segunda-feira, 15 de maio de 2017

Como o "espiritismo" brasileiro se deixou levar por energias maléficas


Admite-se que foi um trabalho irrefletido, mas o "espiritismo" brasileiro, pelas responsabilidades que prometeu assumir mas não cumpriu o prometido, acabou atraindo para si as energias maléficas, de espíritos inferiores que encontraram mil possibilidades diante do conteúdo deturpado e de práticas irregulares.

A constatação nada tem a ver com inveja, calúnia ou ofensa. Pelo contrário, estamos preocupados com essa situação. O legado de Allan Kardec foi desfigurado e distorcido de tal forma e as influências de J. B. Roustaing foram tão exercidas quanto nunca assumidas que as energias tinham mesmo que ser das piores, por causa da Lei de Atração.

Espíritos inferiores são atraídos pela dissimulação, pela desonestidade doutrinária, pelas traições, simulações, fingimentos, ambições e tantos descaminhos que, isolados, podem representar erros pontuais, mas, somados, permitiram não apenas a abertura de caminho para espíritos atrasados, mas o descontrole de seus atos e suas influências.

A trajetória do "espiritismo" brasileiro envolveu uma série de fingimentos, fraudes, dissimulações. A opção roustanguista cometeu como primeira fraude pretensas psicografias ou psicofonias com um falso Allan Kardec pedindo para as pessoas conhecerem "a revelação da revelação" (como era definido o ideal igrejista de Jean-Baptiste Roustaing). Uma coisa que, com certeza, Kardec nunca iria defender.

A trajetória cheia de confusões do suposto médium Francisco Cândido Xavier, um bizarro católico ortodoxo de supostas práticas paranormais, manipulada por todo um propagandismo do ambicioso presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, também revela todo um serviço de desonestidade doutrinária aliada ao arrivismo, à mística religiosa e, acima de tudo, ao sensacionalismo movido por interesses comerciais.

Em primeiro momento, Chico Xavier virou um pretenso porta-voz dos mortos como um apelo sensacionalista para vender muitos livros, sem qualquer estudo sério e responsável de Ciência Espírita, afinal o "médium" se ascendeu num compromisso de levar adiante e até longe demais a deturpação da Doutrina Espírita.

Em segundo momento, quando Chico quase foi desmascarado pela participação da farsa de Otília Diogo, seu mito teve que ser repensado e recuperado, para garantir os lucros da FEB. Morto Wantuil, é hora do "movimento espírita" iniciar uma nova estratégia, rompendo com os herdeiros do finado e adotando posturas falsamente kardecianas para agradar figuras como Herculano Pires e Deolindo Amorim.

Daí surgiu a "fase dúbia", que só trouxe as piores energias. A desonestidade doutrinária se tornou muito e muito mais grave, que até definir como gravíssima é ainda pouco. A deturpação do Espiritismo se tornou ainda mais deplorável, porque se praticava o mesmo roustanguismo, mas havia uma falsa postura de "respeito rigoroso" aos postulados kardecianos.

Criou-se, então, uma confusão doutrinária, no qual se misturavam eventos igrejeiros com apelo sensacionalista, como as sessões "mediúnicas" de Chico Xavier, a verborragia aduladora das elites nas turnês pomposas de Divaldo Franco, o pedantismo que leva professores e acadêmicos frustrados a virar "palestrantes espíritas", os maus romancistas que se escondem na "psicografia" de romances "espíritas". E por aí vai.

E o conteúdo ideológico? Sob a desculpa da "vida futura", os "espíritas" acabam concebendo sentimentos egoístas e um moralismo severo sem saber. Passam a ter um sentimento inverso de ânsia ou pressentimento de ver pessoas queridas morrerem, enquanto passam a ter apego doentio a pessoas perversas e assassinas que "nunca podem morrer" e, quando morrem, têm seu óbito ocultado, como se estivessem, em vez de morrendo, se "ascendido ao Senhor".

Os mortos precoces passam a ser alvo de exotismo mórbido e quase sensual. O sofrimento humano passa a ser defendido com firmeza, a ponto de apelos como "amar as próprias desgraças" e "vencer a si mesmo" serem dados, revelando um moralismo retrógrado que, no Brasil, recebe o selo tendencioso da "Doutrina Espírita".

A opção roustanguista, na medida em que foi mantida sob a aparente renegação do nome do igrejeiro J. B. Roustaing, revela uma desonestidade e uma deslealdade dupla. Deslealdade formal, porque se pratica o roustanguismo mas trata o nome de Roustaing como se fosse um palavrão. Deslealdade conceitual, que bajula o nome de Allan Kardec e tudo o que ele representou, como se fosse respeitar rigorosamente seu legado, mas esse legado é traído severa e cruelmente o tempo todo.

O mito de Chico Xavier foi refeito com a ajuda de ninguém menos que Roberto Marinho, das Organizações Globo que deixaram de lado a ojeriza ao anti-médium mineiro. Com o duplo objetivo de domesticar a população com um pretenso símbolo de "ativista" que agrade ao poderio civil-militar da ditadura militar (que Xavier apoiou) e não ameace os privilégios das elites, e de frear a ascensão dos pastores eletrônicos de seitas pentecostais, a Globo é responsável direta pela imagem de "filantropo" que Chico carrega, mesmo postumamente, em nossos dias.

O aparato de "palavras de amor" e outras imagens emocionalmente apelativas também não é garantia de boas energias. Pelo contrário, ela serve de fachada para energias ainda piores. Não somos nós que dissemos, mas o espírito de Erasto, discípulo de Paulo de Tarso (o "São Paulo" dos católicos), que advertiu que mensagens de "amor e caridade" podem representar uma armadilha para forçar as pessoas a aceitar ideias levianas e fora de lógica, coerência e bom senso.

Quantas famílias contraem mau agouro, depois de assistirem a um espetáculo de belas palavras e lindas imagens, melodias melífluas, vozes angelicais, se comovendo à toa por coisa nenhuma, ouvindo estórias aparentemente belas de gente que sofreu para vencer na vida, sem saber que estão se divertindo às custas da desgraça alheia, tratando o prejuízo alheio como "caminho para o sucesso"!

