ILUSTRAÇÃO MOSTRA O IMPÉRIO ROMANO DURANTE A IDADE MÉDIA.
Um dos pontos que incomodam os adeptos de Francisco Cândido Xavier é a ideia de que, por trás da "maravilhosa profecia" do Brasil como "coração do mundo", está um projeto de rearticulação do Império Romano medieval, berço do Catolicismo mais conservador.
Evidentemente, a ideia não seria exposta de forma mais clara, mas ela é certa porque analisamos as coisas por trás das aparências e do discurso dócil, juntando as peças para constatarmos uma hipótese que não parece tão agradável quanto parece ser, à primeira vista.
Se o "espiritismo" brasileiro surgiu no século XIX, se baseou no Catolicismo vigente, que herdou do Catolicismo português que, por sua vez, ainda mantinha um ranço medieval, então ele tem suas bases medievais, trazidas sobretudo pelas mensagens de Emmanuel (que foi Manuel da Nóbrega) e Joana de Angelis (que NÃO foi Joana Angélica).
O "espiritismo" só combateu o Catolicismo medieval nos pontos que se tornaram incômodos para os dias de hoje. Não combateu, no entanto, a essência de sua doutrina, mas hoje prefere cooptar do que exterminar o pensamento científico e as chamadas heresias.
O que está em jogo nesse projeto do "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho", que virou até nome de livro que o anti-médium Chico Xavier co-escreveu com Antônio Wantuil de Freitas mas botou na conta do espírito de Humberto de Campos - que não está mais aí para reclamar - , é a ameaça de uma nova teocracia que simboliza o revanchismo dos antigos medievais.
Isso porque eles não gostaram quando o Império Romano ruiu, por volta do ano 476 da nossa era e, um milênio depois, do declínio, pelo menos como força hegemônica, do próprio Catolicismo medieval. Também não gostaram quando o Marquês de Pombal, primeiro-ministro português, ordenou o fim das atividades jesuítas no Brasil, ainda no século XVIII.
Queriam rearticular o Catolicismo jesuíta do Brasil colonial trazendo a Doutrina Espírita de Allan Kardec para a deturpação catolicizante baseada em Jean-Baptiste Roustaing, por sua vez devidamente adaptado pela obra de Francisco Cândido Xavier.
Agora, sob o pretexto de criar uma "nação de amor e fraternidade" a "conduzir" a humanidade planetária e promover seu desenvolvimento humanístico, anuncia-se que o Brasil irá ascender diante dos presumidos escombros do Primeiro Mundo, promovendo uma série de transformações e progressos que não se sabe de que forma florescerão num país problemático e caótico como o nosso.
FUTURO PERIGOSO
O que se observa por trás da "maravilhosa profecia" de Chico Xavier é que poderá vir um processo semelhante ao que aconteceu na Antiguidade quando, aos poucos, os progressos de ordem cultural, científica e intelectual observados na Grécia Antiga deram lugar ao obscurantismo teocrático medieval do Império Romano pós-Constantino.
Para quem não sabe, o imperador Constantino (288-337), considerado um dos fundadores do Império Romano do Oriente (tentativa de descentralizar a administração política do Império Romano), teria adaptado o Cristianismo primitivo conforme os valores e interesses da aristocracia imperial romana, criando as bases para o que se conhece hoje como Igreja Católica.
Através dessa fase, o Império Romano deixou para trás todo aquele legado sócio-cultural, científico e filosófico que marcaram a Antiguidade clássica, desde as expressões da Grécia Antiga até a fase em que Roma havia criado um cenário equivalente.
O que se observou foi o início de uma prática de supremacia político-religiosa, que deu origem a um período de intensa repressão e violência, com extermínios e outras crueldades. E tudo isso porque o Império Romano e, mais tarde, o Catolicismo apostólico romano, queria promover o "amor em Cristo" e a "união dos povos no planeta".
Esse temor é o que se observa quando "espíritas" anunciam alegremente que o Brasil "florescerá", diante das catástrofes e atos terroristas que iriam dizimar o Primeiro Mundo, desde terremotos e maremotos que destruiriam a Califórnia, até geleiras derretidas que causariam enchentes a destruir a Escandinávia, passando pelos inúmeros atentados a bomba que arrasariam capitais europeias.
Um Brasil que hoje não consegue manter um abastecimento de água em vários Estados vai ver surgirem do nada cientistas, intelectuais e artistas de grande valor que não têm dinheiro nem apoio para terem sequer um pouquinho mais de visibilidade e que são até rejeitados por boa parcela do grande público.
Isso, na verdade, é uma conversa para boi dormir. Chico Xavier e Divaldo Franco - um dos entrevistados em Data-Limite Segundo Chico Xavier - há muito exploram esse otimismo como forma de atraírem público para si (Chico até 2002) e para os "centros espíritas", sem que percebamos o que está por trás da "cobertura" desse bolo "delicioso e saudável".
O velho fantasma do extermínio de regiões de muito esclarecimento cultural - mesmo em crise, a Europa e os EUA conseguem ampliar e fortalecer o debate sobre diversos deslizes sociais, culturais e políticos - remete à uma possível repetição do extermínio da Grécia, cujas antigas cidades viraram ruínas e cuja boa parte de seu acervo se perdeu, desaparecendo na posteridade.
O Brasil que vê no "funk carioca" um símbolo de "progresso sócio-cultural" vai conduzir a humanidade planetária. De um lado, as baixarias do grotesco atribuídas ao "popular". De outro, o religiosismo moralista "espiritualizado" dos "evoluídos". Sem qualquer sinal de progresso, mas afundado numa crise, o Brasil se destina a ser "a nação mais poderosa do planeta".
Com isso, se repetirá o caso da Antiguidade destruída, enquanto o Catolicismo medieval simbolizava o lado místico e religioso do poder do Império Romano, coisa que se pode repetir quando um Brasil em frangalhos se tornar a "maior nação do mundo".
Eliminando o "velho mundo" que começa a se reavaliar em autocrítica para dar lugar à supremacia de um Brasil tomado de fé cega e impulsos violentos - os noticiários não mentem - , sobretudo a Escandinávia com sua qualidade de vida, o projeto do "coração do mundo" (se esqueceram de que deveria haver também um "cérebro do mundo") poderá trazer danos sérios para a humanidade.
A ideia de um país política e religiosamente centralizador, ainda que sob o pretexto de "unir os povos esclarecidos e sofredores do planeta" e de "resumir as diversas crenças e culturas numa única manifestação de solidariedade", representa sério perigo.
Pois o próprio Catolicismo medieval veio com essa conversa de "união de povos e culturas", de "promoção da solidariedade", de "defesa dos princípios cristãos", e deu no que deu: um período de violentos declínios de ordem social, cultural e política do qual a humanidade teve muito trabalho de recuperar o antigo progresso depois que a Idade Média passou.
Agora, quando se tenta levar um caminho de algum avanço para a humanidade da Terra, surge uma nova ameaça que irá mais uma vez provocar outro retrocesso planetário, criando mais uma dificuldade para se recuperar de tamanhas quedas.
O mundo poderá ficar mais uma vez infartado com mais uma supremacia político-religiosa, desta vez prevista pelo tal projeto do "coração do mundo".
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
"Espiritismo" brasileiro, Geocentrismo e "Doutrina do Povo Escolhido"
O que chama a atenção das supostas "profecias" de Chico Xavier, apreciadas no documentário Data-Limite Segundo Chico Xavier, é a de que o Brasil se tornaria a nação mais poderosa do planeta e o "movimento espírita" a "última palavra" em doutrinas espiritualistas, talvez a religião mais influente do chamado "coração do mundo".
Essas ideias vieram desde 1932, quando foram lançadas as expressões "coração do mundo, pátria do Evangelho" atribuídas ao Brasil, num poema que Chico Xavier escreveu, com a ajuda de editores da FEB e consultores literários envolvidos, que leva o nome do país e que atribuiu-se a autoria espiritual a Olavo Bilac, embora o poema fuja completamente do estilo original do poeta parnasiano.
As duas ideias, "coração do mundo" e "pátria do Evangelho", sugerem a supremacia político-religiosa do Brasil "espírita", e só mesmo juntando as peças do quebra-cabeça, como fazemos neste blogue, para revelarmos o que está por trás das dóceis aparências do discurso "abundante de lições de amor".
Se levarmos em conta que o "movimento espírita" tem sua origem oficial em 1884, com a fundação da FEB, e suas raízes cerca de duas décadas antes, veremos que tudo isso se deu num contexto dominado pela Igreja Católica de herança portuguesa e dotado ainda de muitos fundamentos e procedimentos medievais.
