quinta-feira, 30 de julho de 2015
Brasil banaliza e deturpa conceito de "filósofo"
O que é ser filósofo? É simplesmente alguém que busca a verdade? Não exatamente. Além disso, se o conceito de verdade é hoje impreciso e vivemos a época em que a supremacia das mentiras e meias-verdades faz com que o sentido de verdade seja corrompido, a filosofia também passa a ter seu sentido deturpado da mesma maneira, mas num contexto mais específico.
O mundo tem lá suas deturpações do conceito de filósofo, mas é no Brasil que seu conceito torna-se mais distorcido, levando-se em conta de que o país não tem um hábito regular e saudável de leitura, com o apego da população em bobagens literárias que estão em altas posições em boa parte das listas de livros mais vendidos no mercado brasileiro.
E quem não lê não consegue se informar o que realmente é um filósofo, algo muito mais além do sentido simplório de uma pessoa que busca a verdade. E buscar a verdade torna-se um processo muito mais complexo do que se pode imaginar.
A História da Filosofia não se faz com frases curtas de aparente sabedoria, nem com receituários místicos para uma vida melhor. Ela se faz quando questões diversas impulsionam algumas pessoas a elaborar um sistema de argumentos e raciocínios complexos que se manifesta numa determinada quantidade de livros.
Não é para qualquer um. Difícil haver pessoas que se disponham em analisar, de forma profunda e cautelosa, questões das mais diversas sobre a Humanidade, com livros que possam atravessar séculos pela sua validade lógica. Não é apenas uma questão de querer ser "bonzinho" e dar "lições positivas", mas abrir um debate lançando questões das mais complicadas e até conflituosas.
Existem correntes bastante divergentes porque, no decorrer dos séculos, sistemas de raciocínio filosófico eram sucessivamente questionados por outros que vieram. A evolução da sociedade permitiu que a filosofia passasse por essa multiplicidade de abordagens, como forma de tentar analisar e desvendar o complexo mundo do conhecimento.
Mas isso era esperado, porque desvendar as questões da Humanidade não era uma coisa fácil. E ser filósofo era abraçar de forma sistemática um roteiro de análises e estudos não muito fácil de fazer e difícil de ler pelos brasileiros que acham que ser "filósofo" é algo como um "bonzinho qualquer nota" e só se interessam em ler livros sobre cachorros com nome ou sobrenome de músicos famosos.
ATITUDE LAMENTÁVEL
O que preocupa é a unânime burrice de muitos internautas em definir como "filosofia" uma coleta de frases curtinhas que, independente de terem alguma lógica ou não, servem de pílulas de "sabedoria" para disfarçar a mediocridade, para não dizer indigência, intelectual das pessoas.
A preguiça de ler livros bem mais substanciais, muito mal compensada pela leitura eventual de livros best sellers não raro de qualidade literária duvidosa, faz com que esse hábito um tanto rasteiro de ficar colhendo apenas pequenas frases ou parágrafos substituísse a leitura de livros.
Não que não se pode pegar frases curtas que sintetizam um pensamento. O ato de colhê-las não é ruim em si, e pode ser bastante instrutivo. Mas depender disso para evitar a leitura de livros é algo perigoso, sobretudo quando pessoas sem um hábito regular e salutar de leitura sucumbem a falsa sabedoria dos oportunistas.
É humilhante ver que muitos consideram Chico Xavier e Divaldo Franco "filósofos". É humilhante, vergonhoso e deplorável. E muito, muito triste. E principalmente quando se leva em conta que o Brasil não conta de um filósofo cujo pensamento pudesse atravessar séculos, como os pensadores do "velho mundo".
Afinal, os dois se deixaram valer de um Brasil de frágil hábito de leitura para usarem arremedos de sabedoria para iludir as pessoas. As frases adocicadas de Chico Xavier, auto-ajuda de baixa categoria que tenta se nivelar (e mal) aos pensamentos orientais, são um exemplo festivamente aceito e difundido pelas pessoas de boa-fé que publicam fotos e arquivos nas mídias sociais.
Divaldo Franco, então, nem se fala. Com aquela vestimenta de pretenso professor, com aquela suposta elegância de fala e gestos, com sua verborragia sobrecarregada de referências e dados, ele tanta, através da oratória, o que seu amigo Chico Xavier tentou com seus textos, se passando por "filósofos" num país sem grandes filósofos.
