quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017
Plutocracia, pós-verdade e convulsões sociais
Na crise política em que vivemos, uma parábola ilustrativa explica a situação. Num galinheiro em crise, as galinhas acusam o galo de corrupto, desonesto e predador, sob influência de umas duas ou três galinhas que influenciam a opinião geral do lugar.
Com isso, as três galinhas usam todo tipo de persuasão para convencer as demais de que a raposa é o animal certo para comandar o galinheiro, devido a atribuições supostamente técnicas, éticas e moderadas. É certo que algumas galinhas mais radicais querem um lobo para comandar o galinheiro, mas a maioria já se sente satisfeita com o governo da raposa, considerada "mais equilibrada".
É isso que vivemos no país de hoje, em que as elites retomam o poder depois de uma crise econômica e político-institucional que teve um desfecho mais retrógrado. A onda ultraconservadora que há anos já existia na Internet, mesmo antes do Orkut e durante seus primórdios, ocupou o poder através de um sistema de argumentos de convencimento que adotam uma roupagem lógica ou são apoiados pelo apelo emocional da catarse.
O fenômeno da pós-verdade e a onda de ódio e reacionarismo na Internet, vinda de jovens de perfil mais "irreverente" e dos quais não se esperava posições tão reacionárias, revelam a convulsão social que atinge a sociedade nos últimos anos.
É assustador que os ataques de intolerância social diversos nas redes sociais ocorra em grande frequência e com uma força tirânica, na qual os internautas que lideram esses espetáculos de ofensas gratuitas de toda espécie se acham numa impunidade plena, a ponto de reagirem a qualquer advertência com o famoso "KKKKKKKKKK" (risadas, em internetês).
A adesão de pessoas de boa índole aos valentões da Internet fez o ovo da serpente crescer. No começo, pessoas de bem, só porque estavam numa mesma comunidade numa rede social que o valentão, aderiram a campanhas de cyberbullying, acreditando no jeito "divertido" do encrenqueiro.
Depois a coisa se evolui para uma acomodação bovina, uma ilusão de felicidade porque o governo Michel Temer representa supostas qualidades de superioridade técnica e moderação política. As pessoas vão para a praia felizes sem saber que, à menor ressaca, pessoas não poderão ser internadas em hospitais superlotados, e não se fala só de hospitais públicos, pois o êxodo para os hospitais privados já transforma vários deles em arremedos de hospitais públicos, tanto pelo desserviço quanto pela alta demanda.
Os retrocessos no Brasil ocorrem como se uma avalanche de neve caísse em alta velocidade sobre nosso país. A situação é de catástrofe, mas as pessoas vão para as praias e praças como se estivessem no Paraíso. Até quem fuma, como nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre, vive essa ilusão de que nada de ruim vai acontecer, quando a tragédia é só uma questão de minutos.
A propósito, num tempo de convulsões sociais e imprudência das próprias elites, ficamos perguntando se a tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria (RS), ocorrida há quatro anosa, não poderia também ocorrer em Trancoso ou Jurerê Internacional. A ilusão de invulnerabilidade e imunidade das elites, num tempo em que se radicalizam as medidas de exclusão social e as expressões de profundo preconceito elitista, também sinaliza um quadro perigoso para as elites.
A pós-verdade dos argumentos "objetivos", que sempre protegem aqueles que cometem abusos e assumem posturas sociais desumanas, em que o egoísmo é justificado com desculpas "altruístas" em linguagens "técnicas", "acadêmicas" ou falácias de roupagem "lógica" e motivação "pragmática" (como dizer que o "ruim" é melhor do que o "pior"), permite essa desigualdade de condições, em que os mais egoístas sempre triunfam.
E é mais assustador que o "espiritismo", cada vez mais inclinado à Teologia do Sofrimento - que pede para o sofredor aceitar desgraças e ainda perdoar o algoz pelos abusos cometidos - , consente com os abusos dos egoístas, e ainda cometendo o descaramento de definir o momento atual, de instabilidade social crônica e violenta, como uma "época de regeneração e libertação". Onde, "espíritas"?
É muito fácil criar um desfile de palavras bonitas, pedindo para as pessoas aceitarem o sofrimento, abrirem mão de suas necessidades, achar que viver uma encarnação de desgraças é o caminho para a "libertação na vida futura", enquanto se vê gente abusando e acumulando privilégios em longos anos, sem que os efeitos drásticos de sua ganância se voltem contra ela.
É um surto de posturas egoístas aqui e ali que se acham na liberdade de serem expressos, algo que talvez fizesse sentido nos tempos do nazi-fascismo. que assusta o Brasil. Ver que até uma religião, que se gaba em dizer que "promove a bondade" - uma "bondade" feita mais para impressionar as massas do que para ajudar os necessitados - , está conivente com o tenebroso momento atual do Brasil, é de causar muita aflição.
A mentira tomou o poder, protegendo o egoísmo. Alegações "técnicas" e "objetivas", motivações "pragmáticas", chantagens e humilhações nas redes sociais, tudo isso reflete o porquê de tantos retrocessos. Temos um Brasil que sempre foi ultraconservador e que agora perdeu vergonha de assumir seus preconceitos e perversidades.
Essas pessoas integram elites há tempos privilegiadas ou são seu suporte de apoio nas classes média e baixa. Essa "frente ampla" do retrocesso, capaz de defender a entrega das riquezas brasileiras para magnatas estrangeiros, empobrecendo o país, exerce uma supremacia que deveria ser contestada e combatida sem complacências.
Também temos que revelar que o status quo de juristas, políticos, celebridades, empresários, famosos, acadêmicos e até ídolos religiosos que hoje prevalecem no seu prestígio e poder, são pessoas de visão obsoleta e decadente da realidade.
De Sérgio Moro a Divaldo Franco, passando por Luciano Huck, Henrique Meirelles e Aécio Neves, essa plutocracia não representa o povo e também não representa os novos tempos, mas tão somente paradigmas antigos e interesses estratégicos de grupos sociais privilegiados, que tentaram resistir aos progressos do tempo, mas que, agora em declínio, precisam ser recuperados à força, para retomar a supremacia que nunca foi extinta de fato.
