terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Mensagem de suposto Humberto de Campos foi forjada pela FEB
Miguel Timponi, advogado da FEB, havia acusado os herdeiros de Humberto de quererem faturar financeiramente com o legado do autor, enquanto alegava que o trabalho de Chico Xavier era uma "caridade".
Em seu livro A Psicografia Ante os Tribunais, Timponi mostra a mensagem supostamente atribuída a Humberto de Campos, extremamente tristonha e que reflete muito mais o caráter melindroso de Chico Xavier misturado com o tom enérgico de Wantuil, nada lembrando o estilo do autor de O Brasil Anedótico.
Esse texto, reproduzido abaixo, foi um apelo do suposto espírito de Humberto para criar comoção diante do episódio, mas o conteúdo mostra claramente que ele havia escrito em quatro mãos por Chico Xavier e por Antônio Wantuil de Freitas, o então presidente da FEB, vide o tom melancólico do primeiro se alternando com a agressividade do segundo. Vale conferir:
"Não desconheço minha pesada responsabilidade moral, no momento quando o sensacionalismo abre torrente de amargura em torno de minh'alma.
Recebeu-me a Federação Espírita Brasileira, generosamente, em seus labores evangélicos, publicou-me as páginas singelas de noticiarista desencarnado, concedendo-me o ingresso na Academia da Espiritualidade. E continuei conversando com os desesperados de todos os matizes, voluntariamente, como o hóspede interessado em valer-se da casa acolhedora.
Eis, porém, que comparecem meus filhos diante da justiça, reclamando uma sentença declaratória. Querem saber, por intermédio do Direito Humano, se eu sou eu mesmo, como se as leis terrestres, respeitabilíssimas embora, pudessem substituir os olhos do coração. Abre-se o mecanismo processual, e o escândalo jornalístico acende a fogueira da opinião pública. Exigem meus filhos a minha patente literária e, para isso, recorrem à petição judicial. Não precisavam, todavia, movimentar o exército dos parágrafos e atormentar o cérebro dos juízes. Que é semelhante reclamação para quem já lhes deu a vida da sua vida? Que é um nome, simples ajuntamento de sílabas, sem maior significação? Ninguém conhece, na Terra, os nomes dos elevados cooperadores de Deus, que sustentam as leis universais; entretanto são elas executadas sem esquecimento de um til.
Na paz do anonimato, realizam-se os mais belos e os mais nobres serviços humanos.
Quero, porém, salientar, nesta resposta simples, que meus filhos não moveram semelhante ação por perversidade ou má-fé. Conheço-lhes as reservas infinitas de afeto e sei pesar o quilate do ouro da carinhosa admiração que consagram ao pai amigo, distanciado do mundo. Mas que paisagem florida, em meio do mato inculto, estará isenta da serpe venenosa e cruel? É por isto que não observo esse problema triste, como o fariseu orgulhoso, e sim como o publicano humilhado, pedindo a bênção de Deus para a humana incompreensão.
Diante, pois, do complicado problema em curso, ajoelho-me no altar da fé, rogando a Jesus inspire os dignos juízes de minha causa, para que façam cessar o escândalo, em torno do meu Espírito, considerando que o próprio Salomão funcionasse nessa causa, ao encarar as dificuldades do assunto, teria, talvez, de imitar o gesto de Pilatos, lavando as mãos".
HUMBERTO DE CAMPOS (sic)
Observa-se que em determinados trechos há o estilo de Chico Xavier, enquanto em outros há o estilo de Antônio Wantuil de Freitas. Dá para notar que nada do estilo original de Humberto de Campos transparece, mesmo de longe, no referido texto, divulgado depois do desfecho do processo, em agosto de 1944.
O primeiro parágrafo, por exemplo, tem a cara de Chico Xavier. Já o segundo parece vir de Wantuil, ao passo que o terceiro parece um longo texto combinado entre os dois, num trecho em que se desqualifica qualquer necessidade de exigir identidade verídica das obras "espirituais" em questão.
Sim, porque o trecho "Que é um nome, simples ajuntamento de sílabas, sem maior significação?"é uma desculpa esfarrapada para se omitir a verdadeira identidade, e isso numa passagem chorosa que, no final do referido terceiro parágrafo, tem mais a cara de Chico Xavier.
A frase isolada do quarto parágrafo, "Na paz do anonimato, realizam-se os mais belos e os mais nobres serviços humanos", é rigorosamente igual às frases que Chico Xavier escreve em próprio punho e diz em suas entrevistas, estando portanto a anos-luz de distância do estilo pessoal de Humberto de Campos.
A mensagem, portanto, só valeu pelo tom sentimentalista que garante, até hoje, o carisma de Francisco Cândido Xavier que, mesmo 12 anos depois de falecido, torna-se conhecido por suas frases dóceis e pela atitude contraditória em que se atribui suposta superioridade a caraterísticas naturalmente medíocres, como a velhice frágil, a ignorância e a pobreza.
A mensagem, portanto, foi forjada pela FEB para comover as pessoas, já que observamos que o texto se aproxima mais dos estilos de Wantuil e Chico, que teriam elaborado o texto em conjunto, do que de Humberto de Campos, que com toda a certeza nem estava aí para Chico Xavier, temeroso com sua obsessão em explorar o nome e o prestígio do falecido escritor maranhense.
domingo, 21 de dezembro de 2014
O caso Humberto de Campos: quando Chico Xavier virou réu pela primeira vez
O escritor Humberto de Campos é um dos primeiros casos em que os líderes do "movimento espírita" brasileiro passaram a ser "donos dos mortos", tornando-se vítima, postumamente, da mais extrema obsessão do anti-médium Francisco Cândido Xavier.
Equivocadamente associado ao "movimento espírita", Humberto de Campos era ateu. Tendo nascido em 25 de outubro de 1886, na antiga cidade de Muritiba, no Maranhão, cidade que depois ganhou o nome do escritor, Humberto foi um expoente da poesia e prosa neo-parnasiana brasileira.
Ele foi um dos escritores mais prestigiados de seu tempo, e começou sua carreira em São Luís, no Maranhão, e depois viveu alguns anos no Pará. Depois passou a viver no Rio de Janeiro, se entrosando com os intelectuais da época, como Coelho Neto, Rui Barbosa e Olavo Bilac.
Quando morreu o outro amigo de Humberto, o escritor Emílio de Menezes, considerado então um satírico à altura de Gregório de Mattos, o maranhense decidiu concorrer para a Academia Brasileira de Letras.
A morte de Emílio ocorreu em 1918 e no ano seguinte Humberto é empossado em sua cadeira, n. 20, cujo patrono foi o autor do romance A Moreninha, Joaquim Manuel de Macedo, por indicação do fundador da cadeira, o diplomata Salvador de Mendonça, e hoje é ocupada pelo ex-jornalista de Manchete, Murilo Melo Filho.
