terça-feira, 17 de março de 2015
Juscelino Kubitschek ajudou FEB e Chico Xavier. E o que ele recebeu em troca? Azar!
Quando se fala que o "espiritismo" brasileiro, "governado", no plano espiritual, por tenebrosos espíritos ligados a imperadores e sacerdotes medievais e seus colaboradores mais fiéis, muitas pessoas não acreditam, mas o efeito maligno dessa doutrina que deturpou a obra de Allan Kardec tem efeitos bem mais devastadores do que se imagina.
Um claro exemplo é de como o "espiritismo da FEB" pode dar em troca a um presidente, cujo apoio dado à Federação "Espírita" Brasileira e à figura de Francisco Cândido Xavier só lhe causaram azar e uma série de infortúnios que culminou em uma tragédia, em 1976.
O médico mineiro e político, Juscelino Kubitschek de Oliveira, natural de Diamantina, no interior de Minas Gerais, foi prefeito de Belo Horizonte e governador de Minas Gerais, antes de se tornar eleito à Presidência da República, em 1955.
Sua posse chegou a ser ameaçada por um golpe tramado pelo então presidente da República em exercício, deputado Carlos Luz, em parceria com Carlos Lacerda, mas um contragolpe movido pelo general Henrique Teixeira Lott, depois promovido a marechal, depôs Luz e, com o senador Nereu Ramos governando o país, garantiu a sucessão e a posse de Juscelino.
Político moderado, Juscelino tinha como vice o estancieiro gaúcho João Goulart, de inclinações de centro-esquerda. Governou o país dentro do programa da aliança PSD-PTB, dois partidos surgidos no ocaso do governo Getúlio Vargas, sendo um conservador e outro progressista.
Juntando medidas de fortalecimento do capitalismo nacional e de estímulo às melhorias sociais dos trabalhadores, Juscelino ainda teve a habilidade de malabarista para enfrentar impasses diversos para construir Brasília e inaugurá-la ainda em seu mandato, apesar de muito trabalho ainda a fazer (em 1961, Brasília ainda não havia abrigado todos os ministérios).
O Brasil, evidentemente, não se tornou uma nação próspera sob o governo de Juscelino Kubitschek. Era ainda um país confuso, injusto e desigual. Mas haviam propostas e medidas de progresso social, de evolução urbana e outros avanços, que fizeram da Era JK estar associada à ideia de "Anos Dourados" que mais parecia um sonho do que uma realidade plena.
Mesmo assim, a partir do governo Juscelino, começou-se a pensar num projeto de país autônomo, justo, dinâmico e avançado que lançou projetos e medidas diversos, desde o projeto revolucionário de alfabetização para adultos, o Método Paulo Freire, até os debates culturais através do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes.
Tudo parecia impulsionar para o progresso brasileiro, um caminho que parecia garantido até depois do governo JK e mesmo durante os governos turbulentos de Jânio Quadros e João Goulart. Até o golpe militar de 1964 destruir esse projeto de país que ainda não foi devidamente recuperado, mesmo 30 anos depois do fim da ditadura.
O "MUI AMIGO" CHICO XAVIER
Juscelino Kubitschek era amigo de Chico Xavier e visitava sempre sua casa, primeiro em Pedro Leopoldo, terra-natal do anti-médium, depois em Uberaba. Sempre fazia consultas "mediúnicas" e acatava os conselhos do conterrâneo, já que, apesar de nascidos em cidades diferentes, ambos eram mineiros.
O então presidente sempre era fiel e gentil a essa amizade, ajudava Chico quando era necessário e estabeleceu relações cordiais com a FEB. Tanto que, no ano em que inaugurou Brasília, em 1960, Juscelino decretou que a instituição era considerada "de utilidade pública".
E o que Juscelino Kubitschek, com sua atitude de generosidade e bom coração em relação a Francisco Cândido Xavier e aos dirigentes da Federação "Espírita" Brasileira, recebeu em troca de tão abnegada caridade e consideração? Azar, muito azar!
Juscelino, até o começo de 1964, tinha como certa a sua vitória eleitoral na campanha presidencial para 1965, na qual, junto a outros candidatos, polarizaria seu favoritismo com o enérgico rival Carlos Lacerda. O mineiro seria provavelmente eleito e iniciaria seu mandato na Brasília que ele inaugurou, a essas alturas com a "mobília" restante trazida do Rio de Janeiro.
Só que, logo em abril, os infortúnios começaram. O golpe militar se consolidou, e Juscelino, que até apoiou a deposição do outrora vice Jango depois que não gostou de ver o então presidente anistiar um grupo de militares rebeldes, foi um dos primeiros politicos a terem mandato cassado, perdendo o cargo de senador que JK exercia sob novo domicílio político, o Estado de Goiás.
Não bastasse isso, o governo "provisório" do general Humberto de Alencar Castelo Branco, feito a princípio apenas para completar o tempo de mandato de Jango, decidiu que a "revolução" (como se autoproclamava a ditadura militar) seria "permanente" e optou por cancelar as eleições presidenciais de 1965.
Frustrados, Carlos Lacerda (político civil que mais apoiou o golpe de 1964 e era governador do então Estado da Guanabara, composto apenas pelo município do Rio de Janeiro) e Juscelino, inimigos acérrimos, optaram pelo perdão mútuo e, tornados amigos, realizaram um movimento de redemocratização chamado Frente Ampla, a partir de um contato em Lisboa, em 1966.
A Frente Ampla chegou a atrair adeptos, embora causasse uma desconfiança muito forte nas esquerdas, em especial Leonel Brizola, que não aceitou participar do movimento. Todavia, dois anos depois, a ditadura militar decretou a ilegalidade da Frente, a poucos meses de decretar o AI-5.
Juscelino Kubitschek, ainda por cima, perdeu a eleição para a Academia Brasileira de Letras, ele, que havia escrito um livro de memórias e era bastante culto, apesar de seus discursos terem sido escritos pelo amigo e escritor Augusto Frederico Schmidt (fundador da extinta rede de supermercados Disco e que, pouco antes de morrer, em 1965, expressou sua oposição à ditadura que ele por boa-fé defendeu).
Mas o pior não foi isso. Poucos dias antes de completar 74 anos, numa manhã ensolarada, numa estrada sem problemas e com um chofer muito experiente e atento, Juscelino morreu num estranho desastre automobilístico na Rodovia Pres. Dutra (ironicamente em homenagem ao colega de partido de Juscelino, PSD, o general e ex-presidente Eurico Gaspar Dutra), que matou também seu motorista.
Na Comissão Nacional da Verdade, uma linha de investigação preferiu defender a tese oficial de que Juscelino teria sido morto num acidente de carro comum, No entanto, pesam sobre a tragédia fortes indícios de que teria sido um atentado cometido por alguma sabotagem militar, por ordem de órgãos da ditadura brasileira integrantes da Operação Condor, junto às ditaduras argentina e chilena.
O infortúnio ainda se estendeu à sua única filha biológica, Márcia Kubitschek (a irmã, Maristela, que continua viva, é adotiva), que faleceu em 2000 aos 56 anos, vítima de câncer. Márcia parecia ainda muito bonita e de boa aparência, relativamente jovem para encerrar sua vida.
Nos últimos anos, o nome de Juscelino Kubitschek foi usado em inúmeras "psicografias" que na verdade eram mensagens apócrifas de panfletarismo religioso que se esforçavam em imitar a retórica de Juscelino nos textos que ele escreveu para a revista Manchete ou mesmo nos discursos políticos escritos pelo poeta e ensaísta Augusto Frederico Schmidt.
O mais esperto deles foi o médico de São José do Rio Preto, no interior paulista, Woyne Figner Sacchetin, no livro Caminhos do Brasil, em que o pseudo-Juscelino consegue, com falhas, imitar o texto do ex-presidente, sob o pretexto de narrar a vida de candangos.
Woyne é conhecido por ter sido processado por usar o nome de Alberto Santos Dumont para fazer acusações infundadas contra vítimas de uma tragédia aérea em 2007, com um avião da TAM no aeroporto de Congonhas (SP).
O que é o "espiritismo", doutrina de "todo amor e bondade", que reagiu à generosidade de Juscelino Kubitschek de maneira ingrata e cruel, rogando tanto sofrimento e azar ao médico que, como presidente, lutava para promover um país realmente mais próspero e solidário. O "espiritismo" da FEB "matou" JK, que lhe deu pão e recebeu serpente em troca.
segunda-feira, 16 de março de 2015
Eram deuses os tecnocratas?
Da esq. para a dir., de cima para baixo: JAIME LERNER, PEDRO ALEXANDRE SANCHES, OTÁVIO FRIAS FILHO, ALEXANDRE SANSÃO, FERNANDO HENRIQUE CARDOSO E ROBERTO CAMPOS.
Quem tem diploma, vai a Roma. A Idade Mídia simboliza o Brasil das elites detentoras de poder decisório, uma nação tecnocrática, neoliberal, academicista e pragmatista, que não defende exatamente a qualidade de vida e o atendimento às necessidades aprofundadas da sociedade, mas tão somente o básico do básico, tão básico que se torna abaixo do realmente básico.
