domingo, 18 de fevereiro de 2018

Os erros de suposta psicografia de Irmão X que cita Marilyn Monroe


Sensacionalismo é isso aí, e o arrivismo de Francisco Cândido Xavier não teve limites. No livro Estante da Vida, de 1969, atribuído a Humberto de Campos por meio do pseudônimo Irmão X, Chico Xavier cria uma história fictícia, atribuída ao "mundo espiritual", na qual Humberto teria viajado para os EUA para visitar o túmulo da atriz Marilyn Monroe, falecida sete anos antes.

Há muitas irregularidades no texto, não bastasse lembrar a linguagem pessoal de Chico Xavier. Primeiro, mostra a inconcebível hipótese de Marilyn ficar prisioneira do seu próprio túmulo, pois sabemos que, conhecendo a personalidade da atriz estadunidense, ela teria se afastado do lugar de sua tragédia ou de qualquer lugar relacionado, como o cemitério onde seu corpo foi enterrado.

Simulando uma "reportagem", Chico ainda põe na conta da atriz teorias "espíritas" que são próprias da pessoa do "médium" e essa irresponsável atitude de criar uma narrativa fictícia e atribui-la à realidade do mundo espiritual pode também ser observada pelo fato de que não há uma mensagem em inglês, idioma pelo qual Marilyn se comunicaria. Marilyn era rebaixada a uma mera propagandista do "espiritismo" brasileiro e igrejista, vejam que absurdo!!

Marilyn "fala em português" e "pensa como Chico Xavier", o que faz os idiotas "espíritas" devotos do "médium" bastante extasiados, porque, tão idiotas que são, acreditam que é maravilhoso qualquer um "pensar como Chico Xavier", o festejado ídolo deles.

Publicamos este texto para ver o absurdo da narrativa, feita para alimentar o duplo sensacionalismo da apropriação de Humberto, ainda que disfarçado pelo nome "Irmão X", e pelo apelo publicitário de envolver uma atriz estrangeira muitíssimo popular, até os dias de hoje. Foi um gancho feito para vender livros e enriquecer a FEB, uma finalidade que Chico fingiu desconhecer e até se passou por "decepcionado e triste" quando se denunciou essa barbaridade.

Mas Chico, sabemos, só foi pobre até 1932, tendo daí até o fim da vida recebendo tratamento de aristocrata, apenas não mexendo em moedas sujas. E ele sabia muito bem, pois combinou com seu tutor Antônio Wantuil de Freitas, presidente da FEB, que este ficaria com a fortuna dos livros vendidos. Há muita coisa sombria nos bastidores do "espiritismo" brasileiro, que cheira a umbral.

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Suposta entrevista com Marilyn Monroe por Irmão X (suposto Humberto de Campos)

Por Francisco Cândido Xavier - Livro Estante da Vida, FEB, 1969

Caminhávamos, alguns amigos, admirando a paisagem do Wilshire Boulevard, em Hollywood, quando fizemos parada, ante a serenidade do “Memoriam Park Cemetery”, entre o nosso caminho e os jardins de Glendon Avenue.
A formosa mansão dos mortos mostrava grande movimentação de Espíritos libertos da experiência física, e entramos.
Tudo, no interior, tranqüilidade e alegria.Os túmulos simples pareciam monumentos erguidos à paz, induzindo à oração. Entre as árvores que a primavera pintara de verde novo, numerosas entidades iam e vinham, muitas delas escoradas umas nas outras, à feição de convalescentes, sustentadas por enfermeiros em pátio de hospital agradável e extenso.
Numa esquina que se alteava com o terreno, duas laranjeiras ornamentais guardavam o acesso para o interior de pequena construção que hospeda as cinzas de muitas personalidades que demandaram o Além, sob o apreço do mundo. A um canto, li a inscrição: “Marilyn Monroe – 1926-1962.” Surpreendido, perguntei a Clinton, um dos amigos que nos acompanhavam:

– Estão aqui os restos de Marilyn, a estrela do cinema, cuja história chegou até mesmo ao conhecimento de nós outros, os desencarnados de longo tempo no Mundo Espiritual?

– Sim – respondeu ele, e acentuou com expressão significativa: – não se detenha, porém, a tatear-lhe a legenda mortuária…Ela está viva e você pode encontrá-la, aqui e agora…

– Como?

O amigo indicou frondoso olmo chinês, cuja galharia compõe esmeraldino refúgio no largo recinto, e falou:

– Ei-la que descansa, decerto em visita de reconforto e reminiscência…

A poucos passos de nós, uma jovem desencarnada, mas ainda evidentemente enferma, repousava a cabeça loura no colo de simpática senhora que a tutelava. Marilyn Monroe, pois era ela, exibia a face desfigurada e os olhos tristes. Informados de que nos seria lícito aborda-la, para alguns momentos de conversa, aproximamo-nos, respeitosos.

Clinton fez a apresentação e aduzi:

– Sou um amigo do Brasil que deseja ouvi-la.

– Um brasileiro a procurar-me, depois da morte?

– Sim, e porque não? – acrescentei – a sua experiência pessoal interessa a milhões de pessoas no mundo inteiro…

E o diálogo prosseguiu:

– Uma experiência fracassada…

– Uma lição talvez.

– Em que lhe poderia ser útil?

– A sua vida influenciou muitas vidas e estimaríamos receber ainda que fosse um pequeno recado de sua parte para aqueles que lhe admiram os filmes e que lhe recordam no mundo a presença marcante …

– Quem gostaria de acolher um grito de dor?

– A dor instrui…

– Fui mulher como tantas outras e não tive tempo e nem disposição para cogitar de filosofia.

– Mas fale mesmo assim…

– Bem, diga então às mulheres que não se iludam a respeito de beleza e fortuna, emancipação e sucesso…Isso dá popularidade e a popularidade é um trapézio no qual raras criaturas conseguem dar espetáculos de grandeza moral, incessantemente, no circo do cotidiano.

– Admite, desse modo, que a mulher deve permanecer no lar, de maneira exclusiva?

– Não tanto. O lar é uma instituição que pertence à responsabilidade tanto da mulher quanto do homem. Quero dizer que a mulher lutou durante séculos para obter a liberdade… Agora que a possui nas nações progressistas, é necessário aprender a controla-la. A liberdade é um bem que reclama senso de administração, como acontece ao poder, ao dinheiro, à inteligência…

Pensei alguns momentos na fama daquela jovem que se apresentara à Terra inteira, dali mesmo, em Hollywood, e ajuntei:

– Miss Monroe, quando se refere à liberdade da mulher, você quer mencionar a liberdade do sexo?