O histórico do "espiritismo" não foi de um confronto firme com a Igreja Católica, mas tão somente com setores mais ortodoxos, o que não indica uma ruptura à essência do Catolicismo medieval. Como quem muda os anéis para preservar os dedos, o Catolicismo medieval redivivo no "espiritismo" brasileiro eliminou o que havia de intolerante e punitivo nas práticas medievais mais típicas.
Duas heranças do Catolicismo medieval observadas no "movimento espírita" e expressas pela "profecia" de Chico Xavier são o Geocentrismo e a Doutrina do Povo Escolhido, dois elementos latentes na "encantadora visão" do Brasil como "coração do mundo e pátria do Evangelho".
As duas ideias do Catolicismo medieval teriam sido adaptações de uma crença do judaísmo, que via em Israel a Terra Prometida e o povo hebreu como o Povo Escolhido. Essas adaptações pelo Catolicismo do Império Romano, já no período da Idade Média, conduziram a sua supremacia religiosa e política, baseada no seu poder concentrado e punitivo.
Dessa feita, o Catolicismo medieval via na Terra o planeta central de todo o universo, tese que foi conhecida como Geocentrismo e que tentou ser combatida pelo cientista Galileu Galilei, que por seus estudos revelou que a Terra era apenas um planeta dentro do Sistema Solar, por sua vez uma galáxia entre milhares de outras no Universo.
O Povo Escolhido, conforme o Catolicismo medieval pregava, era o "povo cristão", daí os esforços para combater ou, ao menos, converter os "hereges", num processo que era bastante violento e causou consequências trágicas notáveis.
Adaptando as duas crenças católicas, o "movimento espírita" brasileiro adaptou o Geocentrismo à promessa de que o Brasil exerceria em breve a supremacia política no mundo, constituindo numa nova teocracia, de cunho "espírita", destinada a "evangelizar" a humanidade planetária.
O Brasil seria o "centro do mundo", o "coração do mundo" seria também o "centro do universo", conforme se observa nas perspectivas divulgadas nos meios "espíritas", longe das despretensões geográficas de Allan Kardec, que nunca se preocupou em tamanhas predições.
A Doutrina do Povo Escolhido, segundo o "movimento espírita", seria o brasileiro, supostamente afeito a exercer a vanguarda da espiritualidade, algo inexplicável diante do atual quadro catastrófico de imbecilização cultural e um preocupante caos social, diante de uma crise generalizada, e isso a quatro anos da tal "data-limite".
Explicar como se dará a supremacia brasileira é difícil para os "espíritas" brasileiros, que preferem justificar as coisas pela "esperança da fé", já que não existem, hoje, condições para que se haja a tão prometida ascensão de uma grande geração de grandes cientistas, artistas e intelectuais. Eles até existem, mas nem visibilidade eles conseguem ter para tal missão.
O aspecto perigoso da Doutrina do Povo Escolhido - que nos EUA teve como equivalente a Doutrina do Destino Manifesto, ideologia que inspirou seu imperialismo - é que a supremacia brasileira, como toda supremacia nacional, pode revelar um perigoso domínio político-religioso, e não é por ser o nosso país que iremos ficar felizes com essa supremacia.
Infelizmente, alertar esse perigo só causa raiva e indignação aos adeptos de Chico Xavier, que preferem que a supremacia brasileira seja vista como "algo positivo". Mas já vimos outros exemplos similares e o grande temor é que o Brasil, sem resolver seus próprios problemas, se torne uma nação prepotente e tirânica, concentrando seu poder por todo o planeta.
domingo, 8 de fevereiro de 2015
O mito do povo brasileiro como o "escolhido" do Coração do Mundo
ESSES SERÃO OS "LÍDERES" DO PLANETA, SEGUNDO CHICO XAVIER.
A "profecia" de Francisco Cândido Xavier de que o Brasil será a "nação mais poderosa do mundo" segue alguns argumentos que, à primeira vista, parecem maravilhosos e animadores, mas escondem o lado sombrio da supremacia político-religiosa que na prática irá desfazer todos os "alegres presságios".
Um desses argumentos é que os brasileiros são tidos como a "síntese dos vários povos do planeta". A partir da tese de correntes mais conservadoras da Antropologia, que vão desde Gilberto Freyre até intelectuais comprometidos com a bregalização cultural, povos diversos, como negros, indígenas e europeus se misturaram sem muitos conflitos, de maneira harmoniosa e feliz.
Sabe-se que isso não é verdade e que índios foram exterminados por bandeirantes, negros eram escravizados por senhores de engenhos e imigrantes italianos tinham que se sacrificar para conseguir algum emprego. A miscigenação ocorreu, mas não necessariamente de forma harmoniosa, a não ser em casos eventuais.
A visão um tanto utópica da "síntese do mundo", da aparente cordialidade dos brasileiros, o mito da hospitalidade e da alegria, é a fonte das argumentações que os "espíritas" brasileiros fazem do povo do nosso país, criando uma visão, de cunho claramente positivista, de que o Brasil comandará a "evolução" da humanidade planetária.
Portanto, o mito carrega qualidades positivas como a alegria, a generosidade e o caráter hospitaleiro. Acredita-se, levando em conta as "bondosas visões" de Chico Xavier, que com o Brasil promovido a nação poderosa iríamos espalhar solidariedade e harmonia para o mundo, pedindo para que o mundo dê suas mãos para nós. Tudo lindo.
O problema é que isso mais parece um conto-de-fadas. O "espiritismo", com suas contradições, também não esclarece muito com isso. Além do mais, há passagens racistas, contra índios e negros, em Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, vistos como "degraçados" mas "merecedores da misericórdia divina".
Os negros eram vistos como "selvagens" e os índios, "puros de coração" ("ingênuos"). Ambos eram alvo da conversão religiosa dos jesuítas, elogiada pelo livro de Chico Xavier atribuído (tendenciosamente) a Humberto de Campos. Evidentemente, Chico Xavier teria que fazer seu elogio ao passado do seu mentor, o padre Emmanuel.
ESPÍRITO NÃO TEM PÁTRIA
A visão "missionária" do Brasil como "nação mais poderosa do mundo" não tem a menor coerência. Afinal, trata-se de uma visão que herda elementos do Geocentrismo medieval e da Doutrina do Povo Escolhido católica, traduzida pelo "movimento espírita" num engodo que mistura Astrologia e conhecimentos mal assimilados de Física, Astronomia, Geologia, Psicologia ou até Antropologia.
Mas isso tudo é apenas uma patriotada religiosa, que não vai trazer melhorias para o povo brasileiro. Muito pelo contrário, o conceito de "nação poderosa" e de "religião unificada" remetem a períodos bastante maléficos da história da humanidade, e não é preciso muito esforço para entender isso, apesar de ser uma constatação que choca a muitos.
Primeiro, porque a noção material de uma nação centralizada diz que o Brasil, segundo a pretensa previsão de Chico Xavier, será o "coração do mundo", o que é uma alegoria para um poder centralizado, já que a expressão "coração" é uma metáfora normalmente relacionada à ideia de "centro", de "comando".
Segundo, porque com a evocação religiosa dessa postura, a de "pátria do Evangelho", se voltará à velha teocracia católica da fase medieval do Império Romano, o que trará não só um poder centralizado e provavelmente coercitivo e dominador, mas um poder que, nessas condições, se apoia em motivações de caráter religioso e pretensamente divino.
Terceiro, porque o pretexto de que o Brasil será a "síntese do mundo" é uma declaração hipócrita, porque a retórica que fala em "união de todos os povos" e "integração de todas as crenças" esconde o processo da inculturação católica-medieval, que se baseia no princípio de "absorver para unificar, mas unificar para dominar".
O povo brasileiro, tido como o "povo escolhido", por conta do clima tropical e alguns estereótipos conhecidos do imaginário turístico, como a alegria, a festividade e a hospitalidade, é apenas um povo situado no contexto material de uma extensão de terras. Portanto, nada de perspectivas espiritualistas feitas à sombra da chamada constelação do Cruzeiro do Sul.
Não há povos escolhidos, e isso contraria seriamente os princípios de fraternidade e de diversidade, porque se estabelece tão somente um povo privilegiado. Isso não existe. Mais uma vez separa-se um povo que "merece ser poupado" e outros que "terão que ser eliminados", criando assim mais um processo de dominação política, religiosa e ideológica que poderá causar grandes danos no futuro.
A "profecia" de Francisco Cândido Xavier de que o Brasil será a "nação mais poderosa do mundo" segue alguns argumentos que, à primeira vista, parecem maravilhosos e animadores, mas escondem o lado sombrio da supremacia político-religiosa que na prática irá desfazer todos os "alegres presságios".
