quinta-feira, 15 de junho de 2017
"Espiritismo" e desinformação no Brasil
O Brasil virou o paraíso da pós-verdade, na qual o poder midiático se utiliza para criar uma "realidade paralela" que, mesmo com muitas contradições, cria uma falsa lógica que dá no grande público a falsa impressão de uma "realidade objetiva e imparcial".
Constrói-se um discurso no qual se misturam alhos com bugalhos e tarefas humanas são descritas de maneira confusa e contraditória, servindo-se do apelo à emoção para legitimá-las nesta forma completamente fora da lógica, do bom senso e, muitas vezes, sob o risco de lesar milhares e milhares de pessoas.
Uma dessas confusões permitiu o estrelato do juiz Sérgio Moro, alvo de uma compreensão confusa e cheia de falhas. Mesmo sendo apenas um juiz de Direito, Moro tinha atributos estranhos, podendo bancar advogado, xerife ou mesmo um tira urbano das produções de Hollywood. E essa visão maluca era servida pela grande imprensa, tida como "reduto máximo da objetividade, da imparcialidade e da transparência".
No "espiritismo", o que se vê é que a figura do "médium" virou uma grande aberração. "Coisa de louco", como diria o anedotário popular. O "médium" virou uma coisa monstruosa de apelo sensacionalista e um propagador de valores igrejeiros dos mais conservadores, mas rotulados de "valores positivos de caridade plena", um discurso que lembra muito o Catolicismo medieval nos seus primórdios, antes de cair a máscara de ferro das cruzadas e das condenações sangrentas.
Primeiro, o "médium" deixou de ter o valor intermediário da comunicação entre vivos e mortos. Depois, passou a ser o centro das atenções, sofrendo o culto à personalidade. Virou dublê de pensador e filantropo, veiculando ideias prolixas e mistificadoras e apenas ajudando pouca gente, mais preocupado de desenvolver uma "bondade" que lhes dê mais cartaz do que progresso social aos necessitados.
A desinformação deixa as pessoas caírem não só no ridículo. Ela também faz com que as redes sociais virem redutos de burrice e fanatismo extremo, quando compreensões equivocadas da realidade se tornam ferrenhamente defendidas, sob pena de ofensas, chantagens e ameaças.
No "espiritismo", seguidores dos "médiuns" deturpadores da Doutrina Espírita chegaram a recorrer da carteirada para ofender quem questionava esses ídolos religiosos. "Quem é você para falar alguma coisa sobre Chico Xavier?", disse uma "espírita" fanática a uma questionadora da deturpação.
A desinformação vem até mesmo de revistas que prometem didatismo para explicar certas coisas e explicam tudo errado. Um mercado editorial marcado pelo pedantismo e pelos dados superficiais e estereotipados, não raro misturando meias-verdades com fatos verídicos, num engodo jornalístico que serve mais para confundir as pessoas.
Por exemplo, há um volume da revista Ciência & Foco intitulado "Espíritos", nos quais cita a ideia de glândula pineal. Vão atribuir o "pioneirismo" ao fictício "André Luiz", quando sabemos que o assunto era fartamente discutido desde o século XVI e de maneira ainda mais sistematizada desde 1928.
Se acadêmicos "espíritas" alegam que a literatura referente à glândula pineal nos anos 1940 - sendo 1945 o ano de Missionários da Luz, livro que Chico Xavier publicou atribuindo ao fictício médico - era "escassa e conflituosa", cometeram eles dois graves equívocos:
1) Eles apenas pesquisaram o que lhes estava disponível dentro de seus lugares de pesquisa. Além disso, mesmo que a bibliografia fosse escassa, isso não significava que o tema não era debatido nos bastidores do mundo científico. Quanto ao outro aspecto, é da natureza científica ser conflituosa, porque se trata de um embate de ideias e discussão de hipóteses.
2) Eles atribuíram o "pioneirismo" de André Luiz em 1945 a descobertas sobre a glândula pineal em 1958 e em 2008 quando se sabe que essas descobertas, na verdade, eram objetivos cogitados bem antes de Missionários da Luz, levando em conta hipóteses que podem ter sido tardiamente divulgadas, mas cujo debate, nos bastidores da Ciência, é coisa muitíssimo antiga.
O "espiritismo", tão tido como "defensor do Conhecimento", se deixa valer por tais desinformações. E outro aspecto foi a risível atribuição a Chico Xavier pelo suposto pioneirismo da descoberta de água em Marte, em 1935 em relação a descobertas recentes realizadas em 2004, porque o assunto já era velho na década de 1930 e fartamente debatido no século XIX. O astrônomo estadunidense Percival Lowell falava do assunto bem antes do "médium" brasileiro nascer.
