segunda-feira, 15 de junho de 2015

Attila Paes Barreto aponta a farsa do suposto "Humberto de Campos espírito"


COMENTÁRIO: Attila Paes Barreto, jornalista do Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, deveria ser redescoberto oficialmente e seu livro O Enigma Chico Xavier Posto à Clara Luz do Dia urgentemente editado. Quer dizer, se o Brasil realmente fosse um país sério, o que infelizmente está longe de ser verdadeiro.

O corajoso jornalista se dispôs a desfazer o mito de Chico Xavier, ao lado de outros esclarecidos que, graças a essa coragem, são tidos como "venenosos" e "traiçoeiros", a "promover escândalos" e "acender as labaredas" da opinião pública.

Nomes como ele e Osório Borba, crítico literário muito em evidência naqueles idos de 1944, precisam ser resgatados à nossa memória atual com a máxima urgência, por quem se interessar em garimpar suas obras.

O caso Humberto de Campos, que terminou em empate jurídico - o que impulsionou o crescimento do mito de Chico Xavier que hoje toma conta das mídias sociais (o Facebook está "contaminado" do legado do "bondoso" anti-médium) - , tem o parecer definitivo na ironia de Attila quanto à declaração do mentor Emmanuel sobre a "mudança de estilo" de "Humberto de Campos espírito".

Attila, que não acredita sequer que Emmanuel tenha ditado seus livros para Chico Xavier botar no papel - até as obras emmanuelianas teriam vindo das mentes do anti-médium - , muito menos consegue admitir que Humberto teria escrito as obras "mediúnicas" a ele atribuídas.

Reproduzimos aqui o breve artigo na colaboração do autor para a coluna Ineditoriais, do Diário de Notícias, na edição de 26 de julho de 1944, em que Attila destila sua divertida ironia questionando a declaração dada pelo "espírito Emmanuel" através da "mediunidade" de Xavier.

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Emmanuel e o estilo de Humberto de Campos

O repórter de um grande semanário ilustrado do Rio de Janeiro abalou-se até Belo Horizonte e Pedro Leopoldo, a fim de visitar e entrevistar Chico Xavier e Emmanuel (guia espiritual de Chico Xavier e ex-senador romano que não sabe latim). "Manifestou-se", então, Emmanuel, e o fez por sua livre e espontânea vontade.

Perguntou-lhe o repórter:

- Não teria havido modificação no estilo da literatura de Humberto de Campos depois de sua morte?

Respondeu Emmanuel:

- Naturalmente. O estilo é o homem espírito.

Naturalmente, o estilo é o homem espírito! Segundo, pois, o próprio guia espiritual de Chico Xavier, o estilo da obra literária de Humberto, espírito, não é o mesmo estilo da obra literária de Humberto, vivo.

Houve modificação.

E para pior.

Para o intragável.

E, no entanto, a publicidade da livraria editora da Federação Espírita Brasileira escreveu alhures que a obra de Humberto, espírito, deixa, naqueles que a leem, - "VERDADEIRO DELEITE INTELECTUAL", pois que nela se identifica - "TODA A BELEZA QUE SÓ O FEITIO DE HUMBERTO DE CAMPOS SABIA INOCULAR EM SEUS ESCRITOS"!!

Aliás, quem já leu toda ou quase toda a obra mediúnica e - NÃO MEDIÚNICA - de Chico Xavier, não precisa experimentar o espírito de Humberto de Campos como se experimenta uma pilha voltaica (como diria o prof. Cadmo de Moura Brandão), para verificar que Emmanuel é quem está com a razão, e que o estilo de Humberto de Campos, espírito, é o mesmo estilo de Emmanuel, o qual, por sua vez, é o mesmo estilo de Chico Xavier.

ATTILA PAES BARRETO

domingo, 14 de junho de 2015

O misterioso livro de Attila Paes Barreto

COMO PODERIA SER A CAPA DO LIVRO DE ATTILA PAES BARRETO, SE FOSSE PUBLICADO HOJE.

O jornalista Attila Paes Barreto é, hoje, uma figura enigmática que a memória curta fez cair no esquecimento. Atuante na década de 1940, o jornalista chegava a receber críticas ríspidas das lideranças "espíritas" brasileiras da época.

Críticos das irregularidades do "espiritismo" brasileiro sempre existiram, desde que Afonso Angeli Torteroli realizou acérrima polêmica contra Adolfo Bezerra de Menezes. Desde então, o "movimento espírita" passou a manipular a sua trajetória de maneira tendenciosa, criando sua historiografia ao seu bel prazer.

Assim, a transparência e a fidelidade histórica nunca foram o forte dos "espíritas", que em muitos casos preferem trabalhar seus personagens de maneira bastante parcial, reservando histórias bastante tenebrosas para seus rivais e as histórias mais dóceis para seus lideres e ídolos. A fantasia prevalecendo em dois lados.