Mas o Brasil ainda terá um preço caro diante dessa arrancada forçada para trás, como numa marcha-a-ré em que o condutor acelera demais sem olhar para trás e acaba provocando um acidente com essa manobra tão arriscada. As convulsões sociais existem, mas elas se voltarão às elites, pelo apetite desmedido de retomar o poder.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
Brasil e o moralismo seletivo de parte da sociedade
Pouco tempo atrás, faleceu, vítima de Acidente Vascular Cerebral, a ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva. Ela era mulher do ex-presidente Lula, uma das pessoas mais hostilizadas e desmoralizadas do país, ele mesmo atingido por boatos violentos e calúnias das mais assustadoras.
O que mais espanta é que, nas redes sociais, muita gente "comemorou" a morte de Marisa Letícia e há quem diga que o marido "está na fila". O ódio seletivo dos anti-petistas revela um país de moralismo tendencioso movido pelas conveniências.
Só para se ter uma ideia, essas mesmas pessoas não se indignam com os escândalos que acontecem no governo Michel Temer e que são de arrepiar os cabelos. A escolha do fluminense Wellington Moreira Franco para um cargo estratégico do atual governo, aparentemente "semelhante" à escolha de Lula como chefe da Casa Civil do governo Dilma Rousseff, não causou a menor revolta popular.
Quando Lula fazia cerimônia de posse para a Casa Civil - ato anulado depois por pressão do juiz Sérgio Moro e decisão de Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal - , criou-se um grande movimento de protesto organizado pelo Movimento Brasil Livre e outros grupos, pedindo a saída de Dilma Rousseff. Naquela época, a nomeação de Lula era vista como uma "afronta ao povo brasileiro", segundo a visão conservadora difundida na época.
Quanto à nomeação de Moreira Franco, falou-se que ele "já estava no governo" e que "era uma formalidade que vai fortalecer a República", ninguém reagiu, e a imprensa apenas deu lacônicas notícias dizendo que o ex-governador do Rio de Janeiro é citado várias vezes em delações da Operação Lava Jato. Os membros do governo Temer usaram como desculpa o fato de que "todos são delatados" e isso "não abala" o cenário político no poder.
Vivemos um período de seletividade ética. As pessoas que "comemoram" morte de petistas nas redes sociais são as mesmas que se arrepiam quando um assassino rico está gravemente doente. Isso segue um padrão moralista que chega a dar tratamentos diferentes a pessoas que, por exemplo, anunciam estar em estágios avançados de câncer.
Se o portador de câncer é um ator de teatro de vanguarda, a sociedade moralista se resigna e até reza para ele sair vivo desta, mas se ele morre, ela se conforma. Se o portador de câncer é um músico de heavy metal, a sociedade moralista já torce para ele "bater as botas" o mais rápido possível. Agora, se ele é um homem rico que cometeu um feminicídio conjugal e está impune, a sociedade moralista se sente ofendida, achando que o câncer é "mimimi" e o rapaz está "firme e forte".
É estranho isso. Afinal, não são pessoas rancorosas e vingativas que pressentem tragédias com feminicidas, que, pelo ato que cometeram - mataram namoradas ou esposas - , sabendo do risco de suas atitudes, são os mais vulneráveis a pressões emocionais e instintivas que é bem menos provável que pessoas assim pudessem viver mais do que 60 anos de idade. Muitos que alertam isso são amigos e pessoas que mais amam os referidos homens, e sabem que homicidas não são invulneráveis.
Pelo contrário, são pessoas que aceitam linchamento de pobres que furtam gado de fazenda, de vendedores ambulantes que, acidentalmente, derrubam o retrovisor de um carrão por um manuseio, sem querer, de sua caixa de produtos, é que acham "preconceituoso" dizer que um feminicida rico, por ter fumado demais ou por aparecer extremamente magro e abatido, pode falecer de repente (e, se falece, não ganha uma nota na imprensa, apesar de ser figura de grande repercussão).
Marisa Letícia, por ser esposa de um carismático líder político que contraria os interesses da mídia dominante, podia, segundo a sociedade moralista seletiva, morrer pelas pressões emocionais que ela não causou e que, a contragosto, contraiu pela campanha caluniosa da grande imprensa e da Internet. Mas um empresário, médico, jornalista ou promotor que assassinou a esposa por ciúmes não pode morrer pelas pressões emocionais causadas pelas consequências de seus próprios atos?
A seletividade moral também faz com que páginas virtuais de jornalismo investigativo e questionamento de valores estabelecidos, porém obsoletos e injustos, tenham mais risco de serem banidas do que páginas de calúnias e ofensas, cujos autores demonstram um claro rancor e se apropriam de maneira leviana e difamatória do material produzido pelas suas vítimas.
No Brasil se vê cada vez mais se multiplicarem casos de pessoas expressando pontos de vista elitistas dos mais ofensivos, algo inimaginável até três anos atrás. Pessoas que já defendem abertamente a redução de salários, a venda das riquezas brasileiras para empresas estrangeiras, o fim da educação pública - a educação gratuita seria um "privilégio" de escolas religiosas comprometidas com o projeto medieval Escola Sem Partido, das neopentecostais às "espíritas" e a privatização de tudo.
Claro que esse reacionarismo sempre esteve latente desde a década de 1990, por conta de retrocessos vividos pela grande mídia - da multiplicação de programas policialescos de TV até o reacionarismo gradual da emissora paulista 89 FM, que virou a "Jovem Pan do rock", sem falar da Rede Globo da revista Veja e outros - , e se intensificou nos tempos do Orkut, com sociopatas entrincheirados até em comunidades como o inócuo "Eu Odeio Acordar Cedo". Mas hoje o pessoal foi longe demais.
Até na busologia existe caso de blogue de calúnias, feito por um ex-funcionário de prefeitura da Baixada Fluminense frustrado de não ter seguido carreira política nem ter integrado o governo do então prefeito carioca Eduardo Paes. O infeliz havia resolvido criar sua página para, de etapa em etapa, desfazer seus desafetos um a um até sobrar ele para comandar a busologia carioca.
Caluniar virou moda, para uma sociedade que mal consegue digerir conceitos de moralismo repressivo com os de liberdade de expressão. Essa má digestão que gera uma disenteria moral violenta, reflete o medo que uma parcela da sociedade tem com as mudanças nos tempos e com a perda total de paradigmas e privilégios que faziam mais sentido em meados dos anos 1970.
O medo de ver um outro tipo de presidente da República no poder. Ou o medo de ver gente menos arrivista passando a perna nos ambiciosos doentios. Ou ver aquele feminicida rico e relativamente jovem, que acabou de sair da cadeia, ser encontrado morto em casa porque sofreu um infarto fulminante por ter visto, na televisão, uma antiga canção que embalava o namoro dele com sua vítima. Ou o medo de ver outros valores mais dignos derrubando privilégios antes imbatíveis.