– Especialmente.

– Porquê?

– Concorrendo sem qualquer obstáculo ao trabalho do homem, a mulher, de modo geral, se julga com direito a qualquer tipo de experiência e, com isso, na maioria das vezes, compromete as bases da vida. Agora que regressei à Espiritualidade, compreendo que a reencarnação é uma escola com muita dificuldade de funcionar para o bem; toda vez que a mulher foge à obrigação de amar, nos filhos, a edificação moral a que é chamada.

– Deseja dizer que o sexo…

– Pode ser comparado à porta da vida terrestre, canal de renascimento e renovação, capaz de ser guiado para a luz ou para as trevas, conforme o rumo que se lhe dê.

– Ser-lhe-ia possível clarear um pouco mais este assunto?

– Não tenho expressões para falar sobre isso com o esclarecimento necessário; no entanto, proponho-me a afirmar que o sexo é uma espécie de caminho sublime para a manifestação do amor criativo, no campo das formas físicas e na esfera das obras espirituais, e, se não for respeitado por uma sensata administração dos valores de que se constitui, vem a ser naturalmente tumultuado pelas inteligências animalizadas que ainda se encontram nos níveis mais baixos da evolução.

– Miss Monroe – considerei, encantado, em lhe ouvir os conceitos -, devo asseverar-lhe, não sem profunda estima por sua pessoa, que o suicídio não lhe alterou a lucidez.

– A tese do suicídio não é verdadeira como foi comentada – acentuou ela sorrindo. – Os vivos falam acerca dos mortos o que lhes vem à cabeça, sem que os mortos lhes possam dar a resposta devida, ignorando que eles mesmos, os vivos, se encontrarão, mais tarde, diante desse mesmo problema… A desencarnação me alcançou através de tremendo processo obsessivo. Em verdade, na época, me achava sob profunda depressão. Desde menina, sofri altos e baixos, em matéria de sentimento, por não saber governar a minha liberdade…Depois de noites horríveis, nas quais me sentia desvairar, por falta de orientação e de fé, ingeri, quase semi-inconsciente, os elementos mortíferos que me expulsaram do corpo, na suposição de que tomava uma simples dose de pílulas mensageiras do sono…

– Conseguiu dormir na grande transição?

– De modo algum. Quando minha governanta bateu à porta do quarto, inquieta ao ver a luz acesa, acordei às súbitas da sonolência a que me confiara, sentindo-me duas pessoas a um só tempo… Gritei apavorada, sem saber, de imediato, identificar-me, porque lograva mover-me e falar, ao lado daquela outra forma, a vestimenta carnal que eu largara… Infelizmente para mim, o aposento abrigava alguns malfeitores desencarnados que, mais tarde, vim a saber, me dilapidavam as energias. Acompanhei, com indescritível angústia, o que se seguiu com o meu corpo inerme; entretanto, isso faz parte de um capítulo do meu sofrimento que lhe peço permissão para não relembrar…

– Ser-lhe-á possível explicar-nos porque terá experimentado essa agudeza de percepção, justamente no instante em que a morte, de modo comum, traz anestesia e repouso?

– Efetivamente, não tive a intenção de fugir da existência, mas, no fundo, estava incursa no suicídio indireto. Malbaratara minhas forças, em nome da arte, entregara-me a excessos que me arrasaram as oportunidades de elevação… Ultimamente fui informada por amigos daqui de que não me foi possível descansar, após a desencarnação, enquanto não me desvencilhei da influência perniciosa de Espíritos vampirizadores a cujos propósitos eu aderira, por falta de discernimento quanto às leis que regem o equilíbrio da alma.

– Compreendo que dispõe agora de valiosos conhecimentos, em torno da obsessão…

– Sim, creio hoje que a obsessão, entre as criaturas humanas, é um flagelo muito pior que o câncer. Peçamos a Deus que a ciência do mundo se decida a estudar-lhe os problemas e resolve-los…

A entrevistada mostrava sinais de fadiga e, pelos olhos da enfermeira que lhe guardava a cabeça no regaço amigo, percebi que não me cabia avançar.

– Miss Monroe – conclui -, foi um prazer para mim este encontro em Hollywood. Podemos, acaso, saber quais são, na atualidade, os seus planos para o futuro?

Ela emitiu novo sorriso, em que se misturavam a tristeza e a esperança, manteve silêncio por alguns instantes e afirmou;

– Na condição de doente, primeiro, quero melhorar-me… Em seguida, como aluna no educandário da vida, preciso repetir as lições e provas em que fali…Por agora, não devo e nem posso ter outro objetivo que não seja reencarnar, lutar, sofrer e reaprender.

Pronunciei algumas frases curtas de agradecimento e despedida e ela agitou a pequenina mão num gesto de adeus. Logo após, alinhavei estas notas, à guisa de reportagem, a fim de pensar nas bênçãos do Espiritismo Evangélico e na necessidade da sua divulgação.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

A decadência da Nova Era que os "espíritas" não conseguem explicar


A chamada Nova Era foi um grande fiasco. A ideia de uma sociedade "evoluída", sob o prisma do misticismo e da religiosidade, não fez sentido e o mundo se torna bastante complexo e complicado, principalmente em regiões de forte inclinação religiosa, que se tornam palcos de incidentes trágicos, conflitos, confusões e atos desonestos, entre outros crimes.

A retomada ultraconservadora de 2016 - que trouxe o Brexit britânico, o empresário Donald Trump à Presidência dos EUA, a queda de Dilma Rousseff e a ascensão de Michel Temer e focos de manifestações neo-fascistas no mundo inteiro, inclusive no Brasil - deu o sinal, e nas vésperas de 2019, o prazo final da "profecia" de Francisco Cândido Xavier, simplesmente nada aconteceu de profundamente melhor na nossa humanidade.

Sabe-se que a "profecia", divulgada por Geraldo Lemos Neto em 1986 após uma conversa com Chico Xavier, se deu com base num sonho que o "médium" disse ter tido em 1969, depois de 20 de julho daquele ano, data em que uma equipe de astronautas dos EUA viajaram para a Lua.

No sonho, Chico Xavier, Emmanuel, autoridades dos planetas do Sistema Solar (?!) e Jesus Cristo (?!?!) se reuniram, debatendo os riscos de uma Terceira Guerra Mundial. Teriam decidido, em consenso, que haveria um prazo de 50 anos para a humanidade se evoluir, caso contrário haveria catástrofes que dizimariam o Hemisfério Norte até tornarem ele inabitável e abririam espaço para o Brasil dominar a humanidade na Terra.