Infelizmente não há uma historiografia honesta e imparcial sobre os "espíritas". Dos personagens do final do século XIX, como Rui Barbosa e Machado de Assis, suas biografias não estão imunes de mostrar aspectos sombrios de suas vidas, o dr. Bezerra de Menezes parece mais um mocinho de contos de fadas com uma biografia tão adocicada.

Não há isenção, não há objetividade. E, no caso da construção do mito de Chico Xavier, a FEB fez o possível para que todos os obstáculos fossem derrubados e os maiores críticos fossem condenados ao esquecimento.

ANÚNCIO DO REFERIDO LIVRO, EM PÁGINA DO DIÁRIO DE NOTÍCIAS, DO RIO DE JANEIRO, EDIÇÃO DE 12 DE JULHO DE 1944.

E, entre eles, temos o jornalista Attila Paes Barreto, que deveria ser resgatado à nossa memória. Atuante na imprensa do Rio de Janeiro, tendo trabalhado no Diário de Notícias nos tempos da antiga capital do país, ele estava planejando um livro contestando as atividades de Chico Xavier, que seria publicado depois do fim do julgamento do caso Humberto de Campos, em julho de 1944.

Não sabemos se esse livro foi publicado ou não, mas, se caso tivesse sido, ele poderia muito bem ter ganho uma nova edição hoje, se o nosso mercado editorial fosse bem menos atrelado, pois, por mais que existam obras que questionem as irregularidades do "espiritismo" brasileiro - sobretudo por via de José Herculano Pires - , as mais aprofundadas são ainda discriminadas pelo mercado.

O livro de Attila, que na ocasião das reportagens de julho de 1944, ainda estava em andamento, mas ele havia adiantado o sumário de sua obra, intitulada O enigma Chico Xavier posto à clara luz do dia, cuja amostra de seus manuscritos chegou a ser divulgada para o escritor Agrippino Grieco. Aqui está o sumário de um livro que precisa urgentemente ser resgatado:

O DEDO DO MUNDO INVISÍVEL 

O DR. MILTON BARBOSA, A CIÊNCIA OFICIAL E

O ESPIRITISMO 

O SACO DE BORRACHA

O ENIGMA CHICO XAVIER POSTO À CLARA LUZ DO DIA 

I

O sr. Agrippino Grieco vítima de uma ilusão 

II

“Nós não aprovamos isso”, disse-nos o sr. Henrique de Campos, filho de Humberto de Campos — “Nem o mesmo estilo, nem o mesmo ardor”, disse-os o escritor João Alfonsus. 

III

O sr. Agrippino Grieco retira as entrevistas que deu 

DECLARAÇÕES DO SR. HUMBERTO DE CAMPOS FILHO À “REVISTA DA SEMANA” 

PUBLIUS LENTULUS (EMANUEL) DE PEDRO LEOPOLDO E SUAS ORIGENS 

EIS, MEUS SENHORES, O QUE É O ESPIRITISMO NO BRASIL 

OS GRANDES BOATOS DO ESPIRITISMO 

sábado, 13 de junho de 2015

Artigo de Humberto de Campos: "Como Cantam os Mortos"

EDIÇÃO DE CARVALHOS E ROSEIRAS (1923), DE HUMBERTO DE CAMPOS, LANÇADA NO ANO DE SUA MORTE, 1934.

Dando continuidade ao artigo anterior, Humberto de Campos produziu outro, "Como Cantam os Mortos", em que dá sequência ao seu misto de ingenuidade e ceticismo, talvez apresentando uma dúvida que não deixava explícito no texto anterior, quanto à mediunidade de Chico Xavier, em que pese acreditar nas semelhanças entre os poemas espirituais e as obras originais dos autores atribuídos.

Ele até cita os trechos dos poemas do livro atribuído a alguns autores, acreditando que os mesmos preservem as caraterísticas estilísticas e estéticas das obras dos respectivos poetas feitos em vida. Mas, até pelos limites de espaço, ele não confrontou os poemas "espirituais" com os poemas autênticos do legado deixado pelos autores.

Não se sabe se, por ironia ou boa-fé, Humberto havia creditado as semelhanças dos poemas do referido livro às obras que os respectivos supostos autores teriam feito em vida. Há indícios, porém, de que Chico Xavier e a FEB não gostaram da resenha e daí ter surgido, anos depois, o "espírito Humberto" com estilo totalmente diferente do que Humberto fez em vida.

O texto está reproduzido integralmente abaixo, com as devidas atualizações ortográficas posteriores à reforma de 2009.

COMO CANTAM OS MORTOS

Por Humberto de Campos - Diário Carioca, n. 1205, Rio de Janeiro, 12 de julho de 1932.

O "Parnaso de Além-Túmulo" do sr. Francisco Cândido Xavier, cujos objetivos examinei em artigo anterior, merece trato mais grave demorado. Escutando a voz dos mortos, devemos identificá-la, para evitar quaisquer possibilidades de impostura. Vejamos, pois, como canta, ou escreve, Augusto dos Anjos, pela boca ou pela pena do espírita de Pedro Leopoldo:

"Louco, que emerges de apodrecimentos,
Alma pobre, esquelético fantasma,
Que gastaste a energia do teu plasma
Em combates estéreis, famulentos...