Desde 1974, após a decretação do AI-5 e o começo da crise da ditadura militar, que não conseguiu desenvolver o país com o chamado "milagre brasileiro", se ascendeu uma geração de tecnocratas, dotados de decisões e ideias nem sempre populares, aliás, quase sempre impopulares e contrárias ao interesse público, mas que passaram a ter o poder de decidir sobre tudo na sociedade.
Sem se identificarem com o interesse público, tentam se julgar seus representantes, impondo um ponto de vista ao mesmo tempo socialmente excludente e causador de muitos transtornos, que tais pessoas que desenvolvem a "cidadania de escritório" e o "urbanismo de maquetes" juram serem "males necessários" para "benefícios futuros e permanentes (sic)".
No Brasil marcado pela confusão entre sabedoria e sacerdotismo, em que se divinizam pessoas dotadas de poder econômico, político e técnico, os tecnocratas são considerados "deuses" pela sociedade que os teme e nunca age com firmeza contra seus desígnios.
Quanto muito, alguns descontentes só reclamam dos tecnocratas pelas costas, mas fora isso tudo reina na "paz social" que permite que eles cometam seus abusos e tragam prejuízos à sociedade, sempre sob a desculpa de serem "sacrifícios para algo melhor".
ARROCHO SALARIAL PARA O "DESENVOLVIMENTO" DO PAÍS
Tivemos de tudo, do poder abusivo dos tecnocratas. Desde há 50 anos atrás, quando o ministro do Planejamento, Roberto Campos e seu parceiro da pasta da Fazenda, Otávio Bulhões, sob o comando do presidente-general Castello Branco, um plano econômico que "estrangulou" o poder aquisitivo das classes trabalhadoras, com o arrocho salarial e o aumento dos preços.
Eram desculpas feitas como "males necessários" e "sacrifícios urgentes" para a construção do desenvolvimento nacional. O povo só passaria a comprar o "mínimo" para sua sobrevivência e pagar mais contas, vivendo apenas dentro das condições "básicas".
Só que essa desculpa de defender o "básico" acaba criando uma mania em que sucessivas medidas de manter o "básico" acabam fazendo com que tudo ficasse abaixo do básico. De tanto se preocupar com o básico e o mínimo, as coisas acabam ficando abaixo dos padrões básicos e mínimos. Se levarmos adiante, o sentido do básico e do mínimo acaba sendo o da mais absoluta miséria.
MOBILIDADE URBANA: PREJUÍZOS E TRANSTORNOS EM TROCA DO "DEUS" BRT
A tecnocracia se ampliou para outros setores. Na chamada "mobilidade urbana", temos o caso do urbanista paranaense Jaime Lerner, que vende uma imagem de "progressista" mas foi um político apadrinhado e treinado na ditadura militar e sua ascensão política ocorreu em função do "milagre brasileiro". É uma espécie de Roberto Campos do urbanismo e do transporte.
Político ultraconservador, Lerner lançou os padrões antipopulares de transporte coletivo: ônibus com pintura padronizada que desafiam as atenções dos passageiros e acobertam a corrupção político-empresarial, redução de frotas de ônibus em circulação num contexto que supervaloriza os automóveis nas ruas e as reduções de percursos em linhas de ônibus para forçar o uso de bilhetes eletrônicos (os chamados "bilhetes únicos") e causar transtornos para os passageiros.
A medida, que voltou à moda graças à iniciativa do Rio de Janeiro, com a administração impopular de Eduardo Paes e de seu pupilo dos Transportes, Alexandre Sansão - que passou o bastão para sucessores como Carlos Roberto Osório e Rafael Picciani - , causou uma séria crise no sistema de transportes do país, com a prevalência de um modelo caduco que insiste em dar continuidade.
Passageiros se confundem pegando ônibus sem saber que empresa está servindo uma linha - as empresas são proibidas de exibir suas respectivas identidades visuais, que facilitariam a atenção de pessoas comuns - , têm que pegar linhas "alimentadoras" para saltar nos terminais, pegar mais um ou dois ônibus que, com seus transtornos, causam atrasos na chegada ao trabalho ou aos ambientes de ensino.
A espera pela chegada do ônibus desejado, com a redução das frotas que tinham "ônibus demais", chega a uma hora e, com o excesso de automóveis devido ao status quo e à ilusão de comodidade, aumentam ainda mais os atrasos e a tão prometida "rapidez" de tecnocratas, que constroem vias exclusivas de BRT sem medir escrúpulos em demolir patrimônios históricos ou ambientais, se lhes achar necessário, não passa de conversa para boi dormir.
Aliás, o chamado BRT, ônibus articulado ou biarticulado, tornou-se a "moeda de troca" entre tantas para esse caduco sistema de transporte. Os passageiros passaram a sofrer mais pela promessa de um ônibus BRT, com ar condicionado, com motores de indústrias suecas, ou pelo menos com uma dessas qualidades. De que adianta, se esses ônibus acabam ficando sucateados e rodam superlotados?
O BRT (Bus Rapid Transit), nome dado tanto a esse projeto geral de mobilidade e transporte quanto ao tipo de ônibus articulado adotado, tornou-se uma "divindade" que passou a ser endeusada até por uma facção reacionária e agressiva de busólogos, já tomados de fundamentalismo urbanístico e desejo de ascensão política pessoal. Eles defendiam as ideias mais impopulares, tudo em prol do "deus" BRT, que, na prática, só está causando problemas à população.
TRABALHO SOBRECARREGADO
Aliás, o "admirável" projeto do "insuspeito" Jaime Lerner, reciclado pelo discípulo carioca Alexandre Sansão, também incluiu a dupla função do motorista-cobrador, responsável por muitos acidentes de trânsito aliados à tirania do tempo, em que os ônibus são obrigados a cumprir horário em cidades congestionadas.
Assim, quando o ônibus passa por ruas sem congestionamento, o motorista desconta o tempo parado nos engarrafamentos para disparar em alta velocidade, assustando os passageiros. A sobrecarga profissional ainda os faz ficarem doentes e sofrerem de mal súbito nessas condições. O risco de tragédia é potencialmente altíssimo.
A lógica neoliberal envolve essa ideia de sobrecarga profissional, sob a desculpa de promover eficácia e melhor desempenho. E isso se tornou uma norma cada vez mais constante quando o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, um político influente na mesma época em que Jaime Lerner se ascendeu, tornou-se presidente da República.
Ele simbolizou o apogeu de uma visão neoliberal da década de 1990 em que o chamado capitalismo selvagem se voltava às tecnologias de ponta de então. FHC, como era conhecido, passou a defender uma lógica profissional que fazia com que o trabalhador tivesse que sobrecarregar suas funções e suas aptidões sob a desculpa de ser um profissional "dinâmico", "atualizado" e "eficiente".
Essa visão, que obrigava os trabalhadores a aprenderem mais, aumentarem suas cargas horárias e sobrecarregarem seus desempenhos, ruiu quando, em 2001, a sobrecarga profissional fez com que houvesse um acidente na Plataforma P-36, da Petrobras, na Bacia de Campos dos Goitacazes, norte do Estado do Rio de Janeiro, gerando onze mortos.
IDIOTIZAÇÃO CULTURAL: POVO SUBMISSO
Como se não bastasse tudo isso, houve também a ascensão de uma intelectualidade cultural, composta de acadêmicos, cineastas e jornalistas, entre outros, que apostavam numa "nova visão" da cultura popular brasileira, baseada no "livre mercado" e fundamentada no poder midiático como transmissor de valores sócio-culturais e no poder do mercado como seu perpetuador.
Através de figuras como o historiador Paulo César Araújo, o antropólogo Hermano Vianna e o jornalista Pedro Alexandre Sanches - este pupilo de Otávio Frias Filho e discípulo (não-assumido) de Fernando Henrique Cardoso e Francis Fukuyama - , difundiu-se uma tese de que a "verdadeira cultura popular" se baseava na domesticação das classes populares e na promoção do consumismo das populações pobres em todo o país.
A visão foi difundida também como "progressista", mas o que ela fazia era promover a idiotização cultural, transformando as classes populares em caricaturas de si mesmas, com as pessoas transformadas em indivíduos ingênuos e patéticos, impulsionados ao consumismo, embora haja aquele papo intelectual de "autossuficiência das periferias", "benefícios da tecnologia para o povo pobre" e outras mentiras.
Durante muito tempo, essa visão tecnocrática da "cultura popular", que se valia pelo status quo dos intelectuais culturais envolvidos - uns porque tinham pós-graduação, outros porque tinham um belo currículo de entrevistas e reportagens e aqueles porque faziam documentários premiados - , foi considerada "unanimidade" e todo questionamento a ela era visto como "preconceito".
