representação típica do Assistencialismo que hoje é questionado através do exemplo midiático de Luciano Huck.

Poucos percebem o quanto é vergonhoso haver, no caso das caravanas "filantrópicas" de Chico Xavier, tanto espetáculo, tanta ostentação e tanta euforia, além de tanto aparato de fileiras de carros desfilando pelas cidades, só para uma mera doação de mantimentos e roupas velhas. Os mantimentos, entregues a famílias numerosas ou a muitos indivíduos pobres, se esgotam em duas semanas, mas o "carnaval" feito pelo Assistencialismo dura, no mínimo, um ano.

Poucos também percebem o quanto o suposto "maior filantropo do Brasil", Divaldo Franco, é tão festejado por sua Mansão do Caminho que não ajuda 1% da população brasileira, enquanto o suposto médium faz pomposas turnês pelas maiores cidades da Europa e dos EUA, fazendo palestras para ricos, recebendo medalhas e títulos e só trazendo migalhas para os assistidos, enquanto o bairro de Pau da Lima é entregue à criminalidade ocorrida até à luz do dia.

É até risível que os brasileiros endeusem demais quem ajuda pouco, achando que basta ter um rótulo religioso para ser considerado "filantrópico" (uma noção tipicamente medieval, submeter a bondade a um subproduto da religião). Isso quando os mesmos brasileiros são convidados a desmoralizar com muito ódio o ex-presidente Lula, que buscava resolver as mais aprofundadas desigualdades sociais com seu projeto político progressista de valorização do emprego e qualidade de vida.

Constatações assim chocam as pessoas, que, diante de um Brasil emporcalhado com valores retrógrados e injustiças sociais aprofundadas, se acostumam com essa realidade cruel e absurda, em muitos e muitos aspectos. Quando pensam em sair da "zona de conforto", jogam fora o que mais precisam, enquanto se apegam ao supérfluo, ao fútil e até ao nocivo.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Quando o sofredor torna-se escravo das ilusões dos outros


Em muitos casos, o problema, no sofrimento humano, não é a desilusão nem a desgraça em si. Se ocorrerem na dose moderada, como um remédio tarja preta para uma doença grave, a pessoa pode até aprender certos impasses e armadilhas e conhecer seus próprios limites.

O grande problema é que, além das desilusões e desgraças serem excessivas e, em muitos casos, há mais prejuízos do que desafios - como a pessoa que, querendo promover um debate na Internet, é vítima de cyberbullying e ganha até blogue de difamação de um desafeto mais afoito - , os sofredores ainda têm que ser escravos das ilusões dos outros.

Isso cria um enorme quadro de injustiças. Afinal, existem pessoas que sofrem demais, acumulando sobressaltos, traumas, decepções pesadas e estresses que mais as desanimam do que revigoram, e outras que naufragam no mar da ilusão sem fim.

E como a realidade não é tão simples como se imagina, vemos o quanto pessoas que se dizem ter jogo de cintura e capacidade de darem a volta por cima são impotentes. Há até casos, nas famílias, muito comuns, de pais quererem que seus filhos fossem não somente obedientes e servis a eles, mas também representassem as ilusões juvenis que os pais já não têm mais condições de viver.

Sim, os filhos se transformam em instrumentos dos desejos frustrados dos pais, vivendo a "juventude" que os pais não viveram! E isso é apenas um aspecto, num contexto em que o mercado de trabalho acolhe mais humoristas do que pessoas capazes de algum ofício, com patrões se gabando porque torcem por um time de futebol enquanto seus melhores empregados torcem por outro.

Como a Teologia do Sofrimento representa muita ilusão para seus detentores. Quantos pregadores da apologia ao sofrimento alheio, adeptos da frase "quanto pior, melhor", que pouco se importam em ver os desafortunados não apenas aguentarem suas limitações, sua perda de controle sobre o próprio destino, mas também se sujeitarem à se servirem das ilusões dos outros.

É o rapaz que quer namorar uma mulher de caráter, mas atrai para si uma mulher fútil e sexualmente impulsiva. Ou a mulher que quer namorar um homem de caráter, mas atrai para si um homem fútil que só pensa em dinheiro. Mas isso é apenas o que há de manjado na subordinação à ilusão alheia.

Quantas ilusões as pessoas dotadas de maior status quo, que se acham resolvidas na vida, contraem para si. E o fato do sofredor "ter jogo de cintura" para "vencer na vida", não só aguentando desgraças, perdendo o controle de seu próprio destino, mas também se sujeitando a servir à ilusão alheia, nem de longe traz alguma evolução ou proveito, antes criando apenas um tipo de "escravo social".

ESCRAVIDÃO SOCIAL

Certa vez, no programa Encontro com Fátima Bernardes, o surfista Adriano de Souza, o Mineirinho, havia descrito uma ideia bem típica das que compõem a Teologia do Sofrimento: "se você encarar as dificuldades, você vence fácil".

Descontando a asneira da frase - é claro que, se alguém encara uma dificuldade, nunca irá vencer fácil, porque, mesmo que a vitória seja garantida, ela é sempre difícil - , o que se observa é que o fato de "vencer na vida" oculta situações de conveniências, jogos de interesses, abandono até de vocações, que mais mutilam o aprendizado humano do que realmente o aprimoram.

Que "vitória na vida" não pode esconder jogos de interesses, que reduzem o sofredor a uma "mentira humana", pegando a primeira oportunidade que obtém, nem sempre a mais proveitosa, nem sempre a mais vantajosa? Que acordos podem ser feitos diante da desgraça alheia, "amputando" talentos, "decapitando" vocações, para a pessoa apenas obter dinheiro e algum prestígio social?

Muitos brasileiros ainda se apegam às ilusões do sofrimento extremo do outro ou da caridade paliativa. No caso da "caridade", muitos se esquecem do quanto de propaganda há, que promove demais o "benfeitor" diante do pouquíssimo benefício que traz. Ou o quanto de lavagem de dinheiro, de desvios de verbas públicas, de superfaturamentos que estão por trás de ações "filantrópicas".

E com que dinheiro Divaldo Franco usou para viajar tanto para o exterior espalhar a deturpação do Espiritismo? Ou será que ele viaja carregado pela luz que parte de sua mente serena e seu balé de palavras dóceis?

E o sofrimento humano? Ele apenas cria gênios e figuras humanistas? Não. Em muitos casos, o sofrimento além da conta cria suicidas, tiranos, assassinos, corruptos, ladrões, porque a falta de controle do próprio destino esmaga muitas almas, semeando não o amor e a perseverança, mas o ódio, a depressão, o medo, a vingança, a malícia e a cupidez.

E a escravidão social, que faz da pessoa que tanto necessita de uma evolução moral e humana, se reduzir a uma mentira de si mesmo, servindo às ilusões de outrem, não garante o progresso espiritual, antes sendo apenas uma forma de sobrevivência "dentro do possível" que desperdiça um prazo estimado em 80 anos com uma vida "qualquer nota". Tantos sorrisos fingidos por nada, apenas para agradar aos outros, auxiliar arrivistas e agradar privilegiados.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Mensagens duvidosas praticamente "paralisam" trabalho mediúnico no Brasil


Mediunidade, no Brasil, está desmoralizada. Não bastasse o culto à personalidade que cercam os ditos "médiuns" brasileiros, transformados em celebridades e convertidos em dublês de pensadores e ativistas, o trabalho dito mediúnico sempre apresentou irregularidades sérias.

A ação é comparável a um trote telefônico, no qual o telefonista se passa pelo parente da vítima e inventa um falsete no qual a "leitura fria", muitas vezes, é feita. Como no seguinte exemplo de um hipotético diálogo:

- Alô! Ah, pela voz você é o Eusébio, meu primo? Oi, Eusébio! Sou Laura, aqui do Rio de Janeiro! Que bom receber sua ligação aí de Campina Grande. Dois anos de saudades! Como estão as coisas aí na Paraíba? - diz a vítima.

- Ah, Laura, minha querida! - diz o estelionatário - Sou eu, o Zezé!

- Esse Zezé! Aqui estamos fazendo uma feijoada e me lembro muito de quando você passava o domingo para comer um prato desses!

- Ah, sim! - diz o sequestrador. - Me lembro muito, a gente papeava horas e horas.

Passada a conversa, o "primo" dá o seu golpe.