Isso é extremamente ridículo. Afinal, sabemos que o "pensamento" difundido pelos dois não passa de auto-ajuda, de moralismo barato, de verborragia duvidosa, textos prolixos e ideias equivocadas e conflituantes, sem o mínimo compromisso de investir no ramo do Conhecimento, mas apenas expressando religiosismo da pior espécie.
As ideias de ambos os anti-médiuns não passam de reles receituários moralistas que mais se voltam ao conformismo do que à mobilização, e que em muitos casos causariam vergonha aos mais valiosos ativistas que lutaram pelas conquistas humanas.
Mistificadores baratos, modernos fariseus, artífices da manipulação da retórica, com seus desfiles de palavras bonitas que expressam ideias confusas e sem muita coerência, os dois anti-médiuns nem de longe podem ser considerados filósofos, porque é justamente a verdade que eles não querem procurar, pois "conhecimento" para eles é embalagem, e não conteúdo.
Afinal, os melhores filósofos podem até escrever muito, mas procuram ser bastante claros em suas abordagens, buscando uma explicação de suas análises e pontos de vista, ainda que tenham falhas geralmente denunciadas por correntes sucessoras.
Chico e Divaldo, no entanto, são confusos, prolixos e contraditórios em seus pontos de vista, de forma tão aberrante que a última coisa que se pode admitir deles - se é que existe alguma necessidade de admitir - é um mínimo esforço de desenvolver um sistema de conhecimentos com um mínimo de coerência e clareza de ideias.
Outro aspecto a se levar em conta é que a filosofia, sendo uma Ciência e motivada pelo processo racional de lançar ideias, tem seu significado deturpado por causa da emotividade. É a emoção subjetivista que atribui fulano e sicrano como "filósofos", mesmo quando eles contrariam severamente todo o sistema de busca do conhecimento que carateriza a Filosofia.
Os brasileiros sempre se deslumbram com as boas embalagens, mesmo quando elas escondem armadilhas traiçoeiras e serpentes venenosas. "Filosofia", para eles, é muito mais uma questão de forma do que de conteúdo, de expressão de estereótipos de sabedoria e simplicidade que mais confundem do que esclarecem as pessoas. Emoção demais perverte a lógica da razão humana.
quarta-feira, 29 de julho de 2015
"Espiritismo" está caminhando para ser o Opus Dei brasileiro
SEDE DO MOVIMENTO OPUS DEI, EM ROMA.
Um dos aspectos preocupantes que se observa no "movimento espírita" brasileiro em todas as facções que se comungam com o religiosismo extremo da doutrina e, por isso, se distanciam do pensamento científico de Allan Kardec, é o seu conservadorismo extremo.
A crise em que vive o "espiritismo" brasileiro e a forma com seus adeptos e líderes reagem faz com que a tão alardeada "fidelidade a Kardec" seja traída severamente em detrimento do que dizem eles, e tais reações indicam o radicalismo dos retrocessos da doutrina.
O aparente abandono de Jean-Baptiste Roustaing da maioria dos chamados "espíritas" não significa o abandono das ideias por ele difundidas. Sabemos que Francisco Cândido Xavier adaptou de maneira exemplar as ideias roustanguistas que os aspectos mais polêmicos do advogado francês foram descartados para não criar problemas.
Através disso, investe-se na contraditória evocação parcial do cientificismo de Allan Kardec, só que de uma forma bastante pedante e atrapalhada em relação ao pensamento do pedagogo de Lyon. Essa evocação é mesclada com o repertório moralista e religiosista do "espiritismo", mantendo as contradições que se tornaram oficialmente vigentes a partir de 1975.
Só que essa postura indica o crescente conservadorismo do "espiritismo", que trocou as ideias progressistas de Allan Kardec pelo conservadorismo piegas das mensagens diabéticas de Chico Xavier, e sua mediunidade discutível e cheia de fraudes. O conservadorismo se firmou de modo que hoje o "espiritismo" já está caminhando para os níveis de uma Opus Dei.
Para quem não sabe, a Opus Dei é uma facção da Igreja Católica fundada em 02 de outubro de 1928 (por pouco não coincide com o aniversário de Kardec, que é 03 de outubro) pelo sacerdote espanhol Josemaria Escrivá de Balaguer, canonizado pelo Vaticano em 2002.
Em tese, o Opus Dei, nome em latim que significa "obra de Deus", tem como objetivo reforçar a evangelização da Igreja Católica difundindo a "vida cristã no mundo, no trabalho, na família e a chamada universal à santidade e ao valor santificador do trabalho cotidiano".
