terça-feira, 7 de julho de 2015

Rio de Janeiro naufragado em retrocessos e provincianismo

COMPLEXO DO ALEMÃO TEM ATÉ TELEFÉRICO. URBANIZAÇÃO, QUE É BOM, NADA.

Banditismo atingindo UPPs, exterminando policiais a bala ou matando cidadãos a bala e, agora, a faca. Sociopatas agredindo quem não concordasse com seus pontos de vista conservadores e falsamente arrojados. Figuras retrógradas se projetando como Silas Malafaia, Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.

O que deu no Rio de Janeiro? É certo que, desde 1990, o Estado sofreu muitos retrocessos, já que os anos 90 viraram a "década perdida" de todo o Brasil. Mas assusta que, nos últimos dez anos, a série de retrocessos diversos ocorridos no Estado do Rio de Janeiro, inclusive sua capital, o faz equiparar-se a um Estado do Norte / Nordeste no auge do coronelismo.

O surto provincianista atinge tudo. Na mídia, onde rádios comprometidas com a cultura são dizimadas e substituídas por rádios "pragmáticas" voltadas a interesses comerciais mais rasteiros (mesmo a "roqueira" Rádio Cidade não foge e até se aprofunda nesse esquema), e a televisão se vende para a vulgaridade mais abjeta e ao noticiário entre policialesco e tribunalesco.

Na Economia, o desabastecimento de produtos é aberrante, se lembrarmos que Rio de Janeiro é sede ou está na proximidade das demais sedes de fornecedores e fabricantes de produtos e se trata de um dos grandes centros do país. É grave saber que um grande centro possui supermercados que, quando o assunto é reposição de estoques, se comportam como mercadinhos do interior do Pará.

A insegurança, a má logística, a mentalidade "pragmática" (atendimento superficial de necessidades e demandas), o reacionarismo extremo e as arbitrariedades políticas dão o alarme diante do retrocesso de uma das capitais que serve de referência na propagação de valores e conceitos para todo o país.

Há até mesmo um atraso mental, uma falta de compreensão que vai da cultura á mobilidade urbana. O hit-parade apreciado pelo jovem carioca médio é tão rasteiro e mofado que nomes medíocres como Johnny Rivers, Boys Town Gang e Double You - e, no âmbito do rock, Guns N'Roses, Linkin Park e System of a Down - são considerados "coisas do outro mundo" e idolatrados como se fossem os maiores gênios da música de qualidade.

Pior: nas mídias sociais, houve quem tivesse elogiado o projeto de DJs Jive Bunny, como se fosse uma banda musical de grande conceito, ignorando que o sucesso "That's What I Like" não passa de uma colagem de sucessos do rock do período 1957-1968 que deveriam ser ouvidos em separado.

Na música brasileira, a preferência pelo "pagode romântico", risível caricatura do samba que condena o ritmo afro-brasileiro ao quase ostracismo, e pelo "funk carioca", além da tardia apreciação do "sertanejo", fazem com que o provincianismo no âmbito musical se torne alarmante, para um Estado que, há 55 anos atrás, tinha a Bossa Nova no seu auge.

O neo-coronelismo de políticos como Eduardo Paes, Sérgio Cabral Filho, a família Picciani, Carlos Roberto Osório, Luiz Fernando Pezão, José Mariano Beltrame e outros, de ônibus com pintura padronizada, inúteis guaritas intituladas UPPs e toda uma verborragia a favor da Saúde e da Educação que, na prática, deixa estes setores à deriva, também é preocupante.

Afinal, foi esse neo-coronelismo que viola as leis mas finge que as está cumprindo com rigor que abriu caminho para a ascensão do colega dos políticos acima citados, o deputado Eduardo Cunha, que ao presidir a Câmara dos Deputados, em Brasília, passou a adotar ou apoiar medidas e propostas antidemocráticas.

Um Estado de sociopatas digitais - jovens que até podem parecer skatistas ou surfistas e morar na Barra da Tijuca, mas se comportam como jagunços de algum latifúndio perdido no Acre - , que defendem o "estabelecido" na mídia, na política e na tecnocracia, para não dizer os que defendem valores racistas, machistas e homofóbicos, também vê gente como Jair Bolsonaro subirem em cena.

É claro que o Sul e o Sudeste, antes regiões de grande desenvolvimento social, cultural e econômico, sucumbem a um retrocesso vertiginoso nos últimos 25 anos. Mas o Rio de Janeiro leva isso às últimas consequências, com um retrocesso pior do que a Bahia de Antônio Carlos Magalhães.

Com todos os retrocessos que a Bahia de ACM, como o coronelismo midiático, de Mário Kertèsz, Marcos Medrado e companhia, e a "monocultura" da axé-music e seus subprodutos ("pagodão" e arrocha), além do clima de "cidades-fantasmas" no interior, ainda assim não atingiu os níveis catastróficos que o Rio de Janeiro está mergulhando.

O naufrágio do Rio de Janeiro num surto provinciano extremo, um provincianismo que não é só puro bairrismo, mas uma onda de retrocessos que não condiz com a fama do Estado como símbolo de modernidade do país (um símbolo que se dissolve na realidade vivida por cariocas e fluminenses), é algo que deveria ser visto como um fator gravíssimo para o pais.

