quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Explicando melhor o erro dos acadêmicos da UFJF sobre "André Luiz"


O erro do trabalho dos acadêmicos da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em colaboração com a Universidade de São Paulo, Universidade Anhanguera e Associação Médica Espírita, de atribuir o pioneirismo científico ao fictício André Luiz, requer maiores explicações.

Os autores, Giancarlo Lucchetti, Jorge Cecílio Daher Jr., Decio Iandoli Jr., Juliane P. B. Gonçalves, e Alessandra L. G. Lucchetti, realizaram seu trabalho de pesquisa, publicado no periódico de uma instituição de menor expressão no meio científico, Neuroendocrinology Letters, intitulado Historical and cultural aspects of the pineal gland: comparison between the theories provided by Spiritism in the 1940s and the current scientific evidence e lançado em 2013.

O trabalho tem como foco o livro Missionários da Luz, de 1945, que o anti-médium mineiro Francisco Cândido Xavier botou na conta do fictício "André Luiz", do qual os autores da monografia alegam possuir conhecimentos que só seriam divulgados na comunidade científica a partir de 1958 e, em vários aspectos, apenas depois de 2005.

Um trecho do referido livro - o trabalho cita outros livros de "André Luiz", mas concentra o foco na obra de 1945 - é atribuído aos autores como "antecipação" do isolamento da melatonina, hormônio expelido pela glândula pineal, que só ocorreu em 1958 pelo cientista norte-americano Aaron Lerner. Diz o trecho, extraído no capítulo dois, A Epífise:

"As glândulas genitais segregam os hormônios do sexo, mas a glândula pineal, se me posso exprimir assim, segrega «hormônios psíquicos» ou «unidades-força» que vão atuar, de maneira positiva, nas energias geradoras. Os cromossomos da bolsa seminal não lhe escapam a influenciação absoluta e determinada."

O argumento dado pelos autores não procede. Não há uma menção de isolamento da melatonina, que só recebeu esse nome pela iniciativa de Aaron Lerner, mas que já era um hormônio estudado por amostras extraídas de bois e vacas, já desde 1917.

Apesar das amostras estudadas terem sido extraídas de animais bovinos, já era de conhecimento na comunidade científica que tais hormônios também eram produzidos no cérebro dos seres humanos, sendo a glândula pineal um tema longamente estudado, com seus conceitos modernos transmitidos a partir de René Descartes (1596-1650).

Os autores alegam que os estudos da glândula pineal, até a época do livro de "André Luiz" - um dos volumes da coleção A Vida no Mundo Espiritual da FEB - , eram associadas especificamente à loucura ou à esquizofrenia, supostamente sem atribuir à glândula pineal e seu hormônio, depois conhecido como melatonina, a função de controle dos impulsos nervosos e, por conseguinte, das emoções.

Há uma grande e grave falha dos autores, que é a ausência de fontes originais anteriores ao livro de 1945, já que a bibliografia aponta para títulos em sua maioria contemporâneos, em sua maioria esmagadora lançados entre 2010 e 2013, data da publicação do ensaio, sendo os títulos mais antigos datados de 1977 e 1979.

Não há um contato direto com as obras originais produzidas entre os anos 1910 e 1940 sobre glândula pineal, nem sequer com o cientista Wolfgang Bargmann, cuja obra de 1943, Handbuch der mikroskopischen Anatomie des Menschen (título que quer dizer Manual da Anatomia Microscópica do Ser Humano), não tem tradução conhecida no Brasil.

Consta-se que, no Brasil de 1943-1945, era conhecido nos meios acadêmicos especializados em anatomia humana, um antigo livro de 1920 dos anatomistas Alfredo Monteiro e Benjamin Batista, Manual de Anatomia Humana, mas falta saber se este livro contou com uma edição revista e atualizada nos anos 1940 ou algum outro livro na época.

O que é certo é que os autores do trabalho não tiveram acesso a livros científicos originais, produzidos até mais ou menos 1943 e 1944, se supormos a "coleta de informações" para o livro Missionários da Luz, daí eles terem um conhecimento superficial e vago do que havia sido produzido de informações sobre a glândula pineal na época do livro de 1945.

60 ANOS DE PIONEIRISMO? NÃO SERIAM DOIS OU MAIS ANOS DE DEFASAGEM?

Os autores do trabalho sobre "André Luiz" não têm, portanto, autoridade para garantir se os conhecimentos "complexos" descritos em Missionários da Luz eram realmente pioneiros ou inéditos, se não tiveram contato com as obras produzidas antes de 1945, que ofereceriam respostas para o suposto pioneirismo do fictício autor "espiritual".

O que eles entendem como pioneirismo de 13 a 63 anos dos "conhecimentos de André Luiz", em relação a dados científicos conhecidos, provavelmente é, na verdade, uma defasagem de dois ou mais anos, porque os dados podem ser, aparentemente, oficialmente publicados em fontes posteriores, mas isso não significa que eles não tenham sido discutidos nem apreciados.

Questões como a liberação de hormônios pela glândula pineal ou funções atribuídas a esse órgão referentes ao controle dos impulsos emocionais são assuntos já descritos bem antes de 1945, descritos em passagens que não constam nas referências pesquisadas pelos autores.

Estas referências citam trabalhos dos anos 1940 de forma superficial, como é de praxe. Elas não iriam descrever rigorosamente todo o conteúdo das antigas obras, o que criou uma "pegadinha" nos autores do trabalho da UFJF de que os "conhecimentos de André Luiz" não foram analisados pela comunidade científica da época de Missionários da Luz.