O movimento Opus Dei é definido pelo Vaticano como Prelazia Pessoal, um status de instituição ligada à Igreja Católica, constituída de prelados (autoridades eclesiásticas), clérigos e leigos ligados a missões pastorais mas diferentes das dioceses por não serem delimitadas geograficamente.
O Opus Dei, no Brasil, tem como adeptos o casal Geraldo Alckmin (governador de São Paulo) e Lu Alckmin, o político Gabriel Chalita e o jornalista de O Estado de São Paulo, Carlos Alberto Di Franco (também do direitista Instituto Millenium, de Rodrigo Constantino, Guilherme Fiúza, Pedro Bial e do ator "espírita" Carlos Vereza, que interpretou Bezerra de Menezes no cinema).
A instituição é considerada neo-medieval, pela visão extremamente tradicionalista do Catolicismo apostólico romano. Além disso, o movimento Opus Dei é também conhecido pelo seu apoio dado à ditadura do general espanhol Francisco Franco.
Aparentemente, o Opus Dei se anunciava como um movimento "humanista", enquanto respaldava um conservadorismo ideológico. É o mesmo caminho que vemos nos "espíritas", que embora jurem apreciar os novos tempos e a racionalidade científica, seguem um moralismo que torna-se a cada tempo mais próximo do Catolicismo medieval.
Esse é o medo. E vendo que o Catolicismo em geral se torna relativamente mais avançado, pois, dentro dos seus limites ideológicos, consegue se adaptar a novos valores sociais, os "espíritas" se congelam nos mesmos valores ideológicos e nas suas contradições, que a gente imagina se os integrantes do Opus Dei não gostariam de trocar a Igreja Católica pelo "movimento espírita".
Um dos aspectos preocupantes que se observa no "movimento espírita" brasileiro em todas as facções que se comungam com o religiosismo extremo da doutrina e, por isso, se distanciam do pensamento científico de Allan Kardec, é o seu conservadorismo extremo.
A crise em que vive o "espiritismo" brasileiro e a forma com seus adeptos e líderes reagem faz com que a tão alardeada "fidelidade a Kardec" seja traída severamente em detrimento do que dizem eles, e tais reações indicam o radicalismo dos retrocessos da doutrina.
O aparente abandono de Jean-Baptiste Roustaing da maioria dos chamados "espíritas" não significa o abandono das ideias por ele difundidas. Sabemos que Francisco Cândido Xavier adaptou de maneira exemplar as ideias roustanguistas que os aspectos mais polêmicos do advogado francês foram descartados para não criar problemas.
Através disso, investe-se na contraditória evocação parcial do cientificismo de Allan Kardec, só que de uma forma bastante pedante e atrapalhada em relação ao pensamento do pedagogo de Lyon. Essa evocação é mesclada com o repertório moralista e religiosista do "espiritismo", mantendo as contradições que se tornaram oficialmente vigentes a partir de 1975.
Só que essa postura indica o crescente conservadorismo do "espiritismo", que trocou as ideias progressistas de Allan Kardec pelo conservadorismo piegas das mensagens diabéticas de Chico Xavier, e sua mediunidade discutível e cheia de fraudes. O conservadorismo se firmou de modo que hoje o "espiritismo" já está caminhando para os níveis de uma Opus Dei.
Para quem não sabe, a Opus Dei é uma facção da Igreja Católica fundada em 02 de outubro de 1928 (por pouco não coincide com o aniversário de Kardec, que é 03 de outubro) pelo sacerdote espanhol Josemaria Escrivá de Balaguer, canonizado pelo Vaticano em 2002.
Em tese, o Opus Dei, nome em latim que significa "obra de Deus", tem como objetivo reforçar a evangelização da Igreja Católica difundindo a "vida cristã no mundo, no trabalho, na família e a chamada universal à santidade e ao valor santificador do trabalho cotidiano".
O movimento Opus Dei é definido pelo Vaticano como Prelazia Pessoal, um status de instituição ligada à Igreja Católica, constituída de prelados (autoridades eclesiásticas), clérigos e leigos ligados a missões pastorais mas diferentes das dioceses por não serem delimitadas geograficamente.
A instituição é considerada neo-medieval, pela visão extremamente tradicionalista do Catolicismo apostólico romano. Além disso, o movimento Opus Dei é também conhecido pelo seu apoio dado à ditadura do general espanhol Francisco Franco.
Aparentemente, o Opus Dei se anunciava como um movimento "humanista", enquanto respaldava um conservadorismo ideológico. É o mesmo caminho que vemos nos "espíritas", que embora jurem apreciar os novos tempos e a racionalidade científica, seguem um moralismo que torna-se a cada tempo mais próximo do Catolicismo medieval.