Até na vida social, cada vez marcada pelas conveniências, pela insensibilidade de boa parte das pessoas, existe o fanatismo do futebol carioca que é visto como medida para as relações sociais. Existe até assédio moral no mercado de trabalho, em que as pessoas, para não sofrerem bullying, são obrigadas a gostar de futebol, sendo autorizadas apenas a torcer para um dos quatro maiores times.

Só esse comportamento revela o caráter provinciano doentio, num Estado que, no plano cultural, se prepara para jogar o samba apenas para o consumo das elites mais elitistas, enquanto o "funk carioca" constrói sua "monocultura" local, com um mercado totalitário e predatório que se viu na hoje decadente axé-music de Salvador.

O maior perigo, com esses retrocessos, é que o Rio de Janeiro, que continua sendo referencial de projeção de valores e conceitos a valer para todo o país, poderá fazer o Brasil cair em uma nova série de retrocessos. E isso a um ano das Olimpíadas a serem realizadas no Estado.

Os casos dos ataques racistas contra a jornalista Maria Júlia Coutinho, as manobras autoritárias de Eduardo Cunha, as bravatas de Jair Bolsonaro e o cafajestismo político de Eduardo Paes, Luiz Fernando Pezão e companhia, são apenas aperitivos do pior que poderá vir.

A não ser que os cariocas e fluminenses se recusem a assumir uma postura "bovina" imposta pelo "estabelecido" e reajam contra tudo isso.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Por que as pessoas estão tão desinformadas sobre a deturpação "espírita"?


O "espiritismo" brasileiro é esclarecedor? Está comprometido com a ciência e o ativismo social? Está enquadrado na vanguarda dos movimentos ativistas e filantrópicos do país? Embora muitas pessoas respondam afirmativamente a todas essas perguntas, a realidade mostra o lado oposto, apesar das denúncias não serem muito apreciadas pela maioria dos que se dizem "espíritas".

Em terra de cego, quem tem um olho é rei, frase que é um famoso ditado popular. As pessoas no Brasil andam desinformadas das coisas, e mesmo o diploma universitário, a "vida das ruas" e o contato intensivo com a Internet não conseguem fazer, por si só, as pessoas mais inteligentes e bem informadas.

O bombardeio de informações despejado pela mídia e pela tecnologia é que faz com que se crie a ilusão de que as pessoas são bem informadas, processam bem toda ideia que assimilam e possuem uma compreensão aprofundada dos mais variados assuntos.

Essa é a pretensão. A prática, porém, mostra que as pessoas continuam sendo ignorantes e até mais ignorantes do que imaginam, porque a obsessão em querer compreender tudo as faz sucumbir em gafes e interpretações equivocadas das coisas, ideias e fatos.

No caso do "espiritismo", o desconhecimento é resultante da visão estereotipada que se tem dos erros religiosos. Imagina-se que os charlatães da religião preguem gritando, sejam histéricos, adotam conduta grotesca e se aparentam de maneira insossa e pouco confiável.

Mas o "espiritismo" acaba mostrando aspectos bastante traiçoeiros ao longo de seus episódios de fraudes, pastiches literários, farsas pseudo-mediúnicas, usurpações de gente famosa e disputas de egos, algo que é verídico, mas que os seguidores dessa doutrina não conseguem admitir.

Na melhor das hipóteses, esses seguidores se limitam apenas a dizer que "existem erros", "ninguém é perfeito" ou coisa parecida. com tanto medo que chegam mesmo a considerar, apesar de tantas imperfeições, seus ídolos "espíritas" como "perfeitos". "Perfeitos" na imperfeição.

A desinformação reflete a emotividade extrema que faz o "espiritismo" brasileiro se distanciar da racionalidade da Doutrina Espírita original. Mas, num desses casos de pretensiosismo e mascaramento ideológico, o "espiritismo" brasileiro é visto como "racional" assim mesmo.

Isso acontece porque, no Brasil, existe a mania de se definir as coisas acima do que elas realmente são. Julga-se as coisas como se fossem melhores, mais avançadas e mais perfeitas - mesmo admitindo alguma imperfeição - do que a realidade mostra.

A desinformação é tanta que poucos percebem que o "espiritismo" brasileiro quase nada tem de espírita. A prática "espírita" se perde com a predominância, para além da conta e dos limites, de apelos moralistas e arremedos de filantropia.

Seus integrantes imaginam que sabem tudo de vida espiritual e práticas mediúnicas, quando na prática agem de forma improvisada e especulativa. Desconhecem a Ciência Espírita e tais atividades estão mais próximas do heretismo místico e ocultista da Idade Média, usado para amenizar o teor do moralismo católico-medieval que o "espiritismo" brasileiro mostra em sua ideologia.

Daí que a desinformação contagia os "espíritas", como os leigos que se tornam simpatizantes de figuras como Chico Xavier e Divaldo Franco. Os dois também estão associados a práticas eticamente duvidosas, não sendo exagero defini-los como charlatães, embora a denominação é vista por muitos como "chocante" e "injusta".

