sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Blogueira que defende Madre Teresa expressa desprezo pelos pobres

POBRES E SOFREDORES TÊM QUE PERMANECER ASSIM PARA QUE SE MANTENHA O "ESPETÁCULO DA CARIDADE".

Chamou a atenção um texto que uma blogueira conhecida como "A Catequista" fez a favor de Madre Teresa de Calcutá. Altamente reacionário, o texto que reproduziremos abaixo apela não só para os clichês da imagem de "amor e bondade" atribuída a um ídolo religioso e não apenas contra o ateísmo que Christopher Hitchens professou em sua vida, mas ao seu desprezo ao sofrimento dos pobres.

O trecho que chamaremos atenção aparecerá grifado por nós para que vocês analisem o quanto pessoas que, sob o manto da religião, têm a boca e as cordas vocais tão cheias de vocabulários amorosos, mas, sob a menor contrariedade, explodem em rancor e raiva como cães ferozes avançando sobre qualquer desconhecido.

No "espiritismo", religião brasileira que se diz "incapaz de sentir rancor", tivemos, no episódio de Amauri Xavier Pena, sobrinho de Francisco Cândido Xavier, um texto de um líder "espírita" espumando de ódio.

Mas, para quem pensa que o assunto "desencarnou" por aí, houve o rancor dos "espíritas" contra os repórteres de O Cruzeiro, no caso da farsante Otília Diogo, e nas declarações furiosas dos seguidores de Chico Xavier, Divaldo Franco e companhia nas chamadas "redes sociais".

Pois "A Catequista" também escreve um texto raivoso, e no entanto estranhamente defende que os pobres e enfermos "permaneçam" em sua condição. Sem dar uma réplica consistente aos questionamentos do mito da Madre Teresa, levantados sob as denúncias de Hitchens, a blogueira "catequista" comete muitos equívocos em seu texto "apaixonado" em prol da freira albanesa.

Entre tais equívocos, é o de afirmar que Madre Teresa "não quis fundar uma ONG" nem "realizar um trabalho social". Pois eram as duas coisas que, em tese, deveriam ser o trabalho da freira. A "catequista" se esqueceu que muita gente, ao ler essa passagem, poderá perguntar a ela "em que planeta ela vive".

Além do mais, caridade é livrar pobres e enfermos da miséria e da doença. Se os mantém assim, mesmo sob o pretexto de que a Madre Teresa já é "sua riqueza", então esta posição é bastante hipócrita, porque a "ascensão social", que tanto a blogueira jocosamente define, é qualidade de vida, benefício, a verdadeira caridade, que é fazer bem ao próximo.

Se ela não pensa assim, se ela acha que Madre Teresa não precisa resolver tais problemas, então a blogueira deu um tiro no pé, e mostra o quanto a Teologia do Sofrimento, que é de definir o sofrimento como "algo lindo" - uma ideologia defendida abertamente por Chico Xavier - faz seus tão "cristãos" defensores estarem mais próximos dos insensíveis imperadores romanos do que de Jesus.

Nota zero para a blogueira "catecista". Ela mostrou que, nessa retórica do "amor e bondade", os pobres, enfermos e outros infortunados têm que permanecer nestas condições humilhantes e trágicas para garantir o "espetáculo da caridade" que faz parte do circo da bondade estereotipada e da misericórdia forjada pelos insensíveis e impiedosos. Prestemos atenção para o trecho grifado.

==========

Quem não gosta de Madre Teresa, bom sujeito não é

Do blogue A Catequista - Publicado em 11 de fevereiro de 2014.

Uma freira pequenina trabalhava como professora em uma escola católica, para meninas ricas. Até o dia em que, nas ruas de Calcutá, ela ouviu o clamor do Cristo sedento, faminto e doente. Após insistir, recebeu autorização para fundar uma nova ordem e, sozinha, deixou uma vida razoavelmente confortável e segura para viver entre os mais pobres dos pobres.

Aos poucos, se juntaram a ela antigas alunas, que se tornaram as primeiras missionárias da caridade. Madre Teresa procurava Jesus nos lugares onde ninguém O buscava: no lixão, ela ia quase todos os dias revirar a imundície, e muitas vezes recolhia ali pessoas doentes, já roídas pelos ratos, e até bebês, um dos quais conseguiu “ressuscitar” com um boca a boca (fato captado pelas câmeras da BBC).

Certamente, não foi uma mulher perfeita… deve ter tido lá os seus erros. Mas, dentro do coração de milhões de pessoas, católicas ou não, há uma convicção: se aquela mulher me visse em dificuldades, ela se comoveria e me ajudaria. Ela era mesmo santa. Tanto que seu nome virou sinônimo de virtude e bondade.

Suas rugas profundas eram como o leitos de um rio, onde corria amor e sofrimento. Mas o escritor ateu Christopher Hitchens não se comoveu com essa mulher; antes a odiou. Escreveu um livro e produziu um documentário – “Anjo do Inferno” – afirmando que Madre Teresa era “uma fanática, fundamentalista e uma fraude”. Em um programa de TV, foi além, e a xingou de bitch.

Como militante do socialismo, Hitchens não poderia mesmo entender o bem que a Madre fazia aos pobres. Sua visão materialista de mundo o impedia de ver além do que os olhos podem enxergar. Cadê os hospitais de ponta? Cadê os pobres saindo da pobreza? Perguntava ele.

Hitchens acusava a Madre de não ajudar os pobres a sair de seu estado de pobreza. De fato, Madre Teresa não fundou uma ONG, ela não fazia trabalho social; ela fazia CARIDADE, ela amava cada pobre como um filho saído de seu ventre. A mesma acusação que se fez a ela, poderia-se fazer a São Francisco de Assis: quem aí ouviu dizer que o santo levou algum pobre a ascender socialmente? E, no entanto… ele era a maior riqueza dos pobres, em seu tempo.

Alguns leitores nos pediram para refutarmos o documentário “Anjo do Inferno”. Curiosamente, a BBC deixa disponível esse filme no Youtube, mas não o estupendo Something Beautiful For God, produzido pela mesma emissora, em 1969 (se alguém achar no Youtube, por favor me avise). O interesse da BBC em encobrir as boas obras da Madre e jogar lama em sua memória fica ainda mais claro quando a emissora se recusa a autorizar a exibição do documentário de 1969 em um festival de cinema gratuito realizado em 2010, para celebrar o centenário de nascimento de Teresa (Fonte: The Hindu).

Alguns dizem que Hitchens era obcecado pela figura de Madre Teresa. Eu prefiro pensar que ele era fascinado por ela, mas se revoltava contra esse fascínio, tentando sufocá-lo com fúria. Fúria e amargura era só o que ele tinha, já que seu livro e seu documentário são pobres, muito pobres em fundamentação. Que Deus tenha misericórdia de sua alma. Espero que, ainda que em seu último suspiro, ele tenha se arrependido de seus erros.