O "espiritismo" brasileiro não precisaria ser comandado espiritualmente pelas almas do mais alto grau de evolução, mas o que se viu foi que a doutrina igrejeira brasileira foi tomada por espíritos maléficos, zombeteiros, traiçoeiros, ardilosos e ambiciosos.

Como "religião-porteira", já que influi menos por ser popular e mais pelo aparente carisma e blindagem social, jurídica, acadêmica e midiática que recebe, o "espiritismo" abre caminho para que espíritos trevosos dos mais diversos tipos "arrombem todas as barreiras" e estabeleçam controle no âmbito da Cultura, das Artes, da Moral, da Política, das Leis, do Emprego e de tudo que vier.

Por isso deturpar o Espiritismo foi uma das coisas mais graves que ocorreu com o legado de Kardec. Não basta fingir que aprendeu as lições e depois enfeitar textos e mais textos com palavras doces e imagens bonitas, porque isso só camufla as coisas.

Será preciso a sociedade assumir o problema, em vez de jogar os deturpadores debaixo do tapete. Ver que ações como o Assistencialismo (caridade que pouco ajuda e só promovem o "benfeitor") e o Ad Passiones (apelo emocional que evoca "imagens" e "textos" belos ou emocionalmente "fortes") são duas das armadilhas que os deturpadores, sobretudo os "médiuns" em seu culto à personalidade, usam para se manterem em pé.

Abrir mão das paixões religiosas, se desapegar dos ídolos da fé e admitir que se faça uma devassa em todo o "movimento espírita" tal como se faz, nos EUA, com a Cientologia, são formas que desagradam a muitos, mas são necessárias para entender os gravíssimos erros de uma religião que evoca o nome de Kardec mas que, na verdade, resgata valores e práticas do Catolicismo medieval.

domingo, 14 de maio de 2017

Retórica "emotiva" faz brasileiros serem reféns do "espiritismo" deturpado


Os brasileiros se tornam reféns do "espiritismo" deturpado praticado no país. Os apelos retóricos adotados pelos deturpadores, armadilhas pouco percebidas no Brasil, revelam a grande dificuldade de superar a deturpação roustanguista, porque mesmo o processo de recuperação das bases doutrinárias de Allan Kardec foram praticamente apropriados por seus próprios deturpadores.

A retórica "emotiva", baseada no chamado "bombardeio de amor" - uma overdose de apelos sentimentais que parecem "mensagens positivas e amorosas", mas são sutis e traiçoeiros processos de dominação e manipulação das mentes humanas - , começa a ser questionada no exterior, mas no Brasil ainda é vista como "mimimi" de gente "de mal com a vida".

O Brasil é mais vulnerável às armadilhas que lá são assunto de teses acadêmicas. A overdose de informação, a glamourização da pobreza, a espetacularização da sociedade, tudo isso é largamente questionado, sem risco de colocar modismos em xeque.

Aqui, onde as monografias acadêmicas valem mais pela forma do que pelo conteúdo, com textos mais arrumados na sua roupagem "científica" e sem qualquer tipo de questionamento ou análise, ninguém questiona coisa alguma, aceitando as piores armadilhas como se fossem "coisas maravilhosas".

No "espiritismo" brasileiro, a sua prevalência é motivada por apelos aparentemente positivos, que conseguem dominar uma parcela de céticos, pela forma engenhosa que se trabalha. É uma aparência de positividade e beleza, mas que esconde terríveis e perigosos processos de dominação, havendo perversos jogos de interesse arrivistas por trás.

Esses apelos são o Ad Passiones, numa das modalidades mais perigosas, o "bombardeio de amor" (em inglês, love bombing), e o Assistencialismo, ambos aparentemente positivos, agradáveis e que muitos acreditam ser "genuinamente positivos" e "socialmente saudáveis", mas consistem em armadilhas que servem para forçar o apoio das pessoas a arrivistas de qualquer tipo.

O "bombardeio de amor" é um truque discursivo no qual pessoas ou instituições tentam atrair a vítima com um excessivo apelo de mensagens amorosas, sentimentos afetivos etc. O sujeito não lhe conhece e acolhe você com uma afetividade tão exagerada que você, geralmente com alguma fraqueza emocional, se rende facilmente a esse apelo, sem desconfiar que é um truque para seu dominador buscar alguma vantagem por trás disso.

O Ad Passiones, como um todo, é definido por analistas conceituados como um tipo de falácia. Entende-se como falácia uma transmissão de ideia mentirosa como se fosse uma verdade indiscutível. O Ad Passiones virou moda através do fenômeno da pós-verdade, que influiu na vitória inesperada de Donald Trump e da saída da Grã-Bretanha da União Europeia, o "Brexit".

Mas, no Brasil, a pós-verdade teve no "médium" Francisco Cândido Xavier um de seus maiores pioneiros. Deturpador maior do Espiritismo e um dos mais graves, Chico Xavier era um católico ortodoxo que se tornou instrumento dos interesses comerciais da FEB e que virou um pretenso filantropo através de um discurso apelativo armado pela Rede Globo em parceria com a federação, como forma de competir com os pastores eletrônicos R. R. Soares e Edir Macedo.

Chico Xavier foi, numa só pessoa, a expressão do love bombing e do Assistencialismo, que também é considerado um apelo tendencioso e traiçoeiro, embora ele se apoiasse sempre num paradigma de pretensa bondade que muitos pensam ser autêntica e espontânea.

O que se deve lembrar é que o Assistencialismo é um apelo que consiste numa pretensa caridade que em nada resolve de forma aprofundada e definitiva. É uma "caridade" que não mexe nos privilégios abusivos das elites, que acham essa prática até boa, porque assim eles podem despejar roupas velhas, alimentos vencidos e comprar mantimentos de marcas ruins e baratas demais.

