quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

"Convulsões sociais" expõem Brasil extremamente retrógrado


Qual a relação entre o linchamento de um ambulante, até ele ser morto, por dois agressores de um travesti que o vendedor defendeu, numa estação de metrô em São Paulo, com a chacina familiar cometida por um homem rancoroso na festa de virada de ano em Campinas?

Isso é fácil de responder. Difícil é relacionar isso também com fatos que aparentemente nada têm a ver com o machismo recreativo de mulheres siliconadas que só vivem de mostrar o corpo (como Solange Gomes e Mulher Melão) e com as passeatas que pediram o "Fora Dilma" nas ruas brasileiras.

Tudo isso tem relação, e mostra um Brasil apegado a velhos tempos. a valores obsoletos, a medidas prejudiciais à população, a um reacionarismo que, pasmem, arrasta multidões que aderem a tudo que é retrógrado nas redes sociais da Internet, derrubando definitivamente o mito de que a Internet seria um processo de revolução social na sociedade brasileira. Só se for a "revolução" de 1964.

Marcado por um moralismo medieval e quase pré-histórico, que volta e meia mostra atos de barbárie até em cidades consideradas "evoluídas" como Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba - cidade com complexo de superioridade por causa dos ônibus visualmente padronizados e pela prepotência de juízes anti-PT da Lava Jato, que fazem da capital paranaense ser apelidada de "República de Curitiba" - , o Brasil teve um 2016 bastante melancólico e preocupante.

Um país ainda machista, é irônico o sentido ambíguo da lembrança dos 40 anos do assassinato da socialite Ângela Diniz pelo empresário Doca Street, ocorrido no final de 1976, e cuja repercussão influenciou uma infinidade de crimes semelhantes até os dias de hoje. Graças à "defesa da honra" de Doca, o Brasil se tornou um dos países com maior ocorrência de feminicídio no mundo.

Ao mesmo tempo em que não é divulgada informação se Doca morreu ou não - em tese, ele atingiu, em 2016, a mesma idade em que o cantor Leonard Cohen encerrou sua vida, 82 anos, mesmo com passado de cocaína e tabagismo inveterado - , as reportagens de O Globo e Folha de São Paulo narram o fato como um passado distante como se o assassino (cuja última aparição ocorreu em 2006, para divulgar um livro) fosse "tão desaparecido" quanto, por exemplo, Ulysses Guimarães.

Na sociedade machista, parece proibido expor tragédias dos machos, enquanto as mulheres são vítimas constantes de tragédias violentas. É uma sociedade em que o homem que é capaz de acuar a própria namorada num quarto e esfaqueá-la até a morte é o mesmo que, quando sofre um infarto fulminante antes dos 60 anos de idade, apela, apavorado, para Jesus impedir que ele "seja levado para o além".

Machismo, racismo, elitismo, homofobia, bullying. A catarse social em prol de pontos de vista reacionários mostra um saudosismo doentio por momentos obscuros do Brasil: um padrão de mercado de trabalho anterior a 1930, e que o Executivo e o Legislativo buscam recuperar com as reformas trabalhista e previdenciária, além do estrangulamento social do "teto dos gastos públicos".

Socialmente, as pessoas tentam, quando muito, girar o relógio para 1970 ou 1974, e não é à toa que o evento da Copa do Mundo FIFA de 2014 parecia, para muitos, uma chance de "reviver o Tri". Usinas como Belo Monte e hidrovias em construção no Mato Grosso também lembram os "imponentes" projetos "desenvolvimentistas" da Era Médici.

O rentismo dos grandes bancos e das empresas de grande porte, principalmente as multinacionais, também refletem o perigoso espírito do tempo dos dias atuais, em que uma parcela considerável de brasileiros, mesmo de classe média, aceita que nossas riquezas sejam entregues a empresas estrangeiras. Lembra 1500, perdendo o pau-brasil para o comércio nas Índias...

Estamos numa situação que é comparável ao das galinhas fazendo campanha para a raposa controlar o galinheiro ou, em alguns aspectos radicais, para que o lobo venha cuidar do alojamento das galinhas. O frango não pode ser responsável porque é "corrupto" e os radicais querem que o lobo cuide do galinheiro porque "tem austeridade". Jair Bolsonaro?

Hoje já se fala em censurar a Internet, de um lado, enquanto, de outro, ocorre a libertinagem de valentões da Internet em criar páginas de ofensas contra quem discorda do "estabelecido". Em ambos os casos, as pessoas de bem saem prejudicadas, porque não poderão criar páginas ou armazenar conteúdo que vai contra "certas normas" e também não podem controlar os abusos de quem as ofendem de maneira mais agressiva e destrutiva.

Voltando ao machismo, até a vida da mulher solteira é ridicularizada pelo poder midiático, de maneira sutil e imperceptível. A solteira é humilhada pelas páginas de entretenimento "popular", porque é vista como uma "vadia" que só curte noitadas ou fica se sensualizando por aí. É uma mulher capaz de encher bustos e glúteos de silicone e tatuar o corpo, mas é incapaz de ter referenciais culturais de boa qualidade, não tendo escrúpulos de cometer sérias gafes intelectuais.

A emancipação feminina tem que ser duplamente negociada com o machismo. Ou a mulher busca aprimoramento intelectual e cultural sob a vigilância de um marido empresário ou de algum tipo de liderança, ou ela segue a cartilha machista da hipersexualização ou da devoção do lar sem precisar viver sob a sombra sequer de um pretendente.

Daí que existem aberrações como modelos, jornalistas e apresentadoras de TV que, casadas, aparecem quase todo o tempo sozinhas. Podem estar "muito bem casadas" e ao mesmo tempo quase nunca aparecer na companha do marido, porque os "negócios" dele permitem uma "solidão" a dois e um convívio conjugal bastante restrito, limitado a eventos de extrema formalidade e o breve convívio noturno doméstico do jantar e do sono, e os passeios com os filhos.