A tese é risível e cheia de falhas de caráter geológico e sociológico. Por exemplo, a "profecia" alega que o Chile seria um dos países poupados no caso de uma catástrofe geológica (como erupções vulcânicas e terremotos, além de tsunamis e furacões). Impossível. O Chile faz parte do Círculo de Fogo do Pacífico e, no caso de ocorrer explosões vulcânicas, maremotos e terremotos que dizimariam o Japão e o Estado da Califórnia, nos EUA, o Chile teria o mesmo destino de desaparecimento.

Outro dado errôneo é a migração de populações eslavas para o Nordeste brasileiro e da de estadunidenses para a Amazônia. No primeiro caso, o Nordeste é muito quente para as condições térmicas dos eslavos. O próprio Chico se esqueceu que, quando os eslavos vieram ao Brasil, eles escolheram como locais de colonização o interior de São Paulo e a Região Sul do país.

No segundo caso, a tese é inconcebível. Estadunidenses só vão à Amazônia para atividade econômica ocasional, no caso o desmatamento ilegal que está a serviço de grandes empresas madeireiras, concorrendo com as empresas dos "tigres asiáticos" (como China, Coreia do Sul e Tailândia), que fazem atividade semelhante. Para fixar residência, o povo dos EUA sente maior identificação, pela natureza social e cultural, com cidades como Rio de Janeiro e São Paulo.

"ESPÍRITAS" INDECISOS

O que se observa é que, se aproximando o fim da "data-limite", os "espíritas" não conseguem explicar se haverá ou não a "Nova Era" que eles tanto prometeram no auge dessa religião (atualmente o "espiritismo" brasileiro sofre uma séria decadência).

Os "espíritas" se perdem em explicações que se contradizem. Numa, dizem que a humanidade "está se evoluindo" e a mídia é que "não mostra". Através dessa tese, tentam dizer que em 20 de julho de 2019 "será chegada a hora".

Mas em outra explicação, eles dizem que "será um período de dificuldades". Divaldo Franco, na sua presunção, se apressou e colocou duas datas para a "regeneração plena": 2052, ano de centenário da Mansão do Caminho e, a título de bajulação, 2057, ano de dois séculos de lançamento da primeira edição da obra seminal O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec.

O mais ridículo é que o "espiritismo" trabalha com várias hipóteses de "fim do mundo" ou "regeneração" há muito tempo. Pelo menos desde 1952 se estabelecem datas "decisivas" aqui e ali, promovendo divertimento entre as lideranças "espíritas" às custas da crendice popular, criando um gancho para lotar as "casas espíritas".

Essa prática foi reprovada por Allan Kardec, que daria um grande puxão de orelha em Chico e Divaldo, porque o Codificador reprova o estabelecimento de datas prévias de evoluções planetárias, atitude que o pedagogo francês claramente definiu como "indício de mistificação".

Além disso, pretensos profetismos só servem para vender livros e fazer enriquecer os falsos profetas, e vemos o quanto o "espiritismo", apesar de suas atividades "gratuitas", é bastante mercenário. Seus "médiuns" e palestrantes se enriquecem fazendo palestras para a alta sociedade, produzindo filmes sensacionalistas e livros mistificadores, e usam a "profecia" para alarmar a sociedade, criando um misto de expectativa e pânico que fazem lotar as "casas espíritas".

Isso é terrível e a realidade prova que essas "profecias" são um fiasco. 2019 será um grande fiasco e, se houver um pouco mais de bom senso, o "espiritismo" brasileiro poderá ser finalmente contestado e os deturpadores, que, pelo menos por quatro décadas (desde a "fase dúbia" - bajular Kardec e seguir Roustaing - dos anos 1970), tinham em suas mãos a "posse da verdade", serão duramente questionados, pelo fracasso de suas predições fantásticas e sensacionalistas.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

"Caridade espírita" deveria ser questionada, e não adorada

A "CARIDADE" COMO ESPETÁCULO - COISA QUE SE VÊ NO CALDEIRÃO DO HUCK OS "MÉDIUNS ESPÍRITAS" FAZIAM FAZ TEMPO.

A falta de discernimento entre realidade e ficção, entre realismo e pensamento desejoso, blinda o "espiritismo" brasileiro, cuja deturpação se tornou tão bem sucedida que mesmo as menores desconfianças são desencorajadas.

Discussões desnecessárias fazem com que os "médiuns espíritas" sejam mais defendidos do que os necessitados. Se a "caridade" de um "médium espírita" não produziu resultados concretos, o "caráter transfomador" é levianamente "afirmado" pelo próprio prestígio religioso desse "médium". É ridículo, mas acontece: o "médium" não precisa fazer caridade, o próprio prestígio religioso que ele tem já é a "caridade".

O que nomes como Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco fazem - o que impulsiona "médiuns" mais recentes como Fernando Bem, Adriano Correia Lima e mesmo Robson Pinheiro correrem para criar "instituições de caridade" - não é mais do que a "caridade espetacularizada", cujo método é aceito por todos, mas aponta inúmeras irregularidades.

Essas irregularidades indicam sérios problemas. Afinal, pobres e doentes são tratados como se fossem animais domésticos. É fácil instalar alojamentos, mas quem garante que eles não são cativeiros sociais? E, quando há a aparente emancipação dos assistidos, como no caso da Mansão do Caminho, essa emancipação não ocorre sob o preço da manipulação religiosa, cheia de mistificações, ou do moralismo conservador?

E no caso das instituições ditas "filantrópicas"? Por que a ênfase no "benfeitor" em detrimento dos mais necessitados? Divaldo Franco só ajudou 2,5 mil pessoas por ano em todo o Brasil - índice que, em níveis dimensionais, é o mesmo que nada - e muitos se incomodam quando se questiona o título de "maior filantropo do Brasil", dado de graça pela Rede Globo, mas aceito de forma bovina até mesmo por setores das esquerdas brasileiras.

O "espiritismo" brasileiro é, sem dúvida alguma, o retrato da confusão mental e moral que assola o Brasil. Revela o quanto as pessoas que seguem essa doutrina têm de preconceituosas, arrivistas, dissimuladas, mentirosas, idealizadoras, permissivas, moralistas. O "espiritismo", que deveria ser uma religião voltada à espiritualidade, tornou-se, com a deturpação e outros delitos impunemente aceitos pela sociedade, acabou se tornando a religião da falsidade humana.

Isso é chocante de se dizer. Afinal, os apelos emotivos do "espiritismo" brasileiro são atraentes para muita gente. As pessoas, pelas falácias que trazem os discursos "espíritas", sentem a falsa impressão do esclarecimento, confundem igrejismo com Filosofia, levam gato por lebre o tempo inteiro, e acreditam piamente que lebres possam miar.

