segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O Brasil e a blindagem para poucos, não necessariamente os melhores


O Brasil vive uma situação surreal em que há todo um esquema de blindagem para poucos, um privilégio dado não necessariamente àqueles dotados de grandes virtudes, mas aos que cometem erros gravíssimos mas são protegidos por algum grande status social.

Há pessoas que, hoje, são completamente beneficiadas pela impunidade plena, fossem quem fossem os abusos cometidos. Pessoas que causam escândalos sérios, incidentes preocupantes, mas que nada consegue abalá-los.

Isso não quer dizer que tais pessoas tenham virtudes que se sobressaem aos defeitos, até porque os defeitos chegam a ser graves e as virtudes, superficiais ou inexpressivas. Mesmo assim, o respaldo da sociedade faz com que instituições ou pessoas se tornem "intocaveis" pelo status que representam devido aos valores conservadores e certos paradigmas hierárquicos.

No Poder Judiciário e no Ministério Público, temos exemplos de pessoas que são blindadas por mais que cometam erros graves e constrangedores. As atuações do juiz Sérgio Moro, do ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e do procurador Deltan Dalagnol são totalmente irregulares e gravíssimas, sob o ponto de vista do Direito, escapando muitas vezes do rigor metodológico e da imparcialidade.

Mesmo assim, eles são dotados de uma blindagem extrema e forte. São beneficiados por um prestígio e um status inabaláveis, nenhuma denúncia contra eles consegue derrubá-los, enquanto por outro lado seus seguidores os endeusam como se eles já tivessem o passaporte para o Paraíso, o "reino dos puros".

A Rede Globo de Televisão é principal veículo das Organizações Globo, empresa cujos donos, os irmãos Marinho (João Roberto, José Roberto e Roberto Irineu), são comprovadamente sonegadores de impostos, donos de algumas das maiores fortunas do mundo e ainda recebem verbas públicas que estão garantidas pelo governo de Michel Temer, o mesmo que pretende fazer um rigoroso congelamento de gastos públicos.

Nada abala da Rede Globo, que manipula a opinião pública e estabelece influência ideológica até em parcela de aparentes detratores. Gírias (como "balada" e "galera"), hábitos vestuários, gastronômicos etc, gostos musicais e tudo, penetram no inconsciente coletivo até de pessoas que pegam carona no bordão "o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo". A Globo nunca é punida, não entra em falência e sua queda de público, além de longe de ser drástica, ainda não abala seriamente a empresa.

Da Rede Globo, o exemplo da blindagem mais extrema é o do apresentador Luciano Huck. Ele é sócio de uma marca de roupas que publicou mensagens de mau gosto que expressavam preconceitos sociais graves. Ele popularizou a gíria "balada", criada por DJs de boates para ricos com base no eufemismo "bala" (pílulas entorpecentes, como ecstasy).

Elitista, Luciano tenta se passar por "assistente social" num quadro do Caldeirão do Huck, Há denúncias de que ele mandava reformar carros velhos, fingia entregar aos beneficiários e depois os pegava de volta dando uma precária indenização. Sem falar que os quadros "assistenciais" são copiados de programas do gênero, de valor muito duvidoso, transmitidos nos EUA.

Huck também foi visto fumando cigarros suspeitos e apoia políticos retrógrados como João Dória Jr. (que tomou café de botequim fazendo cara de nojo) e Aécio Neves, ele enrolado em muitas denúncias de corrupção - só pela Operação Lava Jato Aécio é citado em pelo menos seis delações - e também beneficiado pela blindagem mais absoluta.

Aécio é do PSDB. O PSDB também é beneficiado pela blindagem da mídia e da sociedade. A Justiça, então, nem chega perto dos tucanos, a não ser os de "pequena plumagem" (os políticos menores), geralmente prefeitos do interior ou deputados e vereadores de menor expressão política.

Nomes como Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves, ou mesmo os falecidos Sérgio Guerra e Mário Covas, estão citados em denúncias graves de corrupção, com muitas provas documentais e tendo desviado grandes somas de dinheiro público para suas contas pessoais e de seus familiares.

Apesar disso, os que estão vivos nem de longe vivem o ocaso político, estando até esperançosos em pôr a República em suas mãos. A Justiça não mexe no PSDB. Aécio Neves está citado em denúncias da Lava Jato e o jurista Gilmar Mendes - que o filho do espírita Deolindo Amorim, Paulo Henrique Amorim, definiu como "do PSDB do Mato Grosso" -

O "espiritismo" brasileiro também tem uma blindagem surpreendente. A religião nem está entre as mais populares do Brasil, mas goza de uma impunidade que nem mesmo católicos e evangélicos chegam a possuir. Nenhum questionamento oficial atinge os "espíritas" que, diante de denúncias, ainda reagem com vitimismo, no seu teatrinho de falsa modéstia.

Chico Xavier e Divaldo Franco se tornaram os piores deturpadores da Doutrina Espírita, produzindo livros e dando depoimentos cujo conteúdo, em que pese o suposto teor de "bondade", contrariam de maneira aberrante o pensamento trazido por Allan Kardec.

No entanto, os dois foram aproveitados pela doutrina dúbia, tendência ainda dominante no "movimento espírita", que prometeu a "recuperação das bases kardecianas" mas manteve o igrejismo herdado do roustanguismo. Há quem acredite numa recuperação "para valer" do pensamento kardeciano mantendo os dois "médiuns" deturpadores no pedestal.

O verniz de "bondade" dos dois "médiuns" criou uma linhagem de impunidade no "movimento espírita", em que verdadeiras fraudes "mediúnicas" são produzidas impunemente. Chico Xavier saiu impune na usurpação do nome de Humberto de Campos e, esperto, o "médium" ainda aliciou familiares do falecido escritor que, iludidos com a aparente "bondade" do mineiro, acabaram se rendendo a ele.

Chico Xavier fez pastiches literários grosseiros, incluindo vários plágios, usurpou identidades de pessoas mortas famosas ou não, defendeu e propagou valores moralistas retrógrados, defendeu a ditadura e enganou muita gente sob a capa da "bondade" e da "caridade".