- Ah, Laurinha, me faz um favor? Estou passando por dificuldades, muitas dívidas, e por isso preciso de seu dinheiro. Uma ajudinha de nada, uns 35 mil reais. Me desculpe, é que estou tão enrolado que você deve se chatear, mas você não vai negar um favor a seu primo, né? Você retira o dinheiro da sua poupança e ajuda o seu priminho em dificuldades, viu? Fico muito agradecido com o seu carinho!

Certamente isso é desagradável e perigoso. É uma ameaça que faz o coração bater. Mas, infelizmente, no "espiritismo" brasileiro não é diferente e a falta de estudo da Ciência Espírita e o hábito comum entre os brasileiros de não ter concentração para certas tarefas, influi nessas fraudes, que não são apenas de gente "de baixo status", mas muitos "médiuns" tidos como "gabaritados" são os que mais o fazem.

Sobre Francisco Cândido Xavier, tido como "o mais conceituado de todos", há denúncias sérias e muito graves de irregularidades mediúnicas. Supostas cartas de pessoas mortas que apresentam problemas na caligrafia ou em dados pessoais, não raro havendo apenas a caligrafia do "médium", até mesmo na assinatura, e com mensagens padronizadas, como iniciar dizendo "querida mamãe" e terminar pedindo "a união das pessoas na fraternidade em Cristo".

Botar essa irregularidade por baixo do tapete por causa da suposta figura filantrópica de Chico Xavier - uma imagem "admirável" construída pelo poder midiático da Rede Globo para neutralizar a ascensão de pastores midiáticos como Edir Macedo - é uma leviandade e uma omissão, porque as irregularidades mediúnicas são um problema muito mais grave do que se pode parecer.

Quem prestar atenção nas sessões "mediúnicas" de Chico Xavier e similares, se verá uma energia traiçoeira que parece "tranquila" e "agradável", mas é confusa e maléfica. A "paz" equivale à suposta "luminosidade" das antigas missas católicas da Idade Média, que primavam pela aparente beleza e benevolência, que mascaravam a ganância e, em muitos casos, a tirania de muitos sacerdotes.

Se a pessoa se despir das paixões religiosas, verá que essas sessões "mediúnicas" se revelam espetáculos de orgias tão mórbidos quanto os do sexo, das drogas e do dinheiro. E, seguindo um padrão de deturpação da Doutrina Espírita para um igrejismo irresponsável, tais sessões se nivelam aos mais baixos entretenimentos das tábuas Ouija, um recreio irresponsável que atrai espíritos zombeteiros diante de pretensas consultas oraculares.

É chocante ver mães saltitando, infantilizadas, quando ouvem mensagens supostamente atribuídas a filhos mortos, gritando "É meu filho, é meu filho", sem saber que ela é enganada por toda essa atmosfera de love bombing, o "bombardeio de amor" cuja força traiçoeira corresponde a uma "pornografia sem sexo".

Essas sessões já pecam pelo fato de estimular a obsessão por pessoas mortas, revelando a falta de zelo de muitas famílias com seus entes, para depois os perderem por uma tragédia vinda do nada. Pecam também pela energia maléfica de Chico Xavier (cujas fotos antigas, antes de usar óculos escuros, revelam um olhar traiçoeiro e agressivo), que tratava as mortes prematuras com um certo exotismo.

Junta-se a isso a exploração sensacionalista da grande mídia a esses "médiuns" que recebem culto à personalidade, a diversão às custas das mortes dos entes queridos - cujos espíritos, em verdade, se sentem incomodados com tais ambientes que lhes lembram um velório às avessas e deles se afastam - e o igrejismo medieval do "espiritismo" brasileiro, que tudo isso acaba se equivalendo àqueles trotes telefônicos de sequestradores e estelionatários.

Diante de tantas denúncias a respeito, essas atividades acabaram ficando mais raras no "movimento espírita", incapaz de tentar explicar as inúmeras e infinitas irregularidades, não raro "eternizadas" em livros, explorando levianamente e de forma sensacionalista a tragédia alheia, reduzindo dramas humanos a uma diversão para a "masturbação com os olhos" das comoções fáceis pelas estorietas narradas por eventos e obras "espíritas".

terça-feira, 16 de maio de 2017

Por que as pessoas não veem sentido no perigo do "apelo à emoção"?


Por que falar em "bombardeio de amor", "Ad Passiones", "apelo à emoção" e de seus perigos maléficos torna-se inútil para boa parte dos brasileiros, que nunca veriam mal algum em mensagens dóceis ilustradas por imagens de coraçõezinhos vermelhos?

A falta de percepção das armadilhas humanas, que faz com que os brasileiros aceitem sem críticas fenômenos que são considerados maléficos no exterior - como a overdose de informação e a glamourização da pobreza - , revela o grande atraso perceptivo em que o Brasil se encontra.

O Brasil é geralmente um país que costuma ser o "último a saber" das coisas. Tem como sua mania maior deturpar o novo inserindo nele conceitos e práticas velhas. Isso é ilustrativo no Espiritismo, já que aqui o legado de Kardec foi tão deturpado que ficou desfigurado, reduzido a uma repaginação do velho Catolicismo jesuíta e medieval, vigente no Brasil colonial, e que não encontrou espaço na própria Igreja Católica que tenta se adaptar aos novos tempos.

O "apelo à emoção", com toda a certeza, tem seu perigo oficialmente reconhecido pelo reacionarismo rancoroso da Internet, que explodiu desde os tempos da comunidade "Eu Odeio Acordar Cedo" do Orkut, na qual se escondiam "núcleos" que depois vieram a compor grupos como Movimento Brasil Livre e Revoltados On Line, idolatram Jair Bolsonaro e pedem "intervenção militar" para nosso país.

Mas há outro aspecto perigoso, um perigo silencioso que os brasileiros não percebem e que, quando informados dessa ameaça, ainda se revoltam por não haver sentido pensar em "coraçõezinhos envenenados". A "mancenilheira" ideológica do Ad Passiones também pode oferecer riscos. O "excesso de amor" pode até matar, provocar ódio, dividir as pessoas mesmo no mais persistente discurso de "fraternidade".

Afinal, "fraternidade" em que sentido? Há um caminho para "sermos fraternos". Vamos nos unir em torno dos deturpadores da Doutrina Espírita? A resposta, se depender do "movimento espírita", é sim, e tantos apelos para a "união entre irmãos" escondem processos de manipulação, porque a religião sempre fala em união, mas nunca fala em convivência pacífica da diversidade.

Da mesma forma, prega-se a "união" em torno da causa mais retrógrada ou leviana. Prega-se a "união" de pessoas sem afinidade, que em tese sugerem um acordo, mas na prática acentuam-se os conflitos. Prega-se a "fraternidade" em torno de um mistificador, o "perdão" que consente seus erros abusivos, a idolatria que transforma arrivistas em "santos".

Muitas pessoas estão acostumadas com suas ilusões consideradas estáveis por décadas e décadas, mas que hoje começam a ruir. São as ilusões das orgias, das finanças, das drogas, da corrupção? Não. As piores ilusões são aquelas que repousam no moralismo social e familiar, na racionalidade profissional, no prestígio religioso travestido de "humildade plena", setores tão "límpidos" como uma cozinha branca e brilhante sobre a qual permanecem as piores sujeiras.

É como num copo de água cristalino que esconde vermes nocivos ou, às vezes, um veneno mortal. Como se observa no programa A Prova de Tudo (Men Vs. Wild), do inglês Bear Grylls, há águas barrentas que parecem sujas mas que são mais limpas e saudáveis do que muita água cristalina que pode causar uma grave intoxicação no organismo.

O "excesso de amor" também cria explosões de ódio. Fala-se muito que os questionadores do mito de Francisco Cândido Xavier são pessoas "contrárias ao amor", "intolerantes", "raivosas" e "invejosas", porque a imagem do anti-médium mineiro é sempre associada aos "bons sentimentos".

Grande engano. É justamente entre os adeptos de Chico Xavier que se encontram as pessoas mais rancorosas, vulcões de ódio e violência que apenas se adormecem parecendo montanhas de amor e simpatia. A menor contestação, por mais construtiva que seja, lhes incomoda e não raro os questionadores da deturpação espírita relatam casos de ameaças violentas que receberam dos seguidores do "bondoso médium".

O falecido questionador da deturpação espírita, Jorge Murta, chegou a receber ameaças violentas por questionar o igrejismo de Chico Xavier. E, na época do sobrinho Amaury Xavier, que ameaçou denunciar as fraudes do "movimento espírita", um palestrante "espírita" de Minas Gerais escreveu, em 1958, um artigo rancoroso contra o rapaz, que acusava o trabalho do tio uma farsa.