E o pior é que, na religião, como as vingativas seitas neopentecostais e o complacente "espiritismo", nota-se mais um consentimento a esse cenário de horror do que mesmo lamento e pesar. Os neopentecostais preocupados em voltar aos tempos bíblicos de um Deus "genocida" e os "espíritas" pedindo para os sofredores aceitarem e até agradecerem algozes pelas desgraças vividas. Para piorar, o juízo de valor "espírita" de supor uma "vida passada" ao sofredor é de um cinismo chocante.
Afinal, os "espíritas" simplesmente emporcalharam o legado de Allan Kardec, com um roustanguismo muito mal disfarçado com pretenso Espiritismo de conceitos igrejeiros e uma concepção medieval e ultraconservadora de "bondade", que é restrita ao assistencialismo. Uma "caridade" que só serve para justificar a produção de mensagens fake "espirituais" e a divulgação de conceitos deturpados que envergonhariam Kardec.
Até pelas responsabilidades que deveria assumir na prática, e não numa teoria marcada pelo balé de belas palavras, os "espíritas" estão em situação ainda mais grave, pelas contradições que esconde por baixo do tapete, enquanto aguardam que os críticos da deturpação espírita se retratem e aceitem os "médiuns" dotados de culto à personalidade como "espíritas autênticos, mas mal informados", apenas pelo pretexto da filantropia e das palavras bonitas.
Se a bondade se reduz a essa exploração feita pelo prestígio religioso, com simulacros de filantropia que ajudam muito pouco e só servem para dar cartaz ao "benfeitor" da ocasião, às custas da comoção coletiva e pelo mel das palavras, então não conseguiremos sair desse cenário calamitoso em que se vive o país, marcado pela raiva e pelo moralismo seletivo.
sábado, 4 de fevereiro de 2017
Brasil precisa de um freio para deter as elites reacionárias
O reacionarismo social está intenso e o grau de humanidade zero se observa em pessoas que se dizem instruídas, de boa posição social e cujas vidas são conduzidas pela religiosidade. O terrível cenário dos últimos meses, em que as elites começaram a despejar preconceitos sociais escancarados, revela que o Brasil de Michel Temer é, na verdade, um gigantesco pesadelo social.
Temos moralistas sem moral, defendendo redução de salários, fim dos serviços públicos e gratuitos e que dão pitacos até nas relações amorosas dos outros. Pessoas que já não medem escrúpulos em defender a escravidão, o sucateamento das instituições públicas, em defender que as riquezas brasileiras sejam entregues aos estrangeiros etc. Vivemos um surto reacionário no qual as elites acham que podem fazer o que querem.
Empresários que já não escondem seus surtos elitistas. Juristas que não escondem seu moralismo medieval. E há até mesmo religiosos, como os "espíritas", que pedem para os sofredores aguentarem seu sofrimento "sem queixumes" e, de forma bem suspeita, "misericórdia" para os algozes que cometem seus abusos, porque estes "um dia terão o que merecem" (provavelmente na próxima encarnação - é o "fiado espírita").
Que a sociedade elitista tinha lá seus surtos de violência, como os assassinatos do campo e os crimes de feminicídio, movidos respectivamente pelo "direito à propriedade" e "legítima defesa da honra", é óbvio, mas hoje o reacionarismo social está indo longe demais.
Pessoas que pedem morte a petistas - reproduzimos, via Diário do Centro do Mundo, uma seleção de comentários no Facebook pedindo a morte da ex-primeira-dama Marisa Letícia, mulher do ex-presidente Lula, que sofreu acidente vascular cerebral - , se arrepiam quando se fala que um rico homem que matou a própria esposa ou namorada por ciúme doentio, possa, pelas próprias pressões emocionais que sente, sofrer um infarto fulminante, sobretudo antes de 50 anos.
A título de exemplo, quando se lembrou do antigo crime feminicida do empresário Doca Street (que matou a socialite Ângela Diniz em Búzios, por ciúme doentio), que no final do ano passado completou 40 anos, a imprensa relembrou o fato sem esclarecer os leitores se Doca morreu ou continua vivo.
Há rumores de que Doca ainda está vivo, mas realiza tratamento contra um câncer, contraído pelo seu passado de fumante inveterado. Por ironia, Doca atingiu em 2016 a mesma idade do músico canadense Leonard Cohen, 82 anos, que, depois que lançou seu derradeiro álbum, se declarou "pronto para morrer". E morreu. Independente do paradeiro de Doca, é doloroso demais para a sociedade patriarcalista saber que ele pode morrer um dia. Certos brasileiros "não podem morrer".
Há um grande medo, quando a tragédia chega nas portas das elites. O homem que é capaz de cercar sua própria esposa ou namorada num quarto doméstico para alvejá-la a tiros ou matá-la a facadas, é o mesmo que tem medo de morrer de repente, seja no leito de um hospital, seja infartando em casa, ou caindo na rua por algum mal súbito.
As mulheres podem ser mortas antes dos 40 anos ou até dos 30 ou 25, mas seus assassinos não podem morrer antes dos 85. Morrer aos 50, então, soa "ofensivo". Estes podem "reconstruir" suas vidas - na verdade, uma recuperação inútil de atributos materiais, uma reconstrução de suas vaidades e privilégios mundanos - , mas suas vítimas tiveram encarnações para sempre extintas, cabendo reencarnar do zero, porque o mundo nunca permanece o mesmo.
Isso mostra o tom da sociedade moralista em que vivemos. Uma sociedade surreal que já aceita que se mantenham as injustiças sociais por possuírem uma visão medieval de justiça social, revela o profundo atraso em que se vive o Brasil. Há espíritos atrasados que, dependendo do tipo, pensam que ainda vivem nos EUA macartistas ou no auge do Império Romano.
As elites no Brasil se mostram mofadas, emboloradas. Fazem a chamada "revolta do bolor", no qual há a indignação do bolor contra o fungicida. O Brasil sempre teve como cacoete negociar o novo com os padrões velhos, toda novidade era sempre filtrada por aspectos velhos, pois, em vez do novo combater o velho, o novo se adapta e se molda de acordo com o velho.
É isso que faz com que, por exemplo, o "espiritismo" brasileiro tenha se moldado não no cientificismo de legado iluminista de Allan Kardec, mas pelo Catolicismo jesuíta do Brasil colonial, herdeiro do Catolicismo português, de orientação medieval. Embora os "espíritas" tentem alegar que "repudiam" a teocracia medieval católica, demonstram terem herdado seus postulados. Um livro como Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho tem conteúdo puramente medieval.
