segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
Onda ultraconservadora e sua moral estranha
Internautas que não transmitem mensagens caluniosas reclamam de estarem com o protocolo de Internet incluído nas listas negras, bloqueando qualquer possibilidade de mandar mensagens nos fóruns da rede mundial de computadores.
A censura se deu apenas pelo simples fato de outras pessoas que não gostaram dos comentários que rompem com o "estabelecido" terem denunciado os pobres internautas. Denúncias por pouca coisa, se percebermos que, em outros casos, há uma trabalheira para denunciar e pedir a punição de blogues caluniosos que reproduzem textos e até fotos particulares de suas vítimas, sob fins de difamação.
Ultimamente vivemos um período de moral atrofiada, uma onda de moralismo ultraconservador que em certos casos soa sacerdotal e, em outros, gangsterista. Um moralismo contraditório que faz com que pessoas dotadas de "moral superior" permitam certas imoralidades, quando elas não trazem algum incômodo para o chamado "equilíbrio social" nos padrões hoje observados.
É uma sociedade contraditória. Sobretudo no Brasil. Que ao mesmo tempo define como "feminista" uma cantora de "funk carioca" com seus glúteos siliconados na cara da plateia, mas que também acolhe um homem que assassinou a namorada e saiu da cadeia para ser apresentado à família de uma nova namorada.
Uma sociedade machista, racista, obscurantista, moralista, que permite que cyberbullies mantenham páginas na Internet depois de causar o horror depreciativo contra discordantes, enquanto outros internautas, mas inofensivos, embora naturalmente polêmicos, não conseguem mais mandar mensagens porque seus protocolos de Internet estão bloqueados pela blacklist.
Temos autoridades políticas e juristas mantendo sua superioridade social à custa da deturpação das leis, da corrupção política e do tendenciosismo jurídico. Temos tecnocratas falando juridiquês para justificar medidas maléficas para a população. Temos pessoas pedindo morte aos petistas e com medo de ver morrerem, mesmo por doenças, assassinos ricos. Temos um poder midiático como a Rede Globo, transmissora de mentiras jornalísticas tidas como "verdades absolutas".
E no "espiritismo"? Temos a blindagem máxima, a maior impunidade que alguém pode conseguir na vida. A fraude "mediúnica", de mensagens que claramente contradizem aos estilos pessoais dos autores alegados, mas que valem impunemente pelo status religioso que representam.
Uma mensagem atribuída a uma moça que esteve entre os mortos da Boate Kiss apareceu rasurada. E muita gente aceitando isso, sem reservas. Mas desde que o caso Humberto de Campos gerou uma onda de complacência, tendo até o filho homônimo do escritor seduzido pela lábia de Francisco Cândido Xavier, "mediunidade" no Brasil virou um vale-tudo de "mensagens de amor e esperança".
O próprio Chico Xavier é o maior beneficiário de uma impunidade sem limites que ocorre no Brasil e que faz a Justiça punir pessoas dignas e liberar os indignos. Até parece que o nosso país entrou na Idade Média, e o que se nota é que um católico ortodoxo, mas paranormal, realizador de pastiches literários, tornou-se tão blindado pela sociedade que o anti-médium mineiro tentou até cooptar ateus e esquerdistas para aderir a esse figurão "espírita" que era deísta beato e ideologicamente direitista.
É uma moral muito estranha, que permite desonestidades, quando o status quo social é elevado. Temos que conhecer que moral é essa, que permite a alguns cometer crimes e fraudes impunemente e ainda ser carregado pela multidão, enquanto outros com personalidade mais digna mas sem um carisma aparente são alvos de punições severas e intransigentes.
Quais são as perspectivas sociais? Quem são os privilegiados e predestinados? Que tipo de justiça social é esta, tão restritiva? Não estariam sendo superestimados os critérios materiais de dinheiro, diploma, fama, idade, raça ou credo? Por que o Brasil está desejando se manter em diversos níveis de mediocridade e em zonas de conforto que sustentam valores retrógrados e tradições obsoletas?
A crise não pode ser empurrada com a barriga, e amaldiçoar quem denuncia. É como culpar o faxineiro pela sujeira que ele varre. Algo terá que ser feito, para conter a "revolta do bolor" que traz movimentos reacionários não só no Brasil, mas também no mundo, embora no nosso país eles se tornem mais intensos e ascendentes.
Alguma coisa tem que ser feita. Estamos vivendo o pior dos momentos, uma espécie de pesadelo social servido em doses kafkianas. Isso não é pessimismo, é realismo, e será preciso que muitas pessoas abram mão de convicções para perceber melhor a realidade. Se tudo ficar como está, o Brasil estará em situação ainda mais perigosa do que o alto perigo que já corre hoje.
sábado, 10 de dezembro de 2016
"Espiritismo" errou: em vez de regeneração, temos convulsão social
Os "espíritas", tão otimistas em suas "previsões", erraram feio nas suas expectativas. Desde 2010 ou 2012 eles alardeavam sobre períodos de muita regeneração, despertar da humanidade ou coisa parecida. Mesmo quando admitiam "tempos difíceis" e "conflitos sérios", eles subestimavam tais ameaças, achando que a humanidade rumava para uma era de "mais amor e fraternidade".
Fazer previsões assim são atitudes reprovadas por Allan Kardec. O pensador lionês teria dado uns puxões de orelha em Divaldo Franco, que adora dar palpites em datas futuras como quem faz apostas em corrida de cavalos. Mesmo que se possa prever o futuro, não é através de devaneios moralistas e místicos (como é o caso de Divaldo), é arriscado conceber prazos longos ou definir os fatos com rigorosa exatidão.