É a desinformação quanto a fraudes, deturpações e outros erros gravíssimos que deveriam ser um alerta para as pessoas não saírem por aí dizendo que esses erros são pequenos e que seus envolvidos precisam manter a reputação intata. A emotividade, escravizando a razão, corrompe os "espíritas".

E essa corrupção ocorre de tal forma que o sentimentalismo acaba permitindo todo tipo de erro. Só que o fato de que todos podem errar não significa que se aceite de bandeja qualquer erro, e este blogue já mostra erros de gravidade preocupante no seio do "espiritismo".

Essa desinformação mostra o atraso que vive o país. A confusão e verdadeira promiscuidade de conceitos, em que os critérios lógicos são os que menos importam, é que faz surgirem erros, aberrações e absurdos em nosso país, permitidos pela incompreensão da maioria das pessoas que, para muitas coisas, como o "espiritismo", parecem mais perdidas do que cego em tiroteio.

domingo, 5 de julho de 2015

"Espíritos de luz" e "irmãozinhos sofredores" no mesmo teatro "espírita"


Niterói, 1984. No Centro Espírita Ismael, no Barreto, depois de uma reunião doutrinária, com alguns supostos médiuns sentados ao redor de uma mesa retangular, um deles começa a supostamente incorporar um espírito considerado negativo.

Esse suposto espírito dá o seu depoimento, aparentemente declarando algum ódio ou adversidade contra um dos presentes, que previamente fez sua consulta para expor o seu problema. O modo de falar do suposto obsessor é agressivo, e ele responde a um dos membros do grupo "espírita", tentando justificar sua raiva.

A pessoa que o interroga, geralmente uma mulher, tenta acalmar o "espírito", procurando persuadi-lo que não é com o ódio que ele irá se sentir feliz. Depois de alguns minutos entre perguntas e apelos de persuasão, o "espírito" acaba chorando, infeliz, e, em seguida, agradece a Deus depois de receber as orações dadas pela interrogadora, antes de ir embora e o "médium" retornar à consciência.

O "drama" exposto tem algo de duvidoso, uma vez que é sempre a mesma encenação de um suposto espírito obsessor que faz seus comentários endurecidos, mas sempre cede quando a pessoa que o interroga, depois de algum tempo, encerra a conversa com uma oração. O "espírito" reage com aparente comoção e agradece a Deus por ter "aprendido a lição".

No "espiritismo" brasileiro, costuma-se criar um maniqueísmo semelhante ao do Catolicismo. Se o Catolicismo mostra o "céu", ou "paraíso", e o "inferno", o "espiritismo" cria os "mundos superiores" e o "umbral", este alvo de uma interpretação bastante controversa.

Para alguns, o "umbral" seria o que os católicos entendem como o "inferno", zonas da mais baixa evolução espiritual e dotada de almas grotescas governadas por uma figura que denominam Diabo ou Demônio, e que, segundo sua crença, seria a personificação de um anjo que vivia no Céu e cometeu algum deslize sério.

Para outros, o "umbral" seria uma espécie de "purgatório", ambiente que os católicos entendem como "intermediário" entre o "céu" e o "inferno". Neste caso, o "umbral" não seria a zona de espíritos "trevosos" (alegoria a "treva", falta de "luz" dos espíritos de condição moral mais baixa), mas de espíritos "penitentes" que precisam sofrer muito para atingir a evolução.

Em relação ao Nosso Lar, suposta colônia espiritual divulgada por Chico Xavier, também existem controvérsias. Algumas interpretações definem como equivalente ao "paraíso", como um ambiente assistencial de preparação para espíritos "felizes" aos quais restariam algumas missões na Terra para completar o ciclo evolutivo.

Outras interpretações, no entanto, entendem Nosso Lar como o "purgatório", ambiente ainda de trabalhos e ajustes de evolução moral. Há um aspecto estranho, no livro que leva o nome da suposta colônia, lançado em 1943, que são os conflitos que envolvem a colônia e o "umbral", estranhamente vizinhos e ambos localizados sobre o Estado do Rio de Janeiro (!).

Há até mesmo uma rebelião entre os pacientes da colônia, que se revoltavam pela dieta que recebiam, dotada de alimentos considerados "saudáveis", enquanto reivindicavam o fornecimento de alimentos gordurosos ou açucarados, típicos da junk food. Gozado haver tantos aspectos materiais "seguramente descritos" num mundo tido como espiritual.

Quanto às naturezas de evolução espiritual que o "espiritismo" brasileiro descreve em sua ideologia, observa-se dois tipos principais, os considerados "mais evoluídos", chamados de "espíritos de luz" - que certas interpretações identificam como uma analogia livre aos "santos" católicos - e os "menos evoluídos", considerados "espíritos trevosos".

Os "espíritos de luz" seriam aqueles que se encaixam nos critérios de "bondade máxima" acreditados pelos "espíritas". Foi uma pessoa que sofreu demais e foi premiada pela recompensa da "evolução" ao morrer, depois de ter atribuído para si o fim de uma missão que ocorreu em diversas vidas.