Um desses argumentos é que os brasileiros são tidos como a "síntese dos vários povos do planeta". A partir da tese de correntes mais conservadoras da Antropologia, que vão desde Gilberto Freyre até intelectuais comprometidos com a bregalização cultural, povos diversos, como negros, indígenas e europeus se misturaram sem muitos conflitos, de maneira harmoniosa e feliz.
Sabe-se que isso não é verdade e que índios foram exterminados por bandeirantes, negros eram escravizados por senhores de engenhos e imigrantes italianos tinham que se sacrificar para conseguir algum emprego. A miscigenação ocorreu, mas não necessariamente de forma harmoniosa, a não ser em casos eventuais.
A visão um tanto utópica da "síntese do mundo", da aparente cordialidade dos brasileiros, o mito da hospitalidade e da alegria, é a fonte das argumentações que os "espíritas" brasileiros fazem do povo do nosso país, criando uma visão, de cunho claramente positivista, de que o Brasil comandará a "evolução" da humanidade planetária.
Portanto, o mito carrega qualidades positivas como a alegria, a generosidade e o caráter hospitaleiro. Acredita-se, levando em conta as "bondosas visões" de Chico Xavier, que com o Brasil promovido a nação poderosa iríamos espalhar solidariedade e harmonia para o mundo, pedindo para que o mundo dê suas mãos para nós. Tudo lindo.
O problema é que isso mais parece um conto-de-fadas. O "espiritismo", com suas contradições, também não esclarece muito com isso. Além do mais, há passagens racistas, contra índios e negros, em Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, vistos como "degraçados" mas "merecedores da misericórdia divina".
Os negros eram vistos como "selvagens" e os índios, "puros de coração" ("ingênuos"). Ambos eram alvo da conversão religiosa dos jesuítas, elogiada pelo livro de Chico Xavier atribuído (tendenciosamente) a Humberto de Campos. Evidentemente, Chico Xavier teria que fazer seu elogio ao passado do seu mentor, o padre Emmanuel.
ESPÍRITO NÃO TEM PÁTRIA
A visão "missionária" do Brasil como "nação mais poderosa do mundo" não tem a menor coerência. Afinal, trata-se de uma visão que herda elementos do Geocentrismo medieval e da Doutrina do Povo Escolhido católica, traduzida pelo "movimento espírita" num engodo que mistura Astrologia e conhecimentos mal assimilados de Física, Astronomia, Geologia, Psicologia ou até Antropologia.
Mas isso tudo é apenas uma patriotada religiosa, que não vai trazer melhorias para o povo brasileiro. Muito pelo contrário, o conceito de "nação poderosa" e de "religião unificada" remetem a períodos bastante maléficos da história da humanidade, e não é preciso muito esforço para entender isso, apesar de ser uma constatação que choca a muitos.
Primeiro, porque a noção material de uma nação centralizada diz que o Brasil, segundo a pretensa previsão de Chico Xavier, será o "coração do mundo", o que é uma alegoria para um poder centralizado, já que a expressão "coração" é uma metáfora normalmente relacionada à ideia de "centro", de "comando".
Segundo, porque com a evocação religiosa dessa postura, a de "pátria do Evangelho", se voltará à velha teocracia católica da fase medieval do Império Romano, o que trará não só um poder centralizado e provavelmente coercitivo e dominador, mas um poder que, nessas condições, se apoia em motivações de caráter religioso e pretensamente divino.
Terceiro, porque o pretexto de que o Brasil será a "síntese do mundo" é uma declaração hipócrita, porque a retórica que fala em "união de todos os povos" e "integração de todas as crenças" esconde o processo da inculturação católica-medieval, que se baseia no princípio de "absorver para unificar, mas unificar para dominar".
O povo brasileiro, tido como o "povo escolhido", por conta do clima tropical e alguns estereótipos conhecidos do imaginário turístico, como a alegria, a festividade e a hospitalidade, é apenas um povo situado no contexto material de uma extensão de terras. Portanto, nada de perspectivas espiritualistas feitas à sombra da chamada constelação do Cruzeiro do Sul.
Não há povos escolhidos, e isso contraria seriamente os princípios de fraternidade e de diversidade, porque se estabelece tão somente um povo privilegiado. Isso não existe. Mais uma vez separa-se um povo que "merece ser poupado" e outros que "terão que ser eliminados", criando assim mais um processo de dominação política, religiosa e ideológica que poderá causar grandes danos no futuro.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
Paixões materialistas motivam idolatria a Chico Xavier
O "espiritismo" feito no Brasil é materialista. Bem mais do que o marxismo, por exemplo, porque Karl Marx se preocupou com a sociedade igualitária e solidária - que ele chamava de "comunista", com base na ideia de bem comum a todos; o termo "comunista", infelizmente, acabou sendo "demonizado" na sociedade capitalista - , à sua maneira.
O "movimento espírita" se baseou em fontes medievais, trazidas pelo Catolicismo português que ainda as manteve. E isso acaba influindo nas ideias materialistas que sutilmente são mantidas no sistema de valores supostamente "espírita".
As pessoas podem achar isso absurdo, porque não acreditariam que o "espiritismo" feito no Brasil é materialista, mas ele deixa sinais claros do seu mais puro materialismo, baseado em ritos, dogmas e até em valores moralistas que transformam, entre outras coisas, a instituição Família numa entidade pétrea, que fosse além dos laços hierárquicos materiais.
Mesmo o mundo espiritual do "espiritismo" é materialista, porque é uma interpretação caricatural e um tanto pedante dos planos materiais que somente a física quântica, associada com estudos do Magnetismo de Franz Mesmer, poderiam explicar melhor aquilo que os delírios de Waldo Vieira para seu personagem André Luiz não conseguiram esclarecer.
ESTEREÓTIPOS MOVEM IDOLATRIA A CHICO XAVIER
Os fanáticos de Chico Xavier, que não aceitam um til dado contra ele, são muito mais materialistas do que muito stalinista que deturpou o comunismo de Karl Marx num totalitarismo de esquerda. E isso sob os pretextos que se supõem os mais espiritualistas e desapegados à matéria.
No entanto, o materialismo torna-se claro quando Chico Xavier se torna endeusado justamente por suas "qualidades materiais": interiorano, de origem humilde, jeito caipira, modesta instrução (embora "devorador" de livros), e, tempos depois, idoso e aparentemente frágil.
São aparentes fragilidades que não deixam de ser consideradas como critérios materialistas. E são elas que respaldam, num processo de contraste ideológico, a suposta "superioridade" de Chico Xavier, como se ela agisse em função de tais fragilidades.
Ele mesmo era a personificação de contrastes e o símbolo da glamourização do sofrimento humano defendido pelo neo-medieval "movimento espírita" brasileiro. A "força" garantida pela fragilidade, a "felicidade" obtida pelo pior sofrimento, a "sabedoria" pela ignorância, a "voz" do silêncio.
Sobre o último item, a ditadura militar (apoiada por Chico Xavier) iria adorar, não precisava sequer o AI-5, Chico era capaz de silenciar vozes com tranquilidade, teria o poder de dissolver passeatas dos cem mil com suas melífluas "palavras de amor", era uma espécie de "AI-5 do amor".
Sua ideologia prometia a libertação pela castração, numa interpretação errada das lições do sofrimento. Não é o sofrimento que é bom, o que é bom é quando o sofredor reage contra o sofrimento e cria meios de combatê-lo. Isso não é a mesma coisa que dizer que o sofredor recebe bênçãos porque sofre o pior dos sofrimentos.
Chico Xavier simboliza os estereótipos que os brasileiros mais conservadores e moralistas esperam de uma pessoa a ser admirada. Interiorano, de origem humilde, caipira, "bom velhinho". Seus seguidores pouco prestaram atenção às fraudes que tiveram sua participação e do quanto ele usou de sua esperteza para os desvios cometidos pelo "movimento espírita".
Por isso, por mais que se falem em sentimentos "do mais elevado grau de espiritualidade", são as paixões materiais que movem as emoções dos seguidores de Chico Xavier e seu sentimentalismo cego dos "olhos do coração" se apoia em impressões meramente terrenas, uma visão puramente materialista do que é a espiritualidade e a natureza da vida espiritual.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
Chico Xavier e seu medo de assumir Roustaing
O DISCÍPULO E O MESTRE - Chico Xavier e a imagem atribuída a Jean-Baptiste Roustaing pelo blogue ARON, UM ESPÍRITA.