O que chama a atenção no Assistencialismo - cujo maior exemplo, na TV brasileira, é o apresentador Luciano Huck - é que se trata de uma "bondade" que traz resultados medíocres, mesmo quando resultam em relativa emancipação social dos necessitados. Ela expõe mais o "benfeitor", glorificado pelo pouco ou quase nada que faz, e com isso se vê que o Assistencialismo é uma "caridade" que só serve para promover o "benfeitor" do que trazer benefícios, que são inexpressivos.

Esse é um dos maiores problemas que fazem com que a deturpação do Espiritismo nunca se desfaça. A "ressalva" de que os supostos "médiuns", que deturparam tudo da Doutrina Espírita, "no entanto vale pela bondade que trazem", sempre representou a complacência com os deturpadores, a ponto de se acreditar que os deturpadores "poderão aprender melhor" os postulados espíritas originais.

Existe, no Brasil, a mania de acreditar que a raposa, quando bem treinada, tenha condições de zelar pelo galinheiro. Mas, assim como a raposa tem a fome natural de devorar galinhas e galos ao seu acesso, o deturpador do Espiritismo tem seus interesses arrivistas por trás do aparente apelo da "bondade", da "caridade", dos "bons sentimentos" e das "mensagens de amor".

O que os brasileiros, que se revoltam com tais questionamentos, não percebem é que, se questionamos figuras como Chico Xavier e Divaldo Franco, é com base nos alertas do espírito Erasto, difundidos há muitas décadas. São alertas que dificilmente agradariam as pessoas que acham mais cômodo serem dominadas pela emotividade fácil do que desfazer fantasias diante do menor escrúpulo da Razão.

E o Brasil, que sempre criminaliza socialmente o ato de raciocinar, quando ele ultrapassa os limites dogmáticos e mitológicos a serem preservados (para os interesses de determinadas elites, vale dizer), se mantém refém da deturpação espírita, mais preocupada em proteger a reputação dos deturpadores do que em melhorar a humanidade sacrificando fantasias e falsidades sem sentido.

Só mesmo no Brasil para acreditar que o coiote irá cuidar melhor do rebanho ovino, à merce dos mais persuasivos apelos emocionais e aparatos pretensamente filantrópicos. Mas se o Ad Passiones permite transformar até um Jair Bolsonaro em "salvador da pátria", isso significa que os brasileiros terão que abrir mão de ilusões e fantasias que durante décadas permanecem no imaginário dos adultos. É mais difícil um adulto abrir mão da ilusão do que uma criança.

sábado, 13 de maio de 2017

"Espíritas" ainda confiam em mais uma retratação dos contestadores


A crise no "espiritismo" brasileiro atinge níveis críticos e seus membros, para manter a deturpação do legado kardeciano, recorrem a inúmeros apelos. Recentemente, estão apelando para a "música espírita", como forma de usar as melodias piegas e excessivamente dóceis para manipular e atrair os leigos, diante do vazio doutrinário que não pode ser preenchido com as falácias de antes.

Diante da crise que a "fase dúbia" do "movimento espírita", vigente há quatro décadas, não consegue mais evitar, os "espíritas" correm atrás do próprio rabo e acreditam que a solução a ser encontrada é justamente aquela que adotaram na crise do roustanguismo assumido e que gerou justamente a própria "fase dúbia" que apresentou contradições graves em relação ao Espiritismo original.

Ou seja, os "espíritas" sempre apelam para a tão surrada promessa de "entender melhor Kardec". coisa que não convence sequer uma pedra. E os apelos à "fraternidade" que povoam a retórica "emotiva" adotada diante do vazio doutrinário - na boa, os "espíritas" brasileiros são analfabetos na doutrina kardeciana original - só revela o agravamento desta crise.

Setores do "movimento espírita" já começam a apedrejar os questionadores. "Alterados! Obsediados! Invejosos! Inimigos do trabalho do bem (sic)!", são os apelos mais conhecidos. Se achando "possuidores da Verdade" ou "predestinados ao Céu", apenas pelo espetáculo das "belas palavras" que pregam ou compartilham, os "espíritas" tentam evitar que a deturpação fracasse diante de questionamentos tão aprofundados.

Tentativas de combater a deturpação vêm desde os tempos de Angeli Torteroli, há mais de um século atrás. Mas sempre os problemas foram empurrados com a barriga, e a deturpação espírita, baseada no igrejismo de Jean-Baptiste Roustaing, se evoluiu (ou involuiu) para um roustanguismo cada vez mais envergonhado e dissimulado, que hoje finge ser "rigorosamente fiel a Kardec".

Os "espíritas", achando que podem tudo, estão confiantes em mais uma retratação dos contestadores. Tentam resistir em suas contradições, em sua abordagem igrejista, mais próxima do Catolicismo medieval do que do Espiritismo propriamente dito, e fazem todo tipo de apelo. Chegam mesmo até a "comprar matéria" na imprensa de esquerda, para afastar as acusações, verídicas e explícitas, de que o "espiritismo" brasileiro é a "religião da Rede Globo".

A resistência dos "espíritas" e sua falsa misericórdia em "acolher" os contestadores que fizerem alguma retratação e pedirem desculpas para os "bondosos" deturpadores, é ainda uma hipótese plausível e perigosa. A falta de firmeza dos questionadores da deturpação espírita, que elevou ao estrelato extremo os supostos "médiuns" brasileiros, deve ser combatida e os recados de Erasto devem ser ouvidos sem complacência nem más interpretações.

O espírito Erasto havia dito para combater, "sem dó" (ou seja, sem complacências nem ressalvas), a deturpação espírita, mesmo quando os deturpadores falam em "amor e caridade". Aliás, Erasto sempre havia dito que é nesses momentos que se deve ter cautela ainda maior, porque todo apelo emotivo pode esconder o desejo de inserir ideias levianas e desmoralizar o legado de Kardec.

São justamente os apelos a ideias como "bondade", "amor", "caridade" e "fraternidade" que são os mais perigosos e foi o Ad Passiones do "movimento espírita", sobretudo através das figuras de Chico Xavier e Divaldo Franco, com suas imagens supostamente bondosas e sensíveis, que permitiu que estes e outros deturpadores da Doutrina Espírita ficassem em pé, fazendo o que querem com o legado kardeciano.

