sábado, 11 de novembro de 2017

João Dória Jr. "entregou" Divaldo Franco e o Você e a Paz no caso da "farinata"


Uma boa pauta foi perdida pela mídia alternativa, que geralmente traz questionamentos aprofundados sobre alguns fenômenos sociais, culturais e políticos apoiados pela mídia hegemônica e pelas forças políticas dominantes.

Ninguém observou o quanto o "espiritismo" brasileiro também tem responsabilidade no lançamento de um engodo alimentar condenado pelos movimentos sociais e por entidades nutricionais e de saúde pública mais sérias.

A participação de Divaldo Franco e do Você e a Paz no lançamento oficial da "farinata", tão questionada e denunciada pelas forças progressistas, poderia ser muito bem analisada pela mídia alternativa. Por que ela não fez? Porque imagina o "espiritismo" pela combinação de cenários fabulosos de contos de fadas e crianças pobres sorridentes? Já não basta a complacência das esquerdas ao "funk", um subproduto cultural da mídia hegemônica?


As imagens que aqui publicamos mostram que o prefeito João Dória Jr. "entregou" o Você e a Paz, atribuindo a ele o evento de lançamento oficial do programa "Alimento para Todos", que inclui a "farinata". Apesar de ser um alimento já previamente condenado pelos movimentos sociais e por diversas entidades conceituadas de nutrição e saúde pública, o prefeito de São Paulo veio com essa conversa para boi dormir, a partir desse relato, que não condiz à realidade.

O relato faz parte do vídeo divulgado na própria página do prefeito, no Twitter, e aqui reproduzimos abaixo tudo o que ele havia dito no vídeo de lançamento, algo que não tem base científica e que contraria os princípios do Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, que não recomenda alimentos processados como prioridade para alimentação saudável, mas alimentos em condição mais próxima do que é encontrado na Natureza. Vejamos o que Dória disse:

"Este é o Alimento para Todos. Aqui você tem alimentos que estariam sendo jogados no lixo e que serão reaproveitados com toda a segurança alimentar. São reutilizados e transformados em alimento completo em proteínas, vitaminas e sais minerais. E, a partir deste mês de outubro, começa a sua distribuição gradual por várias entidades do terceiro setor, igrejas, templos, sociedade civil organizada, além da prefeitura de São Paulo, para oferecer às pessoas que têm fome. Em São Paulo, inicialmente. Depois, em todo o Brasil. Este é um produto abençoado".


Depois disso, aparecem várias cenas. O prefeito de São Paulo aparece distribuindo o alimento para as pessoas presentes, que parecem "adorar" o alimento, sendo visto um rapaz fazendo com o rosto um "gesto de satisfação". "Parece biscoitinho de polvilho. Você já pegou?" pergunta o prefeito a uma outra pessoa.

O fato de parecer "saboroso" para uns - isso num país em que a maioria da população adora uma bebida amarga como a cerveja - não garante o valor nutritivo. Nem sempre o mais agradável é o mais proveitoso, e o alimento, sem informações nutricionais conhecidas, pode ser nocivo se usado na rotina alimentar das classes populares.

No decorrer do vídeo, aparecem cenas do evento e, em algumas imagens, se observa Divaldo Franco ao lado dos presentes. Depois de um mês de ocorrido, Divaldo e o Você e a Paz não processaram João Dória Jr. pelo vínculo de imagem. Além disso, Dória poderia ter evitado usar a camiseta, indo de terno sem gravata para o evento, poupando a associação.

Isso tudo diz muito ao vínculo de imagem do Você e a Paz e do nome de Divaldo Franco na "farinata". O evento foi o lançamento oficial do produto. Várias fotos foram divulgadas na imprensa. A camiseta e o nome de Divaldo aparecem em destaque em várias delas. É surpreendente o silêncio de jornalistas, mesmo os de esquerda, em relação ao episódio.

A culpa não é de nós, críticos da deturpação do Espiritismo, por chamar a atenção a esse episódio. Da mesma forma que um faxineiro não pode ser culpado pela sujeira que encontra, um crítico da deturpação do Espiritismo não pode ser acusado de "intolerância religiosa" à figura pessoal de Divaldo Franco. Estamos apontando um episódio e, infelizmente, um "médium" tão adorado por muitos consentiu em apoiar abertamente o lançamento de um produto de valor duvidoso.

O crédito do nome do "médium" e do logotipo do evento - na verdade, uma versão paulista do evento cuja matriz é em Salvador, com um encontro previsto para o próximo 19 de dezembro - não são casuais nem coincidência. Tudo teve um propósito e, diz a regra da Publicidade, houve vínculo de imagem do Você e a Paz e de Divaldo Franco a um alimento considerado por especialistas uma "ofensa à dignidade humana".

Ignorar isso é contrariar a lógica e o bom senso. Mas se a mídia de esquerda se silenciou quanto a isso - ela preferiu "agigantar" a figura de outro apoiador, o arcebispo católico dom Odilo Scherer, da Arquidiocese de São Paulo, como único religioso "culpado por apoiar a farinata" - , ela perdeu uma boa oportunidade de investigar os aspectos sombrios do "espiritismo" brasileiro, religião oficialmente associada a uma imagem supostamente "sóbria" e "racional".

Nem mesmo alguns aspectos estranhos do "espiritismo", como o "médium" Francisco Cândido Xavier apoiando a ditadura militar e pregando um discurso reacionário no qual desqualificava movimentos como o proletariado e o campesinato (logo movimentos comandados por pessoas humildes!), num programa de grande audiência, conseguem ser investigados.

Em vez disso, uma blogueira comunista pateticamente fã de Chico Xavier - ela deveria conhecer o anti-comunismo convicto de seu ídolo - cometeu a gafe de ter reclamado que o filme As Mães de Chico Xavier, uma produção da Globo Filmes (dos mesmos donos da Rede Globo) "era boicotado pela grande mídia". A grande mídia não iria boicotar uma "prata da casa", ainda mais um filme com atores de novelas da Rede Globo.

A mídia de esquerda se ocupa de investigar apenas os "neopentecostais". Não há dúvida que nomes ligados a essas seitas, como Eduardo Cunha, Rachel Sheherazade, Silas Malafaia, Edir Macedo, Marco Feliciano, Jair Bolsonaro, Janaína Paschoal, Magno Malta, Valdomiro Santiago e tantos e tantos outros estão associados a retrocessos sociais de um ou de outro aspecto, e devem ser sim, questionados pela mídia alternativa.

Mas deixar de lado os "espíritas", blindados pela Rede Globo e pelo grupo Abril, mesmo quando vemos um João de Deus latifundiário - dono de fazenda com área de dezoito parques do Ibirapuera, uma aberração para as extensões do Estado de Goiás - aparecendo ao lado de Michel Temer, algo que nenhum esquerdista deve aceitar sob a desculpa das relativizações.

Os "médiuns espíritas" não cometem coincidências ou acidentes quando estão associados de alguma forma a situações ligadas ao conservadorismo social e político. Se eles adotam posições sombrias, eles são responsáveis disso, não se pode dizer que eles foram "manipulados por obsessores espirituais". Os "médiuns" são responsáveis a tudo de pior que cometerem, desde defender a ditadura militar, apoiar a farsa de Otília Diogo ou apoiar Michel Temer e suas propostas retrógradas.

Depois que Michel Temer chegou ao poder, o que se viu de textos "espíritas" pedindo para os sofredores aceitarem as desgraças, abrirem mão de seus desejos e necessidades, combater o "inimigo dentro de si" ou coisa parecida. De repente, os "espíritas" escancararam a Teologia do Sofrimento que sempre esteve na doutrina igrejeira a partir de Chico Xavier, o que sugere um apoio subliminar às ditas reformas trabalhista e previdenciária.