Para os seguidores do "espiritismo", Chico Xavier seria exemplo de "espírito de luz", uma tese bastante equivocada. Afinal, Chico foi associado a uma série gravíssima de irregularidades e causou confusões sérias demais para ser considerado nesta condição, estando mais próximo de um espírito mediano e ordinário que, com certeza, reencarnou para aprender mais coisas na vida.

Os "espíritos trevosos", frequentemente confundidos com "espíritos obsessores", são aqueles de nível moral bastante grosseiro, são agressivos, mórbidos ou zombeteiros. Os "espíritas" costumam usar eufemismos como "irmãozinhos sofredores" ou "amiguinhos não-esclarecidos" para defini-los.

O grande problema é que o "espiritismo", pelas suas inúmeras e preocupantes irregularidades, torna-se na verdade uma religião prejudicial, em que "espíritos de luz" e "espíritos trevosos" não passam de atores de um mesmo teatro, encenando um aparente maniqueísmo que não passa de conversa para boi dormir e garantir plateias lotadas e grandes lucros para os "espíritas".

Nos tratamentos espirituais, muitas pessoas, em vez de contrair soluções e boas energias para resolver seus problemas, atraem novos problemas, muito mais graves, e até mesmo encrencas pesadas e infortúnios assustadores.

Quando se queixam de tais ocorrências, os sofredores "assistidos" por esses tratamentos ainda recebem dos "espíritas" o comentário hipócrita de que os tratamentos "estão dando certo, sim", mas "os irmãos sofredores é que não entendem e querem atrapalhar", dando a promessa de que, "com mais oração" os infortúnios possam desaparecer.

Mas eles não desaparecem, mas crescem e pioram. Multiplicam-se as más ocorrências e surgem até obstáculos pesados para as soluções. E aí a coisa fica como no caso da droga que não dá mais prazer, que obriga a pessoa a se drogar mais para recuperar o deleite dos primeiros consumos.

As pessoas são assim induzidas a rezar mais, a ir para mais doutrinárias, a ouvir palestras de Divaldo Franco, ler livros "espíritas", orar, orar e orar, até o momento em que a pessoa deixará de fazer qualquer coisa e só ficar orando.

Isso cria uma histeria severa e faz com que a pessoa, para tentar alguma solução, se torne beata religiosa, criando um fanatismo quase debiloide, se enlouquecendo com crenças místicas exageradas, com uma nervosa euforia de adoração religiosa aos ícones "espíritas", uma devoção que tem mais de doentia, porque alucinada e neurótica.

Daí que isso se torna terrível. E mostra o quanto "espíritos de luz" e "irmãozinhos sofredores" não são mais do que dois lados de uma mesma moda, apenas atores de um mesmo espetáculo "espírita", cúmplices no aliciamento de novos fiéis, seja "por amor ou pela dor", como dizem os "espíritas". De preferência, que seja pela dor, através dos infortúnios impostos em suas vidas.

sábado, 4 de julho de 2015

Waldo Vieira, Nosso Lar e o caso "André Luiz"


O ex-integrante do "movimento espírita", o mineiro Waldo Vieira, falecido há dois dias em Foz do Iguaçu, onde viveu suas últimas décadas estando à frente da Conscienciologia e Projeciologia - doutrinas místicas pretensamente "racionais" - , nos faz refletir, com sua trajetória, sobre muitos enigmas e irregularidades do "espiritismo" e, em especial, de Chico Xavier.

Waldo teria sido um suposto médium desde os nove anos de idade. Atuava em Uberaba, mais tarde cidade adotiva de seu ídolo desde então, o anti-médium mineiro Francisco Cândido Xavier. Há mistérios sobre quando começou a parceria e os contatos, o que cria um enigma em torno do caso do suposto espírito André Luiz e o principal livro a ele relacionado, Nosso Lar (1943).

Teria Waldo entrado em contato com Chico Xavier quando aquele era criança, mesmo que seja por intermédio de seus familiares? Teria o livro Nosso Lar adiantado aspectos que eram vistos na Conscienciologia? Seria Cognópolis uma réplica da "cidade espiritual" de Nosso Lar?

É claro que, em princípio, há o problema de atribuir a Waldo Vieira a "paternidade" do personagem André Luiz, por ter sido o recém-falecido um pré-adolescente na época. Mas algumas coisas chamam a atenção nas relações entre Waldo, Nosso Lar e o suposto espírito de André Luiz, nome que havia sido de um falecido irmão de Chico Xavier.

Em primeiro lugar, André Luiz teria sido um médico. É a profissão de familiares de Waldo e, posteriormente, a dele próprio. O livro Nosso Lar mostra um enredo que lembra ficção científica, e Waldo era um grande colecionador, desde pequeno, de revistas em quadrinhos, o que incluía também obras de ficção científica, que faziam muito sucesso naqueles tempos.

É certo que Nosso Lar foi claramente baseado em A Vida Além do Véu (Life Beyond the Veil), do sacerdote anglicano ou reverendo inglês George Vale Owen. que havia sido lançado no Brasil, em 1921, pela Editora da FEB (Federação "Espírita" Brasileira), com tradução de Carlos Imbassahy, o pai.