Daí que ouvir Erasto não é estar complacente com Chico e Divaldo. É questionar até a aparente "bondade", se ela não pode ser um processo de mistificação e de autopromoção de ídolos religiosos. Nos lembremos de Moisés, que abominou os ídolos religiosos, de Jesus de Nazaré, que abominou os falsos sábios, de Allan Kardec e Erasto, que alertavam sobre os mistificadores.

Pois o próprio "espiritismo" e seus "mais conceituados" ídolos é que estão povoados de falsos sábios, falsos cristos, falsos profetas, malabaristas das palavras, que dizem condenar a "falsidade dos outros" e cujas ideias que transmitem esbarram nos postulados de Kardec, que os contradizem.

Desta forma, convém deixar de lado a complacência muito comum entre os brasileiros e questionar com firmeza qualquer apelo dos deturpadores do Espiritismo. Qualquer vírgula a favor dos ídolos "espíritas" é um ponto a favor da deturpação e menos chance para recuperarmos os postulados espíritas originais, há muito abandonados no Brasil.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Grande mídia, religião e construção de mitos

NELSON XAVIER E ARY FONTOURA - Grandiosos talentos interpretando personagens tendenciosamente abordados pela Globo.

A grande mídia, a depender da influência que faz aos brasileiros, parece estar dotada de poderes divinos. A fabricação de consenso chega mesmo a dar a impressão às pessoas de que tudo é natural, e que a grande mídia não faz mais do que representar o inconsciente coletivo do povo brasileiro.

Não é a mídia que se submete ao inconsciente do povo. É o inverso. E, anteontem, quando o ator Nelson Xavier, que interpretou o "médium" Francisco Cândido Xavier, faleceu de câncer, aos 75 anos, no mesmo dia do depoimento do ex-presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, à Operação Lava Jato, estão em jogo dois mitos inversamente trabalhados pelo poder midiático da Rede Globo, que parece querer substituir as consciências das pessoas.

Assim como Nelson Xavier foi marcado por interpretar Chico Xavier - a ponto de ter divulgado um desejo de que, quando fosse enterrado, usasse o paletó que o "médium" deu de presente ao ator - , temos o ator Ary Fontoura, no filme Polícia Federal - A Lei é Para Todos, sobre a Operação Lava Jato, fazendo papel do ex-presidente Lula. O filme tem lançamento previsto para julho deste ano.

Os brasileiros médios, que assistem constantemente à televisão e possuem formação ideológica mais ou menos conservadora, estão acostumados à imagem oficial de certos mitos, de forma que eles gozam de aparente unanimidade, mesmo quando apresentam irregularidades nas qualidades a eles atribuídas.

Isso é assim tanto com Chico Xavier, "santificado" ao extremo, como uma Madre Teresa de Calcutá brasileira - um mito construído de maneira semelhante lá fora - , como Lula, "demonizado" ao extremo. Mitos construídos pelo persuasivo discurso midiático que força a prevalência de abordagens que nem sempre correspondem à realidade.

Aparentemente, quase ninguém percebe que Chico Xavier foi um deturpador muito grave da Doutrina Espírita, desfigurando e distorcendo o legado trabalhosamente desenvolvido por Allan Kardec ao sabor de devaneios igrejistas, moralistas e até materialistas (a concepção das "colônias espirituais" é um claro exemplo disso).

Ao "médium" também pesam denúncias de que suas supostas psicografias não passam de obras fake - pioneiros dos textos apócrifos que se produzem na Internet - e que outras práticas, como supostos rituais de materialização, teriam sido fraudulentas e contavam com o acompanhamento ativo do próprio Chico Xavier, que ainda assinava "autenticando" tais embustes.

Sobre os fakes supostamente psicográficos, observam-se irregularidades graves nas obras atribuídas a espíritos do além, famosos ou não. Humberto de Campos, Auta de Souza, Casimiro de Abreu, Olavo Bilac e Jair Presente, entre tantos e tantos outros, apresentam problemas sérios de estilo pessoal e frequentemente seus textos demonstram o pensamento e o estilo pessoal do "médium".

As pessoas se esqueceram disso e a visão mais persistente é que Chico Xavier é um "santo" e um homem que "fez muita caridade". Tais qualidades são muito duvidosas, até porque, se a "caridade" de Xavier tivesse sido verdadeira, com a projeção e o carisma que ele acumulou nos últimos anos, o Brasil teria alcançado um padrão escandinavo de vida. No ano do centenário de Chico Xavier, sua querida Uberaba foi rebaixada de 104° para 210° lugar em Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas.

O mito de Chico Xavier como "símbolo máximo da caridade" é falso e foi criado pela Rede Globo de Televisão no final dos anos 1970 para concorrer com a ascensão dos "pastores midiáticos" R. R. Soares e Edir Macedo. É certo que o mito de "filantropo" atribuído a Chico Xavier é bem antigo, mas foi a Globo que trabalhou o mito de forma mais organizada, sem as confusões e o apelo sensacionalista de Antônio Wantuil de Freitas, antigo presidente da FEB e descobridor do "médium".

Quem prestar melhor atenção sabe que o mito de Chico Xavier contém ingredientes apelativos que analistas conceituados do Primeiro Mundo já definem como tendenciosos e manipuladores da opinião pública: o Ad Passiones (apelo à emoção) e o Assistencialismo (caridade paliativa).

Os dois apelos discursivos ainda são vistos, pela maior parte dos brasileiros, como atitudes "positivas" e dotadas de "valor moral elevado". Mas não é isso que análises diversas demonstram, lá fora, sobretudo alertando que o mundo capitalista nunca trouxe benefícios explorando intensamente essas duas estratégias de convencimento.

O Ad Passiones, discurso que apela para a exploração excessiva da emoção (como, no caso do "espiritismo", abusar das evocações de "amor" e "caridade" e mostrar imagens de crianças sorrindo ou desenhos de corações), é definido como um tipo de falácia, que é a veiculação de uma ideia falsa como se fosse uma "verdade indiscutível".