O que ocorreu foram adaptações, como permitir que a expressão do pensamento científico e intelectual se limitasse às suas especialidades, ou agisse para confirmar ou sustentar as teses igrejeiras e misfiticadoras dos "espíritas". Quando a ciência se ajoelha aos pés do igrejismo "espírita", tudo bem. Quando se submete a apoiar a figura festejada, porém retrógrada, de Chico Xavier, os "espíritas" batem palmas para os cientistas e intelectuais.
Mas quando o "espiritismo" recebe, da Ciência e das demais atividades intelectuais, uma série de questionamentos sobre suas práticas e dogmas, investigando irregularidades e tudo, os "espíritas" mostram seu lado cruelmente medieval, criminalizando a ciência através de juízos de valor perversos por meio de expressões como "overdose de raciocínio" e "tóxico do intelectualismo".
A sociedade precisa se renovar e as estruturas de status quo estão sendo extremamente caducas, podres, obsoletas. Algum freio tem que ser imposto às elites que, protegidas pela "superioridade" material do dinheiro, da fama, do poder político, da posição empresarial, do diploma tecnocrático e do prestígio religioso, estão cometendo seus abusos e suas visões retrógradas da sociedade, tratando valores perecidos como se fossem "coisa nova".
Do empresário Flávio Rocha, da rede de lojas Riachuelo, que defendeu a precarização do mercado de trabalho, à pediatra "espírita" que se recusou a atender uma criança vítima de estupro alegando "resgates espirituais", passando por internautas reacionários que existem aos montes nas redes sociais, é preciso uma sacudida para evitar que tais abusos sejam cometidos.
Os retrocessos do Brasil são excessivos e estão deixando o resto do mundo de cabelos em pé. Mas pelo menos acabou-se a ilusão do "Coração do Mundo", porque, a dois anos da "data-limite", não há meios do Brasil retomar as condições determinadas para tal supremacia político-religiosa. Ainda bem. Afinal, queremos um Brasil mais justo, e não mais um império teocrático a mandar no planeta.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
Brasil, retrocessos e 'cyberbullying'
O Brasil vive um contexto em que os detentores de práticas reacionárias de todo tipo, dos políticos envolvidos com o governo Michel Temer (inclusive o próprio presidente) aos valentões da Internet, chamados de cyberbullies, se acham no pleno controle de seus atos mesquinhos, achando que, à menor adversidade, podem dar a volta por cima e até cometer represálias.
Isso é muito preocupante, sobretudo num cenário de estabilidade forçada em que o jogo de interesses tudo faz para fazer prevalecer e permanecer um sistema de privilégios de poder e de valores conservadores ou retrógrados em que seus detentores parecem gozar de imunidade e impunidade.
Escândalos graves ocorrem, confusões e impasses atingem tais pessoas, e tudo depois é abafado ou atenuado com a blindagem garantida pela ilusão que varia desde a posição social, a brecha das leis e a própria privacidade da aparente segurança no lar.
No caso do cyberbullying, isso faz de seu praticante um pretenso "rei" da Internet. Ele comanda campanhas de ataque contra alguém que simboliza um ponto de vista ou mesmo uma posição social ou etnia que não corresponde ao que ele gosta. Através de uma comunidade na qual ele participa, qualquer uma - pode ser "Eu Odeio Acordar Cedo", "Eu Curto Sertanejo" ou "Eu Estou com a Galera na Balada" - ele chama outros membros associados para participar de uma humilhação.
É aí que, por exemplo, espaços de recados da vítima viram falsos chats em que primeiro são escritos comentários irônicos, que depois "evoluem" para ofensas e agressões para terminar com ameaças de morte ou coisa parecida.
Não obstante, o líder de tais agressões organiza um blogue ofensivo, no qual usurpa o acervo pessoal da vítima - como textos de blogues ou fotos pessoais - para reproduzi-los indevidamente para fins de calúnia e difamação, escrevendo comentários ofensivos ou fazendo paródias com fim claramente depreciativo.
A ilusão da impunidade faz com que o agressor, quando é denunciado por tal página ofensiva, reaja ainda com gozações, e, sabendo do endereço da vítima, visita a cidade desta para fazer ameaças, pouco se importando se sua valentia-ostentação desperte a desconfiança de milicianos ou traficantes que fazem ponto no local e confundem o cyberbully com um membro de uma quadrilha rival.
Crente de que pode tudo, o valentão digital mantém no seu ciclo vicioso. Cria textos de ofensa, é criticado e denunciado com isso, e reage com mais textos de ofensa. Quando denunciado com mais intensidade, vai para a cidade da vítima fazer ameaças. e fica repetindo tudo como num disco riscado.
Estamos acostumados a achar e admitir que mudanças só tendem para o pior e tragédias e fracassos são sempre para pessoas humanistas e de visão mais progressista. O Brasil tem o vício de puxar as coisas para trás, proteger valores ultraconservadores ainda que sob o preço do sangue alheio. E garantir abusos de pessoas dotadas de algum privilégio ou influência social.
Hoje esses valores estão em crise e são essas pessoas que surtam. Mais do que propagadores do ódio e praticantes de desordens nas redes sociais, os cyberbullies são "patrulheiros" de valores antiquados ou pré-estabelecidos, que correm o risco de soar obsoletos por causa das campanhas na Internet.
Daí que páginas ofensivas atingem porta-vozes de causas humanistas ou de visões questionadoras sobre o "estabelecido". enquanto os agressores acham que estão protegidos. A verdade é que isso exige que as leis devam ser revistas, criando punições duras na Internet.
Tudo isso tem que ser feito não para reprimir aqueles que trazem informações que vão contra dados oficiais e nem sempre verídicos ou transparentes, mas para intimidar quem realmente queira depreciar e ofender quem discorda do "estabelecido", mesmo usando como pretexto alegações morais ou criem farsas como parodiar e depois criar falsas denúncias contra a blogueira Lola Aronovich.
A verdade, também, é que muitos dos cyberbullies são empresários, políticos, celebridades, busólogos, membros de fãs-clubes de ídolos popularescos, produtores de rádios, filhos de advogados e juristas, entre outros de alguma forma ou de outra alinhados com o esquema de poder. Alguma coisa tem que ser feita para dar um freio a esses abusos, pois as pessoas detentoras de alto status social já estão indo longe demais com seus interesses e opiniões retrógrados.