Mesmo assim, o anti-médium morreu impune, blindado pela sociedade, endeusado pelas paixões terrenas de seus seguidores, cegos e enfeitiçados pelo deslumbramento religioso que santifica na Terra os ídolos religiosos que, no "outro lado da vida", recebem o choque das "santas ilusões" que mascaram vaidades imensas sob o disfarce da "humildade".

Isso fez com que outros seguidores "espíritas" também se beneficiassem com a impunidade. O rico "curandeiro" João Teixeira de Faria, o João de Deus, que não teve coragem de tentar auto-cirurgia de um câncer, é um poderoso latifundiário, cujos bens foram provavelmente desviados do dinheiro da caridade. Mas ninguém investiga.

Em vez disso, João de Deus ainda tem o benefício de ter a Rede Globo encomendando a uma atriz ateia a fazer uma "visita de agradecimento" por não ter sofrido uma tragédia que matou um colega de cena. E, o que é pior, poucos percebem que essa "visita espontânea" era um recurso da Globo de usar o "espiritismo" para reagir à Rede Record, cuja dona, a Igreja Universal do Reino de Deus, tem um "bispo" se preparando para assumir a Prefeitura do Rio de Janeiro após a virada do ano.

José Medrado é acusado de usar sem alvará um terreno da Cidade da Luz em Salvador, de manter os meninos pobres que aloja isolados durante as palestras. Além disso, Medrado costuma fazer piadas preconceituosas em suas exposições, e é cortejado pela alta sociedade soteropolitana, da qual o próprio "médium" faz parte, ostentando um carrão utilitário caro demais para alguém com currículo de funcionário público.

Mas o mais grave é que Medrado está associado a produção de quadros que nem de longe lembram os estilos dos pintores falecidos a quem se atribui tais pinturas. mas são parecidos entre si, lembrando mais o estilo pessoal do "médium", que não mede escrúpulos em usar uma mesma caligrafia para assinaturas tidas como "de diferentes autores".

E mesmo o "refinado" Divaldo Franco cometeu a gravidade de espalhar a deturpação da Doutrina Espírita para vários cantos do mundo, no esforço de destruir o legado de Allan Kardec espalhando mentiras e conceitos estranhos à doutrina kardeciana. Um dos aspectos mais preocupantes é a defesa de uma bobagem sensacionalista como as crianças-índigo, um modismo esotérico tão ridículo que resultou até na separação de um casal que criou essa farsa, por causa de disputas financeiras.

E ninguém investiga, ninguém questiona, ninguém analisa com severidade e rigor objetivo. Em vez disso, preferem adular esses ídolos "espíritas", e, quando muito, apenas criam-se simulacros de investigação sobre Chico Xavier, que praticamente dão em nada.

Ser "espírita" é se sentir no "paraíso" da Terra, podendo praticar desonestidade doutrinária e fraude mediúnica, que ninguém mexe. E quando há um risco, os "espíritas" e seus seguidores ainda reagem com coitadismo ou apelam para ostentar ações "filantrópicas", tidas como "transformadoras" mas que são extremamente inócuas e pouco expressivas. Vide o caso da Mansão do Caminho.

É triste ver que pessoas e instituições assim, como os "espíritas", o PSDB, a Rede Globo etc, são dotados da mais absoluta impunidade, podendo cometer seus abusos e desonestidades livremente, sem ver qualquer efeito drástico contra tais delitos ou crimes.

É constrangedor ver que o status quo blinda tais pessoas, não pelas virtudes que possuem, que são poucas e medianas, mas para protegê-los em seus erros graves, como se fosse possível fazer apologia do erro quando seu praticante goza de alto prestígio. O "paraíso" da Terra garante tais privilégios, dentro de um quadro em que multidões são vítimas diárias de tantas injustiças sociais.

sábado, 26 de novembro de 2016

É fácil o "espírita" dizer para o outro abrir mão do que quer. E o próprio "espírita"?


O "movimento espírita", nas suas pregações moralistas, demonstra seu vínculo com a Teologia do Sofrimento, o "caminho da felicidade" traçado pela longa jornada de desgraças acumuladas. É você ter que se dar mal na vida para chegar perto do "Alto", nem que seja desperdiçando encarnações e sacrificando a própria individualidade e seus talentos.

O "espiritismo" brasileiro acaba restringindo a noção de caridade. Só se pode ajudar três tipos de pessoas: os sofredores mais extremos, para evitar o ônus social do prejuízo mais grave, os arrivistas, que querem levar vantagem na marra, e os algozes, que estão no poder de forma abusiva e injusta.

É por isso que o caminho das desilusões chega a ser surreal. O problema não está nas desilusões, mas da forma como o "espírita" prega, que faz do desiludido não uma pessoa que aprende a lição amarga dessas ocorrências, mas de um escravo das ilusões alheias. O desiludido, em vez de criar novas perspectivas, é convidado até a voltar às velhas ilusões, apesar do sofrimento por elas dado.

O "espírita" parece um envaidecido moral. Ele se julga na posse da verdade, da palavra final, do melhor argumento, apenas porque se considera "ligado a Deus" e próximo do que ele acredita ser Jesus (que, sabemos, iria reprovar severamente o "espiritismo" que existe no Brasil). Por isso, para ele, tanto faz o moralismo que ele serve aos outros ser extremamente severo e cruel.

Nada como pregar a desgraça alheia usando belas palavras. É como se jogasse pimenta nos olhos dos outros e caprichasse no tempero. Mas o "espírita", malabarista da palavra, sempre usa desvios discursivos para dissimular a própria Teologia do Sofrimento, de maneira que ele não seja visto como alguém que faça apologia da desgraça alheia.

No primeiro momento, ele diz para a pessoa aceitar o sofrimento sem queixumes. Diante do primeiro questionamento, muda seu discurso, dizendo que o sofrimento não é sofrimento e sim um aprendizado. Questionado outra vez, ele diz para as pessoas abrirem mão dos desejos, que no seu juízo de valor são classificados como "inúteis". No outro questionamento, ele diz que há outros meios de obter felicidade etc. Assim fica difícil o "espírita" ficar com a palavra final e a posse da verdade.