Em vez de rebater o documentário de Hitchens, em que Madre Teresa é ate mesmo acusada de combater fortemente o aborto e o divórcio (eita mulé marvada!), preferimos deixar aqui o testemunho do nosso leitor Harun Salman. Ele aprendeu a amar Jesus no convívio com a freirinha de Calcutá. Então, os ateus socialistas ladram, e a caravana da caridade passa!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Mídia reacionária apoia católicos e "espíritas" na cruzada contra Record


Você acha que os mitos de Francisco Cândido Xavier e Madre Teresa de Calcutá são "admiráveis" por si mesmos? Você não entende metade da história que está por trás. As duas figuras religiosas, na verdade pessoas de profunda leviandade, correspondem, em verdade, a uma "guerra religiosa" que o poder midiático faz no Brasil contra a ascensão da Rede Record.

Você é manipulado pela mídia reacionária e não sabe. Não percebe que estereótipos de "amor e caridade" não são trabalhados pela grande mídia mercenária de graça, só para "limpar os pecados" dos barões da grande mídia. Os mitos de Chico Xavier e Madre Teresa não aparecem da forma "pura" que muitos acreditam, mas são frutos de um engenhoso processo de persuasão midiática.

Reforçar supostos mitos de "filantropia", pregando uma visão conservadora e inócua de "ativismo social" - mais um passivismo do que um ativismo social de verdade - , é uma manobra da grande mídia de promover certos ícones religiosos para enfrentar o crescimento das seitas concorrentes.

No âmbito mundial, o factoide em torno da suposta cura "milagrosa" atribuída a Madre Teresa de Calcutá - um pretenso "milagre" que já demonstra desconfiança por conta de um laudo médico forjado por um hospital católico de Santos para uma falsa doença crônica - tornou-se uma dupla campanha de reabilitação da Igreja Católica nos países do Ocidente.

O factoide - um engenheiro que se supôs vítima de hidrocefalia e estava "em estado terminal" se curou de maneira "inexplicável" para a Ciência - é uma forma do Vaticano retomar sua influência e neutralizar, nos países ocidentais, o crescimento da religião muçulmana, principalmente com as migrações dos fugitivos dos países árabes sob guerras ou regimes tirânicos, como a Síria.

Por outro lado, é uma forma de reabilitar a imagem, rentável para os sacerdotes da Santa Sé, da Madre Teresa de Calcutá, abalada por denúncias, dotadas de provas consistentes, de que ela teria maltratado pobres e enfermos, praticava corrupção e se aliava a magnatas corruptos e tiranos políticos. O "milagre" liberou o caminho para a canonização, prevista para setembro de 2016.

No âmbito brasileiro, o factoide do engenheiro que "se curou" por causa de uma medalhinha de Madre Teresa é um recurso que favorece movimentos religiosos como o Catolicismo e o "espiritismo", que se aliam na cruzada contra a ascensão do Neopentecostalismo, simbolizado pela Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo.

RELAÇÕES MIDIÁTICAS

Se o prezado leitor pensa que Chico Xavier, Divaldo Franco, Madre Teresa, José Medrado e tantos outros são mitos religiosos naturalmente desenvolvidos pela "qualidade natural da bondade", é bom rever tais ilusões e perceber o processo midiático que está por trás.

Sabe-se que, no caso de Madre Teresa, freira albanesa (nascida Anjezë Gonxhe Bojaxhiu), seu mito foi desenvolvido por Malcolm Muggeridge, no seu documentário de 1969 da BBC de Londres, intitulado Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God, no original).

No caso de Chico Xavier, observa-se que o filme de Muggeridge inspirou explicitamente o relançamento do mito do "médium" brasileiro, antes trabalhado de maneira sensacionalista como um paranormal que "falava pelos mortos" mas que se meteu em muitas e graves confusões, a última delas com o caso Otília Diogo.

Na tentativa de trabalhar o mito de forma "limpa" e não mais diante de polêmicas, a Federação "Espírita" Brasileira fez as pazes com as Organizações Globo, num contexto comum: ambas defenderam o golpe de 1964 e a ditadura militar. A corporação da família Marinho chegou a denunciar as fraudes de Chico Xavier, mas passou a ser solidária a ele.

Desde o fim dos anos 1970, elementos do documentário de Muggeridge deram o roteiro para o mito de Xavier, similar ao de Madre Teresa (curiosamente ambos são abertamente comparados por seus seguidores).

Alguns desses elementos são o "filantropo" segurando bebê no colo, falando com velhinhos miseráveis, sendo recebido pela multidão, vendo crianças carentes tomando sopinha, acolhendo crianças em euforia, cumprimentando senhoras filantropas de classe média etc. Tudo em Chico Xavier foi inspirado no documentário sobre Madre Teresa de Calcutá.

É só observar as reportagens ou documentários sobre Chico Xavier feitos pela Rede Globo a partir do fim dos anos 70. Malcolm Muggeridge puro, ainda que com as devidas adaptações de contexto. E o mito do "bondoso médium" não saía de graça, esse mito era produzido pelo poder midiático mediante dois principais motivos.

Um era a crise político-institucional da ditadura militar. O mercado e a mídia fizeram manobras, em diversos sentidos, para evitar que, naqueles idos de 1977-1981, épocas de intensas crises sociais que desgastaram o poder ditatorial, ressurgissem manifestações como em 1963 e nos meses que antecederam o golpe de abril de 1964.

Sabe-se que, no lado pagão, o poder midiático financiou a bregalização cultural, que aos poucos passaram a ocupar redutos que eram das expressões culturais de qualidade, tirando as chamadas "boazudas" de revistas pornográficas de segunda categoria para programas de auditório, criando uma "escola" para as Solange Gomes, Geisy Arruda e Mulher Melão da vida.

No lado religioso, a ideia era trabalhar o "bom exemplo" de Chico Xavier, um católico fervoroso mas, como excomungado pela igreja e adotado pelo "movimento espírita", era uma pessoa considerada "ecumênica". Era uma forma tanto de "tranquilizar" uma sociedade tensa quanto para evitar a ascensão de pastores neopentecostais como Edir Macedo e R. R. Soares.

E foi só a Globo que fez isso? Não. Na campanha do Catolicismo e do "movimento espírita", se vê que o poderio midiático é representado também pelo SBT, do animador Sílvio Santos, e do Grupo Bandeirantes, da família Saad, em parte ligada ao corrupto ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros.

JOSÉ LUIZ DATENA E RACHEL SHEHERAZADE - Truculências moralistas em redes "espiritualizadas" como Band e SBT.