Só um parêntesis. Carlos Imbassahy fazia parte do grupo de espíritas autênticos que tentaram recuperar na FEB a prometida fidelidade às bases doutrinárias de Allan Kardec, ao lado de Deolindo Amorim (pai do jornalista Paulo Henrique Amorim), José Herculano Pires (sobrinho do artista caipira Cornélio Pires), entre outros. Imbassahy é pai de Carlos de Brito Imbassahy.

Voltando a Nosso Lar, o que se indaga é que a obra, de conteúdo pretensamente futurista embora fale de passado - a suposta vida espiritual de André Luiz nos anos 1930 - , faz uma abordagem então pouco usual na obra de Chico Xavier, e havia um motivo para que esse arremedo de ficção científica, mesmo sob o pretexto de narrar o "mundo espiritual", seja feito.

Aparentemente, a tradicionalista FEB não iria investir em livros de conteúdo futurista, ainda mais por causa da preocupação com uma descrição da religiosidade ainda mais nostálgica, vinculada à abordagem católico-medieval do Cristianismo primitivo. Ainda mais Chico Xavier, um caipira católico, que não iria por si só embarcar na Era de Ouro da Ficção Científica dos anos 1940.

O possível gancho é que Chico Xavier talvez conhecesse o menino Waldo e possivelmente tivesse acolhido suas sugestões sobre o livro Nosso Lar. Em todo caso, o personagem André Luiz teria sido aperfeiçoado por Waldo através das ideias a ele atribuídas, nos livros que este escreveu com Chico ou sozinho.

Oficialmente, há várias hipóteses sobre a suposta personalidade brasileira que teria sido André Luiz. Os médicos Osvaldo Cruz, Miguel Couto e Faustino Esporel, este também dirigente esportivo, teriam sido alguns dos cotados, além de Carlos Chagas, hipótese que, aparentemente, era defendida por Waldo Vieira e é considerada a mais aceita entre os "espíritas".

De qualquer forma, Waldo contribuiu para o "desenho" do pensamento do personagem André Luiz, e sua colaboração para a construção do personagem, seja de forma direta ou indireta, seja mandando sugestões ou colaborando a quatro mãos com Chico Xavier. Não fosse Waldo Vieira, o personagem André Luiz não teria tido as caraterísticas supostamente científicas que apresentou.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

O fanatismo chiquista e o conservadorismo nas mídias sociais

INTERNAUTA IMPLICOU COM MEME CRITICANDO CHICO XAVIER.

Francisco Cândido Xavier tem sua legião de fanáticos por todo o país, principalmente por muitos internautas conservadores que, nas mídias sociais, publicam várias mensagens da autoria do anti-médium mineiro.

Tomados de emoção, eles não aceitam que qualquer til seja dito contra Chico Xavier, ele que deixou, em suas frases e textos, mensagens que fazem apologia ao conformismo, à acomodação e à negação do senso crítico e do raciocínio questionador.

Um exemplo disso é a divulgação de um meme acima, no Facebook, em que o "espiritismo" popularizado por Chico Xavier é definido como uma fusão do Catolicismo medieval com as práticas duvidosas da Tábua Ouija e outras brincadeiras que agradam os espíritos zombeteiros.

Um internauta, irritado, escreveu, no espaço de mensagem referente ao meme, que a mesma está equivocada, o que quer dizer que Chico Xavier não tem a ver com "Tábua Ouija", embora sabemos que ele havia sido o "Ouija Boy" brasileiro por excelência.

Sempre investindo nos clichês de "caridade" e "humildade" que a imagem, trabalhada publicitariamente pelos chefões da Federação "Espírita" Brasileira, trabalhou para Chico Xavier, o irritado internauta tenta justificar através da emoção e do sentimentalismo.

São internautas que refletem o conservadorismo que predomina nas mídias sociais, não raro redutos de verdadeiro reacionarismo ideológico, influenciado pelo reacionarismo da própria grande mídia (Globo, Veja, Folha, Estadão) que também acariciam Chico Xavier e nunca fazem a diferença devida entre seu "espiritismo" e a Doutrina Espírita original.

Afinal, os seguidores de Chico Xavier sempre usam pretextos de "mediunidade", "caridade", "humildade" e "bondade" sem trazer jamais um argumento com um mínimo de lógica. Eles impõem pela emoção mas não trazem argumentos que façam sentido fora da histeria sentimentalista.

Eles não percebem, por exemplo, o caráter ostensivo e sensacionalista das mensagens e o humilhante espetáculo de filas acumuladas para receber supostas mensagens de mortos que, na verdade, saíram da imaginação de Chico Xavier.

Foi um processo engenhoso de fraude, mas observa-se que quase sempre cada mensagem tem a assinatura do próprio Chico e, quando não tem, é a de algum assistente que imita a assinatura do morto, de forma tão grotesca que não consegue esconder a diferença.

Observa-se, também, que o conteúdo de cada mensagem é tão parecido que crianças e até os ateus aparecem "teorizando" demais sobre o "espiritismo" brasileiro, num estilo parecido com o dos livros de Chico Xavier.