"Em teus dias inúteis foste apenas
Um corvo ou sanguessuga de defuntos
Vendo somente a cárie dos conjuntos
Entre as sombras das lágrimas terrenas.

"Vias os teus iguais, iguais aos odres
Onde se guarda o fragmento imundo,
De todo o esterco que apavora o mundo
E as ruins exalações dos corpos podres".

Casimiro de Abreu conserva, nas cordas da sua lira, feitas possivelmente com os restos dos seus nervos, a ingenuidade primitiva. E oferece-nos, nas rimas póstumas, a prova triste de que, mesmo além da vida, no selo mesmo da morte, as paixões não desaparecem. A saudade da pátria é conservada incólume, como se o morto não tivesse mudado de planeta, mas, apenas, de um país para outro. Ouçamos, para exemplo, o poeta das "Primaveras" oitenta e dois anos depois de desencarnado:

"Que terno sonho dourado
Das minhas horas fagueiras
No recanto das palmeiras
Do meu querido Brasil!
A vida era um dia lindo
Num vergel cheio de flores
Cheio de aroma e esplendores
Sob um céu primaveril.

"Se a morte aniquila o corpo
Não aniquila a lembrança:
Jamais se extingue a esperança
Nunca se extingue o sonhar!
E à minha terra querida,
Recortada de palmeiras
Espero em horas fagueiras
Um dia, poder voltar".

Antero de Quental continua triste e trágico no outro mundo, e disposto, parece, a suicidar-se de novo, para reaparecer neste. "À Morte" é um dos seus sonetos caraterísticos, exportados com endereço aos seus antigos admiradores e discípulos, por intermédio do "médium" mineiro:

"Ó Morte, eu te adorei, como se foras
O fim da sinuosa e negra estrada,
Onde habitasse a eterna paz do Nada
Sem agonias desconsoladoras.

"Eras tu a visão idolatrada
Que sorria na dor das minhas horas,
Visão de tristes faces cismadoras,
Nos crepes do silêncio amortalhada.

"Busquei-te, eu que trazia a alma já morta,
Escorraçada no padecimento,
Batendo alucinado à tua porta;

"E escancaraste a porta escura e fria,
Por onde penetrei no Sofrimento,
Numa senda mais triste e mais sombria".

A notícia que Antero nos dá não é, evidentemente, das mais agradáveis. A outra existência, para ele, não tem sido melhor do que esta. Ou sucederá isso em virtude do gênero de morte que ele escolheu? O homem que se mata engana, ou tenta enganar a Deus. E o castigo que este lhe inflige, consiste, possivelmente, em fazê-lo sofrer no outro mundo os mesmos tormentos que padecia neste. Em síntese: a morte, obtida pelo suicídio, não vale. Só é tomada em consideração aquela que Deus dá, isto é, que sobrevém naturalmente.

D. Pedro II continua, mesmo depois de morto, a fazer maus versos. Há uma antiga tradição literária, segundo a qual os melhores sonetos do ex-Imperador eram feitos pelo Barão de Loreto. Admitida essa versão, a conclusão a tirar dos decassílabos que se vai ler é que os dois andam, agora, por lá, separados. Escutemos o velho monarca:

"Magnânimo Senhor, que os orbes cria
Povoando o Universo ilimitado,
Que dá pão ao faminto, ao desgraçado,
E ao sofredor os raios da alegria;

"Se, de novo, no mundo, desterrado,
Necessitar viver inda algum dia,
Que eu regresse ditoso ao solo amado
Da generosa pátria que eu queria;

"Se é mister retornar a um novo exílio,
Seja o Brasil, lá onde eu desejara
Ter vertido o meu pranto derradeiro.

"Que eu novamente viva sob o brilho
Da mesma luz gloriosa que eu amara,
Na alcandorada terra do Cruzeiro".

Castro Alves continua condoreiro, e utilizando as mesmas imagens em que era mestre, na terra:

"E a gota d'água caindo
No arbusto que vai subindo
Pleno de seiva e verdor;
O fragmento do estrume
Que se transforma em perfume
Na corola de uma flor.

"E a dor que através dos anos,
Dos algozes, dos tiranos,
Anjos puríssimos faz;
Transformando os Neros rudes
Em arautos de virtudes,
Em mensageiros de paz!"

E Junqueiro, sem mudar de tema ou de rima:

"Na silenciosa paz do cimo do Calvário
Ainda e vê na Cruz o Cristo solitário.

"Vinte séculos de dor, de pranto e de agonia
Represam-se no olhar do Filho de Maria".

As poesias de Junqueiro continuam sendo, na outra vida, extensas em demasia. Ficam, por isso, aí, apenas duas parelhas, para amostra.