Por outro lado, há, no âmbito do "popular", mulheres siliconadas que escondem namorados e maridos, por causa daquela regra de mercado de que "solteiro vende mais", bancando as "encalhadas" só para atrair mais seguidores na sua conta do Instagram e vender mais CDs, no caso delas serem também "cantoras" (geralmente de "funk"). Há casos de siliconadas que inventam uma dengue ou pneumonia para ver seus maridos, que vivem em locais distantes e nunca revelados.

Esse cenário que, em casos extremos, é marcado pelas convulsões sociais, surtos de conflitos humanos que, em parte, servem para proteger ou impor valores e medidas reacionários, embora haja também convulsões que atingem a própria plutocracia, até porque, como todo conflito, também os algozes não são poupados, até porque eles pagam o preço por irem "longe demais" em vários momentos.

A verdade é que, perto de 2019, o "espiritismo" brasileiro se derrotou diante de tão precipitadas predições, de que o país estaria rumando a um progresso magnífico para liderar o concerto das nações e promover a evolução humanitária. Em vez disso, só o limite dos gastos públicos imposto pelo governo Temer para duas décadas causará enormes prejuízos sociais e servirá de pano de fundo para muitas tragédias e incidentes gravíssimos resultantes de tantos e tantos retrocessos sociais.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Por que não há uma Leah Remini do "espiritismo" brasileiro?


Quanta diferença entre o exterior e o Brasil. Na vida política, enquanto lá fora especialistas sérios conseguem repercutir com seus graves alertas sobre o desastre que é o governo do presidente Michel Temer, em todos os aspectos, aqui há quem veja alguma validade nesse projeto político bastante catastrófico, nocivo à população e realizado sob o arrepio da lei.

Atores conceituados fizeram manifestos contra a votação do impeachment que tiraria de vez a presidenta Dilma Rousseff e o Senado não deu ouvidos. Estudioso da ONU fez um relatório dizendo que a PEC dos Gastos Públicos é uma afronta aos direitos humanos e, mesmo assim, a proposta foi aprovada, virou lei e irá estrangular a economia brasileira por vinte anos.

Lá fora, a ex-adepta da Cientologia, a atriz Leah Remini, exigiu da seita uma indenização de US$ 1,5 milhão (equivalente a R$ 5,1 milhões, no câmbio atual) por danos morais e como devolução das doações que ela deu à religião. Ela denuncia, também, que a Cientologia teria recorrido a uma rede de TV a cancelar o documentário dela sobre a seita.

E aqui no Brasil? No momento, o Rio de Janeiro - que, mesmo decadente, ainda insiste com a ilusão de bancar a "cidade-modelo" do país - vive um catastrófico calor de 43°, perigoso para a saúde da população, e as pessoas felizes achando que estão vivendo no paraíso. Com temperatura infernal?

Ficamos imaginando como seria se o Rio de Janeiro estivesse no lugar de Pompeia. A despreocupação dos brasileiros, sobretudo os cariocas, é preocupante, e ficamos pensando o que os cariocas veriam com as pedras de lava do Vesúvio caíssem sobre elas, e a lava escorrendo pelas ruas. Alguém teria coragem de rir com isso?

O Brasil é um país tão absurdo que, aqui, mulher-objeto pode ser considerada "feminista" mesmo se "sensualizando demais" como se fosse carne de rua. Só porque a mulher-objeto não tem, em tese, algum namorado ou marido, ou porque não é escrava do lar, não significa que ela seja feminista, até porque trabalha uma imagem claramente machista de sensualidade e exploração do corpo feminino.

No âmbito da religião, não bastasse a ameaça dos evangélicos em instaurar uma teocracia no Brasil, consolidando sua supremacia no Poder Legislativo e já invadindo setores do Poder Executivo, há a blindagem do "espiritismo" em que é possível usar falsidade ideológica sem que a Justiça mexa e, o que é pior, com ampla chance de obter o consentimento dos familiares do morto usurpado.

O Brasil é um país ensandecido, em que há insegurança jurídica, vulnerabilidade ética e social de todos os tipos, e não há um movimento para combater em larga escala as catástrofes sociais que existem. Questionamentos existem aqui e ali, mas eles não repercutem o suficiente para combater os aberrantes retrocessos que ocorrem no país, que beneficiam os que mais cometem abusos por impulso do egoísmo.

O "espiritismo" já se equipara aos movimentos neopentecostais pela combinação de erros, ambição e blindagem sócio-jurídica, se bem que no caso dos neopentecostais, a Justiça ainda pega em cima deles dependendo das circunstâncias. Entre os "espíritas", salvo uns "peixes pequenos" aqui e ali, como a pediatra de Rondonópolis, que se recusou a atender uma criança vítima de estupro por causa do moralismo "espírita" que sempre coloca a vítima é a culpada.

Não há um documentário oficial denunciando as irregularidades do "espiritismo". Mas há documentários sobre bobagens em prol da seita, embora não sejam crenças unânimes. A suposta profecia da Data-Limite, por exemplo, não é aceita por todos os seguidores de Francisco Cândido Xavier, havendo quem veja nelas um absurdo, por crer que seu ídolo seria incapaz de tal aventura.

E isso já é grave. Põe-se um documentário sobre supostas profecias que nem todos os seguidores do suposto médium concordam. O "espiritismo" mostra irregularidades muito piores do que a Cientologia ou a vida de Madre Teresa de Calcutá. que possuem documentários denunciando suas irregularidades.

Um produtor que decida, por exemplo, denunciar as irregularidades de Chico Xavier, provando, entre outras farsas "mediúnicas", a maior delas, a de Humberto de Campos - que em verdade se afastou, horrorizado, de qualquer assédio do anti-médium mineiro - , dificilmente receberia um centavo dos anunciantes e mesmo um crowdfunding, financiamento independente pela Internet, seria muito difícil e atingiria uma arrecadação longe de pagar os mais singelos custos de produção.

Não há uma Leah Remini com visibilidade e prestígio para denunciar. O que Chico Xavier fez com Humberto de Campos é algo que nem um inimigo teria coragem de fazer, um revanchismo barato só porque Humberto, em vida, não fez um comentário elogioso com um livro de Xavier, e, morto, foi usurpado da maneira mais leviana, oportunista e obsessiva possível, com o esperto "médium" ainda aliciando os familiares do autor morto, não bastasse a impunidade dada pela Justiça.