O "espiritismo" no Brasil virou um terreno no qual as pessoas envolvidas fazem o que querem, em muitos casos agindo contra a lógica, o bom senso, a coerência e mesmo a ética. Só porque é uma religião supostamente ligada ao mundo espiritual - embora a chamada "comunicação com os mortos" seja, em verdade, inexistente, pois a quase totalidade das "mensagens mediúnicas" são fake -  , seus membros se acham no direito de subverter a realidade em nome do "outro lado".

O "espiritismo" brasileiro, portanto, virou um vale-tudo religioso, em muitos aspectos pior do que as seitas evangélicas de perfil neopentecostal. Estas são retrógradas, defendem graves preconceitos sociais, apoiam figuras autoritárias como Jair Bolsonaro, querem que o Brasil se sujeite a padrões sociais dos tempos de Moisés, o século XV a. C., ou seja, há cerca de três mil anos.

No entanto, os "espíritas" investem em desonestidade doutrinária e procuram ocultar seu obscurantismo, seu lado sombrio, com um discurso multiplamente elaborado. Tentam parecer futuristas, mas uma observação não muito difícil de ser feita revela que o "espiritismo" sonha em ver o Brasil, na condição de "coração do mundo" e "pátria do Evangelho", um novo Império Romano com o "espiritismo" no papel de um novo Catolicismo medieval.

RESULTADOS INEXPRESSIVOS DA "CARIDADE"

Vamos abandonar a visão viciada de que a "caridade espírita" trouxe resultados pífios porque "os irmãozinhos endurecidos não deixaram". Deixemos os obsessores de lado, até porque a ação deles só é permitida porque os encarnados permitem. Os resultados da "caridade espírita" são pífios de propósito: a "caridade" nunca foi feita visando a transformação social.

Vamos parar com a ingenuidade. Se essa "caridade" funcionasse, o Brasil teria atingido padrões elevados de qualidade de vida em todo o seu povo, tamanha a grandeza com que se autoproclamam os "médiuns". E não haveria ataques de marginais ao mausoléu de Chico Xavier, atos que não são de intolerância religiosa, mas de ódio gratuito a qualquer pessoa famosa de uma cidade, no caso Uberaba.

Desde Chico Xavier a ação da "caridade espírita" visava mais a promoção pessoal dos "médiuns" e outros deturpadores da Doutrina Espírita. Uma "caridade" de fachada, que hoje é demonstrada pelo caso dos "projetos sociais" de Luciano Huck, e que traz um problema que é tabu na sociedade: como a "caridade" pode se tornar um meio de promoção pessoal do "benfeitor" de ocasião.

A sociedade teima em raciocinar a realidade como se fosse enredo de novela ou campanha publicitária. Muito da "caridade espírita" é aceito somente por medidas de fachada e por vídeos publicitários, que de forma vaga mostram crianças tomando sopa e médicos atendendo velhos doentes. Tudo muito publicitário. Se fosse propaganda político-partidária o povo reagia indignado. Mas como se trata de uma instituição "espírita"...

Até mesmo as "caridades" de Chico Xavier e Divaldo Franco tiveram menos beneficiados do que se imagina. As pessoas se iludem pelos recortes da cobertura jornalística, que mostram "várias pessoas". Se contar, não dão mais que vinte beneficiados. Além disso, a "caridade" das "cartas mediúnicas" de Chico Xavier deve ser reconhecida não como uma bondade, mas como uma perversidade.

As "cartas mediúnicas", que transformavam as reuniões em orgias religiosas - embora sob um pretexto "mais digno", a qualidade emocional e os êxtases se equiparam às orgias materialistas - , eram manifestações de obsessão pelos mortos, de falsidade ideológica - as psicografias eram fake e denunciadas pelo uso de "leitura fria" - e de incitação à exploração sensacionalista das tragédias familiares como meio de alimentar matérias para a imprensa marrom e de promover a imagem pitoresca do "médium" Chico Xavier.

Só essas atividades se tornam bastante negativas, embora o discurso falasse em "trabalho do bem", "mensagens consoladoras" ou a interpretação leviana e tendenciosa da ideia da vida após a morte, voltada para sentimentos mórbidos que, desvirtuados, chegaram a fazer com que as pessoas passassem a desejar a morte dos entes queridos sob a desculpa deles "serem melhor protegidos por Deus". Quantos sentimentos egoístas acabaram existindo, sem querer, diante dessa ideia de interromper projetos de vida de pessoas na mais tenra juventude?

A "caridade espírita" precisa e deve ser questionada. Se não pela mídia hegemônica, pelo menos pela mídia alternativa (Brasil 247, DCM, Jornal GGN, Viomundo, Cafezinho e Conversa Afiada) que deveriam renunciar à complacência aos "médiuns espíritas" e tomando consciência de que estes, no fundo, nunca passaram de "filantropos de fachada" patrocinados pela Rede Globo de Televisão.

A mídia alternativa, pelo compromisso que tem de se contrapôr às narrativas oficiais da mídia hegemônica, não pode corroborar com esta na exaltação de ídolos religiosos. Podem eles se cercar de paisagens floridas, pode a cabeça de um "médium" renascer nas pétalas de uma flor, ou crianças dançando cirandinha em volta de um "médium". Nenhum desses pretextos isenta a mídia alternativa de contestá-los e investigá-los, até porque a mídia já enfrentou mitos e totens que também se servem de apelos emotivos similares. O próprio Luciano Huck é claro exemplo disso.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Rede Globo protege Beija-Flor e Mocidade Independente de Padre Miguel


No Carnaval 2018, marcado por protestos populares, mal-entendidos - no Carnaval de Salvador, as esquerdas entenderam mal o refrão "Vai dar PT" cantado por Léo Santana, que se refere não ao Partido dos Trabalhadores, mas ao termo "perda total" - , a Rede Globo mostra seu conservadorismo e, para variar, protegendo duas escolas controladas pelo jogo-do-bicho e que apresentaram temáticas de agrado à emissora.

A Beija-Flor de Nilópolis, campeã do Carnaval 2018, tornou-se a mais protegida, por ter lançado o samba-enredo "Monstro É Aquele Que Não Sabe Amar (Os Filhos Abandonados da Pátria Que Os Pariu)", com temática voltada à maneira conservadora que se aborda a corrupção política, visão que é compartilhada pelos "espíritas".

A temática fez contraponto ao enredo da emergente e vice-campeã Paraíso do Tuiuti, que, intitulado "Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?", fazia duras críticas ao governo Michel Temer e comparava a reforma trabalhista à escravidão, além de definir como "fantoches" os "coxinhas" (manifestantes vestidos com a camiseta da CBF) e os paneleiros que protestavam contra a presidenta Dilma Rousseff.