O que se observa é que os "espíritas" mais otimistas, como a turma da "data-limite" - a facção mais radical da tendência dúbia do "movimento espírita", comandada por Geraldo Lemos Neto e Juliano Pozati - , tentam argumentar que os fatos negativos são invenção ou exagero da mídia convencional, visando interesses comerciais através da exploração sensacionalista da violência e do caos.
O mais estranho disso é que é essa mesma mídia, principalmente a Rede Globo, que blinda o "movimento espírita", produzindo filmes e documentários sobre Francisco Cândido Xavier, protegendo Divaldo Franco que foi classificado como "maior filantropo do Brasil" por beneficiar menos de 0,1 % de brasileiros.
É essa mídia que também exalta as passeatas dos "indignados" vestidos com camisetas da CBF e que já pediram "Fora Dilma" e agora apoiam a Operação Lava Jato - cujo juiz Sérgio Moro comprovou seu parcialismo ao ser fotografado conversando alegremente com políticos do PSDB, Aécio Neves e José Serra, denunciados por delatores da mesma Lava Jato - , como "símbolo de despertar da humanidade para os novos tempos".
Houve quem achasse que as passeatas eram movimentos de "libertação" e "conscientização", havendo quem atribuísse os atos à presença de "crianças-índigo" etc etc. A ideia é risível, pois o que vimos foram apenas manifestações de ódio em passeatas teleguiadas pela Rede Globo de Televisão - cujos donos, os irmãos Marinho, acumulam fortunas exorbitantes - , incluindo um grupo com o nome de Revoltados On Line, que não poderia ser visto como "iluminado" pelos "espíritas".
O que vemos é uma sucessão de convulsões sociais. Manifestações sociais de racismo e machismo, cyberbullying, hackeagem, corrupção no Executivo, Legislativo e Judiciário, a grande mídia despejando mentiras e visões retrógradas, empresários roubando, a alta sociedade manifestando abertamente preconceitos sociais mais aberrantes.
Com essa situação, o Brasil vive um surto de reacionarismo e preconceitos sociais que são o oposto do que significaria a "regeneração" na ótica "espírita". Próximo a 2019, tudo indica que a situação só tende a piorar, diante de tantos escândalos e incidentes infelizes. E com o corte de gastos públicos do governo de Michel Temer, aí é que o Brasil não conquistará a prosperidade necessária para sua evolução social. O "Coração do Mundo" se encerrou de vez.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
"Espiritismo" se nivela aos vícios religiosos do Império Romano
O "espiritismo" está cada vez mais comprovando ser uma seita ultraconservadora, tirando a máscara, que já não era tão firme, de pretenso movimento de vanguarda da espiritualidade. A cada dia se observa que o "espiritismo" igrejista nada tem de humanista e que a Teologia do Sofrimento confirma ser seu postulado maior, bem mais do que qualquer conceito trazido por Allan Kardec.
Não bastasse o "espiritismo" agir como se fosse um Catolicismo à paisana - que seu defensores até não consideram um "mal", pela afinidade com o que eles entendem ser os "princípios cristãos" e o "trabalho do bem" - , ele recupera aspectos medievais ou mesmo romanos que Jesus de Nazaré reprovaria com energia, como no caso dos vendilhões do templo.
O "culto à personalidade" dos supostos médiuns, mesmo os mais badalados, como Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, já era um ponto a se preocupar, e não ficar tranquilo e feliz, porque o personalismo inexistia nos médiuns autênticos que haviam sido consultados por Kardec em seu tempo, no século XIX.
No Brasil "médium" é menos intermediário do que centro das atenções, vira "grife" para consultas mediúnicas, desobedecendo severamente as recomendações kardecianas no Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos. Há uma piada que, do C. U. E. E. da Doutrina Espírita, os brasileiros só aproveitaram a primeira metade da sigla.
O mais grave é que o "médium" brasileiro vira dublê de pensador, de filósofo e consultor sentimental, e aí vemos o quanto eles, principalmente o exemplo típico de Divaldo Franco, retomam o vício dos antigos sacerdotes romanos que Jesus de Nazaré tanto rejeitava em suas palestras. O quanto Divaldo Franco se decepcionaria, da maneira chocante, se entrasse em contato com Jesus.
Os "sábios" do "movimento espírita", que tanto fascínio e confiança inspiram em seus seguidores ou mesmo em leigos incautos de boa-fé, repetem o pedantismo, a vaidade e a presunção falsamente humilde e grotescamente devota dos antigos sacerdotes romanos, aqueles que se arrogam em se sentar nos bancos da frente nas sinagogas, a fazer orações e se arrogar do vínculo com o "Alto".
Divaldo Franco, não bastasse assumir estereótipos do velho professor dos anos 1930-1940, quando o ensino nas escolas exprimia relações rigorosamente hierarquizadas exprimindo um "saber" aristocrático do "mestre", também personifica esse "culto à personalidade", esse "complexo de superioridade" à maneira religiosa, muito mal disfarçado por um verniz de bondade e humildade.
Chico Xavier começou tudo isso, ele que, adorador de imagens católicas, católico de crenças ortodoxas e devoto da Teologia do Sofrimento, lançou o "culto à personalidade" que é absolutamente impróprio nos médiuns de verdade, como já recomendava o próprio Allan Kardec.