As irregularidades cometidas pelo "espiritismo" brasileiro são muito mais graves e preocupantes do que uma mera predileção ao igrejismo de Jean-Baptiste Roustaing, hoje tendenciosamente descartado (como o ex-deputado Eduardo Cunha no âmbito político). Envolve fraudes "mediúnicas" que não podem ser aceitas sob o pretexto da carteirada religiosa, porque elas destoam seriamente dos estilos e aspectos pessoais dos mortos a que tais obras são atribuídas.

Esquece-se, por causa do deslumbramento religioso, que as obras de falsificação buscam o máximo de semelhanças com as obras autênticas. Não são as semelhanças que conferem autenticidade, se existem diferenças que podem derrubar qualquer presunção neste sentido. As supostas obras mediúnicas são autenticadas apenas levando em conta as semelhanças, mas existem diferenças que vão contra a natureza de cada falecido que é atribuído a essas obras.

É preciso que as pessoas abram mão de tantos apegos a paradigmas, dogmas e totens que já não fazem mais sentido. Deixar a arrogância de manter esses apegos só porque o Brasil não é a Europa e os EUA. O problema não é o Brasil ser Europa ou EUA, mas devem ser aproveitados procedimentos e posturas adotados pelo povo desses lugares que freia a ascensão e combate a supremacia daqueles que agem em torno do abuso, da desonestidade e do arrivismo.

Temos que deixar a doença infantil de aceitarmos tudo porque, na primeira denúncia, o acusado vem com imagens de crianças pobres tomando sopa ou velhinhos doentes dormindo nas ruas. É um vício grave recorrer à carteirada religiosa para acobertar fraudes de seitas e crenças e garantir aos ídolos religiosos a impunidade, por causa de suas desonestidades feitas "em prol da caridade". Caridade não é cúmplice da fraude e do engano, vale lembrar.

É essencial deixar de lado fantasias, deslumbramentos e teimosias que parecem confortáveis, mas trazem muito prejuízo para o nosso país. Vide o desastrado governo de Michel Temer, instituído por causa de tantas fantasias e ilusões em torno das pessoas de algum status quo elevado, seja ele jurídico, econômico, empresarial, midiático e político. Pagamos o preço do apego a essas ilusões de atribuir valor a alguns "iluminados" do diploma, dinheiro, fama etc.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Revista insiste em abordagem confusa do "espiritismo" da fase dúbia


O Brasil vive marcado tanto na incompreensão das pessoas sobre tudo quanto ao apego a paradigmas velhos e duvidosos de "superioridade social". As pessoas endeusam juízes, empresários de mídia, ídolos religiosos, tecnocratas achando que eles detém "responsabilidades maiores" e, contraditoriamente, minimizam e sentem complacência quando eles cometem erros muito graves.

O "espiritismo" é beneficiado por essa complacência que garante a mais absoluta blindagem. E, é claro, a grande mídia comercial, que adora romover os ícones "espíritas" como "símbolos de bondade", faz com que o "movimento espírita" tente prevalecer sempre, como se fosse a doutrina dos "donos da verdade", sempre preocupados em ficar com a palavra final para tudo.

A própria mídia diz a que vem quando prefere exaltar supostos médiuns que cultivam o "culto à personalidade" mas dissimulam com aparente filantropia. É uma "caridade" que ajuda muito pouco, beneficiando antes o benfeitor do que o necessitado, mas que por isso mesmo a mídia exalta porque é uma "bondade" que não ameaça os privilégios das elites. A Rede Globo, por exemplo, tem como donos um trio de irmãos que sonegam impostos e acumulam fortunas exorbitantes e crescentes.

A Rede Globo, aliás, reinventou o "movimento espírita" que, depois do roustanguismo da FEB, se propagou sob o apoio da TV Tupi. Até o desfecho do caso Otília Diogo, havia uma coisa gozada nos Diários Associados: geralmente o "médium" Francisco Cândido Xavier "levava surra" da revista O Cruzeiro e era "consolado" pela TV Tupi.

Chico Xavier foi um mito que, até os anos 1970, era trabalhado de maneira confusa, à mercê de escândalos. Foi preciso o inglês Malcolm Muggeridge criar um modelo "limpo" de marketing da filantropia, que moldou uma imagem "agradável" de Madre Teresa de Calcutá, para a FEB e a Globo fazerem as pazes e relançar Chico Xavier como um pretenso filantropo, copiando os elementos lançados pelo documentário britânico Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God).

Era o começo da fase dúbia no "movimento espírita" brasileiro, um suposto equilíbrio entre as correntes "mística" e "científica", uma "união de cima", decidida pelos "místicos", através de uma parcela que fingiu renegar o roustanguismo e passou a bajular os "científicos", atrapalhando os esforços de recuperação das bases doutrinárias kardecianas.

REVISTA "GRANDES MÉDIUNS"

A fase dúbia do "movimento espírita" está em declínio, mas não irá desaparecer. Ela talvez cumpra um papel menor, quando o "espiritismo" brasileiro assumir de vez o neo-roustanguismo, embora sem citar um pingo de "i" do nome de Jean-Baptiste Roustaing.

Mesmo assim, a fase dúbia é, certamente a mais popular do "movimento espírita", por causa de seu apelo quase popularesco de romances "espíritas" que parecem novelas da TV, além dos naturais apelos igrejistas herdados da Igreja Católica e um sensacionalismo esotérico que permite evocar tendenciosamente personalidades científicas e forjar até profetismo.

Só que as contradições se tornam cada vez mais evidentes e mais um veículo apresenta tais deslizes. A revista Grandes Médiuns, da Editora Escala, que tem o "médium" João de Deus na capa, mas apresenta também uma foto de Chico Xavier e uma contraditória citação de nomes, já que José Herculano Pires, um dos poucos espíritas autênticos no Brasil, aparece ao lado dos grandes deturpadores, como Divaldo Franco.