Há até desculpas para a defesa dessas "reformas": a redução salarial e o fim dos encargos é defendida por "espíritas" como "ensaio para o desapego material". A prevalência do negociado sobre o legislado nos acordos trabalhistas se baseia na utopia do "acordo fraterno" entre patrões e empregados. A terceirização é vista como "demonstração de humildade" dos trabalhadores etc.

E por que, pelo menos, a mídia progressista não questiona? Por que não investiga, não averígua as redes de apoio, não faz reportagens a respeito dessas redes de apoio entre "espíritas" e políticos conservadores, por que a blindagem da Rede Globo e do Grupo Abril, o conteúdo do moralismo conservador?

Pautas existem aos montes, e indícios fortes de provas de que os "espíritas" estão afinados com o conservadorismo sócio-político de hoje estão aí. Só cabe a mídia de esquerda deixar de lado a complacência fácil e analisar. O caso Divaldo Franco-farinata é um bom exemplo do que a mídia progressista deveria fazer.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Imprensa progressista deveria investigar "movimento espírita"

AS SEITAS "NEOPENTECOSTAIS" SÃO FARTAMENTE INVESTIGADAS PELO JORNALISMO PROGRESSISTA. NA FOTO, PASTOR MARCO FELICIANO APOIANDO O IMPEACHMENT CONTRA A ENTÃO PRESIDENTA DILMA ROUSSEFF.

A imprensa progressista geralmente prima pelo jornalismo investigativo, pela averiguação de pontos sombrios contra totens consagrados pela sociedade em geral, servindo de contraponto à chamada mídia hegemônica, geralmente complacente e até cúmplice de muitos privilegiados da sorte.

No entanto, a mídia progressista tem suas omissões graves, quase imperdoáveis. Perde oportunidades mil de amplitude de seu raio investigativo. O "funk", ritmo comercial vinculado ao poder midiático, patrocinado por multinacionais e querido pelos executivos da mídia hegemônica, nunca foi alvo de investigação pela mídia progressista. Pelo contrário, era sempre cortejado por textos apologistas, mesmo sob o verniz de "grandes reportagens".

Ninguém observa, por exemplo, por que, entre 2003 e 2005, as Organizações Globo se empenharam tanto em divulgar o "funk". Era tudo quanto era programa e veículo, num processo de divulgação que não pode ser visto como "apropriação do movimento", pois a forma com que o "funk" era difundido indicava cumplicidade entre o "movimento funk" e a família Marinho, dona da poderosa corporação.

Ninguém, da mesma forma, investiga as associações do "funk" com a CIA - praticamente confirmada com o patrocínio de dois órgãos vinculados ao governo dos EUA, a Fundação Ford e a Soros Management Fund, a ONGs que investem e patrocinam o "funk" - , nem as parcerias com Luciano Huck, com o PMDB carioca, com o PSDB, com Aécio Neves, com Eduardo Cunha.

Ninguém percebeu sequer que o "baile funk" que aconteceu em Copacabana, aparentemente em solidariedade à presidenta Dilma Rousseff, no dia 17 de abril de 2016, data de votação da Câmara dos Deputados da abertura do processo de impeachment, foi uma forma de abafar o teor das manifestações pró-Dilma, reduzindo o teor político, na medida em que a "festa" se sobrepunha à manifestação política.

Ninguém sequer perguntou por que o empresário e DJ Rômulo Costa, da Furacão 2000 - que havia elegido o apresentador Luciano Huck "embaixador oficial do funk" - , embora manifestasse aparente repúdio ao deputado Eduardo Cunha, tem representantes defendendo o "funk" filiados ao PMDB carioca e ligados à "bancada da Bíblia" (Costa é evangélico), a mesma do então presidente da Câmara dos Deputados.

São muitos e muitos pontos sombrios que cercam o "funk" que a mídia progressista se dispõe de um farto material de investigação. Em vez disso, seus membros se deixam levar pela embalagem "humilde" do "funk". Esse é um vício que mancha as esquerdas, que se deixam levar por qualquer um que se promova sob o apelo publicitário de "pobres sorridentes".

"MÉDIUNS" OU "SACERDOTES DA REDE GLOBO"?

Outro problema é quanto à religião. A mídia progressista tem um empenho exemplar em investigar personalidades direta ou indiretamente ligadas a seitas "neopentecostais", comprometidas com pautas sociais obscurantistas e retrógradas, seja de ordem trabalhista, sexual, familiar ou de outra natureza, e que comandam a "bancada da Bíblia" do poder Legislativo nas esferas municipais, estaduais e federal.

No entanto, não há uma investigação a respeito do "espiritismo" brasileiro, que é beneficiado pela má informação generalizada que se prega do legado de Allan Kardec, difundida pela grande mídia como se fosse um conto de fadas.

Enquanto o legado original da Doutrina Espírita é desfigurado pela supremacia dos "místicos" no "movimento espírita" brasileiro - a supremacia é tal que os deturpadores já se posicionam acima do próprio Kardec - , a visão oficial que se tem é que o Espiritismo que se tem no Brasil é "autêntico" e "inocentemente adaptado" às "tradições da religiosidade brasileira".

Cria-se uma narrativa simplória que parece sinopse de novela da Rede Globo: um pedagogo conhece fenômenos sobrenaturais, estabelece conceitos a partir disso e, depois, brasileiros adaptam todo esse sistema de conhecimentos às crenças da fé e fundam uma religião espiritualista. Seria muito simples se isso fosse realmente assim.

Enquanto isso, nos bastidores do "espiritismo" há verdadeiras torres de Babel na qual os próprios deturpadores não se entendem, disputando para ver quem catoliciza mais o Espiritismo. Conceitos que constrangeriam Allan Kardec são vendidos como se fossem "espiritismo autêntico" e abordagens entram em conflito a partir de nulidades como imaginar quem é ou foi  reencarnação de Kardec e se o Brasil entrará em regeneração em 2019 ou 2057.

O que chama a atenção é a blindagem que os chamados "médiuns espíritas" - que romperam com a função intermediária do médium original para se tornarem os "sacerdotes" do "espiritismo" igrejista - recebem da grande mídia, sobretudo a Rede Globo, que os trata como seus protegidos oficiais, usando-os como meios de concorrer com os "pastores eletrônicos" das "neopentecostais" que atuam na Rede Record ou em horários arrendados pelas concorrentes.

Nenhuma alma viva da mídia progressista consegue perguntar a respeito dessa associação. Recentemente, "médiuns" como Divaldo Franco e João Teixeira de Faria, o João de Deus, apareceram ao lado de políticos decadentes como João Dória Jr. e Michel Temer, respectivamente, e não se averiguou por quê de tanta afinidade. Se Dória e Temer estivessem ao lado de Silas Malafaia e Marco Feliciano, haveria burburinho na mídia progressista.

No caso de João Dória Jr., o agravante foi que a divulgação oficial da "farinata", um alimento que, por suas irregularidades, causou má repercussão ao ser condenado pelos movimentos sociais e por entidades sérias de saúde pública e nutrição, com o prefeito Dória usando a camiseta do Você e a Paz com o nome de Divaldo Franco descrito. Isso é vínculo de imagem. Como é que a mídia progressista não se atentou a averiguar isso?

Imagine se o alimento fosse lançado oficialmente e, de repente, uma escola sofre uma série de intoxicações alimentares dos alunos que comeram a "farinata". Como fica Divaldo Franco, oficialmente considerado "humanista", ao apoiar e permitir o uso da imagem de seu evento e do seu nome pessoal para um político divulgar um alimento que é considerado uma "ofensa à dignidade humana"?

E como a imprensa progressista não se deu conta disso? Complacência? Desinformação? Ou imagina que o Você e a Paz foi promovido pela Arquidiocese de São Paulo? A idealização do evento, como se observa em Salvador, é de Divaldo Franco e até muitos católicos e evangélicos sabem disso. Diante disso, é urgente verificar as razões do vínculo de imagem de João Dória Jr. e seu duvidoso alimento ao evento e ao nome pessoal de um "médium espírita".