Esse é o medo. E vendo que o Catolicismo em geral se torna relativamente mais avançado, pois, dentro dos seus limites ideológicos, consegue se adaptar a novos valores sociais, os "espíritas" se congelam nos mesmos valores ideológicos e nas suas contradições, que a gente imagina se os integrantes do Opus Dei não gostariam de trocar a Igreja Católica pelo "movimento espírita".
terça-feira, 28 de julho de 2015
Os kardecianos hesitantes
HÁ QUEM QUEIRA MASCARAR O LIVRO O CONSOLADOR, DE CHICO XAVIER E EMMANUEL, COM A CAPA DE O LIVRO DOS ESPÍRITOS NA TRADUÇÃO DE HERCULANO PIRES.
Existe uma espécie de questionadores dos vícios do "espiritismo" brasileiro que reclamam as bases autênticas de Allan Kardec. Acertam quando reclamam que a doutrina é corrompida por conceitos e práticas que contrariam o que o pedagogo francês havia escrito e ensinado em suas obras.
No entanto, são questionadores que não vão muito além de fazer tais reclamações, e nota-se entre eles a complacência em relação a Francisco Cândido Xavier e, em muitos outros casos, Divaldo Franco, e o pouco ou nenhum questionamento quanto às práticas duvidosas de "mediunidade" feitas no Brasil.
Eles são os "kardecianos hesitantes", que até procuram ler as traduções de José Herculano Pires das obras de Allan Kardec e reclamar da forma como se descrevem, por exemplo, os mundos espirituais, com crianças, bichinhos, campo de golfe, hospitais que parecem grandes centros comerciais, rosas com espinhos, umbrais com pessoas que mais parecem zumbis de filme B.
No entanto, eles se revoltam quando os questionamentos desqualificam Chico Xavier e Divaldo Franco e põem em xeque sua competência mediúnica. Ainda que essa competência se comprove bastante limitada, tantas as denúncias de pastiches e fraudes envolvendo os dois, os kardecianos hesitantes acham isso "um exagero" e tentam defender ambos.
Eles acham que a "mediunidade" dos dois é "altamente confiável", e que ambos podem ser reaproveitados mesmo quando se deixa de lado as abordagens febianas e "trans-febianas", termo relativo aos focos de "espiritismo cristão" observados em dissidentes ou "independentes" como Waldo Vieira, Zíbia Gasparetto, Alamar Régis Carvalho, Robson Pinheiro, Jardel Gonçalves etc.
Chico Xavier é o caso ainda mais frequente, já que existe um apego preocupante dos brasileiros à sua figura, sejam "espíritas cristãos" ligados ou não à FEB, sejam kardecianos hesitantes, sejam pessoas que nem se declaram "espíritas", mas espiritualistas simpatizantes.
Isso porque, no caso dos kardecianos hesitantes, que têm até a intenção de recuperar as bases originais de Kardec, no entanto sentem uma inexplicável complacência com Chico Xavier, talvez com peninha de sua figura estereotipada de caipira frágil dos primórios e do velhinho humilde do restante da vida.
Só que eles não sabem o que fazer com Xavier. Tentam defendê-lo, justificam sua inocência em qualquer polêmica, e, quando não conseguem desmentir suas falhas, se limitam a dizer que "ele errou e precisa ser desculpado por isso". Só não conseguem esclarecer como aproveitar o anti-médium na hipótese de se recuperar, no Brasil, as bases do pensamento de Kardec.
Pelo contrário, eles caem em muitas contradições. Em certos momentos, eles descrevem Chico Xavier como a vítima inconsciente de muitos erros do "movimento espírita". Em outros, o descrevem como um líder não aproveitado da Doutrina Espírita, um poderoso ativista em prol da caridade humana.
Eles não conseguem definir se o anti-médium mineiro era firme ou submisso, achando que sua atividade dita mediúnica era "100% confiável" e que seus inúmeros erros, que os kardecianos hesitantes subestimam, devem ser "desculpados" porque Chico Xavier era uma pessoa ligada à "caridade" e à defesa da "fraternidade".
Dessa maneira, os kardecianos hesitantes não conseguem explicar essas contradições, e com isso também não conseguem estabelecer uma base realmente kardeciana, porque coloca os erros práticos dos "espíritas" debaixo do tapete, achando que os equívocos estão apenas na teoria e em algumas práticas.