Evidentemente, um mercado editorial assim é muito pouco confiável. São revistas que vivem mais de sensacionalismo do que de transmissão de conhecimento. Informam alguma coisa, mas misturam teses sensacionalistas e não são feitos por gente especializada. E, quando o Brasil vive o próprio problema do status quo, quando os "especialistas" da tecnocracia, do meio jurídico, da grande imprensa etc, mostram seus graves deslizes, isso se complica mais ainda.

A revista sinaliza o último apelo de "mediunidade espírita" dentro do marketing que mistura igrejismo, suposta filantropia e "culto à personalidade" ("virtude" muito comum nos "médiuns" brasileiros), envolvendo agora João de Deus, que, embora idoso, é a "última aposta" do "movimento espírita" com Chico Xavier já morto e Divaldo Franco beirando os 90 anos de idade.

Só que João de Deus, na verdade João Teixeira de Faria, o "médium" de Abadiânia, Goiás, é latifundiário, foi capa da revista Veja (que reprova tudo que é ativismo social, se a publicação exalta "filantropos" é porque tem alguma coisa estranha aí), é latifundiário e, "médium cirúrgico", se recusou a fazer auto-cirurgia quando estava sofrendo de câncer. Nem para receber o espírito do dr. Leonid Rogozov, que havia feito uma auto-cirurgia gravíssima há 55 anos?

A revista não deixará marca alguma e é apenas mais um apelo desesperado para salvar o "movimento espírita", cuja crise se agrava cada vez mais, sobretudo pelo caso da pediatra de Rondonópolis. Foi o crime dela, de usar a "moral espírita" para recusar atendimento a uma criança, que mostrou a péssima escola moral do "espiritismo" brasileiro e expôs as sérias contradições da doutrina que só evoca Allan Kardec no nome, mas se afasta dele no conteúdo.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Brasil, "Coração do Mundo": uma ideia fascista?


Temos que ter muitíssimo cuidado quando enumeramos um país como "centro" de qualquer coisa. Mesmo com um discurso muito bonito, pode-se abrir caminho para a tirania, para a opressão e para o genocídio, por mais que as teorias tentem desmentir tais ameaças.

A ideia de Brasil como "Coração do Mundo e Pátria do Evangelho", que inspirou o livro escrito a quatro mãos por Francisco Cândido Xavier e Antônio Wantuil de Freitas, mas atribuído tendenciosamente ao espírito de Humberto de Campos - que nunca escreveria um livro desses e ainda teve um trecho de um livro cômico (!) plagiado na "obra espiritual" - , é bastante perigosa.

Oficialmente, o discurso do "coração do mundo" e "pátria do Evangelho" é maravilhoso. Fala-se de um país que "liderará o mundo" na sua missão de "transmitir a fraternidade e a solidariedade cristã", se tornando o "paraíso do esclarecimento, do progresso e da união dos povos".

Mas, como diz o ditado popular, "falar é fácil". Afinal, o Império Romano, a partir do comando da parte oriental pelo imperador Constantino, também se valeu das "melhores intenções" de propagar a supremacia católica na Idade Média. Também havia promessas de "esclarecimento, progresso e solidariedade", mesmo dentro de um contexto bem mais grosseiro do que o dos dias atuais.

Outro ditado também deve ser lembrado: "de boas intenções, o inferno está cheio". O problema não é um império movido por uma "doutrina superior", com uma promessa de "união, paz e solidariedade", com propósitos aparentemente "positivos" e "libertadores", mas pelo "outro lado". O problema é a barreira a ser combatida, e aí é que aparece o lado mais sombrio.

O Catolicismo medieval do Império Romano também se apoiou das mesmas promessas. Tanto que seu propósito era propagar mundialmente a "religião do Cristo", aparentemente só agindo para proteger um sistema de valores ligado a promover "a paz, a solidariedade e o amor ao próximo".

Mas, para que isso desse resultado, era preciso combater o "outro lado". Os hereges, pessoas que se recusavam a compartilhar da crença católica, eram perseguidos, condenados à morte sob diversas formas e massacrados de maneira criminosa e desumana, e o Catolicismo medieval realizava verdadeiros banhos de sangue que dizimaram multidões em nome da "proteção da Igreja de Jesus Cristo". Verdadeiros anti-cristos eram feitos "em nome do Cristo".

Isso não vinha no discurso de lançamento. Além disso, caso equivalente quase se consolidou com o nazismo de Adolf Hitler, de traumática lembrança, que também se valeu de "boas coisas", dentro do contexto catártico de uma Alemanha politicamente castigada pelo Tratado de Versalhes, assinado depois do fim da Primeira Guerra Mundial e que pôs o país europeu em "maus lençóis".

Os propósitos de "raça superior", "raça pura" e tudo o mais eram "positivos" para o contexto de uma boa parcela de alemães. E para que isso se realizasse criou-se uma hostilidade a outros povos, principalmente judeus, criando um holocausto que provocou uma das mais sanguinárias tragédias da história do século XX. O nazi-fascismo teve que ser combatido na Segunda Guerra Mundial por uma aliança provisória dos EUA e Grã-Bretanha com a URSS para que se evitasse sua expansão.

O que se teme com o "espiritismo" e sua ideia de Brasil como "coração do mundo" e "pátria do Evangelho" é que todo esse discurso de "fraternidade e amor" seja reforçado pela criminalização do "outro lado", o que certamente nunca será assumido pelos "espíritas", que, com seu balé de "lindas palavras", nunca demonstrarão "más intenções".

Mas o "espiritismo" já se mostrou cruel em muitos momentos. O próprio Chico Xavier, tão "puro" e "iluminado", já fez acusações cruéis contra as vítimas do incêndio em um circo em Niterói, defendeu a ditadura militar durante sua fase mais repressiva e caluniou os amigos de Jair Presente quando eles duvidaram da "psicografia" do anti-médium mineiro.

Os palestrantes "espíritas" ultimamente estão pregando ideias da Teologia do Sofrimento, a mesma que prevaleceu no Catolicismo medieval e que era uma apologia à desgraça dos sofredores, uma espécie de holocausto teológico, no qual o acúmulo de desgraças era "um atalho seguro" para alguém se chegar ao "Céu" (os "espíritas" falam em "bênçãos eternas da vida futura").