Humberto depois se elegeu deputado federal pelo então Distrito Federal, em dois mandatos, só sendo cassado com a Revolução de 1930. Autor de diversos livros como Carvalhos e Roseiras (1923), O Brasil Anedótico (1927) e O Monstro e Outros Contos (1932), ele passou os últimos anos escrevendo suas memórias, lançando o primeiro volume em 1933, Memórias 1886-1900.
Humberto não viveu para completar o segundo volume, morrendo, já doente, ao sofrer uma síncope durante uma cirurgia, com apenas 48 anos de idade, em 05 de dezembro de 1934, e o que foi produzido até então foi publicado sob o título Memórias Inacabadas, de 1935.
A OBSESSÃO DE CHICO XAVIER
O anti-médium mineiro Francisco Cândido Xavier passou a sentir forte obsessão por Humberto de Campos depois que este escreveu uma resenha de duas partes sobre o livro Parnaso de Além-Túmulo, em 1932.
Com seu caraterístico humor, Humberto havia "elogiado" o trabalho de Xavier e sua primeira impressão aparentemente indicava reconhecer semelhanças entre as obras atribuídas aos autores mortos, incomodando apenas a concorrência dos poetas da Terra com os do mundo espiritual. Um trecho ilustra essa curiosa postura:
"O primeiro pensamento que assalta o leitor, antes de examinar o merecimento literário da obra, é a ideia de que, nem no outro mundo, estará livre dos poetas. A poesia é uma predestinação de tal modo fatal, irremediável, que a vítima não se livra dessa maldição nem, mesmo, depois da morte. Quem fez sonetos ou redondilhas neste planeta, está condenado a fazê-las em todos os pontos do espaço e da eternidade a que o leve o dedo divino. E sem mudar de estilo. E sem variar de temas. E sem modificação de ritmos, de rimas ou de inspiração".
Não se sabe se é ironia ou não, mas Humberto aparentemente "admite" semelhanças entre os poemas dos autores espirituais atribuídos e o que eles produziram em vida. Talvez fosse por causa de uma leitura ligeira ou pelo fato do livro ser tão recente que as polêmicas só vieram à luz vários anos depois, sobretudo por conta de reações enérgicas como a de Osório Borba.
O que se sabe é que Humberto, com seu senso de humor, acabou reprovando a obra de Chico Xavier por não aceitar que poetas vindos do além possam competir com os poetas vivos, tomando-lhes o mercado.
Um ano após o falecimento de Humberto de Campos, Chico Xavier havia dito que sonhou algumas vezes com o escritor. Sempre os sonhos de Chico Xavier, tomados do privilégio de pretenso realismo. Chico havia descrito um dos sonhos com as seguintes palavras:
"Sonhei que uma pessoa me apresentou Humberto de Campos num lugar do céu muito azul e brilhante e, no chão, havia uma espécie de vegetação que não deixava ver a terra. Não vi casa alguma. O que me impressionou mais é que as pessoas que eu via estavam sob uma árvore muito grande e tão branca que, quando o sol batia nas suas frondes de folhas muito delgadas, parecia uma grande árvore de cristal. Ele veio então ao meu lado e me estendeu a mão com bondade, dizendo: 'Você é o menino do Parnaso'? Disse-me mais coisas das quais não posso me recordar".
Pouco depois, vieram obras como os livros Crônicas de Além-Túmulo e Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, que chamam atenção pelo fato de, no lugar da prosa descontraída e por vezes brincalhona do escritor, há uma prosa religiosista e melancólica do suposto espírito.
O PROCESSO JUDICIAL
Em 1944, a viúva de Humberto de Campos, Dona Catarina Vergolino de Campos, ou "Dona Paquita", como era conhecida, e dois dos três filhos - uma filha não quis participar do processo judicial e apoiou "de fora" - decidiram processar Chico Xavier e a FEB pedindo que se prove a veracidade ou não da autoria espiritual do escritor.
Isso causou um grande escândalo e colocou Chico Xavier como réu pela primeira vez. Houve grande cobertura jornalística, naqueles tempos em que a televisão não existia (no Brasil, a TV só apareceu como um aparelho em teste numa exposição realizada no Rio de Janeiro, em 1939, onze anos antes de sua implantação oficial).
A intenção era que, se caso a autoria de Humberto de Campos fosse comprovada, os herdeiros de Humberto e titulares do processo, representado pelo advogado Milton Barbosa, receberiam o dinheiro dos direitos autorais. Caso contrário, FEB e Chico Xavier seriam proibidos de usar o nome do falecido escritor, sob pena de multa.
Milton duvidava muito de que a autoria atribuída a Humberto era verídica. O advogado, em entrevista à Revista da Semana, de 08 de julho de 1944, havia comentado a respeito do oportunismo da FEB pelo uso de um escritor bastante popular que foi Humberto em seu tempo.
"Essas obras, como sabe, vêm sendo vendidas livremente, sem controle de quem quer que seja e inteiramente à revelia da família de Humberto de Campos, condôminos dos direitos autorais da sua obra literária, que desfruta de um grande êxito de livraria, dado ao fato de ser atribuída a quem, como Humberto de Campos, sempre gozou, como escritor ,de grande popularidade entre o publico de todos os níveis intelectuais", disse Barbosa.
Numa entrevista a Paulo de Salles Guerra, da Revista da Semana, o advogado Milton Barbosa deu maiores detalhes sobre as suas dúvidas quanto à autenticidade da autoria de Humberto de Campos nos livros produzidos até 1944 por Chico Xavier e atribuídos ao espírito do escritor. Sugerindo que o problema deva ser resolvido por cientistas e não por literatos, Milton esclarece:
"Quis com isso deixar claro que qualquer semelhança de estilo entre a obra mediúnica e a obra produzida em vida por Humberto de Campos não poderia ter maior significação para a solução do problema, dada a possibilidade de assimilação de estilos. A la maniére de. . . como é público e notório, e tem sido mostrado por diversos escritores, principalmente franceses".
Em seguida, ele fez mais comentários:
"Se algumas semelhanças podem ser descobertas em trechos psicografados por Chico Xavier com o estilo de Humberto do Campos semelhança explicável com a leitura alenta das obras do grande memorialisla maranhense, elas não me impressionam absolutamente".
Ainda sobre as aparentes semelhanças de estilo supostamente notadas entre o Humberto de Campos da Terra e o suposto espírito do escritor maranhense:
"Tal semelhança é rara, pois a obra psicografada é muito inferior, como se poderá demonstrar facilmente".
Depois ele pega um exemplar do livro Boa Nova, livro de 1941 em que Chico mais uma vez usa o nome de Humberto de Campos. Milton, então, lê um trecho do referido livro.