PRETENSAS "DIVINDADES"
Esse quadro é um sintoma de um Brasil que ainda atribui uma superioridade social, seja em que critério for, àqueles que são dotados de alguns privilégios econômicos, políticos, acadêmicos ou profissionais. A sociedade lhes atribui superioridade não pelo conteúdo de suas ideias, mas pelo diploma ou pela "experiência" adquirida, ou talvez por alguma ordem "superior".
Em muitos casos, as pessoas aceitam a superioridade dessas pessoas sem refletir como e por que elas atingiram o status que expressam. E atribuem genialidade a eles sem entender o que realmente eles estão querendo dizer e fazer com aquelas medidas e ideias que, numa análise cautelosa, são as mais desumanas e maléficas para a sociedade.
A opinião pública acaba se escravizando aos desígnios desses modernos fariseus, desses "sacerdotes da razão" divinizados pela posição meramente material e simbólica que exercem na sociedade, e que não está á altura de suas ideias excludentes, preconceituosas, antissociais e impopulares.
É perigoso um país em que a sociedade aceita tudo que vem "de cima", como se as "ordens superiores" dos procedimentos e abordagens cotidianos fossem similares a decisões divinas. Mas elas não são e, não obstante, elas são apenas formas sutis de crueldade e desumanidade, que criam prejuízos e impasses que nunca são resolvidos devidamente.
CHICO E DIVALDO SERIAM TECNOCRATAS?
No "movimento espírita", essa ilusão de superioridade envolve as figuras dos anti-médiuns Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco, o que faz pensar se eles também não estariam inseridos no contexto de tecnocracia de que falamos acima.
Evidentemente, os dois não são associados a funções necessariamente tecnocratas, mas compartilham da ilusão de superioridade e sabedoria que os detentores de habilidades técnicas exercem sobre a sociedade.
Chico Xavier era um homem de origem pobre que tinha uma instrução modesta, longe da imagem exagerada e contrastante do "ignorante que se transformou em sábio pela luz da fé", com regular hábito de leitura de livros mas com incapacidade de ter uma visão de mundo abrangente e coerente e, sobretudo, além dos limites de sua estreita devoção religiosa e sua visão socialmente conservadora.
Divaldo Franco talvez se aproximasse dos critérios tecnocráticos, já que ele, funcionário público aposentado, é famoso pelo tom professoral que influi no seu vestuário e na retórica rebuscada de palavras cultas e oratória habilidosa, além da pretensão ilusória de aparentemente ter resposta para todas as questões da humanidade e do mundo.
Divaldo é um homem que mistura arremedos de pseudo-ciência com esoterismo e erudição discursiva, de uma forma um tanto diferente de Chico Xavier, que tinha um discurso de caipira interiorano e postura de católico devoto e praticante, mas era "indiretamente" empurrado para alegações "científicas", "proféticas" e "filosóficas" relacionadas aos livros que levavam sua autoria.
Portanto, Divaldo é mais direto no simulacro "intelectual" do que Chico Xavier, que só foi "intelectualizado" pela interpretação de terceiros, não raro cheia de fantasias e demais pretensões preciocistas.
Mas, de toda forma, eles também se beneficiam por essa ilusão de superioridade, que na verdade prejudicam a sociedade brasileira, na medida em que tudo que é decidido sob o manto do status quo e de relativos triunfos acadêmicos, profissionais e filantrópicos é tido como "superior" e "necessário", ainda que prejudicial e de eficácia nula ou inócua.
E os brasileiros são tomados por essa ilusão de aceitar tudo o que é decidido "lá do alto", baseado nas ilusões de superioridade que atribuem aos supostos "senhores da razão". E o povo vai pensando assim até que as fezes de pombos caiam sobre suas caras, o que talvez lhes possa ajudar a repensar sobre a validade de tudo que "vem de cima".
Quem tem diploma, vai a Roma. A Idade Mídia simboliza o Brasil das elites detentoras de poder decisório, uma nação tecnocrática, neoliberal, academicista e pragmatista, que não defende exatamente a qualidade de vida e o atendimento às necessidades aprofundadas da sociedade, mas tão somente o básico do básico, tão básico que se torna abaixo do realmente básico.
Desde 1974, após a decretação do AI-5 e o começo da crise da ditadura militar, que não conseguiu desenvolver o país com o chamado "milagre brasileiro", se ascendeu uma geração de tecnocratas, dotados de decisões e ideias nem sempre populares, aliás, quase sempre impopulares e contrárias ao interesse público, mas que passaram a ter o poder de decidir sobre tudo na sociedade.
Sem se identificarem com o interesse público, tentam se julgar seus representantes, impondo um ponto de vista ao mesmo tempo socialmente excludente e causador de muitos transtornos, que tais pessoas que desenvolvem a "cidadania de escritório" e o "urbanismo de maquetes" juram serem "males necessários" para "benefícios futuros e permanentes (sic)".
No Brasil marcado pela confusão entre sabedoria e sacerdotismo, em que se divinizam pessoas dotadas de poder econômico, político e técnico, os tecnocratas são considerados "deuses" pela sociedade que os teme e nunca age com firmeza contra seus desígnios.
Quanto muito, alguns descontentes só reclamam dos tecnocratas pelas costas, mas fora isso tudo reina na "paz social" que permite que eles cometam seus abusos e tragam prejuízos à sociedade, sempre sob a desculpa de serem "sacrifícios para algo melhor".
ARROCHO SALARIAL PARA O "DESENVOLVIMENTO" DO PAÍS
Tivemos de tudo, do poder abusivo dos tecnocratas. Desde há 50 anos atrás, quando o ministro do Planejamento, Roberto Campos e seu parceiro da pasta da Fazenda, Otávio Bulhões, sob o comando do presidente-general Castello Branco, um plano econômico que "estrangulou" o poder aquisitivo das classes trabalhadoras, com o arrocho salarial e o aumento dos preços.
Eram desculpas feitas como "males necessários" e "sacrifícios urgentes" para a construção do desenvolvimento nacional. O povo só passaria a comprar o "mínimo" para sua sobrevivência e pagar mais contas, vivendo apenas dentro das condições "básicas".
Só que essa desculpa de defender o "básico" acaba criando uma mania em que sucessivas medidas de manter o "básico" acabam fazendo com que tudo ficasse abaixo do básico. De tanto se preocupar com o básico e o mínimo, as coisas acabam ficando abaixo dos padrões básicos e mínimos. Se levarmos adiante, o sentido do básico e do mínimo acaba sendo o da mais absoluta miséria.
MOBILIDADE URBANA: PREJUÍZOS E TRANSTORNOS EM TROCA DO "DEUS" BRT
A tecnocracia se ampliou para outros setores. Na chamada "mobilidade urbana", temos o caso do urbanista paranaense Jaime Lerner, que vende uma imagem de "progressista" mas foi um político apadrinhado e treinado na ditadura militar e sua ascensão política ocorreu em função do "milagre brasileiro". É uma espécie de Roberto Campos do urbanismo e do transporte.
Político ultraconservador, Lerner lançou os padrões antipopulares de transporte coletivo: ônibus com pintura padronizada que desafiam as atenções dos passageiros e acobertam a corrupção político-empresarial, redução de frotas de ônibus em circulação num contexto que supervaloriza os automóveis nas ruas e as reduções de percursos em linhas de ônibus para forçar o uso de bilhetes eletrônicos (os chamados "bilhetes únicos") e causar transtornos para os passageiros.
A medida, que voltou à moda graças à iniciativa do Rio de Janeiro, com a administração impopular de Eduardo Paes e de seu pupilo dos Transportes, Alexandre Sansão - que passou o bastão para sucessores como Carlos Roberto Osório e Rafael Picciani - , causou uma séria crise no sistema de transportes do país, com a prevalência de um modelo caduco que insiste em dar continuidade.
Passageiros se confundem pegando ônibus sem saber que empresa está servindo uma linha - as empresas são proibidas de exibir suas respectivas identidades visuais, que facilitariam a atenção de pessoas comuns - , têm que pegar linhas "alimentadoras" para saltar nos terminais, pegar mais um ou dois ônibus que, com seus transtornos, causam atrasos na chegada ao trabalho ou aos ambientes de ensino.
A espera pela chegada do ônibus desejado, com a redução das frotas que tinham "ônibus demais", chega a uma hora e, com o excesso de automóveis devido ao status quo e à ilusão de comodidade, aumentam ainda mais os atrasos e a tão prometida "rapidez" de tecnocratas, que constroem vias exclusivas de BRT sem medir escrúpulos em demolir patrimônios históricos ou ambientais, se lhes achar necessário, não passa de conversa para boi dormir.
Aliás, o chamado BRT, ônibus articulado ou biarticulado, tornou-se a "moeda de troca" entre tantas para esse caduco sistema de transporte. Os passageiros passaram a sofrer mais pela promessa de um ônibus BRT, com ar condicionado, com motores de indústrias suecas, ou pelo menos com uma dessas qualidades. De que adianta, se esses ônibus acabam ficando sucateados e rodam superlotados?