No final da vida, o radialista "espírita" Gerson Simões Monteiro cometeu uma grande gafe ao atribuir tal pioneirismo da "vida em Marte" a Chico Xavier. Foi algo que se valeu apenas por causa da desinformação das pessoas, que nunca ouviram falar da verdade a respeito dos debates que aconteceram no meio científico em torno da existência de água em Marte.
A desinformação faz com que as pessoas tendam a possuir uma compreensão umbiguista, fora da realidade do planeta e que causaria arrepio nas pessoas mais informadas e inteligentes do Primeiro Mundo. E no caso do "espiritismo", cria-se uma realidade paralela na qual uma literatura fake é tida como "autêntica", pinturas falsificadas são tidas como "verdadeiras" e informações equivocadas e fictícias são dadas como "realistas".
E tudo isso, pasme, tem como pretexto o "pão dos pobres", que permite qualquer mentira e mistificação. O pior é que as pessoas, tomadas de um perigoso transe emocional, o das paixões religiosas, ainda não suportam que se questione isso, contentes em ver o "espiritismo" criar e manter uma realidade paralela onde aberrantes atentados à lógica e ao bom senso são tidos como "verdades indiscutíveis". Depois dizem que são "rigorosamente fiéis" aos ensinamentos de Allan Kardec.
quarta-feira, 14 de junho de 2017
Crise política revela a crise do "topo da pirâmide"
A recente crise política que envolve os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de setores do empresariado, mostra que o chamado "topo da pirâmide", no qual a sociedade brasileira ainda atribui uma superioridade faraônica, está sofrendo o seu mais grave colapso.
O Brasil viveu um contexto em que o arrivismo, o clientelismo, a ambição e a dissimulação se tornaram as regras para se "vencer na vida", da parte de uma parcela de "iniciados". Nessa competição da vida, a maioria das pessoas é condenada ao sofrimento e à mediocridade, em nome do prestígio de uns poucos.
As denúncias da empresa JBS, revelando os escândalos que os irmãos Joesley e Wesley Batista fizeram com a classe política brasileira, e o pífio julgamento do Tribunal Superior Eleitoral sobre irregularidades da chapa eleitoral Dilma Rousseff-Michel Temer confirmam a crise de elites que eram associadas a qualidades administrativas, legislativas e por uma suposta visão objetiva do mundo.
Hoje o "topo da pirâmide" arde em chamas, num incêndio que tenta ser combatido com querosene. Os privilégios dos mais diversos, entre o porte de armas e o prestígio religioso e envolvendo o poder político, a grande mídia e o grande empresariado, estão sendo postos em xeque, e todos os esforços são feitos para, se não abafar a crise, minimizar ou neutralizar seus efeitos.
O "espiritismo" também não está fora desta crise e é a religião que está mais sofrendo por seus defeitos. Hoje está sendo cobrada a conta da "vaticanização" e das dissimulações que os igrejeiros da doutrina brasileira fazem para fingir "rigoroso respeito" a Allan Kardec, enquanto praticam a "vaticanização" que tanto criticam e reprovam no discurso.
A recente erosão doutrinária que reduz a prática "espírita" se reduzir a um receituário moralista e a um simulacro de filantropia sinaliza o quanto o "movimento espírita" fez uma verdadeira farra com os postulados kardecianos e o "espiritismo" virou a religião da mediocridade, em que desde físicos frustrados até romancistas ruins viram "dedicados intelectuais" da doutrina.
Os próprios "médiuns", como Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, mostram também que o "espiritismo" brasileiro também se situa no alto da pirâmide social. A doutrina igrejeira virou uma fogueira de vaidades que deturpou o sentido de "caridade" para ações de menor expressividade que serviam mais para a promoção pessoal dos "filantropos", que festejam mais e ajudam menos.
A própria função de "médium" virou uma grande aberração. Deixou a função intermediária e quase anônima para adotar o culto à personalidade e a idolatria religiosa. A situação chega ao ponto mais vergonhoso se compararmos que os discretos médiuns que colaboraram com Kardec eram aristocratas e, no entanto, tinham um senso de humildade muito maior do que os supostos equivalentes brasileiros, que tanto se gabam pela pose de "humildes".
O poder midiático também favoreceu muito essa idolatria religiosa, sabendo que a TV Tupi e a Rede Globo trabalharam para expandir o mito de Chico Xavier. As pessoas aceitam tudo naturalmente, sobretudo desde os tempos do poder da Rede Globo, que se insere nas pessoas de tal maneira que até parte dos que odeiam a emissora televisiva adotam costumes e crenças próprios da mesma. Daí a piada de que "o Brasil é uma concessão da Globo".