Tais conhecimentos "complexos" foram discutidos na época, e muito, e muitos conceitos atribuídos ao "pioneirismo" do fictício "espírito", na verdade, eram conhecidos, sim, na bibliografia "extremamente escassa e altamente conflituosa" sobre o assunto. E até que ponto essa bibliografia era escassa e apresentava conflitos?

Isso os autores foram bastante superficiais. Primeiro, a bibliografia pode não ter sido exatamente escassa, já que, pesquisando aqui ou ali, havia muitos trabalhos sobre anatomia humana e, em particular, sobre glândula pineal, produzidos até 1945. Segundo, é da natureza do debate científico que as informações tenham sido "altamente conflituosas". Faz parte do processo.

Muito provavelmente, algum livro da época foi consultado pelos editores da FEB ou levado à luz por consultores científicos, e das teses "conflituosas" uma delas foi abraçada por "André Luiz" para seu panfletarismo religioso travestido de ciência.

O fato de um assunto só ganhar "confirmação" anos depois não significa que ele não tenha sido discutido antes. Uma descoberta científica, muitas vezes, confirma hipóteses que são trabalhadas até mesmo duas ou três décadas antes. E é isso que provavelmente pode ter ocorrido com a glândula pineal.

Mesmo sem conclusões rigorosamente definitivas, as justificativas que apresentamos já são suficientes para desqualificar a tese de "pioneirismo" de "André Luiz". O que ocorreu, em Missionários da Luz, não foi um pioneirismo de até seis décadas, mas uma defasagem de, pelo menos, dois anos.

Não foi desta vez que Chico Xavier pôde ser aceito pela comunidade científica. Sentimos muito.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Chico Xavier e o sonho "carnavalesco" da "Cidade da Luxúria"


Sempre os sonhos. Francisco Cândido Xavier é o único que, quando sonha, sofre "desdobramento astral" e tudo aquilo que ele sonha é "profecia" e "alerta para a humanidade". Somo se ele fosse tomado de superpoderes, como ente sobrenatural que acabou sendo considerado pelos seguidores.

As pessoas vão reclamar. Mas elas mesmas consideram Chico Xavier "sobrenatural", sem admitir que ele seja. Isso porque, para elas, Chico Xavier é o único que erra muito e erra feio e "sempre está certo", é "espírito puro" com suas imperfeições graves e o único capaz de desafiar os argumentos da lógica e do bom senso, contraria Allan Kardec e é considerado como "fiel" a este.

Fazer o quê? Chico Xavier, o homem das contradições, o vice-Deus de todo o universo, na visão de seus defensores, que se dizem altamente espiritualizados mas movem suas paixões materialistas no endeusamento de um estereótipo do "bom caipira" depois convertido no "velhinho humilde". Apesar de toda alegação espiritualista, são paixões apegadas ao mais puro materialismo.

Pois o Chico Xavier dotado de superpoderes havia comunicado ao amigo Newton Boechat um sonho - o tal "desdobramento espiritual" - que teve em 1950 quando ele foi "levado" pelo mentor Emmanuel para conhecer uma "Cidade da Luxúria" cujo cenário pode aludir hoje ao Carnaval de Salvador, com sua viscosa e enjoativa axé-music. Ou então um Rio Parada Funk. Diz Newton Boechat:

"Em um dos constantes desdobramentos astrais ocorridos com nosso querido médium, durante o sono, Emmanuel conduziu o duplo-astral de Chico Xavier a uma imensa cidade espiritual, situada na região do Umbral. Esta lhe pareceu extremamente inferior e bastante próxima da crosta planetária. Era uma cidade estranha não só pelo aspecto desarmônico e antiestético, como pelas manifestações de luxúria, degradação de costumes e sensualidade de seus habitantes, exibidas em todos os logradouros públicos, ruas, praças, etc. Emmanuel informou ao Chico que aquela vasta comunidade espiritual era governada por entidades mentalmente vigorosas porém negativas em termos de ética e sentimentos humanos. Eram estes maiores que davam as ordens e faziam-se obedecer, exercendo sobre aquelas entidades um poder do tipo das sugestões hipnóticas, ao qual tais Espíritos estariam submetidos, ainda mesmo depois de reencarnados. Pelas ruas da referida cidade estranha, desfilavam, de maneira semelhante a cordões carnavalescos, multidões compostas de entidades que se esmeravam em exibições de natureza pornográfica, erótica e debochada. Os maiorais eram conduzidos em andores ou tronos colocados sobre carros alegóricos, cujos formatos imitavam os órgãos sexuais masculinos e femininos. Uma euforia generalizada parecia dominar aquelas criaturas, ou mais aproximadamente, assistia-se a uma “festa de despedida” de uma multidão revelando a certeza da aproximação de um fim inexorável, que extinguiria a situação cômoda até então usufruída por todos. De fato, aqueles Espíritos, sem exceção, haviam recebido um aviso de que estava determinado, de maneira irrevogável pelos “Planos da Espiritualidade Superior”, o seu próximo reingresso à vida carnal na Terra. A esse decreto inapelável não iriam escapar nem os próprios maiorais".

Narrativa de cunho materialista. Uma cidade tomada de luxúria e que é localizada no centro da Terra. Líderes moralmente inferiores mandando nas demais pessoas. Pessoas desfilando com exibições de natureza pornográfica e debochada. Suposto fim inexorável pelo anúncio de retorno ao mundo carnal, mediante "decreto inapelável dos planos da espiritualidade superior".