"És mestre em Israel e ignoras estas coisas? — inquiriu Jesus como surpreendido. É natural que cada um somente testifique daquilo que saiba; porém, precisamos considerar que tu ensinas. Apesar disso não aceitas os nossos testemunhos. Se falando eu de coisas terrenas sentes dificuldades em compreendê-las com os teus raciocínios sobre a lei, como poderás aceitar as minhas afirmativas quando eu disser das coisas celestiais? Seria loucura destinar os alimentos apropriados a um velho para o organismo frágil do uma criança".
Ele questiona então a autenticidade da autoria de Humberto de Campos.
"Observou este cacófato: “Que cada”? E este verbo. Já ouviu alguém dizer “testifique”? O verbo para o caso seria “testemunhar”, é claro. Acha o senhor possível que um escritor como Humberto de Campos escrevesse estas coisas?"
Não há o mesmo estilo nem o mesmo vigor entre o Humberto de Campos que deixou legado entre nós e o suposto espírito. O Humberto de Campos que viveu entre nós tinha um jeito mais descontraído de escrever, ao mesmo tempo coloquial e elegante, sem soar prolixo nem extremamente rebuscado, apesar de sua notável erudição.
Já o suposto Humberto de Campos espírito tem um estilo choroso, escreve como se tivesse sido, em vez de escritor e intelectual, um padre de uma paróquia principal de uma cidade, numa linguagem melancólica e por demais religiosista.
O DESFECHO DO PROCESSO
Talvez o erro do processo foi o de pedir a verificação de autenticidade ou farsa das obras atribuídas ao espírito de Humberto de Campos, em vez de pedir a ação direta contra a FEB e Chico Xavier por apropriação indébita do nome do falecido escritor.
Devido a esse complicado enunciado, o juiz de Direito em exercício na 8º Vara Cível do antigo Distrito Federal, Dr. João Frederico Mourão Russell, julgou a ação improcedente, resultando num empate jurídico.
O juiz alegou não haver condições de exigir direitos autorais para obras de espíritos de pessoas falecidas, os direitos só valem para o que eles haviam produzido enquanto aqui viveram. A sentença foi dada em 23 de agosto de 1944.
O empate jurídico favoreceu Chico Xavier, beneficiado pela neutralidade do juiz. Um 0 X 0 que valeu pontos para o anti-médium mineiro, ainda que, depois de declarada a sentença, Dona Paquita e seus filhos tenham recorrido da sentença.
Mas aí Chico resolveu substituir o nome do escritor parodiando um de seus pseudônimos, Conselheiro XX, criando o codinome Irmão X, "para evitar novos dissabores".
sábado, 20 de dezembro de 2014
Amauri Xavier Pena teria sido assassinado?
Um dos grandes mistérios do "movimento espírita" é o falecimento repentino e prematuro do sobrinho de Chico Xavier, Amauri Xavier Pena, a figura enigmática da qual até agora não se encontrou uma foto disponível na Internet.
Amauri havia denunciado a fraude de Chico Xavier e, de repente, faleceu, supostamente por causa do vício do álcool. Era filho de Maria Xavier, irmã mais velha do anti-médium mineiro. Amauri nasceu em 1933, num dia não creditado, tão cercada de mistérios está a sua figura. Nascido em Pedro Leopoldo, mudou-se com a família para Sabará, na Grande Belo Horizonte.
Desde cedo parecia seguir a suposta mediunidade, depois que leu Parnaso de Além-Túmulo, do seu tio. Escrevia muitos poemas e teve seu trabalho acompanhado por Rubens Costa Romanelli, professor e fundador da União da Juventude "Espírita" de Minas Gerais e também jornalista.
Amauri estava por trás da elaboração de um livro supostamente mediúnico, Os Crusíladas, nunca publicado, mas que seguia a linha de Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho mas com ênfase no "descobrimento" por Pedro Álvares Cabral, e cuja autoria seria atribuída ao suposto espírito de Luís de Camões.
Jaci Pena, pai de Amauri, via no "movimento espírita" uma forma da família sair da pobreza e a essas alturas a UEM (União "Espírita" Mineira), da qual Rubens também estava associado, era assediada pela FEB, que via em Amauri Pena alguém promissor, um possível sucessor de Francisco Cândido Xavier.
Com casos de suposta obsessão por parte de Maria Xavier, a família aparentemente se surpreendeu quando Amauri supostamente sucumbiu ao alcoolismo. Não se sabe quais fatores o levaram à bebedeira, e muitos se contentam com a visão oficial de que foi depressão. Famos falar do caso depois.
Antes devemos nos atentar com o caso de Amauri na FEB, com uma denúncia que ele havia feito ao jornal Diário de Minas, de Belo Horizonte, A denúncia foi publicada na edição de 10 de agosto de 1958, embora feita a partir do mês anterior.
A DENÚNCIA DE AMAURI
Infelizmente, não há edições digitalizadas do Diário de Minas de BH, só havendo homônimos do interior mineiro (um deles de Ouro Preto), com edições digitalizadas do século XIX. Portanto, nada que correspondesse a qualquer edição de 1958.
Em todo caso, outras fontes disponibilizaram as declarações de Amauri Pena ao jornal, que geraram um violento escândalo contra o tio, que anos antes havia enfrentado um processo judicial movido pelos familiares de Humberto de Campos. Disse Amauri:
"Tudo o que tenho psicografado até hoje – declarou – apesar das diferenças de estilo, foi criado por minha própria imaginação, sem que precisasse de interferência de almas de outro mundo”. E explicava: “Depois de ter-me submetido a esse papel mistificador, durante anos, usando apenas conhecimentos literários, resolvi, por uma questão de consciência, contar toda a verdade.
Sempre encontrei muita facilidade em imitar estilos. Por isso os espíritas diziam que tudo quanto saía do meu lápis eram mensagens ditadas pelos espíritos desencarnados. Revoltava-me contra essas afirmativas, porque nada ouvia e sentia de estranho, quando escrevia. Os espíritas, entretanto, procuravam convencer-me de que era médium. Levado a meu tio, um dia, assegurou-me ele, depois de ler o que eu escrevera, que deveria ser seu substituto. Isso animou bastante os espíritas. Insistiam para que fosse médium.
Passei a viver pressionado pelos adeptos da chamada terceira revelação. A situação torturava-me e, várias vezes, procurando fugir àquele inferno interior, entreguei-me a perigosas aventuras. Diversas vezes, saí de casa, fugindo à convivência de espíritas. Cansado, enfim, cedi, dando os primeiros passos no caminho da farsa constante. Teria 17 anos. Ainda assim, não me vi com forças para continuar o roteiro. Perseguido pelo remorso e atormentado pelo desespero, cometi desatinos (…) Não desmascaro meu tio como homem, mas como médium. Chico Xavier ficou famoso pelo seu livro Parnaso de além túmulo. Tenho uma obra idêntica e, para fazê-la, não recorri a nenhuma psicografia".