Essa aliança não ocorre por acaso e não é a Globo que está "pegando carona" na "perfeição moral" do "espiritismo" brasileiro. Pelo contrário. É o "espiritismo" brasileiro que, hoje reduzido a uma versão repaginada do velho Catolicismo jesuíta, tem o gosto de ter um poderoso veículo midiático como aliado, reforçando e até reelaborando mitos religiosos, como se viu quando a Globo fez de Chico uma versão brasileira de Madre Teresa de Calcutá.
Não vamos nos esquecer que Madre Teresa - curiosamente, sósia da vilã em quadrinhos da turma do Popeye, a Bruxa do Mar (Sea Hag, no original) - foi denunciada por deixar seus alojados em condições sub-humanas, atitude feita de propósito com base na perversa Teologia do Sofrimento, corrente medieval católica que hoje tornou-se a base ideológica do "espiritismo" brasileiro.
O mito de "caridade" que se trabalha através do poder midiático e do moralismo da sociedade conservadora mais parece propaganda do suposto benfeitor do que uma campanha de ajuda aos necessitados. Os baixos resultados de transformação revelam a farsa, embora os fanáticos religiosos tentem arrumar desculpas para continuar glorificando os "benfeitores" que comemoram demais o quase nada que fizeram ou fazem.
Isso faz a máscara cair e nivela o "espiritismo" brasileiro às velhas extravagâncias dos sacerdotes dos tempos de Jesus de Nazaré, que reprovava sua arrogância travestida de humildade, seu pedantismo intelectual, seu misticismo mistificador e outras práticas que os "humildes médiuns", que tanto adoram exaltar Jesus, praticam, sem perceber o quanto "seu mestre" reprovaria energicamente o que fazem.
A confusão doutrinária feita com tantos igrejismos e esoterismos inseridos sob o rótulo de "espiritismo" acentuaram a crise, na qual a chamada "fase dúbia" - uma falsa promessa de recuperação do Espiritismo original, feita nos últimos anos - tentava abafar a "torre de babel espírita" forjando uma falsa diversidade doutrinária e uma falsa estabilidade no pretenso equilíbrio entre Ciência, Filosofia e Religião, na qual sobressaía esta última.
A crise se torna extrema e não se pode mais prometer, pela enésima vez, "estudar melhor Kardec", porque, com todo esse igrejismo, o que mais se fez foi desfilar a boa teoria de Kardec, exposta pela letra "desencarnada", com seus presunçosos palestrantes falando em "Kardec total", pedindo para "não só lermos Kardec, mas vivermos Kardec" e até para "tirar o Espiritismo dos ambientes fechados das casas espíritas".
Mas tudo isso foi como, diante da comida apodrecida de muito tempo, misturasse com a comida nova e saudável, acreditando que isso vá resolver o problema. Ou como plantar um jardim de flores por cima do lodo fétido. A crise do "espiritismo" é parte da crise do "topo da pirâmide" em que os privilegiados se esqueceram de suas responsabilidades, cometendo erros dos mais graves em busca de obter vantagens sociais das mais diversas.
terça-feira, 13 de junho de 2017
"Espiritismo", Assistencialismo e Escola Sem Partido
O que salva os deturpadores do Espiritismo é a alegação de "caridade plena", erroneamente associada a eles. A ajuda que os "médiuns", em seu culto à personalidade, supostamente estão associados é exaltada com certo exagero, mais parecendo uma publicidade para a promoção pessoal desses pretensos pensadores do "espiritismo" brasileiro.
Se os festejados "médiuns", ou melhor, anti-médiuns, tivessem realmente ajudado muita gente, o Brasil teria atingido padrões escandinavos de qualidade de vida, se observarmos a pretensão de grandeza - mesmo sob o pretexto da "humildade" - que ídolos como Divaldo Pereira Franco e Francisco Cândido Xavier possuem entre seus fanáticos seguidores.
Mas isso não ocorreu. E não há como usar como desculpa falácias como "os amiguinhos pouco esclarecidos não deixaram", "dificuldades impediram" ou coisa parecida, porque a grandeza com que Divaldo Franco e Chico Xavier, tão tidos como "triunfantes" a tudo, estão associados em sua idolatria religiosa tinha esse compromisso de mudar a sociedade.
Tudo não passa, portanto, de uma grande falácia. A "caridade" dos dois sempre foi medíocre, para não dizer, em certos aspectos, bastante traiçoeira. As "cartas dos parentes mortos" de Chico Xavier se revelou uma grande armação para sua promoção pessoal de pretenso filantropo, dentro de uma perspectiva que a grande mídia, em especial a Rede Globo, desenvolveu bem no imaginário das pessoas.
O que muitos pensam ser "caridade transformadora" ou "filantropia revolucionária" são apenas atitudes inexpressivas que, na melhor das hipóteses, são apenas ajudas pontuais. Analistas sérios definem tal "filantropia" como Assistencialismo e seus projetos educacionais se equiparam aos padrões ideológicos que vimos na Escola Sem Partido proposta pela direita sócio-política nos últimos anos.