A emotividade cega é um problema nunca diagnosticado num Brasil que precisa enxergar melhor as armadilhas do caminho. É um país em que a overdose de informação emburrece as pessoas mas muitos acham que esse excesso informativo é "necessário para esclarecer a sociedade", como se um bombardeio de notícias e opiniões, em si, pudesse ensinar as pessoas a conhecer o mundo, ilusão que, no exterior, já foi devidamente analisada em seus efeitos negativos.

Mal nos livramos, coisa de um mês atrás, do falso feminismo das "mulheres siliconadas", que queriam se "empoderar" com seu sensualismo obsessivo, escondendo o fato de que exploravam a imagem hipersexualizada da mulher-objeto. Foi difícil convencer a sociedade de que as mulheres "turbinadas" estavam a serviço de valores machistas e não feministas. Era complicado explicar um machismo praticado por um grupo de mulheres que se dizia "sem maridos nem namorados".

O atraso perceptivo do brasileiro, que diante de tantas perdas ilustres de figuras humanas ímpares, há um medo sem motivo de ver morrerem uma mera parcela de homens que tiraram a vida de suas próprias mulheres e permaneceram impunes. Ver que eles são os únicos tipos de pessoas que "não podem morrer" é um dado surreal, até porque os feminicidas conjugais são os que mais descuidam da saúde ou, na melhor das hipóteses, sofrem os efeitos das pressões emocionais sobre seus atos.

Não vivamos mais na década de 1970 que a sociedade brasileira tenta, em vão, recuperar. Aquela "paz social" forçada pela Era Geisel, misturada com os "êxitos" da Era Médici, perdeu o sentido e o chamado "topo da pirâmide" vê perecerem um a um tantos de seus paradigmas e ilusões, enquanto resiste ao reconhecimento de armadilhas por trás de aparências tão agradáveis.

Não serão os coraçõezinhos vermelhos que acalmarão esse cenário de conflitos e tensões extremos, principalmente num "topo da pirâmide" em processo de queda e no perecimento de tantos valores supostamente sólidos de 40 anos atrás. Até porque esses coraçõezinhos estão também envenenados, pelo seu caráter manipulador, mistificador, traiçoeiro, tão doentio quando o excesso de açúcar que provoca diabetes e cegueira.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Como o "espiritismo" brasileiro se deixou levar por energias maléficas


Admite-se que foi um trabalho irrefletido, mas o "espiritismo" brasileiro, pelas responsabilidades que prometeu assumir mas não cumpriu o prometido, acabou atraindo para si as energias maléficas, de espíritos inferiores que encontraram mil possibilidades diante do conteúdo deturpado e de práticas irregulares.

A constatação nada tem a ver com inveja, calúnia ou ofensa. Pelo contrário, estamos preocupados com essa situação. O legado de Allan Kardec foi desfigurado e distorcido de tal forma e as influências de J. B. Roustaing foram tão exercidas quanto nunca assumidas que as energias tinham mesmo que ser das piores, por causa da Lei de Atração.

Espíritos inferiores são atraídos pela dissimulação, pela desonestidade doutrinária, pelas traições, simulações, fingimentos, ambições e tantos descaminhos que, isolados, podem representar erros pontuais, mas, somados, permitiram não apenas a abertura de caminho para espíritos atrasados, mas o descontrole de seus atos e suas influências.

A trajetória do "espiritismo" brasileiro envolveu uma série de fingimentos, fraudes, dissimulações. A opção roustanguista cometeu como primeira fraude pretensas psicografias ou psicofonias com um falso Allan Kardec pedindo para as pessoas conhecerem "a revelação da revelação" (como era definido o ideal igrejista de Jean-Baptiste Roustaing). Uma coisa que, com certeza, Kardec nunca iria defender.

A trajetória cheia de confusões do suposto médium Francisco Cândido Xavier, um bizarro católico ortodoxo de supostas práticas paranormais, manipulada por todo um propagandismo do ambicioso presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, também revela todo um serviço de desonestidade doutrinária aliada ao arrivismo, à mística religiosa e, acima de tudo, ao sensacionalismo movido por interesses comerciais.

Em primeiro momento, Chico Xavier virou um pretenso porta-voz dos mortos como um apelo sensacionalista para vender muitos livros, sem qualquer estudo sério e responsável de Ciência Espírita, afinal o "médium" se ascendeu num compromisso de levar adiante e até longe demais a deturpação da Doutrina Espírita.

Em segundo momento, quando Chico quase foi desmascarado pela participação da farsa de Otília Diogo, seu mito teve que ser repensado e recuperado, para garantir os lucros da FEB. Morto Wantuil, é hora do "movimento espírita" iniciar uma nova estratégia, rompendo com os herdeiros do finado e adotando posturas falsamente kardecianas para agradar figuras como Herculano Pires e Deolindo Amorim.

Daí surgiu a "fase dúbia", que só trouxe as piores energias. A desonestidade doutrinária se tornou muito e muito mais grave, que até definir como gravíssima é ainda pouco. A deturpação do Espiritismo se tornou ainda mais deplorável, porque se praticava o mesmo roustanguismo, mas havia uma falsa postura de "respeito rigoroso" aos postulados kardecianos.

Criou-se, então, uma confusão doutrinária, no qual se misturavam eventos igrejeiros com apelo sensacionalista, como as sessões "mediúnicas" de Chico Xavier, a verborragia aduladora das elites nas turnês pomposas de Divaldo Franco, o pedantismo que leva professores e acadêmicos frustrados a virar "palestrantes espíritas", os maus romancistas que se escondem na "psicografia" de romances "espíritas". E por aí vai.

E o conteúdo ideológico? Sob a desculpa da "vida futura", os "espíritas" acabam concebendo sentimentos egoístas e um moralismo severo sem saber. Passam a ter um sentimento inverso de ânsia ou pressentimento de ver pessoas queridas morrerem, enquanto passam a ter apego doentio a pessoas perversas e assassinas que "nunca podem morrer" e, quando morrem, têm seu óbito ocultado, como se estivessem, em vez de morrendo, se "ascendido ao Senhor".

Os mortos precoces passam a ser alvo de exotismo mórbido e quase sensual. O sofrimento humano passa a ser defendido com firmeza, a ponto de apelos como "amar as próprias desgraças" e "vencer a si mesmo" serem dados, revelando um moralismo retrógrado que, no Brasil, recebe o selo tendencioso da "Doutrina Espírita".

A opção roustanguista, na medida em que foi mantida sob a aparente renegação do nome do igrejeiro J. B. Roustaing, revela uma desonestidade e uma deslealdade dupla. Deslealdade formal, porque se pratica o roustanguismo mas trata o nome de Roustaing como se fosse um palavrão. Deslealdade conceitual, que bajula o nome de Allan Kardec e tudo o que ele representou, como se fosse respeitar rigorosamente seu legado, mas esse legado é traído severa e cruelmente o tempo todo.

O mito de Chico Xavier foi refeito com a ajuda de ninguém menos que Roberto Marinho, das Organizações Globo que deixaram de lado a ojeriza ao anti-médium mineiro. Com o duplo objetivo de domesticar a população com um pretenso símbolo de "ativista" que agrade ao poderio civil-militar da ditadura militar (que Xavier apoiou) e não ameace os privilégios das elites, e de frear a ascensão dos pastores eletrônicos de seitas pentecostais, a Globo é responsável direta pela imagem de "filantropo" que Chico carrega, mesmo postumamente, em nossos dias.

O aparato de "palavras de amor" e outras imagens emocionalmente apelativas também não é garantia de boas energias. Pelo contrário, ela serve de fachada para energias ainda piores. Não somos nós que dissemos, mas o espírito de Erasto, discípulo de Paulo de Tarso (o "São Paulo" dos católicos), que advertiu que mensagens de "amor e caridade" podem representar uma armadilha para forçar as pessoas a aceitar ideias levianas e fora de lógica, coerência e bom senso.

Quantas famílias contraem mau agouro, depois de assistirem a um espetáculo de belas palavras e lindas imagens, melodias melífluas, vozes angelicais, se comovendo à toa por coisa nenhuma, ouvindo estórias aparentemente belas de gente que sofreu para vencer na vida, sem saber que estão se divertindo às custas da desgraça alheia, tratando o prejuízo alheio como "caminho para o sucesso"!