Não bastasse isso, há a exploração leviana das tragédias familiares, cuja ostentação prolonga as dores dos que perderam entes queridos, em maior parte jovens, que envolve aspectos maléficos diversos, que, juntos, explicam a associação de Chico Xavier à imagem desagradável de "Ouija Boy".

Mensagens apócrifas criadas da mente do "médium", ostentação das tristezas familiares - é patético ver senhoras pulando histéricas dentro de "centros espíritas" pensando que as mensagens divulgadas são de seus filhos falecidos - , ato de obsediar os mortos, e o panfletarismo religioso dessas supostas psicografias.

Esses aspectos todos justificam o questionamento que Chico Xavier recebe e que não é pouca coisa. Afinal, não foi porque ele era "bonzinho" que irritava os intelectuais mais conceituados, acusados indevidamente de serem passados para trás por um "filantropo" de instrução medíocre. Chico Xavier irritava porque fazia fraudes e elas sempre foram bem-sucedidas.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Brasil e a crise religiosa

SILAS MALAFAIA E DIVALDO FRANCO - O mesmo conservadorismo, que o segundo trabalha de forma mais sutil.

O Brasil vive uma grande crise de valores. Um enorme conflito ideológico em todos os sentidos, que faz com que movimentos progressistas e reacionários disputem espaços de influência e ação em diversos setores, de forma legal ou ilegal.

Problemas como os crimes cometidos por menores, o feminicídio, a intolerância religiosa, a homofobia e outros desafiam a sociedade, através da violência que, até pouco tempo atrás, prevalecia sob o manto da impunidade.

As pressões vão de ambos os lados. No lado progressista, projetos como a transformação do feminicídio em crime hediondo viram lei, enquanto o conservadorismo é golpeado pela decadência da grande mídia que o representava. No lado reacionário, há o crescimento da direita anti-PT, e a manifestação de atos criminosos de intolerância social, desde as difamações nas mídias sociais, várias delas racistas e homofóbicas, até atentados de motivação homofóbica e anti-nordestinos.

Numa cidade do interior da Bahia, pai e filho chegaram a sofrer atentado, com um deles morto, por grupos radicais que imaginavam se tratar de um casal de gays, só porque os dois estavam se abraçando como ato de profunda amizade e respeito.

A reboque disso tudo, há a intolerância religiosa, que é muito mais complexa do que se imagina. Afinal, não se trata apenas de polarizar evangélicos - categoria religiosa ligada a atos e posturas extremistas - e outras crenças, mas pensar o conservadorismo ideológico por trás das três principais religiões do país, a católica, a evangélica e a "espírita", esta em franco processo de declínio.


A decadência "espírita" é um fato que até agora não foi oficialmente constatado. Tida como a "vanguarda" dos movimentos espiritualistas, a religião, supostamente associada ao pensamento de Allan Kardec, surgiu deturpando, desde o começo, as ideias do pedagogo francês, reduzindo a um repertório ideológico conservador e mistificador.

O "espiritismo" só aparenta uma certa popularidade devido à alegação de caridade que sua imagem publicitária promove. No entanto, além dessa "caridade" não ir além de medidas paliativas, como doações de cestas básicas, ela não promove a fidelidade às ideias kardecianas, sendo apenas um arremedo de filantropia, mesclado com misticismo improvisador e moralismo religioso, que nada têm a ver com o Espiritismo original.

O fato do "espiritismo" alegar ser vítima de "intolerância religiosa" encontra sentido num contexto em que a religião, mesmo nas piores deturpações da doutrina de Kardec, é visto como novidade e há muita desinformação no país.

A crise religiosa envolve não somente posições de radicalismo de algumas seitas, mas o conservadorismo ideológico que compromete a realização de progressos sociais. Isso não é coisa exclusiva de católicos e evangélicos, os mais visados nessa situação.

O "espiritismo" brasileiro, mesmo com suas falsas apreciações à ciência e ao progresso social e intelectual, comete também sua intolerância social, seu moralismo conservador e outras posturas nada progressistas.

É de praxe o "espiritismo" culpar as vítimas e "relativizar" a culpa dos algozes, usando como desculpa os "resgates morais" ou "reajustes espirituais". Certos palestrantes "espíritas" também adotam posturas racistas, machistas e homofóbicas, além de expressarem uma visão moralista patriarcalista.

O "dedo acusador" dos "espíritas", que mesmo desconhecendo a Ciência Espírita e improvisando conceitos pedantes sobre vida espiritual, acaba criando atitudes preconceituosas graves, como no caso da ida dos imigrantes africanos à Europa, em que a negritude foi vista como um "castigo" e os cidadãos em questão acusados de forma leviana e generalizada de terem sido tiranos no passado.

O próprio Chico Xavier também marcou sua trajetória com uma visão nada progressista, dando a sua visão adocicada de castração espiritual, defendendo sempre o conformismo e o silêncio diante das adversidades e absurdos da vida, além de fazer apologia ao sofrimento humano, com uma retórica tão dócil que consegue iludir e enganar as pessoas.