Seu moralismo é bastante severo, mesmo com palavras dóceis, dadas em tom paternal. É muito fácil o "espírita", no seu conforto, diante do computador ou na bancada de sua palestra, protegido no seu prestígio religioso, pedir para as pessoas aceitarem o sofrimento, abrirem mão de seus projetos de vida e até da individualidade.

O "espírita" goza das mais perfeitas regalias. Ele pode até fazer falsidade ideológica, se recolhendo numa sala fechada, criando uma mensagem da própria mente, e inventar que foi um morto de sua escolha que escreveu. Uma mensagem de mershandising religioso, diga-se de passagem. O "espírita" sai quase sempre bem sucedido, e até os familiares que ele engana tornam-se fáceis de conquistar confiança plena, por causa da grife religiosa do "centro" em que trabalha.

Fica muito fácil fazer juízo de valor, moralismo retrógrado e tudo. A partir do exemplo de Francisco Cândido Xavier, ser "espírita" no Brasil garante a mais perfeita impunidade. Chico Xavier nunca passou de um pastichador de obras literárias e escrevinhador de cartas religiosas, além de católico ortodoxo e moralista ultraconservador, mas foi consagrado erroneamente como "progressista" e a ele atribuídas as maiores qualidades humanas, no fundo inexistentes, como o ativismo e a sabedoria.

E o "espírita", o que acha de sua situação? Fala-se tanto, na ideologia moralista, que o problema sempre está no "eu" e não no "outro". Mas o "espírita", como todo moralista religioso que é, deve se lembrar que, no seu discurso, ele é o "eu". Ele não pode mascarar seu discurso com falsa impessoalidade, porque ele é o que justamente será cobrado pelas cobranças que faz dos outros, muito mal disfarçadas pelo balé de palavras lindas e bondosas.

O "espírita" fala que o sofredor não está na Terra por turismo. E o "espírita", no seu turismo? Excursiona por várias cidades brasileiras, e em muitos casos ao redor do mundo, colecionando medalhas, condecorações, ganhando rios de dinheiro - que jura se destinarem "à caridade" e à "saudável sobrevivência biológica do 'espírita'" - e fazendo palestras para gente rica e esnobe.

O "espírita" fala que o sofredor tem que abrir mão de desejos, de necessidades, até de sua individualidade e seus talentos. Em certos casos, chega a dizer: "que mal tem um professor se vai passar o resto de seus dias como flanelinha de rua?". O "espírita" ignora que muitos planos de vida abortados pelo sofrimento insolúvel não foram feitos no capricho das fantasias infantis nem nos devaneios da luxúria e da fortuna, mas a custa de desilusões ou problemas mais antigos.

Fica fácil o "espírita" dizer a alguém com talento: "é isso que você realmente quer fazer?". Ou ao pobre rapaz que encontrou uma mulher de sua afinidade (não se diz paixão, mas afinidade de ideias, temperamentos etc) "quem imagina se essa mulher não é fonte de luxúrias extremas e perigosas?".

É muito fácil manejar as palavras, transformando perigos em benefícios e vice-versa. O "espírita" podia muito bem se referir à mulher-fruta e ex-mulher de perigoso miliciano como a "moça ideal" para rapazes modestos namorarem: "e quem não sabe que a pobre mulher que exibe seus glúteos aos olhos da plateia não faz isso para sustentar sua mãe e seus irmãos?".

No caso do ex-marido ameaçar o rapaz, o "espírita", meio "amigo da onça", pode dizer: "nada que o perdão e o diálogo não resolvam". O duro é promover o diálogo entre a palavra de um aflito assustado e o cano do revólver daquele que o ameaça. Mas para os "espíritas" a vida material não tem valor, uma visão materialista por crer ser inútil interferir na matéria bruta, e se o pobre rapaz morrer será "um anjo no caminho, ainda que longo, para o Céu".

E o "espírita", que vive os gozos mundanos da consagração religiosa, de uma ilusão materialmente construída de uma pretensa superioridade moral, através do respaldo de multidões seduzidas pelo espetáculo das palavras bonitas, o que dizer da necessidade de abrir mão dos desejos, muito mais ambiciosos do que ele próprio pode imaginar?

Ele tem um desejo mais abstrato e leviano que os que julga dos sofredores. O "espírita" que organiza seu balé de palavras quer o "Céu", se não de maneira apressada, mas pelo caminho menos longo possível. Ele se preocupa em multiplicar seus textos ilustrando-os com paisagens floridas, crianças sorridentes e pessoas olhando para o alto sorridentes e de braços abertos.

Ele se apressa em multiplicar os textos, se esforçando em ficar sempre com a razão nos argumentos. Procura sempre remodelar sua palavra, inicialmente dada num moralismo mais cru, tentando cozinhar com discursos benevolentes feitos para neutralizar o questionamento alheio e permitir que o próprio "espírita" fique com a posse da verdade, de forma a fazer crer que a desgraça que ele pregava era na verdade uma "pequena gincana" para obtenção "fácil" de "bênçãos futuras".

E o "espírita"? Ele não parou para pensar no conteúdo que ele prega? Que o "espiritismo" brasileiro foi construído pelos postulados de Jean-Baptiste Roustaing e depois mascarados por traduções deturpadas dos livros de Allan Kardec? Que o "espiritismo" brasileiro não passa de uma repaginação do velho Catolicismo medieval do Brasil-colônia trazido por jesuítas, no qual a novidade trazida por Kardec não passa de uma fachada novidadeira para algo velho e mofado?

E quanto aos desejos? Há garantia que o "espírita", no retorno à "pátria espiritual", gozará de tão esperada plenitude, se não ingressando imediatamente ao "banquete dos puros", mas ao menos reduzindo o trajeto para o Céu, sob a desculpa, carregada de falsa modéstia, de que "ainda tem muito o que fazer pelo próximo"?

Será que o "espírita" quer mesmo ir ao Céu? E o que ele realmente sabe do mundo espiritual? Kardec disse que era impossível, no tempo dele, supor o que seria o mundo espiritual. E, hoje, com o legado kardeciano empastelado por um roustanguismo mal fantasiado de "kardecismo autêntico", a atividade mediúnica empacou no faz-de-conta misturado com propagandismo religioso e o mundo espiritual se limitou à ficção em tons fabulosos do Nosso Lar.