Com a repercussão, em vez de ser feita alguma investigação nos bastidores do "movimento espírita", o que houve foi uma reação de raiva e rancor contra Amauri. O delegado Agostinho Couto, o pai de Amauri, Jaci Pena, entre outros, passaram a definir Amauri como um "doente da alma", um "desordeiro" e um "alcoólatra inveterado" e acusado de roubos a casas.
Cerca de um mês antes da reportagem do Diário de Minas, o jornal O Globo - cujo exemplar digitalizado só está disponível para assinantes do Globo.Com - havia publicado, em 16 de julho, denúncia de Amauri de que seu tio não psicografava e era apenas um "devorador de livros".
Chico Xavier parecia "calmo" e "paciente", embora "muito triste", com as acusações do sobrinho, tendo dito as seguintes palavras, na época de tais denúncias:
"Meu sobrinho, até agora, não freqüentou reuniões espíritas ao meu lado, mas posso acrescentar que ele tem estado num grupo de espíritas muito responsáveis em Belo Horizonte, junto dos quais sempre recebeu orientação com muito mais segurança que junto a mim.
Meu sobrinho é muito moço e, pelo que observo, é portador de um idealismo ardente, em sua sinceridade para consigo mesmo. De minha parte, peço a Jesus, com muita sinceridade, para que ele seja muito feliz no caminho que escolher.
Não recebi as palavras dele como acusação nem desafio. Tenho a felicidade de possuir muitos amigos que, em matéria religiosa, não pensam pela minha mesma convicção.
Em seguida, publicou um bilhete para o Diário de Minas, dizendo: "Se algo posso falar ou pedir, nesta hora, rogo a todos os corações caridosos uma oração a Nossa Mãe Santíssima em meu favor, a fim de que eu possa - se for a vontade da Divina Providência - continuar cumprindo honestamente o meu dever de médium espírita sem julgar ou ferir quem quer que seja".
No entanto, o "calmo" Chico Xavier escreveu uma carta indignada ao presidente da FEB na época, Antônio Wantuil de Freitas, datada de 10 de dezembro de 1958, "familiar deliberadamente vendido aos adversários implacáveis da nossa causa". Sugeriu que Amauri fosse entregue a Waldo Vieira para "curá-lo" das "doenças da alma".
POSSÍVEL QUEIMA-DE-ARQUIVO
E antes que Amauri Pena, que parecia possuir os segredos dos bastidores da FEB, sua participação na elaboração da sexta edição de Parnaso de Além-Túmulo e as pressões que recebeu dos chefes da federação, pudesse trazer maiores informações, ele foi internado num sanatório que, mais tarde, foi identificado como Sanatório "Espírita" Bezerra de Menezes.
Amauri teria sido enviado para bem longe. O sanatório fica até hoje em Espírito Santo do Pinhal, no interior paulista, no Norte de São Paulo. Estranhamente, Amauri faleceu três anos depois, antes de completar 28 anos de idade e com aparente excesso no consumo de álcool.
O falecimento foi rápido demais já que seria natural que, se fosse morrer por alcoolismo, Amauri falecesse na casa dos 40 anos. Ele não teria sido vítima de maus tratos no sanatório? Ele não teria sido induzido a beber mais? Não usou algum outro remédio? Aparentemente, ele faleceu de hepatite, embora sua tragédia misteriosa criou rumores de que ele teria sido morto por atropelamento.
Mesmo informações de que ele teria morrido no sanatório ou no seu retorno a Sabará são muito mal contados. Por outro lado, a FEB lançou rumores de que Amauri denunciou o tio porque estava apaixonado por uma jovem católica ou porque foi subornado por um padre católico.
Chico Xavier, aparentemente, perdoou o sobrinho e rogou a ele a Misericórdia Divina. Mas a FEB, por outro lado, não permitiu que Amauri fizesse algum pedido formal de desculpas, achando que outros iriam dizer que o jovem teria sido forçado a fazer essa solicitação. Mas também há dúvidas se Amauri teria se "arrependido" de tais denúncias, bastante pertinentes.
Será que Amauri não teria sido assassinado por funcionários do sanatório? A morte dele não seria uma "queima de arquivo" para os bastidores do "movimento espírita"? Ele provavelmente denunciaria não só Chico mas também os chefes e editores da FEB que estariam por trás da elaboração dos livros de Chico Xavier.
Convém recolocar o caso em investigação, de preferência com novos exames no corpo de Amauri e na busca de documentos, fotos e depoimentos. A tragédia de Amauri Xavier Pena não pode ser considerada de forma parcial, prevalecendo a visão unilateral da FEB, enquanto aspectos sombrios exigem maiores investigações.
Teria que ser uma investigação imparcial, profunda e abrangente, que não seja necessariamente a favor da FEB, ainda que seja permitido à instituição a divulgar sua versão do fato, conforme é de praxe em toda investigação que preze ouvir os diversos lados de uma questão.
No entanto, a investigação tem que ser sempre no sentido da verdade, ainda que ela possa pôr em sério risco a reputação de Chico Xavier, que em momentos como esses tanto sabia se passar por vítima e posar de "perseguido".
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
Chico Xavier e o medo de assumir seu Roustanguismo
Suely Caldas Schubert, com seu livro Testemunhos de Chico Xavier, queria prestar uma homenagem ao anti-médium mineiro com uma publicação que mostrasse suas cartas para o então presidente da Federação "Espírita" Brasileira, Antônio Wantuil de Freitas.
No entanto, ela acabou, por acidente, revelando os bastidores do "movimento espírita" e, mesmo sem querer, acabou oferecendo munição para os opositores, o que faz do livro, ironicamente, um importante documento de investigação sobre as irregularidades do "movimento espírita", em que pese ser uma aparente e assumida propaganda de Francisco Cândido Xavier.
Um dos aspectos curiosos é o medo que Chico sentia em assumir a influência de Jean-Baptiste Roustaing, o neo-católico que produziu Os Quatro Evangelhos. Muito querido pelo "movimento espírita" brasileiro até que viessem as campanhas de gente como Herculano Pires e Carlos Imbassahy (o pai), Roustaing depois passou a ser "desprezado" pelos antigos partidários.
É claro, houve um trabalho de prevenção. Chico Xavier, já na década de 1930, estava associado a vários livros que adaptaram o roustanguismo ao contexto brasileiro, tirando pontos excessivamente controversos, como as teses do "Jesus fluídico" e da "reencarnação em seres irracionais".
Com isso, o roustanguismo poderia ter deixado sua herança no "movimento espírita" sem que precise ser evocado. No momento oportuno, quando o roustanguismo causava péssima repercussão, ele seria descartado, já que Chico já havia adaptado o "melhor de Roustaing" em sua obra, criou-se um roustanguismo revisto e ampliado num contexto bem brasileiro.
Já nos anos 1940, Roustaing já era problemático para a FEB. As campanhas contra ele só viriam depois, quando, tendenciosamente, surgiriam mensagens atribuídas a Adolfo Bezerra de Menezes, que havia introduzido Roustaing no Brasil, pedindo para o "movimento espírita" manter-se "fiel" a Allan Kardec, uma badalada "conversa para boi dormir".