O BRT (Bus Rapid Transit), nome dado tanto a esse projeto geral de mobilidade e transporte quanto ao tipo de ônibus articulado adotado, tornou-se uma "divindade" que passou a ser endeusada até por uma facção reacionária e agressiva de busólogos, já tomados de fundamentalismo urbanístico e desejo de ascensão política pessoal. Eles defendiam as ideias mais impopulares, tudo em prol do "deus" BRT, que, na prática, só está causando problemas à população.
TRABALHO SOBRECARREGADO
Aliás, o "admirável" projeto do "insuspeito" Jaime Lerner, reciclado pelo discípulo carioca Alexandre Sansão, também incluiu a dupla função do motorista-cobrador, responsável por muitos acidentes de trânsito aliados à tirania do tempo, em que os ônibus são obrigados a cumprir horário em cidades congestionadas.
Assim, quando o ônibus passa por ruas sem congestionamento, o motorista desconta o tempo parado nos engarrafamentos para disparar em alta velocidade, assustando os passageiros. A sobrecarga profissional ainda os faz ficarem doentes e sofrerem de mal súbito nessas condições. O risco de tragédia é potencialmente altíssimo.
A lógica neoliberal envolve essa ideia de sobrecarga profissional, sob a desculpa de promover eficácia e melhor desempenho. E isso se tornou uma norma cada vez mais constante quando o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, um político influente na mesma época em que Jaime Lerner se ascendeu, tornou-se presidente da República.
Ele simbolizou o apogeu de uma visão neoliberal da década de 1990 em que o chamado capitalismo selvagem se voltava às tecnologias de ponta de então. FHC, como era conhecido, passou a defender uma lógica profissional que fazia com que o trabalhador tivesse que sobrecarregar suas funções e suas aptidões sob a desculpa de ser um profissional "dinâmico", "atualizado" e "eficiente".
Essa visão, que obrigava os trabalhadores a aprenderem mais, aumentarem suas cargas horárias e sobrecarregarem seus desempenhos, ruiu quando, em 2001, a sobrecarga profissional fez com que houvesse um acidente na Plataforma P-36, da Petrobras, na Bacia de Campos dos Goitacazes, norte do Estado do Rio de Janeiro, gerando onze mortos.
IDIOTIZAÇÃO CULTURAL: POVO SUBMISSO
Como se não bastasse tudo isso, houve também a ascensão de uma intelectualidade cultural, composta de acadêmicos, cineastas e jornalistas, entre outros, que apostavam numa "nova visão" da cultura popular brasileira, baseada no "livre mercado" e fundamentada no poder midiático como transmissor de valores sócio-culturais e no poder do mercado como seu perpetuador.
Através de figuras como o historiador Paulo César Araújo, o antropólogo Hermano Vianna e o jornalista Pedro Alexandre Sanches - este pupilo de Otávio Frias Filho e discípulo (não-assumido) de Fernando Henrique Cardoso e Francis Fukuyama - , difundiu-se uma tese de que a "verdadeira cultura popular" se baseava na domesticação das classes populares e na promoção do consumismo das populações pobres em todo o país.
A visão foi difundida também como "progressista", mas o que ela fazia era promover a idiotização cultural, transformando as classes populares em caricaturas de si mesmas, com as pessoas transformadas em indivíduos ingênuos e patéticos, impulsionados ao consumismo, embora haja aquele papo intelectual de "autossuficiência das periferias", "benefícios da tecnologia para o povo pobre" e outras mentiras.
Durante muito tempo, essa visão tecnocrática da "cultura popular", que se valia pelo status quo dos intelectuais culturais envolvidos - uns porque tinham pós-graduação, outros porque tinham um belo currículo de entrevistas e reportagens e aqueles porque faziam documentários premiados - , foi considerada "unanimidade" e todo questionamento a ela era visto como "preconceito".
PRETENSAS "DIVINDADES"
Esse quadro é um sintoma de um Brasil que ainda atribui uma superioridade social, seja em que critério for, àqueles que são dotados de alguns privilégios econômicos, políticos, acadêmicos ou profissionais. A sociedade lhes atribui superioridade não pelo conteúdo de suas ideias, mas pelo diploma ou pela "experiência" adquirida, ou talvez por alguma ordem "superior".
Em muitos casos, as pessoas aceitam a superioridade dessas pessoas sem refletir como e por que elas atingiram o status que expressam. E atribuem genialidade a eles sem entender o que realmente eles estão querendo dizer e fazer com aquelas medidas e ideias que, numa análise cautelosa, são as mais desumanas e maléficas para a sociedade.
A opinião pública acaba se escravizando aos desígnios desses modernos fariseus, desses "sacerdotes da razão" divinizados pela posição meramente material e simbólica que exercem na sociedade, e que não está á altura de suas ideias excludentes, preconceituosas, antissociais e impopulares.
É perigoso um país em que a sociedade aceita tudo que vem "de cima", como se as "ordens superiores" dos procedimentos e abordagens cotidianos fossem similares a decisões divinas. Mas elas não são e, não obstante, elas são apenas formas sutis de crueldade e desumanidade, que criam prejuízos e impasses que nunca são resolvidos devidamente.
CHICO E DIVALDO SERIAM TECNOCRATAS?
No "movimento espírita", essa ilusão de superioridade envolve as figuras dos anti-médiuns Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco, o que faz pensar se eles também não estariam inseridos no contexto de tecnocracia de que falamos acima.
Evidentemente, os dois não são associados a funções necessariamente tecnocratas, mas compartilham da ilusão de superioridade e sabedoria que os detentores de habilidades técnicas exercem sobre a sociedade.
Chico Xavier era um homem de origem pobre que tinha uma instrução modesta, longe da imagem exagerada e contrastante do "ignorante que se transformou em sábio pela luz da fé", com regular hábito de leitura de livros mas com incapacidade de ter uma visão de mundo abrangente e coerente e, sobretudo, além dos limites de sua estreita devoção religiosa e sua visão socialmente conservadora.
Divaldo Franco talvez se aproximasse dos critérios tecnocráticos, já que ele, funcionário público aposentado, é famoso pelo tom professoral que influi no seu vestuário e na retórica rebuscada de palavras cultas e oratória habilidosa, além da pretensão ilusória de aparentemente ter resposta para todas as questões da humanidade e do mundo.
Divaldo é um homem que mistura arremedos de pseudo-ciência com esoterismo e erudição discursiva, de uma forma um tanto diferente de Chico Xavier, que tinha um discurso de caipira interiorano e postura de católico devoto e praticante, mas era "indiretamente" empurrado para alegações "científicas", "proféticas" e "filosóficas" relacionadas aos livros que levavam sua autoria.
Portanto, Divaldo é mais direto no simulacro "intelectual" do que Chico Xavier, que só foi "intelectualizado" pela interpretação de terceiros, não raro cheia de fantasias e demais pretensões preciocistas.
Mas, de toda forma, eles também se beneficiam por essa ilusão de superioridade, que na verdade prejudicam a sociedade brasileira, na medida em que tudo que é decidido sob o manto do status quo e de relativos triunfos acadêmicos, profissionais e filantrópicos é tido como "superior" e "necessário", ainda que prejudicial e de eficácia nula ou inócua.
E os brasileiros são tomados por essa ilusão de aceitar tudo o que é decidido "lá do alto", baseado nas ilusões de superioridade que atribuem aos supostos "senhores da razão". E o povo vai pensando assim até que as fezes de pombos caiam sobre suas caras, o que talvez lhes possa ajudar a repensar sobre a validade de tudo que "vem de cima".
domingo, 15 de março de 2015
Indignação nacional dá o tom da crise do Brasil
PASSEATA DE PROTESTO CONTRA A PRESIDENTA DILMA ROUSSEFF, EM SÃO PAULO.
Que "coração do mundo" infartado. Enquanto os "espíritas" sonham com o Brasil sendo o país mais poderoso do mundo, numa clara inclinação geocentrista, herdada do Catolicismo medieval, e claramente materialista, delimitando o Novo Eldorado por algumas extensões territoriais feitas pelos homens da Terra, a realidade mostra-se crua e imprevisível.
Enquanto líderes "espíritas", com suas lágrimas de crocodilos, ficam "tristinhos" porque a tensão existente no país não confere com seus princípios de "solidariedade e fraternidade" e da "construção de uma nação comandada pela paz e pelo amor", a revolta popular, em vários planos ideológicos, eclode nas manifestações diversas dos últimos dias e a de hoje.
Por um lado, pessoas progressistas que começam a lançar ideias e projetos, que no plano da política esquerdista nem sempre são devidamente apreciados. O projeto político-econômico do PT, em que pese alguns avanços, está longe de promover o verdadeiro desenvolvimento nacional. O debate cultural foi empastelado pelos adeptos da "cultura" brega, que queriam um povo idiotizado.
Por outro lado, a onda de "cidadãos zangados" trazida pelos reacionários jornalistas ligados às grandes redes de jornais, rádios e TVs, que levam ao exagero surreal a oposição ao PT, transformada num ódio psicótico que faz alguns pedirem a volta da ditadura militar que arrasou com o país.