O silêncio da mídia progressista, que se limitou a criticar o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, como religioso apoiador da "farinata" ou "ração humana", deve ter sido movido mais uma vez pelo apelo de "pobres sorridentes" que se associa aos "médiuns espíritas", tidos oficialmente como "pessoas puras" mediante apelos produzidos pela grande mídia, que é capaz de fabricar consenso para impor seus valores, sobretudo religiosos.

A própria imagem de Francisco Cândido Xavier como um "filantropo" que hoje prevalece foi um discurso produzido pela Rede Globo, reciclando o mito produzido pela FEB na pessoa de Antônio Wantuil de Freitas, mas eliminando os exageros pitorescos promovidos por este último.

Tomando emprestado o mesmo roteiro discursivo que o católico inglês Malcolm Muggeridge fez sobre Madre Teresa de Calcutá, que simboliza um paradigma de "caridade" que mais promove o "benfeitor" e muito menos traz progressos à sociedade, a Rede Globo relançou o mito de Chico Xavier com uma retórica que lembra sinopse de novela. A ideia é criar um ídolo religioso "ecumênico" para neutralizar a ascensão dos "pastores eletrônicos" das seitas "neopentecostais".

A mídia progressista não percebeu isso e houve até blogueira comunista que se dizia fã de Chico Xavier - deveria ela conhecer o anticomunismo ferrenho do "médium", expresso para milhares de pessoas no Pinga Fogo, em 1971 - cometendo a gafe de reclamar que As Mães de Chico Xavier, produção da Globo Filmes, era "boicotada pela grande mídia". Ora, a Globo Filmes é da mesma empresa da Rede Globo, as Organizações Globo!

Fica então a missão da imprensa progressista analisar os problemas que envolvem o "espiritismo" brasileiro, que já revela seu conservadorismo ao trocar o cientificismo progressista de Kardec pelo igrejismo ultraconservador do Catolicismo jesuíta, na prática a base dos postulados "espíritas" vigentes no Brasil.

Seria bom que a imprensa progressista perguntasse e averiguasse sobre o que está por trás de fenômenos que se divulgam sob a imagem publicitária de pobres sorridentes, em vez de se deixar seduzir por tão comovente figura.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Liberdade religiosa não é desculpa para se fazer o que quer


Até que ponto existe o limite entre ser vítima de injustiça e fazer jogo de cena com vitimismo? Até que ponto não pode haver, também, espécie de bullying jurídico, com processos judiciais que mais soam censuras do que reparos a danos morais?

O Brasil está sofrendo a crise das instituições, porque o topo da pirâmide se encontra em estado avançado de perecimento. Só no caso da violência contra a mulher, a prevalência de valores patriarcalistas na sociedade brasileira, mesmo entre uma parcela das mulheres, revela o quanto é socialmente aceito o "método Império Romano" de resolver os problemas conjugais, através do feminicídio de natureza conjugal.

Essa aceitação cria situações tão surreais que a sociedade moralista ou mesmo a imprensa se arrepiam de medo quando se fala da proximidade da morte de dois famosos feminicidas, Doca Street e Pimenta Neves, velhos e com indícios de doenças talvez terminais, contraídas não porque eu ou você quisemos ou não, mas porque os dois fizeram por onde para massacrar seus organismos, seja por um passado de tabagismo intenso e cocaína ou pela overdose de remédios que quase foi fatal.

Sim, perdemos muita gente importante ou adorada antes dos 60 anos - Santos Dumont, Leila Diniz, Renato Russo, Mário de Andrade, Gláucio Gil, Mané Garrincha, Lauro Corona, Cazuza, Chico Science, Sylvia Telles, Nara Leão, Noel Rosa, Olavo Bilac, Ayrton Senna, Cacilda Becker, Glauber Rocha e Raul Seixas - , que medinho é esse de que dois homens ricos que mataram suas mulheres podem morrer na casa dos 80 anos, quando, por sorte, eles poderiam até ter morrido bem antes?

Se as pessoas têm esse apego doentio a assassinos ricos - não só a Doca e Pimenta, mas, fora do femincídio, um Darly Alves (mandante da morte de Chico Mendes, outro ilustre falecido antes dos 60) com histórico de graves crises de úlcera - , só comparável ao que, nos EUA, se tem em relação a Charles Manson (outro aos pés do túmulo na casa dos 80 e que, se tivesse fora da prisão, teria morrido bem antes), então o nível moral da chamada "boa sociedade" está muito, muito ruim.

Isso reflete a seletividade que temos, e que mostra o quanto a moral severa não traz respostas à sociedade, assim como o status quo de toda ordem, do dinheiro ao prestígio religioso. Muitos se esquecem que, até nos atos de bullying e cyberbullying, também há o peso do status quo, quando os agressores também gozam de algum prestígio social e seus atos de humilhação a outrem encontram respaldo até de pessoas inocentes que pensam que isso é uma brincadeira ou espetáculo de humor.

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

Fala-se em "liberdade religiosa", muitas vezes, não sob o prisma das classes populares, que valorizam manifestações como a umbanda, o candomblé e o islamismo como crenças válidas que refletem também um rico acervo cultural de seus seguidores. Em muitos casos, a "liberdade religiosa" serve como escudo para proteger, por outro lado, crenças das classes dominantes e que, não raro, também praticam atos de intolerância religiosa, a mesma alegação de que dizem sofrer.

Houve, no Brasil, um aumento substancial de denúncias de intolerância religiosa, mas, conforme dados mais recentes, houve apenas uma denúncia envolvendo o "espiritismo kardecista" contra 39 envolvendo os cultos afro-brasileiros. Uma outra denúncia envolveu uma religião "evangélica", embora, geralmente, os evangélicos, pelo menos os chamados "pentecostais", estão associados a atos de intolerância contra a umbanda e o candomblé.

O que muitas pessoas ignoram é que os atos de intolerância religiosa, na verdade, são panos de fundo de outras intolerâncias, como a intolerância das elites que começou no plano político - uma parcela da sociedade não suportava ver seus privilégios serem limitados durante os 13 anos em que o PT estava no poder - e hoje liberou espaço até para crimes de ódio, preconceitos sociais abertos e humilhações gratuitamente pesadas, vindas de setores privilegiados da sociedade.

O "espiritismo" e as religiões "neopentecostais", como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Assembleia de Deus, demonstram serem religiões de elite, e estão afinadas com o cenário político atual. Em 2016, aumentaram textos "espíritas" apelando para a "aceitação do sofrimento", trazendo a mensagem subliminar de defesa aos retrocessos sociais do governo Michel Temer. Enquanto isso, "neopentecostais" usavam o Poder Legislativo para criar leis para legitimar tais retrocessos.

Nomes como Magno Malta, Marco Feliciano, Silas Malafaia e Janaína Paschoal se projetaram defendendo retrocessos sociais "em nome de Deus". No "espiritismo", não se pode subestimar o fato dos "médiuns" Divaldo Franco e João Teixeira de Faria, o João de Deus, aparecerem ao lado de políticos retrógrados como João Dória Jr. e Michel Temer, algo que não deve ser visto como mera coincidência, pois está clara a afinidade de sintonia com o "novo momento".

Os "médiuns" também estão associados à desfiguração do legado de Allan Kardec, rebaixado, no Brasil, a uma retomada do antigo Catolicismo jesuíta medieval, algo que deixa muito claro quando as "casas espíritas" evocam jesuítas como "espíritos protetores".

Refletindo o vício brasileiro de dissimulação de atos pela "ginástica mental", os "espíritas" traem Kardec mas insistem em dizer que são "rigorosamente fiéis" a ele. Dizer que eles são traidores não é desaforo nem ofensa. É só ver os livros lançados por Divaldo Franco e por Francisco Cândido Xavier para cairmos da cadeira diante da presunção de que os dois são (supostamente) "os maiores discípulos de Kardec no mundo".