Mas isso ocorreu a partir de 1963, com o acirramento da campanha dos opositores de Roustaing. E nós estamos em 25 de março de 1947, data de uma carta que Chico enviou a Wantuil, numa atitude tragicômica de expressar seu medo diante das acusações de seguir o roustanguismo. Eis o texto:
"(...) Li a carta que o Mundo Espírita publicou. Encomendemo-nos à Misericórdia Divina. Também, como tu, pedi ao Ismael nada responder. Seria muito triste 'lançar gasolina nesse fogo'. Há casos em que todo comentário é difícil. Por minha vez, estranho o que ocorre, de tal modo que só vejo uma saída: Levar o coração em silêncio para a casa da prece.
Não te incomodes com a declaração havida de que o trecho alusivo a Roustaing, em Brasil (Coração do Mundo, Pátria do Evangelho), foi colocado pela Federação. Quando descobrirem que a casa de Ismael seria incapaz disso, dirão que fui eu. De qualquer modo, eles falarão. O adversário tem sempre um bom trabalho - o de estimular e melhorar tudo, quando estamos voltados para o bem".
Omissão atrás de omissão. Chico Xavier isenta a FEB de ter "colocado" Roustaing no referido livro. Logo a FEB, que nasceu sob a influência de Roustaing. Chico atribui à instituição, portanto, uma "incapacidade" que não faz sentido, e cogita que o anti-médium é que seria acusado da inclusão do autor de Os Quatro Evangelhos em Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho.
Chico, então, age com covardia diante da tristeza de estar associado a Jean-Baptiste Roustaing, citado como "João Batista Roustaing" no livro ufanista. Não há uma menção ao suposto autor espiritual, Humberto de Campos, na referida carta, o que dá indício do caráter duvidoso de tal atribuição.
Chico, triste e medroso por simplesmente ser considerado vinculado ao roustanguismo - o movimento que trazia tanto orgulho ao "movimento espírita" mas é visto com "vergonha" por Chico e, a julgar pelo conteúdo da carta, pelo roustanguista Wantuil - , preferiu "levar o coração em silêncio para a casa da prece".
Suely também se "assustou" com a citação de Roustaing, tratando com o mesmo tom "catastrófico" e o mesmo tom chorosamente infantil de Chico Xavier. Ela, então, escreveu que Chico não era "um mineirinho do interior, ingênuo e desprevenido", nem um "ingênuo caboclinho", como citou em várias passagens do capítulo, mas "uma pessoa pura de intenções, pura nos seus ideais e na sua fé", "um autêntico missionário" e "continuador" da Doutrina Espírita.
A declaração é uma demontração de falta de firmeza de Chico Xavier, vista pelos seus partidários como "coragem" e "perseverança", dentro da visão de contrastes em que "o silêncio fala", "o ignorante é sábio", "o pobre é rico", "o fraco é forte", que seduz muitas pessoas dentro dos clichês diversos que cercam o mito do anti-médium mineiro.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
Primeiro livro de Chico Xavier provou ser uma fraude
O primeiro livro de Francisco Cândido Xavier, Parnaso de Além-Túmulo, cuja primeira edição foi lançada em 1932, é um dos estranhíssimos casos de obras publicadas sob o rótulo de "literatura espírita".
Seu histórico não é dos mais felizes, se levarmos em conta que a publicação deveria ser um trabalho acabado de espíritos de poetas e escritores falecidos que supostamente mandariam novas mensagens para promover a fraternidade entre os povos.
Oficialmente tido como a primeira psicografia de Chico Xavier e sendo uma das primeiras publicações ambiciosas da FEB, o livro, juntamente com Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, este lançado em 1938, gerou um dos maiores escândalos relacionados ao "movimento espírita" brasileiro.
O problema começa quando muitos poemas "espirituais" apresentam sérios problemas em relação aos estilos respectivos que os poetas deixaram em vida, como aspectos peculiares como a métrica poética e a própria supremacia de temas religiosos, dando a crer que o mundo espiritual limita-se a ser uma igreja dotada de colônia espiritual etc.
A título de comparação, podemos citar o caso do poeta parnasiano Olavo Bilac (1865-1918), em dois poemas, um publicado em vida, outro supostamente atribuído à sua autoria espiritual, levando em conta o duro comentário feito pelo historiador, poeta e contista João Dornas Filho. Disse ele, a respeito do suposto poema de Bilac em Parnaso de Além-Túmulo, com visível indignação:
"Esse homem que em vida nunca assinou um verso imperfeito, depois de morto teria ditado ao Sr. Xavier sonetos interinos abaixo de medíocres, cheios de versos mal medidos, mal rimados e, sobretudo, numa língua que Bilac absolutamente não escrevia!"
O comentário é corroborado por Osório Borba, jornalista e escritor: "A conclusão de minha perícia é totalmente negativa. Aqueles escritos 'mediúnicos', por quem quer que conheça alguma coisa de poesia ou literatura, não podem ser tidos como de autoria dos grandes poetas e escritores a quem são atribuídos. Autores de linguagem impecável em vida aparecem 'assinando' coisas imperfeitíssimas como linguagem e técnica poética. Os poetas 'desencarnados' se repetem e se parodiam, a todo o momento, nos trabalhos que lhes atribuem 'mediunicamente'".
Para verificarmos esses pareceres, nada como comparar, portanto, os dois poemas, um intitulado "Velhas Árvores", que Olavo publicou no livro Poesias, de 1888. Outro é um poema intitulado "Brasil", que Chico Xavier, no seu referido livro, atribuiu a autoria ao poeta parnasiano. Vejamos:
Velhas Árvores
Olavo Bilac - livro Poesias, 1888
Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...
O homem, a fera e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres da fome e de fadigas:
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.
Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo. Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,
Na glória de alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!
BRASIL
Atribuído ao espírito Olavo Bilac (Parnaso de Além-Túmulo, 1932)
Desde o Nilo famoso, aberto ao sol da graça,
Da virtude ateniense à grandeza espartana,
O anjo triste da paz chora e se desengana,
Em vão plantando o amor que o ódio despedaça,
Tribos, tronos, nações... tudo se esfuma e passa.
Mas o torvo dragão da guerra soberana
Ruge, fere, destrói e se alteia e se ufana,
Disputando o poder e denegrindo a raça.
Eis, porém, que o Senhor, na América nascente,
Acende nova luz em novo continente
Para a restauração do homem exausto e velho.
E aparece o Brasil que, valoroso, avança,
Encerrando consigo, em láureas de esperança,
O Coração do Mundo e a Pátria do Evangelho.
=====
Nota-se que o segundo poema peca gravemente em musicalidade. Nada tem da métrica caraterística de Olavo Bilac e nem de sua sofisticação poética. É um poema sofrível e bastante cansativo, diferente do que se observa no poema original de Olavo, que já aos 23 anos, em 1888, havia feito um soneto que se "desliza" em notável musicalidade dos versos.