Sugere uma reflexão muito cautelosa a reação temerosa que Francisco Cândido Xavier teve e que transmitiu em carta ao então presidente da Federação "Espírita" Brasileira, Antônio Wantuil de Freitas. Wantuil estava produzindo um trabalho sobre o Roustanguismo, e uma carta publicada na revista Mundo Espírita havia causado alvoroço nos meios febianos.
Consta-se que a carta - da qual não encontramos, até o fechamento do texto, uma reprodução digital, apesar do periódico existir até hoje e possuir até mesmo página na Internet - deve datar de março de 1947, uma vez que a declaração de Xavier foi feita em carta datada de 25 de março de 1947, e publicada no livro Testemunhos de Chico Xavier, de Suely Caldas Schubert.
Antes de reproduzirmos o trecho da carta, vamos reproduzir o parágrafo do livro de 1938, Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, atribuído ao espírito Humberto de Campos e que, provavelmente, seria na verdade escrito a quatro mãos por Chico Xavier e Wantuil de Freitas, e que é a única mas decisiva passagem que cita o autor de Os Quatro Evangelhos:
"Mal não haviam terminado as atividades bélicas da triste missão de Bonaparte e já o espaço se movimentava, no sentido de renovar os surtos de progresso das coletividades. Assembleias espirituais, reunindo os gênios inspiradores de todas as pátrias do orbe, eram levadas a efeito, nas luzes do infinito, para a designação de missionários das novas revelações. Em uma de tais assembleias, presidida pelo coração misericordioso e augusto do Cordeiro, fora destacado um dos grandes discípulos do Senhor, para vir à Terra com a tarefa de organizar e compilar ensinamentos que seriam revelados, oferecendo um método de observação a todos os estudiosos do tempo. Foi assim que Allan Kardec, a 3 de outubro de 1804, via a luz da atmosfera terrestre, na cidade de Lião. Segundo os planos de trabalho do mundo invisível, o grande missionário, no seu maravilhoso esforço de síntese, contaria com a cooperação de uma plêiade de auxiliares da sua obra, designados particularmente para coadjuvá-lo, nas individualidades de João-Batista Roustaing, que organizaria o trabalho da fé; de Léon Denis, que efetuaria o desdobramento filosófico; de Gabriel Delanne, que apresentaria a estrada científica e de Camille Flammarion, que abriria a cortina dos mundos, desenhando as maravilhas das paisagens celestes, cooperando assim na codificação kardequiana no Velho Mundo e dilatando-a com os necessários complementos".
O trecho repete a tendência dos livros tradicionais da época, em que se "abrasileira" os nomes de várias personalidades estrangeiras, regra própria do eruditismo daqueles tempos, e Roustaing é citado com o prenome mudado para "João-Batista", o que parece uma alteração feita por questão afetiva, já que Leon Denis não teve seu prenome mudado para "Leão".
Roustaing é atribuído como o homem que "organizaria o trabalho da fé", tarefa que é associada fortemente a Chico Xavier, o responsável por "abrasileirar" o pensamento do autor de Os Quatro Evangelhos e extrair os pontos mais polêmicos.
O livro supostamente atribuído a Humberto de Campos, que na verdade junta o religiosismo de Chico Xavier e a racionalidade moralista de Wantuil, se revela uma propaganda do roustanguismo, com todas as ideias do advogado francês, defendida com entusiasmo, atitude que se verifica também em diversos livros sob a grife Chico Xavier, incluindo O Consolador, de Emmanuel.
Não temos o texto da carta, cujos termos escritos poderiam muito bem esclarecer o melindre com que Chico tratou o assunto de Roustaing, apesar da explícita citação de seu nome no referido livro. Sabe-se, porém, que em 1947 o roustanguismo já era combatido por prestigiadas figuras espíritas como Deolindo Amorim (pai do jornalista Paulo Henrique Amorim), Carlos Imbassahy e José Herculano Pires (sobrinho do contador caipira Cornélio Pires).
Por isso, a carta chorosa de Francisco Cândido Xavier a Antônio Wantuil de Freitas apela para renegar, de maneira omissa, o roustanguismo, dentro de uma série de missivas em que Wantuil esclareceria a influência de Roustaing no "espiritismo" brasileiro.
Seria preciso uma análise cuidadosa tanto da carta do Mundo Espírita, quanto do total de cartas de Chico a Wantuil tratando de Roustaing, além do livro que Wantuil escreveu sobre o assunto, para que seja feito um parecer ainda mais detalhado sobre a situação. Por ora, ficamos com esta carta de 1947 e as análises que pudemos fazer. Segue o trecho:
"(...) Li a carta que o Mundo Espírita publicou. Encomendemo-nos à Misericórdia Divina. Também, como tu, pedi ao Ismael nada responder. Seria muito triste 'lançar gasolina nesse fogo'. Há casos em que todo comentário é difícil. Por minha vez, estranho o que ocorre, de tal modo que só vejo uma saída: Levar o coração em silêncio para a casa da prece.
Não te incomodes com a declaração havida de que o trecho alusivo a Roustaing, em Brasil (Coração do Mundo, Pátria do Evangelho), foi colocado pela Federação. Quando descobrirem que a casa de Ismael seria incapaz disso, dirão que fui eu. De qualquer modo, eles falarão. O adversário tem sempre um bom trabalho - o de estimular e melhorar tudo, quando estamos voltados para o bem".
Sugere uma reflexão muito cautelosa a reação temerosa que Francisco Cândido Xavier teve e que transmitiu em carta ao então presidente da Federação "Espírita" Brasileira, Antônio Wantuil de Freitas. Wantuil estava produzindo um trabalho sobre o Roustanguismo, e uma carta publicada na revista Mundo Espírita havia causado alvoroço nos meios febianos.
Consta-se que a carta - da qual não encontramos, até o fechamento do texto, uma reprodução digital, apesar do periódico existir até hoje e possuir até mesmo página na Internet - deve datar de março de 1947, uma vez que a declaração de Xavier foi feita em carta datada de 25 de março de 1947, e publicada no livro Testemunhos de Chico Xavier, de Suely Caldas Schubert.
Antes de reproduzirmos o trecho da carta, vamos reproduzir o parágrafo do livro de 1938, Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, atribuído ao espírito Humberto de Campos e que, provavelmente, seria na verdade escrito a quatro mãos por Chico Xavier e Wantuil de Freitas, e que é a única mas decisiva passagem que cita o autor de Os Quatro Evangelhos:
"Mal não haviam terminado as atividades bélicas da triste missão de Bonaparte e já o espaço se movimentava, no sentido de renovar os surtos de progresso das coletividades. Assembleias espirituais, reunindo os gênios inspiradores de todas as pátrias do orbe, eram levadas a efeito, nas luzes do infinito, para a designação de missionários das novas revelações. Em uma de tais assembleias, presidida pelo coração misericordioso e augusto do Cordeiro, fora destacado um dos grandes discípulos do Senhor, para vir à Terra com a tarefa de organizar e compilar ensinamentos que seriam revelados, oferecendo um método de observação a todos os estudiosos do tempo. Foi assim que Allan Kardec, a 3 de outubro de 1804, via a luz da atmosfera terrestre, na cidade de Lião. Segundo os planos de trabalho do mundo invisível, o grande missionário, no seu maravilhoso esforço de síntese, contaria com a cooperação de uma plêiade de auxiliares da sua obra, designados particularmente para coadjuvá-lo, nas individualidades de João-Batista Roustaing, que organizaria o trabalho da fé; de Léon Denis, que efetuaria o desdobramento filosófico; de Gabriel Delanne, que apresentaria a estrada científica e de Camille Flammarion, que abriria a cortina dos mundos, desenhando as maravilhas das paisagens celestes, cooperando assim na codificação kardequiana no Velho Mundo e dilatando-a com os necessários complementos".
O trecho repete a tendência dos livros tradicionais da época, em que se "abrasileira" os nomes de várias personalidades estrangeiras, regra própria do eruditismo daqueles tempos, e Roustaing é citado com o prenome mudado para "João-Batista", o que parece uma alteração feita por questão afetiva, já que Leon Denis não teve seu prenome mudado para "Leão".
Roustaing é atribuído como o homem que "organizaria o trabalho da fé", tarefa que é associada fortemente a Chico Xavier, o responsável por "abrasileirar" o pensamento do autor de Os Quatro Evangelhos e extrair os pontos mais polêmicos.
O livro supostamente atribuído a Humberto de Campos, que na verdade junta o religiosismo de Chico Xavier e a racionalidade moralista de Wantuil, se revela uma propaganda do roustanguismo, com todas as ideias do advogado francês, defendida com entusiasmo, atitude que se verifica também em diversos livros sob a grife Chico Xavier, incluindo O Consolador, de Emmanuel.