O "Parnaso de Além-Túmulo merece, como se vê, a atenção dos estudiosos, que poderão dizer o que há nele, de sobrenatural ou de mistificação. No primeiro caso, o outro mundo deve ser insuportável, com os poetas que lá se acham. E pior será, ainda, se houver, também, por lá, declamadoras...

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Artigo de Humberto de Campos: "Poetas do Outro Mundo"

NO FINAL DE SEU ARTIGO, HUMBERTO DE CAMPOS CITA O LIVRO O MONSTRO E OUTROS CONTOS, QUE ELE LANÇAVA NA ÉPOCA.

COMENTÁRIO: Humberto de Campos havia escrito, em vida, dois artigos no jornal Diário Carioca, o primeiro, intitulado "Poetas do Outro Mundo", datado de 10 de julho de 1932, e, como o periódico não circulava nas segundas-feiras, o texto seguinte, "Como Cantam os Mortos", saiu dois dias depois, portanto 12 de julho de 1932. Na verdade, um artigo dividido em dois, pelos limites de espaço.

No primeiro texto, que reproduziremos a seguir, Humberto adota uma postura ao mesmo tempo ingênua e crítica ao livro Parnaso de Além-Túmulo, de Francisco Cândido Xavier, dando a crer que o livro - que, através de pesquisas cuidadosas, revelou-se não ter sido psicografado, mas elaborado por um grupo de escritores, como se observa no decorrer de sua coluna.

Humberto, aparentemente, acreditava que os poemas lançados no livro eram autenticamente espirituais, conservando as caraterísticas dos autores em vida, tese contestada anos depois por especialistas, sobretudo o crítico Osório Borba. No entanto, há dúvidas se esse comentário pode ter sido sério ou a alegação de semelhança seria uma das habituais ironias do autor maranhense.

No entanto, Humberto se sentia incomodado com o fato da antologia contar com "obras do além", que competiam com a expressão artística dos vivos. Neste livro, ele mostra sua conhecida veia irônica, mas tudo indica que ele havia achado o livro ruim, dando-nos a impressão de que ele julgava a poesia uma arte menor.

Ele chega a dar preferência ao "inferno" descrito por Dante Alighieri em A Divina Comédia, pelo fato de impedir que poetas façam novos trabalhos, pois no enredo os Demônios teriam lhes tomado a lira, para "o bem da ordem interna do estabelecimento", enquanto Humberto descreve o mundo espiritual do livro de Chico Xavier como "desorganizado".

Reproduzimos o texto na íntegra, com a atualização da ortografia de acordo com a reforma de 2009.

POETAS DO OUTRO MUNDO

Por Humberto de Campos - Diário Carioca, n. 1204, Rio de Janeiro, 10 de julho de 1932.

Francisco Cândido Xavier, é o nome de um moço de origem humilde, nascido em Pedro Leopoldo, Estado de Minas Gerais, em 1910. Após um estágio na escola primária de sua terra, entrou como operário e órfão, para uma fábrica de tecidos e, em seguida, para um estabelecimento comercial. E como neste mundo não lhe parecesse dos mais amáveis, começou a pensar no outro, aderindo ao espiritismo, com as altas funções e responsabilidades de "médium".

Lidando nesta vida, com os espíritos medíocres que frequentam a casa de comércio em que trabalha, resolveu Francisco Cândido Xavier tornar-se mais exigente no reino das sombras, buscando, nele, para conversar, inteligências superiores, homens de letras e, especialmente, poetas, que já haviam passado por este mundo. Nessas palestrou em que a boca se mantinha em silêncio, transmitiam-lhe os seus novos amigos algumas poesias elaboradas depois de desencarnados, e que o jovem caixeiro de Pedro Leopoldo ia escrevendo mecanicamente, sem esforço do braço ou da imaginação. Esses espíritos eram, ordinariamente, Guerra Junqueiro, Antero de Quental, Augusto dos Anjos, Castro Alves, Casimiro de Abreu, João de Deus, Auta de Souza, Pedro II, Souza Caldas, Júlio Diniz, Cruz e Souza e Casimiro Cunha, poeta vassourense. Às vezes aparecia, também, um anônimo, cuja modéstia não desaparecera nem no outro mundo. E cada um deles escrevia o seu soneto, ou a sua poesia, com a pena de Francisco Cândido Xavier, o qual, reunindo-as, acaba de publicar o "Parnaso de Além-Túmulo", editado pela Federação Espírita Brasileira.

O primeiro pensamento que assalta o leitor, antes de examinar o merecimento literário da obra, é a ideia de que, nem no outro mundo, estará livre dos poetas. A poesia é uma predestinação de tal modo fatal, irremediável, que a vítima não se livra dessa maldição nem, mesmo, depois da morte. Quem fez sonetos ou redondilhas neste planeta, está condenado a fazê-las em todos os pontos do espaço e da eternidade a que o leve o dedo divino. E sem mudar de estilo. E sem variar de temas. E sem modificação de ritmos, de rimas ou de inspiração.