O Ad Passiones virou moda com o fenômeno da pós-verdade, que, de maneira inesperada e motivada mais pelos apelos emocionais do que pela realidade objetiva, causou vitórias surreais em vários países. Nos EUA, a inesperada vitória de Donald Trump e, no Reino Unido, da proposta de saída da monarquia europeia da União Europeia, revelam o triunfo da pós-verdade, que também influiu no Brasil, com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

O Assistencialismo, por sua vez, é uma caridade parcial, que apenas atende casos pontuais, sem romper profundamente com as injustiças sociais e sem representar a emancipação plena das populações carentes. Diferente da Assistência Social (que encara injustiças sociais de frente, não raro ameaçando os privilégios das elites), o Assistencialismo traz poucos benefícios e serve mais para expor o "benfeitor" em prol de sua promoção pessoal.

O "espiritismo" brasileiro diz fazer Assistência Social e alega que sua "caridade" é "transformadora". Mas a prática não revela isso, até porque, pela importância que se dá a esta religião, o Brasil teria se tornado um país melhor e não pior como está hoje, com a degradação do mercado de trabalho e outros retrocessos virando leis, estrangulando recursos públicos e empobrecendo e desgastando as forças das classes trabalhadoras.

A Mansão do Caminho é um exemplo disso. E com o apoio do poder midiático da Globo. Em reportagem do Fantástico, festejou-se demais a "caridade" de Divaldo Franco, tido como "maior filantropo do Brasil" por ajudar, tão somente, menos de 1% da população da cidade de Salvador. Em índices nacionais, o dado se torna até risível. É festa demais para pouca caridade, mostrando o quanto o Assistencialismo serve mais para a promoção pessoal dos "médiuns" brasileiros.

Tanto o Ad Passiones quanto o Assistencialismo são apelos tendenciosos que promovem o "espiritismo" para pôr a deturpação debaixo do tapete. O excesso de alusões ao amor, em palestras, visitas, mensagens, textos etc, confortam e tranquilizam muitos, mas se trata de um apelo perigoso, traiçoeiro, que garante a aceitação dos deturpadores que "vaticanizaram" o Espiritismo até quando se cogita a recuperação das bases doutrinárias.

Se o "espiritismo" representa o Ad Passiones nas excessivas citações de "amor" e "fraternidade", essa representação, quanto ao Assistencialismo, se dá nas supostas evocações de "caridade" e "bondade". São apelos que, no discurso, parecem belos e fascinantes, mas cujos efeitos são extremamente inexpressivos e não legitimam de forma alguma o "espiritismo" brasileiro, que continua devendo responsabilidade pelas traições que fez aos postulados de Allan Kardec.

E todas essas armadilhas as pessoas não percebem porque as "boas emoções" são a camuflagem perfeita para qualquer apelo religioso. A Rede Globo tem consultores de Psicologia dos mais habilidosos e a parceria com a ex-inimiga FEB tornou-se um casamento feliz, fazendo o povo se distrair com a visão adocicada do deturpador Chico Xavier, enquanto lincha figuras que realmente ajudaram o próximo como Lula.

As pessoas são manipuladas pelo moralismo conservador, pelo reacionarismo político e pelas paixões religiosas. Constroem para si uma realidade que se revela, na verdade, irreal e sem lógica, e, no caso do "espiritismo" brasileiro, deixaram crescer a reputação de um gravíssimo deturpador da Doutrina Espírita, um mineiro que arruinou o legado kardeciano e criou obras fake de supostos espíritos do além, para depois virar o "santo absoluto" devido às seduções maliciosas das paixões religiosas.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Muito se fala no Jogo da Baleia Azul; e o jogo "espírita" de "Vencer a Si Mesmo"?


O "Correio Espírita" deste mês publicou uma matéria que define o Jogo da Baleia Azul como um "jogo assassino", preocupado com a onda de suicídios provocada pelo sombrio regulamento dessa brincadeira perigosa.

Sim, é inegável que o Jogo da Baleia Azul, um modismo nas redes sociais, esteja causando tantos suicídios pela forma com que é feito seu regulamento e pelo caráter macabro das tarefas a serem feitas. Mas isso é um assunto que vai além de moralismos religiosos e que não pode ser resolvido com a censura na Internet que grupos retrógrados pregam como uma falsa solução, que na verdade protege interesses ultraconservadores mais estratégicos.

O grande problema, porém, é que o próprio "espiritismo" brasileiro também mostra seu "Jogo da Baleia Azul", através de seus valores, cada vez mais identificados com a Teologia do Sofrimento.

Cada vez mais distante de Allan Kardec - nunca devidamente compreendido pelos seus proclamados seguidores oficiais no Brasil - , o "espiritismo" brasileiro, de raiz roustanguista, transmite energias macabras por conta de suas próprias contradições e pela sua desonestidade doutrinária.

A desonestidade doutrinária consiste em transmitir ideias roustanguistas sob o pretexto de "atualização" do legado kardeciano. A hipocrisia que isso significa faz com que "espíritas" deem o mesmo apreço a Erasto, que alertou para a deturpação no Espiritismo, e a Emmanuel, um dos propagadores da deturpação.

Só isso faz com que, em vez da espiritualidade mais evoluída, que foge, constrangida, dos aduladores religiosos da Terra, cheguem aos "espíritas" as almas mais traiçoeiras e levianas, os chamados espíritos inferiores.

As fotos antigas de Francisco Cândido Xavier revelam uma energia maligna. O semblante malicioso e o olhar agressivo explicam por que muitos devotos de Chico Xavier acabam perdendo seus filhos, como em uma maldição.

O anti-médium e beato de Pedro Leopoldo e Uberaba tinha fetiches por mortos prematuros, por achar exótico morrer jovem. A maioria dos espíritos usurpados pela suposta mediunidade de Xavier é de gente morta prematuramente: Castro Alves, Casimiro de Abreu, Humberto de Campos, Auta de Souza, Irma de Castro Rocha, Augusto dos Anjos, Cruz e Souza.

No fundo, Chico Xavier foi um católico de crenças bastante ortodoxas que preferiu fazer o Espiritismo andar para trás enquanto o Catolicismo, de gente como Alceu Amoroso Lima e Dom Hélder Câmara, caminhava para a frente.