Não temos o texto da carta, cujos termos escritos poderiam muito bem esclarecer o melindre com que Chico tratou o assunto de Roustaing, apesar da explícita citação de seu nome no referido livro. Sabe-se, porém, que em 1947 o roustanguismo já era combatido por prestigiadas figuras espíritas como Deolindo Amorim (pai do jornalista Paulo Henrique Amorim), Carlos Imbassahy e José Herculano Pires (sobrinho do contador caipira Cornélio Pires).
Por isso, a carta chorosa de Francisco Cândido Xavier a Antônio Wantuil de Freitas apela para renegar, de maneira omissa, o roustanguismo, dentro de uma série de missivas em que Wantuil esclareceria a influência de Roustaing no "espiritismo" brasileiro.
Seria preciso uma análise cuidadosa tanto da carta do Mundo Espírita, quanto do total de cartas de Chico a Wantuil tratando de Roustaing, além do livro que Wantuil escreveu sobre o assunto, para que seja feito um parecer ainda mais detalhado sobre a situação. Por ora, ficamos com esta carta de 1947 e as análises que pudemos fazer. Segue o trecho:
"(...) Li a carta que o Mundo Espírita publicou. Encomendemo-nos à Misericórdia Divina. Também, como tu, pedi ao Ismael nada responder. Seria muito triste 'lançar gasolina nesse fogo'. Há casos em que todo comentário é difícil. Por minha vez, estranho o que ocorre, de tal modo que só vejo uma saída: Levar o coração em silêncio para a casa da prece.
Não te incomodes com a declaração havida de que o trecho alusivo a Roustaing, em Brasil (Coração do Mundo, Pátria do Evangelho), foi colocado pela Federação. Quando descobrirem que a casa de Ismael seria incapaz disso, dirão que fui eu. De qualquer modo, eles falarão. O adversário tem sempre um bom trabalho - o de estimular e melhorar tudo, quando estamos voltados para o bem".
É uma atitude estranha. Chico, com aquele jeito temeroso de serem reveladas as próprias contradições que o promovem no seio do "movimento espírita", sente o receio de "lançar gasolina nesse fogo", numa típica metáfora xavieriana. Ele preferiu não se pronunciar sobre a acusação de roustanguismo, se omitindo no "silêncio da prece".
Também soa muito estranho Xavier dizer que a FEB seria "incapaz" de "colocar Roustaing" em Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho. Ou então Chico teria questionado alguma forma de argumentação do qual só mesmo a carta publicada em Mundo Espírita, até agora inacessível, seria capaz de esclarecer.
Isso porque a FEB era entusiasta defensora de Jean-Baptiste Roustaing. As ideias do advogado francês que deturpou a Doutrina Espírita eram apreciadas com simpatia até por Chico Xavier. Apenas aspectos como o Jesus fluídico e a reencarnação em animais, plantas ou outros seres inferiores foram, com o tempo, descartados. Por exemplo, os "criptógamos carnudos" (reencarnação em seres irracionais) foi substituído pelo mito xavieriano dos "bichinhos no mundo espiritual".
Todavia, com a campanha feita por Deolindo, Herculano, Imbassahy e outros, denunciando a tendência roustanguista na FEB, ela tornou-se, com o tempo, mais sutil, de forma que Chico Xavier, Divaldo Franco e outros dirigentes "espíritas" combinaram supostas mensagens "espirituais" atribuídas a Adolfo Bezerra de Menezes reclamando "fidelidade a Allan Kardec".
Quando a crise do roustanguismo tornou-se insustentável, Chico, Divaldo e seus pares resolveram pular fora do barco e passaram a defender o "roustanguismo sem Roustaing", um roustanguismo light servido como se fosse um "kardecismo com Chico Xavier", do qual quase nada havia da essência original de Allan Kardec.
E assim o "movimento espírita" chegou ao que seus dirigentes definem como "ponto de equilíbrio". Evocam, em tese, as bases científicas de Allan Kardec e alegam fidelidade às mesmas. Mas não abrem mão do religiosismo roustanguista, que apenas foi amenizado para não causar maiores problemas. É o "jeitinho brasileiro" a serviço do "espiritismo" local.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
A farsa da "reforma íntima"
Uma das bandeiras do "movimento espírita", sobretudo de Chico Xavier, a chamada "reforma íntima", revela-se uma grande manobra de cunho bastante conservador e que contraria frontalmente a visão progressista de Allan Kardec.
O que é a tal "reforma íntima"? É um princípio ideológico no qual não se deve desafiar os problemas de forma a comprometer as estruturas sociais vigentes. Se a pessoa sofre, ela terá que "reeducar" suas emoções e aceitar todo tipo de arbitrariedade, trabalhando apenas dentro dos limites de tais imposições e usando o tal "silêncio da prece" para "aliviar" as dores e angústias.
Os fanáticos por Chico Xavier veem nisso algo "transformador". Acreditam eles, na cegueira de seu sentimentalismo extremo, que as mudanças da sociedade só virão com as transformações meramente individuais, superestimando um único aspecto da necessidade de mudanças pessoais.
Afinal, a realidade bastante complexa exige que, às vezes, reformemos nossas emoções mas, em outras, impusemos nossas necessidades e desejos aos outros. A realidade é complicada demais para que tão somente nos limitemos a "reeducar" nossas emoções para aceitarmos as imposições da vida, como se vivêssemos para "engolir sapos".
No entanto, é isso que o "espiritismo" determina para nós. O "sábio" Emmanuel, ressurgido das trevas do jesuitismo de matizes medievais, já desaconselhava a contestação, o questionamento, o senso crítico, num claro e extremo desvio das recomendações de Allan Kardec.
Tanto as pregações de Emmanuel para que não façamos críticas nem protestos, contestações nem questionamentos, aceitando tudo "com amor" (em outras palavras: "Sorria! Você está sendo ferrado!") e a chamada "resignação", também conhecida como "abnegação". Ou, melhor dizendo, significa simplesmente CONFORMISMO.
Junte-se as declarações "sábias" do padre Emmanuel com as palavras açucaradas de Chico Xavier, que pregam que "quando mais se sofre, mais abençoado é", como se o melhor caminho para a humanidade é ser masoquista.
E o "espiritismo" glamouriza mesmo o sofrimento. Condena a contestação e a reação contrária e pede que fiquemos conformados. Se os algozes levam vantagem e ficam décadas sem sofrer um arranhão em suas vidas, que aceitemos isso e esperemos o "tempo" agir contra eles, nem que seja daqui a duas encarnações (cerca de 200 anos).
Chico Xavier foi conservador, defendeu o golpe de 1964 e ainda defendeu a ditadura militar nos anos mais duros do AI-5. Ele havia dito que os militares que ordenavam a tortura, a repressão, botando pessoas para levarem choque elétrico com os pés nus num balde de água, estariam construindo o "reino de amor" para a humanidade futura.
Claro. Viemos para sofrer, sofrer e sofrer. E aceitar tudo "com amor" e orando em silêncio. Isso lembra a ação dos prisioneiros medievais, daí que não dá para entender como os "racionais" adeptos do "espiritismo" brasileiro acham Chico Xavier "progressista".
E o pior disso tudo é que os palestrantes "espíritas" tentam dizer que "não viemos para sofrer", enchendo as agendas de palestras sobre a "felicidade", com seus oradores alegres com as "maravilhosas energias" dos "centros espíritas".
Em suma: nós sofremos horrores e temos que aceitar tudo com alegria e amor. E aí chegam os palestrantes para dizer que "não precisemos sofrer". Continuamos sofrendo, até de maneira pior com o passar do tempo, enquanto temos que acreditar em esperanças que nunca chegam, porque viemos para "sermos felizes". É muita contradição para uma emoção em ruínas.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
"Espiritismo" brasileiro: religião dos "donos dos mortos"
HUMBERTO DE CAMPOS, RENATO RUSSO, LEILA LOPES E EÇA DE QUEIROZ - Exemplos de falecidos que foram apropriados por supostos médiuns.
Graças ao exemplo irregular de Francisco Cândido Xavier, o "espiritismo" brasileiro virou uma grande teia de irregularidades e erros, muitos deles gravíssimos, embora desatar o nó desse rol de erros não seja uma tarefa fácil.
Afinal, o "espiritismo" feito no Brasil ainda goza de uma reputação de "crença íntegra", "doutrina superior" ou mesmo do "mais avançado movimento espiritualista" que muitos veem como a "vanguarda" da religiosidade humana mundial.