Admitindo essa verdade, a vida literária no outro mundo deve ser mais variada, embora mais fatigante do que neste. Lá estarão, ainda, Anchieta, a celebrar a Virgem Maria em língua tupi; Botelho de Oliveira a cantar no estilo da "Ilha da Maré" e da "Música do Parnaso"; Cláudio Manoel da Costa, escrevendo sonetos clássicos; Gonçalves Dias, com a sua lira romântica; e os parnasianos; e os simbolistas; e os futuristas, que morreram antes do futurismo morrer. A vantagem apresentada por essa reunião de escolas ficará, todavia, comprometida pela eternidade da produção. A superioridade que esta vida apresenta sobre as outras, está, precisamente, no seu caráter transitório. Quando um indivíduo, entre nós, dizendo-se benquisto dos deuses, empunha a lira, ficamos certos, desde logo, que ele um dia emudecerá. E é esse consolo que não têm os habitantes do Astral, os quais se acham condenados a escutar os maus poetas até a consumação dos séculos.

O Inferno católico é, nesse particular, mais bem organizado do que os mundos em que o espiritismo coloca os mortos. Quando Dante nele penetrou, lá encontrou Virgílio, e outros mestres latinos e medievais. Travou, com eles, palestras, sobre a existência que levavam; e nenhum lhe recitou versos novos, - fato que prova, e sobejamente, que os Demônios lhes tomaram a lira, a bem da ordem interna do estabelecimento, no momento da entrada.

O "Parnaso de Além-Túmulo" do sr. Francisco Cândido Xavier torna-se, por isso mesmo, interessante para os poetas vivos, embora constitua uma terrível ameaça para os que detestam a linguagem rimada ou ritmada. "Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate!" (*) Lá dentro, no reino da Morte, há poetas e eles cantam. E cantam como cantavam aqui, sem omissão, sequer, da linguagem preciosa que aqui utilizavam. "Muitas vezes, - confessa o "médium" no prefácio da obra, - muitas vezes, ao recebermos uma destas páginas, era necessário recorrermos ao dicionário, para sabermos os respectivos sinônimos das palavras nela empregadas, porque tanto eu como os meus colegas as desconhecíamos em nossa ignorância. Não obstante a mudança de clima, cada um conserva, por lá, as suas virtudes e defeitos literários.

Eu faltaria, entretanto, ao dever que me é imposto pela consciência, se não confessasse que, fazendo versos pela pena de Francisco Cândido Xavier, os poetas de que ele é intérprete apresentam as mesmas caraterísticas de inspiração e de expressão que os identificavam neste planeta. Os temas abordados são os que os preocupavam em vida. O gosto é o mesmo. E o verso, obedece, ordinariamente, a mesma pauta musical. Frouxo e ingênuo em Casimiro, largo e sonoro em Castro Alves, sarcástico e variado em Junqueiro, fúnebre e grave em Antero, filosófico e profundo em Augusto dos Anjos - sente-se ao ler cada um dos autores que veio do outro mundo para cantar neste instante, a inclinação do sr. Francisco Cândido Xavier para escrever "À la manière de..." ou para traduzir o que aqueles outros espíritos sopraram ao seu.

Essa identificação será todavia objeto de outro artigo. Por enquanto eu quero, apenas, pôr de sobreaviso os poetas vivos contra o perigo que a todos nos ameaça com a ideia que tiveram os mortos de voltar a escrever neste mundo em boa hora abandonado por eles. Se eles voltam a nos fazer concorrência com os seus versos perante o público e, sobretudo, perante os editores, dispensando-lhes o pagamento de direitos autorais, que destino terão os vivos que lutam, hoje, com tantas e tão poderosas dificuldades?

Quebre pois cada espírito a sua lira na tábua do caixão em que deixou o corpo. Ou, então, encarna-se outra vez, e venha fazer a concorrência aqui em cima da terra, com o feijão e o arroz pela hora da vida.

Do contrário, não vale.

Nota - Transmitido por telefone o "post-scriptum" de ontem saiu errado. Eu havia dito que o sr. Humberto de Campos "me pedia" que divulgasse a notícia do aparecimento do seu livro "O Monstro e outros contos". E saiu que esse autor "pediu" a divulgação da notícia. A supressão do prenome alterou o pensamento de quem ditou a nota. E eu dou esta explicação para fazer a propaganda, outra vez. - H. de C.

(*) Abandoneis toda a esperança, vós que aqui entrais! (Nota do Editor)

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Erasto teria reprovado severamente Chico Xavier


A montagem é grotesca. Juntam-se imagens de Jesus de Nazaré e Allan Kardec com a "discreta" figura de Francisco Candido Xavier, escrevendo alguma coisa. A edição da imagem, um apelo claramente demagógico, não consegue sequer arrumar o "braço cortado do professor lionês com o paletó do anti-médium mineiro, daí o grotesco da imagem em questão.