E o que o "espírita" entende por sofrimento? Ele não imagina que planos de vida não são feitos por fantasias de infância? Que talentos e habilidades que foram comprometidos por infortúnios não foram desenvolvidos do nada, mas muitas vezes por antigos sofrimentos e impedimentos?

Para o "espírita", tanto faz que o sofredor seja um brinquedo das adversidades. No seu juízo de valor, o "espírita" cria um malabarismo de palavras para dizer ao sofredor se reinventar, deixar de ser o que é, afinal, o "espírita" adora pregar o mito do "auto-combate", a falácia do "inimigo de si mesmo".

E o "espírita"? Até quando ele é duramente questionado, ele não está na arena dos leões. Dentro do conforto do seu quarto, ele se vê desqualificado apenas por argumentos e não ameaças. Mesmo assim, ele investe no vitimismo na tentativa desesperada de recuperar a posse da palavra final.

O "espírita" não imaginou se caso viajar para Lyon, entrando num congresso da verdadeira Doutrina Espírita, ele possa ser desqualificado por alguém que o acusasse de ser "católico enrustido" e o mandasse viajar para o Vaticano. Ou será que os kardecianos aceitariam o papo mole dos "espíritas" brasileiros acharem saudável a "catolicização" sob a desculpa da "afinidade com os ensinamentos cristãos"

Hoje vemos os tempos em as pessoas com maior status quo estão cometendo mais erros, vários deles gravíssimos, preocupantes e vergonhosos. Embora tenhamos o cenário em que as forças dominantes retomaram o poder e buscam manter privilégios, nota-se seu esgotamento e seu perecimento acelerado, o que mostra que nem o prestígio religioso protege as pessoas. O tempo mostrará o quanto o lado de cima da pirâmide social sofre um rápido estado de decomposição.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

A pós-verdade é a doença do século XXI?


Diante de episódios um tanto bizarros como a rejeição dos colombianos à proposta, lançada em plebiscito, de acordo de paz entre o governo e os guerrilheiros da FARC, a saída da Grã-Bretanha da União Europeia e a vitória eleitoral de Donald Trump, contrariando todas as perspectivas da eleição de Hillary Clinton para a presidência dos EUA, temos um fenômeno surreal em andamento.

É a pós-verdade, palavra que se tornou o verbete do ano pelo conceituado dicionário Oxford (em inglês, post-truth), que consiste na prevalência de ideias com maior apelo emocional do que com outras relacionadas a fatos objetivos, ainda que ocultos pelo jogo de aparências.

Isso faz com que as pessoas deixem de acreditar na Justiça de forma objetiva e imparcial, ou mesmo em valores morais e sociais diversos, preferindo a seletividade dos privilégios pessoais, do misticismo agradável, de visões estereotipadas que prevalecem sobre visões realistas e tudo o mais.

As pessoas abrem mão até de suas necessidades reais, movidas pela catarse e pela idolatria a totens e dogmas diversos. Preferem ser prejudicadas em prol de um virtual benefício que elas não sabem o que é, e que mais parece um espetáculo do que realmente alguma coisa benéfica.

As pessoas movidas pelo espetáculo, pelo sensacionalismo, pelo consumismo, são movidas pela publicidade e pelo noticiário faccioso, que as estimula a veicular ou acreditar em mentiras difundidas pelas mídias sociais. E as mídias sociais agora têm na própria grande mídia como "concorrente" na veiculação de mentiras e notícias falsas.

O Facebook quer coibir a divulgação de notícias falsas? É justo, mas no entanto tem-se a Veja que, impunemente, publica mentiras cabeludas sobre Lula, como a suposta fuga para a Itália. E há ainda os catárticos canais do YouTube que, "jornalisticamente", inventam que o ex-presidente teria feito um plano para matar o juiz Sérgio Moro, tido como "vítima" de um "atentado a tiros" que nem a Globo noticiou.

A pós-verdade virou a supremacia da catarse sobre a sensatez, que faz com que pessoas tenham uma compreensão tão atrofiada da realidade que em muitos casos, para fazer prevalecer seus pontos de vista, lançam mão de blogues ofensivos que acabam tendo o maior cartaz...na Polícia Federal.

"ESPIRITISMO" BRASILEIRO: PIONEIRO NA PÓS-VERDADE?

A supremacia da pós-verdade tem como um dos exemplos pioneiros o "movimento espírita". O fenômeno de Francisco Cândido Xavier é o símbolo maior da pós-verdade, e seus seguidores, quando colocam a fé e o misticismo, sob a desculpa do "amor" e da "bondade", acima da lógica e do bom senso, comprovam isso.

As pessoas estão enfeitiçadas pela figura religiosa de Chico Xavier e seus estereótipos ligados a um caipira "frágil" que se tornou "velhinho doente" e de sorriso "triste". Elementos que despertam o apelo emocional, o argumentum ad passiones que consiste numa das mais perigosas e persistentes falácias usadas para convencimento das multidões.

"Espíritas" chegam mesmo a mostrar descaso com a irregularidade das obras "psicográficas", que destoam dos aspectos pessoais dos mortos a que se atribui autoria, e acham que "tudo é válido" por causa da risível ideia da "mensagem universal do amor". Não medem escrúpulos em colocar o "amor" a serviço da desonestidade doutrinária de obras que contradizem, em muitos aspectos, os postulados originais de Allan Kardec.

A carteirada moral de dizer que "Chico Xavier e Divaldo Franco erraram, mas ajudaram muita gente" é uma demonstração de pós-verdade. Essa "ajuda" nunca teve comprovação de uma quantidade expressiva de beneficiados, e essa "caridade" associada aos dois festejados anti-médiuns é uma grande falácia pois, se fossem verdade, nosso Brasil teria ingressado ao Primeiro Mundo há muito mais tempo.

A pós-verdade, neste caso, revela o domínio do sentido ligado ao deslumbramento da fé e ao prestígio religioso. Pouco importam se os resultados da suposta filantropia são ínfimos. A grandiloquência simbólica do ídolo religioso vale em si, como nas declarações do procurador Deltan Dallagnol: "não temos provas, mas temos convicções".