Pode até ser que a turma da "Cidade da Luxúria", se de fato existiu - devemos prestar atenção que é um sonho, que pode ser de Chico Xavier ou de um mendigo, é apenas um sonho de quem dorme - , ganhou seu equivalente nas pessoas que se reúnem no Carnaval de Salvador, ou em eventos como a Festa de Barretos ou o Rio Parada Funk, ou qualquer evento que os grandes chefões da mídia definem como "balada".

SABE NADA, INOCENTE - O É O Tchan tem seus sucessos livremente expostos para o público infantil do "Coração do Mundo", tendo sido tocado até em evento filantrópico "espírita".

No entanto, não houve "decreto inapelável" nem "Planos da Espiritualidade Superior" que determinaram a ida dessas pessoas, inclusive os chamados "maiores" (os chefões de toda a baderna onírica sonhada por Xavier), mas uma baixa sintonia espiritual brasileira, trazida sobretudo pela ditadura militar e seus apoiadores, que "trouxeram" a patota toda para o Brasil de hoje.

CONDENAÇÃO OU APOLOGIA?

O que se observa no suposto sonho "carnavalesco" de Chico Xavier é o sentido ambíguo da festa lembrar o Carnaval de Salvador ou um Rio Parada Funk, talvez o misto dos dois. Mas, à primeira vista, isso traz uma grande dúvida sobre se o sonho era para atribuir o fim de uma manifestação luxuriosa, ou o começo de sua implantação no "Coração do Mundo" brasileiro.

Soa muito ambíguo que o sonho sugira o fim dessa fase toda, quando sabemos que o "espiritismo" brasileiro sempre estimulou ou consentiu que muitas condições sociais para tais deslizes de ordem moral e sócio-cultural aconteçam. O "espiritismo" apoiou de maneira direta ou indireta, mesmo com seu moralismo rigoroso.

Só que não vemos o tal "fim inexorável", muito pelo contrário. O que vemos é a expansão dos piores valores, decisões, procedimentos e pontos de vista, num crescente e diversificado retrocesso social, sob vários ramos da atividade humana, a quatro anos da tal "data-limite" que celebrava a antiga fantasia de Chico Xavier de ver seu "País das Maravilhas" virar a nação mais poderosa do mundo.

Aliás, se alguém observar, no caso do "funk" (manifestação extrema dos piores instintos humanos no Brasil), o que elites de antropólogos, ativistas, jornalistas e famosos falam sobre o gênero, eles usam dos mesmos "bons argumentos" que Chico Xavier usa para prever o "reino de amor" que sua suposta profecia da "data-limite" alega prever para o Brasil do futuro.

Já se viu famílias, algumas delas "espíritas", que faziam desfiles escolares, de cunho filantrópico, que tocavam sucessos do É O Tchan diante de criancinhas desavisadas por pais que, alegremente, despejavam esse ícone do "melhor da música baiana" nos ouvidos ingênuos da criançada.

Que "Coração do Mundo" é esse? Será que Emmanuel estava feliz da vida ao saber que a "Cidade da Luxúria" que se situava no centro da Terra - como se os espíritos embrutecidos, tomados de interesses materialistas no além-túmulo, aguentassem viver num forno aquecido, num equivalente "espírita" do Inferno católico - iria ser extinta e seu povo se espalhar para todo o Brasil?

E o que vai resolver o problema dos excessos cometidos? Oração em silêncio? Servir aos nossos algozes, que se divertem com tais excessos? Condescendência e confiança passiva no "tempo"? Engolir sapos? Ou então o jeito é aderir a essa farra toda e depois ler um daqueles terríveis livros de Emmanuel que trazem ainda mais azar para nossas vidas?

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

A relação de Chico Xavier com a doutrina de Allan Kardec


Oficialmente, o anti-médium Francisco Cândido Xavier é considerado o maior mestre do chamado "espiritismo kardecista", o que muitos de seus seguidores entendem que Chico era o maior especialista na doutrina de Allan Kardec no Brasil.

Houve quem alegasse que Chico Xavier estudou e leu bastante os livros de Allan Kardec, que os chamados "espíritas" brasileiros definem como "pentateuco", se utilizando de um jargão dos sacerdotes católicos.

Segundo eles, o "pentateuco" seriam os cinco livros de Allan Kardec que os seguidores menos inclinados e os leigos se limitam a ler, quando o fazem: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e O Inferno e A Gênese.

A tese do "pentateuco", por estranho que pareça para uns, é bastante discutível e o termo não é aceito pelos espíritas autênticos. A seleção também discrimina o trabalho que Kardec fez na Revista Espírita, nos quais explica detalhadamente muitos dos pontos de vista trazidos nos cinco livros, e apresenta outros que enriqueceram a análise dos fenômenos espíritas.

Outra obra discriminada é outro livro básico, O Que É o Espiritismo?, que tem o objetivo inverso mas complementar da Revista Espírita - que aprofunda a análise kardeciana e explica pontos polêmicos - , já que foi um livro que simplificava as análises descritas nos cinco livros básicos, sendo a mais básica das obras básicas, feito para iniciantes e leigos.