Já o seu suposto poema espiritual, só o recital já denuncia uma grave falha, pois cada verso se arrasta numa narração cansativa, sem provocar a musicalidade caraterística do parnasianismo ao qual Olavo era seu símbolo maior. Os versos também não se harmonizam entre si, criando um ritmo aleatório que Olavo não faria sequer em rascunhos poéticos.
REAÇÃO NEUTRA DE ALGUNS ESCRITORES
As próprias irregularidades de Parnaso de Além-Túmulo acabam aparecendo até mesmo em relatos aparentemente favoráveis a Chico Xavier, como a de Suely Caldas Schubert e Alexandre Caroli Rocha (apesar do aparente ceticismo neutro dele), como veremos depois.
Afinal, as sucessivas alterações, várias graves ou tendenciosas, são apontadas pelos dois autores. Por outro lado, a polêmica do livro não contou, do contrário do que diz a FEB, com depoimentos favoráveis, já que os depoimentos que contestavam as acusações de fraude e pastiche literário contra Chico Xavier não necessariamente, e podemos até dizer que nunca, comprovaram seguramente sua mediunidade.
Alguns desses comentários dão indício dessa neutralidade, que do contrário que a tese febiana alardeia, nem de longe confirmam ou respaldam a hipótese de mediunidade autêntica, uma vez que são avaliações superficiais e comentários neutros, na verdade céticos tanto do lado negativo (quando se considera o livro uma fraude) quanto do positivo (quando admite a mediunidade do livro).
Raimundo Magalhães Júnior havia dito, por exemplo: "Se Chico Xavier é um embusteiro, é um embusteiro de talento. Para um homem que fez apenas o curso primários, sua riqueza vocabular é surpreendente[...] Quem negar Chico Xavier como médium, estará fazendo o seu elogio como pastichador".
Agripino Grieco, por sua vez: "Se é mistificação, parece-me muito bem conduzida. Tendo lido as paródias de Albert Sorel, Paul Reboux e Charles Muller, julgo ser difícil (isso digo com a maior lealdade) levar tão longe a técnica do pastiche. Não sei como elucidar o caso. Fenômeno nervoso? Intervenção extra-humana? Faltam-me estudos especializados para concluir".
Monteiro Lobato, o famoso autor de Sítio do Picapau Amarelo: "Se Chico Xavier produziu tudo aquilo por conta própria, então ele merece ocupar quantas cadeiras quiser na Academia Brasileira de Letras".
Em nenhuma dessas declarações há uma confirmação de que Chico Xavier realmente psicografou tais livros, sendo muito mais uma demonstração de dúvida sobre qualquer hipótese que fosse contra ou a favor do livro, mostrando apenas incapacidade dos referidos escritores de dar um parecer definitivo ao assunto.
A Federação "Espírita" Brasileira, adotando um erro propositalmente oportunista e tendencioso, é que creditou tais declarações como "provas" da mediunidade de Francisco Cândido Xavier, tese que se comprova absurda e improcedente.
AS MUDANÇAS SUCESSIVAS
Alexandre Caroli Rocha, em seu trabalho A poesia transcendente de Párnaso de Além-Túmulo, detalha as muitas mudanças que o livro teve em sucessivas edições, incluindo acréscimos de novos poetas, a exclusão de alguns, alterações de versos e tantos reparos estranhos, porque muitos e alguns deles escandalosos, como os de Guerra Junqueiro e Augusto dos Anjos.
Mas o intervalo entre a primeira edição e a sexta considerada "definitiva", além da quantidade de alterações, seus problemas e contextos, surpreende: cinco edições em 23 anos. Muita coisa para uma obra que se pretendia ser o recado acabado da poesia espiritual.
Só para a sexta edição, são solicitadas a exclusão de 15 a 20 poemas da edição anterior, enquanto Chico Xavier prometia a Wantuil que enviaria de 10 a 15 poemas novos para a publicação considerada "definitiva".
Isso cria uma contradição enorme. Afinal, uma obra dessas é anunciada como obra da espiritualidade superior. Pretendia-se, portanto, ser um trabalho acabado, como seria de praxe em publicações neste sentido. Os vários reparos tornam a obra insegura, inconsistente, por si só, não bastassem as irregularidades de estilo e mesmo a monotemática religiosa, muito comum no "movimento espírita".
Além das críticas de Dornas e Borba, observa-se uma acusação dada pelo escritor e ativista católico Alceu de Amoroso Lima, também conhecido pelo seu pseudônimo Tristão de Athayde, de que Parnaso de Além-Túmulo teria sido feito por uma equipe de escritores e editores. A FEB achou a tese "absurda" e "inconcebível".
No entanto, a própria Suely Caldas Schubert, em um livro intitulado Testemunhos de Chico Xavier, com toda a postura favorável ao anti-médium mineiro, deixa vazar uma mensagem do próprio Chico ao então presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, de 03.05.1947, que acidentalmente comprova a tese de Alceu, por mais que Chico fale em amigos e autores "espirituais". Diz o texto:
"Grato pelos teus apontamentos alusivos ao “Parnaso” para a próxima edição. Faltam-me competência e possibilidade para cooperar numa revisão meticulosa, motivo pelo qual o teu propósito de fazer esse trabalho com a colaboração do nosso estimado Dr. Porto Carreiro é uma iniciativa feliz. Na ocasião em que o serviço estiver pronto, se puderes me proporcionar a “vista ligeira” de um volume corrigido, ficarei muito contente, pois isso dará oportunidade de ouvir os Amigos Espirituais, em algum ponto de maior ou menor dúvida. Há uma poesia, sobre a qual sempre pedi socorro, mas continua imperfeita desde a primeira edição. É aquela “Aves e Anjos” (...). Ela termina assim: “Sorrindo... Cantando...” e não “Sorrindo... Sorrindo...”, como vem sendo impresso".
O "dr. Porto Carreiro" em questão era Luiz da Costa Porto Carreiro Neto, escritor e especialista em Esperanto que havia integrado o Departamento Editorial da FEB. Já o poema "Aves e Anjos" que incomodava Chico estava atribuído ao espírito do médico e poeta português Júlio Dinis (1839-1871).