O "espiritismo" brasileiro não precisaria ser comandado espiritualmente pelas almas do mais alto grau de evolução, mas o que se viu foi que a doutrina igrejeira brasileira foi tomada por espíritos maléficos, zombeteiros, traiçoeiros, ardilosos e ambiciosos.

Como "religião-porteira", já que influi menos por ser popular e mais pelo aparente carisma e blindagem social, jurídica, acadêmica e midiática que recebe, o "espiritismo" abre caminho para que espíritos trevosos dos mais diversos tipos "arrombem todas as barreiras" e estabeleçam controle no âmbito da Cultura, das Artes, da Moral, da Política, das Leis, do Emprego e de tudo que vier.

Por isso deturpar o Espiritismo foi uma das coisas mais graves que ocorreu com o legado de Kardec. Não basta fingir que aprendeu as lições e depois enfeitar textos e mais textos com palavras doces e imagens bonitas, porque isso só camufla as coisas.

Será preciso a sociedade assumir o problema, em vez de jogar os deturpadores debaixo do tapete. Ver que ações como o Assistencialismo (caridade que pouco ajuda e só promovem o "benfeitor") e o Ad Passiones (apelo emocional que evoca "imagens" e "textos" belos ou emocionalmente "fortes") são duas das armadilhas que os deturpadores, sobretudo os "médiuns" em seu culto à personalidade, usam para se manterem em pé.

Abrir mão das paixões religiosas, se desapegar dos ídolos da fé e admitir que se faça uma devassa em todo o "movimento espírita" tal como se faz, nos EUA, com a Cientologia, são formas que desagradam a muitos, mas são necessárias para entender os gravíssimos erros de uma religião que evoca o nome de Kardec mas que, na verdade, resgata valores e práticas do Catolicismo medieval.

domingo, 14 de maio de 2017

Retórica "emotiva" faz brasileiros serem reféns do "espiritismo" deturpado


Os brasileiros se tornam reféns do "espiritismo" deturpado praticado no país. Os apelos retóricos adotados pelos deturpadores, armadilhas pouco percebidas no Brasil, revelam a grande dificuldade de superar a deturpação roustanguista, porque mesmo o processo de recuperação das bases doutrinárias de Allan Kardec foram praticamente apropriados por seus próprios deturpadores.

A retórica "emotiva", baseada no chamado "bombardeio de amor" - uma overdose de apelos sentimentais que parecem "mensagens positivas e amorosas", mas são sutis e traiçoeiros processos de dominação e manipulação das mentes humanas - , começa a ser questionada no exterior, mas no Brasil ainda é vista como "mimimi" de gente "de mal com a vida".

O Brasil é mais vulnerável às armadilhas que lá são assunto de teses acadêmicas. A overdose de informação, a glamourização da pobreza, a espetacularização da sociedade, tudo isso é largamente questionado, sem risco de colocar modismos em xeque.

Aqui, onde as monografias acadêmicas valem mais pela forma do que pelo conteúdo, com textos mais arrumados na sua roupagem "científica" e sem qualquer tipo de questionamento ou análise, ninguém questiona coisa alguma, aceitando as piores armadilhas como se fossem "coisas maravilhosas".

No "espiritismo" brasileiro, a sua prevalência é motivada por apelos aparentemente positivos, que conseguem dominar uma parcela de céticos, pela forma engenhosa que se trabalha. É uma aparência de positividade e beleza, mas que esconde terríveis e perigosos processos de dominação, havendo perversos jogos de interesse arrivistas por trás.

Esses apelos são o Ad Passiones, numa das modalidades mais perigosas, o "bombardeio de amor" (em inglês, love bombing), e o Assistencialismo, ambos aparentemente positivos, agradáveis e que muitos acreditam ser "genuinamente positivos" e "socialmente saudáveis", mas consistem em armadilhas que servem para forçar o apoio das pessoas a arrivistas de qualquer tipo.

O "bombardeio de amor" é um truque discursivo no qual pessoas ou instituições tentam atrair a vítima com um excessivo apelo de mensagens amorosas, sentimentos afetivos etc. O sujeito não lhe conhece e acolhe você com uma afetividade tão exagerada que você, geralmente com alguma fraqueza emocional, se rende facilmente a esse apelo, sem desconfiar que é um truque para seu dominador buscar alguma vantagem por trás disso.

O Ad Passiones, como um todo, é definido por analistas conceituados como um tipo de falácia. Entende-se como falácia uma transmissão de ideia mentirosa como se fosse uma verdade indiscutível. O Ad Passiones virou moda através do fenômeno da pós-verdade, que influiu na vitória inesperada de Donald Trump e da saída da Grã-Bretanha da União Europeia, o "Brexit".

Mas, no Brasil, a pós-verdade teve no "médium" Francisco Cândido Xavier um de seus maiores pioneiros. Deturpador maior do Espiritismo e um dos mais graves, Chico Xavier era um católico ortodoxo que se tornou instrumento dos interesses comerciais da FEB e que virou um pretenso filantropo através de um discurso apelativo armado pela Rede Globo em parceria com a federação, como forma de competir com os pastores eletrônicos R. R. Soares e Edir Macedo.

Chico Xavier foi, numa só pessoa, a expressão do love bombing e do Assistencialismo, que também é considerado um apelo tendencioso e traiçoeiro, embora ele se apoiasse sempre num paradigma de pretensa bondade que muitos pensam ser autêntica e espontânea.

O que se deve lembrar é que o Assistencialismo é um apelo que consiste numa pretensa caridade que em nada resolve de forma aprofundada e definitiva. É uma "caridade" que não mexe nos privilégios abusivos das elites, que acham essa prática até boa, porque assim eles podem despejar roupas velhas, alimentos vencidos e comprar mantimentos de marcas ruins e baratas demais.

O que chama a atenção no Assistencialismo - cujo maior exemplo, na TV brasileira, é o apresentador Luciano Huck - é que se trata de uma "bondade" que traz resultados medíocres, mesmo quando resultam em relativa emancipação social dos necessitados. Ela expõe mais o "benfeitor", glorificado pelo pouco ou quase nada que faz, e com isso se vê que o Assistencialismo é uma "caridade" que só serve para promover o "benfeitor" do que trazer benefícios, que são inexpressivos.

Esse é um dos maiores problemas que fazem com que a deturpação do Espiritismo nunca se desfaça. A "ressalva" de que os supostos "médiuns", que deturparam tudo da Doutrina Espírita, "no entanto vale pela bondade que trazem", sempre representou a complacência com os deturpadores, a ponto de se acreditar que os deturpadores "poderão aprender melhor" os postulados espíritas originais.

Existe, no Brasil, a mania de acreditar que a raposa, quando bem treinada, tenha condições de zelar pelo galinheiro. Mas, assim como a raposa tem a fome natural de devorar galinhas e galos ao seu acesso, o deturpador do Espiritismo tem seus interesses arrivistas por trás do aparente apelo da "bondade", da "caridade", dos "bons sentimentos" e das "mensagens de amor".

O que os brasileiros, que se revoltam com tais questionamentos, não percebem é que, se questionamos figuras como Chico Xavier e Divaldo Franco, é com base nos alertas do espírito Erasto, difundidos há muitas décadas. São alertas que dificilmente agradariam as pessoas que acham mais cômodo serem dominadas pela emotividade fácil do que desfazer fantasias diante do menor escrúpulo da Razão.

E o Brasil, que sempre criminaliza socialmente o ato de raciocinar, quando ele ultrapassa os limites dogmáticos e mitológicos a serem preservados (para os interesses de determinadas elites, vale dizer), se mantém refém da deturpação espírita, mais preocupada em proteger a reputação dos deturpadores do que em melhorar a humanidade sacrificando fantasias e falsidades sem sentido.

Só mesmo no Brasil para acreditar que o coiote irá cuidar melhor do rebanho ovino, à merce dos mais persuasivos apelos emocionais e aparatos pretensamente filantrópicos. Mas se o Ad Passiones permite transformar até um Jair Bolsonaro em "salvador da pátria", isso significa que os brasileiros terão que abrir mão de ilusões e fantasias que durante décadas permanecem no imaginário dos adultos. É mais difícil um adulto abrir mão da ilusão do que uma criança.

sábado, 13 de maio de 2017

"Espíritas" ainda confiam em mais uma retratação dos contestadores


A crise no "espiritismo" brasileiro atinge níveis críticos e seus membros, para manter a deturpação do legado kardeciano, recorrem a inúmeros apelos. Recentemente, estão apelando para a "música espírita", como forma de usar as melodias piegas e excessivamente dóceis para manipular e atrair os leigos, diante do vazio doutrinário que não pode ser preenchido com as falácias de antes.