CHICO XAVIER NUNCA LEU KARDEC

É uma grande fantasia acreditar que Chico Xavier estudou profundamente os livros de Allan Kardec, já que ele se identificava melhor com o religiosismo do neo-catolicismo prometido por Jean-Baptiste Roustaing em seus volumes de Os Quatro Evangelhos (três, na edição francesa, e quatro, na edição brasileira da FEB, traduzida por Guillon Ribeiro, o mesmo que "suavizou" Kardec).

É só verificar os livros de Xavier, que na sua essência cometem sérias contradições com as obras kardecianas, criando sérios problemas com a abordagem da Doutrina Espírita, não apenas com seu religiosismo extremo, mas também por procedimentos contrários à lógica espírita.

Embora a imagem oficial que se tem de Chico Xavier é de alguém com uma relação ambígua com a obra de Allan Kardec, supostamente como a de um homem que ao mesmo tempo seguiu o kardecismo e o interpretou mal, a verdade é que a relação de Chico com a obra kardeciana foi praticamente nula.

O que aconteceu é que, diante dos tendenciosismos da Federação "Espírita" Brasileira, Chico Xavier foi induzido eventualmente a defender a obra de Allan Kardec, dando uma falsa impressão de que apreciava os livros do professor lionês.

Diante das polêmicas causadas pelas deturpações da Doutrina Espírita, Chico Xavier evocava Allan Kardec apenas para agradar amigos e não decepcionar, sobretudo, os espíritas autênticos como José Herculano Pires, amigo de Chico mas que não compartilhava nem apoiava muitos de seus erros. Amigos, amigos, negócios à parte.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

A "alta cultura" do Brasil que quer ser o "Coração do Mundo"

A FUNQUEIRA ANITTA REBOLANDO PARA CRIANÇAS - Cadê a educação das "crianças-índigo"? 

Uma das promessas feitas pela "maravilhosa profecia" de Francisco Cândido Xavier é que o Brasil viverá uma grande revolução no âmbito da cultura, em que grandes artistas virão com sua melhor música, a espalhar o melhor do nosso patrimônio cultural não só para os brasileiros, mas também para o mundo inteiro.

Vendo a situação como está hoje, a quatro anos da "data-limite", só rindo para não chorar, porque estamos em um momento extremamente o contrário do que Chico Xavier garantiu, através do relato de seu sonho, que iria acontecer em breve no nosso país.

Vivemos uma situação de degradação cultural que parece não acabar. Mesmo quando há, no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, um desgaste muito grande de ídolos da axé-music, do "forró eletrônico" e do "sertanejo", o país parece ainda agravar sua situação, já que temos um quadro pior do que se imagina.

Vivemos uma relação entre os poderes das corporações midiáticas e da indústria do entretenimento, aliados à degradação educacional, que faz com que nossos jovens ou mesmo adultos, nossos pobres ou mesmo os mais abastados, a menosprezarem o nosso patrimônio cultural.

As pessoas não se interessam por literatura e, quando interessam, leem livros de auto-ajuda ou best sellers tipo aventuras fantasiosas ou diários sobre frivolidades. E, se observarmos que a chamada literatura "espírita" é extremamente ruim - Chico Xavier e Divaldo Franco estão dentro - , a coisa chega ao ponto da calamidade pública.

Grandes artistas, grandes intelectuais e grandes cientistas do país existem, mas eles não têm visibilidade, são desprezados e até hostilizados nas mídias sociais e não têm verbas para furar o bloqueio do prestígio e da popularidade fácil.

Pior, quando pessoas de grande valor morrem, podendo ser Sylvia Telles, Leila Diniz, Renato Russo, Glauber Rocha, Milton Santos ou José Wilker, o Brasil entra em prejuízo, porque eles podem até serem admirados de uma forma ou de outra, mas não deixaram uma sólida geração de seguidores.

Em contrapartida, há uma multidão de sub-celebridades que querem permanecer em evidência por qualquer bobagem, pessoas sem talento que tentam manter a fama se autopromovendo até mesmo por seus defeitos e escândalos, os mais diversos e constrangedores.

Até perguntamos se a expressão cultural "protegida" pelas "boas vibrações" do "coração do mundo" seguem a perspectiva "carnavalesca", da inversão de valores, e que a "alta cultura" que prevalece é justamente o rol de baixarias, futilidades e leviandades que se observa sob o rótulo de "cultura popular" no Brasil.

Furar o cerco de empresários do entretenimento e do poder midiático associado, e enfrentar uma juventude furiosa que vê na breguice e na imbecilização cultural em geral como estímulo para suas catarses pessoais é uma tarefa árdua e sujeita até mesmo a represálias, que poderiam chegar ao ponto de receber vírus na Internet ou ser assassinado por jovens riquinhos fãs de "funk".

CHITÃOZINHO & XOXORÓ - A canastrice da dupla é o máximo que encontramos de "sofisticado" e "erudito" na cultura musical dominante no país.

Quando se permite alguma expressão da cultura de verdade, a própria mídia e o mercado trabalham como se fosse algo velho, ultrapassado, liberado para uma degustação pelo avesso, como é o caso de nossa belíssima literatura, com grandes escritores reduzidos a meros autores de frases ou curtos parágrafos com lições "pragmáticas" para a vida humana.

Isso sem falar da Música Popular Brasileira que hoje se perde em homenagens intermináveis, como se estivesse em processo de despedida para se extinguir de vez. E, o que é pior, nosso rico patrimônio cultural, mesmo aquele feito nas senzalas e ocas, hoje está condenado a mofar nos museus ou, quando muito, a ser apreciado por elites cada vez menores de especialistas.