Mesmo seus piores dirigentes são vistos por seus seguidores como "pessoas puras" e mesmo as mais ridículas fraudes mediúnicas são aceitas como se fossem "mediunidade autêntica", dependendo do status que o dito médium goza na sociedade.
Tantas e tantas famílias são enganadas sem saber, quando desperdiçam lágrimas de comoção ao lerem mensagens pseudo-espirituais atribuídas a seus entes queridos, que não passam de religiosismo barato e panfletário, propaganda religiosa exagerada, em mensagens parecidas independente da pessoa.
Quantas mães foram enganadas quando, tomadas pela saudade extrema, recebem de farsantes mensagens atribuídas aos espíritos de seus entes queridos que dizem praticamente a mesma coisa: "sofri, fui socorrido e reencontrei a luz, por isso, vamos nos unir na fraternidade em Cristo", podendo o falecido ter sido um junkie, um beato, um ateu, um guerrilheio comunista ou um arruaceiro.
As "mensagens fraternais" viraram um recurso, até mesmo um padrão, para que supostos médiuns que tenham dificuldade de concentração criem mensagens com a própria imaginação, camuflando a fraude com o suposto atenuante das "palavras de amor" e dos "recados de positividade".
CLIMA DE EMOTIVIDADE
Alguns desses supostos médiuns chegam mesmo a usar da criatividade, "temperando" as mensagens com aspectos aparentemente "obscuros" ou "sutis" das personalidades falecidas evocadas, criando assim "caraterísticas pessoais" que se aproximem, em tese, do que os falecidos haviam sido em vida.
Mas isso não garante veracidade, pois não são as semelhanças que garantem autenticidade, se uma única contradição pode derrubá-la, ao ir contra a natureza pessoal de cada falecido. E é aí que as "mensagens fraternais" e as "palavras de amor" entram em ação.
Esse recurso discursivo é sempre utilizado em mensagens supostamente mediúnicas para seduzir os parentes de cada falecido, que, tomados de um clima de intensa emotividade, aceitam até mesmo quando as mensagens começam com um dócil mas banal "querida mamãezinha".
A emotividade, muitas vezes, não questiona, e a saudade é tanta que a primeira mensagem que leva o nome do falecido, por mais falsa que seja, comove as famílias, principalmente se elas capricharem no apelo afetivo e por algumas semelhanças superficiais com o que cada falecido foi em vida.
Recentemente, casos como os das vítimas do incêndio da Boate Kiss, em Santa Maria (RS), em janeiro de 2013, e o do jovem engenheiro Jair Presente (1949-1974), supunham apresentar informações "desconhecidas" dos médiuns e dados "impossíveis" de serem transmitidos por meras consultas espirituais de seus familiares.
EXEMPLO DE FRAUDE MEDIÚNICA - Inexplicável garrancho na assinatura atribuída ao espírito de Stéfani Posser Simeoni, uma das vítimas da tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria (RS), e a reconstituição de como foi feito e "corrigido" tal erro.
No entanto, as mensagens acabam apresentando sempre alguma irregularidade, sem falar de que há dúvidas se as informações "sutis" podem ou não ter sido transmitidas de uma forma ou de outra, seja por espíritos farsantes ou por conversas informais que os supostos médiuns ou membros de "centros espíritas" se "esquecem" de terem sido feitas com algum familiar ou amigo do falecido.
Um exemplo disso é a irregularidade entre um Jair Presente "religioso demais" da primeira mensagem "mediúnica" divulgada por Chico Xavier, em março de 1974 (um mês após o falecimento do jovem) e outra mensagem,"perturbada" e com uma linguagem forçadamente coloquial (lembrando a de um caricato hippie drogado), em agosto do mesmo ano, conforme citamos aqui.
Outro exemplo é o injustificável garrancho na assinatura atribuída ao espírito da jovem Stéfani Posser Simeoni, uma das vítimas do incêndio da Boate Kiss. Um "Sp" inicialmente escrito em vez do "St" do prenome da jovem indica fraude cometida pelo suposto médium de Uberaba, talvez um colaborador de Carlos A. Bacceli (ou Baccelli), antigo figurão da FEB e amigo de Chico Xavier.
Imaginamos alegações de nervosismo ou ansiedade do espírito da jovem morta, para tamanho deslize na assinatura, e reconstituímos os passos da assinatura de cada nome e verificamos que essas alegações não condizem, porque Stéfani nunca iria assinar "Sp" no lugar de "St", por mais "nervosa" que estivesse para divulgar a mensagem na condição de espírito desencarnado.
Por outro lado, também não faz sentido que Stéfani, cuja mensagem foi atribuída por seus familiares como "tranquila" e "confortadora", estivesse nervosa para transmiti-la, da mesma forma que o suposto médium também não poderia estar nervoso num momento em que se atribuem, em tese, as mais elevadas vibrações. Daí a constatação de fraude, decepcionante para muitos, porém realista.
CHICO XAVIER FOI O PRIMEIRO "DONO DOS MORTOS"
A onda dos "donos dos mortos", supostos médiuns que acabam se apropriando de figuras falecidas - atualmente temos o caso de Renato Russo, apropriado por Wilton Oliver, da atriz Leila Lopes, pelo "independente" (não declaradamente "espírita") Jardel Gonçalves, de Cazuza, pelo outro "independente", Robson Pinheiro.
Mas houve também o caso de Eça de Queiroz, autor português apropriado pela já falecida "médium" Wanda Canutti, que havia sido usado, em narrativa que claramente contraria a movimentação de enredo e a linguagem requintada do autor de O Primo Basílio, tentava descrever a suposta vida espiritual do ex-presidente brasileiro Getúlio Vargas.
O maior caso de apropriação de espíritos falecidos foi, sem dúvida alguma, o de Chico Xavier. Ele tinha um certo fetiche por mortos falecidos. Ele foi o primeiro "dono dos mortos" que se tem conhecimento, e ele criou uma "galeria" de vários deles, na bibliografia que levou o seu nome.
Com certeza, a primeira dessas obsessões foi o escritor Humberto de Campos, que tornou-se a maior vítima das apropriações de Xavier, que não largou o "pé-rispírito" do poeta maranhense mesmo quando, depois de complicado processo judicial, teve que mudar o nome para "Irmão X" para "evitar maiores dissabores", numa suposta mensagem espiritual escrita a quatro mãos por Chico e Wantuil.
A complicada batalha judicial só beneficiou Xavier depois que os juízes, apoiados nas leis e crenças da época (1944), não entenderam a necessidade de se verificar a veracidade de autorias supostamente espirituais, pois as regras de direitos autorais só correspondiam ao que era produzido em vida, e não no além-túmulo.
Mas o litígio movido pelos herdeiros de Humberto de Campos causou tanta dor-de-cabeça nos dirigentes da FEB e no próprio Chico Xavier que, quando o sobrinho Amauri Xavier Pena foi denunciar as irregularidades, o que recolocaria o tio nos tribunais, a FEB resolveu "sumir" com o rapaz, depois de uma campanha claramente difamatória contra o jovem denunciante.
Depois do caso Humberto e também da apropriação de outros poetas devido ao livro Parnaso de Além-Túmulo, dos quais se destacam os nomes de Augusto dos Anjos e Auta de Souza e um irreconhecível e ufanista ao extremo Olavo Bilac, Chico foi bem-sucedido quando se apropriou do carisma da jovem mineira Irma de Castro, a Meimei (1922-1946).
Doente dos rins, através de um mal conhecido como nefrite, Irma de Castro havia casado pouco tempo antes com o esportista Arnaldo Rocha e ganhou o apelido Meimei - "amor puro", em chinês - por conta do livro Momento em Pequim, do pensador chinês Lyn Yutang. Pouco depois, ela faleceu, deixando Arnaldo viúvo e triste.
Aconselhado pelo irmão Orlando, Arnaldo, fiel e apaixonado pela falecida esposa, foi procurar Chico Xavier, que já havia sido consultado por Orlando, e que estava num "centro espírita" de Belo Horizonte. Chico viu uma boa oportunidade de aliviar os escândalos causados pelo caso Humberto de Campos.
Por sorte, Arnaldo teve boa-fé em aceitar a apropriação de Chico sobre a jovem. O marido de Meimei era um marido dedicado, saudoso, e sua emotividade de homem sensível fez com que ele acreditasse até mesmo quando Chico e Wantuil, criadores da fictícia cidade de Nosso Lar, inventaram que Meimei teria sido Blandina, moradora desse lugar.
Com Meimei, Chico Xavier se aproveitou da boa-fé de Arnaldo e passou a escrever livros atribuídos à jovem, levando ao exagero a religiosidade da moça em obras que evocam o catolicismo redivivo mas enrustido da FEB. Arnaldo passou a crer tanto em Chico, sem saber das armadilhas feitas, que acreditou até mesmo na suposta materialização de Emmanuel, em 1954.