Diante da crise que a "fase dúbia" do "movimento espírita", vigente há quatro décadas, não consegue mais evitar, os "espíritas" correm atrás do próprio rabo e acreditam que a solução a ser encontrada é justamente aquela que adotaram na crise do roustanguismo assumido e que gerou justamente a própria "fase dúbia" que apresentou contradições graves em relação ao Espiritismo original.

Ou seja, os "espíritas" sempre apelam para a tão surrada promessa de "entender melhor Kardec". coisa que não convence sequer uma pedra. E os apelos à "fraternidade" que povoam a retórica "emotiva" adotada diante do vazio doutrinário - na boa, os "espíritas" brasileiros são analfabetos na doutrina kardeciana original - só revela o agravamento desta crise.

Setores do "movimento espírita" já começam a apedrejar os questionadores. "Alterados! Obsediados! Invejosos! Inimigos do trabalho do bem (sic)!", são os apelos mais conhecidos. Se achando "possuidores da Verdade" ou "predestinados ao Céu", apenas pelo espetáculo das "belas palavras" que pregam ou compartilham, os "espíritas" tentam evitar que a deturpação fracasse diante de questionamentos tão aprofundados.

Tentativas de combater a deturpação vêm desde os tempos de Angeli Torteroli, há mais de um século atrás. Mas sempre os problemas foram empurrados com a barriga, e a deturpação espírita, baseada no igrejismo de Jean-Baptiste Roustaing, se evoluiu (ou involuiu) para um roustanguismo cada vez mais envergonhado e dissimulado, que hoje finge ser "rigorosamente fiel a Kardec".

Os "espíritas", achando que podem tudo, estão confiantes em mais uma retratação dos contestadores. Tentam resistir em suas contradições, em sua abordagem igrejista, mais próxima do Catolicismo medieval do que do Espiritismo propriamente dito, e fazem todo tipo de apelo. Chegam mesmo até a "comprar matéria" na imprensa de esquerda, para afastar as acusações, verídicas e explícitas, de que o "espiritismo" brasileiro é a "religião da Rede Globo".

A resistência dos "espíritas" e sua falsa misericórdia em "acolher" os contestadores que fizerem alguma retratação e pedirem desculpas para os "bondosos" deturpadores, é ainda uma hipótese plausível e perigosa. A falta de firmeza dos questionadores da deturpação espírita, que elevou ao estrelato extremo os supostos "médiuns" brasileiros, deve ser combatida e os recados de Erasto devem ser ouvidos sem complacência nem más interpretações.

O espírito Erasto havia dito para combater, "sem dó" (ou seja, sem complacências nem ressalvas), a deturpação espírita, mesmo quando os deturpadores falam em "amor e caridade". Aliás, Erasto sempre havia dito que é nesses momentos que se deve ter cautela ainda maior, porque todo apelo emotivo pode esconder o desejo de inserir ideias levianas e desmoralizar o legado de Kardec.

São justamente os apelos a ideias como "bondade", "amor", "caridade" e "fraternidade" que são os mais perigosos e foi o Ad Passiones do "movimento espírita", sobretudo através das figuras de Chico Xavier e Divaldo Franco, com suas imagens supostamente bondosas e sensíveis, que permitiu que estes e outros deturpadores da Doutrina Espírita ficassem em pé, fazendo o que querem com o legado kardeciano.

Daí que ouvir Erasto não é estar complacente com Chico e Divaldo. É questionar até a aparente "bondade", se ela não pode ser um processo de mistificação e de autopromoção de ídolos religiosos. Nos lembremos de Moisés, que abominou os ídolos religiosos, de Jesus de Nazaré, que abominou os falsos sábios, de Allan Kardec e Erasto, que alertavam sobre os mistificadores.

Pois o próprio "espiritismo" e seus "mais conceituados" ídolos é que estão povoados de falsos sábios, falsos cristos, falsos profetas, malabaristas das palavras, que dizem condenar a "falsidade dos outros" e cujas ideias que transmitem esbarram nos postulados de Kardec, que os contradizem.

Desta forma, convém deixar de lado a complacência muito comum entre os brasileiros e questionar com firmeza qualquer apelo dos deturpadores do Espiritismo. Qualquer vírgula a favor dos ídolos "espíritas" é um ponto a favor da deturpação e menos chance para recuperarmos os postulados espíritas originais, há muito abandonados no Brasil.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Grande mídia, religião e construção de mitos

NELSON XAVIER E ARY FONTOURA - Grandiosos talentos interpretando personagens tendenciosamente abordados pela Globo.

A grande mídia, a depender da influência que faz aos brasileiros, parece estar dotada de poderes divinos. A fabricação de consenso chega mesmo a dar a impressão às pessoas de que tudo é natural, e que a grande mídia não faz mais do que representar o inconsciente coletivo do povo brasileiro.

Não é a mídia que se submete ao inconsciente do povo. É o inverso. E, anteontem, quando o ator Nelson Xavier, que interpretou o "médium" Francisco Cândido Xavier, faleceu de câncer, aos 75 anos, no mesmo dia do depoimento do ex-presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, à Operação Lava Jato, estão em jogo dois mitos inversamente trabalhados pelo poder midiático da Rede Globo, que parece querer substituir as consciências das pessoas.

Assim como Nelson Xavier foi marcado por interpretar Chico Xavier - a ponto de ter divulgado um desejo de que, quando fosse enterrado, usasse o paletó que o "médium" deu de presente ao ator - , temos o ator Ary Fontoura, no filme Polícia Federal - A Lei é Para Todos, sobre a Operação Lava Jato, fazendo papel do ex-presidente Lula. O filme tem lançamento previsto para julho deste ano.

Os brasileiros médios, que assistem constantemente à televisão e possuem formação ideológica mais ou menos conservadora, estão acostumados à imagem oficial de certos mitos, de forma que eles gozam de aparente unanimidade, mesmo quando apresentam irregularidades nas qualidades a eles atribuídas.

Isso é assim tanto com Chico Xavier, "santificado" ao extremo, como uma Madre Teresa de Calcutá brasileira - um mito construído de maneira semelhante lá fora - , como Lula, "demonizado" ao extremo. Mitos construídos pelo persuasivo discurso midiático que força a prevalência de abordagens que nem sempre correspondem à realidade.

Aparentemente, quase ninguém percebe que Chico Xavier foi um deturpador muito grave da Doutrina Espírita, desfigurando e distorcendo o legado trabalhosamente desenvolvido por Allan Kardec ao sabor de devaneios igrejistas, moralistas e até materialistas (a concepção das "colônias espirituais" é um claro exemplo disso).

Ao "médium" também pesam denúncias de que suas supostas psicografias não passam de obras fake - pioneiros dos textos apócrifos que se produzem na Internet - e que outras práticas, como supostos rituais de materialização, teriam sido fraudulentas e contavam com o acompanhamento ativo do próprio Chico Xavier, que ainda assinava "autenticando" tais embustes.

Sobre os fakes supostamente psicográficos, observam-se irregularidades graves nas obras atribuídas a espíritos do além, famosos ou não. Humberto de Campos, Auta de Souza, Casimiro de Abreu, Olavo Bilac e Jair Presente, entre tantos e tantos outros, apresentam problemas sérios de estilo pessoal e frequentemente seus textos demonstram o pensamento e o estilo pessoal do "médium".

As pessoas se esqueceram disso e a visão mais persistente é que Chico Xavier é um "santo" e um homem que "fez muita caridade". Tais qualidades são muito duvidosas, até porque, se a "caridade" de Xavier tivesse sido verdadeira, com a projeção e o carisma que ele acumulou nos últimos anos, o Brasil teria alcançado um padrão escandinavo de vida. No ano do centenário de Chico Xavier, sua querida Uberaba foi rebaixada de 104° para 210° lugar em Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas.

O mito de Chico Xavier como "símbolo máximo da caridade" é falso e foi criado pela Rede Globo de Televisão no final dos anos 1970 para concorrer com a ascensão dos "pastores midiáticos" R. R. Soares e Edir Macedo. É certo que o mito de "filantropo" atribuído a Chico Xavier é bem antigo, mas foi a Globo que trabalhou o mito de forma mais organizada, sem as confusões e o apelo sensacionalista de Antônio Wantuil de Freitas, antigo presidente da FEB e descobridor do "médium".