A bibliografia desenvolvida por Chico Xavier e Divaldo Franco mostra sempre conceitos igrejistas e aspectos que contrariam, de forma explícita, os postulados espíritas originais. Para piorar, os dois investem em aspectos e atitudes já condenados claramente por Kardec em O Livro dos Médiuns e O Livro dos Espíritos: textos rebuscados, ideias impróprias, uso de nomes ilustres para impressionar a opinião pública etc.

Mas como o Brasil é a pátria da pretensão, na qual feminicidas falam em "direito à honra", latifundiários mandantes de homicídios em "direito à propriedade" e movimentos fascistas, como os que envolvem Jair Bolsonaro, em "defesa da Pátria", as elites fazem o que querem e não querem sofrer os efeitos de seus atos. Se sofrem, alegam "intolerância" e "perseguição" e uns chegam a processar seus críticos diante da desesperada luta para se salvarem das consequências.

E aí muitos apelam para a "ginástica mental" para justificar suas atitudes e procedimentos equivocados, lutando para prevalecer, dependendo do caso, a omissão, a permissividade ou a impunidade.

No caso da "farinata" de João Dória Jr., que de forma explícita lançou o alimento no evento Você e a Paz, promovido por Divaldo Franco, quando se fala que houve vínculo de imagem de Divaldo e seu evento a esse alimento condenado por movimentos sociais e entidades de saúde pública, não se está cometendo intolerância religiosa.

Está tudo explícito. É a regra da publicidade. O prefeito de São Paulo foi escolhido para ser homenageado por Divaldo e seu evento mesmo quando até a imprensa que apoiava João Dória Jr. admitia que ele estava em decadência. E João Dória não era um "Cristo crucificado pelos romanos", mas um queridinho das elites ricas e poderosas.

Além disso, João Dória Jr. poderia ter usado apenas paletó e camisa de colarinho, como todo ricaço, mas decidiu vestir a camiseta do Você e a Paz, citando o nome de Divaldo Franco. E se o prefeito nunca foi processado pelo uso da imagem do evento para promover o alimento condenado pelos nutricionistas mais sérios, é porque Divaldo assumiu o risco de tal empreitada.

Divaldo pôs sua reputação a perder, dez meses após ter feito um juízo de valor contra os pobres refugiados do Oriente Médio. Aliás, não seria um ato de intolerância religiosa esse juízo de valor, acusando, sem provas, os refugiados - vários deles muçulmanos - de terem sido "tiranos sanguinários em outra vida"?

No episódio da "farinata", Divaldo, cuja fama remete a um "sábio que responde a tudo e tudo prevê", pôs sua reputação a perder, pois, se agiu sem saber, desmentiu o "sábio" que se dizia ser, e, se agiu sabendo, desmente também a fama de "humanista" que encantava seus seguidores.

O que se deve admitir é que não se pode colocar a lógica, o bom senso, a coerência ou a ética no lixo, em benefício da fé. Se uma religião ou um ídolo religioso cometem atitudes equivocadas, ele deve ser questionado por isso. Não é intolerância religiosa, mas intolerância a vícios como a hipocrisia ou a omissão. A liberdade religiosa não é desculpa para se fazer o que quer. Misericórdia não é permissividade.

domingo, 5 de novembro de 2017

Algumas provas de que Divaldo Franco NÃO é discípulo de Allan Kardec


Divaldo Franco se envolveu numa situação complicada, ao permitir que seu evento Você e a Paz o decadente prefeito de São Paulo, João Dória Jr., lançasse um estranho composto alimentar, condenado pelos movimentos sociais e pelas mais diversas entidades de saúde pública e nutrição.

Isso é um erro gravíssimo, e que põe em xeque-mate um ídolo religioso. Afinal, Divaldo Franco era tido como alguém com respostas para tudo, um pretenso sábio que se julgava prevenido de qualquer situação, mas que "não teve condições" de evitar que uma tal "ração humana", considerada um meio desumano e demagógico de supostamente resolver a fome dos mais pobres, fosse lançada em seu evento.

Isso é tão grave que Divaldo poderia ter aconselhado, ao menos, que Dória não usasse a camiseta do evento, mas apenas um habitual paletó e camisa comum de colarinho. Ou que Divaldo se recusasse a oferecer o evento para a divulgação da "farinata" até que haja algum parecer oficial de nutricionistas e médicos de mais diversas áreas.

Nada foi feito, a "farinata" foi divulgada com o prefeito usando a camiseta do Você e a Paz e o nome de Divaldo, sugerindo um vínculo de imagem que, se não fosse a complacência da imprensa - ao menos a da esquerda, que perdeu uma boa chance de investigar o caso - , daria num escândalo de proporções imensas no "movimento espírita".

Não se trata, aqui, de crítica impiedosa, mas de uma questão de lógica, de responsabilidade. Divaldo acabou assumindo riscos ao permitir que no Você e a Paz se divulgasse o estranho alimento, contra o qual há denúncias de que teria envenenado internos na Missão Belém, em Jarinu, no interior paulista. E a camiseta de João Dória Jr. revela o vínculo de imagem do Você e a Paz e Divaldo Franco como apoiadores do estranho alimento.

Isso mostra o quanto os chamados "médiuns espíritas", já contestados por serem deturpadores da Doutrina Espírita - eles reduziram o legado kardeciano a um sub-Catolicismo mais antiquado - , são responsáveis pelas suas más decisões, afinal não se pode usar o prestígio religioso para cometer o chamado "calote moral", quando se considera que os "médiuns" só se responsabilizam pelos acertos, mas absolvidos até dos piores erros que cometem por decisão própria.

Sabemos que Francisco Cândido Xavier não é, nem de longe, o discípulo de Allan Kardec. É só comparar os livros de Chico Xavier com a obra kardeciana e se verá diferenças gritantes, nas quais soa constrangedor e até uma gafe atribuir o "médium" mineiro como "reencarnação" do pedagogo francês, quando se sabe que essa atribuição, marcada pela emotividade cega, não passa de uma patriotada barata para associar o Espiritismo francês ao ufanismo religioso brasileiro.

Mas aqui a gente focaliza em Divaldo Franco, que, apesar de parecer mais verossímil que Chico Xavier na sua encenação de suposto "bom espiritismo", às vezes expondo "corretamente" a teoria espírita com seu tom verborrágico de professor da República Velha (próprio dos tempos do saber hierárquico, pomposo, pedante e rebuscado), também não foi um bom aluno de Kardec. Algumas provas citamos a respeito disso, baseado em fatos e não em suposições:

1) JOSÉ HERCULANO PIRES DEFINIU DIVALDO FRANCO COMO ROUSTANGUISTA.

O jornalista José Herculano Pires, que melhor traduziu a obra de Kardec, buscando a maior fidelidade ao texto original francês, definiu Divaldo Franco como adepto fervoroso de Jean-Baptiste Roustaing. Isso pode ser comprovado nos livros de Divaldo, sempre dotados do mais forte ranço católico, semelhante ao que se vê em Os Quatro Evangelhos. A credibilidade de Herculano em definir Divaldo como roustanguista não deve ser subestimada, e se torna um fato bastante decisivo.

Divaldo tentou argumentar que "não tinha tempo" para ler a obra de J. B. Roustaing, na vã tentativa de escapar da associação. Mas a verdade é que o "médium" baiano não teve tempo mesmo é de ler a obra kardeciana, que contém conceitos contrários ao do igrejismo do idealizador do Você e a Paz.

2) DIVALDO FRANCO DETURPOU O ESPIRITISMO DE PROPÓSITO, ASSIM COMO CHICO XAVIER.