A Globo não gostou da Tuiuti, e deu apenas um pequeno espaço de cobertura nos noticiários. Até o fechamento deste texto, a Beija-Flor tornou-se a favorita do desfile, além do Salgueiro e da Mangueira. Mas a Mocidade Independente de Padre Miguel, sexta colocada, também se mostra protegida pela corporação da família Marinho.

Com um enredo que, em tese, é voltado para a Índia, "Namastê... A Estrela Que Habita em Mim Saúda a Que Existe em Você", sua letra cita dois ídolos religiosos, Francisco Cândido Xavier e Madre Teresa de Calcutá, adeptos da Teologia do Sofrimento e símbolos de uma concepção bastante conservadora de "caridade humana", aquela que não ameaça os privilégios abusivos dos ricos.

Na eleição do Estandarte de Ouro, promovida pelo jornal O Globo, a Mocidade Independente de Padre Miguel - que já teve como presidente de honra o bicheiro Castor de Andrade, já falecido - ganhou prêmio na categoria melhor samba-enredo, por ter citado o nome de Chico Xavier, um protegido das Organizações Globo e precursor da "caridade espetacularizada" hoje personificada por Luciano Huck.

ENCENAÇÃO EM DESFILE DA BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS, NO CARNAVAL DE 2018 - Denúncia ou apologia acidental?

No caso da Beija-Flor de Nilópolis, até as alegorias mostram um apelo inferior ao da Tuiuti. A Tuiuti investiu no bom humor, no didatismo e no protesto inteligente, criando até mesmo um insólito "presidente-vampiro" - alusão a Michel Temer - empolgando o público diante de protestos divertidos que incluíram pessoas vestidas de carteiras de trabalho, denunciando o fim dos direitos dos trabalhadores pela reforma trabalhista.

Até mesmo os "coxinhas" e os paneleiros, manifestantes anti-Dilma que o "espiritismo" brasileiro definiu como "pessoas dotadas de conscientização política" e "intuidas por espíritos superiores no estabelecimento do caminho da Regeneração" - provas de que a doutrina de Chico Xavier e Divaldo Franco apoiou o golpe político de 2016 - foram parodiados por alegorias da escola de samba Paraíso do Tuiuti como "fantoches políticos".

Em compensação, a Beija-Flor exibiu encenações de mau gosto, como policiais com marcas de tiros, simulações de sequestros etc. A Beija-Flor representou a catarse do "brasileiro médio", que vê Jornal Nacional e lê Veja e Folha de São Paulo, e cuja visão de mundo e de justiça social é da mais míope possível.

A Mocidade Independente de Padre Miguel está no grupo A e luta por uma vaga no grupo Especial. A Beija-Flor, do grupo Especial, luta para ser a campeã da elite das escolas de samba. Mas, até o momento, as favoritas são Mangueira, Salgueiro e Portela. Em todo caso, a Rede Globo blinda a Beija-Flor e a Mocidade por defenderem, nos seus sambas-enredo, valores e ícones apoiados pela sociedade conservadora. Chico Xavier incluído.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Texto da extinta revista Visão Espírita sobre Carnaval cita "Noel Rosa" 'fake'

PRETENSAS PSICOGRAFIAS MOSTRAM MÚSICOS FAMOSOS COMO NOEL ROSA COMO SE FOSSEM RELIGIOSOS ABOBALHADOS.

Já descrevemos a revista Visão Espírita, do falecido Alamar Régis Carvalho, acusado de explorar indevidamente a mão-de-obra para a produção do periódico da Editora Seda. Pois ela havia lançado um texto sobre o Carnaval, dentro daquele moralismo "espírita" que descreve tais festejos como se fosse a "materialização do umbral" em solo terrestre, no qual há o descaramento de usar o nome do saudoso Noel Rosa (1910-1937) para uma frase igrejista.

A frase em questão, na verdade uma paródia, de apelo religioso, do estilo poético do compositor carioca, famoso por inúmeras canções como "Com Que Roupa?", "Gago Apaixonado", "Conversa de Botequim", "Não Tem Tradução" e inúmeros outros, nos quais a semelhança superficial não garante a veracidade da "psicografia".

Afinal, o "espírito Noel Rosa" se manifesta como se fosse um religioso abobalhado, uma espécie de pateta beato que "só pensa em caridade" e, mesmo assim, como se fosse um ritual religioso. Devemos desconfiar de mensagens assim, porque o verdadeiro caridoso não é aquele que prega, em dóceis e religiosas palavras, essa prática, mas ajuda as pessoas sem alarde e sem vaidades.

Infelizmente, vemos na "caridade espírita" uma manifestação de puro cinismo, demagogia e presunção humana. Uma "caridade" que ajuda muito pouco, mas é festejada acima dos próprios méritos, bem menores do que muitos pensam.

Enquanto os "médiuns espíritas", com muita hipocrisia, falam da "caridade sem alarde e sem pedir recompensa", a "caridade" que eles fizeram, que nunca deixou os pobres saírem da sua inferioridade social, só serviu para a promoção pessoal desses religiosos, forçando a adoração pública e a pretensa unanimidade em torno deles, que são vistos, pelas paixões religiosas terrenas, como os "espíritos de luz", mas que, no além-túmulo, essa ilusão é desfeita pela mais traumática das decepções.

Noel Rosa era muito inteligente e observador, e, certamente, não seria o religioso patético que falaria de Natal como se fosse um meninote de dois anos. Ele mesmo, se soubesse o que se faz em seu nome nas "psicografias", reagiria sem aprovação, dizendo, na sua ironia: "Tem malandro usando o meu nome e faturando em cima".

Vamos mostrar o texto abaixo, que ainda apela para o moralismo "científico" do deturpador Divaldo Franco, ilustrando essa pseudo-análise sobre o Carnaval, que mostra o quanto o "espiritismo" condena o Carnaval dos outros, mas se esquece da farra que os "espíritas" fazem traindo os ensinamentos de Allan Kardec e fingindo fidelidade a ele, assim como farras ainda piores, que é a apropriação impune, leviana, oportunista e tendenciosa dos nomes dos mortos.

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" ATRÁS DO TRIO ELÉTRICO TAMBÉM VAI QUEM JÁ MORREU "

Da revista Visão Espírita (data da edição não creditada, texto colhido da Internet)

“Atrás do trio elétrico só não vai que já morreu...”. – Caetano Veloso
“Atrás do trio elétrico também vai quem já “morreu”...”.