O Assistencialismo é definido como uma "caridade" que são resolvidos apenas casos pontuais. Doação de roupas e alimentos, atendimento a um número limitado de pessoas etc. Será preciso uma comparação ligeira para definir a diferença entre Assistencialismo e Assistência Social.
No âmbito da saúde, existe a cura de uma doença e o efeito paliativo da doença que não é curada mas a dor é aliviada. A Assistência Social "cura" doenças. O Assistencialismo alivia a dor. O que vemos no "espiritismo", embora ele se gabe em praticar "Assistência Social", é apenas Assistencialismo. Mesmo quando as pessoas se "emancipam", os efeitos, mesmo assim, são socialmente os mais inócuos possíveis.
O projeto pedagógico, que tornou-se a publicidade da Mansão do Caminho de Divaldo Franco, é na verdade algo que não difere muito da Escola Sem Partido: uma educação "básica", que apenas ensina tarefas e princípios inócuos para as pessoas, como ler, escrever e exercer algum trabalho, mas sem estimular o senso crítico e a compreensão questionadora da vida.
Embora os "espíritas" se assustem com tal comparação, a própria Escola Sem Partido promete um ensino "comprometido com a cidadania e as boas qualidades do indivíduo", apenas estimulando o aprendizado de coisas básicas como saber fazer contas, saber falar etc. Parece um projeto completo e bem intencionado, mas ele desencoraja a compreensão crítica da sociedade e permite a crença em fantasias religiosas.
A sociedade brasileira, mesmo uma parcela que se define "progressista", não consegue entender o problema disso. Acha que a associação da ideia aparente de "caridade" a uma religião só pode representar algo positivo e transformador, e chega-se ao absurdo das pessoas pouco se importarem com os resultados, apegadas à idolatria cega a um figurão religioso.
Nas redes sociais, um seguidor de Divaldo Franco infiltrado numa comunidade de ateus insistiu que a "caridade" dele era "transformadora", e a persistência dele em rebater questionamentos - sabe-se que a Mansão do Caminho não ajudou sequer 1% da população de Salvador - revela uma preocupação em defender um ídolo religioso, pouco importando se os resultados da "caridade" foram inexpressivos ou não. Os "beneficiados" são apenas um detalhe, diante dos holofotes a um ídolo religioso.
O Assistencialismo e o projeto pedagógico tipo Escola Sem Partido (ensinar a ler, escrever e trabalhar com alguma "eficácia", mas sem estimular o pensamento crítico e, todavia, permitindo crenças religiosas das mais surreais como se fossem a "realidade") refletem o quanto boa parte dos brasileiros ainda tem uma noção bastante conservadora de "bondade".
Isso é ruim. O que está por trás disso são conceitos igrejeiros, moralistas, elitistas e uma série de preconceitos sociais, nas quais se prefere que as classes populares sejam domesticadas por uma religião do que avançassem em qualidade de vida.
A "qualidade de vida" da "caridade" religiosa é apenas uma situação mediana, dentro dos limites tolerados pelas elites do dinheiro e do poder, que até aceitam que pessoas possam viver por conta própria, mas de maneira que não represente riscos aos privilégios abusivos que as classes mais ricas possuem e que aumentaram desde que a onda conservadora retomou o Brasil e o mundo.
segunda-feira, 12 de junho de 2017
Quando os "espíritas" descobrem que são roustanguistas
A "fase dúbia" do "espiritismo" brasileiro criou uma situação bastante insossa. Professando um estranho "roustanguismo com Allan Kardec", a doutrina igrejeira brasileira praticamente escondeu o nome de Jean-Baptiste Roustaing no armário, de forma a fazer com que o nome do autor de Os Quatro Evangelhos se tornasse um desconhecido pelos próprios adeptos e até por parte de seus palestrantes.
Mas todo o ideário roustanguista está preservado, com a exceção de dois pontos controversos: a ideia do Jesus "fluídico", que desmente a sua famosa encarnação, e a tese dos "criptógamos carnudos", na qual pessoas moralmente infratoras reencarnariam na forma de insetos, plantas ou vermes.
Fora isso, tudo de Roustaing é mantido e poucos imaginam: colônias espirituais, crianças-índigo (ou "cristais", "luzes" ou "estrelas" e o que vier de rótulo), resignação com o sofrimento e outros princípios que as casas e as obras "espíritas" tanto difundem sob o rótulo de "kardecismo".