Muitos adeptos do "espiritismo" brasileiro ou mesmo os contestadores da deturpação com visão mais condescendente acreditam que Divaldo Franco e Chico Xavier deturparam o Espiritismo sem querer, supostamente pela "falta de tempo" de aprenderem melhor a Doutrina Espírita ou pelo "natural entusiasmo" de suas origens católicas. Acreditam que os dois deturparam o Espiritismo "por acidente", na vã esperança de inclui-los na recuperação dos postulados espíritas originais.

Essa tese não tem o menor cabimento, porque não se faz uma coisa sem querer por tão longo tempo e causando efeitos de amplitude inimaginável. Além de seu igrejismo ter rendido uma grande quantidade de livros, lançada durante décadas, ou de palestras e depoimentos de grande repercussão no Brasil e no mundo, atingindo um grande público de leitores, ouvintes ou espectadores, os dois mantiveram a catolicização mesmo depois de prometerem que "irão aprender melhor a obra de Kardec".

3) DIVALDO FRANCO DIVERGE DE ALLAN KARDEC QUANTO À IDEIA DE "DEUS".

Durante uma viagem ao Vaticano, no dia 29 de janeiro de 2015, Divaldo Franco tentou falar com o papa Francisco, que recebia um grupo variado de pessoas. Não houve oportunidade para isso, e Divaldo apenas foi cumprimentado pelo pontífice.

No entanto, Divaldo deixou um depoimento, no qual descreve a sua visão de Deus: "Ele falou belamente sobre a família, o papel do Pai, recordando-se que Deus é o nosso Pai e que os genitores masculinos deixam os filhos órfãos de sua assistência e, por isso, os jovens perdem o rumo. Plenamente correto".

O trecho da oratória do papa Francisco revela uma analogia antropomorfizada de Deus a uma figura masculina, sugerindo a associação entre Catolicismo e a ideologia do Patriarcado, e Divaldo Franco, diante da associação de Deus ao "genitor masculino", declarou que a ideia é "plenamente correta".

Isso contraria frontalmente a ideia que Allan Kardec publicou em O Livro dos Espíritos, colhida de um espírito mensageiro e da qual o pedagogo francês formulou uma pergunta "indelicada": "O que é Deus?", em vez do esperado "Quem é Deus?". A resposta foi essa: "Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas".

Divaldo contrariou Kardec ao concordar com a visão católica de um "Deus humano e masculino", pois, ao acreditar num "Deus feito homem", não bastasse a ideia machista do "genitor masculino", rejeita a tese de "causa primária de todas as coisas", pois Deus, neste caso, deixa de ser uma "causa primária", submetendo-se a uma forma antropocêntrica que vai contra o conceito kardeciano.

4) DIVALDO FRANCO FAZ JUÍZO DE VALOR CONTRA REFUGIADOS DO ORIENTE MÉDIO, CONTRARIANDO O PRINCÍPIO DA CARIDADE E COMETENDO FALSO TESTEMUNHO.

Divaldo Franco disse o seguinte a respeito dos refugiados do Oriente Médio, ou seja, de cidadãos ou grupos sociais que fogem dos países africanos e asiáticos da região que vivem em conflitos sangrentos, pessoas que buscam uma vida mais pacífica na Europa, ainda que sob dificuldades:

"No campo das deduções e de acordo com o meu pensamento, penso que aqueles que estão hoje, de volta à Europa, são os antigos colonizadores que deixaram, até hoje, a América Latina na miséria.
Como foi negado todo o direito aos seus residentes, como aculturaram os selvícolas, destruindo culturas veneráveis, pela Lei de Causa e Efeito aqueles estão retornando hoje à pátria, no estado de miséria, e que ameaçam os próprios países de onde saíram, para, um dia, buscarem a fortuna para o conforto europeu".

O terrível juízo de valor, dito em tom de mansuetude, vai contra o princípio do perdão e da caridade, ao evocar uma suposta encarnação antiga, de maneira generalizada, a pessoas dotadas de certa humildade, que, se soubessem da declaração do "sábio homem", se sentiriam ofendidas com tal declaração.

Imagine alguém fugindo da Síria em guerra, em busca de paz e serenidade, ainda que numa situação economicamente modesta, ser informado que um "importante orador religioso" o acusou de ter sido, em outra vida, espírito de tirano colonizador, acusação dada para "motivar" as dificuldades sofridas pelo pobre cidadão, que no contexto "vai pagar pelo que fez". Esse sujeito, que só quer uma vida digna e tranquila para si, vai se sentir ofendido e, se tivesse meios jurídicos em seu acesso, poderia muito bem processar o orador religioso por danos morais.

Outro agravante é que esse juízo de valor é sempre dado ao arrepio da Ciência Espírita, sem comprovações científicas, sem provas lógicas, mas de maneira puramente especulativa, através de uma relação simplória entre causa e efeito. Diante disso, Divaldo Franco prestou falso testemunho, fazendo uma acusação indevida que não consta de provas consistentes nem lógicas, declaradas apenas sob o sabor do prestígio religioso e de forma meramente especulativa. O que Divaldo fez neste caso também contraria os postulados kardecianos originais.

5) O APOIO DADO À "FARINATA" DE JOÃO DÓRIA JR. FOGE DO RIGOR DE EXAME ENSINADO PELO EXEMPLO DE ALLAN KARDEC.

Dito isso, o caso da "farinata" também prova que Divaldo Franco não é discípulo de Allan Kardec, porque faltou ao "médium" baiano a consciência verificadora e rigorosa do pedagogo francês. Kardec nunca deixaria alguém, por mais prestigiado que fosse, divulgar um produto de valor e origem duvidosa, e pediria para que houvesse antes um exame ou uma rigorosa documentação comprobatória, cancelando a divulgação do produto na ausência de verificação austera.

Ao deixar que o prefeito de São Paulo divulgasse a "farinata", permitindo até mesmo o vínculo de imagem do Você e a Paz e do nome de Divaldo Franco à divulgação desse alimento estranho, o "médium" contrariou Kardec pelo fato de não ter seguido o rigor de exame do pedagogo de Lyon, o que prova, em definitivo, uma conclusão contundente: Divaldo Franco NÃO é discípulo de Allan Kardec.

sábado, 4 de novembro de 2017

Fascinação obsessiva faz brasileiros nunca criticarem erros dos "médiuns"

 O "ESPIRITISMO" BRASILEIRO É FAMOSO POR USAR ESSES APELOS PARA AFASTAR OS CONTESTADORES E FAZER PREVALECER A DETURPAÇÃO.

Os brasileiros têm muito medo de criticar os "médiuns espíritas". Esse medo se dá por diversas razões. Uma é a suposição de que eles mantém contatos com espíritos superiores, um mito do qual não há confirmação de ordem científica ou de outra natureza, mas é tida como certa pela alegação dos próprios "médiuns", que se deixam valer pelo prestígio religioso e pela aceitação plena das elites.

Mas a principal razão dessa falta de coragem em enfrentar os "modernos sacerdotes" da fé medieval - até parece que o termo "médium" tem uma ligação semântica com a Idade Média, período que, pelo jeito, é alvo de nostalgia de muitos brasileiros - se deve por um apelo muito conhecido, mas advertido por Allan Kardec como um meio muito perigoso de manipular e atrair o apoio das pessoas.

Trata-se de um tipo de obsessão, chamado de "fascinação" ou "fascinação obsessiva". Ele está claramente descrito em O Livro dos Médiuns. Trata-se de uma forma de controlar as pessoas usando de apelos de persuasão muito fortes, mas sem intervir, aparentemente, na consciência das vítimas.

No caso dos "médiuns" brasileiros, que são ideologicamente formados pelo igrejismo de Jean-Baptiste Roustaing - desconhecido de muitos "espíritas", mas mentor de muitos paradigmas religiosos da doutrina brasileira - , a fascinação obsessiva usa como instrumento de manipulação o recurso falacioso do Argumentum Ad Passiones, conhecido como "apelo à emoção".