É a tese do "domínio do fato" deturpada dos conceitos originais do jurista alemão Claus Roxin pelas mãos da Operação Lava Jato, para a qual o combate ao PT dispensa provas rigorosas e consistentes. O "domínio do fato" acaba sendo distorcido como um "domínio da suposição", como a prevalência do palpite sobre a investigação, da impressão sobre a análise.

No "espiritismo", a situação vai em direção contrária ao que se faz contra o PT. Se Dilma Rousseff e Lula são vistos como "criminosos" apenas pelo senso especulativo e catártico da pós-verdade de seus oposicionistas, Chico Xavier e Divaldo Franco são "santificados" por muito poucas virtudes, talvez quase nada, muito mais pelo carimbo religioso do que pela qualidade de seus atos, muitas vezes de valor ético bastante duvidoso.

A pós-verdade é um grande perigo e uma súbita ameaça num mundo que, no decorrer do século XXI, esperaríamos que fosse mais esclarecido. A pós-verdade é o obscurantismo pós-moderno, em que pessoas chegam a ameaçar outrem para impor suas convicções e manter os velhos dogmas e totens intatos, mesmo quando apodrecidos, decadentes e obsoletos.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O Brasil em insegurança jurídica e política


O Brasil se encontra numa situação altamente vulnerável. Um golpe político trazido pela retomada autoritária e ultraconservadora de setores sociais representados pelo Poder Judiciário, Ministério Público, Poder Legislativo e pela grande mídia, traz uma roupagem de legalidade democrática que não se observa na prática.

O chamado "pacote anticorrupção", por exemplo, embora sinalize uma aparente esperança de fechar o cerco à corrupção política e administrativa, traz como grande erro a falta de debate com a sociedade e, entre outros equívocos, o de evocar "velhos fantasmas" da ditadura militar, como o fim do habeas corpus e da presunção de inocência, além de admitir provas ilícitas para investigação de esquemas de corrupção.

Isso acontece juntamente com propostas de crescimento econômico que nunca atingirão essa meta. A PEC do Teto, ou PEC dos Gastos Públicos, que havia sido a PEC 241 na Câmara dos Deputados e virou PEC 55 no Senado, propõe cortes ou congelamento de investimentos nos setores públicos, o que ameaça uma surpreendente porção de atividades ligadas à Educação e à Saúde e a uma série de benefícios previdenciários que serão também ameaçados pela reforma previdenciária.

O Brasil passa por um período de obscurantismo social nos últimos seis meses. Empresários que deveriam ser processados e presos por promover trabalhos análogos à escravidão estão impunes e ainda dão entrevistas defendendo esse padrão de trabalho como se fosse "necessário" para disciplinar as classes trabalhadoras e equilibrar os orçamentos e os salários. Tudo falácia, mas é aplaudida de pé por setores reacionários da sociedade que de repente voltaram a estar em alta.

A situação é típica de uma obra do surrealismo literário. Há uma catástrofe política, econômica e social em andamento e as pessoas estão tranquilas e felizes. Os políticos que retomaram o poder à força, destituindo Dilma Rousseff sem motivos concretos e comprovados, acumulam escândalos gravíssimos (repetindo: GRAVÍSSIMOS) e tudo fica nisso mesmo, com eles comandando o processo político, sob o apoio não só resignado mas esperançoso de setores influentes da sociedade.

O Brasil está numa situação extremamente delicada. A Justiça representada pelo Poder Judiciário e Ministério Público mostra sua prepotência, seu autoritarismo e sua interpretação parcial - tanto no sentido incompleto quanto na seletividade social - , o Legislativo corrupto fingindo "transparência e competência" e a grande mídia divulgando mentiras e praticando sensacionalismo barato, deveriam trazer aflição extrema para as pessoas.

Quem entende a situação compara o atual momento do país como um avião de passageiros onde ocorre uma briga violenta na tripulação dentro da cabine de comando. É como se dentro desta cabine piloto, co-piloto e comissários de bordo trocassem socos, pontapés e seus corpos se esbarram nos painéis, manipulando os botões de forma aleatória e acidental.

O país está sob sério risco e as pessoas vão para as praias e praças felizes trocar piadas umas com as outras. Famílias pedindo para filhos serem mais simpáticos e sorridentes para as pessoas. Gente indo para shoppings, lanchonetes, boates como se vivessem o melhor dia de suas vidas, quando a catástrofe deixa o país em situação imprevisível.

Há uma série de retrocessos que lembram o começo da ditadura militar, entre 1964 e 1966. Há crises que lembram o colapso econômico de 1974-1985. A violência dos assaltos, o feminicídio e o crime organizado, lembram os períodos mais sombrios dos anos 1970 e 1980, retomando a convulsão social que dizima muitas pessoas, independente de classe econômica e social.

Querer bancar o "perseverante" e o "otimista" diante de um período desses, fingindo admitir que o caos existe mas "tudo vai melhorar em seguida" é muito perigoso. A manutenção desse cenário calamitoso não vai representar um céu de brigadeiro posterior a uma tempestade de intensas trovoadas, chuvas fortes e vendavais. É mais fácil as tormentas se seguirem a um terremoto devastador.

Talvez seja hora das pessoas começarem a questionar as estruturas de status quo viciadas que dominam o país e que não largaram o poder mesmo nos 13 anos de governos do PT. Hora de questionarmos a tecnocracia, a gerontocracia, a burocracia, o machismo, o patriarcalismo, o prestígio religioso, o poder da grande mídia etc.

É a partir dessas "cracias" e "ismos" que estão as estruturas arcaicas cuja podridão deverá ser combatida e não preservada. A sociedade deverá abrir mão dos velhos tesouros para salvar a humanidade, questionando o abuso das leis, do poder, da fama, do dinheiro, da técnica ou mesmo da fé religiosa. Derrubar totens antes tidos como unanimidades, se preciso. Abrir mão de velhos tesouros que perderam o valor, antes que os brasileiros paguem o preço caro demais pelo doentio apego.

domingo, 20 de novembro de 2016

O que é ser um suposto espírita no Brasil?