Chico transformou Humberto de Campos e Meimei em meros propagandistas religiosos, sendo, no caso de Humberto, uma aberrante contradição entre os livros atribuídos ao suposto espírito, dotados de um religiosismo melancólico e firme, e o que o escritor maranhense escreveu em vida, dotado de uma erudição levemente coloquial e um humor brincalhão e às vezes ferino.
Só Emmanuel, ou seja, o padre Manuel da Nóbrega, não se enquadrou nessa apropriação porque, com base nas pesquisas de conteúdo e outras informações, era o jesuíta que se apossou de Chico Xavier para conduzi-lo a uma "catolicização" mais eficaz do "espiritismo" febiano, produzindo "exemplos" a serem seguidos por movimentos "espiritualistas" tidos ou não como "espíritas".
Daí a suposta mediunidade de mensagens criadas pelos ditos médiuns que são atribuídas falsamente aos espíritos dos mortos e que apresentam apenas um mero propagandismo religioso de caráter panfletário. Com todas as irregularidades observadas em supostas psicografias, psicopictografias, psicofonias e materializações.
Com o carisma de Chico Xavier e posteriormente de Divaldo Franco e outros, a mediunidade feita no Brasil sucumbiu a um processo irregular e pouco confiável, do qual os supostos médiuns, recusando-se a se limitar à função intermediária que o termo "médium" indica, tornaram-se os "donos dos mortos".
Assim, enquanto os supostos "médiuns" viram astros e, em vários casos, dublês de "pensadores", eles, que deveriam ser apenas os canais de divulgação de mensagens do além, deixam de ser os fornecedores de recados dos mortos para eles mesmos produzirem esses recados e apenas usarem os nomes dos mortos para iludirem os familiares.
Sob o ponto de vista da vida terrena, as atitudes dos supostos médiuns são apenas "controversas", não cabendo questionar com firmeza sua veracidade. Tomados de paixões materiais, muitos atribuem total confiabilidade aos "médiuns", seduzidos por suas "palavras de amor e de sabedoria", e contestá-los ainda é visto como "perseguição moral aos homens de bem" ou "pretensão de julgar a natureza espiritual pelos olhos da Terra".
Mas, sob o ponto de vista do mundo espiritual, os espíritos do além são lesados, porque não são eles que realmente se comunicam para nós, mas pessoas na Terra que usam seus nomes para fazerem propaganda religiosa. Proibidos de se manifestarem, eles se afastam e são eles mesmos que não veem a confiabilidade dos "médiuns da Terra".
Portanto, a "pretensão de julgar pelos olhos da Terra" não está por aqueles que, pelo argumento lógico, questionam as irregularidades das práticas "mediúnicas", mas sim por parte daqueles que tentam, através da mistificação, legitimar as coisas pelo pretexto da "fé" e dos "olhos do coração" que escondem contradições e erros gravíssimos nas mensagens ditas espirituais.
Dessa maneira, são os "donos dos mortos" que tentam enganar os vivos com suas atividades irregulares e se aproveitarem da emotividade alheia para exercerem o poder e o status que, embora pretensamente espiritualista, não deixa de ser um privilégio puramente material
O prestígio dos supostos médiuns é tido como eternamente imune, como se fosse, mesmo sujeito à contestação severa na Terra, se julga inabalável no além-túmulo. No entanto, esse pestígio "espiritualista" se desfaz com a morte, feito um castelo de areia sob o menor toque da água.
E aí vem a pior das desilusões, quando os "médiuns da Terra", confiantes de que serão, no além-túmulo, "espíritos puros" a manter o prestígio terreno, se tornam míseras almas decepcionadas com o baixo cartaz na vida espiritual.
É possível imaginar o violento choque que Chico Xavier teve depois de 2002, quando o adorado "semi-deus" da Terra reduziu-se, no além, a um mísero usurpador da memória dos mortos.
Graças ao exemplo irregular de Francisco Cândido Xavier, o "espiritismo" brasileiro virou uma grande teia de irregularidades e erros, muitos deles gravíssimos, embora desatar o nó desse rol de erros não seja uma tarefa fácil.
Afinal, o "espiritismo" feito no Brasil ainda goza de uma reputação de "crença íntegra", "doutrina superior" ou mesmo do "mais avançado movimento espiritualista" que muitos veem como a "vanguarda" da religiosidade humana mundial.
Mesmo seus piores dirigentes são vistos por seus seguidores como "pessoas puras" e mesmo as mais ridículas fraudes mediúnicas são aceitas como se fossem "mediunidade autêntica", dependendo do status que o dito médium goza na sociedade.
Tantas e tantas famílias são enganadas sem saber, quando desperdiçam lágrimas de comoção ao lerem mensagens pseudo-espirituais atribuídas a seus entes queridos, que não passam de religiosismo barato e panfletário, propaganda religiosa exagerada, em mensagens parecidas independente da pessoa.
Quantas mães foram enganadas quando, tomadas pela saudade extrema, recebem de farsantes mensagens atribuídas aos espíritos de seus entes queridos que dizem praticamente a mesma coisa: "sofri, fui socorrido e reencontrei a luz, por isso, vamos nos unir na fraternidade em Cristo", podendo o falecido ter sido um junkie, um beato, um ateu, um guerrilheio comunista ou um arruaceiro.
As "mensagens fraternais" viraram um recurso, até mesmo um padrão, para que supostos médiuns que tenham dificuldade de concentração criem mensagens com a própria imaginação, camuflando a fraude com o suposto atenuante das "palavras de amor" e dos "recados de positividade".
CLIMA DE EMOTIVIDADE
Alguns desses supostos médiuns chegam mesmo a usar da criatividade, "temperando" as mensagens com aspectos aparentemente "obscuros" ou "sutis" das personalidades falecidas evocadas, criando assim "caraterísticas pessoais" que se aproximem, em tese, do que os falecidos haviam sido em vida.
Mas isso não garante veracidade, pois não são as semelhanças que garantem autenticidade, se uma única contradição pode derrubá-la, ao ir contra a natureza pessoal de cada falecido. E é aí que as "mensagens fraternais" e as "palavras de amor" entram em ação.
Esse recurso discursivo é sempre utilizado em mensagens supostamente mediúnicas para seduzir os parentes de cada falecido, que, tomados de um clima de intensa emotividade, aceitam até mesmo quando as mensagens começam com um dócil mas banal "querida mamãezinha".
A emotividade, muitas vezes, não questiona, e a saudade é tanta que a primeira mensagem que leva o nome do falecido, por mais falsa que seja, comove as famílias, principalmente se elas capricharem no apelo afetivo e por algumas semelhanças superficiais com o que cada falecido foi em vida.
Recentemente, casos como os das vítimas do incêndio da Boate Kiss, em Santa Maria (RS), em janeiro de 2013, e o do jovem engenheiro Jair Presente (1949-1974), supunham apresentar informações "desconhecidas" dos médiuns e dados "impossíveis" de serem transmitidos por meras consultas espirituais de seus familiares.
EXEMPLO DE FRAUDE MEDIÚNICA - Inexplicável garrancho na assinatura atribuída ao espírito de Stéfani Posser Simeoni, uma das vítimas da tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria (RS), e a reconstituição de como foi feito e "corrigido" tal erro.
No entanto, as mensagens acabam apresentando sempre alguma irregularidade, sem falar de que há dúvidas se as informações "sutis" podem ou não ter sido transmitidas de uma forma ou de outra, seja por espíritos farsantes ou por conversas informais que os supostos médiuns ou membros de "centros espíritas" se "esquecem" de terem sido feitas com algum familiar ou amigo do falecido.
Um exemplo disso é a irregularidade entre um Jair Presente "religioso demais" da primeira mensagem "mediúnica" divulgada por Chico Xavier, em março de 1974 (um mês após o falecimento do jovem) e outra mensagem,"perturbada" e com uma linguagem forçadamente coloquial (lembrando a de um caricato hippie drogado), em agosto do mesmo ano, conforme citamos aqui.
Outro exemplo é o injustificável garrancho na assinatura atribuída ao espírito da jovem Stéfani Posser Simeoni, uma das vítimas do incêndio da Boate Kiss. Um "Sp" inicialmente escrito em vez do "St" do prenome da jovem indica fraude cometida pelo suposto médium de Uberaba, talvez um colaborador de Carlos A. Bacceli (ou Baccelli), antigo figurão da FEB e amigo de Chico Xavier.