O Argumentum Ad Passiones, ou simplesmente Ad Passiones, é um recurso considerado falacioso pelos estudiosos da linguagem humana, e se define com apelos fortemente emotivos que servem para dominar as pessoas. No caso dos "médiuns", são apelos que, na aparência, são agradáveis e até bastante comoventes, mas que se tornam bastante perigosos e podem corromper a percepção de mundo das pessoas, não raro traindo a lógica e o bom senso.

Só para percebermos o nível de atraso em que se encontram os brasileiros, o Ad Passiones havia sido prevenido até na Antiguidade. O famoso poema Odisseia, de Homero, falava da trajetória do bravo Ulisses, que certa vez foi tentado a seguir o canto das sereias, que tomado de profunda beleza o convidava à perdição, se afogando e morrendo no esforço de segui-las.

A alegoria das sereias se substitui por outras, mais sutis e menos eróticas, adaptando o sentido de "canto de sereia" ao contexto atual, de idosos não muito atraentes fisicamente, mas estão associados a outros apelos fantásticos: paisagens floridas, céu azul com nuvens brancas, sol brilhante, passarinhos sobrevoando flores, crianças sorridentes ou, então, crianças pobres chorando.

Muitos pensam que a ausência da figura feminina ou do apelo erótico anula o caráter traiçoeiro do Ad Passiones e que os apelos trazidos pela ideologia "espírita" são profundamente salutares e edificantes. Grande engano. O sentido do "canto da sereia" serve para as pessoas se submeterem ao imaginário roustanguista que o ideário "kardecista" (termo usado como eufemismo para a deturpação do Espiritismo) oferece através de apelos supostamente mais modestos.


IMAGEM EXTRAÍDA DE ESQUEMA DIDÁTICO EXPLICANDO A FASCINAÇÃO OBSESSIVA SOB A ÓTICA DA DOUTRINA ESPÍRITA ORIGINAL.

O Brasil ainda é muito receptivo a certos fenômenos que, no Primeiro Mundo, são reconhecidamente ardilosos. A overdose de informação, que é a sobrecarga de notícias, fatos e informações que desgastam o raciocínio humano, é aceita no Brasil como se fosse "liberdade de informação" e até "amplitude de conhecimento".

A domesticação das classes populares pela indústria do entretenimento, que idiotiza o povo pobre reduzindo-o a uma multidão patética, conformada e consumista, e o submete a valores sociais e morais retrógrados, é definida pelas elites intelectuais brasileiras como um "movimento libertário popular", uma suposta "cultura das periferias" na qual acredita-se na tese de suposto (e muito falso) fortalecimento cultural das pessoas que vivem em condições de pobreza relativa ou absoluta.

AD PASSIONES E "BOMBARDEIO DE AMOR": A PIOR ARMADILHA DOS DETURPADORES DO ESPIRITISMO

O Ad Passiones, que é o conjunto de apelos emocionais feitos para dominar a pessoa através da produção de comoções e alegrias aparentes, é desconhecido entre os estudiosos da manipulação mental no Brasil. Mas, no exterior, é reconhecido como um tipo de falácia que exerce, de forma envolvente, a dominação de outrem, tornando as demais pessoas submissas e crédulas.

Apesar do desconhecimento da expressão Ad Passiones, processos caraterísticos desse processo falacioso são acolhidos positivamente pelos brasileiros. O apelo das "belas palavras" e das "lindas imagens", além de estórias que lembram contos de fadas de pessoas com sofrimento extremo que, em dado momento, encontram a felicidade, são encaradas sem o menor grau de desconfiança e questionamento.

Para piorar, a aceitação se estende à forma mais perigosa de Ad Passiones, o "bombardeio de amor" (em inglês, love bombing). O apelo falacioso que simula emotividade extrema e forja um aparato de acolhimento fraternal em níveis supostamente amorosos e sensíveis, que causam comoção fácil às pessoas, é definido no Primeiro Mundo como um tipo extremamente perigoso de falácia e uma das piores armadilhas usadas para dominar as pessoas.

No Brasil, porém, esse perigoso processo é aceito como se fosse uma demonstração verdadeira de fraternidade, sem que as pessoas percebam os interesses por trás de um acolhimento feito por estranhos, que tão de repente demonstram acolhimento extremo, profunda emotividade e afeição imensa. Nem sequer o ditado popular "isso é bom demais para ser verdade" chega a ser cogitado pelas vítimas que veem nessa armadilha uma "manifestação do mais imenso amor".

Entidades religiosas em geral usam o "bombardeio de amor" como um recurso para atrair fiéis. Numa sociedade em que até pessoas com relativo convívio amistoso ou conjugal se tratam com indiferença, é preocupante que muitos não conseguem estranhar a "afeição extrema" em certos ambientes, com estranhos aparentemente oferecendo o que nem seus amigos de infância são capazes de oferecer.

No caso do "espiritismo" brasileiro, o "bombardeio de amor" permite a blindagem absoluta dos "médiuns", poupando-os de escândalos mesmo quando evidências mostram alguns deles envolvidos em incidentes estranhos, como Francisco Cândido Xavier defendendo a ditadura militar e Divaldo Franco permitindo que um alimento suspeito como a "farinata" de João Dória Jr. fosse lançada durante um evento "espírita".

Ninguém tornou-se capaz de imaginar que Chico Xavier sempre foi um conservador de direita (tendência compartilhada por Divaldo Franco e João de Deus, entre outros) e Divaldo Franco teve condições para cancelar a homenagem a João Dória Jr. por causa do alimento duvidoso, mas consentiu que ele fosse lançado, com o prefeito de São Paulo usando a camiseta do Você e a Paz, com o nome do "médium" escrito, o que sugere um vínculo de imagem nunca contestado pelo famoso orador.

No caso de Chico Xavier, chegou-se a ocorrer uma gafe de uma blogueira declaradamente comunista, entusiasmada com o filme As Mães de Chico Xavier, reclamar que o filme era "boicotado" pela grande mídia, mesmo sendo uma produção da Globo Filmes (da mesma empresa da Rede Globo de Televisão). Se ela visse a entrevista de seu ídolo no programa Pinga Fogo da TV Tupi, em 1971, hoje disponível no YouTube, ela cairia da cadeira, ao ouvir os comentários anticomunistas do "médium" mineiro.

Tomadas de emoção, as pessoas não conseguem perceber as coisas e caem em contradições, incompreensões e gafes constrangedoras. Mas se até a deturpação do Espiritismo francês no Brasil, com "adaptações" feitas ao arrepio do legado kardeciano, são aceitas por muitos como "pequenos exageros movidos pelo entusiasmo da religiosidade", então a coisa fica muito, muito séria. E, portanto, da mais extrema gravidade.

Afinal, com toda a alegação de "tradições religiosas" e pelo "saudável acolhimento da fé cristã", aceita-se que o Espiritismo, no Brasil, se rebaixe a um sub-Catolicismo tão convicto que hoje caminha para recuperar, não as prometidas bases kardecianas, mas as bases decadentes do Catolicismo jesuíta que vigorou no Brasil colonial. Pelo jeito, a relação semântica de "médium" e "medieval" vai muito além do prefixo gramatical.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

"Diga-me com quem tu andas, que eu te direi quem és"

"MÉDIUNS ESPÍRITAS" AO LADO DE POLÍTICOS DECADENTES - DIVALDO FRANCO COM JOÃO DÓRIA JR., JOÃO DE DEUS COM MICHEL TEMER.

As fotos dos "médiuns espíritas" Divaldo Franco e João Teixeira de Faria, o João de Deus, ao lado de políticos em vertiginosa decadência, respectivamente João Dória Jr. e Michel Temer, nos faz refletir sobre a baixa sintonia que o "espiritismo" brasileiro, cada vez mais conservador, exerce e atrai para si.