Ao contrário do que reza o frevo de Caetano Veloso, não são somente os “vivos” que formam a multidão de foliões que se aglomera nas ruas das grandes cidades brasileiras ou de outras plagas onde se comemore o Carnaval.

O Espiritismo nos esclarece que estamos o tempo todo em companhia de uma inumerável legião de seres invisíveis, recebendo deles boas e más influências a depender da faixa de sintonia em que nos encontremos. Essa massa de espíritos cresce sobremaneira nos dias de realização de festas pagãs, como é o Carnaval.

Nessas ocasiões, como grande parte das pessoas se dá aos exageros de toda sorte, as influências nefastas se intensificam e muitos dos encarnados se deixam dominar por espíritos maléficos, ocasionando os tristes casos de violência criminosa, como os homicídios e suicídios, além dos desvarios sexuais que levam à paternidade e maternidade irresponsáveis. Se antes de compor sua famosa canção o filho de Dona Canô tivesse conhecido o livro “Nas Fronteiras da Loucura”, ditado ao médium Divaldo Pereira Franco pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda, talvez fizesse uma letra diferente e, sensível como o poeta que é, cuidaria de exortar os foliões “pipoca” e aqueles que engrossam os blocos a cada ano contra os excessos de toda ordem. Mas como o tempo é o senhor de todo entendimento, hoje Caetano é um dos muitos artistas que pregam a paz no Carnaval, denunciando, do alto do trio elétrico, as manifestações de violência que consegue flagrar na multidão.

No livro citado, Manoel Philomeno, que quando encarnado desempenhou atividades médicas e espiritistas em Salvador, relata episódios protagonizados pelo venerando Espírito Bezerra de Menezes, na condução de equipes socorristas junto a encarnados em desequilíbrios.

Philomeno registra, dentre outros pontos de relevante interesse, o encontro com um certo sambista desencarnado, o qual não é difícil identificar como Noel Rosa, o poeta do bairro boêmio de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, muito a propósito, integrava uma dessas equipes socorristas encarregadas de prestar atendimento espiritual durante os dias de Carnaval.

Interessado em colher informações para a aprendizagem própria (e nossa também!), Philomeno inquiriu Noel sobre como este conciliava sua anterior condição de “sambista vinculado às ações do Carnaval com a atual, longe do bulício festivo, em trabalhos de socorro ao próximo”.

Com tranqüilidade, o autor de “Camisa listrada” respondeu que em suas canções traduzia as dores e aspirações do povo, relatando os dramas, angústias e tragédias amorosas do submundo carioca, mas compreendeu seu fracasso ao desencarnar, despertando “sob maior soma de amarguras, com fortes vinculações aos ambientes sórdidos, pelos quais transitara em largas aflições”.

No entanto, a obra musical de Noel Rosa cativara tantos corações que os bons sentimentos despertados nas pessoas atuaram em seu favor no plano espiritual; “Embora eu não fosse um herói, nem mesmo um homem que se desincumbira corretamente do dever, minha memória gerou simpatias e a mensagem das músicas provocou amizades, graças a cujo recurso fui alcançado pela Misericórdia Divina, que me recambiou para outros sítios de tratamento e renovação, onde despertei para realidades novas”.

Como acontece com todo espírito calceta que por fim se rende aos imperativos das sábias leis, Noel conseguiu, pois, descobrir “que é sempre tempo de recomeçar e de agir” e assim ele iniciou a composição de novos sambas, “ao compasso do bem, com as melodias da esperança e os ritmos da paz, numa Vila de amor infinito...”.

Entre os anos 60 e 70, Noel Rosa integrava a plêiade de espíritos que ditaram ao médium, jornalista e escritor espírita Jorge Rizzini a série de composições que resultou em dois discos e apresentações em festivais de músicas mediúnicas em São Paulo.

O entendimento do Poeta da Vila quanto às ebulições momescas, é claro, também mudou:
- “O Carnaval para mim, é passado de dor e a caridade hoje, é-me festa de todo, dia, qual primavera que surge após inverno demorado, sombrio”.

A carne nada vale:

O Carnaval, conforme os conceitos de Bezerra de Menezes, é festa que ainda guarda vestígios da barbárie e do primitivismo que ainda reina entre os encarnados, marcado pelas paixões do prazer violento. Como nosso imperativo maior é a Lei de Evolução, um dia tudo isso, todas essas manifestações ruidosas que marcam nosso estágio de inferioridade desaparecerão da Terra.Em seu lugar, então, predominarão a alegria pura, a jovialidade, a satisfação, o júbilo real, com o homem despertando para a beleza e a arte, sem agressão nem promiscuidade.

A folia em que pontifica o Rei Momo já foi um dia a comemoração dos povos guerreiros, festejando vitórias; foi reverência coletiva ao deus Dionísio, na Grécia clássica, quando a festa se chamava bacanalia; na velha Roma dos césares, fortemente marcada pelo aspecto pagão, chamou-se saturnalia e nessas ocasiões se imolava uma vítima humana.

Na Idade Média, entretanto, é que a festividade adquiriu o conceito que hoje apresenta, o de uma vez por ano é lícito enlouquecer, em homenagem aos falsos deuses do vinho, das orgias, dos desvarios e dos excessos, em suma.

Bezerra cita os estudiosos do comportamento e da psique da atualidade, “sinceramente convencidos da necessidade de descarregarem-se as tensões e recalques nesses dias em que a carne nada vale, cuja primeira silaba de cada palavra compõe o verbete carnaval”.

Assim, em três ou mais dias de verdadeira loucura, as pessoas desavisadas, se entregam ao descompromisso, exagerando nas atitudes, ao compasso de sons febris e vapores alucinantes. Está no materialismo, que vê o corpo, a matéria, como inicio e fim em si mesmo, a causa de tal desregramento.

Esse comportamento afeta inclusive aqueles que se dizem religiosos, mas não têm, em verdade, a necessária compreensão da vida espiritual, deixando-se também enlouquecer uma vez por ano.

Processo de loucura e obsessão:As pessoas que se animam para a festa carnavalesca e fazem preparativos organizando fantasias e demais apetrechos para o que consideram um simples e sadio aproveitamento das alegrias e dos prazeres da vida, não imaginam que, muitas vezes, estão sendo inspiradas por entidades vinculadas às sombras. Tais espíritos, como informa Manoel Philomeno, buscam vitimas em potencial “para alijá-las do equilíbrio, dando inicio a processos nefandos de obsessões demoradas”.

Isso acontece tanto com aqueles que se afinizam com os seres perturbadores, adotando comportamento vicioso, quanto com criaturas cujas atitudes as identificam como pessoas respeitáveis, embora sujeitas às tentações que os prazeres mundanos representam, por também acreditarem que seja lícito enlouquecer uma vez por ano.

