segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Ideia de "bondade" está presa e subordinada a velhos paradigmas moralistas e institucionais

A SOPA MATA A FOME, MAS NÃO MUDA O MUNDO.

Dá para entender por que houve a retomada ultraconservadora no Brasil. Estamos apegados a velhos paradigmas de austeridade, prestígio e competência, de tal forma que aceitamos que nossos "heróis" possam romper princípios éticos e causar danos aqui e ali, diante de alegações que variam do pragmatismo aos chamados "males necessários".

Nosso inconsciente acaba sendo um sótão enferrujado, cheio de bolores e entulhos dos quais nos recusamos a jogar fora. São entulhos que lembram tempos de esplendor passado, "heróis" antigos que gozavam de muito prestígio, discursos que causavam comoção, ídolos tecnocráticos que "sabiam de tudo", velhas hierarquias, rigorosas respeitabilidades.

O apego ao "velho", do qual o paradigma mais conhecido da sociedade é o quadro social do Brasil de 1974-1976, ao mesmo tempo austero e relativamente "democrático", dotado de "liberdade" mas sempre mantendo as hierarquias e os valores conservadores.

É a época que as elites consideram um período "ideal" para o Brasil e, mesmo nos governos do PT havia pessoas sonhando com esse tempo, uma nostalgia que tomava de intelectuais culturais a empresários do mercado financeiro. O governo de Michel Temer, cujo projeto político remete a um Ernesto Geisel "andando para trás" (não em direção à redemocratização, mas à radicalização ditatorial), representa bem essa nostalgia doentia que toma conta de nossas elites.

Dentro desses paradigmas conservadores, temos uma ideia equivocada de "bondade" e "caridade". Qualidades que nunca são vistas como espontâneas - embora se faça de conta que elas "assim são" - , mas submetidas e materializadas numa roupagem institucional, no caso religiosa. É como se essas duas virtudes fossem, na verdade, subprodutos de uma religião.

FILANTROPIA ONDE O "BENFEITOR" SE SOBREPÕE AO "BENEFÍCIO"

É uma ideia bastante restritiva, embora as pessoas sintam um deslumbramento com um movimento religioso que explora a "bondade" e a "caridade". Combinando valores moralistas com o saudosismo das estórias infantis, de fadas e princesas, as pessoas que veem a "bondade" e a "caridade" como atividades religiosas e não como virtudes naturalmente humanas, elas acabam expressando preconceitos e visões equivocadas dessas qualidades.

Daí que o propagandismo religioso sempre mostra instituições aparentemente filantrópicas nas quais o "benfeitor" se sobrepõe ao "benefício". Pouco importa o número de ajudados ou o resultado dos benefícios alcançados, se é expressivo ou não. O prestígio religioso do "benfeitor" ou "filantropo" é que vale, o "benfeitor" está acima do "benefício", ele pode ajudar só um punhado de gente que é glorificado do mesmo jeito.

É por isso que vemos o "mico" dos adeptos de Divaldo Franco, que definem ele como "maior filantropo do país" mas que só beneficia menos de 1% da população brasileira. As pessoas que arrumavam desculpas para continuar glorificando o anti-médium baiano - entusiasta de bobagens anti-kardecianas como "crianças-índigo" - colocavam sempre o "benfeitor" acima dos "benefícios".

"Não importa quantos benefícios, importa é o benfeitor", defendem essas pessoas, fascinadas com o prestígio religioso do "filantropo". Isso garante carteiradas morais e religiosas aqui e ali, mas revela também que as ideias de "bondade" e "caridade" podem revelar também vaidades, endeusamentos e outros deslumbramentos, que inspiram mais fanatismo do que energias morais elevadas.

Um fanático divaldista chegou mesmo a dizer que "já é bom demais" a Mansão do Caminho, sustentada por Divaldo, ensinar a "ler, escrever e trabalhar", sem perceber os limites ideológicos que hoje são identificados pela Escola Sem Partido, que, apesar de ser um projeto evangélico, mostra aspectos identificados na "pedagogia" de Divaldo, no qual se estimulam as fantasias religiosas e se desencoraja o debate da realidade.

A própria atitude de endeusar o "filantropo" de ocasião já diminui os méritos de bondade e caridade. A ajuda aos necessitados perde parte de sua importância e, na prática, as virtudes acabam servindo de publicidade do "benfeitor". Gera mais vaidade que bondade. Isso macula a caridade, porque ela se serve e se subordina ao prestígio religioso de alguém, tornando-se a sua estratégia de marketing.

Para entender isso, vamos entender um antigo costume de campanhas eleitorais: o oferecimento de cestas básicas e donativos por candidatos a cargos políticos. São atitudes aparentemente generosas, mas elas se constituem em crime eleitoral porque tais "bondades" revelam o caráter propagandista do candidato que se promove às custas da "ajuda ao próximo".

Temos que admitir que Divaldo Franco, assim como Francisco Cândido Xavier, foram dois dos mais traiçoeiros deturpadores da Doutrina Espírita no Brasil. Eles empastelaram os postulados de Kardec da forma mais irresponsável e proposital, pois estavam a serviço de uma orientação roustanguista da FEB, e isso não se pode negar, porque está claramente escrito em seus livros.