Não raro vemos "espíritas" chocados com a acusação de serem roustanguistas. E, o que é pior, se vasculharmos bem os bastidores de toda a história do "movimento espírita", concluiremos que no Brasil houve (e, num dos casos, ainda há) dois adeptos entusiasmados, porém nem sempre assumidos, de Jean Baptiste Roustaing: ninguém menos que Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco.
Sim, isso mesmo. Chico Xavier e Divaldo Franco sempre foram roustanguistas, e seguiram com entusiasmo as ideias de J. B. Roustaing, que tinha mais afinidade com a formação católica ortodoxa dos dois "médiuns" do que as ideias científicas do pedagogo de Lyon.
Isso choca os desinformados, que conhecem o "espiritismo" através de revistas de qualidade duvidosa vendidas nas bancas e que prometem "ensinar timtim por timtim" a "doutrina kardeciana". As revistas nunca falam em Roustaing, e, quando mencionam, falam como se fosse uma coisa superada. Só que não.
O roustanguismo nunca foi tão forte nos últimos 45 anos, quando seu nome era "engavetado" nos escritórios do alto clero da Federação "Espírita" Brasileira. Chico e Divaldo, diante dos conflitos entre a federação nacional e as federações regionais, passaram a fingir que eram "kardecianos legítimos" só para agradar os espíritas científicos que lhes eram amigos, como José Herculano Pires e Deolindo Amorim. Mas, como diz o ditado, "amigos, amigos...".
Isso os "iniciados" não sabem, e, quando são informados, vão correndo para o quarto chorar. Acham que aquilo que aprenderam, uma doutrina igrejeira e mistificadora, era associada "verdadeiramente" aos postulados originais da Doutrina Espírita e não conseguem admitir o equívoco de tudo isso.
O "espiritismo" brasileiro parecia viver um falso equilíbrio nesta "postura dúbia", praticamente distribuindo o cientificismo kardeciano para a teoria e o igrejismo roustanguista para a prática. Ninguém percebia o quão patético era ver palestrantes "espíritas" bajularem Erasto, num texto, e exaltarem Emmanuel, o oposto daquele, em outro texto.
Cometem tantas contradições e acham que estão sendo equilibrados e coerentes. Defendem ideias próprias do roustanguismo mas se apavoram só de ouvir o nome de Jean-Baptiste Roustaing. E, por outro lado, ainda se dizem "rigorosamente fiéis" a Kardec, mas praticam o igrejismo que muitas vezes vai na contramão dos postulados kardecianos. Que "coerência espírita" é essa?
domingo, 11 de junho de 2017
O maior lesado do "espiritismo" brasileiro: Allan Kardec
Qual o maior lesado, o maior prejudicado e o maior esculhambado pelos "espíritas" brasileiros? Qual é a vítima mais humilhada, depreciada, desmoralizada pelo "movimento espírita" em toda sua trajetória?
Com toda a certeza, é o pedagogo Hippolyte Leon Denizard Rivail, o Allan Kardec, o maior prejudicado pelo "movimento espírita" brasileiro. O "espiritismo" que se faz no Brasil é marcado pela profunda hipocrisia e pelas dissimulações diversas, e a erosão doutrinária é maquiada pelo receituário moral e pelo Assistencialismo (caridade paliativa que só atende casos pontuais e parciais), que muitos acham natural e até admirável.
O "espiritismo" que se faz no Brasil nada tem a ver com a "embalagem" bonita e agradável que se apresenta principalmente ao público leigo, que adere sem despertar um pingo de desconfiança. O "espiritismo" virou um rol de contradições, escândalos, confusões e fraudes, que são mascarados de todo e qualquer jeito.
Tudo isso é feito para iludir e enganar as pessoas, e não são poucos os "médiuns" que chegam com mensagens fake que não refletem a natureza pessoal dos autores mortos alegados. Podem apresentar até um grande número de semelhanças, mas sempre existe uma diferença que derruba qualquer indício de veracidade.
Para piorar, muitos palestrantes, que realizam turnês para promover seu balé de belas palavras, estufam o peito dizendo serem "fiéis seguidores" de Allan Kardec e "rigorosos cumpridores" de seus ensinamentos. Dizem isso para depois praticarem o mais derramado igrejismo roustanguista, tão praticado quanto tão convictamente renegado, expressando falta de sinceridade.
Hoje a crise do "espiritismo" brasileiro é tão grande que se encontra num grave impasse. A doutrina que prometia melhorar a sociedade brasileira se perde em intermináveis contradições, sem poder resolvê-las, e entregue a eterna promessa de "compreender melhor Kardec". Sim, como cães correndo atrás dos próprios rabos, os "espíritas" deturpadores, mais uma vez, apelam para promessas de "conhecer melhor a obra de Kardec", coisa que já vimos antes e que deu na crise que se vive hoje.