A coisa está tão deplorável que o máximo de "sofisticação" e "erudição" que temos em notícia na grande mídia está na breguice sonora de uma dupla como Chitãozinho e Xororó, incapaz de lançar um sucesso expressivo de sua lavra, e usando suas vozes estridentes para cantar sob orquestra ou, agora, fazer covers do repertório do respeitado Antônio Carlos Jobim.

A nossa literatura também não é confiável, já que mesmo a blogosfera é algo que precisa selecionar como quem cata arroz para separar seus melhores grãos de grãos ruins ou de outros ingredientes como alpistes, pedras e outros, para não dizer os grãos que servem de casulo para pequenos insetos.

Muitos dos textos mais parecem um relato de banalidades sem importância, ou então de meros dicionários de gírias e costumes da moda, sem algo que acrescentasse à nossa vida, muito longe do que fazia Machado de Assis, Raul Pompéia e outros mestres do passado.

"CRIANÇA-ÍNDIGO"? - Funqueiro MC Pedrinho é a "grande sensação" do momento, interpretando baixarias pornográficas com apenas 12 anos.

E se incomoda a pseudo-sofisticação musical de Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires, Zezé di Camargo & Luciano e tantos outros, eis que a noção de "novidade" está associada a uma criança de 12 anos que, tornando-se intérprete de "funk", despeja no microfone baixarias de cunho pornográfico e palavrões.

MC Pedrinho é esse menino, cujo exemplo frustra as expectativas de haver uma "criança-índigo" da forma como acreditam os "espíritas" brasileiros, um líder esclarecido e muito inteligente a lançar valores edificantes e grandiosos para a humanidade.

Mas num país em que uma funqueira marcada por baixarias grotescas como Valesca Popozuda quer agora se passar por "refinada", como se fosse fácil uma discípula de Carla Perez (de quem é sósia) e Tati Quebra-Barraco se tornar uma "Audrey Hepburn dos trópicos", há quem diga, como muitos intelectuais ditos "renomados", que MC Pedrinho é apenas um "novo Gregório de Matos" a causar polêmica com seu sucesso.

Enquanto isso, a "boa poesia" musical está em canções que exaltam a bebedeira, o sexo impulsivo e grosseiro, num mercado em que existem mulheres que vivem só de mostrar o corpo, mercado cujos princípios a serem defendidos são os piores possíveis para nossa sociedade, sendo empurrados até para o público de formação universitária.

Vivemos um vazio de valores e um mercado e uma mídia viciados. e o Brasil não parece sair disso, por causa de todo um lobby que envolve acadêmicos, executivos de mídia, empresários de agência de famosos (que empregam sub-celebridades), jornalistas e ativistas sociais, que se comprometem a defender a imbecilização cultural por interesses que lhes são estratégicos.

Afinal, diante de uma multidão ao mesmo tempo submissa e idiotizada, as elites faturam mais, o mercado se movimenta, é mais dinheiro para um grupo privilegiado de pessoas, enquanto o povo é desestimulado a questionar o que lhe é imposto como "sucesso" ou como "modelo de personalidade" a ser seguido, num contexto em que até as gírias são impostas pelo poder midiático.

E o nosso "profeta" Chico Xavier com isso? Ele tem boa parte na culpa, porque pedia para nós orarmos em silêncio diante dos absurdos e adversidades da vida, e que soframos o pior sob o silêncio da prece.

Aí ele prometia que o "juízo do tempo" iria cuidar de nossos algozes. Mas aí eles permanecem no poder, aumentam privilégios e sobrevivem até a avalanches de escândalos e encrencas, demorando uns 100 ou 200 anos (uma ou duas encarnações) para sofrerem as consequências de seus atos.

Eles mantém o poder até para promover a degradação cultural e torná-la autossustentável às custas de muito marketing e uma intensa blindagem de intelectuais e celebridades. E depois vão os "espíritas" dizerem que nossa melhor cultura está em alta e que o país está pronto para comandar o mundo.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Pesquisadores erram ao "comprovar" supostos dados científicos de "André Luiz"


Há dois anos, o "movimento espírita" havia comemorado a inclusão, sem revisão, de um artigo em inglês de acadêmicos da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que teve como foco principal um dos livros escritos sob a grife "André Luiz", Missionários da Luz, de 1945.

O livro, espécie de "continuação" de Nosso Lar (1943), havia, segundo os autores Jorge Cecílio Daher Jr., Alessandra e Giancarlo Luccheti e outros, antecipado conhecimentos científicos que só seriam descobertos seis décadas depois.

A tese referente a Missionários da Luz foi publicada em 2011 numa publicação científica de segundo escalão, a Neuroendocrinology Letters, cujo portal aparentemente parou em 2013, sem apresentar qualquer atualização de conteúdo.

Embora eles analisassem ligeiramente várias obras do chamado "ciclo André Luiz", eles voltam sua atenção para o livro de 1945 e para dois capítulos, em que são descritos conceitos relacionados à gândula pineal, uma pequena glândula localizada no cérebro e que regula atividades como o sono e o desempenho sexual.

Os pesquisadores alegam que os conhecimentos descritos eram praticamente ignorados pela comunidade científica da época e que eram poucas as publicações referentes ao tema nos meios científicos e médicos.

De acordo com sua tese, o tema só começou a ser analisado "pra valer" na década de 1950, e o "pioneirismo" do suposto espírito de André Luiz é reforçado pelo fato de que Chico Xavier, que supostamente psicografou o livro, era de baixa escolaridade e não era especializado em assuntos de tal envergadura.