Chico Xavier era adepto da Teologia do Sofrimento, corrente medieval católica que fazia apologia da desgraça humana como "atalho para Deus", e também fez o Espiritismo, no Brasil, se rebaixar a uma versão repaginada do Catolicismo jesuíta do Brasil colonial.

Daí os apelos para "amar o sofrimento", "abrir mão das próprias necessidades", "ficar feliz apenas por ter o ar que respira" (o que, em lugares como Rio de Janeiro e São Paulo, é difícil, pois nem isso se tem, sobretudo no Rio de fumantes arrogantemente inveterados), sobretudo a falácia de que "o pior inimigo é a própria pessoa", que soa como um punhal para o deserdado da sorte.

O próprio moralismo "espírita", com muitos conceitos estranhos ao legado de Allan Kardec, revela o quanto a doutrina igrejeira brasileira trocou o pedagogo francês pelo imperador romano e fundador do Catolicismo, Constantino.

A apologia ao sofrimento humano, que traz vibrações perigosas para quem faz tratamentos espirituais para resolver problemas e contrai outros ainda piores, faz com que o "espiritismo" tenha também seu "Jogo da Baleia Azul", o "Jogo do Vencer a Si Mesmo".

Como o "espiritismo" brasileiro, pelo seu DNA roustanguista, não aprecia a individualidade humana (confundida com egocentrismo), tanto faz apelar para a pessoa abrir mão de suas qualidades pessoais, e levar uma vida "qualquer nota", reduzindo-se a "boneco das circunstâncias" e "brinquedo das adversidades".

Alguns "espíritas" até tentam um malabarismo discursivo: "Não, nós apreciamos a individualidade, as vocações pessoais, os talentos próprios, mas existem mil formas de trabalhá-las. Sabe aquela empresa corrupta cujo patrão é prepotente? Mostre sua criatividade e promova a fraternidade cristã que todos vão gostar e o coração do seu chefe irá derreter". Como se fosse fácil fazer isso, tal como pedir para a guilhotina em queda não cortar o pescoço do condenado.

Os "espíritas", da mesma forma que confundem individualidade com individualismo, confundem desgraça com desafio. Isso revela um moralismo bastante severo, que acaba aceitando as condições que levam as pessoas ao suicídio, demonstrando a hipocrisia da doutrina igrejeira que, sob a desculpa da "vida futura", consente e até defende que pessoas fiquem acumulando desgraças e percam o controle de seu próprio destino.

A péssima psicologia que se encontra no apelo de "vencer a si mesmo" é até um discurso perigoso. Afinal, as apologias ao "carregamento da cruz cristã" e outros valores próprios da Teologia do Sofrimento só conseguem inspirar, no sofredor em aflição, o desejo de se exterminar. Ainda mais porque ele, no seu desespero, é informado de que é "seu pior inimigo" e aí ele, já com baixa autoestima, encontra mais estímulo para tirar sua própria vida.

Daí a contradição em que os "espíritas" se metem diante da criminalização do suicídio, quando seu moralismo apela para aceitar justamente os fatores que levam as pessoas a tirarem suas vidas. E ainda mais quando os mais aflitos, ao buscarem socorro para suas dificuldades extremas, contraem ainda mais e mais desgraças. Usar a "vida futura" para aceitar o sofrimento não resolve, até porque isso cria uma ânsia nos desesperados que cada vez mais são estimulados ao triste ato extremo.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

O mal maior dos "médiuns" brasileiros: o culto à personalidade


Poucos percebem, mas a função do médium, discretíssima e quase anônima nos tempos de Allan Kardec, se tornou uma aberração monstruosa no Brasil. O médium perdeu a sua função intermediária, se tornando o centro das atenções, sua atividade mediúnica é de valor duvidoso e apresenta irregularidades e ainda há o pedantismo intelectual como uma de suas qualidades.

Os médiuns que serviram a Kardec eram discretíssimos. Eram conhecidos apenas pelo sobrenome. Seu serviço era eventual, e não viviam dessa atividade. Também não queriam ser o centro das atenções e passaram para a posteridade num semi-anonimato.

Já no Brasil, os "médiuns" têm nome, nome do meio e sobrenome. São os centros das atenções de tal forma que o papel intermediário foi reservado aos espíritos dos mortos, reduzidos a "garotos de recado" dos "médiuns" que supostamente os recebem.

Sim, porque, no caso de Francisco Cândido Xavier, o "morto" pensa igual ao "médium". Pensa e escreve igual, até sua caligrafia se torna a do "médium". O "morto" se reduz a um propagandista religioso, que vagamente diz que "está tudo bem" com ele enquanto há o apelo para todos "se unirem na fraternidade em Cristo", eufemismo para propaganda igrejista.

As pessoas são muito tomadas de emotividade cega, e constroem sua realidade a partir de tais devaneios. Qualquer um que se promova com imagens de crianças pobres sorridentes é atribuído como um predestinado ao Céu, sendo também um coreógrafo das palavras, sem que haja um questionamento sobre as ideias que transmite ou as contradições de seu belo discurso.

Os "espíritas" já estão preocupados com a onda de críticas feitas à sua doutrina igrejeira. Ficam incomodados, dizem que seus questionadores sentem "falta de perdão, fé e oração" e suplicam para que haja misericórdia. A impressão que se tem é que eles se acham paladinos da Justiça ao promoverem a fraternidade do Bom Senso com o Contrassenso.

Eles deveriam se olhar no espelho, antes de esboçar qualquer reação. O "espiritismo" que eles defendem tem raízes no igrejismo de Jean-Baptiste Roustaing, mas revelar isso lhes causa horror, assim como dizer que eles estão inclinados à Teologia do Sofrimento e que o próprio Chico Xavier introduziu essa corrente católica medieval na Doutrina Espírita praticada no Brasil.

É muito fácil atacar, e os ataques não partem de quem questiona as contradições do "movimento espírita". Os ataques partem daqueles que se acostumaram apenas com elogios, enquanto difundem ideias contraditórias entre si, evocando Erasto num momento e exaltando Emmanuel em outro. Eles deixaram de serem aceitos em suas ideias que se chocam com os postulados espíritas originais e, por isso, não gostam de serem criticados.