Os "espíritas" enrolam, se dizendo contra o personalismo, mas a verdade é que eles têm um jeito - sempre o "jeitinho brasileiro" - para camuflar o "culto à personalidade" que cria vaidades imensas em supostos médiuns: o verniz de "bondade" e "humildade", na qual supostos médiuns, aliás anti-médiuns, fazem sua propaganda às custas de crianças pobres e velhinhos doentes.
Ou seja, os "médiuns" brasileiros fazem "culto à personalidade" com uma presunção de fazer qualquer aristocrata esnobe ser um primor de simplicidade e modéstia. Mas usam o aparato de "filantropia" para dissimular a anabolização de egos que existe no "movimento espírita", e com isso passam a ser endeusados como se fossem símbolos da mais absoluta perfeição espiritual. Só que não.
Afinal, devemos sempre desconfiar desses ídolos religiosos. O que Chico Xavier e Divaldo Franco fizeram em deturpação da Doutrina Espírita é suficiente para que eles sejam vistos como deploráveis e desmerecedores mesmo de um quarto da admiração que recebem.
O espírito Erasto havia recomendado cautela extrema contra figuras semelhantes, que usam a "bondade" apenas como fachada para seus planos traiçoeiros de dissimulação, voltados a paradigmas medievais e a sacerdotismos decadentes que o Catolicismo mais antigo quer transferir para o "espiritismo" brasileiro, religião que reflete o cenário que temos sob o governo de Michel Temer: o velho, antiquado, podre e obsoleto travestido de "novo", "moderno" e "atemporal".
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
A luta de Leah Remini contra o "primo rico" do "espiritismo" brasileiro
Nos EUA, a atriz Leah Remini se destacou pela sua luta para denunciar os abusos e irregularidades da Cientologia, e recentemente havia lançado a série de documentários Scientology and the Aftermath (título que se traduz como "Cientologia e as Consequências") para mostrar seus relatos e de demais pessoas que se frustraram devido às perversidades da seita que tem os atores Tom Cruise e John Travolta como seus maiores propagandistas.
Em entrevista ao programa de televisão The Today Show, Leah disse:
"Eu só senti que eu tinha a responsabilidade de ajudar onde eu poderia. Eu não sou uma grande fã de valentões. É parte de quem eu sou e de quando eu era uma lutadora na Igreja, isto é o que eles me ensinaram, e assim eu vou continuar a minha luta. Mas eu estou no lado correto dessa luta agora. Estou enviando uma mensagem de que não vou voltar atrás e deixar que continue como está. ... Se você denuncia, você é rotulado de inimigo da Igreja. [A] Igreja tem políticas sobre como lidar com seus inimigos e eles vão atrás deles.
"Para mim, isso choca em comparação com o que ex-executivos de alto escalão e paroquianos tiveram que lidar com essa situação. Não é fácil ir embora ... Você está deixando tudo o que sabe. Você está desistindo de toda a sua vida porque é o que é preciso para ser um cientologista, e então você estará perdendo sua família porque a maioria de seus familiares e amigos são cientologistas ".
A Cientologia é uma seita religiosa com ideologia pseudocientífica fundada por um físico chamado Lafayette Ron Hubbard ou L. Ron Hubbard, falecido há cerca de 30 anos. Atualmente, seu líder máximo é David Miscavige. Ela possui várias filiais no mundo, existindo até no Brasil, só que com menor expressão e aparentemente sem adeptos famosos para lhe fazer propaganda em nosso país.
Também, isso não precisa. Temos o "espiritismo" brasileiro, o "primo pobre" do "primo rico" que é a Cientologia. O "espiritismo" e a Cientologia possuem algumas anaologias, como a descrição do thetan (o "espírito" cientológico), o "universo material" (matéria), de atuação não-independente (no "espíritismo" se pegou o paradigma católico de um ente antropomorfizado, Deus, diferente da "causa primária" estudada por Allan Kardec) e a "hipótese" (a "reencarnação" cientológica).
As diferenças podem ser quanto aos ritos e a certos métodos e dogmas doutrinários, mas o paralelo que se tem com o "espiritismo", como a disciplina e o amaldiçoamento do prazer humano, há a crença na "Confederação Galática" cientológica e as "cidades espirituais" do "espiritismo".
É certo que a Confederação Galática não é definida como "paraíso", sendo governada por um tirano, Xenu, mas a sua citação como um "mundo imaterial" remete às "cidades ou colônias espirituais" do "espiritismo", talvez um crossover entre tais "cidades ou colônias" e o "ambiente" sombrio do "umbral".
Se na Cientologia, somente nos mais altos níveis de iniciação são ensinados conhecimentos sigilosos considerados prejudiciais aos iniciantes, no "espiritismo", embora haja uma suposta apreciação da Ciência e da Filosofia, há uma preocupação sutil com as limitações do Conhecimento, reprovando o pensamento investigativo quando ele atua no terreno da Religião e de suas práticas relacionadas.
A Cientologia é denunciada, por seu autoritarismo e seu moralismo em documentários e livros diversos. É certo que seus seguidores e membros rebatem, fazendo também os seus documentários e livros, mas a verdade é que editoras, produtoras de filmes e emissoras de TV acolhem propostas de trabalhos que denunciem as irregularidades e problemas desta seita.