O SBT adaptou um concurso de premiação da BBC (a mesma do documentário de Muggeridge) e criou o Brasileiro do Ano. Em 2012, elegeu Chico Xavier como o Maior Brasileiro do Ano, numa lista de cem que incluiu até o apresentador José Luiz Datena, que comanda o Brasil Urgente (TV Bandeirantes), programa que explora a criminalidade e a violência como entretenimentos televisivos.

É o mesmo SBT que, mais tarde, contratou Rachel Sheherazade, jornalista evangélica cujo reacionarismo extremo a fez ser conhecida como a "Sarah Palin brasileira", em alusão à estadunidense filiada ao Partido Republicano e que integra o grupo neo-medieval Tea Party.

Uma vez, Rachel defendeu que "justiceiros" espancassem um menor que cometia pequenos roubos, que estava amarrado em um poste, no Rio de Janeiro. E isso num SBT que elege Chico Xavier no topo dos cem maiores brasileiros!

A TV Bandeirantes é conhecida por criminalizar os movimentos de agricultores sem-terras, por veicular o Brasil Urgente que espetaculariza a violência e que veiculou o reacionário humorístico CQC, hoje extinto (apesar das promessas de voltar ao ar em breve).

Pegando carona na Globo, SBT e Bandeirantes também veiculam reportagens sobre "mediunidade", "curas espirituais" e "curas milagrosas". Um pouco de Catolicismo propriamente dito, outro tanto de "espiritismo". Tudo dentro da mesma abordagem que evoca os ecos de Malcolm Muggeridge. Será que o espírito do jornalista inglês anda rondando tais emissoras?

Nos últimos anos, programas como Profissão Repórter e Fantástico (Rede Globo), Jornal da Band (TV Bandeirantes) e SBT Repórter (SBT) se empenham nessa campanha, apresentando programas que variam entre as "curas pela fé" e personalidades como Divaldo Franco. Nesta semana, o Jornal da Band apresenta uma série de reportagens sobre "curas milagrosas", baseado no factoide de Santos.

E isso ocorre porque é uma forma de fazer o espectador relaxar e ficar feliz com os arautos da esperança e do bem-estar do próximo, que inocentemente utilizam a grande mídia para propagar de maneira simples a sua linda mensagem? Não!

É só ver o outro lado. A Rede Record lidera a audiência televisiva com a adaptação em novela bíblica da saga de Moisés, Os Dez Mandamentos. A popularidade da novela bíblica despertou o sinal de alerta nas concorrentes ao derrubar o antes inabalável Jornal Nacional, mesmo nas televisões do Rio de Janeiro, antes ferreamente ligadas na Globo.

Daí que a Bandeirantes vai mostrar "curas espirituais" no momento em que Moisés, num espetáculo dramatúrgico, manda o mar se partir ao meio e envia gafanhotos para azucrinar o Faraó. Isso quando prepara o terreno para que Madre Teresa seja santificada por antecipação pela Band, SBT e Globo e abre caminho para uma canonização informal de Chico Xavier, sem depender da chancela do Vaticano.

No âmbito impresso, destaca-se a "polêmica" porém complacente adesão da revista Superinteressante - dedicada a curiosidades em geral - a Chico Xavier e ao "movimento espírita", sendo uma publicação da mesma Editora Abril famosa pelo reacionarismo extremo da revista Veja, que condenava todo tipo de movimentos sociais.

Dessa forma, a gente observa o quanto essa mídia reacionária, que produz seus Reinaldo Azevedo, José Luiz Datena, Rachel Sheherazade, Danilo Gentili, Merval Pereira e tantos outros, apoia tanto o "movimento espírita" e o Catolicismo. Não é um apoio casual nem inocente. Há interesses em jogo, tanto comerciais quanto ideológicos. Mas como, segundo a fé religiosa, o "amor tudo permite"...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Gosta de Chico Xavier? Agradeça a Rede Globo!


A pretensa unanimidade em torno de Francisco Cândido Xavier aparentemente atinge fronteiras externas ao âmbito religioso católico e "espírita", envolvendo setores das esquerdas ou mesmo ateus. O mito da suposta filantropia de Chico Xavier torna-se o canto da sereia que seduz boa parte dos brasileiros.

A memória curta que atinge muitos brasileiros se esquece de que esse mito de "amor e bondade" foi construído em uma engenhosa campanha ideológica feita pela Federação "Espírita" Brasileira em parceria com as Organizações Globo.

O mito de Chico Xavier, que fez muita gente se esquecer que ele fez terríveis plágios e pastiches literários e usurpava os nomes dos mortos, sobretudo dos mortos falecidos que o "médium" transformava em fetiches, tornou-se a maior obsessão que escraviza almas em todo o Brasil.

Prisioneiras de retrógradas crenças religiosas, muitas delas de um deslumbramento em níveis medievais, os seguidores de Chico Xavier ignoram que tenham sido manipulados pelo poder da Rede Globo, que retrabalhou o mito do anti-médium no auge da ditadura militar.

É só observar o contexto da época. Governo do general Ernesto Geisel, crise político-institucional do regime militar - que recebia o apoio de Chico Xavier e da FEB desde a campanha pelo golpe consumado em 1964 - , e intensa turbulência política e social que ameaçava criar uma desordem nacional.

A sociedade conservadora reagia à sua maneira. O machismo com seus feminicídios conjugais, o coronelismo com sua pistolagem, os Esquadrões da Morte com sua "limpeza social", os jagunços urbanos eliminando sindicalistas, o crime organizado crescendo sob o patrocínio do Imperialismo e do livre comércio de armas.

Diante desse quadro de muita tensão social, seria ingênuo dizer que o mito de Chico Xavier veio para "trazer paz" para a nação. Grande engano. Um plagiador de livros e usurpador dos nomes dos mortos - o que ele fez de Humberto de Campos, só para citar um entre milhares de exemplos, é de uma leviandade sem tamanho - não poderia virar ídolo porque "só queria a paz".

Além disso, o processo foi tendencioso porque a fonte de toda essa mitificação de Chico Xavier nem foi original. Ela tomou como base o que o jornalista inglês Malcolm Muggeridge fez com Madre Teresa de Calcutá no documentário Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God), de 1969. A Rede Globo encampou a causa também por motivos tendenciosos.

Afinal, as seitas neopentecostais se multiplicavam através de dissidências da Igreja Nova Vida, fundada em 1960 pelo canadense radicado no Brasil, Robert McAllister, e a Globo, católica, não podia perder a briga com os evangélicos dessa vertente.