A desmitificação dos "médiuns" também lhes incomoda. Tão acostumados com a mitificação, a níveis de contos de fadas, do "médium" que traz "lindas mensagens" e faz "boas ações", os brasileiros não conseguem admitir a aberração de um "médium" que se torna o centro das atenções e que é beneficiado por uma atitude não lá muito positiva: o CULTO À PERSONALIDADE.

O culto à personalidade (ou culto de personalidade) não existe apenas nos líderes políticos presunçosos e ambiciosos com seu próprio poder. Ele envolve também empresários, famosos, e até mesmo supostos ativistas. Consiste numa estratégia em que a pessoa é exaltada em suas supostas virtudes, como se o valor das virtudes fosse subordinado à figura de alguém tido como "muito importante".

Na Rádio Metrópole FM, em Salvador (Bahia), que por sinal tem como contratado o "médium espírita" José Medrado (ele mesmo o astro das palestras de plateias lotadas todas as noites de terças-feiras na "Cidade da Luz", no bairro de Pituaçu), é conhecida pelo culto à personalidade dado ao seu proprietário, Mário Kertèsz (que começou a carreira como político da ditadura militar), ele mesmo um pretenso radiojornalista e autoproclamado maior astro da emissora.

O culto à personalidade coloca o indivíduo acima de sua própria atividade. Até antes dessa atividade ser exercida, o indivíduo já recebe os louros. Em muitos casos, é o pretenso vencedor de uma competição que nem começou. É o favorito acima de qualquer causa. E, no "espiritismo" brasileiro, o "médium" que recebe o culto à personalidade faz o tipo de pessoa na qual não é o benfeitor que se sujeita à caridade, mas é a caridade que se sujeita ao benfeitor.

Uma das amostras do culto à personalidade estava nas caravanas de Chico Xavier em Uberaba. Um espetáculo de pura ostentação, com fileiras de carros, com muito barulho, festas e farta propaganda na mídia, com coberturas festivas na imprensa. Muito barulho por quase nada: trata-se de uma mera atividade de doação de mantimentos para famílias pobres e numerosas, um ato que equivale ao que as pessoas mais esclarecidas entendem como Assistencialismo.

O Assistencialismo se define como uma atitude de ajuda ao próximo nos limites meramente pontuais. Não se resolve definitivamente o problema. Ou, quando muito, só se "resolve" pontualmente, como projetos educacionais inócuos, que apenas ensinam a pessoa a "sobreviver", com aparente dignidade, mas de maneira medíocre e pouco satisfatória.

Há uma diferença entre Assistencialismo e Assistência Social, que realmente transforma. O Método Paulo Freire de Educação é um exemplo de Assistência Social. Muitos "espíritas" dizem que a "caridade" que fazem é Assistência Social, mas o que fazem, na verdade, é Assistencialismo.

Ações que só teriam caráter de urgência em calamidades públicas, como a concessão de sopas e donativos, são feitas em período declarado de paz. Tendo condições para se fazer mais, os "espíritas" fazem pouco, preocupados mais em promover o "benfeitor". Os benefícios vêm em segundo plano.

Tudo acaba promovendo o "bom mocismo" de "médiuns" que, em certos casos, fazem turnê pelo mundo para fazer palestras para ricos e poderosos, como Divaldo Franco, ou ficam nos seus locais de origem, como Chico Xavier e João de Deus, para dar um verniz de "humildade plena".

Nota-se o culto à personalidade quando se fala em Mansão do Caminho, Você e a Paz, em várias casas e projetos de "caridade" nos quais os "médiuns" aparecem em primeiro plano. Mesmo cercados de crianças saltitantes e adultos pobres, são os "médiuns" os destaques, são os primeiros a serem identificados em tão "modestas" imagens.

Os "médiuns" brasileiros já são considerados anti-médiuns porque perderam o papel intermediário que deveriam assumir. Tornam-se figuras exóticas, pitorescas, alimentando o sensacionalismo da grande mídia, que adora fenômenos que misturem devoção religiosa e aspectos pitorescos. As paixões religiosas revelam esse apego ao sensacionalismo e à pieguice que faz dos "médiuns" brasileiros uma grande vergonha para a humanidade.

Afinal, os médiuns autênticos que serviram a Allan Kardec eram, em maioria, aristocratas que tinham atitudes bastante discretas, não queriam o estrelato e nem posavam de dublês de pensadores e ativistas. Se eles faziam ativismo social, era no quase anonimato. Mas o pior é que, sendo aristocratas, eram esses médiuns bem mais humildes do que os "médiuns" brasileiros que vivem do culto à suas personalidades.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Por que as forças progressistas não questionam o "espiritismo" brasileiro?

SERÁ QUE O ESQUERDISMO ACEITA O "ESPIRITISMO" DETURPADOR POR CAUSA DE SEUS APELOS VISUAIS E RETÓRICOS, COMO DE CRIANÇAS SORRIDENTES?

O "espiritismo" brasileiro é protegido da Rede Globo. É uma religião conservadora e moralista, seu maior ídolo, Francisco Cândido Xavier, defendia a ditadura militar e era devoto da Teologia do Sofrimento. Tem a blindagem de um Aécio Neves e um apetite para reprovar os avanços do raciocínio questionador.

No entanto, vemos que setores das esquerdas brasileiras ficam complacentes com o "espiritismo" e chegam mesmo a lhe prestar uma admiração sem motivo. Movidos apenas pela vaga e falsa imagem de "progressista", o esquerdismo se deixa levar para suposta humildade apresentada pelo marketing "espírita".

O "espiritismo" brasileiro tem uma fachada "imparcial", "sem ideologias" e "neutra". Sua embalagem sempre diz as coisas mais atraentes, imparciais, avançadas, ecumênicas, equilibradas etc. Mas seu conteúdo, como vem de raízes fundamentadas em Jean-Baptiste Roustaing, é dos mais retrógrados, a ponto de rabaixar o legado kardeciano a um sub-Catolicismo de bases jesuítas e essência medieval.