É a promessa que tenta fazer os deturpadores manterem as rédeas. O Brasil virou refém desse "espiritismo" deturpado, que se transforma até num engodo, numa grande porcaria religiosa na qual se mistura a podridão do roustanguismo com a boa teoria de Kardec, criando teorias e práticas que se chocam em um conflito grave e insustentável.
É como se misturassem a comida podre do dia anterior com a comida nova, mesclando conceitos igrejistas com ideias científicas e filosóficas, emporcalhando com o legado de Allan Kardec, que com certeza não merece essa avacalhação toda que se faz com o seu trabalho.
Allan Kardec fez sozinho todo o trabalho de divulgação da Doutrina Espírita. Diferente dos festejados "médiuns" e "intelectuais" do "espiritismo" brasileiro, que viajam em aviões de primeira classe e se hospedam em hotéis de luxo para fazer palestras tolas sobre temas emocionais e receber medalhinhas, o pedagogo de Lyon pagava suas próprias viagens, não tinha patrocínios e só as fazia para realizar pesquisas e entrevistar pessoas a fins de estudo dos fenômenos espíritas.
É um horror o que ocorre no "movimento espírita", em que os próprios deturpadores, sob o pretexto de "aprenderem melhor as lições", reciclam seu igrejismo, apenas expondo uma teoria "kardecista" politicamente correta, imaginando que uma mera exposição da teoria espírita autêntica pudesse resolver as contradições.
Afinal, tudo o que se viu foi essa interminável contradição entre prática igrejista e um falso aprendizado da Doutrina Espírita. Essa promessa de "aprender Kardec" já foi estada há mais de 40 anos e resultou nesse lodo religioso que hoje vemos. Será que temos sempre que ser "fraternos" na deturpação, diante dessa postura "dúbia" que tanto envergonha o trabalhoso legado de Kardec?
A crise no "movimento espírita" só tende a se agravar com tantos impasses. Não se trata de uma crise provocada pela "maledicência dos outros" mas das más escolhas que os próprios "espíritas", sejam eles dirigentes, "médiuns" e autoridades, fizeram ao longo dos anos, acumulando as sujeiras que se tornam mais evidentes, por mais que o discurso da "união fraterna" tente mascarar.
sábado, 10 de junho de 2017
"Protegido" por suposta colônia espiritual, Rio de Janeiro sofre com a violência
Não bastassem os incidentes trágicos que atingem a população no Complexo do Alemão, no Complexo da Maré e no entorno da Linha Vermelha, o Rio de Janeiro sofre com a escalada da violência que já eliminou as vidas de muitas gentes.
A conveniência dos interesses turísticos é que fez com que o Rio de Janeiro estivesse ausente no ranking de 30 cidades ou capitais mais violentas, seja do Brasil ou do mundo. Afinal, os noticiários, independente do nível ideológico dos mesmos, sejam de direita ou esquerda, afirmam que o Rio de Janeiro se comporta como se fosse a capital mais perigosa do Brasil e uma das cinquenta do mundo.
O Complexo do Alemão não é apenas um subúrbio qualquer, mas uma grande área que fica no caminho entre o Aeroporto Internacional Tom Jobim, conhecido como Galeão, e o Centro do Rio, sendo um percurso obrigatório para quem vem de outras partes do Brasil e do mundo para se chegar à outrora conhecida Cidade Maravilhosa.
No entanto, o Alemão e a vizinha Maré, quase colada no outro complexo, não são as únicas áreas que sofrem graves surtos de violência carioca. Na Rocinha, uma gigantesca favela localizada entre Leblon, Gávea e São Conrado, estando no caminho entre a Zona Sul e a Barra da Tijuca, também a violência já mostrou episódios bastante dramáticos, sendo um dos mais recentes o misterioso desaparecimento de um trabalhador chamado Amarildo.
Na última semana, um jovem ator foi assassinado por um desafeto por golpes de taco, em São Cristóvão. Na Cidade Nova, a sede da Prefeitura do Rio foi assaltada, havendo tiroteio, e os ladrões levaram uma modesta soma de dinheiro. Diante disso, é constrangedor ver que o Rio de Janeiro está em 23º lugar entre as capitais violentas, quase um índice paradisíaco. Nosso estatísticos parecem estar distraídos demais com o mar de Copacabana.
O Rio de Janeiro sofreu retrocessos profundos nos últimos 25 anos. O momento mais crítico foi durante a vigência do grupo político do prefeito carioca Eduardo Paes e do governador fluminense Sérgio Cabral Filho, o que fez com que o eleitor carioca médio tivesse voto podre, movido pelas conveniências políticas.