INCOERÊNCIAS

A tese, embora representasse, para o pessoal da Federação "Espírita" Brasileira, a consagração de Francisco Cândido Xavier nos meios científicos, apresenta uma série de incoerências. Não vamos mostrar aquelas de cunho estritamente científico, por não ser este blogue especializado em assuntos científicos, mas aquelas correspondentes ao histórico de pesquisas sobre glândula pineal.

Os autores da tese, ligados à mesma Universidade Federal de Juiz de Fora que tenta "confirmar" a suposta mediunidade de Xavier em relação às cartas de Jair Presente - apresentamos contradições aberrantes em duas cartas pesquisadas e ainda mandamos mensagem para a UFJF sobre tais equívocos - , erram quanto ao suposto ineditismo dos livros de André Luiz.

Embora eles admitam que o assunto da glândula pineal seja longamente analisado pela comunidade científica, eles erram ao defender que o assunto havia sido "pouco estudado" nos anos 1940 e que os "conhecimentos" trazidos por Missionários da Luz só seriam reconhecidos seis décadas depois.

Antes de mais nada, o assunto era analisado desde a Antiguidade grega, por volta do século 31 a. C., a partir de pesquisas dos pensadores Herófilo e Erasístrato, e os estudos se avançaram nos últimos tempos através dos estudos do filósofo e cientista francês René Descartes (1596-1650).

Descartes, um dos pensadores apreciados por Allan Kardec, era defensor da ideia de que a dúvida era o caminho mais seguro para procurar a verdade, criando assim uma linha de raciocínio que fez o pedagogo de Lyon criar as bases intelectuais da Doutrina Espírita, bases desprezadas pelos "espíritas" brasileiros.

No século XX, havia, sim, um amplo estudo sobre glândula pineal, envolvendo pesquisadores que vão desde o czeco Frantisek Karel Studnicka, nas primeiras décadas, até pesquisadores da década de 1940 como Gladstone, Wekeley e Bargmann.

Se, na interpretação dos pesquisadores da UFJF, as publicações referentes à glândula pineal eram "escassas", alegando terem sido menos que cem, isso não quer dizer que as ideias aparentemente trazidas por "André Luiz" tenham sido inéditas ou pioneiras.

Diante de tantas acusações de plágio dadas a Chico Xavier, de que seus livros teriam a colaboração de editores da FEB e de que um jovem chamado Waldo Vieira teria criado muitos traços pessoais do suposto médico espiritual, é possível inferir que algum desses livros dos anos 1940 teria servido de fonte para as "inéditas teses" de Missionários da Luz.

Quando ideias complexas passam tardiamente a ter conhecimento público, indo um pouco além da comunidade de especialistas, isso não quer dizer que elas tenham sido ignoradas ou pouco discutidas. Pelo contrário, elas levam tempo para chegarem ao público, diante de um intenso debate que sofrem entre mais de uma corrente de abordagem científica.

Pesquisas científicas levam tempo, seja para comprovar teses sobre o funcionamento do organismo, seja para criar remédios para curar doenças graves, seja para outro fim. Teses arrojadas já são transmitidas e descobertas em dada época, mas levam muito tempo para chegar ao público.

Por isso, a equipe que pesquisou o livro Missionários da Luz, alegando que "André Luiz" antecipou em seis décadas muitos conhecimentos científicos, simplesmente cometeu um sério erro, praticamente uma grande tolice.

Nossa constatação se deu porque esses conhecimentos já eram discutidos na época, pela comunidade científica, e apenas eram de conhecimento mais específico de seus cientistas, e provavelmente algum livro deles foi usado como fonte para as informações descritas em Missionários da Luz.

Mais uma vez, o "movimento espírita" perdeu na tentativa de fazer Chico Xavier ser aceito pela ciência. Acreditando que ganhou a causa, através de uma duvidosa tese acadêmica, os "espíritas" mais uma vez esbarraram em contradições que desqualificam os livros "psicografados", verdadeiros panfletos religiosos que se apresentam como pretensa ciência.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

O problema não é o discurso "positivo", mas o "outro lado"

CRUZADAS MEDIEVAIS - Forças bélicas e sanguinárias agindo "por amor ao Cristo".

Conhecendo a dócil narrativa da "data-limite" através de um sonho de Chico Xavier em 1969, as pessoas se transbordam de exagerado otimismo, achando que o Brasil, ao se tornar a "nação mais poderosa do planeta" diante de um "velho mundo" em ruínas, será o ingresso certo para o paraíso na Terra.

Conforme descrevemos, essas pessoas se sentiram ofendidas quando um vídeo anunciou que a mensagem oculta de Data-Limite Segundo Chico Xavier prevê uma futura teocracia nos moldes do que o Império Romano exerceu na Idade Média, uma supremacia ao mesmo tempo política e religiosa na chamada "comunidade das nações".

Elas se ofendem porque preferem acreditar que o "espiritismo" brasileiro simbolizado por Chico Xavier rompeu totalmente com o Catolicismo medieval e que está dotado de um "perfeito equilíbrio" entre ciência e religião de uma maneira sem precedentes na História da humanidade. Visão atraente, mas completamente fora da realidade.

Por debaixo dos panos, o "espiritismo" brasileiro manteve a essência do Catolicismo medieval, apenas eliminando o que havia de coercitivo. Apenas os "anéis" foram trocados, mas os dedos "espíritas" no Brasil são exatamente os mesmos dedos esboçados pelo Catolicismo fundado pelo imperador romano Constantino, há muitos séculos atrás.