Isso influi no direitismo do "espiritismo" brasileiro que se reforçou sobretudo poucos anos depois de Chico Xavier defender a ditadura militar na televisão, para milhares de telespectadores, em 1971. Para piorar, a imagem que muitos esquerdistas se deixaram levar de Chico Xavier, associada a uma aparente humildade, não passou de um habilidoso discurso publicitário armado pela Rede Globo de Televisão (conservadora) sob inspiração do inglês Malcolm Muggeridge (conservador).

É só ver as coisas. Um conteúdo moralista que diz para ninguém questionar, aceitar as adversidades, perdoar os abusos dos algozes, abrir mão das próprias necessidades, desistir dos talentos da individualidade - o "espiritismo" adora confundir individualidade (desenvolvimento de qualidades pessoais próprias) com individualismo (expressão de egocentrismo) - e ainda pede para os sofredores "amarem" suas desgraças.

Isso é uma agenda conservadora. O "espiritismo" é extremamente conservador, tanto quanto as seitas neopentecostais (que querem enfiar o Brasil de hoje nos tempos do Velho Testamento), mas à sua maneira. Aliás, ambas as seitas (FEB e Igreja Nova Vida) participaram ativamente da Marcha da Família Unida com Deus pela Liberdade, em 1964, que pediu a ditadura militar. Num passado menos remoto, Chico Xavier manifestou seu voto em Fernando Collor, em detrimento a Lula.

Relatos elitistas e juízos de valor acusando pessoas humildes de supostamente terem sido tiranos sanguinários em outras vidas revelam também esse direitismo. Chico Xavier acusando as pobres vítimas de um incêndio num circo em Niterói de terem sido "romanos sanguinários" e Divaldo Franco acusando os pobres refugiados do Oriente Médio de terem sido "colonizadores perversos" também revela esse reacionarismo dissimulado em dóceis palavras.

O periódico "Correio Espírita" havia definido as passeatas do "Fora Dilma" como "despertar da juventude" e "indício de regeneração humana", atribuindo aos "protestos dos coxinhas", nos quais havia o clamor pela "intervenção militar", uma suposta função messiânica. Só faltava dizer que Kim Kataguiri, Fernando Holiday, Janaína Paschoal e outros eram crianças-índigo.

O "médium" João Teixeira de Faria, o João de Deus, que nas "horas vagas" é um rico latifundiário, virou capa de uma matéria elogiosa de Veja, uma revista que tem uma furiosa má vontade com o ativismo social, esculhambando sindicalistas, trabalhadores rurais, movimentos sociais, populações indígenas, ativistas estudantis.

Se o "funk" e o "espiritismo" são aceitos pela revista Veja, capaz de xingar um Nobel de Física se ele se afirmasse marxista e ateu, então a imagem de "progressistas" que esses dois movimentos, o musical e o religioso, é muito, muito falsa. Ou alguém acreditaria que Veja daria uma capa a João de Deus, se ele fosse um simpatizante do esquerdismo?

O que as forças progressistas de esquerda ignoram é que a imagem de humildade do "espiritismo" que apela para as pessoas "aceitarem o sofrimento" é falsa. Seus palestrantes ficam viajando o tempo inteiro fazendo passeatas para ricos e a tão festejada filantropia que fazem ajuda muito pouco e apenas traz benefícios precários, frágeis e medíocres para os necessitados.

A própria sociedade conservadora aposta no "espiritismo" como um pretenso substituto das políticas progressistas, mas não um substituto à altura. A sociedade conservadora está apavorada com os progressos trazidos pelos governos Lula e Dilma Rousseff, que culminaram até com a transformação do empregado doméstico em assalariado, num sentido inverso que querem fazer os partidários da reforma trabalhista, que querem degradar o mercado de trabalho.

O "espiritismo" cresceu sob o apoio da mídia conservadora, de uma TV Tupi que também investiu na Rede da Democracia (campanha reacionária comandada também pela Rádio Globo e Jornal do Brasil para pedir que o presidente João Goulart fosse derrubado por um golpe militar) e da própria Rede Globo que colaborou na reinvenção do mito do anti-médium Chico Xavier, sem o método confuso e sensacionalista do antigo presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas.

Nem mesmo a aparente ida da atriz global Camila Pitange, ateia e de esquerda, para agradecer a João de Deus sua sobrevida depois que desistiu de mergulhar com o colega e amigo Domingos Montagner, morto por afogamento, pode representar um suposto progressismo "espírita".

Até porque, provavelmente, Camila agiu sob conselho de outro ator de Velho Chico, Carlos Vereza, que interpretou Adolfo Bezerra de Menezes no cinema e é membro do Instituto Millenium, um coletivo do que há de mais reacionário na mídia brasileira.

O próprio João de Deus parece ter dado o "beijo da morte" à esposa do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, dona Marisa Letícia, que estava internada ao sofrer AVC e havia esperanças de recuperação. Foi só o anti-médium goiano dizer que "orava por dona Marisa" para o estado dela se agravar de forma irreversível e ela falecer, deixando viúvo o ex-presidente, já abatido com tantos ataques.

É ilustrativo, aliás, que a mesma Rede Globo que transforma Lula numa pessoa odiável é a que se empenhou em "santificar" Chico Xavier, envolvido em pastiches literários e outros truques de charlatanismo. A "filantropia de resultados", associada ao "espiritismo" brasileiro e que serve como álibi para a deturpação que desfigura o legado de Kardec, é um paradigma conservador e elitista de "caridade" e "bondade", pois traz poucos benefícios e serve mais de propaganda para o "benfeitor".

As pessoas têm que perceber. Até os progressistas têm, de vez em quando, alguma inclinação às paixões religiosas. O que fazem os reacionários deturpadores da Doutrina Espírita, mostrando imagens de crianças sorridentes e coraçõezinhos vermelhos - será que a "cor vermelha" ilude os esquerdistas quanto à doutrina igrejeira? - , para se passar por "progressistas" é de uma astúcia assustadora.