O que é ser espírita no Brasil? Dentro da supremacia da roustanguista FEB, oficialmente é "a melhor das coisas", admitindo o mundo espiritual, a vida após a morte e as lições de fraternidade cristã com maior transparência e espontaneidade. É o que muitos entendem, mas a realidade desmente tudo isso.

Ser um suposto espírita no Brasil, um "espírita" catolicizado, é na verdade ser pedante em tudo. Pois o que vemos no "movimento espírita" não são apenas católicos envergonhados, com mais medo de batinas e igrejas revestidas de ouro do que da morte, mas um ajuntamento de incompetentes de toda espécie.

Pelo que se observa, o "espiritismo" brasileiro não é a "religião da bondade" - devemos nos lembrar que bondade não tem religião, não pode ser subproduto da prática religiosa - , mas a "religião da mediocridade". Ela reúne pessoas medíocres em suas habilidades, que querem ter um lampejo de genialidade se apoiando numa seita religiosa que trouxesse, em tese, um caminho curto para o céu.

São cientistas de terceira categoria que se apoiam no "espiritismo" para nele inserir teses esotéricas, misturar um cientificismo bastante confuso, irregular e equivocado, uma compreensão malfeita de conceitos de Física e Química misturadas com devaneios astrológicos e uma Psicologia de clínicas clandestinas, criando um engodo que promete a salvação plena da humanidade.

No mesmo caminho vão os filósofos frustrados, com medo de analisar profundamente os problemas metafísicos, mas habilidosos em criar um malabarismo retórico, de palavras muito bem arrumadas, também misturando cientificismo confuso e misticismo esotérico, mas criando uma verborragia pseudofilosófica que mais parece ter sido tirado de algum stand up comedy que parodiasse a Filosofia.

Há também professores frustrados, incapazes de trazer um ensinamento aprofundado, que se valem de uma oratória hábil e envolvente, bela no aparato de palavras, na beleza dos vocábulos apresentados, no desfile de ideias agradabilíssimas, no nivelar das entonações dramáticas, no simulacro de saber enciclopédico. Temos exemplo disso, Divaldo Franco, com sua retórica organizada a embelezar um vazio de ideias.

Há católicos frustrados, beatos de crenças ortodoxas e até medievais, que parecem ser os primeiros a experimentar os rituais católicos dos tempos do imperador Constantino, mas que de repente passaram a se entediar com o senta-e-levanta das missas em latim e com o luxo extremo das batinas dos padres e sacerdotes e ainda tem hábitos estranhos como a paranormalidade.

Esse também temos exemplo: Francisco Cândido Xavier. Sim, o Chico Xavier tão associado erroneamente ao espiritismo autêntico - na ingenuidade de muitos quererem recuperar as bases kardecianas mantendo Chico e Divaldo no pedestal - , sempre foi um católico de crenças ortodoxas e medievais, que apenas foi excomungado porque afirmou se comunicar com a mãe e com o espírito de um padre jesuíta muito conhecido em nossa História.

Mas há também romancistas e novelistas frustrados, cujo caminho para a Academia Brasileira de Letras é praticamente uma ilusão impossível de ser realizada, com romances medíocres e, em muitos casos, confusos e com erros historiográficos risíveis. O próprio Chico Xavier teria sido um pioneiro nessa baixa literatura, apenas esforçada no desfile de palavras pomposas.

Mas não faz mal. Com uma disposição para a caminhada, pode-se andar em direção à Cinelândia, percorrer o Largo da Carioca e daí se dirigir por uma rua, também chamada de Carioca, indo para a Praça Tiradentes em direção ao Teatro João Caetano e daí seguir o mesmo lado da calçada, pela Avenida Passos, em direção à Federação "Espírita" Brasileira, de braços abertos para acolher escritores frustrados, que só precisam de uns procedimentos muito simples.

O procedimento é o uso de um pseudônimo, inventado ou retirado de algum famoso falecido (tomando cuidado para não arranjar problemas com herdeiros), e a temática pode girar em romances cotidianos quaisquer, mas desde que terminassem com alguma lição moralista voltada para princípios religiosos.

Ser "espírita", portanto, é ser um nada querendo ser tudo. É levar zero em Física e Química na escola ou na faculdade e ser "cientista" com essas compreensões erradas nos artigos escritos em publicações "espíritas".

É levar pau em Redação e em Oficina Literária e "brilhar" na literatura "espírita". É ser um péssimo filósofo e falar em "Filosofia" em palestras "espíritas", criando um engodo verborrágico que nada tem de busca pela verdade de tão confuso, contraditório e fantasioso que é. É ter medo de ser padre católico e desempenhar este mesmo trabalho na condição de "médium espírita", aproveitando seu pedantismo intelectual para bancar o dublê de pensador e conselheiro moral.

Não por acaso os juízes, pelo jeito "ancestrais" de Sérgio Moro e Gilmar Mendes, que por omissão deixaram passar, em 1944, a farsa do falso Humberto de Campos dos livros publicados por Chico Xavier, sentiram a "sintonia energética", eles que tiveram sua incompreensão com a questão jurídica mais óbvia, a de que a obra "espiritual" destoa severamente do estilo do autor maranhense, cabendo invalidá-la e processar os responsáveis (Chico e a FEB) por falsidade ideológica.

O "espiritismo" brasileiro, portanto, é um reflexo da mania de uma boa parcela de brasileiros de mascarar ideias velhas com rótulos novos, no caso o Catolicismo medieval e jesuíta, descartado por correntes modernas da Igreja Católica após o fim do Segundo Império, mascarado pela Doutrina Espírita. Sempre uma novidade lapidada para não ofender um conjunto de ideias obsoletas que, em vez de serem rompidas, são adaptadas ao contexto da aparente novidade.

Do mesmo modo, o "espiritismo" brasileiro também reflete o pretensiosismo de parte dos brasileiros, em dissimular ideias conservadoras em geral, em querer ficar com a última palavra, em abraçar ideais moralistas, em se julgar especialista naquilo que não compreende bem, é dissimular seu pedantismo usurpando e deturpando os melhores conceitos, é se autopromover às custas do que os verdadeiros pensadores dizem e distorcer o sentido de suas mensagens.