Os conflitos ocorrem, as confusões e a raiva estão imensas. A oposição à presidenta Dilma Rousseff, pelo menos no eixo Rio-São Paulo, é muito grande e sepultou de vez a onda pseudo-esquerdista da Era Lula, em que uma parcela da sociedade reacionária, principalmente os adeptos da bregalização cultural, fingia ser "de esquerda".
Depois de muitos anos vencendo em quase todos os âmbitos das atividades humanas, o reacionarismo ideológico, que na Era Lula apenas moderou seu poderio político-ideológico, Daí, por exemplo, que alguns reacionários extremos, que defendiam a idiotização da cultura popular, se passavam por "progressistas" apenas pelo pretexto de "defenderem o popular".
Mas é claro que a máscara deles caiu tempos depois, e eles, que se associavam a páginas favoráveis a Che Guevara e Hugo Chavez no extinto Orkut, que seguiam Emir Sader no Twitter e até 2010 declaravam voto apaixonado para Dilma, hoje chamam Karl Marx de "nazi-fascista" e defendem a intervenção militar por uma nova ditadura.
A crise de princípios, de um país que não consegue conter a inflação e a insegurança, que só tardiamente passou a classificar o assassinato de mulheres por motivos machistas, o chamado feminicídio, como crime hediondo, e já começa a estudar a hipótese de transformar trotes universitários violentos como crime de tortura, ainda é muito grande.
E o Brasil adiou por muito tempo esse clima de tensão, já que as feridas sociais são muito imensas, elas vêm desde o 01 de abril de 1964, quando um projeto progressista de país, sonhado desde o governo de Juscelino Kubitschek, foi por água abaixo, e que, só observando o lado cultural, ainda continua fraturado como se não tivéssemos recuperado a democracia rompida naquele ano.
Essas feridas profundas de mais de 50 anos fazem reviver antigas neuroses, com Dilma Rousseff, em que pese as debilidades de seu governo, vivendo na carne a mesma angústia de João Goulart, do fanatismo oposicionista, que nada tem a ver com a oposição democrática, até pela recusa em admitir que a própria direita permitiu que Dilma fosse reeleita pelo voto popular.
E agora essa tensão tende a explodir de várias maneiras, e os manifestos dos últimos dias, um no último dia 13, em favor de Dilma Rousseff, e a manifestação para hoje, contra a presidenta, só são o começo de um longo e sério período de tensões.
Curiosamente, a polarização lembra o comício de João Goulart na Central do Brasil, no Rio de Janeiro - que, como o recente ato pró-Dilma, ocorreu numa sexta-feira 13 - e a Marcha da Família Unida Com Deus pela Liberdade, em São Paulo, no dia 19 de março daquele 1964 que gerou o golpe militar.
Não sabemos como vão ocorrer as coisas, mas o período gravíssimo de crises mais uma vez volta à tona, depois de uma relativa calmaria política entre o fim da ditadura e os tempos atuais, mais confusa e caótica que a calmaria entre o fim do Estado Novo, em 1945, e o golpe militar de 1964.
Isso contraria, e muito, as "profecias" de Chico Xavier em 1969, até porque ele defendeu a queda de João Goulart e em 1971 disparava contra camponeses, operários e estudantes (sim, ele mesmo, Francisco Cândido Xavier, "todo amor, bondade e misericórdia"). Até porque não há tempo para o Brasil virar o "coração do mundo" em 2019, e provavelmente não o será em 2052 ou 2057.
O Brasil não viveu ainda os dilemas que os experientes países desenvolvidos já viveram. Na Europa, países como França, Alemanha e Inglaterra já tiveram áreas destruídas e se tornaram cenários de fome e miséria. Viveram vários períodos de profundo ceticismo político e tamanhas injustiças.
O nosso país, ainda que tivesse vivido suas rebeliões populares, suas tensões políticas e coisa e tal, parece ainda virgem em certos impasses. já que na maioria dos casos temos estruturas de supremacia de poder comparáveis aos da Idade Média ou, pelo menos, da Idade Moderna.
Não estamos dizendo que o Brasil tenha que encarar os infortúnios que países mais experientes sofreram há vários séculos, mas ao menos que possamos aproveitar essas lições e prevenir tamanhos flagelos, o que, no contexto atual, torna-se muitíssimo difícil.
O máximo que podemos esperar é que essa crise se torne intensa a ponto do Brasil se revelar como um país altamente caótico e terrivelmente problemático. Infelizmente, temos que esperar o pior. Porque é assim que surgirão as primeiras lições e darão margem ao diagnóstico mais preciso dos problemas que permitam criar soluções mais definitivas.
É lamentável, mas é por situações assim que um país inexperiente terá que aprender a encarar para poder extrair dela o aprendizado que formulará novas soluções.
Que "coração do mundo" infartado. Enquanto os "espíritas" sonham com o Brasil sendo o país mais poderoso do mundo, numa clara inclinação geocentrista, herdada do Catolicismo medieval, e claramente materialista, delimitando o Novo Eldorado por algumas extensões territoriais feitas pelos homens da Terra, a realidade mostra-se crua e imprevisível.
Enquanto líderes "espíritas", com suas lágrimas de crocodilos, ficam "tristinhos" porque a tensão existente no país não confere com seus princípios de "solidariedade e fraternidade" e da "construção de uma nação comandada pela paz e pelo amor", a revolta popular, em vários planos ideológicos, eclode nas manifestações diversas dos últimos dias e a de hoje.
Por um lado, pessoas progressistas que começam a lançar ideias e projetos, que no plano da política esquerdista nem sempre são devidamente apreciados. O projeto político-econômico do PT, em que pese alguns avanços, está longe de promover o verdadeiro desenvolvimento nacional. O debate cultural foi empastelado pelos adeptos da "cultura" brega, que queriam um povo idiotizado.
Por outro lado, a onda de "cidadãos zangados" trazida pelos reacionários jornalistas ligados às grandes redes de jornais, rádios e TVs, que levam ao exagero surreal a oposição ao PT, transformada num ódio psicótico que faz alguns pedirem a volta da ditadura militar que arrasou com o país.
Os conflitos ocorrem, as confusões e a raiva estão imensas. A oposição à presidenta Dilma Rousseff, pelo menos no eixo Rio-São Paulo, é muito grande e sepultou de vez a onda pseudo-esquerdista da Era Lula, em que uma parcela da sociedade reacionária, principalmente os adeptos da bregalização cultural, fingia ser "de esquerda".
Depois de muitos anos vencendo em quase todos os âmbitos das atividades humanas, o reacionarismo ideológico, que na Era Lula apenas moderou seu poderio político-ideológico, Daí, por exemplo, que alguns reacionários extremos, que defendiam a idiotização da cultura popular, se passavam por "progressistas" apenas pelo pretexto de "defenderem o popular".
Mas é claro que a máscara deles caiu tempos depois, e eles, que se associavam a páginas favoráveis a Che Guevara e Hugo Chavez no extinto Orkut, que seguiam Emir Sader no Twitter e até 2010 declaravam voto apaixonado para Dilma, hoje chamam Karl Marx de "nazi-fascista" e defendem a intervenção militar por uma nova ditadura.
A crise de princípios, de um país que não consegue conter a inflação e a insegurança, que só tardiamente passou a classificar o assassinato de mulheres por motivos machistas, o chamado feminicídio, como crime hediondo, e já começa a estudar a hipótese de transformar trotes universitários violentos como crime de tortura, ainda é muito grande.
E o Brasil adiou por muito tempo esse clima de tensão, já que as feridas sociais são muito imensas, elas vêm desde o 01 de abril de 1964, quando um projeto progressista de país, sonhado desde o governo de Juscelino Kubitschek, foi por água abaixo, e que, só observando o lado cultural, ainda continua fraturado como se não tivéssemos recuperado a democracia rompida naquele ano.
Essas feridas profundas de mais de 50 anos fazem reviver antigas neuroses, com Dilma Rousseff, em que pese as debilidades de seu governo, vivendo na carne a mesma angústia de João Goulart, do fanatismo oposicionista, que nada tem a ver com a oposição democrática, até pela recusa em admitir que a própria direita permitiu que Dilma fosse reeleita pelo voto popular.
E agora essa tensão tende a explodir de várias maneiras, e os manifestos dos últimos dias, um no último dia 13, em favor de Dilma Rousseff, e a manifestação para hoje, contra a presidenta, só são o começo de um longo e sério período de tensões.
Curiosamente, a polarização lembra o comício de João Goulart na Central do Brasil, no Rio de Janeiro - que, como o recente ato pró-Dilma, ocorreu numa sexta-feira 13 - e a Marcha da Família Unida Com Deus pela Liberdade, em São Paulo, no dia 19 de março daquele 1964 que gerou o golpe militar.
Não sabemos como vão ocorrer as coisas, mas o período gravíssimo de crises mais uma vez volta à tona, depois de uma relativa calmaria política entre o fim da ditadura e os tempos atuais, mais confusa e caótica que a calmaria entre o fim do Estado Novo, em 1945, e o golpe militar de 1964.