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
A preocupante fúria dos "valentões" da mídia e da Internet
Já teve página satírica do "Escreva Lola Escreva" chamado "Lola Escreva Lola". Tem blogue de "comentários críticos" feito por busólogo psicótico querendo brigar com todo mundo.Tem página "jornalística" chamada "O Implicante". Canal de youtuber chamado "Mamãe Falei". Exércitos de reaças nas comunidades específicas do Facebook. Mentiras que criminalizam Lula nos vídeos do YouTube que se multiplicam feito cupins em madeira ruim.
O reacionarismo na Internet, a onda de ódio que se espalha nas redes sociais mas possui também ecos na grande imprensa. Veículos como a Globo News e as revistas Veja e Isto É também possuem jornalistas com essa mentalidade irresponsável. Se há um Reinaldo Azevedo e um Diogo Mainardi rosnando na mídia, o sociopata da busologia encontra estímulo para fazer sua paginazinha de "comentários críticos" para montar aos poucos sua coleção de desafetos.
Isso é terrível. O Brasil tem um cenário cultural tenebroso e chegou a um quadro político catastrófico. O país se tornou mais vulnerável a retrocessos, e mesmo depois da redemocratização em 1985 o Brasil nunca conseguiu recuperar plenamente os progressos sócio-culturais e econômicos sonhados duas décadas antes. O que ocorreu, até maio de 2016, foram tentativas, algumas até bem sucedidas, mas depois ceifadas pelo golpe político que assaltou o poder.
O que chama a atenção é que boa parte desses brutamontes digitais é religiosa. Em alguns casos, é uma "galera irada" que vive entre o porre de cerveja e a leitura da Bíblia. Entre o moralismo extremo e punitivo e a libertinagem irresponsável e impune, eles agem como uma grande ameaça, praticamente chegando ao poder com seus preconceitos sociais e seus abusos desmoralizantes.
O Brasil vive uma crise de valores e muitos desses agressores, na verdade, fazem "patrulha ideológica" para proteger valores ou reputações que estão ameaçados. Geralmente estão associados a valores, personalidades, abordagens ou atitudes que eram considerados dominantes antes da expansão da liberdade de expressão na Internet.
Da pintura padronizada em frotas de ônibus à venda do pré-sal do petróleo aos estrangeiros, passando por "mulheres-frutas", cantores estrangeiros dos anos 1970, jovens atores de novelas da Globo, times de futebol ou figuras como o reacionário Jair Bolsonaro, a "patrulha" ainda segue com uma agenda cheia de preconceitos sociais que antes imaginávamos superados ou intimidados.
As pessoas hoje não escondem que defendem a redução de salários, a venda de nossas riquezas para o exterior, o fim da escola pública, a escravização do trabalhador, a depreciação de negros, índios e pessoas LGBT, e se expressam abertamente não só na Internet, como em vários eventos públicos, ainda que em bastidores. Vide pessoas como o diretor teatral Cláudio Botelho, o empresário das lojas Riachuelo, Flávio Rocha, e o publicitário Nizan Guanaes.
O Brasil está doentio e não é por falta de religião. Pelo contrário, é a overdose de religião, combinada a uma contraditória coexistência de libertinagem e autoritarismo, O "espiritismo" brasileiro não deixa também de fazer sua parte, sobretudo quando seus palestrantes pedem para os sofredores aceitarem o sofrimento e perdoarem os abusos dos algozes, como se esses atos de complacência às injustiças sociais significassem alguma possibilidade de evolução humana. Só que não.
domingo, 29 de janeiro de 2017
Brasil é "balneário" para espíritos atrasados?
O Brasil é atrasado em todos os sentidos. Na complacência com os crimes de gente rica e na forma um tanto paternalista e espetacularizada de "caridade", observa-se um país viciado em muitos retrocessos. Os retrocessos são tantos que, no âmbito econômico, já assustam até os tecnocratas do conservador Fundo Monetário Internacional, boquiabertos com o radicalismo ultraconservador do presidente Michel Temer e sua "equipe de notáveis".
Nosso país está tão atolado em visões reacionárias ou retrógradas - que veem as necessidades humanas sob a ótica "pragmática" (limitada a motivos utilitaristas, como a mera sobrevivência, pouco importando desejos diferenciados de qualidade de vida e valorização do prazer) e os méritos mediante a noção material de relações de hierarquia - que o mundo fica estarrecido diante do Brasil que parece ter se perdido em algum período da Idade Média.
Preconceitos sociais liberados e trazidos por gente de elite, antes considerada "gabaritada". Veículos de mídia perdidos entre a libertinagem sexual quase troglodita e o moralismo punitivista severo. Aliás, a mídia que temos - Globo, Abril, Folha, Estadão, Jovem Pan etc, sem esquecer regionais como a gaúcha RBS e a baiana Metrópole - é simplesmente tão atrasada que até os sucessos musicais mais contemporâneos soltam um forte cheiro de mofo.
Tudo está velho no Brasil e a maioria das pessoas presa na zona de conforto de convicções, temores e neuroses que não fazem mais sentido. Paradigmas de valores morais, religiosidade, justiça social, punições humanas, méritos de toda espécie, parecem terem regredido para tempos de barbárie ou de profundo conservadorismo sócio-político na humanidade, deixando o Brasil numa preocupante situação de decadência social, que atinge até boa parte dos "esclarecidos".
Só para sentir o estranho moralismo em que vivemos, uma parcela da sociedade chega a ter medo de ver feminicidas ricos morrerem de repente ou então seitas religiosas entrarem em falência - os "espíritas", então, devem estar tremendo diante da crise de sua doutrina que só se agrava - , e a ignorância generalizada cria uma moral um tanto cambaleante que criminaliza ou inocenta conforme as conveniências.
O Brasil é um "balnerário" para espíritos atrasados? O que vemos são ecos diversos de sociedades ou grupos retrógrados: o Brasil foi tomado de patrícios do Império Romano, de medievais, de nazi-fascistas, de seguidores do apartheid, de macartistas, de absolutistas franceses. Até parece que, desde 1500, nosso país se tornou o depósito de lixo da humanidade.
É certo que o Brasil teve essa "missão" a partir da ideia concebida pelas autoridades portuguesas de mandar para longe do território lusitano prostitutas, ladrões, assassinos, desordeiros e loucos, que passaram a viver no território brasileiro e, provavelmente, a atravessar os séculos reencanando de maneira viciada, sempre de acordo com seus caprichos pessoais, ao mesmo tempo obscurantistas e extravagantes.