Esse processo sutil de aliciamento esclarece o autor espiritual, dá-se durante o sono, quando os encarnados, desprendidos parcialmente do corpo físico, fazem incursões às regiões de baixo teor vibratório, próprias das entidades vinculadas às tramas de desespero e loucura.

Os homens que assim procedem não o fazem simplesmente atendendo aos apelos magnéticos que atrai os espíritos desequilibrados e desses seres, mas porque a eles se ligam pelo pensamento, “em razão das preferências que acolhem e dos prazeres que se facultam no mundo íntimo”. Ou seja, as tendências de cada um, e a correspondente impotência ou apatia em vencê-las, são o imã que atrai os espíritos desequilibrados e fomentadores do desequilíbrio, o qual, em suma, não existiria se os homens se mantivessem no firme propósito de educar as paixões instintivas que os animalizam.

Há dois mil anos. Tal situação não difere muito dos episódios de possessão demoníaca aos quais o Mestre Jesus era chamado a atender, promovendo as curas “milagrosas” de que se ocupam os evangelhos. Atualmente, temos, graças ao Espiritismo, a explicação das causas e conseqüências desses fatos, desde que Allan Kardec fora convocado à tarefa de codificar a Doutrina dos Espíritos. Conforme configurado na primeira obra da Codificação – O Livro dos Espíritos -, estamos, na Terra, quase que sob a direção das entidades invisíveis: “Os espíritos influem sobre nossos pensamentos e ações?”, pergunta o Codificador, para ser informado de que “a esse respeito sua (dos espíritos) influência é maior do que credes porque, freqüentemente, são eles que vos dirigem”. Pode parecer assustador, ainda mais que se se tem os espíritos ainda inferiorizados à conta de demônios.

Mas, do mesmo modo como somos facilmente dominados pelos maus espíritos, quando, como já dito, sintonizamos na mesma freqüência de pensamento, também obtemos, pelo mesmo processo, o concurso dos bons, aqueles que agem a nosso favor em nome de Jesus. Basta, para tanto, estarmos predispostos a suas orientações, atentos ao aviso de “orar e vigiar” que o Cristo nos deu há dois mil anos, através do cultivo de atitudes salutares, como a prece e a praticada caridade desinteressada.

Esta última é a característica de espíritos como Bezerra de Menezes, que em sua última encarnação fora alcunhado de “o médico dos pobres” e hoje é reverenciado no meio espírita como “o apóstolo da caridade no Brasil”.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Chico Xavier não morreu pobre. E era tratado como um aristocrata


Há um forte mito de que Francisco Cândido Xavier morreu pobre. Ele, de fato, teve origem pobre, mas, na medida em que se tornou um popstar da religião, nas dimensões de um Michael Jackson, ele se tornou um aristocrático, se não na vida de luxo e posses materiais, pelo menos no tratamento que era recebido.

Ele apenas não tocava em dinheiro. Consentiu que o lucro dos seus livros fosse para a Federação "Espírita" Brasileira e aceitou que seu tutor Antônio Wantuil de Freitas, então presidente da instituição, se enriquecesse às custas de seu pupilo.

Quando esse escândalo veio à tona, em 1969, Chico Xavier tirou o corpo fora. Fingiu estar "muito triste" com o uso do dinheiro dos livros vendidos para a fortuna da cúpula da FEB e, tendenciosamente, passou a editar seus livros em outras editoras. Mas, a essas alturas, Wantuil, doente, começava a deixar o comando da FEB, o que fazia seu protegido ficar "órfão" de seu "empresário" e descobridor.

Há muitos pontos sombrios na biografia de Chico Xavier, e é lamentável que livros esclarecedores como O Enigma Chico Xavier Posto à Clara Luz do Dia, de Attila Paes Barreto, estejam condenados ao esquecimento. Enquanto isso, bobagens em torno de "datas-limites" são publicadas e geram livros que geram documentários que geram livros de livros que geram documentários de documentários de livros etc etc etc.

Chico Xavier não morreu pobre porque nunca houve notícia de que ele havia sido abandonado na penúria, sem ter o que comer, vivendo em casa fedorenta rodeada de moscas e mosquitos, com baratas passeando pelo chão, e ignorado ou sendo jogado no chão de um hospital público qualquer.

Há relatos de fim de vida pobre, sim, em relação a outros nomes, como o cantor Lúcio Alves, a vedete Wilza Carla, o intelectual Luiz Carlos Maciel e o ex-baixista da Legião Urbana, Renato Rocha, o Negrete ou Billy. Estes sim encerraram a vida na pobreza e no abandono, em muitos casos desprezados pela sociedade.

Chico Xavier, não. Ele era bem tratado, como um aristocrata britânico. Era tão bem tratado quanto a Rainha Elizabeth, da Inglaterra, por exemplo. Ele apenas não tocava em dinheiro, mas viveu em situação de conforto, sim, e um conforto significativo. Chico é que buscava, como ídolo religioso, um aparato de simplicidade, mas dizer que ele faleceu na mais absoluta pobreza é um absurdo.

Ele recebeu os prêmios e os aplausos e, postumamente, ainda recebe as palmas e a adoração pública, como um astro pop, como uma celebridade, como um afortunado. As fortunas de Chico Xavier podem ser simbólicas, mas nem de longe espiritualistas, pois as paixões religiosas, pela qualidade de suas manifestações emocionais, se equiparam às orgias do luxo e do dinheiro, com tantas adulações, devoções, mistificações e privilégios.

Os "médiuns espíritas", pelos prêmios que recebem, pelas boas relações com os ricos e poderosos, podem ser considerados aristocratas da fé, se equiparando com os sacerdotes que eram duramente criticados por Jesus de Nazaré. Embora associados a uma aparente imagem de suposta humildade, eles se equiparam aos privilegiados da sorte e, com certeza, devem se satisfazer com a luminosidade artificial das paixões religiosas e as recompensas que recebem na Terra.

No mundo espiritual, porém, não há essas ilusões e, como os "médiuns espíritas", como Chico e Divaldo Franco, deturpam o legado espírita original, numa atitude que em si já é leviana e desonesta, suas condições de pretensos "espíritos de luz" se encerram com o desencarne (Chico já sentiu o drama disso tudo), pois no além-túmulo mesmo as ilusões religiosas que aqui parecem perenes e eternas lá se dissolvem como um castelo de areia engolido pelo mar.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Como não cair na tentação da retratação do "espiritismo" brasileiro?