No Brasil, onde a Justiça tem uma atuação seletiva e parcial, e os mercados editorial e cinematográfico são ideologicamente muito fechados, para não dizer o meio televisivo, bem mais restritivo ainda, o "espiritismo" goza de uma blindagem rigorosa que nem a Igreja Universal do Reino de Deus goza com tamanha plenitude.
Até mesmo as piores fraudes mediúnicas são aceitas sem reservas, mesmo por familiares dos mortos a que se atribui falsa autoria. O caso Humberto de Campos é o pior exemplo da mais absoluta impunidade dada a um autor de pastiches literários, Francisco Cândido Xavier, que acumulou uma reputação que o faz ter o status próximo a de um deus.
A tradição seletiva da Justiça brasileira - cujos exemplos mais recentes remetem às atividades do juiz paranaense Sérgio Moro - beneficiaram Chico Xavier com um empate jurídico. Para piorar, Chico conseguiu conquistar a confiança da mãe de Humberto, Ana de Campos Veras, explorando o ponto fraco da saudade de um filho morto, e ainda venceu a barreira do ceticismo do homônimo filho do autor de O Brasil Anedótico.
Se valendo por uma concepção espetacularizada, ritualística e católica da "bondade" e da "caridade", reduzidas a atividades paliativas e de apelo publicitário que colocam o benfeitor acima do benefício, Chico Xavier convidou o desconfiado Humberto de Campos Filho para uma doutrinária num "centro espírita" e depois o convidou para visitar obras de "caridade" como cozinheiras fazendo sopa e quartos onde moravam velhinhos doentes.
É justamente esse apelo, na verdade uma difusão da ideologia da caridade paliativa, que põem o benfeitor acima do benefício, ou seja, colocam o valor não pelo número de beneficiados atingido, mas pelo prestígio religioso do aparente benfeitor, que se torna o motor ideológico de um "espiritismo" que deturpa grosseiramente o legado de Allan Kardec.
É essa visão de "bondade" e "caridade", que mais deslumbra as pessoas do que ajuda, atuando mais como uma peça publicitária do que como um ato pelo progresso social, que faz as pessoas aceitarem os deslizes e equívocos gravíssimos que ocorrem no "espiritismo" brasileiro. A complacência ao erro torna-se gritante, o "amor" é usado como pretexto para se permitir qualquer fraude, qualquer mistificação.
O "espiritismo" pode não contar com a estrutura sofisticada e uma estrutura engenhosa de poder como a da Cientologia. Mas possui um lobby muitíssimo rigoroso, com o poder midiático e a classe jurídica blindando a doutrina brasileira, de raiz roustanguista, de forma extremamente firme que qualquer denúncia seja sempre deixada para escanteio. Espera-se que surja uma Leah Remini "espírita" no Brasil.
domingo, 4 de dezembro de 2016
A sociedade "de cima" está em colapso
As pessoas de maior status quo, sob algum critério, estão sentindo o mundo ruir de repente. Muitos não percebem e, por enquanto, contam com apoio de muita gente, e se iludem quando, em seus círculos sociais ou mesmo diante de gente de menor status mas que lhe é solidária, ainda são vistos como se estivessem com razão.
A ilusão dos acúmulos diversos, seja de dinheiro, prestígio, fama, idade, raça, diploma, ou mesmo a reputação religiosa que garante a uns poucos o "contato direto com Deus", está perecendo de maneira acelerada e mostrando aspectos cada vez mais preocupantes de erros, omissões e outros deslizes, para não dizer os crimes que ocorrem sob a lona desses privilégios.
Mesmo na classe média, nota-se que pais de família acabam criando um mundo ainda mais ficcional do que o dos filhos, montado através de velhas convenções sociais, relações hierárquicas e uma ilusão de perfeição trazida pelas emissoras de televisão conservadoras.
É o pai que cobra demais do filho e se empolga mais com o sacrifício do que com a conquista de um benefício. É a mãe que exige cuidados hercúleos com a saúde física, até de maneira muito exagerada, como se ela sentisse hipocondria. Em muitos casos, juntos, pai e mãe sobrecarregam os filhos de cobranças diversas e, contraditoriamente, não aceitam que filhos reclamem da vida, embora os pais se demonstrem, não raro, bem mais resmungões.
Hoje o alto da pirâmide balança e isso não é natural. Desde que o governo de Michel Temer, dotado de muitas dessas qualidades "superiores" - o diploma, o prestígio tecnocrático, o dinheiro e a idade - , demonstra atitudes aberrantemente irresponsáveis que envergonham até os adolescentes (não é difícil entender a imediata manifestação das ocupações nas escolas), estar no alto da pirâmide pode resultar na vertigem social que derruba ilusões como num efeito dominó.
A ilusão de "perfeição num mundo imperfeito" do alto status, da acumulação de anos de vida, de dinheiro e prestígio, de uma "felicidade" que seus detentores não entendem por que pessoas no lado de baixo da pirâmide social não conseguem sentir. É muito fácil cobrar firmeza, alegria e comunicabilidade a pessoas que sofrem de depressão.
Um dado surpreendente nessa crise que atinge o alto da pirâmide social está no perfil dos vândalos que invadiram a Câmara dos Deputados, destruíram vidros, trocaram socos com quem estivesse na frente e pedissem a volta da ditadura militar, expondo um reacionarismo cego que cometeu a gafe de definir o Japão, típico país capitalista asiático, como um "país comunista" só por causa da cor vermelha do círculo (que remete ao mito do "sol vermelho" da cultura japonesa).