Imaginamos alegações de nervosismo ou ansiedade do espírito da jovem morta, para tamanho deslize na assinatura, e reconstituímos os passos da assinatura de cada nome e verificamos que essas alegações não condizem, porque Stéfani nunca iria assinar "Sp" no lugar de "St", por mais "nervosa" que estivesse para divulgar a mensagem na condição de espírito desencarnado.
Por outro lado, também não faz sentido que Stéfani, cuja mensagem foi atribuída por seus familiares como "tranquila" e "confortadora", estivesse nervosa para transmiti-la, da mesma forma que o suposto médium também não poderia estar nervoso num momento em que se atribuem, em tese, as mais elevadas vibrações. Daí a constatação de fraude, decepcionante para muitos, porém realista.
CHICO XAVIER FOI O PRIMEIRO "DONO DOS MORTOS"
A onda dos "donos dos mortos", supostos médiuns que acabam se apropriando de figuras falecidas - atualmente temos o caso de Renato Russo, apropriado por Wilton Oliver, da atriz Leila Lopes, pelo "independente" (não declaradamente "espírita") Jardel Gonçalves, de Cazuza, pelo outro "independente", Robson Pinheiro.
Mas houve também o caso de Eça de Queiroz, autor português apropriado pela já falecida "médium" Wanda Canutti, que havia sido usado, em narrativa que claramente contraria a movimentação de enredo e a linguagem requintada do autor de O Primo Basílio, tentava descrever a suposta vida espiritual do ex-presidente brasileiro Getúlio Vargas.
O maior caso de apropriação de espíritos falecidos foi, sem dúvida alguma, o de Chico Xavier. Ele tinha um certo fetiche por mortos falecidos. Ele foi o primeiro "dono dos mortos" que se tem conhecimento, e ele criou uma "galeria" de vários deles, na bibliografia que levou o seu nome.
Com certeza, a primeira dessas obsessões foi o escritor Humberto de Campos, que tornou-se a maior vítima das apropriações de Xavier, que não largou o "pé-rispírito" do poeta maranhense mesmo quando, depois de complicado processo judicial, teve que mudar o nome para "Irmão X" para "evitar maiores dissabores", numa suposta mensagem espiritual escrita a quatro mãos por Chico e Wantuil.
A complicada batalha judicial só beneficiou Xavier depois que os juízes, apoiados nas leis e crenças da época (1944), não entenderam a necessidade de se verificar a veracidade de autorias supostamente espirituais, pois as regras de direitos autorais só correspondiam ao que era produzido em vida, e não no além-túmulo.
Mas o litígio movido pelos herdeiros de Humberto de Campos causou tanta dor-de-cabeça nos dirigentes da FEB e no próprio Chico Xavier que, quando o sobrinho Amauri Xavier Pena foi denunciar as irregularidades, o que recolocaria o tio nos tribunais, a FEB resolveu "sumir" com o rapaz, depois de uma campanha claramente difamatória contra o jovem denunciante.
Depois do caso Humberto e também da apropriação de outros poetas devido ao livro Parnaso de Além-Túmulo, dos quais se destacam os nomes de Augusto dos Anjos e Auta de Souza e um irreconhecível e ufanista ao extremo Olavo Bilac, Chico foi bem-sucedido quando se apropriou do carisma da jovem mineira Irma de Castro, a Meimei (1922-1946).
Doente dos rins, através de um mal conhecido como nefrite, Irma de Castro havia casado pouco tempo antes com o esportista Arnaldo Rocha e ganhou o apelido Meimei - "amor puro", em chinês - por conta do livro Momento em Pequim, do pensador chinês Lyn Yutang. Pouco depois, ela faleceu, deixando Arnaldo viúvo e triste.
Aconselhado pelo irmão Orlando, Arnaldo, fiel e apaixonado pela falecida esposa, foi procurar Chico Xavier, que já havia sido consultado por Orlando, e que estava num "centro espírita" de Belo Horizonte. Chico viu uma boa oportunidade de aliviar os escândalos causados pelo caso Humberto de Campos.
Por sorte, Arnaldo teve boa-fé em aceitar a apropriação de Chico sobre a jovem. O marido de Meimei era um marido dedicado, saudoso, e sua emotividade de homem sensível fez com que ele acreditasse até mesmo quando Chico e Wantuil, criadores da fictícia cidade de Nosso Lar, inventaram que Meimei teria sido Blandina, moradora desse lugar.
Com Meimei, Chico Xavier se aproveitou da boa-fé de Arnaldo e passou a escrever livros atribuídos à jovem, levando ao exagero a religiosidade da moça em obras que evocam o catolicismo redivivo mas enrustido da FEB. Arnaldo passou a crer tanto em Chico, sem saber das armadilhas feitas, que acreditou até mesmo na suposta materialização de Emmanuel, em 1954.
Chico transformou Humberto de Campos e Meimei em meros propagandistas religiosos, sendo, no caso de Humberto, uma aberrante contradição entre os livros atribuídos ao suposto espírito, dotados de um religiosismo melancólico e firme, e o que o escritor maranhense escreveu em vida, dotado de uma erudição levemente coloquial e um humor brincalhão e às vezes ferino.
Só Emmanuel, ou seja, o padre Manuel da Nóbrega, não se enquadrou nessa apropriação porque, com base nas pesquisas de conteúdo e outras informações, era o jesuíta que se apossou de Chico Xavier para conduzi-lo a uma "catolicização" mais eficaz do "espiritismo" febiano, produzindo "exemplos" a serem seguidos por movimentos "espiritualistas" tidos ou não como "espíritas".
Daí a suposta mediunidade de mensagens criadas pelos ditos médiuns que são atribuídas falsamente aos espíritos dos mortos e que apresentam apenas um mero propagandismo religioso de caráter panfletário. Com todas as irregularidades observadas em supostas psicografias, psicopictografias, psicofonias e materializações.
Com o carisma de Chico Xavier e posteriormente de Divaldo Franco e outros, a mediunidade feita no Brasil sucumbiu a um processo irregular e pouco confiável, do qual os supostos médiuns, recusando-se a se limitar à função intermediária que o termo "médium" indica, tornaram-se os "donos dos mortos".
Assim, enquanto os supostos "médiuns" viram astros e, em vários casos, dublês de "pensadores", eles, que deveriam ser apenas os canais de divulgação de mensagens do além, deixam de ser os fornecedores de recados dos mortos para eles mesmos produzirem esses recados e apenas usarem os nomes dos mortos para iludirem os familiares.
Sob o ponto de vista da vida terrena, as atitudes dos supostos médiuns são apenas "controversas", não cabendo questionar com firmeza sua veracidade. Tomados de paixões materiais, muitos atribuem total confiabilidade aos "médiuns", seduzidos por suas "palavras de amor e de sabedoria", e contestá-los ainda é visto como "perseguição moral aos homens de bem" ou "pretensão de julgar a natureza espiritual pelos olhos da Terra".
Mas, sob o ponto de vista do mundo espiritual, os espíritos do além são lesados, porque não são eles que realmente se comunicam para nós, mas pessoas na Terra que usam seus nomes para fazerem propaganda religiosa. Proibidos de se manifestarem, eles se afastam e são eles mesmos que não veem a confiabilidade dos "médiuns da Terra".
Portanto, a "pretensão de julgar pelos olhos da Terra" não está por aqueles que, pelo argumento lógico, questionam as irregularidades das práticas "mediúnicas", mas sim por parte daqueles que tentam, através da mistificação, legitimar as coisas pelo pretexto da "fé" e dos "olhos do coração" que escondem contradições e erros gravíssimos nas mensagens ditas espirituais.
Dessa maneira, são os "donos dos mortos" que tentam enganar os vivos com suas atividades irregulares e se aproveitarem da emotividade alheia para exercerem o poder e o status que, embora pretensamente espiritualista, não deixa de ser um privilégio puramente material
O prestígio dos supostos médiuns é tido como eternamente imune, como se fosse, mesmo sujeito à contestação severa na Terra, se julga inabalável no além-túmulo. No entanto, esse pestígio "espiritualista" se desfaz com a morte, feito um castelo de areia sob o menor toque da água.
E aí vem a pior das desilusões, quando os "médiuns da Terra", confiantes de que serão, no além-túmulo, "espíritos puros" a manter o prestígio terreno, se tornam míseras almas decepcionadas com o baixo cartaz na vida espiritual.
É possível imaginar o violento choque que Chico Xavier teve depois de 2002, quando o adorado "semi-deus" da Terra reduziu-se, no além, a um mísero usurpador da memória dos mortos.
Assinar:
Postagens (Atom)