Isso contraria, e muito, as "profecias" de Chico Xavier em 1969, até porque ele defendeu a queda de João Goulart e em 1971 disparava contra camponeses, operários e estudantes (sim, ele mesmo, Francisco Cândido Xavier, "todo amor, bondade e misericórdia"). Até porque não há tempo para o Brasil virar o "coração do mundo" em 2019, e provavelmente não o será em 2052 ou 2057.
O Brasil não viveu ainda os dilemas que os experientes países desenvolvidos já viveram. Na Europa, países como França, Alemanha e Inglaterra já tiveram áreas destruídas e se tornaram cenários de fome e miséria. Viveram vários períodos de profundo ceticismo político e tamanhas injustiças.
O nosso país, ainda que tivesse vivido suas rebeliões populares, suas tensões políticas e coisa e tal, parece ainda virgem em certos impasses. já que na maioria dos casos temos estruturas de supremacia de poder comparáveis aos da Idade Média ou, pelo menos, da Idade Moderna.
Não estamos dizendo que o Brasil tenha que encarar os infortúnios que países mais experientes sofreram há vários séculos, mas ao menos que possamos aproveitar essas lições e prevenir tamanhos flagelos, o que, no contexto atual, torna-se muitíssimo difícil.
O máximo que podemos esperar é que essa crise se torne intensa a ponto do Brasil se revelar como um país altamente caótico e terrivelmente problemático. Infelizmente, temos que esperar o pior. Porque é assim que surgirão as primeiras lições e darão margem ao diagnóstico mais preciso dos problemas que permitam criar soluções mais definitivas.
É lamentável, mas é por situações assim que um país inexperiente terá que aprender a encarar para poder extrair dela o aprendizado que formulará novas soluções.
sábado, 14 de março de 2015
O perigo da Guerra Santa
TREINAMENTO DE JOVENS TERRORISTAS DO JIHAD.
O ódio não vem por decreto. O que faz o radicalismo religioso adotar posturas bélicas é quando, impossibilitado de expandir seus domínios de maneira natural, reagem de maneira violenta chegando mesmo a criar milícias para proteger e garantir seu poder.
O fundamentalismo religioso é um dos fenômenos mais preocupantes da humanidade no mundo inteiro, e ela não irá destruir apenas o "velho mundo". Ele já pratica atos eventuais no chamado "mundo desenvolvido", não bastassem os estragos feitos no Oriente Médio.
A ideia de Guerra Santa, que há muito ocupa o noticiário político internacional, é remanescente da Idade Média, quando o Islamismo e o Catolicismo criaram forças militares para zelarem por suas supremacias religiosas respectivas.
As chamadas Cruzadas do Catolicismo agiram como um verdadeiro Exército que tanto sangue humano derramaram para proteger os interesses e domínios da "Santa Igreja". O Islamismo, que deturpa a religião muçulmana atribuindo a ela a permissão para matar, é a mais antiga força bélica em atividade no mundo.
Tudo isso não vem porque um pregador disse "eu vou acabar com vocês", "eu vou mandar no mundo" e "hoje vocês estão sob meu poder". Tudo surge quando o crescimento de um movimento religioso, quando encontra obstáculos de qualquer natureza, impulsiona uma reação drástica de seus líderes e seguidores.
A coisa não é tão simples quanto se imagina e ninguém vai guerrar com o corpo pintado de preto e os chifres colocados em cima da cabeça. Muitas das sangrentas operações bélicas foram decididas por sacerdotes de batinas visando a proteção do "santo nome do Nosso Senhor Jesus Cristo".
Supremacias religiosas sempre causam arrepios naqueles que não compartilham de suas fantasias. O risco de uma Terceira Guerra Mundial não parece se dar à luz da Ciência ou da corrida espacial, como imaginava Francisco Cândido Xavier no seu famoso sonho de 1969.
O pior dos conflitos, na verdade, se mostra quando a religião e suas fantasias sai de seu natural lugar de culturas, ritos e lendas para se julgar acima da realidade, se achando melhor do que outras crenças e estabelecendo uma corrida rumo à supremacia.
Isso se vê não somente no Islamismo, como se nota no recente movimento da Igreja Universal do Reino de Deus, "Gladiadores do Altar", e em atitudes agressivas que os próprios seguidores de Chico Xavier adotam na Internet, ameaçando e xingando quem não compartilha com suas fantasias.
No Brasil, fica complicado explicar isso, porque aqui o que se observa é a capacidade de muitas pessoas criarem malabarismos das palavras, fazendo mil argumentos para "justificar" abusos, credulidades, omissões, retrocessos ou tudo o mais de negativo, através de alegações que tentam a todo custo promover sua validade e sua permanência.
O "amor" de letras "desencarnadas" do "movimento espírita" já mostra casos de "ódio" movidos justamente por aqueles que se dizem "perdoar sempre" e "incapazes de fazer mal a um micróbio". O caso Amaury Pena, o sobrinho de Chico Xavier, já deu o sinal vermelho diante do ódio e das calúnias contra o jovem que iria denunciar as irregularidades do próprio tio.
Recebemos mensagens de internautas reclamando de conflitos familiares, cyberbullying, chantagens e ameaças vindos justamente de pessoas que professam a "religião espírita" e que se autoproclamam comprometidas com o amor e o perdão sem limites.
É preocupante, porque o "império do amor" pode se tornar pretexto para futuras manifestações de ódio, e isso pode trazer movimentos bélicos ou atitudes rancorosas e vingativas de qualquer natureza, que contrariam a presumida intenção de "promover a solidariedade entre os povos".
A Guerra Santa pode se tornar um modelo "emergencial" para a proteção de seitas religiosas. Os "Gladiadores da Fé" divulgam seu movimento com atitudes paramilitares, usando o fanatismo religioso para rasgar a Constituição e favorecer a "bancada evangélica" que ameaça transformar o país numa teocracia neopentecostal.
O problema será a eclosão de futuros conflitos religiosos, que podem produzir um genocídio sem precedentes, não apenas no "velho mundo", mas também no Brasil, onde os focos genocidas já se encontram atuantes principalmente na criminalidade suburbana e na pistolagem das áreas rurais.
Por isso, a cautela é enorme. Acreditar em contos-de-fadas, com a fada madrinha salvando o Brasil e desenvolvendo a sua supremacia político-religiosa "para o bem", não faz sentido. Se o Brasil exercer supremacia político-religiosa no mundo, o que teremos é tão somente uma nova teocracia, nos moldes do Catolicismo medieval redivivo pelo "movimento espírita".
Se isso ocorrer, pior para os brasileiros, porque, do jeito que estão os conflitos religiosos, o Brasil apenas entrará na Guerra Santa, o que poderá causar, no território brasileiro, não um ambiente de paz e solidariedade, mas um ambiente de destruições, mortes e muita, muita insegurança, pelas reações que grupos religiosos rivais causarão uns nos outros.
O ódio não vem por decreto. O que faz o radicalismo religioso adotar posturas bélicas é quando, impossibilitado de expandir seus domínios de maneira natural, reagem de maneira violenta chegando mesmo a criar milícias para proteger e garantir seu poder.
O fundamentalismo religioso é um dos fenômenos mais preocupantes da humanidade no mundo inteiro, e ela não irá destruir apenas o "velho mundo". Ele já pratica atos eventuais no chamado "mundo desenvolvido", não bastassem os estragos feitos no Oriente Médio.
A ideia de Guerra Santa, que há muito ocupa o noticiário político internacional, é remanescente da Idade Média, quando o Islamismo e o Catolicismo criaram forças militares para zelarem por suas supremacias religiosas respectivas.
As chamadas Cruzadas do Catolicismo agiram como um verdadeiro Exército que tanto sangue humano derramaram para proteger os interesses e domínios da "Santa Igreja". O Islamismo, que deturpa a religião muçulmana atribuindo a ela a permissão para matar, é a mais antiga força bélica em atividade no mundo.
Tudo isso não vem porque um pregador disse "eu vou acabar com vocês", "eu vou mandar no mundo" e "hoje vocês estão sob meu poder". Tudo surge quando o crescimento de um movimento religioso, quando encontra obstáculos de qualquer natureza, impulsiona uma reação drástica de seus líderes e seguidores.
A coisa não é tão simples quanto se imagina e ninguém vai guerrar com o corpo pintado de preto e os chifres colocados em cima da cabeça. Muitas das sangrentas operações bélicas foram decididas por sacerdotes de batinas visando a proteção do "santo nome do Nosso Senhor Jesus Cristo".
Supremacias religiosas sempre causam arrepios naqueles que não compartilham de suas fantasias. O risco de uma Terceira Guerra Mundial não parece se dar à luz da Ciência ou da corrida espacial, como imaginava Francisco Cândido Xavier no seu famoso sonho de 1969.