Um referido líder "espírita", usando essa imagem tendenciosa, tentou usar em causa própria os ensinamentos de Erasto e Allan Kardec, sobretudo a frase do primeiro, que diz: "É melhor repelir dez verdades do que admitir uma única mentira".

Com sua pregação sobre a "coerência de conduta", o "bondoso" palestrante tenta exaltar a Doutrina Espírita e se julgar fiel a Allan Kardec, mas se mantendo fiel, na verdade, ao rol de mistificações e fraudes simbolizados pelo anti-médium mineiro Chico Xavier.

E aí a mentira de Chico Xavier é aceita, admitida tanto por setores oportunistas quanto alguns setores fracos do Espiritismo. Os primeiros, pelo gosto da mistificação, de promover a fraude sob o verniz da "boa conduta", da "boa palavra" e do "trabalho fraternal".

Os segundos, por sua vez, ficam temerosos em não ver arranhar o mito dócil do anti-médium mineiro, o mantém tal qual um penetra que invadiu uma festa, devorou seus quitutes e já está conversando com muitos convidados.

Erasto nunca teria aprovado Chico Xavier. O discípulo de Paulo de Tarso havia lançado suas epístolas, em comunicação espiritual, alertando sobre o perigo de espíritos enganadores e outras pessoas lançarem ideias mistificadoras que viessem provocar a divergência e a desunião.

O exemplo traiçoeiro que surgiu foi o roustanguismo, a nebulosa doutrina de Jean-Baptiste Roustaing, o advogado francês que deturpou os ensinamentos de Allan Kardec. Em seus alertas, ele tentou nos prevenir que os mistificadores iriam usar as mais belas palavras para seduzir as pessoas, e farão de tudo para mantê-las sob seu domínio.

Mas aí os ideólogos do "espiritismo" brasileiro, tão "brilhantes", tentam tirar Chico Xavier, o homem que sempre "quis unir", das acusações de promover a divergência e a desunião. E, no entanto, por que Erasto teria reprovado severamente, com a mais enérgica firmeza, a figura de Chico Xavier?

Simples. Se a mistificação da Doutrina Espírita veio através de Jean-Baptiste Roustaing, adotado entusiasmadamente pela FEB (a memória curta tenta omitir esse dado, mas ele ocorreu), Chico Xavier foi a pessoa escolhida para adaptar o pensamento de Roustaing à realidade brasileira, tornando-se uma opção ao advogado de Bordéus se caso ele saísse desacreditado em um escândalo.

E foi aí que isso ocorreu. O desgaste de Roustaing até fez a FEB demorar para riscar o nome do autor de Os Quatro Evangelhos da ideologia "espírita", mas os livros de Chico Xavier representaram uma opção já que o mineiro adaptou o roustanguismo ao contexto brasileiro e tirando a "acidez" da obra original, evitando os pontos agressivos e polêmicos trazidos por Roustaing.

Chico até substituiu os terríveis "criptógamos carnudos", que são os vermes que abrigam espíritos de humanos falidos, imaginados por Roustaing, pelos "bichinhos do além", como os cachorrinhos, gatinhos e passarinhos que se supõe estarem no mundo espiritual, uma tese refutada seguramente por Kardec e da qual a Ciência não trouxe sequer um indício lógico de probabilidade.

O próprio conservadorismo de Chico Xavier deveria ter sido um alerta para as pessoas evitarem o apreço de suas ideias e textos. Contrariando a vocação transformadora de Allan Kardec, o anti-médium mineiro sempre pregou o conformismo e a apologia do sofrimento, corrompendo as emoções humanas a desejarem o pior para elas mesmas a pretexto dos prêmios indefinidos da "vida futura".

São os prêmios das "bênçãos", que fazem com que os infelizes da Terra não tenham sequer oportunidade de ajudar as pessoas pelo trabalho ou pela divulgação de grandes ideias, mas tão somente a suportar o arbítrio dos calhordas e dos canalhas, aguentar seu poderio, tendo em troca as "benesses futuras" das quais não se tem qualquer ideia do que e como seriam.

Isso corrompe sentimentos, fazendo com que as pessoas ora se sintam por demais orgulhosas ora por demais submissas, ora deprimidas, ora debilmente alegres (no sentido alucinógeno do termo). E isso é muito mal, em função do "sofrimento sem queixumes" que se tornou a bandeira ultraconservadora de Chico Xavier, que muitos erroneamente pensam ser "progressista".

A julgar pela trajetória confusa, pelos ideais contraditórios, pelas atitudes imprecisas e por muito de mistificação e quase nada de realidade, da parte de Chico Xavier, o que poderemos dizer, com a máxima segurança possível, é que Erasto reprovaria o anti-médium, não permitindo qualquer tipo de relativização.