Dois dos ídolos católicos foram adotados pelos "espíritas". Um, o perverso padre Manuel da Nóbrega, que certa vez apoiou o assassinato de um herege, reapareceu na forma de Emmanuel, o "mentor" de Chico Xavier. Outra é a Madre Teresa de Calcutá, considerada "santa" mas que, em seu currículo, incluiu maus tratos aos pobres e doentes que ela alojava em suas "casas de caridade", expostos à contaminação de seringas sujas e doenças graves e viviam na fome e sob a sujeira.

Portanto, são ícones católicos associados a perversidades que, no entanto, os "espíritas", que já deturpam violentamente o legado de Allan Kardec, admiram. Isso pode dar um sinal amargo sobre o que o "espiritismo" pode fazer com a humanidade se o Brasil virar um país "central" destinado a promover a "evangelização da humanidade".

Com certeza, o projeto "Brasil Coração do Mundo e Pátria do Evangelho" é uma teocracia. E seus postulados são claramente influenciados, não em livros como A Gênese de Allan Kardec, mas o tenebroso Os Quatro Evangelhos de Jean-Baptiste Roustaing.

O próprio livro do pseudo-Humberto de Campos remete à obra de Roustaing, de tal forma que Chico Xavier cita na obra o rival de Kardec abrasileirando o prenome como "João Batista". Virou João Batista Roustaing. Mas, como que por hipocrisia, Chico Xavier se declarou "envergonhado" pela presença de Roustaing no livro Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho.

Xavier adaptou bem o roustanguismo, mas tinha a maior vergonha em se assumir seguidor de Roustaing, a exemplo do atual presidente da República, Michel Temer, que se esquece que boa parte do projeto "Ponte para o Futuro", com sua PEC dos Gastos Públicos e as reformas trabalhista, previdenciária e educacional (ensino médio) são heranças explícitas das "pautas-bombas" do ex-deputado e hoje detento Eduardo Cunha.

Daí o sentido perigoso de uma supremacia religiosa simbolizada por um país. O problema não é o lado "positivo", da "solidariedade, paz e fraternidade", mas do que representarão as barreiras a serem destruídas para se manter o projeto político-religioso.

O Império Romano tinha os "hereges" e o nazismo, os judeus. Nada disso estava no roteiro quando tais supremacias eram apenas projetos. É muito fácil os "espíritas" dizerem que o "outro lado" será "combatido" pelo "perdão e misericórdia", e que, em tese, haverá "apenas tolerância e respeito humano". Mas nada impede que atrocidades venham no caminho.

Afinal, em tempos de convulsões sociais de tudo quanto é lado, e uma movimentação reacionária que se utiliza de símbolos do nacionalismo brasileiro (camisa da CBF, bandeira brasileira, lema "ordem e progresso" e evocações "à Pátria Amada"), é bom tomarmos muito cuidado, porque supremacias político-religiosas são sempre perigosas e podem gerar graves danos à humanidade, por mais que se sirvam de "causas nobres". De "boas intenções", o umbral está cheio.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

"Espiritismo" virou um mercado das "belas palavras"


Infelizmente, o "espiritismo"  virou um "mercadão das palavras". Mensagens piegas, exageradamente adocicadas, as tais "palavras de amor" que servem de entretenimento para desocupados, que, quando muito, só agem na caridade paliativa que "ajuda o próximo" sem mexer nas estruturas socialmente injustas que existem hoje.

"Ajude sem mexer no privilégio dos remediados", essa é a "lei de caridade" dos "espíritas", mais distantes de Allan Kardec e cada vez mais próximos do imperador romano Constantino. O "espírito do tempo" do Brasil de Michel Temer condisse com o reacionarismo das mídias sociais, quando os midiotas glorificam Francisco Cândido Xavier como "ícone máximo da caridade".

Nesse malabarismo discursivo, a ideia de bondade foi rebaixada a um subproduto da atividade religiosa. Num mundo em que a violência é banalizada e socialmente aceita, em que até feminicidas conjugais viram "bons partidos" para outras famílias indicarem a suas filhas, ser bondoso se limita apenas ao rótulo da crença religiosa de sua escolha.

E tudo isso só para temperar com algum "trabalho" o circo malabarista das palavras bonitas e bem organizadas. Palavras perfumadas, com gosto de mel, que fazem as pessoas chorarem. Fundos musicais relaxantes, mas extremamente piegas e até cafonas. Memes com os ídolos religiosos inseridos em paisagens floridas ou em céus azuis de pequenas nuvens branquinhas e sol radiante.

Tudo virou um mercado de "belas palavras", mas também um esforço para o palestrante "espírita" ficar sempre com a verdade, baseado na sua ilusão religiosa de que a ideia da verdade absoluta se apoia em três verbetes: "Deus, Cristo e Caridade", o pretexto roustanguista que norteia até hoje o "espiritismo" igrejista de hoje.

A postura dúbia dos últimos 40 anos, em que se permite o igrejismo mesmo com toda a roupagem falsamente científica, forjando um "kardecismo" pretensamente "autêntico", faz com que esse espetáculo da palavra, do discurso empolado do qual Divaldo Franco é um dos exemplos mais famosos, permaneça mostrando seu show de pirotecnias gramaticais.

A Teologia do Sofrimento, que comprovadamente é o postulado maior do "espiritismo" brasileiro - Chico Xavier deixou explícito isso, com suas próprias palavras, embora não assumisse, no discurso, defender essa ideologia - , é servida ao público "espírita" dissolvida na água com açúcar das boas palavras, das lindas mensagens que, em que pese o cativante desfile dos belíssimos vocábulos, trazem o vazio da incoerência e da ilógica e o gosto amargo do conservadorismo ideológico.

JESUS FICARIA ENVERGONHADO

Jesus de Nazaré ficou inquietado quando, em um templo, ele viu comerciantes gritando normalmente, chamando os fregueses a comprar seus produtos. O episódio foi superestimado e distorcido pela Igreja Católica, que narrou uma suposta reação de Jesus chicoteando os comerciantes só por eles serem os "vendilhões do templo".