É claro que a Rede Globo não iria se limitar a cultuar padres e sacerdotes exclusivamente. Ela precisava de um ídolo religioso que fosse "ecumênico" e atingisse os mais diversos segmentos sociais, mesmo aqueles que não sentem simpatia pela rede televisiva.

REDE GLOBO ALCANÇA ATÉ QUEM DIZ ODIÁ-LA

O mito de Chico Xavier foi certeiro. Ele representava estereótipos que agradavam ao imaginário religioso conservador. Um velhinho humilde, frágil, devoto religioso, simpático e aparentemente indefeso, simbolizando valores e paradigmas que correspondem ao moralismo e a fé religiosa.

A Globo trabalhou o mito de Chico Xavier com os mesmos ingredientes de Muggeridge, através de veículos jornalísticos como Jornal Nacional, Fantástico e, principalmente, o Globo Repórter, programa que segue o estilo documentário, mesmo gênero do filme sobre a Madre Teresa.

É só observar as aparições de Chico Xavier: ele recebido pela multidão, abraçando bebês no colo, cumprimentando miseráveis, vendo crianças carentes tomando sopa. Tudo isso é igual ao que Muggeridge fez com Madre Teresa de Calcutá. O jornalista inglês deveria ter seu crédito reconhecido pelo mito de Chico Xavier.

Aliás, se os seguidores de Chico Xavier o endeusam tanto, deveriam endeusar também Roberto Marinho e Malcolm Muggeridge. Deveriam imprimir os retratos do empresário da Globo e do jornalista da BBC e colocá-los como santinhos para orações diárias. O "milagre" da Rede Globo em influenciar até aparentes detratores é grande e não envolve só Chico Xavier.

O "funk carioca", por exemplo, nada seria se não fosse a influência da Rede Globo. Muita gente insiste até hoje que o ritmo "surgiu nas periferias" - só falta dizer que o "funk" nasceu no Quilombo dos Palmares, no século XVIII, o que é absolutamente ridículo - , mas a verdade é que ele nasceu dos escritórios da Globo em reuniões com os empresários e também DJs do ritmo, que desde os primórdios tiveram parcerias com veículos da emissora.

A gíria "balada", que contaminou o imaginário juvenil, ultrapassando os limites da juventude frequentadora de boates e ouvinte de dance music, muitos imaginavam ser um jargão "genial" e "corajosamente juvenil" que ultrapassava os limites do tempo e do espaço, contrariando a natureza originalmente provisória e grupal de uma giria, mal conseguiam imaginar que era um produto de mídia.

A popularização da gíria "balada" - uma gíria sem pé nem cabeça que pode denominar tanto uma festa com DJs como um jantar entre amigos - se deu porque um conhecido empresário e divulgador dos agitos noturnos de São Paulo, Luciano Huck, era apresentador de um programa da Jovem Pan FM e depois virou um destacado astro da Rede Globo.

Ele havia feito uma parceria com o empresário da JP, Tutinha, para divulgar a gíria "balada" como um teste para ver como eles podiam influenciar a juventude. Assim, a popularização da gíria "balada" (palavra cujo sentido original nada tinha a ver com agitos noturnos) se deu através de uma combinada parceria entre a Jovem Pan FM e a Rede Globo. Ultimamente a JP também é conhecida por contratar jornalistas reacionários para comentar em programas informativos.

Esses episódios, assim como tantos outros, mostram o caráter perigoso que é o poder das Organizações Globo, que influenciam até quem não parece ter simpatia com a empresa e diz repudiar esse poder. Se alguém fala mal do Domingão do Faustão e fica dizendo a gíria "galera" o tempo todo, pode ter certeza que ele está influenciado pelo programa que diz desejar.

Isso é sério, porque, se um veículo dominante de comunicação é capaz de manipular não só as mentes que lhe são submissas, mas também aquelas que dizem repudiar seu poder, então a coisa se torna bem mais preocupante, porque indica um poder ainda maior de um veículo de comunicação e um alcance de manipulação que pega desprevenidos aqueles que dizem rejeitar o seu domínio.

E é assim que manobras da Rede Globo se infiltram no inconsciente coletivo como se viessem da própria sociedade. O que é planejado e elaborado por publicitários, produtores e psicólogos a serviço das Organizações Globo, nas quatro paredes de seus escritórios e salas, acaba sendo vista como algo surgido "espontaneamente" do imaginário popular.

Repetimos. Isso é muito grave. Seja uma gíria, seja um ritmo comercial, seja uma figura como Chico Xavier. Isso porque o que acaba se observando é que a Rede Globo acabou substituindo as consciências de muitos brasileiros, que só "decidem" as coisas com o toque do plim-plim.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

"Santo" recebe por comissão?


O episódio do "milagre" atribuído a Madre Teresa de Calcutá é um episódio estranho. Não se revelou a identidade do engenheiro beneficiado. Só tardiamente ele foi revelado como Marcílio Haddad Andrino.

Também não se precisou a data. Falou-se que ele tinha uma hidrocefalia, estava em estado terminal e, no dia seguinte, saiu curado por causa de uma medalhinha. E os médicos, em unanimidade, afimaram que a cura seria "impossível" em condições normais.

Estranha a história, de um suposto caso ocorrido em 2008. E que compensou a farsa do "milagre" de anos antes, quando Monica Besra, indiana que sofria de câncer no ovário, foi curada não por causa da medalha de Madre Teresa, mas por conta de um tratamento regular com medicamentos prescritos.

E por que o caso ocorreu no Brasil? Claro, aqui se legitimam quadros falsos quando feitos "em nome da espiritualidade" e sob o pretexto de garantir o "pão dos pobres". Madre Teresa de Calcutá, "derrubada" por denúncias sérias sobre aspectos sombrios de sua vida, tinha que apelar para o Brasil ainda complacente com as cegueiras da fé e "renascer" numa suposta cura aceita pelo Vaticano.

Ser "santo" é garantia de superioridade espiritual? Nem de longe! O título é uma concessão terrena e material dada por elites de sacerdotes ao longo dos tempos. É uma promoção que só vale para a Terra, no além-túmulo não tem a menor serventia e nem o espírito se torna melhor ou pior por causa desse título tão terreno.

O título nem tem essa nobreza, porque, na prática, mais parece uma promoção de loja. O sujeito que convencer mais fregueses a aceitar comprar em sua loja ganha uma comissão por isso. O religioso falecido que atender supostos milagres também ganha "comissão". É a "santidade", um título de promoção igual ao de um vendedor que finalmente consegue o posto de gerente.

O que chama a atenção no Brasil é essa preferência por curas difíceis feitas sem motivo. As curas "inexplicáveis" são muito mais comemoradas do que descobertas de curas por cientistas, que são as curas "explicadas".