O "espiritismo", portanto, é produto desse modelo velho e desgastado de sociedade brasileira, que aposta seu último apelo através do governo de Michel Temer, que oferece uma agenda reacionária que expressa o último recurso de velhas elites recuperarem ou manterem seus privilégios e tradições em processo de perecimento.

Com toda a certeza, o "espiritismo", por simbolizar esse Brasil velho e viciado, comprovou ser incapaz de ser uma doutrina espiritualista de vanguarda, por não esconder aspectos de religiosidade antiquados dignos dos tempos do Brasil colonial.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Invasão de fascistas na Câmara dos Deputados é alerta para o Brasil


Na tarde do último dia 16, um grupo de mais de 800 manifestantes chegou em Brasília e 50 deles invadiram o plenário da Câmara dos Deputados - um deles conseguiu passar pelos detectores de metais, porque portava um revólver - para atrapalhar os debates sobre o "pacote anti-corrupção" na referida casa do Legislativo.

Eles derrubaram vidros, agrediram seguranças e outras pessoas à frente, e, gritando louvores a Sérgio Moro, pediam a chegada de um general ao local e reivindicavam intervenção militar no país. Estúpidos e agressivos - embora vários de seus integrantes sejam gente adulta que deveria ter consciência de seus atos - , eles ainda cometeram gafes, como uma delas definindo o Japão como "país comunista", quando o país é um dos que levam o capitalismo às últimas consequências.

São pessoas que usam os mesmos argumentos da extrema-direita. Fascistas, eles queriam a volta da ditadura militar, se servindo do eufemismo "intervenção" para definir o golpe. Se dizem "sem organização definida", mas foram financiados por um empresário que bancou a excursão e a permanência dos "ativistas".

Eles são a facção extrema dos manifestantes que pediam o "Fora Dilma" até pouco tempo atrás. Estão insatisfeitos com os retrocessos sinalizados pelo governo de Michel Temer - que defende a chamada PEC do Teto ou PEC dos Gastos Públicos (que foi PEC 241 e hoje é PEC 55) para reduzir drasticamente os investimentos para a Educação, Saúde e Asistência Social, deixando o Brasil à penúria - e querem um governo ainda mais autoritário e elitista.

Os invasores chegaram a serem detidos, mas foram liberados. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), condenou a invasão de defendeu a prisão dos delinquentes, mas tudo ficou nisso mesmo. A grande mídia reacionária se esqueceu que influenciou os invasores por causa das campanhas de ódio anti-PT de tempos atrás e "condenou" a invasão.

QUAL A ÓTICA "ESPÍRITA"?

O episódio serve de alerta para o crescimento de movimentos fascistas no Brasil, algo que não deve ser visto como uma brincadeira de moleques provocadores. Em Niterói, já foram vistos colados nas paredes de locais públicos panfletos de uma tal "International Klans", que pode ser um grupo fascista nos moldes da Klu Klux Klan que atua clandestinamente no Brasil.

A ação de "fascistas mirins" e os atos de intolerância social, seja por trolagem ou cyberbullying, além de ações racistas e machistas - recentemente voltou a onda de feminicídios de motivação conjugal - chama a atenção de um cenário sombrio que as pessoas não podem subestimar como sendo casos isolados ou ações extremas de poucas pessoas.

A situação do Brasil está absolutamente vulnerável, diante de uma Justiça seletiva, uma mídia mentirosa e uma classe política sem a menor confiabilidade. E um governante como Michel Temer, que chega a financiar jantares caros (usando dinheiro público) para pedir aos parlamentares o apoio à PEC que irá cortar os gastos públicos, quando estes se voltam para o interesse público. Para os ricos, tudo, para os pobres, nada!

O "espiritismo", desnorteado, não assume formalmente posição alguma, mas sinalizou apoio implícito ao governo de Michel Temer. Um sem-número de artigos e palestras pedia para pessoas que tivessem algum sofrimento ou dificuldade na vida aceitarem desgraças e infortúnios, abrindo mão de desejos e necessidades e vivendo "conforme o possível". Parecem falar da PEC do Teto, chamada de PEC do Fim do Mundo ou PEC da Morte (seria PEC do Além-Túmulo para os "espíritas"?).

O reacionarismo "espírita" já é conhecido pelas bases roustanguistas originais, e pelas posturas ultraconservadoras de Francisco Cândido Xavier, um católico ortodoxo, de ideias medievais e moralismo retrógrado, mas transformado em um semi-deus por causa das manobras da FEB e do apoio da grande mídia patronal.

Quem não se lembra da edição especial do programa Pinga Fogo, da TV Tupi de São Paulo, que no final de julho de 1971 mostrou um Chico Xavier defendendo a ditadura militar, que vivia sua fase ainda mais cruel, pedindo para que "orássemos pelos generais", porque eles "estavam construindo o reino de amor do Brasil futuro". Reino de amor? Com o sangue de muitos inocentes assassinados?

Recentemente, o "médium" Robson Pinheiro, um dos mais festejados do mercado literário atual, lançou livros como O Partido - Projeto Criminoso de Poder e A Quadrilha: Foro de São Paulo, que tentam justificar o anti-esquerdismo doentio do autor (que usa o nome do suposto espírito Ângelo Inácio) pela "influência dos planos espirituais". O conteúdo "coxinha" das duas obras não faria feio se lançadas, em capítulos esparsos, como folhetim nas páginas da revista Veja.

Corroborado pelo "Correio Espírita", o reacionarismo de Robson definiu as passeatas anti-PT como "libertadoras" e como "despertar da juventude" por um "novo Brasil", supostamente atendendo às recomendações de "benfeitores espirituais". O "movimento espírita" chegou a festejar tais passeatas como se fossem o "começo de uma fase de regeneração do Brasil", o que é uma incoerência.

Afinal, as passeatas foram movidas pelo ódio nas redes sociais. Um dos grupos organizadores tem o nome de Revoltados On Line (o "espiritismo" diz condenar a revolta). Nas passeatas, havia gente exibindo símbolos nazistas, pedindo a tal "intervenção militar", rogando para que esquerdistas fossem mortos e havia até mesmo um grupo de rapazes que baixou as bermudas, exibindo grotescamente seus glúteos ao ar livre, sem ter escrúpulos com o ridículo de seus atos.