Daí a preocupação grave do que existe por trás da "carinhosa profecia" do "sempre sábio" Francisco Cândido Xavier e suas "meigas palavras de amor". O grande problema não é o discurso positivo da "nação feliz" que se esboçará no futuro do planeta. O problema está no "outro lado", no que deve ser eliminado para abrir caminho para o "país dos sonhos".

EXEMPLOS TRÁGICOS

Já ouvimos essa conversa de nações que prometiam ser "modelo" para a humanidade e que viraram tiranias sanguinárias. E tudo isso partiu da ideia de que, para se construir um "novo reino", obstáculos teriam que ser eliminados.

Observamos as reportagens e parte do documentário Data-Limite Segundo Chico Xavier, de Fábio Medeiros, e constatamos que o que seus partidários mal conseguem disfarçar é que ações terroristas e catástrofes tendem, na avaliação deles, destruir o chamado "velho mundo" (Europa, EUA, Oriente Médio e restante da Ásia, além de parte da Oceania).

Isso é uma espécie de "holocausto" botado na conta da "Mãe Natureza" ou dos "reajustes espirituais" trazidos pelos "irmãozinhos sofredores" (eufemismo para espíritos de moral bastante grosseira ainda em ação na Terra), que derrubariam áreas que, mesmo bastante problemáticas, atingiram um certo grau de experiência evolutiva social, ainda que vivessem sérios prejuízos.

São áreas que variam da desilusão em relação aos descaminhos da sociedade capitalista ao desenvolvimento de propostas de sustentabilidade e qualidade de vida. Áreas com experiência social mais antiga seriam exterminadas, embora supostamente deixassem seu "legado" na nação brasileira através dos "refugiados".

A quatro anos da "data-limite", o que o Brasil recebeu de refugiados foram de cidadãos vindos do Haiti ou de países africanos em guerra que se amontoam em filas de emprego, já concorrendo com os próprios brasileiros que não conseguem arrumar trabalho.

O que derruba qualquer otimismo em relação ao sonho de Chico Xavier é a observação cautelosa de que exemplos de "nações predestinadas" representaram projetos totalitários que tantas dores e infortúnios causaram àqueles que não correspondiam ao projeto político e, por vezes, social e religioso, dos países em processo de dominação.

O próprio Império Romano, na Idade Média, fundou o Catolicismo que, em nome do "amor em Cristo", promoveu muitos genocídios e condenações injustas, usando as piores medidas punitivas, como as queimadas humanas, o enforcamento e o fuzilamento, como maneira de expulsar pessoas "incômodas" à "causa maior" simbolizada pela nação mais poderosa.

Depois, veio o imperialismo dos Estados Unidos da América, que exterminou povos "primitivos" e, em seguida, estabeleceu uma ascensão política, econômica e militar que causa até hoje sérios estragos, e que na década de 1980 chegou mesmo a financiar o banditismo e as ações terroristas que dizimaram ativistas de diversos movimentos e organizações sociais em países como a Guatemala, fora as ditaduras financiadas pela CIA e empresas estadunidenses.

Mas, pouco antes da consagração dos EUA, a Alemanha nazista se autoproclamava um projeto de "nação poderosa" que tinha seus valores "positivos", como a "superioridade" da "raça ariana" e do "povo alemão", com suas alegações de "desenvolvimento máximo de ordem intelectual e econômica".

E no que isso resultou? No efeito histórico de lembrança extremamente triste e chocante, com os campos de concentração acumulando cadáveres de gente inocente, por causa da origem judia que se tornou o "outro lado" que o nazismo considerava como "obstáculo a ser eliminado".

É esse o perigo do Brasil como "nação mais poderosa do planeta". O "espiritismo" brasileiro, capaz de "sumir" com Amauri Xavier, o próprio sobrinho do "renomado profeta" Chico Xavier, só porque denunciou irregularidades do tio e ameaçava denunciar a corrupção de lideranças "espíritas", poderá mostrar surpresas desagradáveis no futuro.

Daí que o problema não está na afirmação do país como "coração do mundo e pátria do Evangelho", mas no que irá definir como os "obstáculos" para serem derrubados. A desculpa de unificação de toda a diversidade cultural, intelectual e religiosa não é desculpa, porque todo movimento centralizador tem essa promessa.

O problema é quando as demais correntes de crenças, pensamentos e atividades culturais que se manifestam fora da "missão do Evangelho" do "espiritismo" brasileiro se constituírem num "obstáculo" à sua "hegemonia do amor". A partir dessa situação, se verá que, se de um lado há um "povo escolhido" para comandar o mundo, de outro haverá um "povo" a ser exterminado.

Daí o perigo que muitos não conseguem perceber, e que a História confirmou com exemplos dos mais cruéis.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Crianças-índigo: uma forma de discriminação?

ILUSTRAÇÃO MÍSTICA SOBRE A IDEIA DE CRIANÇA-ÍNDIGO

Há, no chamado "movimento espírita" brasileiro, uma corrente mais próxima do misticismo esotérico (do qual um dos expoentes seria uma misteriosa figura chamada Ramatis), que defende a tese de que estariam se consolidando uma geração de pessoas "evoluídas" que iriam liderar a evolução da humanidade na Terra.