Por trás de curas "milagrosas" feitas pelas orações católicas ou por "cirurgias espirituais" esconde um processo muito grave e preocupante. É a rebelião da Fé contra a Ciência, é a intromissão da fé religiosa sobre a área do conhecimento científico, e a tentativa de submeter as curas de doenças graves ao obscurantismo religioso, em vez do esclarecimento científico.

Dando preferência às supostas curas "sem explicação" e feitas sob a "luz da fé religiosa", em detrimento ao trabalho árduo de cientistas para estudos de curas para doenças graves, o que se observa são dados que não são tão positivos assim:

1) As curas "pela fé", sejam católicas, "espíritas" ou similares, são sempre seletivas, correspondendo a casos isolados e diferenciais. A cura "sem qualquer explicação" deslumbra e fascina muitos, mas ela sempre estabelece restrições e costuma beneficiar apenas beatos que se sentem subordinados pela fé religiosa.

2) As curas "pela fé" refletem o desprezo pelo trabalho científico, mesmo quando, diante do malabarismo das palavras ditas ou escritas pelos "espíritas", este seja visto como "atividade necessária e digna de muita admiração e respeito".

A Ciência, aliás, é vista pelos "espíritas" como "digna de muita admiração e respeito" desde que se limite a aprovar a fé religiosa. A fé religiosa pode intervir sobre a Ciência e competir na busca de curas "difíceis", ou atribuir falsas façanhas científicas a ídolos religiosos. Mas a Ciência está proibida de questionar a fé religiosa e seus totens e mitos.

E aí o Brasil festeja a "canonização" de Madre Teresa de Calcutá que, por trás da imagem de "santa viva" enquanto, obviamente, ela estava viva, ignorando que ela poderia muito bem ter curado os doentes graves que alojou feito animais no abatedouro. Não fez.

Talvez o mérito de "santidade" fosse mais coerente se todos os infortunados abrigados por ela tivessem sido curados como o suposto engenheiro de Santos. Só que não. E a Madre Teresa de Calcutá vai virar "santa" com os "espíritas" se somando aos aplausos dos devotos da freira albanesa.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Há mais altruísmo nas pesquisas científicas do que nas "curas milagrosas"


Com o recente caso da canonização de Madre Teresa de Calcutá, atribuída a uma suposta cura "milagrosa" de um brasileiro, que abafou as denúncias sobre suas irregularidades trazidas por Christopher Hitchens, revela o embate entre fé religiosa e conhecimento científico, num país como o Brasil, ainda incipiente para entender problemas que o Velho Mundo sofreu há séculos.

O Brasil ainda está apegado a muitos conceitos místicos, a estereótipos de "amor e bondade", e sofre a insegurança de abrir mão da idolatria de totens consagrados para buscar a lógica e a coerência dos fatos. "Danem-se os fatos, o que importa é o sonho e a esperança", defendem tais pessoas.

Muitas pessoas no Brasil ainda se revoltam - sim, se revoltam - quando algum questionamento vai contra totens religiosos consagrados e desafiam estigmas de "amor e bondade" que muitas pessoas acreditam.

Daí que, no "espiritismo", as pessoas se revoltam, irritadas, quando alguém chama de "missa" o projeto "Você e a Paz" de Divaldo Franco ou se contesta a veracidade das "psicografias" de Parnaso de Além-Túmulo e dos livros "mediúnicos" que usam o nome de Humberto de Campos.

Houve comentários absurdos na Internet, relacionados ao "espiritismo" no Brasil, em que as pessoas reclamavam do "excesso de lógica" da obra de Allan Kardec ou o apelo, um tanto jocoso, de um internauta que disse "deixa Chico Xavier ser charlatão, pelo menos ele ajuda muita gente".

O perigo de surgir um "Estado Islâmico" nos apegos do deslumbramento religioso são muito grandes. Não é só o caso de uma Síria, um Irã ou um Iraque, redutos atuais desse fanatismo, ou de iniciativas como o fascista e medieval Klu Klux Klan nos EUA, mas o avanço da "dócil" histeria religiosa que no Brasil não aceita qualquer contrariedade.

Diante de casos "milagrosos", como as "curas" ligadas ao Catolicismo e ao "espiritismo", em que doenças graves desaparecem "porque sim", é preocupante que a fé tenha que estabelecer sua supremacia sobre a realidade e que impõe os estereótipos de "amor e bondade" para que sua "beleza" na forma domine as pessoas, que nunca abrirão mão desse deslumbramento místico.

"MILAGRES" SÃO MAIS "SELETIVOS" QUE OS ESTUDOS CIENTÍFICOS

Será que ninguém observou que os "milagres" tendem a ser mais "seletivos" nos benefícios do que os estudos científicos, estes o mais insólito, porém mais realista, reduto potencial de solidariedade e ajuda ao próximo, descontando os trabalhos científicos que sejam feitos de maneira maliciosa ou perniciosa, que não são maioria e se servem mais ao obscurantismo do que ao conhecimento.

Os trabalhos científicos que se apoiam na busca do conhecimento são os que mais estabelecem solidariedade, mais do que meros procedimentos individuais de rezar a um santo para pedir a cura de uma doença grave. Afinal, o processo religioso, que é fundamentado na "legitimação" de fenômenos "sem qualquer explicação", não busca o altruísmo pleno, e segue procedimentos não muito generosos.

Em primeiro lugar, os "milagres" são consequentes de um tipo de submissão. Submete-se a um santo de sua preferência e ele "lhe concede o favor". Em vez de buscar soluções lógicas para algo, ela surge "pronta" e obtida "de repente", o que parece algo urgente e merecido diante de situações de muita necessidade, mas não é.

Afinal, não é a necessidade em si que se leva em conta. Tudo é condicionado à submissão a um santo. Ou, no caso do "espiritismo", ao trabalho dos "espíritos benfeitores". Daí que ocorre o caráter "seletivo" do benefício. Se a pessoa é submissa a um santo ou "amigo de luz", ganha o prêmio. Caso contrário, que ela se dane.

Por isso existem casos em que pessoas buscam a mesma devoção e não têm o mesmo benefício. E, o que é pior, os religiosos ainda se arrogam a dizer que o benefício não foi obtido porque "houve pouca fé" e "a devoção foi fraca".

Há um desvio de foco em relação à natureza do necessitado, que fica em segundo plano, e até o benefício "milagroso" ocorre não em razão da necessidade do infortunado, mas do modo em que ele ou seus familiares e amigos mais próximos se devotam a santos e "amigos de luz" de sua preferência.

O "milagre", portanto, subestima as necessidades humanas. Elas se reduzem a um veículo para a popularidade de um santo ou "amigo de luz". O beneficiado é só um beneficiado, o que importa é que o "milagre" aumentou a popularidade do santo ou "amigo de luz" e a "quota milagrosa" garante ao figurão religioso o prêmio da canonização ou a "legitimação" informal da "superioridade espiritual".