O Brasil é o sexto país mais ignorante do planeta, ocupando o primeiro lugar entre os sul-americanos. A estupidez viciada se reflete nas redes sociais, em que o ultraconservadorismo social é notado até em pessoas ditas "rebeldes", aparentemente modernas, mas cujas ideias que defendem deixariam um fidalgo medieval cair da cadeira de tão chocado.
Já tivemos tempos ultraconservadores que, todavia, obedeciam a uma lógica social e a uma certa coerência de contexto. Se abusos havia, eles obedeciam a um estágio de evolução institucional, que ainda estava atrasado. Se havia elitismos, eles pelo menos se manifestavam de maneira mais sutil ou controlada.
Hoje todos parecem ter surtado de vez. Práticas de clientelismo político que só seriam normais na República Velha estão sendo retomadas de forma escancarada pelo governo Michel Temer. O descaso político ficou institucionalizado, com os cortes de investimentos em Saúde e Educação, antes frutos da omissão política, virando leis de emenda constitucional. As empresas já estão livremente demitindo pessoas e querendo reduzir salários, sob a desculpa de se adaptar aos "novos (?!) tempos".
O machismo, não bastasse o medo de ver seus membros mais violentos "vestirem o paletó de madeira" (por mais que eles fumem ou usem drogas), tem também o dado surreal de contrapôr as mulheres-objetos com as "rainhas do lar", atribuindo às primeiras um falso feminismo, muito mal justificado pela "liberdade do corpo" e muito mal expresso por uma aparente solteirice das musas siliconadas.
O próprio "espiritismo" acompanha o "espírito do tempo" (olhe o trocadilho) e faz apelos para os sofredores aceitarem o sofrimento, não reclamarem e encararem tudo com fé e esperança. Expressando maior identificação com a Teologia do Sofrimento católica, o "movimento espírita", com tais apelos, demonstra subliminarmente seu apoio ao retrógrado governo Temer.
O Brasil está caótico, institucionalmente inseguro, socialmente viciado. O país vive uma catástrofe social sem precedentes, e as pessoas não percebem, como aqueles doentes da Síndrome de Riley-Day que são incapazes de sentir qualquer dor. Parecem até felizes, rindo dos problemas da vida. Não é à toa que, levando isso às últimas consequências, o Estado do Rio de Janeiro é agora conhecido como "Riley-Day Janeiro".
Isso é um alerta terrível. E já que fazem quatro anos de tragédia com a Boate Kiss, fruto da imprudência e intransigência de vários envolvidos - empresários, autoridades e banda musical, que soltou rojões que causaram o terrível incêndio - , quantas Boates Kiss vão acontecer, quantos voos da Chapecoense ocorrerão, para mostrar às pessoas que nem tudo é sonho e fantasia e que o Brasil está no caos e na desordem social?
Politicamente, o governo Temer é uma sucessão interminável de confusões, ameaças, retrocessos, recuos e tudo de ruim. É uma tragicomédia em que o lado trágico ainda é mais forte. E não é só a tragédia de Teori Zavascki, que, como ministro do STF e relator da Operação Lava Jato, deixou a seus envolvidos uma complicada lacuna, mas a tragédia da "normalidade" de seu governo, com ministros-problema como Eliseu Padilha, José Serra, Alexandre de Moraes e outros.
A grande mídia está cada vez mais retrógrada, com uma cultura musical plenamente abominável - em que os bregas mais antigos, como "pagodeiros" e "sertanejos" dos anos 90, agora são jogados para cantar clássicos da MPB, num oportunismo canastrão e pedante - cujo "maior acontecimento" é o Big Brother Brasil, já na 17ª edição.
Tudo isso revela ecos de todo tipo, desde a religiosidade medieval que faz muitos deslumbrados endeusarem Chico Xavier com uma emotividade piegas, até o erotismo compulsivo de uma Mulher Melão ou Solange Gomes que servem para as masturbações de machistas juvenis sexualmente descontrolados.
Até parece que o Brasil virou um "hotel" para espíritos retrógrados que perderam a sua razão de ser em outras áreas do planeta, e que agora tentam fazer o feitiço do tempo forçando o país a regredir mais ainda, a andar para trás desafiando as transformações dos tempos e criando um autismo isolacionista no qual uma considerável parcela de brasileiros ainda esnoba o resto do mundo, confundindo o atraso em que vive o Brasil com "originalidade". Coisa de quem pensa retrógrado.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
Religião, apelo à emoção e estrelato
MICHAEL JACKSON, SÍMBOLO DA MITIFICAÇÃO HUMANA NA MÚSICA POP.
As pessoas ainda precisam aprender a respeito de sua emotividade e das noções idealizadas de "bondade", voltadas mais a uma estória de fadas do que de um processo concreto de ajuda ao próximo. Precisam ver que, por exemplo, não é só a cultura pop que pega emprestada da religião o ato de adorar os ídolos, mas o caminho inverso.
Não é preciso aqui detalhar paralelos de Michael Jackson com astros da religiosidade como Madre Teresa de Calcutá e Francisco Cândido Xavier. Eles também são construídos como astros pop, mas uma série de ilusões garantidas pelo mito da religiosidade omitem esse processo e fazem com que tudo pareça espontâneo e natural.
No "espiritismo" brasileiro, então, nem se fala. Além da ilusão de religiosidade que garante, aos olhos da Terra, o Paraíso a determinadas figuras "sagradas" - que no retorno ao mundo espiritual levam um choque ao saber que tal "oportunidade", tida como certa, não se deu - , há ainda outra ilusão resultante do hábito do brasileiro de dissimular as coisas: a ilusão de uma "racionalidade" e "objetividade" que não existem.
Isso garante uma dupla ilusão. A ilusão da religiosidade, que garante aos deslumbrados da Terra a "garantia" de que seus ídolos irão para um "mundo perfeito", após o fim da vida. E a ilusão da racionalidade, que dá um verniz de "objetividade" e "lógica" nas paixões da fé religiosa que o "espiritismo" copia da Igreja Católica.
SUPERFICIALISMO
A revista Seleções, edição brasileira da conservadora revista estadunidense Reader's Digest, em sua edição de janeiro de 2017 publicou um artigo de Sanghamirta Chakraborty, intitulado "Toque de Mãe", sobre uma visita feita a Madre Teresa de Calcutá à residência dela, na cidade indiana do seu famoso codinome, em 1989. A visita teria sido feita por ela para acompanhar uma amiga que precisava entrevistá-la para uma reportagem.