São pessoas que, presumidamente, tinham em torno de 55, 65 anos. Gente grisalha, fora de forma, pessoas com filhos crescidos e tida como "responsável" e "experiente". No entanto, pessoas que derrubaram vidros, promoveram desordem e pediram a presença de um General, reivindicando uma ditadura que vai contra as conquistas democráticas, revelam o quanto um mero acúmulo de anos de vida nem sempre representa sabedoria e prudência para as pessoas.
No governo Temer, as pessoas mais birrentas estão entre políticos com mais de 65 anos de idade. Michel Temer é um exemplo, que deseja uma redução drástica de gastos públicos enquanto gasta de maneira descontrolada para agradar aliados, amigos e familiares. Um de seus ministros, o das Relações Exteriores, José Serra, cometeu gafes grotescas que o jovem presidente da UNE do período 1963-1964 ficaria seriamente envergonhado, se não fosse a mesma pessoa.
Outra grande ilusão é haver empresários e profissionais liberais ricos que chegam aos 50, 60 anos de idade pensando ter 20 a mais e insistindo num pedantismo cultural que só serve mais para a vaidade, sem tirar proveito dos referenciais mais antigos que assimilam de maneira confusa, causando mais constrangimento com a erudição e um refinamento que soam muito forçados e atrapalhados.
Preconceitos sociais reaparecem entre pessoas adultas e mais velhas. A cega defesa da grande mídia, cada vez mais mentirosa, caluniadora e hipócrita, também demonstra uma compreensão ainda mais atrofiada da realidade. O fato de pais de família acreditarem em valores em declínio, e aparentemente gozam da razão quando suas opiniões são corroboradas por vizinhos, porteiros, faxineiros, parentes e amigos, não significa que esses pais de família estejam realmente com a razão.
Hoje em dia, os maiores focos de imaturidades pessoais estão entre pessoas grisalhas e de cabelos brancos. A barbárie cresce entre pessoas de maior poder aquisitivo. Trabalhos desastrosos ocorrem vindos de pessoas dotadas de diplomas universitários. Os piores julgamentos de valor e os mais cruéis conselhos morais partem de pessoas de maior prestígio religioso, tidas como "unanimidades".
Não que ter muito dinheiro, diplomas ou mais idade seja ruim. Mas o desgaste e o esgotamento de estruturas de status quo elevado atingem níveis preocupantes que não são percebidos pelos seus detentores, que nunca foram estimulados a ter uma postura autocrítica. Eles continuam cobrando demais e fechando os caminhos para quem está embaixo da pirâmide, achando mais fácil fazer cobranças do que abrir oportunidades.
A forma com que se apresenta a ilusão da idade elevada, dos diplomas e do dinheiro acumulados, da fama e do prestígio religioso, de alguma outra supremacia condizente com a sociedade conservadora, é que preocupam seriamente, pois é nesse aparato de superioridade social que se encontram os piores exemplos de inferioridade ou até mesmo erros relativamente leves mas que são suficientes para desfazer a ilusão de "sabedoria", "experiência" e "sucesso".
Por enquanto a sociedade ultraconservadora recuperou o poder, mas isso será por pouco tempo. Afinal, essa retomada, segundo muitos especialistas, não se deu de maneira tranquila e nem positiva, tendo sido feita à força das circunstâncias. Diante do apetite maior que a fome, os setores conservadores que reconquistaram o poder tendem a se desentenderem e mostrar seus erros dos mais diversos níveis, acelerando mais o perecimento do topo da pirâmide.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
"Protegido" por "centro espírita", bairro de Salvador vive a tirania do tráfico
Reportagem publicada no UOL no último dia 22 mostra que, em Salvador, o poder do tráfico num de seus bairros mais perigosos, o Nordeste de Amaralina, faz com que ele figure nos noticiários policiais diários com uma frequência assustadora, competindo com o subúrbio ferroviário, a região de Beiru e o bairro de Pau da Lima (onde fica a Mansão do Caminho).
Essas regiões são consideradas as mais perigosas e nelas há muitos homicídios e roubos. Para piorar, o Nordeste de Amaralina - um complexo de favelas localizado no famoso bairro litorâneo de Amaralina - sofre a tirania dos traficantes, que fazem ameaças a quem fizer algum boletim de ocorrência na delegacia do bairro.
Um morador chegou mesmo a voltar para a 28 Delegacia Territorial, que opera no local, para cancelar um boletim de ocorrência que tinha feito antes. O morador estava com muito medo, sabendo das ameaças dos traficantes, que estão bem informados sobre quem entra e sai no bairro, quem é preso ou solto e sobre os trabalhos feitos pela delegacia.
A questão é tão grave que até a imprensa é desaconselhada a fazer matéria sobre o tráfico. Os moradores não podem fornecer informações, há uma vigilância rigorosa dos traficantes, que podem cometer as piores represálias, como é de praxe. Os traficantes possuem câmeras instaladas no local e usam celulares para monitorar as ações dos moradores. Até briga de vizinhos não pode ser registrada na delegacia. Os traficantes não querem a polícia entrando no Nordeste.
A situação chegou ao ponto do SINDPOC, Sindicato dos Policiais Civis do Estado da Bahia, pedir ao comando da Segurança Pública do governo estadual para mudar a delegacia para outro bairro, devido ao perigo representado pela ameaça dos criminosos.
O Nordeste de Amaralina se situa numa área próxima a um "centro espírita". Paulo e Estevão, próximo a uma das esquinas de acesso ao perigoso bairro. É ilustrativa a localização de muitos "centros espíritas" em lugares considerados perigosos.