O que Jesus fez foi apenas bater o chicote na parede e derrubar alguns objetos, chamando a atenção do público em volta. Ele não agiu em violência, mas reprovou a comercialização de produtos num ambiente como aquele, em que pessoas se recolhem para meditação.

Séculos depois, são os "vendilhões do templo" que usam Jesus para tirar vantagem de si mesmos. Os católicos, que canonizaram a perversa Madre Teresa de Calcutá - capaz de atrocidades como permitir a reciclagem de seringas infectadas que só eram lavadas com água suja de torneira, algo que se nivela ao que toxicômanos costumam fazer entre si - visando o turismo em torno da "santa", são um exemplo disso.

Mas há os evangélicos, sobretudo os neopentecostais, que crescem sob o aparato da estrutura midiática e empresarial, montada a partir de dízimos colhidos de seus fiéis diante da persuasão chorosa e gritada de seus pastores, que praticamente cometem estelionato disfarçado de fé religiosa.

O "movimento espírita", única seita religiosa que passa imune de qualquer investigação jurídica séria - os dois únicos critérios para a impunidade e imunidade pessoal são ser do PSDB ou ser "espírita"; sendo qualquer uma das coisas, alguém pode "fazer das suas" que ninguém mexe - , não deixa de cometer irregularidades e delitos muitíssimo graves.

O tempo todo acontecem verdadeiras demonstrações de falsidade ideológica, com supostos médiuns usurpando os mortos para produzir imagens que os próprios "psicógrafos" ou "psicófonos" criam da própria mente e, claramente, destoam severamente dos aspectos pessoais originais dos mortos.

Mesmo figuras dotadas de muito status como Divaldo Franco e Chico Xavier, na verdade, estão incluídos nessa lista amarga. Os dois nunca passaram de católicos neo-medievais que se autopromoveram com a novidade de Allan Kardec. E, como "médiuns", revelaram sua incompetência quando trouxeram para o público obras supostamente mediúnicas que nunca passaram de um reles marketing religioso no qual o "morto" da ocasião era o garoto-propaganda.

Isso é gravíssimo e deveria causar preocupação séria por parte da sociedade e fazer juristas atuarem em mutirão para punir os "vendilhões das mensagens do além". Mas se até os herdeiros de Humberto de Campos - vítima da mais aberrante usurpação de um morto cometida pelo "movimento espírita" - caíram na lábia do sedutor Chico Xavier, e toda apropriação indébita é válida em nome do "trabalho da caridade", então o Brasil nunca sai dessa bagunça em que escolhe permanecer.

Se algum sequestrador, usando um falsete imitando um parente seu, lhe telefonasse falando mensagens positivas, palavras de amor, anunciasse obras de caridade e adotasse um tom de dicção paternal, você, leitor, acreditaria nesse trote? Isso é só uma amostra de como o mercado das "belas palavras" pode se tornar uma perigosa armadilha.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Ideia de "bondade" está presa e subordinada a velhos paradigmas moralistas e institucionais

A SOPA MATA A FOME, MAS NÃO MUDA O MUNDO.

Dá para entender por que houve a retomada ultraconservadora no Brasil. Estamos apegados a velhos paradigmas de austeridade, prestígio e competência, de tal forma que aceitamos que nossos "heróis" possam romper princípios éticos e causar danos aqui e ali, diante de alegações que variam do pragmatismo aos chamados "males necessários".

Nosso inconsciente acaba sendo um sótão enferrujado, cheio de bolores e entulhos dos quais nos recusamos a jogar fora. São entulhos que lembram tempos de esplendor passado, "heróis" antigos que gozavam de muito prestígio, discursos que causavam comoção, ídolos tecnocráticos que "sabiam de tudo", velhas hierarquias, rigorosas respeitabilidades.

O apego ao "velho", do qual o paradigma mais conhecido da sociedade é o quadro social do Brasil de 1974-1976, ao mesmo tempo austero e relativamente "democrático", dotado de "liberdade" mas sempre mantendo as hierarquias e os valores conservadores.

É a época que as elites consideram um período "ideal" para o Brasil e, mesmo nos governos do PT havia pessoas sonhando com esse tempo, uma nostalgia que tomava de intelectuais culturais a empresários do mercado financeiro. O governo de Michel Temer, cujo projeto político remete a um Ernesto Geisel "andando para trás" (não em direção à redemocratização, mas à radicalização ditatorial), representa bem essa nostalgia doentia que toma conta de nossas elites.

Dentro desses paradigmas conservadores, temos uma ideia equivocada de "bondade" e "caridade". Qualidades que nunca são vistas como espontâneas - embora se faça de conta que elas "assim são" - , mas submetidas e materializadas numa roupagem institucional, no caso religiosa. É como se essas duas virtudes fossem, na verdade, subprodutos de uma religião.

FILANTROPIA ONDE O "BENFEITOR" SE SOBREPÕE AO "BENEFÍCIO"

É uma ideia bastante restritiva, embora as pessoas sintam um deslumbramento com um movimento religioso que explora a "bondade" e a "caridade". Combinando valores moralistas com o saudosismo das estórias infantis, de fadas e princesas, as pessoas que veem a "bondade" e a "caridade" como atividades religiosas e não como virtudes naturalmente humanas, elas acabam expressando preconceitos e visões equivocadas dessas qualidades.

Daí que o propagandismo religioso sempre mostra instituições aparentemente filantrópicas nas quais o "benfeitor" se sobrepõe ao "benefício". Pouco importa o número de ajudados ou o resultado dos benefícios alcançados, se é expressivo ou não. O prestígio religioso do "benfeitor" ou "filantropo" é que vale, o "benfeitor" está acima do "benefício", ele pode ajudar só um punhado de gente que é glorificado do mesmo jeito.

É por isso que vemos o "mico" dos adeptos de Divaldo Franco, que definem ele como "maior filantropo do país" mas que só beneficia menos de 1% da população brasileira. As pessoas que arrumavam desculpas para continuar glorificando o anti-médium baiano - entusiasta de bobagens anti-kardecianas como "crianças-índigo" - colocavam sempre o "benfeitor" acima dos "benefícios".