Calúnia? Perseguição? Dissabor? Evidentemente não. O problema é que Chico Xavier personificou todo um rol de mistificações, irregularidades, fraudes, contradições, que, de tão grandes e de tão graves, o fazem ser uma figura nociva para a Doutrina Espírita, conforme os argumentos que o discípulo de Paulo de Tarso havia advertido com tamanha urgência.

Portanto, é tendencioso que o líder "espírita", como qualquer outro, venha a usar Erasto para defender Chico Xavier. Isso é coisa de um discurso embusteiro, travestido da "mais coerente e serena retórica", e mais uma vez é Erasto que, diante disso, nos alerta sobre o perigo dos discursos cheios de beleza, mansuetude e pretensa sabedoria, nos quais se escondem a mentira e a enganação mais cruéis.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Data-Limite, segundo Carl Sagan


O renomado cientista estadunidense Carl Sagan (1934-1996), que era ateu, surpreende com o texto que reproduziremos abaixo com uma lição de espiritualidade que o anti-médium mineiro Francisco Cândido Xavier não teve.

Além disso, o mais grave é que, enquanto Chico Xavier apostava na ideia medieval do geocentrismo, com a Terra sendo vista como o "centro do Universo" e o Brasil como "pátria mais poderosa da Terra", Carl Sagan definiu a Terra como um pálido (e pequeno) ponto azul.

Tendo sido um dos mais importantes astrofísicos do mundo, Sagan tem conhecimento de causa para ter escrito o texto a seguir, com base numa fotografia, exibida a seguir, da sonda lançada pela NASA, a Voyager 1, em 1990, em que a Terra é vista a 6,4 bilhões de quilômetros de distância.

O texto de Carl Sagan revela o quanto a humanidade perdeu tempo com sua vaidade em querer se destacar dentro de um pequenino ponto do universo. E isso contrasta seriamente Chico Xavier, que definia a Terra em sua pretensa grandeza, temperada com a patriotada astral do Brasil como um "coração do mundo" e "pátria do Evangelho".

Para Sagan, isso não importava. Ele definiu a Terra como nossa morada, mas como um pequeno ponto no Universo que impõe nossa responsabilidade de respeitarmos, uns aos outros, e preservar e admirar a única morada que conhecemos, que é o pálido ponto azul.

Abrimos espaço para o texto, que nos diz muita coisa em sua lucidez e seu surpreendente conteúdo poético escrito em prosa, e que mostra a sua beleza e a sua coerência, tendo sido um dos mais brilhantes e admiráveis legados deixados por Carl Sagan para a posteridade.


O PÁLIDO PONTO AZUL

Por Carl Sagan

Considere novamente esse ponto. É aqui. É nosso lar. Somos nós. Nele, todos que você ama, todos que você conhece, todos de quem você já ouviu falar, todo ser humano que já existiu, viveram suas vidas. A totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e saqueador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e plebeu, cada casal apaixonado, cada mãe e pai, cada crianças esperançosas, inventores e exploradores, cada educador, cada político corrupto, cada “superstar”, cada “lidere supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali, em um grão de poeira suspenso em um raio de sol.

A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pense nas infindáveis crueldades infringidas pelos habitantes de um canto desse pixel, nos quase imperceptíveis habitantes de um outro canto, o quão frequentemente seus mal-entendidos, o quanto sua ânsia por se matarem, e o quão fervorosamente eles se odeiam. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, em sua gloria e triunfo, eles pudessem se tornar os mestres momentâneos de uma fração de um ponto. Nossas atitudes, nossa imaginaria auto-importância, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo, é desafiada por esse pálido ponto de luz.

Nosso planeta é um espécime solitário na grande e envolvente escuridão cósmica. Na nossa obscuridade, em toda essa vastidão, não ha nenhum indicio que ajuda possa vir de outro lugar para nos salvar de nos mesmos. A Terra é o único mundo conhecido até agora que sustenta vida. Não ha lugar nenhum, pelo menos no futuro próximo, no qual nossa espécie possa migrar. Visitar, talvez, se estabelecer, ainda não. Goste ou não, por enquanto, a terra é onde estamos estabelecidos.

Foi dito que a astronomia é uma experiência que traz humildade e constrói o caráter. Talvez, não haja melhor demonstração das tolices e vaidades humanas que essa imagem distante do nosso pequeno mundo. Ela enfatiza nossa responsabilidade de tratarmos melhor uns aos outros, e de preservar e estimar o único lar que nós conhecemos… o pálido ponto azul.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Chico Xavier e seu exército de palavras


Usando o nome de Humberto de Campos, na mensagem final sobre o caso do escritor maranhense que, postumamente, foi envolvido em processo judicial contra Francisco Cândido Xavier e a Federação "Espírita" Brasileira, o anti-médium mineiro lamentou o "exército de parágrafos" que significou a ação judicial dos herdeiros do escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.

Pois que moral tem Chico Xavier para falar no "exército de parágrafos que atormenta(va)m os juízes" do texto divulgado em 1944? Suas obras foram um grande "exército de palavras" ditas de forma doce mas que promoveram, de forma irresponsável, a mistificação e deturpação da Doutrina Espírita e a manipulação de corações e mentes da gente desavisada.