Quem prestar melhor atenção sabe que o mito de Chico Xavier contém ingredientes apelativos que analistas conceituados do Primeiro Mundo já definem como tendenciosos e manipuladores da opinião pública: o Ad Passiones (apelo à emoção) e o Assistencialismo (caridade paliativa).

Os dois apelos discursivos ainda são vistos, pela maior parte dos brasileiros, como atitudes "positivas" e dotadas de "valor moral elevado". Mas não é isso que análises diversas demonstram, lá fora, sobretudo alertando que o mundo capitalista nunca trouxe benefícios explorando intensamente essas duas estratégias de convencimento.

O Ad Passiones, discurso que apela para a exploração excessiva da emoção (como, no caso do "espiritismo", abusar das evocações de "amor" e "caridade" e mostrar imagens de crianças sorrindo ou desenhos de corações), é definido como um tipo de falácia, que é a veiculação de uma ideia falsa como se fosse uma "verdade indiscutível".

O Ad Passiones virou moda com o fenômeno da pós-verdade, que, de maneira inesperada e motivada mais pelos apelos emocionais do que pela realidade objetiva, causou vitórias surreais em vários países. Nos EUA, a inesperada vitória de Donald Trump e, no Reino Unido, da proposta de saída da monarquia europeia da União Europeia, revelam o triunfo da pós-verdade, que também influiu no Brasil, com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

O Assistencialismo, por sua vez, é uma caridade parcial, que apenas atende casos pontuais, sem romper profundamente com as injustiças sociais e sem representar a emancipação plena das populações carentes. Diferente da Assistência Social (que encara injustiças sociais de frente, não raro ameaçando os privilégios das elites), o Assistencialismo traz poucos benefícios e serve mais para expor o "benfeitor" em prol de sua promoção pessoal.

O "espiritismo" brasileiro diz fazer Assistência Social e alega que sua "caridade" é "transformadora". Mas a prática não revela isso, até porque, pela importância que se dá a esta religião, o Brasil teria se tornado um país melhor e não pior como está hoje, com a degradação do mercado de trabalho e outros retrocessos virando leis, estrangulando recursos públicos e empobrecendo e desgastando as forças das classes trabalhadoras.

A Mansão do Caminho é um exemplo disso. E com o apoio do poder midiático da Globo. Em reportagem do Fantástico, festejou-se demais a "caridade" de Divaldo Franco, tido como "maior filantropo do Brasil" por ajudar, tão somente, menos de 1% da população da cidade de Salvador. Em índices nacionais, o dado se torna até risível. É festa demais para pouca caridade, mostrando o quanto o Assistencialismo serve mais para a promoção pessoal dos "médiuns" brasileiros.

Tanto o Ad Passiones quanto o Assistencialismo são apelos tendenciosos que promovem o "espiritismo" para pôr a deturpação debaixo do tapete. O excesso de alusões ao amor, em palestras, visitas, mensagens, textos etc, confortam e tranquilizam muitos, mas se trata de um apelo perigoso, traiçoeiro, que garante a aceitação dos deturpadores que "vaticanizaram" o Espiritismo até quando se cogita a recuperação das bases doutrinárias.

Se o "espiritismo" representa o Ad Passiones nas excessivas citações de "amor" e "fraternidade", essa representação, quanto ao Assistencialismo, se dá nas supostas evocações de "caridade" e "bondade". São apelos que, no discurso, parecem belos e fascinantes, mas cujos efeitos são extremamente inexpressivos e não legitimam de forma alguma o "espiritismo" brasileiro, que continua devendo responsabilidade pelas traições que fez aos postulados de Allan Kardec.

E todas essas armadilhas as pessoas não percebem porque as "boas emoções" são a camuflagem perfeita para qualquer apelo religioso. A Rede Globo tem consultores de Psicologia dos mais habilidosos e a parceria com a ex-inimiga FEB tornou-se um casamento feliz, fazendo o povo se distrair com a visão adocicada do deturpador Chico Xavier, enquanto lincha figuras que realmente ajudaram o próximo como Lula.

As pessoas são manipuladas pelo moralismo conservador, pelo reacionarismo político e pelas paixões religiosas. Constroem para si uma realidade que se revela, na verdade, irreal e sem lógica, e, no caso do "espiritismo" brasileiro, deixaram crescer a reputação de um gravíssimo deturpador da Doutrina Espírita, um mineiro que arruinou o legado kardeciano e criou obras fake de supostos espíritos do além, para depois virar o "santo absoluto" devido às seduções maliciosas das paixões religiosas.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Muito se fala no Jogo da Baleia Azul; e o jogo "espírita" de "Vencer a Si Mesmo"?


O "Correio Espírita" deste mês publicou uma matéria que define o Jogo da Baleia Azul como um "jogo assassino", preocupado com a onda de suicídios provocada pelo sombrio regulamento dessa brincadeira perigosa.

Sim, é inegável que o Jogo da Baleia Azul, um modismo nas redes sociais, esteja causando tantos suicídios pela forma com que é feito seu regulamento e pelo caráter macabro das tarefas a serem feitas. Mas isso é um assunto que vai além de moralismos religiosos e que não pode ser resolvido com a censura na Internet que grupos retrógrados pregam como uma falsa solução, que na verdade protege interesses ultraconservadores mais estratégicos.

O grande problema, porém, é que o próprio "espiritismo" brasileiro também mostra seu "Jogo da Baleia Azul", através de seus valores, cada vez mais identificados com a Teologia do Sofrimento.

Cada vez mais distante de Allan Kardec - nunca devidamente compreendido pelos seus proclamados seguidores oficiais no Brasil - , o "espiritismo" brasileiro, de raiz roustanguista, transmite energias macabras por conta de suas próprias contradições e pela sua desonestidade doutrinária.

A desonestidade doutrinária consiste em transmitir ideias roustanguistas sob o pretexto de "atualização" do legado kardeciano. A hipocrisia que isso significa faz com que "espíritas" deem o mesmo apreço a Erasto, que alertou para a deturpação no Espiritismo, e a Emmanuel, um dos propagadores da deturpação.

Só isso faz com que, em vez da espiritualidade mais evoluída, que foge, constrangida, dos aduladores religiosos da Terra, cheguem aos "espíritas" as almas mais traiçoeiras e levianas, os chamados espíritos inferiores.

As fotos antigas de Francisco Cândido Xavier revelam uma energia maligna. O semblante malicioso e o olhar agressivo explicam por que muitos devotos de Chico Xavier acabam perdendo seus filhos, como em uma maldição.

O anti-médium e beato de Pedro Leopoldo e Uberaba tinha fetiches por mortos prematuros, por achar exótico morrer jovem. A maioria dos espíritos usurpados pela suposta mediunidade de Xavier é de gente morta prematuramente: Castro Alves, Casimiro de Abreu, Humberto de Campos, Auta de Souza, Irma de Castro Rocha, Augusto dos Anjos, Cruz e Souza.

No fundo, Chico Xavier foi um católico de crenças bastante ortodoxas que preferiu fazer o Espiritismo andar para trás enquanto o Catolicismo, de gente como Alceu Amoroso Lima e Dom Hélder Câmara, caminhava para a frente.

Chico Xavier era adepto da Teologia do Sofrimento, corrente medieval católica que fazia apologia da desgraça humana como "atalho para Deus", e também fez o Espiritismo, no Brasil, se rebaixar a uma versão repaginada do Catolicismo jesuíta do Brasil colonial.

Daí os apelos para "amar o sofrimento", "abrir mão das próprias necessidades", "ficar feliz apenas por ter o ar que respira" (o que, em lugares como Rio de Janeiro e São Paulo, é difícil, pois nem isso se tem, sobretudo no Rio de fumantes arrogantemente inveterados), sobretudo a falácia de que "o pior inimigo é a própria pessoa", que soa como um punhal para o deserdado da sorte.

O próprio moralismo "espírita", com muitos conceitos estranhos ao legado de Allan Kardec, revela o quanto a doutrina igrejeira brasileira trocou o pedagogo francês pelo imperador romano e fundador do Catolicismo, Constantino.

A apologia ao sofrimento humano, que traz vibrações perigosas para quem faz tratamentos espirituais para resolver problemas e contrai outros ainda piores, faz com que o "espiritismo" tenha também seu "Jogo da Baleia Azul", o "Jogo do Vencer a Si Mesmo".