Em Niterói, por exemplo, a existência de dois "centros espíritas", um no entorno da rua Mariz e Barros e outro na Av. Sete de Setembro, praticamente "fecham as nuvens" no bairro de Santa Rosa, no entorno de toda a rua Dr. Mário Viana. A área, conhecida como Viradouro, é alvo de constantes tiroteios que já fizeram o trânsito de veículos recuar várias vezes, sobretudo durante o dia.
"Espíritas" tentam explicar que a localização de "centros espíritas" em áreas decadentes e perigosas é para "trazer luz, boa nova e esperança aos necessitados". Só que a religião, marcada pela desonestidade doutrinária herdada do roustanguismo, deixa ela mesma se corromper pelas más energias e nada contribui para transformar áreas perigosas em "ambientes de amor e luz".
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
O outro lado de quem é queixoso
EUSTÁCIO, O RESMUNGÃO, OU CHICO XAVIER?
"Conheces todos os segredos de sua alma?" advertiu o espírito Erasto diante da hipótese de supostos médiuns tidos como bondosos veicularem respostas falsas e grosseiras. As advertências de Erasto não só foram ignoradas no Brasil como há pessoas que deturpam e distorcem tais conselhos, como se não bastassem as deturpações violentas feitas em relação à Doutrina Espírita.
As deturpações se ampliaram como uma bola de neve e vemos hoje Francisco Cândido Xavier e seguidores (de Divaldo Franco a, pelo menos, João de Deus, já que Robson Pinheiro parece seguir uma linha "independente" dos ditos "kardecistas autênticos", eufemismo para a fase dúbia do "movimento espírita", que é o igrejismo disfarçado de legado kardeciano) viraram os "senhores" da Doutrina Espírita, os "donos" dos mortos e reivindicam a posse absoluta da verdade.
Ninguém ouviu Erasto e, quando tenta, pega de fontes pouco confiáveis, como as traduções da FEB e da IDE que rebaixam o professor Allan Kardec a um pároco de província. É como numa equação que começa errada e cujos cálculos posteriores parecem corretos mas se destinam justamente ao resultado errado, com um falso Erasto defendendo as mentiras do "espiritismo" igrejista brasileiro.
E aí vemos um moralismo conservador, um igrejismo medieval e uma falsa mediunidade limitada ao faz-de-conta e ao mershandising do proselitismo religioso - quase todos os supostos mortos fazem mensagens apelando pelos "ensinamentos cristãos" - , que se servem como se fosse o "verdadeiro espiritismo" e cuja credibilidade é forçadamente conquistada através de muita bondade de fachada - a caridade paliativa, que mais fascina que ajuda - e com muito vitimismo de seus anti-médiuns.
E aí nos lembramos do arrivismo de Chico Xavier, alvo da maior impunidade que alguém pode receber por atos irresponsáveis e prejudiciais. Ele fez pastiches e plágios literários, era católico de conceitos medievais, moralista severo, usurpador de mortos, se promovia às custas das tragédias familiares e ainda por cima usou Allan Kardec para lançar ideias contrárias ao pensamento do pedagogo francês.
É tanta coisa deplorável que é assustador que Chico Xavier, que ainda conta com o apoio da chamada "mídia venal" - como estudiosos de Comunicação chamam a mídia dominante, comercial e reacionária - , tenha feito tanta barbaridade e seja visto como um semi-deus ou mesmo um vice-deus, e qualquer crítica havia sido rebatida com vitimismo dele (o esperto Chico era artífice dessa manobra) e, mais recentemente, por seus seguidores fanáticos, não obstante temperamentais.
Uma faceta entre tantas sombrias do "bondoso médium" é não suportar gente queixosa. Como no caso de Divaldo Franco e sua "Joana de Angelis" (provavelmente uma identidade "trans" do obsessor Máscara de Ferro), que pregava para "ninguém ficar triste por mais de 15 minutos, Chico Xavier sempre deixou claro que não suportava gente resmungona.
É até irônico que um personagem do seriado de animação Coragem, o Cão Covarde (Courage the Cowardly Dog), o idoso Eustácio (Eustace no original), lembre, nos seus traços faciais, o "médium" Chico Xavier. Afinal, o Eustácio é um personagem resmungão.
Mas se observarmos bem, Chico Xavier havia sido um resmungão. Os piores resmungões são aqueles que não suportam ver gente reclamando, sempre cobrando uma felicidade forçada, uma serenidade falsa que acoberta o pior sofrimento. O desfile de belas palavras apenas dá a impressão de que Chico Xavier era pura mansuetude, mas quando podia ele tinha veneno na língua.
É só ver o caso de Jair Presente. Diante de supostas psicografias que não condiziam com a personalidade do estudante de Engenharia, os amigos do falecido universitário, que mais conviveram com ele, reclamavam das "mensagens mediúnicas". Diziam que não havia jeito para aceitar tais mensagens como "legítimas". Irritado (sim, irritado), Chico Xavier disse que isso era "bobagem da grossa".
Em 1943, no livro Reportagens de Além-Túmulo, Chico Xavier, usando o nome de Humberto de Campos, escreveu, junto a Antônio Wantuil de Freitas, presidente da FEB, um conto sobre uma mulher queixosa que era abandonada por todos por causa de sua "mania de reclamar da vida". Um conto claramente moralista, que Humberto nem em sonhos teria o menor interesse em escrever.