Da pintura padronizada nos ônibus (que derrubou o sistema através dos "ônibus iguaizinhos" com a "pintura de consórcios" que ainda confundem os passageiros e acobertavam a corrupção político-empresarial) aos esquemas de propinas com empreiteiras, o grupo político de Paes provocou uma falência financeira do Estado do Rio de Janeiro e sua capital, mas também mostrou o erro dos cariocas em elegerem um candidato movidos pela emoção.
Foi assim quando o inexpressivo político Eduardo Cunha foi eleito "em nome da moralidade" e a catarse coletiva permitisse vitórias eleitorais a qualquer reacionário da família Bolsonaro, revelando o quanto os cariocas chegam mesmo a arruinar o resto do Brasil diante da combinação da catarse com o pragmatismo (que é a mania de valorizar não coisas melhores, mas aquilo que "atende o básico").
Culturalmente, o Rio de Janeiro sofre a tirania da Rede Globo, a opção "teocrática" da Record Rio, e derrubou a MPB com a supramacia do "funk" (caminhando para ser a axé-music carioca) e o "sertanejo", enquanto o rock, símbolo da cultura arrojada juvenil, sucumbiu ao ridículo sob o comando midiático da Rádio Cidade, que saiu do FM mas ainda é transmitida pela Internet, e reduziu a divulgação do rock à mesmice do hit-parade.
Há um cenário sociológico estranho no Rio de Janeiro, em que a população em sua maioria confunde precaridade com simplicidade, modéstia com mediocridade, e mistura prepotência com pragmatismo, tentando impor sua decadência cultural ao resto do país.
A mania do Rio de Janeiro, mesmo em sua decadência, virar "modelo" para o Brasil teve seu efeito nefasto quando Eduardo Cunha, eleito deputado federal, passou a presidir a Câmara dos Deputados, impondo uma pauta reacionária que se tornou conhecida como "pauta-bomba" e que foi o embrião das reformas trabalhista e previdenciária do governo Michel Temer.
Aliás, Cunha contribuiu para a derrubada do governo Dilma Rousseff através de um intrincado jogo de intrigas. causando sérios problemas no cenário sócio-político. A influência megalomaníaca da Rede Globo também criou uma catarse coletiva que fez muitos brasileiros pedirem, "se preciso", uma intervenção militar para prender Lula e Dilma, colocando um ditador no poder.
Devido a esse "pragmatismo carioca", setores da sociedade brasileira passaram a defender até a redução dos salários, sob a desculpa de "ensinar o povo pobre a gastar", além do fim dos direitos trabalhistas e das garantias sociais, sob a desculpa da "austeridade" e do "combate à crise". Tudo porque prevaleceu o princípio carioca de que o Brasil tem que se contentar com o "básico", dentro daquela velha "síndrome de vira-lata".
No "espiritismo", o Rio de Janeiro é "protegido" pela famosa "colônia espiritual" de Nosso Lar, que os "espíritas" acreditam se localizar no céu da Região Metropolitana carioca. Há também uma rádio "espírita", a Rádio Rio de Janeiro, e um periódico, o "Correio Espírita", que "zelam" pela "energia espiritual" do Grande Rio.
Como se vê nesta confusa doutrina igrejeira e roustanguista, o Rio de Janeiro não poderia estar além de energias contraditórias e confusas, que fazem com que o Estado e sua capital sucumbissem até mesmo a um provincianismo que nem o isolado Estado do Acre vive mais.
Enquanto isso, moradores são vítimas de uma violência sem fim, sem que as sucessivas mortes coloquem o Rio no ranking de cidades mais violentas, o que seria um alerta para o mundo inteiro. Para o "espiritismo" brasileiro, então, isso não vem ao caso: talvez somente os "romanos" sejam vítimas desta violência, por causa dos tais "resgates morais"...
sexta-feira, 9 de junho de 2017
"Espiritismo" e o homem acuado
Muitas pessoas reclamam depois que fazem tratamentos espirituais em "casas espíritas" ou leem os livros tidos como "mais conceituados" do "espiritismo" brasileiro. Acabam contraindo azar, de diversas formas, e isso é coincidência demais para se considerar "injusto" responsabilizar os "espíritas" pelo mau agouro.
Mas o mau agouro é trazido pelo "espiritismo", sim, por diversos motivos. É uma doutrina de raiz fincada no livro Os Quatro Evangelhos, de Jean-Baptiste Roustaing. Se comporta como se fosse uma versão repaginada do velho Catolicismo jesuíta do período colonial, que tem matizes medievais. Institucionalmente, funciona como um clone da Legião da Boa Vontade, com suas práticas de Assistencialismo, com atrações musicais, literatura e entretenimento igrejeiros e coisa e tal.
No entanto, há uma desonestidade doutrinária na qual os "espíritas" juram que "seguem rigorosamente" os postulados kardecianos, dizem "combinar com equilíbrio" os princípios de Ciência, Filosofia e Moral e juram que estão em dia com as compreensões da Ciência Espírita. Dizem praticar "ativismo social" que julgam ser "revolucionário" e de "resultados amplamente transformadores".