Essa corrente, da qual se respalda o anti-médium baiano Divaldo Franco, busca superestimar um mito que, nos EUA, foi criado por um ex-casal dotado de imaginação mística e lançado para vender livros às custas de pretenso profetismo.

Esse mito é o das "crianças-índigo". O antigo casal, hoje separado, é o radialista e técnico em áudio Lee Carroll e a cantora Jan Tober. Carroll disse que recebeu, em 1989, uma mensagem de uma entidade extra-terrestre chamada Kryon, tida como "de máxima evolução", que teria anunciado a chegada de "mensageiros" que promoveriam a evolução humana na Terra.

A ideia gerou vários livros, que viraram sucesso de vendas, e as ideias foram apreciadas e sistematizadas por Nancy Ann Tappe, parapsicóloga, também norte-americana. Ela estabeleceu os conceitos do que se entende como "criança-índigo" e "criança-cristal".

A "criança-índigo" seria um estágio de "semi-evolução", em relação à "criança-cristal", considerada de "evolução máxima". Mas ambos seriam atribuídos à "inteligência sofisticada" e uma personalidade "diferenciada", sendo a índigo mais "rebelde" e a cristal mais "espiritualista".

Os dois tipos seriam associados a pessoas hiperativas, que seriam capazes de exercer as mais diversas atividades, com profunda inclinação intelectual ou artística e de uma evolução moral peculiar, Sua inteligência se manifestaria desde a infância e, cronologicamente, teriam nascido a partir de 1970.

A tese é rejeitada por especialistas em pediatria e psicologia infantil, por não apresentar embasamento científico e pela compreensão de caráter eminentemente místico. Além disso, não existe uma clareza sobre vários aspectos das pessoas "índigo" ou "cristais", um termo tão atraente quanto o termo "alfa" atribuído às mulheres dotadas de sofisticada inteligência e sensibilidade.

PRECONCEITO CONTRA INTELIGENTES?

No Brasil, a tese é associada às pregações verborrágicas de Divaldo Franco, famoso pelo tom professoral com que realiza suas palestras, fazendo à sua maneira a missão do anti-médium (que rejeita a função intermediária do médium para ser o centro das atenções como dublê de pensador filosófico).

Diz ele que índigos e cristais já teriam nascido e estariam em ação no Brasil. Como um dos entrevistados do documentário Data-Limite Segundo Chico Xavier, de Fábio Medeiros, Divaldo anuncia em suas palestras que a evolução da humanidade já "ocorre" desde 2012 e que o estágio de "regeneração" ocorreria em 2052, depois das "transformações" posteriores a 2019.

Mas não é isso que acontece na realidade. Que há um maior debate público nas mídias sociais, em que pese, por outro lado, focos de intensa imbecilização cultural, isso é verdade. Mas não há um sinal de "índigos" ou "cristais" agindo constantemente na sociedade brasileira, aos montes.

Além disso, os aspectos nebulosos dos "índigos" e "cristais" nos fazem perguntar quem realmente são uns e outros. Seriam os funqueiros? Ou os padres aeróbicos? Seria Luciano Huck? Seria Valesca Popozuda? Seriam os intelectuais pró-bregalização? Seria o Neymar? Seria o Flávio Bolsonaro, filho do "sábio" Jair Bolsonaro, provável líder do tal "coração do mundo"?

Se os "índigo" fazem trolagem na Internet ou arrastões nas praias, eles "aproveitaram mal" sua inteligência e seu alto nível moral? Ou então foram desvirtuados pelos "irmãozinhos sofredores"? E que moral elevada eles trazem? A da "voz do silêncio"? Que cultura que eles pregam, a da mediocridade "bem amestrada"?

O Brasil sofre uma violenta crise e os espíritos mais evoluídos que existem no país não possuem qualquer tipo de visibilidade. Quando criam blogues, até atraem seguidores, mas é um a cada duas semanas e, no meio do caminho, algum seguidor deixa de seguir, por achar determinado texto "muito escandaloso" ou "desagradável".

Por outro lado, ficamos imaginando se essa ideia de "crianças-índigo" ou "crianças-cristal", em que pese a evocação "positiva" de Divaldo Franco, não seria uma forma de preconceito ou discriminação contra pessoas dotadas de muita inteligência e evolução moral, diante do "mundo cão" em que vivemos?

Não bastassem as interpretações confusas de diversas pessoas que, dependendo do ponto de vista, podem definir como "crianças-índigo" até mesmo torcidas organizadas que brigam e se matam nos estádios, o termo, assim como o derivado "cristal", seria uma forma de "isolar" pessoas dotadas de um perfil mais diferenciado e evoluído.

Da mesma forma, existem os termos "alfa" para definir mulheres "diferenciadas" para isolá-las da visão machista do papel duplo da mulher moderna: a moça intelectualizada e independente que precisa ter um marido "mais importante" ou a mulher submissa ou vulgar condenada ao celibato.

Seria, na verdade, uma visão "discriminatória", que estabeleceria tanto cobranças quanto restrições para as pessoas classificadas como "índigos" ou "cristais", na medida que "somente" elas podem ser inteligentes e moralmente evoluídas, sendo um rótulo que expressa mais um caráter "excepcional" do que o anúncio de um tipo avançado de comportamento humano.

Isso pode mais atrapalhar do que ajudar, e travar ainda mais a evolução planetária, isolando pessoas evoluídas e bastante inteligentes em rótulos que poderão ser vistos como "anormais", enquanto ser "normal" passa a ser associado à mediocridade, à mesquinhez e à frivolidade.