Claro, muitos vão dizer que os "médiuns" relacionam com todo mundo "com total consideração" e vão achar que eles fariam o mesmo até se fosse com algum guerrilheiro comunista. Mas isso não faz sentido, porque em muitos casos essa "total consideração" é uma diplomacia, e há muita diferença entre relações diplomáticas e apenas gentis e outras em que os "médiuns" se sentem mais à vontade.

Simpatia não é cumplicidade. E o contexto do "espiritismo" vai no caminho do conservadorismo político, e muitas provas foram dadas nesse sentido. Se o "médium" João de Deus, por exemplo, se declara "amigo" do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, é no sentido de "amizade" também manifesto, por exemplo, por políticos conservadores como José Sarney, Paulo Maluf e Fernando Collor. Ou por Sílvio Santos, animador e empresário carismático, mas também conservador.

O "espiritismo" comprovou ser uma religião bastante conservadora, rompendo por definitivo com a imagem pretensamente progressista que nem de longe faz sentido. Mesmo a imagem de pobres sorridentes não apresenta verossimilhança, e não dá para entender a complacência que as esquerdas, que geralmente fazem duras críticas a mitos protegidos pela mídia conservadora, dão para os "espíritas" que não escondem seu caráter retrógrado e ultraconservador.

Isso se dá pela raiz do "espiritismo" brasileiro. Ela é fundamentada em Jean-Baptiste Roustaing e seu Os Quatro Evangelhos, não há como escapar. Foi nesse livro que a doutrina brasileira que desfigurou o legado de Allan Kardec criou suas bases, e hoje o que existe é uma desonestidade doutrinária profunda, porque há toda uma pose, bastante hipócrita, de "fidelidade absoluta" e "respeito rigoroso" aos postulados espíritas originais, diante de uma práxis que comete graves traições.

Os Quatro Evangelhos chegaram a ter um clone, o livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, em que o nome de Roustaing é citado com o prenome abrasileirado de "João Baptista", em grafia anterior a 1943, pois o livro é de 1938.

O livro de Chico Xavier é uma patriotada ultraconservadora, injusta e levianamente atribuída ao espírito do escritor Humberto de Campos, que em verdade seria completamente incapaz de escrever essa imoralidade. A obra define índios e negros como "selvagens" e prenuncia um país a "comandar o mundo" política e religiosamente, uma "previsão" aparentemente agradável, mas que oculta um projeto de resgatar, em solo brasileiro, tanto o Império Romano quanto o Catolicismo medieval.

Figuras como os "médiuns" Chico Xavier, Divaldo Franco e João de Deus são abertamente conservadoras. Eles remetem a um igrejismo velho, vivem do culto à personalidade, exercem em muitos a idolatria religiosa - movida pelo sentimento obsessivo da "fascinação", devidamente esclarecido em O Livro dos Médiuns (Cap. 23, item 239) - e associado a valores morais ultraconservadores.

Que "progressismo" pode se imaginar desses "mediuns"? Nenhum. A "caridade" que eles fazem é mero Assistencialismo, uma suposta filantropia que nunca traz resultados profundos, apenas "aliviando a dor" da pobreza em vez de curá-la, e só serve para a propaganda pessoal dos "médiuns". Se essa "caridade" desse certo, o Brasil teria alcançado padrões escandinavos de desenvolvimento humano, dada a aparente grandeza desses "médiuns".

Além disso, uma das provas de que o "progressismo" de um "médium" é falsa, extremamente falsa, está em Chico Xavier, que sempre pregava o "silêncio" em vez do questionamento, da queixa e da contestação. Ele mesmo era um figurão de direita, apoiou a ditadura militar, defendeu Fernando Collor de Mello e, se vivo estivesse, teria apoiado Aécio Neves em 2014.

Aécio é "alma gêmea" de Chico em termos de blindagem. O "médium" também foi beneficiado pela impunidade e seletividade da Justiça brasileira no caso Humberto de Campos, pois as pretensas psicografias que usavam o nome do autor maranhense fugiam claramente do estilo original do escritor, indicando fraude e falsidade ideológica, mas os juristas alegaram "desconhecimento das questões da mediunidade" e deixaram o caso num empate que favoreceu o "médium".

É mais ou menos o que a Justiça fez com Aécio Neves. Este, aliás, quando o "médium" faleceu, manifestou profunda admiração. "Em sua grandiosa simplicidade, ele será sempre uma referência para todos que, de alguma forma, têm responsabilidade pública. Minas, o Brasil, o mundo ficou menor com a morte de Chico Xavier", disse o hoje senador, enquanto era presidente da Câmara dos Deputados. Aécio visitou certa vez o "médium", no final da vida.

Aécio Neves e Luciano Huck são admiradores fervorosos do "médium" e gozam da afinidade energética porque os dois estão alinhados a uma ideologia considerada "moderada", mas que demonstra um conteúdo claramente conservador. O "médium" que esculhambou os movimentos operário e camponês (organizados por gente humilde!) em um programa de TV de grande audiência (Pinga Fogo, TV Tupi, 1971) só podia vibrar melhor para quem é conservador.

LUCIANO HUCK E ÁECIO NEVES, AFINADOS COM CHICO XAVIER.

Luciano Huck já havia visitado Chico Xavier no final da vida e, em 2010, comemorou os centenário do "médium" assistindo ao filme biográfico - produzido pela Globo Filmes - com sua esposa Angélica.. Mais tarde, Huck havia estado em Pedro Leopoldo, terra natal do "médium", para gravação de um quadro para o Caldeirão do Huck. Ultimamente Huck tem se inspirado no "médium" para fazer atividades "filantrópicas" no seu programa televisivo.

O que chama a atenção é que os "médiuns espíritas" acolhem políticos conservadores depois que eles se revelam desastrosos ou decadentes até entre parte da sociedade conservadora. A própria defesa de Chico Xavier à ditadura militar na sua fase mais reflexiva em 1971, é ilustrativa: o mais entusiasmado defensor do golpe militar, o ex-udenista Carlos Lacerda, havia há um tempo migrado para a oposição e participado de um movimento de redemocratização do Brasil.

Nos últimos meses, Divaldo Franco acolheu o prefeito de São Paulo, João Dória Jr., quando este já era reconhecido um político decadente por suas más realizações. Divaldo consentiu que Dória divulgasse um estranho composto alimentar, feito de restos de comida, oficialmente no evento Você e a Paz, o que seria um escândalo de grandes proporções no "movimento espírita" se não fosse o silêncio absoluto da imprensa, até mesmo a de esquerda.

Depois foi a vez do "médium" goiano e também rico latifundiário, João de Deus, aparecer ao lado de Michel Temer. Diferente de personalidades diversas, João de Deus esteve mais à vontade, pois não se tratava de uma propaganda mascarada de "total consideração a todos", mas de uma grande cumplicidade. Ambos estavam internados num hospital, Temer para uma cirurgia na próstata, João para exames de avaliação na área onde foi retirado um tumor.

A aparição solidária se deu quando Michel Temer, de tão decadente, foi considerado o presidente mais impopular do mundo, segundo o instituto de análise política Eurasia Group. No Brasil, os institutos de pesquisa dão um índice de popularidade ao presidente em 3%, já considerado o mais baixo de toda a história do Brasil.

Assim como nos casos de Chico e Divaldo, um "médium" recorre a uma personalidade que até parte da sociedade conservadora não presta mais apoio. O que agrava a constatação de baixa sintonia dos "médiuns espíritas", que acolhem políticos decadentes.

E isso faz com que nos lembremos de Jesus de Nazaré, um grande crítico de gente similar aos "médiuns", como os antigos sacerdotes e escribas marcados pela falsa modéstia, pela verborragia e pela caridade de fracos resultados: "Diga-me com quem tu andas, que eu te direi quem és".