O pior dos conflitos, na verdade, se mostra quando a religião e suas fantasias sai de seu natural lugar de culturas, ritos e lendas para se julgar acima da realidade, se achando melhor do que outras crenças e estabelecendo uma corrida rumo à supremacia.
Isso se vê não somente no Islamismo, como se nota no recente movimento da Igreja Universal do Reino de Deus, "Gladiadores do Altar", e em atitudes agressivas que os próprios seguidores de Chico Xavier adotam na Internet, ameaçando e xingando quem não compartilha com suas fantasias.
No Brasil, fica complicado explicar isso, porque aqui o que se observa é a capacidade de muitas pessoas criarem malabarismos das palavras, fazendo mil argumentos para "justificar" abusos, credulidades, omissões, retrocessos ou tudo o mais de negativo, através de alegações que tentam a todo custo promover sua validade e sua permanência.
O "amor" de letras "desencarnadas" do "movimento espírita" já mostra casos de "ódio" movidos justamente por aqueles que se dizem "perdoar sempre" e "incapazes de fazer mal a um micróbio". O caso Amaury Pena, o sobrinho de Chico Xavier, já deu o sinal vermelho diante do ódio e das calúnias contra o jovem que iria denunciar as irregularidades do próprio tio.
Recebemos mensagens de internautas reclamando de conflitos familiares, cyberbullying, chantagens e ameaças vindos justamente de pessoas que professam a "religião espírita" e que se autoproclamam comprometidas com o amor e o perdão sem limites.
É preocupante, porque o "império do amor" pode se tornar pretexto para futuras manifestações de ódio, e isso pode trazer movimentos bélicos ou atitudes rancorosas e vingativas de qualquer natureza, que contrariam a presumida intenção de "promover a solidariedade entre os povos".
A Guerra Santa pode se tornar um modelo "emergencial" para a proteção de seitas religiosas. Os "Gladiadores da Fé" divulgam seu movimento com atitudes paramilitares, usando o fanatismo religioso para rasgar a Constituição e favorecer a "bancada evangélica" que ameaça transformar o país numa teocracia neopentecostal.
O problema será a eclosão de futuros conflitos religiosos, que podem produzir um genocídio sem precedentes, não apenas no "velho mundo", mas também no Brasil, onde os focos genocidas já se encontram atuantes principalmente na criminalidade suburbana e na pistolagem das áreas rurais.
Por isso, a cautela é enorme. Acreditar em contos-de-fadas, com a fada madrinha salvando o Brasil e desenvolvendo a sua supremacia político-religiosa "para o bem", não faz sentido. Se o Brasil exercer supremacia político-religiosa no mundo, o que teremos é tão somente uma nova teocracia, nos moldes do Catolicismo medieval redivivo pelo "movimento espírita".
Se isso ocorrer, pior para os brasileiros, porque, do jeito que estão os conflitos religiosos, o Brasil apenas entrará na Guerra Santa, o que poderá causar, no território brasileiro, não um ambiente de paz e solidariedade, mas um ambiente de destruições, mortes e muita, muita insegurança, pelas reações que grupos religiosos rivais causarão uns nos outros.
quinta-feira, 12 de março de 2015
Jihadistas mostram o grau extremo do fanatismo religioso
Nos últimos dias, terroristas do Jihad que organizam o movimento "Estado Islâmico" realizaram vários ataques contra patrimônios históricos milenares, destruindo, entre outras coisas, raras relíquias artísticas expostas em um museu em Mossul, no Iraque, e, depois, no início da demolição das ruínas da cidade de Nimrud, berço da civilização assíria, também no mesmo país do Oriente Médio.
Consta-se que os assírios são os pioneiros da civilização moderna, Embora tenham sido, em seu tempo, uma civilização dotada de valores considerados hoje grotescos e violentamente cruéis, foi na Assíria que muitos dos inventos contemporâneos e muitas ideias atualmente consolidadas foram criados.
Conhecidos pela tecnologia militar avançada para sua época, considerando que o auge da civilização assíria se deu entre 2400 e 612 a. C, os assírios desenvolveram a fabricação de objetos de ferro, produção de pilhas e foram pioneiros também em asfaltar estradas e construir aquedutos, além de serem responsáveis pela construção dos primeiros arcos.
Eles também foram pioneiros na criação de fechaduras para portas, da descarga em vasos sanitários, do sistema de correspondência postal, das primeiras bibliotecas e de um dos primeiros instrumentos musicais que deu origem às atuais guitarras e violões.
Os assírios também foram os pioneiros a sistematizar um projeto de unificação cultural dos povos da Mesopotâmia, e, por conseguinte, de todo o Oriente Médio, criando condições para o desenvolvimento de religiões como o Politeísmo helênico, o Cristianismo, o Judaísmo e a religiçao muçulmana.
O ataque de grupos jihadistas - que distorcem de maneira estúpida e grosseira as lições da religião muçulmana, que condena o terrorismo - parece querer combater as raízes da civilização moderna, desesperados em promover uma teocracia sanguinária de caraterísticas bastante primitivas.
O terrorismo islâmico é uma expressão do fanatismo religioso, um fenômeno que se torna perigoso para a humanidade planetária e que também mostra casos similares, mesmo em menor intensidade de ameaça, em outras crenças.
O Catolicismo medieval tornou-se um exemplo histórico de como a humanidade regrediu, retrocedendo das tentativas de progresso moral e cultural da Grécia Antiga para um obscurantismo teocrático de romanos e, depois, bizantinos, e cuja trajetória tão trabalhosamente tentamos recuperar a partir do século XV.
Agora, os focos de extremismo religioso, depois dos atentados ocorridos nos EUA em 11 de setembro de 2001 - sequestro suicida de um avião, ataques ao Pentágono e destruição do World Trade Center - , além de outros ataques a Londres e Madri, chamaram a atenção depois que parte de uma equipe do jornal humorístico Charlie Hebdo foi assassinada por um grupo de terroristas, em Paris.
O mundo está inseguro, e o caos ainda é acrescido por manifestações "menores" como a defesa do Papa Francisco da "palmadinha" dada por pais aos filhos, ou da formação de um grupo "paramilitar" chamado "Gladiadores do Altar", pela Igreja Universal do Reino de Deus.
Mas mesmo a "profecia" de Chico Xavier, de um mundo "dominado pela fraternidade", preocupa, porque por trás do discurso "fascinante" existe um projeto roustanguista de "religião única", um neo-catolicismo de verniz "espírita", uma teocracia brasileira que não deixa de ter também sua função centralizadora e hegemônica.
O projeto de "Brasil, Coração do Mundo" tão sonhado por Francisco Cândido Xavier e pelos dirigentes da FEB seria, na verdade, uma rearticulação do Catolicismo medieval do Império Romano e do Império Bizantino, uma espécie de revanche pela decadência do jesuitismo (que continua existindo, mas sem o poder de outrora) e pelo fim da supremacia católica no planeta.
O "espiritismo" brasileiro seria, portanto, a consolidação, adaptada para os conceitos locais, do processo aparentemente aglutinador da diversidade de crenças descrito por Jean-Baptiste Roustaing, que defendia o desenvolvimento de uma "religião espírita" cujos moldes eram justamente herdados pelo Catolicismo medieval.
quarta-feira, 11 de março de 2015
O Brasil na época do sonho de Chico Xavier
O sonho dormido de Francisco Cândido Xavier, sabemos, foi transformado em "profecia" pelo status que ele ganhou com a ajuda da FEB, que o fez famoso feito um verdadeiro astro pop do "movimento espírita".
É evidente que as conveniências favoreceram tudo isso, mas o sonho de Chico Xavier não tem lá muita importância. Era apenas um sonho comum, relacionado à viagem de astronautas norte-americanos à Lua e a manifestação de certos temores pessoais de Chico.
Este sonho é igual ao que qualquer um sonha. Se atribuíssemos a todo mundo a missão "profética" de cada sonho, o mundo seria uma bagunça, com todo o conflito de neuroses e traumas pessoais de certos indivíduos, ou de perspectivas e fantasias de outros.
O que se deve levar em conta, quanto a esse conho que Chico Xavier teve poucos dias depois à viagem de astronautas à Lua, em 20 de julho de 1969, é o pano-de-fundo ideológico que o Brasil vivia e que exerceu influência decisiva na personalidade, que sabemos conservadora, do anti-médium de Pedro Leopoldo.
O Brasil vivia os primeiros meses do Ato Institucional Número Cinco (AI-5), decretado pelo governo militar depois que o general presidente Artur da Costa e Silva se reuniu com seu ministério. O AI-5 foi a reação drástica feita diante da eclosão de protestos diversos que dominaram o país desde 1966 e que haviam atingido o ponto máximo em 1968.
E o que diz o sonho de Chico Xavier? Diz que o Brasil tem grandes chances de se tornar a "nação mais poderosa do mundo" e que a chegada de uma tripulação humana ao solo lunar inspiraria uma guerra espacial ou, ao menos, confrontos bélicos que destruirão o Primeiro Mundo, juntamente com o terrorismo do Oriente Médio e as catástrofes na Ásia, Europa e Oceania.