Os brasileiros se esqueceram dos alertas do espírito Erasto, que no tempo de Allan Kardec - que incluiu esses avisos em O Livro dos Médiuns - , alertou que espíritos e supostos médiuns mistificadores poderiam trazer coisas boas, mas era aí que se recomendava maior cautela, porque isso servia de gancho para lançar ideias levianas. Erasto disse com estas palavras, na tradução correta de José Herculano Pires:

"Os médiuns levianos, pouco sérios, chamam, pois, os Espíritos da mesma natureza. É por isso que as suas comunicações se caracterizam pela banalidade,a frivolidade, as idéias truncadas e quase sempre muito heterodoxas, falando-se espiritualmente. Certamente eles podem dizer e dizem às vezes boas coisas, mas é precisamente nesse caso que é preciso submetê-las a um exame severo e escrupuloso. Porque, no meio das boas coisas, certos Espíritos hipócritas insinuam com habilidade e calculada perfídia fatos imaginados, asserções mentirosas, como fim de enganar os ouvintes de boa fé".

Os brasileiros seguiam o caminho inverso, preferindo a falácia de que "certamente eles podem cometer fraudes mediúnicas e lançar valores morais antiquados, mas é aí que se deve ter maior complacência, porque os supostos médiuns, mesmo os mais mistificadores, são bonzinhos e falam e escrevem belas palavras e mensagens comoventes". Um anti-Erasto, diga-se de passagem, bem ao gosto dos espíritos levianos que construíram as bases do "espiritismo" brasileiro.

Chegou-se ao cúmulo de ver a ideia de "amor e bondade" como cúmplices da fraude e da mistificação, como se houvesse uma tola crença de que uma "mentira de amor" não dói e, por isso, a mentira pode virar "verdade" por causa do "amor ao próximo" e das "lições de fé e esperança". Isso, na prática, é criar uma brecha para que atitudes desonestas e levianas possam ser consideradas "elevadas" apenas porque usam a roupagem das "belas palavras" e das "mensagens edificantes".

Por exemplo, se um suposto médium cria mensagens da própria mente, se utilizando de um nome ilustre - tal qual Chico Xavier usando Humberto de Campos - , e nessas obras ele capricha em "mensagens de amor", "palavras lindas" e "lições edificantes", oferecendo tais trabalhos como suposta consolação para pessoas sofredoras.

Alguém desprezaria o fato de que isso é uma desonestidade? O fato de usar as "mensagens edificantes" e as "palavras de amor" para enganar as pessoas nem de longe pode ser considerada uma atitude nobre e elevada. Afinal, não é a desonestidade que se dobra à força da bondade e do amor, mas é a bondade e o amor que se tornam fachada para atitudes desonestas que deveriam ser vistas como levianas, traiçoeiras e danosas para a integridade da pessoa humana.

São, portanto, imoralidades. O amor não pode ser imoral, se uma obra engana alguém, ela não pode representar bondade porque mostra as tais "mensagens de amor". E, se falamos no caso das doações de alimentos e bens nas campanhas eleitorais, consideradas crime, devemos nos lembrar também dos trotes telefônicos dos sequestradores e estelionatários.

Alguém acharia lindo, por exemplo, se recebesse um trote telefônico no qual alguém fala com um tom amoroso, ou usa o falsete imitando um ente querido da vítima, e na comunicação fossem mencionadas "mensagens positivas" e apelos para "doar dinheiro para a caridade"? E se for um estelionatário se passando pelo sequestrador? Ou um sequestrador que matou a vítima, imita sua voz pelo telefone e pede o dinheiro do resgate?

Nessas situações se percebe o quanto alegações de "amor e bondade" não adiantam como atenuantes de alguma perversidade. E dá para entender o quanto Chico Xavier nunca passou de um espertalhão de fala macia e organizador da mais habilidosa coreografia de palavras atraentes, um ilusionista que sempre atuou para persuadir as pessoas a endeusá-lo.

Chico Xavier também personificou o mais bem sucedido caso de arrivismo pessoal e simbolizou o mais perfeito caso de impunidade que se pode dar a uma pessoa que cometeu um crime, no caso o de falsidade ideológica, usando os nomes de pessoas mortas, enganando e explorando as fraquezas emocionais dos sofredores e expondo ao sensacionalismo as tragédias familiares, em claro desrespeito às suas dores e angústias, que deveriam ser sofridas na privacidade.

O próprio fato de Chico Xavier ter seduzido o cético Humberto de Campos Filho, mostrando "obras de caridade" para atrair sua confiança, revela o quanto a "caridade" religiosa também tem o apelo das "cestas básicas" da campanha eleitoral. O uso da "bondade" e da "caridade" como subprodutos da religião serve à vaidade de supostos benfeitores, que se colocam acima do benefício atingido, geralmente muito abaixo do esperado.

Portanto, é algo para as pessoas analisarem e perceberem. Quando a "caridade" coloca o suposto benfeitor acima do benefício, é bom desconfiar. Trata-se de um recurso para alimentar a vaidade de pretensos filantropos, que buscam a glorificação pessoal às custas de ações meramente paliativas, cujos resultados são ínfimos.

Tão ínfimos que as regiões "protegidas" por Chico e Divaldo, Uberaba e o bairro de Pau da Lima, em Salvador, são redutos de miséria e violência em índices bastante preocupantes. Se a "caridade" dos dois adiantasse mesmo, isso não teria acontecido.

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