Como o "espiritismo" brasileiro, pelo seu DNA roustanguista, não aprecia a individualidade humana (confundida com egocentrismo), tanto faz apelar para a pessoa abrir mão de suas qualidades pessoais, e levar uma vida "qualquer nota", reduzindo-se a "boneco das circunstâncias" e "brinquedo das adversidades".

Alguns "espíritas" até tentam um malabarismo discursivo: "Não, nós apreciamos a individualidade, as vocações pessoais, os talentos próprios, mas existem mil formas de trabalhá-las. Sabe aquela empresa corrupta cujo patrão é prepotente? Mostre sua criatividade e promova a fraternidade cristã que todos vão gostar e o coração do seu chefe irá derreter". Como se fosse fácil fazer isso, tal como pedir para a guilhotina em queda não cortar o pescoço do condenado.

Os "espíritas", da mesma forma que confundem individualidade com individualismo, confundem desgraça com desafio. Isso revela um moralismo bastante severo, que acaba aceitando as condições que levam as pessoas ao suicídio, demonstrando a hipocrisia da doutrina igrejeira que, sob a desculpa da "vida futura", consente e até defende que pessoas fiquem acumulando desgraças e percam o controle de seu próprio destino.

A péssima psicologia que se encontra no apelo de "vencer a si mesmo" é até um discurso perigoso. Afinal, as apologias ao "carregamento da cruz cristã" e outros valores próprios da Teologia do Sofrimento só conseguem inspirar, no sofredor em aflição, o desejo de se exterminar. Ainda mais porque ele, no seu desespero, é informado de que é "seu pior inimigo" e aí ele, já com baixa autoestima, encontra mais estímulo para tirar sua própria vida.

Daí a contradição em que os "espíritas" se metem diante da criminalização do suicídio, quando seu moralismo apela para aceitar justamente os fatores que levam as pessoas a tirarem suas vidas. E ainda mais quando os mais aflitos, ao buscarem socorro para suas dificuldades extremas, contraem ainda mais e mais desgraças. Usar a "vida futura" para aceitar o sofrimento não resolve, até porque isso cria uma ânsia nos desesperados que cada vez mais são estimulados ao triste ato extremo.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

O mal maior dos "médiuns" brasileiros: o culto à personalidade


Poucos percebem, mas a função do médium, discretíssima e quase anônima nos tempos de Allan Kardec, se tornou uma aberração monstruosa no Brasil. O médium perdeu a sua função intermediária, se tornando o centro das atenções, sua atividade mediúnica é de valor duvidoso e apresenta irregularidades e ainda há o pedantismo intelectual como uma de suas qualidades.

Os médiuns que serviram a Kardec eram discretíssimos. Eram conhecidos apenas pelo sobrenome. Seu serviço era eventual, e não viviam dessa atividade. Também não queriam ser o centro das atenções e passaram para a posteridade num semi-anonimato.

Já no Brasil, os "médiuns" têm nome, nome do meio e sobrenome. São os centros das atenções de tal forma que o papel intermediário foi reservado aos espíritos dos mortos, reduzidos a "garotos de recado" dos "médiuns" que supostamente os recebem.

Sim, porque, no caso de Francisco Cândido Xavier, o "morto" pensa igual ao "médium". Pensa e escreve igual, até sua caligrafia se torna a do "médium". O "morto" se reduz a um propagandista religioso, que vagamente diz que "está tudo bem" com ele enquanto há o apelo para todos "se unirem na fraternidade em Cristo", eufemismo para propaganda igrejista.

As pessoas são muito tomadas de emotividade cega, e constroem sua realidade a partir de tais devaneios. Qualquer um que se promova com imagens de crianças pobres sorridentes é atribuído como um predestinado ao Céu, sendo também um coreógrafo das palavras, sem que haja um questionamento sobre as ideias que transmite ou as contradições de seu belo discurso.

Os "espíritas" já estão preocupados com a onda de críticas feitas à sua doutrina igrejeira. Ficam incomodados, dizem que seus questionadores sentem "falta de perdão, fé e oração" e suplicam para que haja misericórdia. A impressão que se tem é que eles se acham paladinos da Justiça ao promoverem a fraternidade do Bom Senso com o Contrassenso.

Eles deveriam se olhar no espelho, antes de esboçar qualquer reação. O "espiritismo" que eles defendem tem raízes no igrejismo de Jean-Baptiste Roustaing, mas revelar isso lhes causa horror, assim como dizer que eles estão inclinados à Teologia do Sofrimento e que o próprio Chico Xavier introduziu essa corrente católica medieval na Doutrina Espírita praticada no Brasil.

É muito fácil atacar, e os ataques não partem de quem questiona as contradições do "movimento espírita". Os ataques partem daqueles que se acostumaram apenas com elogios, enquanto difundem ideias contraditórias entre si, evocando Erasto num momento e exaltando Emmanuel em outro. Eles deixaram de serem aceitos em suas ideias que se chocam com os postulados espíritas originais e, por isso, não gostam de serem criticados.

A desmitificação dos "médiuns" também lhes incomoda. Tão acostumados com a mitificação, a níveis de contos de fadas, do "médium" que traz "lindas mensagens" e faz "boas ações", os brasileiros não conseguem admitir a aberração de um "médium" que se torna o centro das atenções e que é beneficiado por uma atitude não lá muito positiva: o CULTO À PERSONALIDADE.

O culto à personalidade (ou culto de personalidade) não existe apenas nos líderes políticos presunçosos e ambiciosos com seu próprio poder. Ele envolve também empresários, famosos, e até mesmo supostos ativistas. Consiste numa estratégia em que a pessoa é exaltada em suas supostas virtudes, como se o valor das virtudes fosse subordinado à figura de alguém tido como "muito importante".

Na Rádio Metrópole FM, em Salvador (Bahia), que por sinal tem como contratado o "médium espírita" José Medrado (ele mesmo o astro das palestras de plateias lotadas todas as noites de terças-feiras na "Cidade da Luz", no bairro de Pituaçu), é conhecida pelo culto à personalidade dado ao seu proprietário, Mário Kertèsz (que começou a carreira como político da ditadura militar), ele mesmo um pretenso radiojornalista e autoproclamado maior astro da emissora.

O culto à personalidade coloca o indivíduo acima de sua própria atividade. Até antes dessa atividade ser exercida, o indivíduo já recebe os louros. Em muitos casos, é o pretenso vencedor de uma competição que nem começou. É o favorito acima de qualquer causa. E, no "espiritismo" brasileiro, o "médium" que recebe o culto à personalidade faz o tipo de pessoa na qual não é o benfeitor que se sujeita à caridade, mas é a caridade que se sujeita ao benfeitor.

Uma das amostras do culto à personalidade estava nas caravanas de Chico Xavier em Uberaba. Um espetáculo de pura ostentação, com fileiras de carros, com muito barulho, festas e farta propaganda na mídia, com coberturas festivas na imprensa. Muito barulho por quase nada: trata-se de uma mera atividade de doação de mantimentos para famílias pobres e numerosas, um ato que equivale ao que as pessoas mais esclarecidas entendem como Assistencialismo.

O Assistencialismo se define como uma atitude de ajuda ao próximo nos limites meramente pontuais. Não se resolve definitivamente o problema. Ou, quando muito, só se "resolve" pontualmente, como projetos educacionais inócuos, que apenas ensinam a pessoa a "sobreviver", com aparente dignidade, mas de maneira medíocre e pouco satisfatória.

Há uma diferença entre Assistencialismo e Assistência Social, que realmente transforma. O Método Paulo Freire de Educação é um exemplo de Assistência Social. Muitos "espíritas" dizem que a "caridade" que fazem é Assistência Social, mas o que fazem, na verdade, é Assistencialismo.

Ações que só teriam caráter de urgência em calamidades públicas, como a concessão de sopas e donativos, são feitas em período declarado de paz. Tendo condições para se fazer mais, os "espíritas" fazem pouco, preocupados mais em promover o "benfeitor". Os benefícios vêm em segundo plano.

Tudo acaba promovendo o "bom mocismo" de "médiuns" que, em certos casos, fazem turnê pelo mundo para fazer palestras para ricos e poderosos, como Divaldo Franco, ou ficam nos seus locais de origem, como Chico Xavier e João de Deus, para dar um verniz de "humildade plena".