Isso mostra o quanto Chico Xavier foi um dos maiores devotos da Teologia do Sofrimento, corrente medieval da Igreja Católica que agora parece crescer no "movimento espírita", estimulado pela epidemia ultraconservadora que toma conta do país desde a posse de Michel Temer, ainda como presidente interino da República.
Chico Xavier dizia para os sofredores não mostrarem sofrimento para outrem. Isso é comparável a um doente que não pode informar sua doença para familiares, amigos e nem para o médico. Isso é uma visão claramente sádica, e é inútil os chiquistas iniciarem seus corais de lágrimas e nos acusar de fazer campanha contra o "pobre médium" porque a visão sádica veio das próprias palavras dele.
Mas há o outro lado dos queixosos que as "belas palavras" moralistas de Chico Xavier - várias levianamente atribuídas a personalidades mortas - escondem. A de que, se há pessoas que reclamam demais, não é por recreio nem passatempo, assim como é de praxe os "espíritas" ignorarem que ninguém se suicida por hobby ou para ver se uma arma ou veneno realmente funcionam.
O queixoso é aquele que encontrou tantos obstáculos na vida, dificílimos de serem superados, que passou a se revoltar com isso. É do instinto humano, se até um cãozinho dócil e meigo vira uma fera perigosa, capaz de matar alguém com uma mordida, se ele for acuado, o ser humano também se brutaliza quando o "remédio" das desilusões e das dificuldades está muito acima da dose.
As pessoas que se encontram nestas condições extremas fizeram o que puderam para superar dificuldades. Mudaram seus pensamentos, entraram com fé, desenvolveram alegria e tudo. Se esforçaram cumprindo as exigências correspondentes. Mas tudo isso, sendo em vão, lhes revolta, naturalmente. É muito fácil cobrar de quem está por baixo, mas em muitos casos há que se cobrar também pela falta das oportunidades corretas, mesmo se considerar o risco de algum esforço.
Daí a perversidade do moralismo de Chico Xavier (chorem, chiquistas!), porque é um moralismo severo, retrógrado, reacionário. Isso faz sentido a alguém que defendeu a ditadura, esculhambou operários e camponeses e acusou humildes frequentadores de um circo em Niterói destruído por um incêndio criminoso de terem sido "romanos sanguinários" numa outra vida, em clara demonstração de puro juízo de valor, sem provas lógicas e protegido pela carteirada religiosa do "médium".
Isso é absoluta falta de caridade. Os "espíritas", insensíveis ao sofrimento de outrem, só recorrem quando advertidos de sua severidade moralista. No primeiro momento dizem que as pessoas devem aguentar o sofrimento. No segundo, tentam dizer que o sofrimento é só um "aprendizado" ou um "desafio". No terceiro, tentam apelar para o sofredor "ter fé e esperança". E, quando tentam ajudar, dificilmente é de maneira adequada ou eficiente.
Com toda a certeza, a bondade se enfraquece quando se torna apenas um subproduto da fé religiosa e se submete a uma marca de uma seita religiosa. Escravizada por preceitos moralistas, místicos e ritualistas, a bondade se torna mais frouxa, menos eficaz e, sobretudo, muito menos benéfica para as pessoas, e se torna indiferente às dificuldades alheias.
"Conheces todos os segredos de sua alma?" advertiu o espírito Erasto diante da hipótese de supostos médiuns tidos como bondosos veicularem respostas falsas e grosseiras. As advertências de Erasto não só foram ignoradas no Brasil como há pessoas que deturpam e distorcem tais conselhos, como se não bastassem as deturpações violentas feitas em relação à Doutrina Espírita.
As deturpações se ampliaram como uma bola de neve e vemos hoje Francisco Cândido Xavier e seguidores (de Divaldo Franco a, pelo menos, João de Deus, já que Robson Pinheiro parece seguir uma linha "independente" dos ditos "kardecistas autênticos", eufemismo para a fase dúbia do "movimento espírita", que é o igrejismo disfarçado de legado kardeciano) viraram os "senhores" da Doutrina Espírita, os "donos" dos mortos e reivindicam a posse absoluta da verdade.
Ninguém ouviu Erasto e, quando tenta, pega de fontes pouco confiáveis, como as traduções da FEB e da IDE que rebaixam o professor Allan Kardec a um pároco de província. É como numa equação que começa errada e cujos cálculos posteriores parecem corretos mas se destinam justamente ao resultado errado, com um falso Erasto defendendo as mentiras do "espiritismo" igrejista brasileiro.
E aí vemos um moralismo conservador, um igrejismo medieval e uma falsa mediunidade limitada ao faz-de-conta e ao mershandising do proselitismo religioso - quase todos os supostos mortos fazem mensagens apelando pelos "ensinamentos cristãos" - , que se servem como se fosse o "verdadeiro espiritismo" e cuja credibilidade é forçadamente conquistada através de muita bondade de fachada - a caridade paliativa, que mais fascina que ajuda - e com muito vitimismo de seus anti-médiuns.
E aí nos lembramos do arrivismo de Chico Xavier, alvo da maior impunidade que alguém pode receber por atos irresponsáveis e prejudiciais. Ele fez pastiches e plágios literários, era católico de conceitos medievais, moralista severo, usurpador de mortos, se promovia às custas das tragédias familiares e ainda por cima usou Allan Kardec para lançar ideias contrárias ao pensamento do pedagogo francês.