"Não importa quantos benefícios, importa é o benfeitor", defendem essas pessoas, fascinadas com o prestígio religioso do "filantropo". Isso garante carteiradas morais e religiosas aqui e ali, mas revela também que as ideias de "bondade" e "caridade" podem revelar também vaidades, endeusamentos e outros deslumbramentos, que inspiram mais fanatismo do que energias morais elevadas.

Um fanático divaldista chegou mesmo a dizer que "já é bom demais" a Mansão do Caminho, sustentada por Divaldo, ensinar a "ler, escrever e trabalhar", sem perceber os limites ideológicos que hoje são identificados pela Escola Sem Partido, que, apesar de ser um projeto evangélico, mostra aspectos identificados na "pedagogia" de Divaldo, no qual se estimulam as fantasias religiosas e se desencoraja o debate da realidade.

A própria atitude de endeusar o "filantropo" de ocasião já diminui os méritos de bondade e caridade. A ajuda aos necessitados perde parte de sua importância e, na prática, as virtudes acabam servindo de publicidade do "benfeitor". Gera mais vaidade que bondade. Isso macula a caridade, porque ela se serve e se subordina ao prestígio religioso de alguém, tornando-se a sua estratégia de marketing.

Para entender isso, vamos entender um antigo costume de campanhas eleitorais: o oferecimento de cestas básicas e donativos por candidatos a cargos políticos. São atitudes aparentemente generosas, mas elas se constituem em crime eleitoral porque tais "bondades" revelam o caráter propagandista do candidato que se promove às custas da "ajuda ao próximo".

Temos que admitir que Divaldo Franco, assim como Francisco Cândido Xavier, foram dois dos mais traiçoeiros deturpadores da Doutrina Espírita no Brasil. Eles empastelaram os postulados de Kardec da forma mais irresponsável e proposital, pois estavam a serviço de uma orientação roustanguista da FEB, e isso não se pode negar, porque está claramente escrito em seus livros.

Os brasileiros se esqueceram dos alertas do espírito Erasto, que no tempo de Allan Kardec - que incluiu esses avisos em O Livro dos Médiuns - , alertou que espíritos e supostos médiuns mistificadores poderiam trazer coisas boas, mas era aí que se recomendava maior cautela, porque isso servia de gancho para lançar ideias levianas. Erasto disse com estas palavras, na tradução correta de José Herculano Pires:

"Os médiuns levianos, pouco sérios, chamam, pois, os Espíritos da mesma natureza. É por isso que as suas comunicações se caracterizam pela banalidade,a frivolidade, as idéias truncadas e quase sempre muito heterodoxas, falando-se espiritualmente. Certamente eles podem dizer e dizem às vezes boas coisas, mas é precisamente nesse caso que é preciso submetê-las a um exame severo e escrupuloso. Porque, no meio das boas coisas, certos Espíritos hipócritas insinuam com habilidade e calculada perfídia fatos imaginados, asserções mentirosas, como fim de enganar os ouvintes de boa fé".

Os brasileiros seguiam o caminho inverso, preferindo a falácia de que "certamente eles podem cometer fraudes mediúnicas e lançar valores morais antiquados, mas é aí que se deve ter maior complacência, porque os supostos médiuns, mesmo os mais mistificadores, são bonzinhos e falam e escrevem belas palavras e mensagens comoventes". Um anti-Erasto, diga-se de passagem, bem ao gosto dos espíritos levianos que construíram as bases do "espiritismo" brasileiro.

Chegou-se ao cúmulo de ver a ideia de "amor e bondade" como cúmplices da fraude e da mistificação, como se houvesse uma tola crença de que uma "mentira de amor" não dói e, por isso, a mentira pode virar "verdade" por causa do "amor ao próximo" e das "lições de fé e esperança". Isso, na prática, é criar uma brecha para que atitudes desonestas e levianas possam ser consideradas "elevadas" apenas porque usam a roupagem das "belas palavras" e das "mensagens edificantes".

Por exemplo, se um suposto médium cria mensagens da própria mente, se utilizando de um nome ilustre - tal qual Chico Xavier usando Humberto de Campos - , e nessas obras ele capricha em "mensagens de amor", "palavras lindas" e "lições edificantes", oferecendo tais trabalhos como suposta consolação para pessoas sofredoras.

Alguém desprezaria o fato de que isso é uma desonestidade? O fato de usar as "mensagens edificantes" e as "palavras de amor" para enganar as pessoas nem de longe pode ser considerada uma atitude nobre e elevada. Afinal, não é a desonestidade que se dobra à força da bondade e do amor, mas é a bondade e o amor que se tornam fachada para atitudes desonestas que deveriam ser vistas como levianas, traiçoeiras e danosas para a integridade da pessoa humana.

São, portanto, imoralidades. O amor não pode ser imoral, se uma obra engana alguém, ela não pode representar bondade porque mostra as tais "mensagens de amor". E, se falamos no caso das doações de alimentos e bens nas campanhas eleitorais, consideradas crime, devemos nos lembrar também dos trotes telefônicos dos sequestradores e estelionatários.

Alguém acharia lindo, por exemplo, se recebesse um trote telefônico no qual alguém fala com um tom amoroso, ou usa o falsete imitando um ente querido da vítima, e na comunicação fossem mencionadas "mensagens positivas" e apelos para "doar dinheiro para a caridade"? E se for um estelionatário se passando pelo sequestrador? Ou um sequestrador que matou a vítima, imita sua voz pelo telefone e pede o dinheiro do resgate?

Nessas situações se percebe o quanto alegações de "amor e bondade" não adiantam como atenuantes de alguma perversidade. E dá para entender o quanto Chico Xavier nunca passou de um espertalhão de fala macia e organizador da mais habilidosa coreografia de palavras atraentes, um ilusionista que sempre atuou para persuadir as pessoas a endeusá-lo.

Chico Xavier também personificou o mais bem sucedido caso de arrivismo pessoal e simbolizou o mais perfeito caso de impunidade que se pode dar a uma pessoa que cometeu um crime, no caso o de falsidade ideológica, usando os nomes de pessoas mortas, enganando e explorando as fraquezas emocionais dos sofredores e expondo ao sensacionalismo as tragédias familiares, em claro desrespeito às suas dores e angústias, que deveriam ser sofridas na privacidade.