No "espiritismo" brasileiro, há muitos casos de adesão de pessoas que haviam sido céticas e até extremamente críticas, a ponto de acusar os "médiuns" de charlatanismo e fraude, mas que depois, no primeiro contato com uma atividade "espírita", passam a aderir a ela com muita devoção, desfazendo das impressões anteriores.

Isso é bom? Não. Isso é péssimo, é perigoso e bastante nocivo para a pessoa, que apenas ganha falsa impressão de amorosidade e paz, embora num momento ou em outro o infortúnio lhe pregue peças muito piores, nem que seja para afastar dele, através da tragédia, os entes mais queridos.

O que parece uma "sublime atitude de reconhecimento da fé espírita" é na verdade uma perigosa subordinação religiosa comparável à que os hereges da Idade Média sucumbiram ao jugo católico. Nunca devemos esquecer que o "espiritismo" brasileiro, por suas escolhas igrejistas, reduziu-se a uma versão repaginada do Catolicismo jesuíta do Brasil colonial, que possuía bases medievais.

É vergonhoso que no Brasil haja essa tendência, uma grande ameaça do "espiritismo" brasileiro absorver céticos e contestadores e, assim, fazer-se triunfar essa versão do Espiritismo que permanece deturpada, com traições graves contra Allan Kardec sendo impunemente praticadas, e, o que é pior, em nome dele.

Os deturpadores do Espiritismo, que exercem seu poder pelo aparato de "humildade", "caridade" e "esclarecimento", até se valem do triunfalismo, aguentando as críticas pesadas que recebem e as violentas crises que os atingem, como se isso fosse uma tempestade de duas horas. Acreditam eles que seus contestadores de véspera se renderão e correrão chorando para os braços dos "médiuns", que são os sacerdotes sem batina dessa esquizofrenia religiosa.

Quem se rende a esses deturpadores é tido como "forte", "perseverante" e "misericordioso". Engana-se quem pensa assim. Quem se rende assim é, na verdade, um fraco, um desistente, e um masoquista, porque o "espiritismo" finge que perdoa os hereges contemporâneos, mas lhes roga azar assim que os acolhe como "ovelhas perdidas".

Há dicas para as pessoas evitarem essa retratação e seguirem a recomendação de Allan Kardec, que sempre aconselhou para que se combata a deturpação com vigilância, sem ceder um único passo em favor dos deturpadores.

Segundo Kardec, os deturpadores - sobretudo, conforme nossa análise, os "médiuns" brasileiros tão conhecidos e, infelizmente, muito adorados - investem em mensagens falando de "amor", "fraternidade" e "caridade", apelando para ideias "mais lindas", de forma a dominar o interlocutor e inserir nele ideias levianas de mistificação e de conservadorismo ideológico.

Damos aqui as dicas para as pessoas evitarem qualquer retratação do "espiritismo" brasileiro, evitando assim o papel patético que pessoas como Humberto de Campos Filho fizeram ao se renderem a Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier:

1) NÃO VISITE UMA "CASA ESPÍRITA" - Estabelecimentos "espíritas" estão preparados para receber estranhos através do recurso do "bombardeio de amor", combinando apelos emotivos muito fortes e aparentemente confortadores com demonstrações de aparentes intimidade e fraternidade extremas. Isso traz sensações que na aparência soam muito agradáveis e prazerosas, mas essas sensações são alucinógenas e corrompem a razão e o bom senso, além de tornar as pessoas irritáveis à menor adversidade.

2) NÃO SE DEIXE LEVAR PELA POSE DE COITADOS DOS "MÉDIUNS ESPÍRITAS" - É essencial resistir, com todas as energias, à pose de coitados e de vítimas dos "médiuns espíritas", que sempre tentam passar uma imagem de mansuetude e aparente alegria. A tentação em se deixar levar pela aparência suave desses perversos deturpadores do Espiritismo é imensa e já levou muitos bravos Ulisses do cotidiano atual para os "cantos de sereias" dos "médiuns" pretensamente amorosos. É preciso firmeza, porque legitimar um "médium espírita" é legitimar a deturpação.

3) NÃO SE DEIXE LEVAR POR APELOS EMOTIVOS DIVERSOS - Paisagens floridas, céu azul com nuvens brancas e sol, cenários marinhos com peixes graciosos e fotos de crianças sorrindo, ou então, de crianças pobres chorando, são apelos dos mais diversos que forçam a pessoa a se render a esse "espiritismo" deturpador. Há também a propaganda midiática que glamouriza a imagem dos "médiuns" e, no caso de Divaldo Franco, o aparato melífluo da voz ou a teatralidade das oratórias também favorece a dominação de quem não tem firmeza para resistir a esses apelos perigosos.

4) DESCONFIE DAS DESCULPAS RELACIONADAS À "CARIDADE" - A "caridade" - que os "espíritas" definem erroneamente como "Assistência Social", mas é mero Assistencialismo - é usada como artifício para abafar as irregularidades do "espiritismo" brasileiro. Daí a famosa desculpa: "os espíritas no Brasil deturpam a Codificação, mas pelo menos valem pela caridade". Não, não existe a caridade sincera e espontânea e mesmo o serviço mais gratuito e aparentemente fraternal tem seu objetivo de recompensa, senão a financeira, pelo menos a simbólica, que é o prestígio religioso.

5) NÃO ACEITE AS DESCULPAS DE QUE OS DETURPADORES IRÃO "APRENDER MELHOR" O ESPIRITISMO - Foi essa desculpa que fez ampliar os poderes dos "médiuns" deturpadores durante a ditadura militar. A promessa, que se comprovou em vão, dos deturpadores Chico Xavier e Divaldo Franco em "recuperar as bases doutrinárias do Espiritismo original" foi apenas uma conversa para boi dormir. O igrejismo dos dois só se intensificou, assim como as traições doutrinárias. A promessa foi como uma raposa prometer recuperar o galinheiro. Só deu errado.

6) NÃO SE ILUDA COM DISCURSOS "FRATERNOS" E "UNIFICADORES" - Parece cruel, mas rejeitar o discurso de "fraternidade" e "união entre irmãos" é necessário porque muitos desses processos "unificadores" e "conciliadores" escondem mecanismos de dominação das pessoas. Em muitos momentos, a expressão "fraternidade" e "irmão" servem apenas de eufemismo para líderes religiosos dominarem as pessoas e submeterem-nas ao seu poder e controle.

São alguns desses cuidados que devem ser feitos para que o questionador das irregularidades do "espiritismo" brasileiro não se renda ao seu domínio, evitando ser escravo do poder mistificador dos deturpadores e seus apelos emotivos e outros aparatos atraentes, porém perigosos.