É tanta coisa deplorável que é assustador que Chico Xavier, que ainda conta com o apoio da chamada "mídia venal" - como estudiosos de Comunicação chamam a mídia dominante, comercial e reacionária - , tenha feito tanta barbaridade e seja visto como um semi-deus ou mesmo um vice-deus, e qualquer crítica havia sido rebatida com vitimismo dele (o esperto Chico era artífice dessa manobra) e, mais recentemente, por seus seguidores fanáticos, não obstante temperamentais.
Uma faceta entre tantas sombrias do "bondoso médium" é não suportar gente queixosa. Como no caso de Divaldo Franco e sua "Joana de Angelis" (provavelmente uma identidade "trans" do obsessor Máscara de Ferro), que pregava para "ninguém ficar triste por mais de 15 minutos, Chico Xavier sempre deixou claro que não suportava gente resmungona.
É até irônico que um personagem do seriado de animação Coragem, o Cão Covarde (Courage the Cowardly Dog), o idoso Eustácio (Eustace no original), lembre, nos seus traços faciais, o "médium" Chico Xavier. Afinal, o Eustácio é um personagem resmungão.
Mas se observarmos bem, Chico Xavier havia sido um resmungão. Os piores resmungões são aqueles que não suportam ver gente reclamando, sempre cobrando uma felicidade forçada, uma serenidade falsa que acoberta o pior sofrimento. O desfile de belas palavras apenas dá a impressão de que Chico Xavier era pura mansuetude, mas quando podia ele tinha veneno na língua.
É só ver o caso de Jair Presente. Diante de supostas psicografias que não condiziam com a personalidade do estudante de Engenharia, os amigos do falecido universitário, que mais conviveram com ele, reclamavam das "mensagens mediúnicas". Diziam que não havia jeito para aceitar tais mensagens como "legítimas". Irritado (sim, irritado), Chico Xavier disse que isso era "bobagem da grossa".
Em 1943, no livro Reportagens de Além-Túmulo, Chico Xavier, usando o nome de Humberto de Campos, escreveu, junto a Antônio Wantuil de Freitas, presidente da FEB, um conto sobre uma mulher queixosa que era abandonada por todos por causa de sua "mania de reclamar da vida". Um conto claramente moralista, que Humberto nem em sonhos teria o menor interesse em escrever.
Isso mostra o quanto Chico Xavier foi um dos maiores devotos da Teologia do Sofrimento, corrente medieval da Igreja Católica que agora parece crescer no "movimento espírita", estimulado pela epidemia ultraconservadora que toma conta do país desde a posse de Michel Temer, ainda como presidente interino da República.
Chico Xavier dizia para os sofredores não mostrarem sofrimento para outrem. Isso é comparável a um doente que não pode informar sua doença para familiares, amigos e nem para o médico. Isso é uma visão claramente sádica, e é inútil os chiquistas iniciarem seus corais de lágrimas e nos acusar de fazer campanha contra o "pobre médium" porque a visão sádica veio das próprias palavras dele.
Mas há o outro lado dos queixosos que as "belas palavras" moralistas de Chico Xavier - várias levianamente atribuídas a personalidades mortas - escondem. A de que, se há pessoas que reclamam demais, não é por recreio nem passatempo, assim como é de praxe os "espíritas" ignorarem que ninguém se suicida por hobby ou para ver se uma arma ou veneno realmente funcionam.
O queixoso é aquele que encontrou tantos obstáculos na vida, dificílimos de serem superados, que passou a se revoltar com isso. É do instinto humano, se até um cãozinho dócil e meigo vira uma fera perigosa, capaz de matar alguém com uma mordida, se ele for acuado, o ser humano também se brutaliza quando o "remédio" das desilusões e das dificuldades está muito acima da dose.
As pessoas que se encontram nestas condições extremas fizeram o que puderam para superar dificuldades. Mudaram seus pensamentos, entraram com fé, desenvolveram alegria e tudo. Se esforçaram cumprindo as exigências correspondentes. Mas tudo isso, sendo em vão, lhes revolta, naturalmente. É muito fácil cobrar de quem está por baixo, mas em muitos casos há que se cobrar também pela falta das oportunidades corretas, mesmo se considerar o risco de algum esforço.
Daí a perversidade do moralismo de Chico Xavier (chorem, chiquistas!), porque é um moralismo severo, retrógrado, reacionário. Isso faz sentido a alguém que defendeu a ditadura, esculhambou operários e camponeses e acusou humildes frequentadores de um circo em Niterói destruído por um incêndio criminoso de terem sido "romanos sanguinários" numa outra vida, em clara demonstração de puro juízo de valor, sem provas lógicas e protegido pela carteirada religiosa do "médium".
Isso é absoluta falta de caridade. Os "espíritas", insensíveis ao sofrimento de outrem, só recorrem quando advertidos de sua severidade moralista. No primeiro momento dizem que as pessoas devem aguentar o sofrimento. No segundo, tentam dizer que o sofrimento é só um "aprendizado" ou um "desafio". No terceiro, tentam apelar para o sofredor "ter fé e esperança". E, quando tentam ajudar, dificilmente é de maneira adequada ou eficiente.
Com toda a certeza, a bondade se enfraquece quando se torna apenas um subproduto da fé religiosa e se submete a uma marca de uma seita religiosa. Escravizada por preceitos moralistas, místicos e ritualistas, a bondade se torna mais frouxa, menos eficaz e, sobretudo, muito menos benéfica para as pessoas, e se torna indiferente às dificuldades alheias.
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