O artigo não traz novidades e apenas reforça a mitificação em torno de Madre Teresa. É algum daqueles relatos que, se envolvessem, em vez de ídolos religiosos, astros da cultura pop, como atores e cantores, seriam apenas reportagens ou artigos comuns, a ocupar as biografias dos idolatrados. Mas como se tratam de ídolos religiosos, cada relato desses é visto como atestado de pretensa superioridade espiritual destas personalidades.
Um trecho do artigo segue aquela visão deslumbrada de justificar as coisas com nada. É o deslumbramento religioso que faz as pessoas afirmarem alguma grande virtude sem trazer informações objetivas nem precisas, dando declarações que não vão além do "achismo" e, lembrando o caso do promotor brasileiro Deltan Dallagnol, da "força-tarefa" da Operação Lava Jato, é feito "sem provas, mas com muita convicção". Vejamos:
"(...) Sempre morei nesta cidade em que Madre Teresa adotou como sua, na qual construiu uma instituição que salvou milhões, lhes deu uma vida decente ou dignidade da morte. Éste é o lugar de onde ela inspirou milhões de pessoas a serem voluntárias e fazerem doações à sua causa. Eis aqui uma mocinha americana que viajou milhares de quilômetros para vê-la, E eu, eu estou aqui o tempo todo.
É claro que Madre Teresa também já teve seu quinhão de críticas, geralmente de quem vê um 'plano' por trás da ajuda aos pobres. Mas não foi por isso que não tentei. Li sobre seu trabalho e vi na televisão. Mas nunca me passou pela cabeça vir visitá-la".
A narração da visita apenas parecia uma conversa amistosa que se encerrou com as tais "bênçãos". E um relato semelhante se observa através das respostas de internautas a um risível artigo de "Filosofia Imortal" sobre uma improcedente "confirmação" de "previsões" de Chico Xavier em 1969, sobre visitas de extra-terrestres em bases estadunidenses ocorridas antes, em 1964 e 1967:
"Eu tive a honra de conhecer pessoalmente o Chico Xavier, um homem simples, sábio e caridoso, talvez o mais caridoso que já conheci em todas as historias de pessoas em nossa era, faturou milhões com sua obra e doou cada centavo. Tenho visto simpatias, previsões e muitos outros relatos falsos que são atribuídos ao Chico,contrariando exatamente um dos pilares da doutrina que é a desmistificação e a fé com raciocínio. Muitos falam de Chico sem nenhum embasamento da realidade do que ele foi e representa para nossa evolução de caráter, fraternidade e humildade. Não é atoa que ele se considerava apenas um cisco no processo de evolução necessária para chegar a Jesus. Quer entender Chico? Então esqueça os fenômenos e apegue-se a caridade!".
O deslumbrado chiquista fala que tenta dar um verniz "realista" ao relato do contato pessoal com o anti-médium mineiro, criando falsas argumentações, pois trata Chico, comprovado deturpador da Doutrina Espírita, como se fosse "espírita autêntico" e, confuso, o internauta se apega a mitos, se recusando a questionar ou analisar fenômeno.
Esse é um tipo de sujeito que põe o mito acima do ser humano. Mas tenta fazer rodeios para que sua visão seja a mais "realista" e "consistente". Diferente dos católicos comuns, que ao menos assumem estarem tomados de emoção, os "espíritas" tentam parecer "racionais", "objetivos" e "coerentes". Fazem todo um engodo de argumentos "objetivos" para tudo terminar numa reles emotividade religiosa.
Imaginamos se esse contato pessoal com ídolos religiosos também não mostra as mesmas ilusões que o contato com um astro da música pop ou do cinema de Hollywood. Nestes casos, há um distanciamento entre a imagem idealizada da celebridade e a sua vida pessoal, e, embora as fantasias dos fãs sejam grandes, há uma consciência, por menor que seja, desse distanciamento, já que o admirador não faz parte da vida pessoal da celebridade, sendo quase sempre um estranho.
No contado com ídolos religiosos, porém, o devoto religioso tem a ilusão de que "furou o cerco" do mito e "penetrou na profundidade da realidade". O devoto acredita que, conhecendo pessoalmente o ídolo religioso, "penetra na sua intimidade" e se torna "beneficiado" pelo que entende como a "realidade do bem", ignorando que ele entrou em contato não com uma "figura humana", mas como um mito, com todo o seu distanciamento que não pode ser subestimado.
Temos que analisar os escaninhos da emotividade religiosa, dos apelos à emoção e das pós-verdades. E também a forma como se vê a "bondade" e a "caridade", quando se exalta, até com certo exagero, atividades que apenas ajudam muito pouco, dando ao "benfeitor" um cartaz e uma glorificação que estão aquém aos resultados de sua pálida filantropia.
A roupagem "realista" do "espiritismo" brasileiro mais parece um segundo verniz para o da devoção religiosa. Se esta já não estabelece diferença entre mito e realidade, aquela, concordando com a primeira, vai mais além, não estabelecendo diferença entre emoção e razão.
O deslumbramento dos católicos já é um problema que o apelo à emoção, ou o Argumentum Ad Passiones, se torna uma falácia bem sucedida. Entre os "espíritas" é um problema mais grave ainda, pois se protege sob a máscara da "fé raciocinada", desculpa para que mitos sejam sustentados por argumentos falsamente objetivos. É esse deslumbramento, que se apoia no pretexto da "bondade", que protege os deturpadores que corromperam o trabalhoso legado de Allan Kardec.
As pessoas ainda precisam aprender a respeito de sua emotividade e das noções idealizadas de "bondade", voltadas mais a uma estória de fadas do que de um processo concreto de ajuda ao próximo. Precisam ver que, por exemplo, não é só a cultura pop que pega emprestada da religião o ato de adorar os ídolos, mas o caminho inverso.
Não é preciso aqui detalhar paralelos de Michael Jackson com astros da religiosidade como Madre Teresa de Calcutá e Francisco Cândido Xavier. Eles também são construídos como astros pop, mas uma série de ilusões garantidas pelo mito da religiosidade omitem esse processo e fazem com que tudo pareça espontâneo e natural.
No "espiritismo" brasileiro, então, nem se fala. Além da ilusão de religiosidade que garante, aos olhos da Terra, o Paraíso a determinadas figuras "sagradas" - que no retorno ao mundo espiritual levam um choque ao saber que tal "oportunidade", tida como certa, não se deu - , há ainda outra ilusão resultante do hábito do brasileiro de dissimular as coisas: a ilusão de uma "racionalidade" e "objetividade" que não existem.