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Fatos em ocorrência no Brasil provam que país é "balneário" de espíritos atrasados

BOA PARTE DOS BRASILEIROS PODE SER REENCARNAÇÃO DE PESSOAS QUE VIVERAM NO IMPÉRIO ROMANO.

Não é fácil definir quem foi quem na encarnação passada. É até perigoso, porque pode provocar vaidades ou vexames, dependendo do caso. Podem se alimentar ódios, repúdios ou desprezos, ou idolatrias fúteis e mórbidas, além de criar conflitos quando as atribuições de encarnações passadas podem criar divergências e disputas sobre determinados indivíduos falecidos, aos quais diferentes pessoas disputam a "representação" reencarnatória.

O caso de Allan Kardec é ilustrativo. Um lunático chamado Osvaldo Polidoro se autoproclamou "reencarnação" do pedagogo francês, mesmo apelando para uma corrente mística que Kardec nunca teria a insensatez de pregar, que é o "divinismo", tão ocupado estava o professor de Lyon com o desenvolvimento da lógica, sendo incapaz de perder tempo com delírios místico-religiosos.

Mas, no Brasil, também se deu a patriotada de atribuir a Francisco Cândido Xavier como "reencarnação de Kardec". A ideia, que fascina muitos - fascina no sentido da "fascinação obsessiva", atitude condenada pelo próprio Kardec - , de que Chico Xavier "foi Kardec" no entanto não procede, mesmo quando se considera como "espírita autêntico" o suposto médium de Pedro Leopoldo e Uberaba.

Os modos de falar, dizer, pensar são diferentes. Sabe-se que o pedagogo francês não deixou registros sonoros nem de imagens em movimento, porque as tecnologias inexistiam na época. Mas pelo que se pode inferir, Kardec era bonachão, mas tinha uma índole firme, enquanto Xavier fazia o estilo do caipira molenga, mas matreiro, o típico mineiro que "come quieto".

Em ideias, então, nem se fala. A leitura atenta dos livros de Chico Xavier revela, de forma explícita, ideias não só contrárias, mas também mais retrógradas e antiquadas do que a obra kardeciana. Há, até mesmo, indícios de machismo na obra O Consolador, ditada por Emmanuel. Além disso, graças à atuação do "médium" mineiro, o Espiritismo, no Brasil, se rebaixou a uma recuperação gradual dos antigos valores do Catolicismo jesuíta medieval, que prevaleceu durante o período colonial.

DONOS DO FUTURO, MAS APEGADOS AO PASSADO

O Brasil sempre foi um país no qual valores novos sempre eram diluídos para não representar ruptura ou ameaça a valores velhos. O futuro sempre vira refém de um passado ruim. Novidades só conseguem ter sentido no Brasil quando elas assimilam caraterísticas velhas daquilo que deveriam considerar decadente ou obsoleto.

O próprio Espiritismo foi vítima disso, quando, ao ser introduzido, priorizou a deturpação de J. B. Roustaing e, mesmo depois, quando o "kardecismo", na prática, não é mais que um "roustanguismo com Kardec", o que entendemos hoje como "espiritismo" caminha para ser uma reciclagem do Catolicismo jesuíta do Brasil-colônia.

Culturalmente, a chamada "cultura popular" sucumbiu a pastiches de ritmos regionais ou à americanização gratuita do "funk" trazidas pelo comercialismo extremo e por estruturas de poder ligadas do mercado do entretenimento e da Comunicação. Era uma forma de frear os avanços das expressões populares pelo comercialismo controlado pelas empresas do entretenimento e mascarada pelos ideólogos intelectuais que promovem o "funk" como falsa vanguarda artístico-cultural.

A própria relação entre machismo e feminismo revela esse acordo do "novo" com o "velho". As feministas têm que optar por duas condições machistas: ou investir na "emancipação patrocinada", buscando aprimorar seus intelectos sob o vínculo de maridos poderosos, ou seguir padrões machistas de subordinação feminina (a coitadinha caseira ou a mulher-objeto) sem precisar ter a figura de um namorado ou marido, "liberadas" para a solteirice pelo resto da vida.

Aliás, o próprio feminicídio que ocorre intensamente, conforme registrou o ranking da violência em 2016, revela o atraso mental de muitos homens que resolvem os problemas amorosos a bala, facada ou veneno. São homens que lembram muito os antigos machistas do Império Romano que ainda mantém insuperáveis seus caprichos espirituais, apesar da mudança dos tempos.

Há outros espíritos identificados com o Império Romano, como políticos, juízes, advogados e juristas que raciocinam a Justiça de forma seletiva e como a grande imprensa que permite fake news quando se voltam contra políticos de esquerda.

As lutas de MMA/UFC refletem o apego à antiga truculência dos gladiadores, o "funk" remete às orgias dos tempos romanos e a tecnocracia - que investe até na mobilidade urbana impondo "uniforme do governo" para os ônibus - apelam para a imposição de medidas incômodas e prejudiciais à população sob a desculpa de "sacrifícios necessários" em troca de "benefícios" que na verdade não são tão benéficos e eficazes assim.

O "espiritismo" brasileiro está mais próximo do estágio final do Império Romano, no qual se projetou o Catolicismo do Império Bizantino. A ideia do Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, trazida pelo homônimo livro de Chico Xavier, remete ao plano de criar um novo Império Romano em território brasileiro e um novo Catolicismo medieval sob o rótulo de "doutrina espírita".

Nas redes sociais, priorizam espíritos análogos aos macartistas e nazi-fascistas, que difundem mensagens ofensivas e difamatórias através do cyberbullying, ou criação de páginas ofensivas nas quais se usam até textos e fotos pessoais das vítimas, com o evidente objetivo de "assassinar reputações".

A violência extrema no Brasil, a corrupção político-econômica, e a complacência fácil aos erros graves, quando cometidos por "gente importante" - que dão margem ao surrado bordão "quem nunca errou na vida?" - , tudo isso remete a uma mentalidade atrasada que se torna confusa, na qual novas teorias não conseguem justificar práticas velhas, apesar de toda a ginástica mental feita por muitos.

E por que os espíritos atrasados demoram a se evoluir e encontraram no Brasil o paraíso para seus privilégios sem fim? A tendência dos antigos colonizadores europeus de transformar o país nascente num "depósito de lixo social" de Portugal influiu para que os primeiros degradados se tornassem, mais tarde, espíritos apegados à área tropical brasileira, de forma que sua influência retrógrada se reflete até hoje, sempre freando qualquer progresso brasileiro de uma forma ou de outra.

O "espiritismo" brasileiro não é exceção à regra e não está fora desse contexto, pois decidiu se inclinar ao Catolicismo de tal forma que, acentuando seu caráter conservador através de seu conteúdo de valores moralistas e radicalizando no seu igrejismo, a doutrina que finge continuar fiel a Kardec (se é que havia sido fiel um dia) já não consegue esconder sua verdadeira face, a de recuperar não as bases kardecianas originais, mas o velho Catolicismo jesuíta colonial.

Hoje o Brasil vive o desafio de ter que descartar espíritos atrasados. Durante séculos o país virou um "balneário" de espíritos de natureza bastante atrasada e primitiva, que reflete sempre nas velhas concessões que limitaram nosso progresso social em diversos aspectos, prejudicando em muitos casos a justiça social e a igualdade de direito e o atendimento justo das necessidades humanas.

Há todo um medo dos espíritos atrasados perderem seus privilégios e a "boa vida" que vivem no país tropical. Por enquanto, eles tentam empurrar com a barriga escândalos, punições, repúdios, decadências e até tragédias, buscando sobreviver por mais tempo e tentando obter a posse do futuro, mesmo apegados a valores do passado. O problema é quando essa moleza for acabar e o medo disso ocorrer é muito, muito.