O próprio fato de Chico Xavier ter seduzido o cético Humberto de Campos Filho, mostrando "obras de caridade" para atrair sua confiança, revela o quanto a "caridade" religiosa também tem o apelo das "cestas básicas" da campanha eleitoral. O uso da "bondade" e da "caridade" como subprodutos da religião serve à vaidade de supostos benfeitores, que se colocam acima do benefício atingido, geralmente muito abaixo do esperado.

Portanto, é algo para as pessoas analisarem e perceberem. Quando a "caridade" coloca o suposto benfeitor acima do benefício, é bom desconfiar. Trata-se de um recurso para alimentar a vaidade de pretensos filantropos, que buscam a glorificação pessoal às custas de ações meramente paliativas, cujos resultados são ínfimos.

Tão ínfimos que as regiões "protegidas" por Chico e Divaldo, Uberaba e o bairro de Pau da Lima, em Salvador, são redutos de miséria e violência em índices bastante preocupantes. Se a "caridade" dos dois adiantasse mesmo, isso não teria acontecido.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Sangue de São Januário e a "profecia" da Data-Limite


Em tempos de retomada ultraconservadora, sobretudo no Brasil, além da emergência de fenômenos dramáticos como a pós-verdade e as convulsões sociais - isso para não dizer dos ataques terroristas e da guerra civil que, por ora, atinge a cidade de Aleppo, na Síria - , uma crença católica, embora fantasiosa, cria uma perspectiva sombria que coincide com o contexto realista de hoje.

Trata-se da crença do Sangue de São Januário. Diz a lenda da Igreja Católica que o bispo Januário de Benevento, morto em 305 por decapitação depois de se opor à tirania do Império Romano, teve seu sangue recolhido por um idoso, guardado num frasco de água enchido por uma mulher, e preservado num relicário na Catedral de Nápoles, na Itália, terra do sacerdote.

Três datas são atribuídas anualmente pela Igreja Católica para o ritual da liquefação, quando o sangue armazenado se torna líquido. Uma é 19 de setembro, outra 16 de dezembro e, antes de ambas, o primeiro domingo de maio.

Segundo os católicos, a liquefação tem que ser realizada para que a humanidade na Terra tivesse um mínimo de sossego possível, ou seja, esteja livre de perigos de alta gravidade e grandes proporções. Se caso não ocorre a liquefação, há um risco iminente de catástrofes e desastres de todo tipo.

No último dia 16, o papa Francisco I esteve em Nápoles para a cerimônia, como reza (olha o trocadilho) a tradição. A liquefação não aconteceu e, uma vez divulgado o resultado, os católicos passaram a ficar apreensivos, acreditando que uma grande catástrofe vai acontecer em 2017.

Sabe-se que 2016 foi um ano sombrio, trágico, de retomada ultraconservadora que fez com que boa parte do mundo, sobretudo o Brasil, passasse a viver um cotidiano kafkiano, em que Dilma Rousseff, ou talvez Dilma R., se sentiu como o Josef K. de O Processo, condenada sem ter cometido crime.

No entanto, 2017 tende a ser bem mais trágico, sobretudo quando as elites, no Brasil, retomaram seus privilégios com apetite redobrado e o desastrado presidente da República, Michel Temer, protegido pela mídia e representante dos interesses do "deus" mercado, propõe medidas de clara exclusão social, embora os noticiários da grande mídia veiculem mentiras que coloquem as nefastas PEC do Teto e as reformas trabalhista, previdenciária e educacional como "positivas".

A crença no Sangue de São Januário pode ser fantasiosa, mas é compreensível porque ela é uma crença cultural dos católicos. Mas confronta-se essa crença com a "profecia" da Data-Limite trazida por Francisco Cândido Xavier e se resulta numa interpretação nada favorável aos "espíritas".

INDECISÃO

Os partidários da tese da "regeneração" no "espiritismo" brasileiro não conseguem decidir coisa alguma, preocupados em criar palpites de datas nos quais a realidade desmente frontalmente, como num jogo em que os "espíritas" tentam lutar contra o tempo para impor suas convicções messiânicas em detrimento de ocorrências realistas.

Isso é típico do "espiritismo" da FEB, de Chico Xavier, de Divaldo Franco, de "poetas alegres" etc. Mas Allan Kardec rejeita tudo isso, por não ver coerência em prever datas determinadas sobre ocorrências futuras, alertando haver nisso um grave risco de mistificação.

Os "espíritas" já determinaram datas para a "regeneração". Disseram que era em 1982, 2000, 2010, 2012. Agora apostam em 2019, ou então 2052 ou 2057. Não se decidem e até como se dará a "regeneração" é bastante controverso, pois uns dizem que ocorrerá "sem conflitos", outros afirmam que ocorrerá "com muitas dificuldades".

Tentando puxar a brasa para sua sardinha, os "espíritas" tentam pregar um otimismo exagerado, mesmo quando admitem a ocorrência de fatos sombrios. O Sangue de São Januário, ainda que seja uma fantasia católica, pelo menos, na sua não liquefação, trouxe uma perspectiva bem mais realista, e que coincide com as tendências que acontecem no nosso mundo.

Vale lembrar que a não liquefação coincidiu com ocorrências que vieram depois, como o início da Segunda Guerra Mundial, a entrada da Itália no confronto e a sua subordinação ao império nazista. Outras ocorrências muito trágicas como um terremoto de grandes proporções em Irpínia, no centro da Itália, também estão associadas, pelos católicos, à não liquefação.

A situação trágica de 2016, com os falecimentos massivos de tantos artistas e intelectuais de valor - como David Bowie e Umberto Eco - , pode se repetir em 2017, embora também haja as baixas de uma plutocracia ao mesmo tempo gananciosa, autoconfiante em excesso e imprudente. O que se sabe é que ela também pagará o preço caro pelos retrocessos forçados e pela busca voraz de recuperar e ampliar privilégios às custas dos sacrifícios de muitos.