Outras cartas de Chico a Wantuil, colhidas por Suely Caldas Schubert, também reforçam a "absurda" tese de Alceu Amoroso Lima e defendida por outros setores do Catolicismo ortodoxo, Elas deixam claro as negociações entre Chico e os editores da FEB, por intermédio de Wantuil, para os reparos para a sexta e "definitiva" edição, como foi também o caso da carta acima citada:
"Vou trabalhar na revisão final do ‘Parnaso’, sob a orientação de Emmanuel e de outros amigos. Espero enviar-te o volume, que se encontra comigo, há tempos, em breves dias. Ficas com a liberdade de aprovar ou não as sugestões que foram apresentadas daqui. Considero igualmente contigo que o ‘Parnaso’ está muito volumoso, mas se eu pudesse votar por alguma alteração, votaria pela supressão de algumas poesias, sem substituição. Assim, o livro ficaria num tamanho mais agradável. Concordas? A escolha das produções a serem afastadas dependeria de tua revisão. Organizarias uma relação delas e apresentá-la-ei aos nossos amigos espirituais para a solução definitiva". (28.05.1953)
"Meu caro Wantuil, na primeira oportunidade, enviarei o ‘Parnaso’. Emmanuel, porém, me disse que, considerando melhor as lutas do nosso campo de ação, seria interessante a reedição sem nada alterar, de modo a não oferecermos combustível à fogueira dos nossos adversários gratuitos. Que achas? Mais um abraço do - Chico". (10.09.1953)
"Minha referência ao ‘Parnaso’ em carta última foi feita porque eu havia pedido a Emmanuel estudássemos um recurso de retirar algumas das produções do livro referido, que julgo menos compatíveis com a respeitabilidade de nossa Consoladora Doutrina. Pensei me houvesse comunicado contigo, acerca do assunto, em correspondências anteriores. Nosso orientador espiritual, porém, conforme notifiquei na missiva última, julga devamos deixar o ‘Parnaso’ tal como está, de modo a não atrairmos qualquer nova faixa de incompreensão. Aguardemos mais tempo". (24.09.1953)
"Sobre o ‘Parnaso’, Emmanuel me disse que poderás retirar do texto de 15 a 20 trabalhos que julgues menos adequados ao livro e daqui te enviarei 10 a 15 que possam figurar na nova edição com mais propriedade. Certo? Aguardo as tuas notícias". (18.06.1954)
É surpreendente como a FEB e Chico Xavier reagiam com omissão e esperteza, de forma a evitar o que chamam de "fogueira dos nossos adversários gratuitos" e "nova faixa de incompreensão", como acusam os questionadores que investigam as contradições e equívocos causados pelo "movimento espírita" e que, aqui, se referem a Parnaso de Além-Túmulo.
Chico tinha receio das polêmicas causadas por Parnaso de Além-Túmulo, que era duramente contestado, mediante justificativas lógicas e pesquisa cautelosa, pelos mais renomados especialistas literários, a ponto do anti-médium mineiro ter dito: "Tive medo do barulho, porque o ruído atrapalha".
Chico tinha receio das polêmicas causadas por Parnaso de Além-Túmulo, que era duramente contestado, mediante justificativas lógicas e pesquisa cautelosa, pelos mais renomados especialistas literários, a ponto do anti-médium mineiro ter dito: "Tive medo do barulho, porque o ruído atrapalha".
As próprias negociações entre Xavier e Wantuil deixam claro que o livro não foi psicografado, uma vez que são acordos sucessivos de combinação de mudanças de versos, inclusão e exclusão de poemas, e tudo o mais. E, se a FEB quis apagar as "fogueiras dos adversários", em vez de extintor, acabaram usando querosene, colocado nas mãos da ilustre colaboradora Suely.
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
O padre Manuel da Nobrega, o "Ermano Manuel"
Emmanuel, o mentor de Francisco Cândido Xavier, é identificado ao padre jesuíta Manuel da Nóbrega pelas caraterísticas manifestas que ligam o espírito ao personagem que teria sido sua encarnação mais famosa, como o temperamento enérgico e a habilidosa astúcia.
Nascido em Sanfins do Douro, no Norte de Portugal, em 18 de outubro de 1517, Manuel da Nóbrega formou-se em direito canônico e filosofia na Universidade de Coimbra, onde completou os estudos universitários iniciados na Universidade de Salamanca.
Ordenado pela Companhia de Jesus aos 27 anos de idade, Manuel da Nóbrega tornou-se pregador católico em sua turnê por toda a península ibérica, participando de cerimônias e missas. Desembarca na Bahia no dia da fundação de Salvador, 29 de março de 1549.
Em terras brasileiras, Manuel teria dito aos presentes: "essa terra é nossa empresa", entendendo a palavra "empresa" não no sentido do jargão da Economia e Administração como conhecemos, mas tão simplesmente como "projeto" e "iniciativa", indicando uma intenção de Nóbrega iniciar no Brasil a sua mais ambiciosa pregação católica.
Manuel participou também das fundações das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Também tornou-se conhecido pelo processo de inculturação, que ele praticou com diversos povos indígenas, para impor nelas o seu Catolicismo, de moldes ainda fortemente medievais.
A inculturação visava assimilar as caraterísticas dos povos a serem dominados, como ocorreu no caso das tribos indígenas, em que até o idioma tupi-guarani era aprendido de forma a ser organizada até mesmo uma gramática com esse idioma.
Assimilando práticas e crenças indígenas - o que teve lá seu ponto positivo, porque foi por esse caminho que várias práticas foram introduzidas e perpetuadas na vida urbana, valendo até hoje - , os jesuítas no entanto estabeleciam um preço muito caro para tamanha tarefa, que era a conversão dos povos indígenas ao Catolicismo medieval.
Manuel da Nóbrega era temperamental, escravocrata, machista, racista e autoritário. Era um habilidoso orador católico, mas era vingativo e bastante agressivo, embora também dotado de muita esperteza para fingir benevolência e cordialidade. Doente, morreu em 1570, no dia do seu próprio aniversário de 53 anos de idade.
O LEGADO DO CATOLICISMO MEDIEVAL
Note-se que, no que se refere aos cálculos historiográficos, a Idade Média teria sido superada como período histórico dotado de suas caraterísticas mais fortes e dominantes, mas seu legado continuava valendo em Portugal bem depois do fim oficial do período medieval, atribuído ao século XV.
O Brasil foi "descoberto" no começo do século XVI, embora sabemos que o que se conhece como "descoberta" é na verdade uma exploração oficial de esquadra portuguesa com o fim de submeter o grande pedaço de terra situado no sul do continente americano à coroa portuguesa.
Há relatos, todavia, de expedições marítimas ocorridas bem antes da chegada de Pedro Álvares Cabral e seus parceiros ao solo que hoje corresponde ao Brasil, vindas de outros países fora da península ibérica, já na primeira metade do século XV. Sem falar dos próprios indígenas brasileiros, cujos ancestrais teriam vindo de ilhas da Polinésia, no Oceano Pacífico.
Vestígios do Catolicismo medieval português eram fortemente presentes no começo do século XIX, portanto, depois da ocorrência da Revolução Industrial inglesa (1750), da Independência dos Estados Unidos da América (1776) e da Revolução Francesa (1789).
Com o terremoto que arrasou Portugal, em 1755, uma das piores tragédias acontecidas no continente europeu, a Companhia de Jesus teve um desfecho desfavorável no Brasil. Antes que descrevamos o fim de suas atividades, vale citar um pouco dessa tragédia.