Isso garante uma dupla ilusão. A ilusão da religiosidade, que garante aos deslumbrados da Terra a "garantia" de que seus ídolos irão para um "mundo perfeito", após o fim da vida. E a ilusão da racionalidade, que dá um verniz de "objetividade" e "lógica" nas paixões da fé religiosa que o "espiritismo" copia da Igreja Católica.
SUPERFICIALISMO
A revista Seleções, edição brasileira da conservadora revista estadunidense Reader's Digest, em sua edição de janeiro de 2017 publicou um artigo de Sanghamirta Chakraborty, intitulado "Toque de Mãe", sobre uma visita feita a Madre Teresa de Calcutá à residência dela, na cidade indiana do seu famoso codinome, em 1989. A visita teria sido feita por ela para acompanhar uma amiga que precisava entrevistá-la para uma reportagem.
O artigo não traz novidades e apenas reforça a mitificação em torno de Madre Teresa. É algum daqueles relatos que, se envolvessem, em vez de ídolos religiosos, astros da cultura pop, como atores e cantores, seriam apenas reportagens ou artigos comuns, a ocupar as biografias dos idolatrados. Mas como se tratam de ídolos religiosos, cada relato desses é visto como atestado de pretensa superioridade espiritual destas personalidades.
Um trecho do artigo segue aquela visão deslumbrada de justificar as coisas com nada. É o deslumbramento religioso que faz as pessoas afirmarem alguma grande virtude sem trazer informações objetivas nem precisas, dando declarações que não vão além do "achismo" e, lembrando o caso do promotor brasileiro Deltan Dallagnol, da "força-tarefa" da Operação Lava Jato, é feito "sem provas, mas com muita convicção". Vejamos:
"(...) Sempre morei nesta cidade em que Madre Teresa adotou como sua, na qual construiu uma instituição que salvou milhões, lhes deu uma vida decente ou dignidade da morte. Éste é o lugar de onde ela inspirou milhões de pessoas a serem voluntárias e fazerem doações à sua causa. Eis aqui uma mocinha americana que viajou milhares de quilômetros para vê-la, E eu, eu estou aqui o tempo todo.
É claro que Madre Teresa também já teve seu quinhão de críticas, geralmente de quem vê um 'plano' por trás da ajuda aos pobres. Mas não foi por isso que não tentei. Li sobre seu trabalho e vi na televisão. Mas nunca me passou pela cabeça vir visitá-la".
A narração da visita apenas parecia uma conversa amistosa que se encerrou com as tais "bênçãos". E um relato semelhante se observa através das respostas de internautas a um risível artigo de "Filosofia Imortal" sobre uma improcedente "confirmação" de "previsões" de Chico Xavier em 1969, sobre visitas de extra-terrestres em bases estadunidenses ocorridas antes, em 1964 e 1967:
"Eu tive a honra de conhecer pessoalmente o Chico Xavier, um homem simples, sábio e caridoso, talvez o mais caridoso que já conheci em todas as historias de pessoas em nossa era, faturou milhões com sua obra e doou cada centavo. Tenho visto simpatias, previsões e muitos outros relatos falsos que são atribuídos ao Chico,contrariando exatamente um dos pilares da doutrina que é a desmistificação e a fé com raciocínio. Muitos falam de Chico sem nenhum embasamento da realidade do que ele foi e representa para nossa evolução de caráter, fraternidade e humildade. Não é atoa que ele se considerava apenas um cisco no processo de evolução necessária para chegar a Jesus. Quer entender Chico? Então esqueça os fenômenos e apegue-se a caridade!".
O deslumbrado chiquista fala que tenta dar um verniz "realista" ao relato do contato pessoal com o anti-médium mineiro, criando falsas argumentações, pois trata Chico, comprovado deturpador da Doutrina Espírita, como se fosse "espírita autêntico" e, confuso, o internauta se apega a mitos, se recusando a questionar ou analisar fenômeno.
Esse é um tipo de sujeito que põe o mito acima do ser humano. Mas tenta fazer rodeios para que sua visão seja a mais "realista" e "consistente". Diferente dos católicos comuns, que ao menos assumem estarem tomados de emoção, os "espíritas" tentam parecer "racionais", "objetivos" e "coerentes". Fazem todo um engodo de argumentos "objetivos" para tudo terminar numa reles emotividade religiosa.
Imaginamos se esse contato pessoal com ídolos religiosos também não mostra as mesmas ilusões que o contato com um astro da música pop ou do cinema de Hollywood. Nestes casos, há um distanciamento entre a imagem idealizada da celebridade e a sua vida pessoal, e, embora as fantasias dos fãs sejam grandes, há uma consciência, por menor que seja, desse distanciamento, já que o admirador não faz parte da vida pessoal da celebridade, sendo quase sempre um estranho.
No contado com ídolos religiosos, porém, o devoto religioso tem a ilusão de que "furou o cerco" do mito e "penetrou na profundidade da realidade". O devoto acredita que, conhecendo pessoalmente o ídolo religioso, "penetra na sua intimidade" e se torna "beneficiado" pelo que entende como a "realidade do bem", ignorando que ele entrou em contato não com uma "figura humana", mas como um mito, com todo o seu distanciamento que não pode ser subestimado.
Temos que analisar os escaninhos da emotividade religiosa, dos apelos à emoção e das pós-verdades. E também a forma como se vê a "bondade" e a "caridade", quando se exalta, até com certo exagero, atividades que apenas ajudam muito pouco, dando ao "benfeitor" um cartaz e uma glorificação que estão aquém aos resultados de sua pálida filantropia.
A roupagem "realista" do "espiritismo" brasileiro mais parece um segundo verniz para o da devoção religiosa. Se esta já não estabelece diferença entre mito e realidade, aquela, concordando com a primeira, vai mais além, não estabelecendo diferença entre emoção e razão.
O deslumbramento dos católicos já é um problema que o apelo à emoção, ou o Argumentum Ad Passiones, se torna uma falácia bem sucedida. Entre os "espíritas" é um problema mais grave ainda, pois se protege sob a máscara da "fé raciocinada", desculpa para que mitos sejam sustentados por argumentos falsamente objetivos. É esse deslumbramento, que se apoia no pretexto da "bondade", que protege os deturpadores que corromperam o trabalhoso legado de Allan Kardec.
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