É com base nessas manifestações de "libertação" e "regeneração" que se diz "intuída por espíritos superiores" que um grupo de pessoas praticou vandalismo e truculência e invadiu a Câmara dos Deputados pedindo a volta da ditadura militar. Gente movida por ódio estúpido e patético, contrariando as perspectivas dos "espíritas".

Isso é terrível e mostra que o Brasil não retomou a "normalidade institucional". Pelo contrário. Desde maio o Brasil está extremamente vulnerável, como um trem bala sem freio descendo uma ladeira e tendo perdido seu condutor. A retomada ultraconservadora revela tempos ainda mais obscuros, a não ser que haja um freio para conter essa multidão que pede retrocessos diversos para o país. É melhor que ocorra algo contra isso, antes que seja tarde demais.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Brasil virou a ditadura das desculpas


Sabe-se que no Brasil as forças sociais mais retrógradas, dos mais diversos tipos, retomaram o poder, tanto pela capacidade de articulação e sustentação quanto pela capacidade de usar desculpas nobres para atitudes mesquinhas.

Isso não indica que as forças retrógradas estão sintonizadas com os novos tempos ou que elas dispõem de uma visão objetiva que é necessariamente garantida por diplomas, dinheiro, fama, poder ou um simples acúmulo de anos de vida. Pelo contrário. É nessas pessoas que o perecimento social e moral se torna ainda mais aberrante, e o que lhes salva são as desculpas habilidosas dadas.

Se vê desculpa pronta para tudo. Até nas redes sociais, os midiotas costumam ter uma justificativa pronta para as piores aberrações. Em muitos casos, porque "não é lá aquela maravilha, mas é melhor do que nada", "melhor isso do que aquilo" ou "até que está bom demais, pensando bem".

Todos querem bancar os "intelectuais" e "filósofos" para atender suas vaidades e ignorâncias pessoais. E na sociedade que recuperou o poder à força, nos últimos meses, tentando fazer o Brasil voltar para trás - o governo do presidente Michel Temer lembra o do general Ernesto Geisel só que caminhando para trás, em direção a Médici e ao começo do AI-5 - , apela para todo tipo de justificativa para sustentar as piores coisas com as melhores argumentações.

O Brasil está caótico, decadente, mofado, e as forças retrógradas diversas, que incluem de racistas a obscurantistas religiosos, tentam manter a supremacia que nunca foi eliminada completamente. Viviam num mundo paralelo que agora querem impor até mesmo à própria realidade, se preciso atropelando a ética, a lógica, as leis, a justiça social e a todo tipo de coerência.

Mais do que em outros tempos, que permitiam voos mais conservadores, hoje as elites perderam o medo de "chutar o pau da barraca". Uma imprensa que mente, um Judiciário que manipula as leis em causa própria, uma religião como o "espiritismo", que já faz apologia ao sofrimento humano e apela para os sofredores se conformarem com as próprias desgraças, e até pais de família que já não querem que os filhos vençam na vida, mas que apenas enfrentem sacrifícios.

Isso virou uma coisa surreal, e até a ex-presidenta Dilma Rousseff viveu um drama típico de um livro de Franz Kafka. Assim como, em O Processo, Josef K era processado sem crime, Dilma foi processada e perdeu o poder sem ter cometido crime algum, seu "crime" não passou de acusações levianas e sem provas tomadas como "verdade absoluta" mediante paixões políticas nem sempre claramente assumidas.

O balé das palavras bem organizadas faz com que ignorantes se autoproclamem "inteligentes", mentirosos digam "falar a verdade", corruptos de direita (que nunca são devidamente punidos) se julgarem "honestos", pessoas rasgarem as leis dizendo que as "respeitam", pais de família usarem o acúmulo de anos para dizer que "estão sempre certos" e religiosos ficarem sempre com a última palavra quando são acusados de mistificação.

Isso para não dizer sobre latifundiários que matam agricultores sob a desculpa da "defesa da propriedade" (em muitos casos, fazendas improdutivas que só servem como fortuna simbólica) ou machistas que matam suas esposas só porque elas pediram divórcio alegando a famosa "legítima defesa da honra".

Esse mundo está em sério perecimento mas as pessoas não querem que ele apodreça. É como um cadáver em estado de decomposição que as pessoas lutam para manter vivo. E isso só não parece inquietar as pessoas porque a retomada ao poder lhes dá uma aparente serenidade sustentada por velhas reputações de status quo, das mais diversas, sustentadas por uma bela retórica.

O que se observa é que nesta ditadura das desculpas as pessoas sempre usam alegações das mais nobres para defender causas, ideias ou práticas de valor duvidoso ou que não são tão benéficas quanto se parece. Pessoas que usam a idade, o dinheiro, a fama, a etnia, o diploma, o prestígio religioso, para se protegerem do risco de nem sempre estarem com a razão, de perder a posse da verdade a que se achavam predestinados.

É claro que, no discurso dos que se acham "donos da verdade", ninguém confessa abertamente tal condição. Mas o modo com que tentam argumentar revela a preocupação, sim, de ficar sempre com a verdade, por mais que tente desmentir tamanha pretensão.

Falam da "experiência de vida", da "formação acadêmica", da "tradição familiar", dos "votos dos eleitores", do "sucesso merecido" e até do "vínculo com Deus", numa luta desesperada para fazer prevalecer seus pontos de vista, por mais antiquados que sejam.

O problema é que hoje o Brasil, num rumo imprevisível para todo mundo, as pessoas com maior status quo é que estão vendo seu "mundo" ruir e, apenas por um breve período, conseguem segurar a queda de valores ultrapassados com a recente retomada do poder, em que ideias retrógradas retomam a vigência até pelo aparente apoio juvenil.

Mas, como um armário do alto da parede que está ruindo e cujo conteúdo cai pelo natural efeito da gravidade, a plutocracia brasileira perderá o controle de sua decadência, quando a aliança da grana e dos artifícios jurídicos sustentada por uma boa retórica for insuficiente para fazer prevalecer a validade de ideias, procedimentos e valores que se revelarão claramente ultrapassados.