Um grande terremoto que teria atingido parte do litoral português e o seu solo teria atingido, segundo sismólogos, entre 7,5 e 9,5 da escala Richter, considerado entre grande e excepcional, a provocar grandes estragos. Juntando o terremoto com o maremoto de cercade vinte metros que teria atingido a costa portuguesa, a tragédia causou danos irreparáveis.
Só para se ter uma ideia, ocorreram incêndios, Lisboa foi quase toda destruída, outras cidades portuguesas foram atingidas com similar gravidade e um número estimado a cerca de pouco mais de 10 mil mortos, de acordo com dados oficiais, embora se suponha que o número teria sido bem maior.
Em todo caso, o prejuízo causado foi de proporções alarmantes, e um dos políticos sobreviventes, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês do Pombal, que havia sido secretário dos Negócios Estrangeiros e da Guerra do reino português e, na ocasião do terremoto, era primeiro-ministro, adotou uma política austera de reconstrução de Portugal.
Com um vigor enérgico e autoritário, o Marquês do Pombal agilizava ações dos bombeiros para apagar incêndios, diligências hospitalares para recolher cadáveres e impunha um corte drástico de investimentos para resolver a situação financeira do país europeu, diante do grave prejuízo causado com o terremoto.
Aí é que entra a Companhia de Jesus. Ou melhor, é aí que ela sai, quando é convocada a deixar do Brasil, encerrando suas atividades, que representavam grandes despesas para o tesouro português. A essas alturas, nomes como Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, só para citar os maiores expoentes, estavam há muito tempo falecidos.
A "REVANCHE" DO ALÉM
No plano espiritual, os diversos grupos católicos que haviam se associado à Companhia de Jesus parecem não ter engolido a decisão do Marquês de Pombal de encerrar a inculturação jesuíta, deixando o tempo lhes dar uma nova oportunidade.
Essa oportunidade se deu quando, já nos últimos anos do Segundo Império, figuras como Luiz Olímpio Teles de Menezes e Adolfo Bezerra de Menezes (sem parentesco entre si), respectivamente na Bahia e no Rio de Janeiro (apesar de Adolfo ter sido cearense), começaram a minimizar a influência audaciosa da Doutrina Espírita dentro dos limites do Catolicismo vigente no Brasil.
Essa forma de Catolicismo era a herdada do modelo português, ainda fortemente medieval, que encontrou terreno favorável quando o Espiritismo, ao ser introduzido no país, teve que ser amenizado de forma a não representar conflitos com a Igreja Católica, que o via como prática ilegal.
Com o tempo, a Doutrina Espírita de Allan Kardec, encontrando concorrência com o neo-catolicismo de Jean-Baptiste Roustaing, foi podada de forma que praticamente reduzisse o teor científico da doutrina kardeciana para se transformar num receituário moralista religioso, numa indústria de "palavras de amor".
E Manuel da Nóbrega, relembrando dos tempos em que era conhecido como "Ermano Manuel" - "ermano" era "irmão", no português arcaico - e assinava cartas como "E. Manuel", regressou através do relativo poder paranormal do católico Francisco Cândido Xavier para tornar-se seu mentor e instrumento para a nova inculturação do jesuíta.
Desta vez, Nóbrega retornava, agora como Emmanuel, para estabelecer a inculturação sobre a Doutrina Espírita, absorvendo algumas de suas caraterísticas para impor nelas o velho moralismo jesuíta, e, não podendo criar um novo Catolicismo e tendo sido passado para trás diante das transformações feitas pela Igreja Católica, se contentou com sua nova tarefa.
Assim, Emmanuel se empenhou em desenhar um perfil "católico" padrão para o "espiritismo" brasileiro, através de muitos livros que atualizavam as ideias que constavam nas cartas de Manuel da Nóbrega e que se afinam, entre si, até na forma com que as palavras eram escritas. É só comparar as cartas do padre Nóbrega com os livros de Chico Xavier sob a autoria de Emmanuel.
Sim, porque as cartas de Manuel da Nóbrega tinham o mesmo estilo de escrita que Emmanuel lançou através de Chico Xavier. Com todas as caraterísticas fortes da personalidade do jesuíta que indicam ser o padre Nóbrega um dos poucos espíritos, entre os que supostamente aparecem nas manifestações mediúnicas, que teriam correspondido verdadeiramente às identidades atribuídas.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
Chico Xavier abrasileirou o roustanguismo
Chico Xavier nunca foi simpático às ideias de Allan Kardec. Ele preferia o religiosismo de Jean-Baptiste Roustaing. No entanto, a certas alturas ele passou a sentir medo em assumir o roustanguismo, quando, já nos anos 1940, se intensificaram as campanhas contra o autor de Os Quatro Evangelhos.
Sabe-se que, por volta de 1940 até 1974, houve uma campanha intensa contra a influência de Roustaing, que sempre foi defendida pela Federação "Espírita" Brasileira - que o saudoso José Manoel Barbosa, sabiamente, chamava de Federação Roustanguista Brasileira - , e que quase fez o chamado "movimento espírita" se perder diante de situação tão conflituosa.
Em carta ao então presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas - roustanguista assumido - , Chico Xavier revelou um medo de assumir a citação de Roustaing, apelidado abrasileiradamente como "João Batista Roustaing", feita no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho.
Com esse medo, diante de tamanhas acusações, Chico Xavier preferia reagir com silêncio, o que seus partidários entendem como "lição de humildade e sabedoria", mas que a lógica dos fatos entende como omissão e medo.
Enquanto isso, quando a conveniência permitia, Chico Xavier se manifestava supostamente a favor de Allan Kardec, até mesmo quando em suposta psicografia de um Bezerra de Menezes que, originalmente roustanguista apaixonado, passou a "kardequizar" (corruptela de "catequizar"?) no além.
O que se tem absoluta certeza é que Chico Xavier adaptou, com a ajuda dos editores e consultores literários da FEB - ele não recorreu à consulta de historiadores, daí os grosseiros erros históricos em vários de seus livros - , as ideias de Roustaing, excluindo dele aspectos que soam incômodos até aos católicos ortodoxos, como o "Jesus fluídico" e a "reencarnação em animais, plantas e vermes".
Com Chico Xavier abrasileirando o roustanguismo, a FEB, com o passar do tempo, nem precisou mais do próprio Roustaing. Criou-se uma tradução bem brasileira, o chiquismo, tão brasileira que ignorou completamente o sistema de castas romanas ao investir em castas brasileiras para os personagens "romanos" de Há Dois Mil Anos e similares.
A influência do jesuíta Emmanuel, único espírito que possivelmente teria se manifestado realmente na mediunidade de Xavier - até pelas obras e aspectos pessoais referentes a essa figura - , tornou-se decisiva para moldar o neo-catolicismo roustanguista para a realidade brasileira, com suas demandas e crenças próprias.
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