No fundo, a "polarização" de um nome evangélico, como Silas Malafaia, e o astro do "espiritismo", como Divaldo Franco, não passa de duas faces de uma mesma moeda. Divaldo só ganha de Silas pela habilidade retórica, mas o conservadorismo e o charlatanismo de ambos se equiparam, mesmo diante da diferença de contextos.

Poucos conseguem perceber isso e o assunto da intolerância religiosa se perde em banalidades maniqueístas óbvias e previsíveis. A crise religiosa existe, mas o status quo tenta abafar parte dela para que seus problemas não possam ser totalmente resolvidos. Dessa forma, o "espiritismo" e suas deturpações continuam na sua habitual pasmaceira.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Esquerda que "namora" Chico Xavier abre caminho para a direita

JOVENS DE MOVIMENTOS DIREITISTAS SE REUNIRAM NA SEMANA PASSADA NA CÂMARA DOS VEREADORES, NO RIO DE JANEIRO.

A estranha atitude da esquerda em cortejar Francisco Cândido Xavier, mesmo quando ele nunca foi mais do que um religioso direitista e um caipira conservador, é bastante conhecida e não é recente. Periódicos de esquerda publicavam textos de "espíritas" reacionários defendendo Chico Xavier diante do escândalo das denúncias do sobrinho Amauri Pena, em 1958.

Havia até mesmo as famigeradas críticas às Organizações Globo, por causa da presença de católicos ortodoxos do porte de Gustavo Corção. Mas, mesmo quando a empresa da família Marinho decide apoiar Chico Xavier, vide as novelas "espíritas" e os filmes do gênero pela Globo Filmes, o esquerdismo demonstra total complacência com o anti-médium.

Na entrevista ao programa Pinga Fogo, da TV Tupi de São Paulo, em 28 de julho de 1971, Chico Xavier literalmente esculhambou os movimentos sociais e ainda atacava o ex-presidente João Goulart, então exilado, numa época em que parte da direita já havia passado para a oposição ao regime militar.

1971 era o ano dos assassinatos do guerrilheiro Carlos Lamarca e do deputado do PTB paulista, Rubens Paiva - pai do jornalista, escritor e dramaturgo Marcelo Rubens Paiva - e vigência do Ato Institucional Número Cinco, que permitia à ditadura militar cometer seus abusos na repressão, censura e violência.

Mesmo assim, Chico Xavier afirmava, na época, que os militares estavam preparando o "reino de amor" do Brasil futuro e pedia para que oremos "em favor" da ditadura militar, então conhecida como Revolução. Que "reino de amor" é esse que se monta com o sangue dos inocentes é algo que não dá para entender.

BLOGUEIRA RECLAMAVA DE OMISSÃO DA MÍDIA AO FILME SOBRE CHICO XAVIER PATROCINADO... PELAS ORGANIZAÇÕES GLOBO!

E difícil de entender é esse cortejo das esquerdas à figura de Chico Xavier. Será a necessidade de algum contraponto a católicos e evangélicos de visão obscurantista? Ou será a habitual condescendência que faz com que Chico seja inocentado de seus próprios erros, mesmo os mais propositais?

Sabe-se que Chico Xavier é o único indivíduo cujos seguidores acreditam não precisar responder pela culpa de seus próprios erros. Há sempre a desculpa de atribuir os erros de Xavier à influência de outro alguém, mesmo quando os erros foram claramente feitos por decisão do anti-médium mineiro.

Há até mesmo, entre aqueles que contestam as deturpações do "movimento espírita", que acreditam na fantasiosa tese de recuperar as bases de Allan Kardec aproveitando Chico Xavier, descartando somente algumas obras das séries André Luiz e Emmanuel, como se somente elas é que apresentassem o pior do anti-médium mineiro.

E aí vem as esquerdas e tratam Chico Xavier como se tivesse sido "ativista" e "progressista", mesmo quando vemos que suas frases glamourizam o sofrimento e condenam claramente o ativismo social - que Chico acreditava ser fontes de tantos "dissabores" - e o raciocínio quesitonativo, recomendando apenas o conformismo e o "silêncio da prece".

Uma blogueira que se declara comunista (qualidade reprovada por Chico Xavier) chegou mesmo a afirmar, com certa ingenuidade, que a mídia "está OMITINDO" (grifo dela) a divulgação do filme As Mães de Chico Xavier.

Entende-se como "a mídia" veículos como a Rede Globo e o jornal O Globo. O que a blogueira não conseguiu entender, apressadinha em ver o sucesso imediato do filme, é que As Mães de Chico Xavier teve o apoio promocional da Globo Filmes, que pouco depois da reclamação da moça foi divulgar devidamente o filme, que não tardou a ser exibido pela Rede Globo.

DIREITA BRASILEIRA, SOBRETUDO A CARIOCA

Aí, diante de choradeiras como essa, a direita tem seu caminho aberto pelos erros das esquerdas, que vão desde as alianças políticas e empresariais suspeitas do Partido dos Trabalhadores até o acolhimento dos esquerdistas a uma intelectualidade cultural de centro-direita dotada de uma visão estereotipada de cultura popular com valores mercadológicos e discurso pseudo-modernista.