A confusa trajetória de Chico Xavier, cheia de mistificações piegas que adoçam os corações de seus seguidores e envenenam suas vidas, é marcada de tantas irregularidades que é preocupante que eles acreditem que o anti-médium é a "pessoa mais purificada que passou pela face da Terra".

Pois uma coisa é errar, outra é errar de propósito, excessivas vezes e de forma frequentemente mais grave. Este segundo caso é o de Chico Xavier, que com seus 418 livros atribuídos à sua autoria como "médium" praticamente rasgou todos os ensinamentos trazidos trabalhosamente por Allan Kardec.

A quantidade é comemorada pelos "espíritas" brasileiros como uma espécie de "expressão máxima de caridade". No entanto, a leitura cautelosa da bibliografia de Chico Xavier é um grande engodo, no qual nada é aproveitável, porque até as ideias que parecem apreciáveis podem ser obtidas por outras fontes de maior confiabilidade.

Tudo é muito confuso na obra de Chico Xavier, em que se misturam propaganda religiosa com pedantismo científico, interpretações contraditórias de seus próprios seguidores, frases dóceis que glamourizam o sofrimento humano e tantas coisas duvidosas e arriscadas. Coerência, lógica e bom senso nunca existiram no dicionário de Chico Xavier.

Ele nem esteve por trás de boa parte dos livros, já que sua sobrecarga de compromissos o impedia de participar rigorosamente de todos os livros que levam o seu nome como "médium". Em muitos casos, os editores da FEB, como verdadeiros ghost writers vivos, produziam, imitando o estilo de discurso de Chico, e depois ele autorizava o uso de seu nome no crédito da obra.

São detalhes nebulosos, aos quais a polêmica já desqualifica a reputação de Xavier, porque não há como alguém se sustentar com segurança numa reputação superior se ela é recheada de tantos aspectos sombrios.

Afinal, que "luz" é essa que não passa de uma selva trevosa de tantas sombras? É possível relativizar erros, mas os erros de Chico Xavier são extremamente graves e os aspectos de sua vida são tão confusos e contraditórios que ele seria reprovado mediante uma avaliação final de sua obra.

A coerência, a firmeza e a lógica deveriam falar alto sobre a bondade. Afinal, a verdadeira bondade é, acima de tudo, coerência, firmeza, lógica, e não um véu confuso coberto de palavras dóceis e mistificações de suposta filantropia.

Chico Xavier nunca foi coerente, agiu sem firmeza em alguns momentos, em outros errou de propósito ou apoiou atitudes errôneas abertamente. E uma pessoa que escreve para "sofrermos amando", como se fosse bom ver as coisas dando errado na vida, não merece o status de "mais elevada pessoa que passou pela face da Terra".

O engodo que o "exército de palavras" dos livros chiquistas e das frases dóceis colecionadas nas mídias sociais foi muito ruim. Aliás, Chico Xavier fez mais coisas ruins do que boas, e mesmo algumas atividades tidas como "caridade" não passam de crueldades traiçoeiras.

Como as mensagens apócrifas atribuídas falsamente a espíritos de entes falecidos, que expunham as famílias à ostentação desnecessária de suas tragédias pessoais, prolongando as tristezas e exibindo sem necessidade alguma suas lágrimas e gestos de tristeza e comoção, que soam patéticos diante da exploração sensacionalista de dramas que poderiam ser guardados na privacidade.

A confusão de ideias sem pé nem cabeça, de grotescos erros históricos, de retrógrada pregação moralista, de mistificação religiosa extrema, tudo isso só permite a Chico Xavier ser visto como "espírito puro da mais superior elevação moral" diante das paixões terrenas de seus seguidores.

Isso porque eles, tomados de fé cega, aceitam erros e contradições, apoiados em estereótipos de filantropia, bondade e humildade que os fazem adorar a imagem de um velhinho frágil, logo as pessoas que não dão o mesmo valor para os idosos que estão em suas casas, como mães, pais, tios, tias, avôs, avós, sogros, sogras ou mesmo esposas, colegas de trabalho e amigos.

Tudo é confuso em Chico Xavier e sua obra é um amontoado de contradições. A mistificação e as luzes artificialmente produzidas em torno de sua pessoa não conseguem sustentar firmemente a sua imagem, porque a verdadeira bondade não sobrevive nesse pântano de mistificação, deturpação, erros, contradições e controvérsias que é a obra chiquista.

Bondade é, acima de tudo, lógica, coerência, honestidade, e o mínimo de erros possível, pelo menos erros sem gravidade. Não há como ver perfeição, bondade e humildade em pântanos de controvérsias e contradições. Daí ser compreensível que, quando alguém tenta apagar a "luz" de Chico Xavier, os chiquistas reagem com ódio e fúria. Nessa confusão toda, não há amor que se sustente em pé.