Na Ciência, ocorre algo bem mais bonito. Pesquisadores realizam um estudo sobre determinada doença ou sobre um problema cotidiano, no caso as Ciências Humanas. Buscam-se livros e teses para serem lidas e confrontadas. Discutem-se problemas e questões e buscam-se respostas com um máximo de coerência e lógica. Testam-se procedimentos e soluções dotadas de certo risco, para que se obtenham respostas concretas para tais problemas.

Os investimentos inexpressivos que os cientistas recebem para estudar doenças graves é inversamente proporcional ao apoio festivo que se tem quando essas mesmas enfermidades são "curadas" de forma "inexplicável" por causa de uma devoção a um santo ou "amigo de luz". Isso revela uma grande injustiça e deprecia o trabalho científico, que ainda busca racionalizar os recursos para realizar seus trabalhos com um mínimo de agilidade possível.

Quanto deve custar uma medalha de um santo ou um folheto com o retrato de um ídolo "espírita"? Em muitos casos, nada. Por outro lado, cientistas precisam de dinheiro para criar e sustentar cobaias, para viajar para pesquisar livros e locais de estudos, gastam papel para elaborar teses, e ainda vão aqui e ali para realizar entrevistas e outros trabalhos.

Pesquisadores trocam ideias, refazem trabalhos, arriscam procedimentos para estudar curas e outras soluções, e, não bastassem receber poucos recursos financeiros, ainda não contam com o apoio da sociedade, num contexto em que esta ainda é manipulada pela grande mídia, responsável por perpetuar as fantasias e preconceitos da fé religiosa.

A ideia de "milagre" é preconceituosa, porque, na medida em que se apoia num fenômeno ocorrido sem explicação, ela se apoia justamente nesse princípio, o de forjar uma certeza em algo que não tem um conceito, o "milagre" é uma ideia pré-concebida de um benefício obtido.

E é isso que se deve saber. A Ciência mostra exemplos de solidariedade e altruísmo bem maiores do que a fé religiosa, porque o trabalho científico une um grupo de pessoas que atua em prol do conhecimento e da busca de respostas e soluções para problemas de grande gravidade.

Já a fé no "milagre" é "seletiva", porque se apoia não na necessidade urgente de uma pessoa, mas na devoção e submissão a um ícone religioso para o êxito de um benefício. E nem todos são beneficiados da mesma forma, pois não há um mesmo "milagre" para todos, o que compromete o valor altruísta tão comumente atribuído a ele.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Suposto milagre faz Vaticano marcar canonização de Madre Teresa de Calcutá

CHRISTOPHER HITCHENS INVESTIGOU E ENCONTROU IRREGULARIDADES NA TRAJETÓRIA DE MADRE TERESA DE CALCUTÁ.

Depois de tantos anos barrado por polêmicas referentes a um milagre que não existiu, um outro suposto milagre atribuído a Madre Teresa de Calcutá fez o Vaticano decidir por sua canonização, que já tem data marcada, em setembro de 2016.

O processo foi encaminhado pelo Padre Caetano Rizzi, de Santos, com base num suposto caso ocorrido em 2008 com um homem morador de Santos, cidade do litoral paulista. Ele estava passando uma lua-de-mel com a mulher em Gramado, no Rio Grande do Sul, quando se sentiu mal, foi levado ao médico e diagnosticado com hidrocefalia, excesso de líquido no cérebro.

Transferido às pressas para um hospital em Santos, o paciente estava inconsciente. Foram diagnosticadas oito infecções no cérebro. Uma cirurgia de drenagem chegou a ser marcada para o dia seguinte, mas assim que esse dia veio o homem já se sentia curado e tomou o café sozinho.

A esposa do homem foi para a Paróquia de Nossa Senhora Aparecida, em São Vicente, falou com um padre e disse que o marido estava em estado terminal. O padre lhe deu uma medalha da Madre Teresa de Calcutá e ela decidiu colocá-la no travesseiro onde o marido estava internado. Ela voltou para casa e orou para a freira albanesa.

Membros da Ordem dos Médicos, meses depois, teriam realizado um exame e constataram que a suposta cura era "cientificamente inexplicável" e, por unanimidade, reconheceram que era um "milagre" de Madre Teresa. Outras 14 testemunhas foram entrevistadas, além do padre Rizzi. Um documento de 400 páginas foi enviado para o Vaticano.

A estória foi relembrada numa época em que foi lançado, nos EUA, o filme The Letters, que mostra a vida de Madre Teresa com ênfase nas cartas que ela escreveu no decorrer de 40 anos. O episódio também tenta compensar um "fracasso" de um suposto milagre que depois foi comprovadamente contestado.

Foi em 2002, quando houve o caso da indiana Monica Besra, que havia sido diagnosticada com um câncer. Ela sentia dores abdominais intensas e os médicos identificaram tuberculose e tumor no quisto dos ovários. Foi colocada uma medalha da Madre Teresa sobre seu abdome e ela foi curada, mas não por conta do milagre, mas porque seu tumor era pequeno e pôde ser curado com o uso regular de medicamentos.

Até que ponto o caso do homem de Santos, cuja identidade não foi revelada, teria realmente sofrido a hidrocefalia? Ele não teria tomado um medicamento que teria causado a cura? Ou houve algum mal entendido quanto aos resultados do exame ou às sensações do paciente?

HISTÓRICO SOMBRIO

A madre albanesa que está prestes a virar santa é a mesma que alojou pobres e enfermos de qualquer maneira, lhes dava apenas aspirina ou paracetamol para aliviar as dores e permitia o uso de poucas seringas que, usadas, só eram "lavadas" com água de torneira e reutilizadas depois, algo que normalmente se vê em usuários de drogas que compartilham seringas infectadas.

O jornalista Christopher Hitchens (1949-2011) investigou as "casas dos moribundos" de Madre Teresa de Calcutá e observou irregularidades diversas, como as descritas acima. O que ele constatou foi publicado tanto no livro A Intocável Madre Teresa de Calcutá (The Missionary Position: Mother Teresa in Theory and Practice), de 1995, e no documentário Anjo do Inferno (Hell's Angel), de 1997.

"Madre Teresa não é amiga dos pobres. Ela é amiga da pobreza. Ela disse que o sofrimento era um presente de Deus. Ela passou sua vida se opondo à única cura conhecida para a pobreza, que é o poder das mulheres e sua emancipação de uma forma animal de reprodução compulsória", afirma Hitchens.