A direita brasileira se aproveita desses erros para se autoproclamar "mais racional", mesmo com pontos de vista surreais como acusar as escolas públicas brasileiras de serem meros cursos de marxismo.

Se os professores, em suas condições precárias, mal conseguem ensinar suas matérias comuns pela remuneração precária aliada à sobrecarga horária (precisam trabalhar mais para ganhar mais salários), eles muito menos teriam condições de encarar os volumes de O Capital e muito menos os livros de Lênin e Trotsky que muito provavelmente nossos professores desconhecem completamente.

Paranoias à parte, a direita brasileira começou tímida há dez anos, fingindo falso esquerdismo enquanto disparava seu reacionarismo apenas para defender valores da cultura e do entretenimento impostos pela grande mídia corporativa, enquanto faziam de conta que "adoravam" Che Guevara, Hugo Chaves e intelectuais brasileiros como Emir Sader.

Nessa época, adotavam também algumas posturas políticas estranhas como a falsa abstenção em relação ao economista conservador Roberto Campos, a aparente omissão em relação aos abusos da grande mídia e a defesa entusiasmada da eleição do ex-presidente Fernando Collor ao Senado.

Depois, abandonaram a máscara "centro-esquerdista", assim que Dilma Rousseff foi eleita - eles tinham receio de confrontar com o então forte carisma do então presidente Lula - para adotarem um direitismo histérico, assumindo sua oposição a Lula e deixando assumir posturas como o apoio a ativistas de direita como a cubana Yoani Sanchez e o anti-petismo doentio.

É verdade que a direita brasileira se ascende em todos os Estados, sobretudo no Sul e Sudeste, com maior visibilidade entre os paulistas e maior radicalismo entre os gaúchos. Mas no Estado do Rio de Janeiro, que vive atualmente um surto neo-coronelista e uma onda de provincianismo preocupante, o direitismo torna-se um fenômeno ainda mais atuante.

Pois é através dos cariocas que se expressam, nas mídias sociais, as piores campanhas reacionárias nas mídias sociais. Além da defesa do "estabelecido" referente à cultura, entretenimento, política, mobilidade urbana, fora valores racistas e até belicistas, eles agem com agressividade, partindo para a humilhação contra os discordantes, entre gozações e ameaças.

Eles chegam ao ponto de combinarem com outros internautas campanhas maciças de desmoralização nas mídias sociais, com a veiculação em grande quantidade de mensagens irônicas e ofensivas, além de alguns mais afoitos produzirem blogues de ofensas em que se apropriam até de textos e imagens das vítimas que são reproduzidas de forma difamatória e caluniosa.

Tais campanhas são feitas em defesa do que vai desde valores culturais estabelecidos pela grande mídia até decisões impostas por políticos e tecnocratas poderosos, mas podem incluir também comentários racistas, homofóbicos e até ofensas pessoais gratuitas.

INTERVENÇÃO MILITAR

A direita bagunceira da Internet chega mesmo a gracejar quando algum internauta a define como direitista. "Huahuahua" ou "kkkkkkk" são as reações mais comuns, além de respostas como "você é que pensa assim, seu comuna!", revelando o caráter agressivo desses internautas, ilustrando o perigo das forças golpistas do país através desses encrenqueiros digitais.

Eles desmoralizam desde ativistas sociais a qualquer pessoa que divulgue alguma visão questionadora na Internet. Despejam comentários racistas, machistas, moralistas, mesmo quando temperados por pesadas ironias combinadas com grupos de internautas e seus fakes (espécie de alter egos digitais).

Não gostam que mexam no "estabelecido", seja uma gíria chamada "balada" ou a visão dominante de que a "boazuda" siliconada é o paradigma da nova mulher brasileira. Defendem da privatização das universidades às pinturas padronizadas nos ônibus com a mesma fúria reacionária e caluniadora.

Seus ídolos acabam se revelando: Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, Luciano Huck, Jair Bolsonaro, Rachel Sheherazade. Alguns mais sutis deixam cair a máscara de "simpatizantes do PT" para pedir prisão perpétua para o ex-presidente Lula e a saída de Dilma Rousseff da presidência da República.

Há os mais exaltados que defendem a intervenção militar, revivendo o antigo movimento golpista que resultou na longa ditadura militar. E várias organizações formadas para articular o direitismo são, a exemplo do antigo IPES, o "instituto" que pediu a instauração da ditadura, financiadas pelo capital norte-americano e pelos estrategistas da CIA.

É o mesmo golpismo que foi defendido pelo "bondoso" Chico Xavier. O mesmo Chico que as esquerdas tão ingenuamente cortejam, iludidos com seus estereótipos ligados à inocência caipira, à velhice, à pobreza e à humildade. Acabam sucumbindo às contradições que abrem caminho para a direita reacionária à qual Chico pediu para que orássemos em favor.

Coisa maluca, essa. E há quem acredite que o Brasil irá comandar o mundo diante desse quadro surreal das esquerdas que apoiam um direitista e cometem erros que permitem a ascensão da direita que esse mesmo direitista religioso pedia para que amássemos. Isso está mais para Febeapá do que para Coração do Mundo.