Só que o sonho de Chico Xavier tem um caráter fantasioso, nos moldes que seriam conhecidos a partir daquele ano de 1969, em setembro, quando começou a entrar no ar o Jornal Nacional da Rede Globo.
Assim como Xavier, o Jornal Nacional que marcou a ditadura militar era marcado por uma narrativa que creditava o exterior como uma área de conflitos, enquanto o Brasil era o "maior dos paraísos". Até parecia que o empresário Roberto Marinho vivia as perspectivas de Data-Limite Segundo Chico Xavier.
A essas alturas Roberto Marinho deve ter feito as pazes com Chico Xavier, já que, tempos depois, tornou-se conhecida a parceria da Globo Filmes e da FEB para a produção de filmes "espíritas" que bem estão de acordo com a narrativa novelesca que já dominava os chamados romances "mediúnicos".
Afinal, se foram os católicos tradicionalistas que sentiram horror ao hibridismo chiquista e vieram os católicos heterodoxos, que ficam felizes ao ver que, com toda a excentricidade, o "espiritismo" popularizado por Chico Xavier mantém-se fiel à essência do Catolicismo medieval português, mas em bases mais flexíveis conforme as demandas da atualidade.
No Brasil do sonho de Chico Xavier era, porém, um país cruel, em que os descontentes, quando puderam, saíram do país para buscar asilo no exterior. Nossas melhores mentes, para se preservarem, teriam que viver fora do Brasil, mas nem todos tinham a mesma sorte. Uns eram presos, torturados e mortos, e, quando assassinados, tinham seus corpos escondidos em terrenos quaisquer.
A imprensa, mesmo a mais conservadora, tinha que mostrar seu conteúdo para representantes da Censura Federal designados para fiscalizá-los. Programas de entretenimento tinham que enviar roteiros. Peças teatrais idem. Concertos musicais também. E por aí vai.
Para suavizar a dureza do regime, era feita uma propaganda ufanista que se guiava pelo plano de desenvolvimento econômico que só beneficiava a classe média. O ufanismo era também um preparativo para o espetáculo da Copa do Mundo do México de 1970. O povo que tinha que aguentar a carestia e fazer malabarismos para manter as contas e a alimentação em dia, com um salário sufocante.
Chico Xavier, dois anos depois, manifestou-se favorável à ditadura militar, como confirma o registro do programa Pinga-Fogo, da TV Tupi de São Paulo, em 1971. Ele chegou a evocar argumentos que mesmo muitos conservadores deixaram de usar, atacando João Goulart, o operariado, o campesinato e o movimento estudantil, numa crueza que poucos conseguem ver em Chico Xavier.
Portanto, a "profecia" da "data-limite" é algo risível, citando vindas de discos voadores, destruição do "velho mundo" e um apelo para a "solidariedade" católica, uma "fraternidade de final de missa" que não resolve as animosidades das pessoas. Sendo o sonho "vivido" durante a ditadura militar pelo conservador Chico Xavier, há que se duvidar muito de seu suposto progressismo.
segunda-feira, 9 de março de 2015
O pior inimigo de Chico Xavier: a lógica
Francisco Cândido Xavier é associado a uma imagem, construída há mais de 70 anos, de figura "bondosa", de "perdão infinito" e de "ampla e irrestrita caridade". Só que muito dessa imagem não é mais do que mito, já que o anti-médium mineiro tem seu currículo cheio de irregularidades vergonhosas.
Astro maior de toda uma conduta deturpada do "espiritismo" brasileiro pela Federação "Espírita" Brasileira, Chico Xavier, na verdade, nunca foi "espírita", nunca sentiu, ao longo de seus 92 anos de vida entre 1910 e 2002, qualquer identificação verdadeira com Allan Kardec. Chico sempre foi católico, mesmo com sua relativa paranormalidade que o fazia se comunicar com o jesuíta Emmanuel.
Chico Xavier, mesmo assim, parecia se manter incólume, sob o pretexto de que "para ser espírita não precisa deixar de ser católico" e o anti-médium de Pedro Leopoldo e, depois, Uberaba, passou por cima de inúmeros incidentes que mostraram seu perfil contraditório e irregular.
Ele mesmo tornou-se o principal responsável de toda sorte de mistificações, fraudes e deturpações da Doutrina Espírita, em primeiro momento sob ordens da FEB, mas depois tomando com gosto tais procedimentos que lhe favoreciam a visibilidade, a fama e o prestígio.
Todo um rol de fraudes, que envolvem plágios literários e apoio a práticas ilusionistas travestidas de materialização - que incluíram o truque de usar modelos ou objetos cobertos de roupas brancas para nelas colarem recortes de fotos de gente falecida - , além de um cem-número de mistificações e interpretações equivocadas da vida espiritual, marcaram a trajetória do suposto "homem-amor".
Recentemente, acadêmicos a serviço (não-assumido) da FEB tentam fazer monografias que possam colocar Chico Xavier no seleto clube de cientistas, como se Chico tivesse sido um primo distante de Stephan Hawking e, com "baixa instrução", fosse capaz de transmitir relatos de "profunda importância para o meio científico", mesmo sob a colaboração de "espíritos".
São monografias irregulares, feitas por metodologias falhas pelo rigor parcial que impede a precisão realmente rigorosa nas pesquisas, e que só servem para forjar supostas comprovações científicas sobre Chico Xavier.
Primeiro, foi a pesquisa sobre as cartas atribuídas ao falecido jovem Jair Presente, que causaram estranheza não pela suposição de apresentar ou não dados pessoais complexos do rapaz, morto em 1974, mas pelo contraste gritante entre algumas cartas igrejistas, como a primeira "psicografada" por Chico Xavier, e um relato posterior de um suposto Jair desesperado que parece ter "viajado em ácido".
Segundo, foi a pesquisa que acadêmicos fizeram e que supôs que o (fictício, embora os "espíritas" não admitam) André Luiz divulgou conhecimentos científicos "pioneiros" em até 63 anos sobre a glândula pineal, conclusão infundada porque os pesquisadores não consultaram livros científicos originários da época da elaboração de Missionários da Luz.
Terceiro, é a própria interpretação surreal de um sonho dormido de Chico Xavier, pouco depois da chegada de uma missão da NASA à Lua, em 1969, que gerou uma série de "profecias" das quais o Brasil, mesmo problemático, se transformaria na "maior nação da Terra" às custas do colapso vivido pelo "velho mundo".
Há outros exemplos que tentam empurrar Chico Xavier goela abaixo no seleto clube de cientistas, como se não bastassem as qualidades surreais que Chico acumulou sem qualquer habilidade para tais: filósofo, professor, psicólogo, profeta, jornalista e o que vier à tona. E nenhuma dessas qualidades Chico realmente cumpriu de maneira exemplar e correta.
No entanto, tudo isso gerou uma mistificação e uma mitificação que fizeram Chico Xavier estar acima de tudo e de todos, transformando-o num vice-deus, quase um vice-senhor do Universo, acima do bem e do mal e dono de todo o processo científico de transmissão do conhecimento.
Questionar Chico Xavier passou a ser um pretexto para seus seguidores, não raro de forma bem agressiva, acusarem os contestadores de "obsediados", "perseguidores", "prisioneiros das paixões humanas" e "escravos dos juízos da razão envenenada".
Daí que o homem que supostamente perdoou tudo e todos, na verdade, nunca perdoou um dos mais decisivos, certeiros e eficientes recursos do ser humano: a capacidade de, através da análise, raciocinar e questionar amplamente as coisas.
Chico Xavier nunca perdoou o raciocínio lógico. Sempre condenava severamente a contestação, o exame, o debate, a investigação. Para ele, isso era fonte de "escândalos", "dissabores", "desgostos" e "conflitos desnecessários", e isso era tão certo que Chico preferia que as pessoas sofressem "amando", encarassem as angústias "orando em silêncio", sem realizar qualquer intervenção para superar tudo isso.
Chico só admitia a lógica e o conhecimento científico quando ele se desenvolvia em favor do anti-médium. É como se a Ciência fosse escrava de Chico Xavier e se submetesse até aos mais risíveis caprichos de parte do anti-médium. É uma herança do Catolicismo medieval, com a diferença de que a Ciência, em vez de condenada sumariamente, pode ao menos ser cooptada e depois deturpada.
Essa é a sina do conhecimento científico nessa forma deturpada de Doutrina Espírita, determinada pela FEB e ampliada e popularizada por Chico Xavier. O raciocínio lógico somente é aceitável quando não interfere nas fantasias e delírios dessa doutrina brasileira, podendo, nesta condição, ser exaltado com todos os seus personagens.
Mas se a Ciência questionar algum ponto estranho de Chico Xavier, a coisa muda e mesmo o mais preciso, coerente e verídico parecer lógico é desqualificado levianamente sob o rótulo de "julgamento das paixões terrenas dos homens". Maior ataque ao raciocínio lógico do que este, impossível.
Assinar:
Postagens (Atom)