Embora o livro de 1995 tenha revoltado a Igreja Católica, pesquisas posteriores comprovaram dados sombrios de Madre Teresa: sua cumplicidade com tiranos políticos e magnatas corruptos, a falta de cuidado no alojamento dos pobres e doentes, e suas opiniões conservadoras a respeito de aborto e família, não bastasse a Teologia do Sofrimento que diz que "sofrer é lindo".

Um grupo de acadêmicos do Canadá comprovou esses dados, diferente do que fazem os acadêmicos das universidades brasileiras, sempre buscando respaldar ícones religiosos. Sem temer idolatrias religiosas, as pesquisas acadêmicas buscam nos fatos e na lógica o sentido de veracidade, enquanto no Brasil o preocupante apego à fé impõe limites ao raciocínio investigativo de muitos.

Aliás, por que foi no Brasil que o suposto milagre aconteceu? Por que aqui o raciocínio é quase sempre visto como um mal, ou como uma "virtude" a ser domada pelas rédeas da fé e da mistificação religiosa?

Isso se mostra tão preocupante que vemos um caso aberrante de Francisco Cândido Xavier, que de plagiador e imitador de estilos literários passou a ser visto como "super-médium" e um "santo" informalmente declarado, sem a chancela do Vaticano, mas sob a histeria de seguidores fanáticos tão exaltados e deslumbrados quanto os católicos.

Pessoalmente, nada temos contra Madre Teresa de Calcutá. Mas, diante de fatos que comprovam suas irregularidades, temos que admiti-las com imparcialidade e sem complacência, sem a "peninha" com que se sente diante de totens religiosos que parecem intimidar as pessoas com seu aparato de pretensos amor, bondade, caridade e humildade.

Se Madre Teresa alojou os pobres e doentes sem qualquer cuidado e não lhes dava o devido socorro, se ela pregava que o sofrimento era uma "bênção", se ela chegou a elogiar a "vocação pacifista" de Ronald Reagan, então presidente dos EUA, enquanto este mandava assassinar ativistas sociais de qualquer tipo - até padres e freiras progressistas - , na América Central, não podemos consentir com a imagem de "santa viva" que teve Madre Teresa de Calcutá.

É como fazemos com Chico Xavier, que cometeu plágios e pastiches literários que temos que admitir devido a comparações sérias que apresentam aberrantes disparates entre o que os alegados autores fizeram em vida e as obras tidas como "espirituais". Um Humberto de Campos falando como padre é inadmissível! E não podemos nos omitir por causa da imagem de "bonzinho" de Chico Xavier.

Chico e Teresa, além disso, eram adeptos fervorosos da Teologia do Sofrimento. Eles sempre defenderam que os sofredores não deveriam reclamar, que deveriam aceitar os infortúnios de bom grado, em nome de uma recompensa futura, geralmente póstuma, da qual não se sabe como é e nem se sabe se realmente haverá.

Isso é muito grave. E ver que a Madre Teresa de Calcutá, mesmo permitindo que se usem seringas infectadas para o tratamento dos enfermos, será canonizada. Até que ponto os padres da Terra, os sacerdotes, com seus critérios materiais, podem decidir se fulano é "superior" ou não, isso é absolutamente duvidoso.

Mas isso não difere muito do "espiritismo" brasileiro que permite que se façam cirurgias espirituais com tesouras enferrujadas e sujas, mediante consentimento de muitos que comemoram milagres e curas "espirituais" como se fosse a vitória da Fé sobre a Ciência.

Daí que, diante dessas curas "milagrosas", o que existe é, na verdade, um grande conflito. É a Fé querendo ser mais curadora de doenças do que a Ciência, impedindo que se realizem estudos sérios para descobrir a cura de doenças graves.

Desta forma, a religião faz um grande prejuízo aos cientistas, que com todo seu trabalho de estudos e pesquisas, não conseguem ter dinheiro suficiente para levarem adiante pesquisas que levassem a descobertas de curas e tratamentos. Enquanto isso, se é a fé religiosa que "realiza curas", a sociedade dá maior apoio e, se possível, lhe investirá com o dinheiro que falta tanto aos nossos cientistas.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Allan Kardec rejeita tese defendida por Divaldo Franco

DIVALDO FRANCO FINGINDO QUE SEGUE AS LIÇÕES DE ALLAN KARDEC.

Hoje, dia do evento "Você e a Paz", missa "ecumênica" comandada pelo anti-médium baiano Divaldo Pereira Franco e que promete "a paz mundial" com uma simples retórica religiosa e rebuscada de sua atração principal, sugere uma reflexão bastante delicada.

Afinal, algumas correntes do "movimento espírita" acreditam que, se Francisco Cândido Xavier, o "popular" Chico Xavier, desviou de maneira explícita dos ensinamentos kardecianos, Divaldo Franco parecia mais "exemplar" e "correto" nas lições do professor lionês.

Só que isso consiste numa grande ilusão. Divaldo Franco deturpou tanto a Doutrina Espírita quanto Chico Xavier. Os dois nunca aprenderam de maneira devida as lições trazidas por Allan Kardec, e o que difere é a maneira com que o mineiro e o baiano fizeram na deturpação dos ensinamentos kardecianos. De toda forma, nenhum dos dois deveria ser considerado seguidor de Kardec.

Divaldo Franco apenas possui um verniz mais caprichado. Chico Xavier era confuso e contraditório, e muito mais explícito nas suas pregações igrejistas. Além disso, sua alta visibilidade foi obtida sob o preço de escândalos e polêmicas, de maneira indiscreta e conflituosa, o que faz com que seja mais fácil contestar o "kardecismo" de Chico Xavier do que o "kardecismo" de Divaldo Franco.

O verniz "espírita" de Divaldo Franco se apoia numa postura aparentemente elegante, com um ar professoral que lembra os antigos professores dos anos 1940, dotados de discurso rebuscado e pretensa erudição intelectual.

Além disso, se Chico Xavier trabalhou seu mito mais pela "humildade" e pela suposta força de um "velhinho frágil e bondoso", Divaldo Franco trabalha seu mito pelo estereótipo do pretenso sábio, que se supõe ter as respostas prontas para todos os assuntos, o que, diante da complexidade da vida humana, é uma tarefa impossível de ser feita, indicando que a "sabedoria" do "médium" baiano não é mais do que simples pose.

Duas das provas que Divaldo Franco contraria Allan Kardec se referem a duas manias que fazem o anti-médium baiano contradizer o professor lionês: o apreço que Divaldo tem por previsão de datas determinadas e sua crença na fantasiosa ideia de "crianças especiais", sejam "índigos" ou "cristais".

Ambas as ideias foram duramente combatidas por Allan Kardec, por representarem incoerências sérias e aberrações sem qualquer tipo de lógica. No decorrer de sua obra, Kardec sempre alertou que não existem tipos "diferenciados" de pessoas nem datas "determinadas" para a ocorrência de progressos na humanidade.