Nota-se o culto à personalidade quando se fala em Mansão do Caminho, Você e a Paz, em várias casas e projetos de "caridade" nos quais os "médiuns" aparecem em primeiro plano. Mesmo cercados de crianças saltitantes e adultos pobres, são os "médiuns" os destaques, são os primeiros a serem identificados em tão "modestas" imagens.

Os "médiuns" brasileiros já são considerados anti-médiuns porque perderam o papel intermediário que deveriam assumir. Tornam-se figuras exóticas, pitorescas, alimentando o sensacionalismo da grande mídia, que adora fenômenos que misturem devoção religiosa e aspectos pitorescos. As paixões religiosas revelam esse apego ao sensacionalismo e à pieguice que faz dos "médiuns" brasileiros uma grande vergonha para a humanidade.

Afinal, os médiuns autênticos que serviram a Allan Kardec eram, em maioria, aristocratas que tinham atitudes bastante discretas, não queriam o estrelato e nem posavam de dublês de pensadores e ativistas. Se eles faziam ativismo social, era no quase anonimato. Mas o pior é que, sendo aristocratas, eram esses médiuns bem mais humildes do que os "médiuns" brasileiros que vivem do culto à suas personalidades.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Por que as forças progressistas não questionam o "espiritismo" brasileiro?

SERÁ QUE O ESQUERDISMO ACEITA O "ESPIRITISMO" DETURPADOR POR CAUSA DE SEUS APELOS VISUAIS E RETÓRICOS, COMO DE CRIANÇAS SORRIDENTES?

O "espiritismo" brasileiro é protegido da Rede Globo. É uma religião conservadora e moralista, seu maior ídolo, Francisco Cândido Xavier, defendia a ditadura militar e era devoto da Teologia do Sofrimento. Tem a blindagem de um Aécio Neves e um apetite para reprovar os avanços do raciocínio questionador.

No entanto, vemos que setores das esquerdas brasileiras ficam complacentes com o "espiritismo" e chegam mesmo a lhe prestar uma admiração sem motivo. Movidos apenas pela vaga e falsa imagem de "progressista", o esquerdismo se deixa levar para suposta humildade apresentada pelo marketing "espírita".

O "espiritismo" brasileiro tem uma fachada "imparcial", "sem ideologias" e "neutra". Sua embalagem sempre diz as coisas mais atraentes, imparciais, avançadas, ecumênicas, equilibradas etc. Mas seu conteúdo, como vem de raízes fundamentadas em Jean-Baptiste Roustaing, é dos mais retrógrados, a ponto de rabaixar o legado kardeciano a um sub-Catolicismo de bases jesuítas e essência medieval.

Isso influi no direitismo do "espiritismo" brasileiro que se reforçou sobretudo poucos anos depois de Chico Xavier defender a ditadura militar na televisão, para milhares de telespectadores, em 1971. Para piorar, a imagem que muitos esquerdistas se deixaram levar de Chico Xavier, associada a uma aparente humildade, não passou de um habilidoso discurso publicitário armado pela Rede Globo de Televisão (conservadora) sob inspiração do inglês Malcolm Muggeridge (conservador).

É só ver as coisas. Um conteúdo moralista que diz para ninguém questionar, aceitar as adversidades, perdoar os abusos dos algozes, abrir mão das próprias necessidades, desistir dos talentos da individualidade - o "espiritismo" adora confundir individualidade (desenvolvimento de qualidades pessoais próprias) com individualismo (expressão de egocentrismo) - e ainda pede para os sofredores "amarem" suas desgraças.

Isso é uma agenda conservadora. O "espiritismo" é extremamente conservador, tanto quanto as seitas neopentecostais (que querem enfiar o Brasil de hoje nos tempos do Velho Testamento), mas à sua maneira. Aliás, ambas as seitas (FEB e Igreja Nova Vida) participaram ativamente da Marcha da Família Unida com Deus pela Liberdade, em 1964, que pediu a ditadura militar. Num passado menos remoto, Chico Xavier manifestou seu voto em Fernando Collor, em detrimento a Lula.

Relatos elitistas e juízos de valor acusando pessoas humildes de supostamente terem sido tiranos sanguinários em outras vidas revelam também esse direitismo. Chico Xavier acusando as pobres vítimas de um incêndio num circo em Niterói de terem sido "romanos sanguinários" e Divaldo Franco acusando os pobres refugiados do Oriente Médio de terem sido "colonizadores perversos" também revela esse reacionarismo dissimulado em dóceis palavras.

O periódico "Correio Espírita" havia definido as passeatas do "Fora Dilma" como "despertar da juventude" e "indício de regeneração humana", atribuindo aos "protestos dos coxinhas", nos quais havia o clamor pela "intervenção militar", uma suposta função messiânica. Só faltava dizer que Kim Kataguiri, Fernando Holiday, Janaína Paschoal e outros eram crianças-índigo.

O "médium" João Teixeira de Faria, o João de Deus, que nas "horas vagas" é um rico latifundiário, virou capa de uma matéria elogiosa de Veja, uma revista que tem uma furiosa má vontade com o ativismo social, esculhambando sindicalistas, trabalhadores rurais, movimentos sociais, populações indígenas, ativistas estudantis.

Se o "funk" e o "espiritismo" são aceitos pela revista Veja, capaz de xingar um Nobel de Física se ele se afirmasse marxista e ateu, então a imagem de "progressistas" que esses dois movimentos, o musical e o religioso, é muito, muito falsa. Ou alguém acreditaria que Veja daria uma capa a João de Deus, se ele fosse um simpatizante do esquerdismo?

O que as forças progressistas de esquerda ignoram é que a imagem de humildade do "espiritismo" que apela para as pessoas "aceitarem o sofrimento" é falsa. Seus palestrantes ficam viajando o tempo inteiro fazendo passeatas para ricos e a tão festejada filantropia que fazem ajuda muito pouco e apenas traz benefícios precários, frágeis e medíocres para os necessitados.

A própria sociedade conservadora aposta no "espiritismo" como um pretenso substituto das políticas progressistas, mas não um substituto à altura. A sociedade conservadora está apavorada com os progressos trazidos pelos governos Lula e Dilma Rousseff, que culminaram até com a transformação do empregado doméstico em assalariado, num sentido inverso que querem fazer os partidários da reforma trabalhista, que querem degradar o mercado de trabalho.

O "espiritismo" cresceu sob o apoio da mídia conservadora, de uma TV Tupi que também investiu na Rede da Democracia (campanha reacionária comandada também pela Rádio Globo e Jornal do Brasil para pedir que o presidente João Goulart fosse derrubado por um golpe militar) e da própria Rede Globo que colaborou na reinvenção do mito do anti-médium Chico Xavier, sem o método confuso e sensacionalista do antigo presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas.

Nem mesmo a aparente ida da atriz global Camila Pitange, ateia e de esquerda, para agradecer a João de Deus sua sobrevida depois que desistiu de mergulhar com o colega e amigo Domingos Montagner, morto por afogamento, pode representar um suposto progressismo "espírita".

Até porque, provavelmente, Camila agiu sob conselho de outro ator de Velho Chico, Carlos Vereza, que interpretou Adolfo Bezerra de Menezes no cinema e é membro do Instituto Millenium, um coletivo do que há de mais reacionário na mídia brasileira.

O próprio João de Deus parece ter dado o "beijo da morte" à esposa do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, dona Marisa Letícia, que estava internada ao sofrer AVC e havia esperanças de recuperação. Foi só o anti-médium goiano dizer que "orava por dona Marisa" para o estado dela se agravar de forma irreversível e ela falecer, deixando viúvo o ex-presidente, já abatido com tantos ataques.

É ilustrativo, aliás, que a mesma Rede Globo que transforma Lula numa pessoa odiável é a que se empenhou em "santificar" Chico Xavier, envolvido em pastiches literários e outros truques de charlatanismo. A "filantropia de resultados", associada ao "espiritismo" brasileiro e que serve como álibi para a deturpação que desfigura o legado de Kardec, é um paradigma conservador e elitista de "caridade" e "bondade", pois traz poucos benefícios e serve mais de propaganda para o "benfeitor".

As pessoas têm que perceber. Até os progressistas têm, de vez em quando, alguma inclinação às paixões religiosas. O que fazem os reacionários deturpadores da Doutrina Espírita, mostrando imagens de crianças sorridentes e coraçõezinhos vermelhos - será que a "cor vermelha" ilude os esquerdistas quanto à doutrina igrejeira? - , para se passar por "progressistas" é de uma astúcia assustadora.