Esse festival de mentiras e dissimulações atrai energias confusas que abrem caminho para espíritos atrasados. As contradições em torno do "espiritismo" brasileiro atraem não só jesuítas medievais, como acaba atraindo também, devido a diversos equívocos, espíritos que vão de feiticeiros também medievais até espíritos atrasados ligados a contextos menos antigos, como o fascismo europeu e o macartismo estadunidense.
Isso traz energias aqui e ali, e a coisa piora quando os palestrantes "espíritas" abraçam a Teologia do Sofrimento, corrente medieval católica que faz apologia da desgraça humana como "meio de alcançar as bênçãos futuras". Isso cria um senso moralista ainda mais retrógrado, que faz com que os tratamentos espirituais não sejam apenas inócuos no propósito de resolver problemas, mas também viram fontes de maldição e azar.
O "espiritismo" também atrai más energias quando tenta ser arremedo de qualquer coisa. Arremedo de "filosofia", com seus "médiuns" verborrágicos bancando dublês de pensadores. Arremedo de grupos literários, como os primórdios da Federação "Espírita" Brasileira (1884-1932) com seus dirigentes e escritores posando como se fossem genéricos da Academia Brasileira de Letras.
Há arremedos de folhetins, os romances "espíritas". Há arremedos de textos científicos, uma masturbação teórica que mistura compreensões básicas com pedantismo. Há arremedos de ativismo social, com um Assistencialismo que serve mais de propaganda para os "benfeitores" das "casas espíritas" ou dos "médiuns" sedentos pelo culto à personalidade.
De repente, até idosas donas de casa passam a falar de "universos cósmicos", alunos medíocres de Física passam a ser "cientistas" em palestras "espíritas" e tudo que for de intelectual frustrado e escritor medíocre passa a ser "pensador espírita" às custas de umas palavrinhas belas, mas ocas.
Tudo isso gera um clima de muito pretensiosismo, presunção, arrivismo e falta de sinceridade. Os "espíritas" pedem para os outros aceitarem dificuldades e "mudarem os pensamentos", mas eles mesmos precisam se autoconhecer, antes de levarem um choque quando são definidos por outrem como roustanguistas e adeptos da Teologia do Sofrimento.
Tem palestrante "espírita" que prega a Teologia do Sofrimento, mas fica chocado quando alguém lhe alerta sobre isso. Recolhe num canto, chora e diz "eu não quis defender isso". Mas defendeu, sem prestar atenção às ideias expressas, ao discurso do "inimigo de si mesmo" tão abertamente medieval.
Outro repositório de más energias é a mediunidade fake. Combinando ignorância aos ensinamentos da Ciência Espírita e o típico vício brasileiro da falta de concentração (tem-se falta de concentração para ler livros e ouvir música, por exemplo), a mediunidade se reduz ao faz-de-conta em que o suposto médium faz, criando mensagens da própria mente, mas imitando (mal) o estilo do morto de sua escolha, e jogando propaganda religiosa para evitar desconfianças.
O mais chocante disso tudo é que essas irregularidades graves não partem de "casas espíritas" de fundo de quintal ou de "médiuns" de alfaiataria, que "só veem fantasminhas de cobertor". Isso vem de gente tida como "a mais gabaritada", "médiuns", palestrantes e dirigentes que aparecem em colunas sociais, são aparentes unanimidades no Brasil e no mundo e são tidos como "de altíssimo conceito e confiabilidade".
Daí que as pessoas que recorrem ao "espiritismo" acabam sofrendo de uma forma. Em muitos casos, um sofrimento que é maior do que tais pessoas poderiam aguentar, que as faz abrir mão de suas próprias habilidades, de seus planos de vida e fazem compactuar até com pessoas desonestas, fúteis ou prepotentes para vencer na vida.
Terrível saber que muitas pessoas acabam ficando acuadas depois de fazerem tratamentos espirituais ou leem obras "espíritas" brasileiras - incluindo muitas tidas como "conceituadas" - , sofrendo dificuldades e aflições sem fim, estando em becos sem saída e ainda ouvindo a falácia de "combater a si mesmo", que é uma sutil condenação dos "espíritas" à individualidade humana.
Mas o mais deplorável é ver que as pessoas sofrem dificuldades demais diante dessas más energias e os "espíritas" ainda esperam receber agradecimento com isso. Eles não querem se responsabilizar pelos erros gravíssimos cometidos por suas múltiplas más escolhas e ainda choram quando alguém lhes diz para assumir de verdade seus erros.
Assinar:
Postagens (Atom)