Quanto ao mito das "crianças-índigo" e "crianças-cristais", Kardec rejeitaria de imediato, porque, embora ele admita que, em determinado estágio da humanidade, possam surgir pessoas de elevada formação moral e intelectual, é inadmissível enquadrá-las em grupos "diferenciados", até porque podem sugerir discriminação.

Diz Kardec no livro A Genese, que na falta de, no momento deste texto, um exemplar da tradução de Herculano Pires, recorremos a nós mesmos ao original francês e publicarmos tradução por conta própria:

"A nova geração, destinada a iniciar a era do progresso moral, distingue-se pela inteligência e pela razão adquiridas geralmente cedo, somadas ao senso inato a respeito do bem e das crenças espiritualistas, que é o sinal inconfundível de um certo grau de progresso anterior. Ela não se compõe exclusivamente de espíritos eminentemente superiores, mas daqueles que, já tendo progredido, estão predispostos a assimilar todas as idéias progressistas e capaz de ajudar no andamento da regeneração".

Em nenhum momento Kardec rotulou tais espíritos deste ou daquele nome, se limitando apenas a dizer suas qualidades, verificando não os conceitos místicos de evolução espiritual, mas aspectos sociais de evolução moral e intelectual.

Além disso, os critérios de "índigo" e "cristais" são tão confusos que tais rótulos podem corresponder tanto a jovens cientistas como a membros de torcidas organizadas, ou intelectuais precoces e troleiros irresponsáveis, além do fato de que doenças como TDA (Transtorno de Déficit de Atenção), que se manifestam por surtos de desatenção de pessoas inteligentes mas sobrecarregadas, que às vezes as impelem a pequenas gafes ou trabalhos incompletos, como "qualidades positivas".

Portanto, não se trata de atribuir a uma "divindade interplanetária" chamada Kryon - figura tão fictícia e ridícula quanto o Xenu dos cientologistas - a evolução de determinadas pessoas, até porque muitas das qualidades das almas evoluídas podem ser obtidas através da educação e de um ambiente social saudável.

O mal-entendido do "movimento espírita" que atribui a Kardec a confirmação das "crianças astrais" (sejam "índigos", "cristais" ou, em outra variante, "estrelas") ignora que o pedagogo francês, pelo seu método de raciocínio científico e pela forma de analisar a humanidade, não iria discriminar em rótulos de que natureza for as gerações de pessoas diferenciadas moral e intelectualmente.

Portanto, é correto afirmar que Allan Kardec rejeitaria tais rótulos, em vez de confirmá-los, porque ele sabe muito bem que não é da natureza da humanidade tais rótulos, até pelo fato de que, separando as pessoas mais evoluídas em um rótulo, promove-se uma discriminação e, em contrapartida, se atribuirá às mesmas um caráter de anormalidade impróprios da natureza humana.

O "movimento espírita", que não aprecia individualidades e adota uma ideologia conservadora, é que costuma discriminar essas pessoas "especiais" tanto pelos critérios de agrupamentos quanto pela ideia "anormal" de evolução moral e intelectual (se bem que limitados ao juízo de valor religioso "espírita").

Na visão dos "espíritas", a definição de "crianças astrais" seria uma forma de juntar coletivamente, como que fazendo um gado bovino, de pessoas que não corresponderiam aos padrões de "normalidade" esperados pela sociedade convencional.

Quanto aos planetas chupões, Kardec nunca acreditou nisso e, em A Gênese, ele se limitava a admitir que a Terra sofreria uma evolução lenta e gradual da humanidade, sem haver qualquer fantasia de planeta "aspirador de pó" que "chupasse" a "gente ruim" da orbe terrestre. Kardec acreditava que a humanidade só se evoluiria pelo natural processo das evoluções sociais que conhecemos.

DIVALDO E SUAS DATAS CERTINHAS

O outro aspecto corresponde ao joguinho de falsa profecia, que é o de determinar datas certas como supostos marcos de evolução da humanidade, geralmente inspiradas em efemérides que o "movimento espírita" sente maior simpatia e apreço.

Sabe-se que o livro A Caminho da Luz, de Chico Xavier, ditado pelo esperto Emmanuel, anunciava "marcos" de evolução da Terra, como o surgimento do planeta, a vinda de Jesus ao mundo carnal terreno e uma "outra reunião" que, segundo conversas do anti-médium com Geraldo Lemos Neto, em 1986, se deu num sonho de 1969 tido após a notícia da viagem de astronautas à Lua, que daria numa "data-limite" para o "progresso da humanidade".

A tal "data-limite" escolhida foi 2019, e o "movimento espírita" já determinou "datas fixas" para supostas profecias que nunca ocorreram. Houve atribuições diversas, como 1952, 1970, 2000 e 2012, entre abordagens catastrofistas e outras igrejistas, que simplesmente não passaram de grandes bobagens para assustar crianças e adultos infantilizados.

Divaldo Franco parece estar tranquilo com seus desvarios de falso profeta, quando afirma, com discurso rebuscado e pseudo-racional, que a Terra passará por uma fase de regeneração em 2052 ou 2057, datas determinadas que o anti-médium baiano usou em causa própria.

Afinal, observemos os dois anos. 2052 é o ano dos cem anos da Mansão do Caminho, entidade fundada por Divaldo e seu parceiro, já falecido, Nilson Pereira. Já 2057 é alvo de bajulação, por significar os 200 anos do lançamento de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec.

Isso, no entanto, desmascara um Divaldo Franco que, feliz da vida, "consegue ser visto" por uma parcela da sociedade "espírita" como um "correto discípulo" de Allan Kardec, porque a determinação de datas fixas para qualquer fato é algo firmemente rejeitado pelo pedagogo francês.

Diz Kardec em A Gênese que "os espíritos realmente sábios nunca predizem nada com épocas determinadas", acrescentando que "se pode ter por certo que, quanto mais circunstanciadas as predições, mais elas são suspeitas".

Em O Livro dos Médiuns, Kardec expressou-se com muita clareza: "Os Espíritos bons podem fazer-nos pressentir as coisas futuras, quando esse conhecimento for útil, mas jamais precisam as datas. Todo anúncio de acontecimento para uma época certa é indício de mistificação".

Isso desmascarou Divaldo Franco de vez e fez com que sua roupagem de "kardecista autêntico", protegida por um ar professoral e falsamente científico, fosse derrubada por vez. O fato dele acreditar em "crianças astrais", planetas "aspiradores de pó" e datas fixas para qualquer coisa revela o quanto o anti-médium baiano é, a exemplo de Chico Xavier, um péssimo aluno do pedagogo francês.