Eles não sabem do que aproveitar de Chico Xavier, e, fora descartar os livros de Emmanuel, reconhecido por eles como o padre jesuíta Manoel da Nóbrega, obras que mais explicitam os erros de abordagem da Doutrina Espírita - junto à "série André Luiz" - , não sabem qual a obra xavieriana que poderiam aceitar, além das frases adocicadas de seus depoimentos e entrevistas.
Mesmo o caso André Luiz causa controvérsias. Afinal, praticamente apenas Nosso Lar e alguns livros derivados (como Missionários da Luz) são questionados severamente pelos kardecianos hesitantes, que ainda se dividem quanto à validade da "teoria mediúnica" de Nos Domínios da Mediunidade.
Por outro lado, os kardecianos hesitantes tendem a legitimar os conteúdos de Parnaso de Além-Túmulo, a coleção de pastiches poéticos que inaugurou a "psicografia" xavieriana, da mesma forma que veem veracidade nas obras que levam o nome de Humberto de Campos, embora admitam a ridicularidade do conteúdo de Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho.
Embora eles preguem o respeito e a apreciação do cientificismo de Kardec, eles evitam fazer qualquer questionamento com as atividades "espíritas" feitas no Brasil pelos "peixes grandes" (incluindo Xavier e Franco), levando em conta a mesma temeridade que, no Catolicismo, é definida pelo nome de "mistérios da fé".
Assim, eles preferem se abster da veracidade ou não das supostas "cartas mediúnicas", e não se encorajam em questionar, por exemplo, as atividades literárias ou artísticas atribuídas a espíritos de falecidos, exceto casos escancarados, como as supostas psicografias de roqueiros brasileiros, já que eles, muito populares e conhecidos, são abordados pelas mensagens de forma caricatural e cheia de contradições.
O que se pode concluir sobre os kardecianos hesitantes existentes no Brasil é que eles são um estágio ainda tímido e primitivo de busca de uma abordagem espírita autêntica. Ainda se apegam a fatos circunstanciais como a amizade de Chico Xavier e José Herculano Pires, que não reflete exatamente na viabilidade de aproveitar o anti-médium na recuperação do pensamento kardeciano, do contrário que essa facção tímida dos kardecianos tenta ainda acreditar.
Portanto, essa postura ainda não consegue compreender a natureza original da doutrina de Allan Kardec. Deixa passar boa parte das fraudes e mistificações do "espiritismo" brasileiro, tanto pelo medo de avaliar essas práticas quanto pela complacência de estereótipos de "humildade, amor e caridade" que não se encorajam em contestar.
Com isso, a lição de Allan Kardec continua sendo parcialmente apreciada. Da parte dos kardecianos hesitantes, o pensamento de Kardec pode até ser aceito com correção e profundidade, mas tudo acaba ficando apenas na teoria, enquanto, na prática, continuam valendo as fraudes e mistificações que o "espiritismo" brasileiro continua fazendo.
Existe uma espécie de questionadores dos vícios do "espiritismo" brasileiro que reclamam as bases autênticas de Allan Kardec. Acertam quando reclamam que a doutrina é corrompida por conceitos e práticas que contrariam o que o pedagogo francês havia escrito e ensinado em suas obras.
No entanto, são questionadores que não vão muito além de fazer tais reclamações, e nota-se entre eles a complacência em relação a Francisco Cândido Xavier e, em muitos outros casos, Divaldo Franco, e o pouco ou nenhum questionamento quanto às práticas duvidosas de "mediunidade" feitas no Brasil.
Eles são os "kardecianos hesitantes", que até procuram ler as traduções de José Herculano Pires das obras de Allan Kardec e reclamar da forma como se descrevem, por exemplo, os mundos espirituais, com crianças, bichinhos, campo de golfe, hospitais que parecem grandes centros comerciais, rosas com espinhos, umbrais com pessoas que mais parecem zumbis de filme B.
No entanto, eles se revoltam quando os questionamentos desqualificam Chico Xavier e Divaldo Franco e põem em xeque sua competência mediúnica. Ainda que essa competência se comprove bastante limitada, tantas as denúncias de pastiches e fraudes envolvendo os dois, os kardecianos hesitantes acham isso "um exagero" e tentam defender ambos.
Eles acham que a "mediunidade" dos dois é "altamente confiável", e que ambos podem ser reaproveitados mesmo quando se deixa de lado as abordagens febianas e "trans-febianas", termo relativo aos focos de "espiritismo cristão" observados em dissidentes ou "independentes" como Waldo Vieira, Zíbia Gasparetto, Alamar Régis Carvalho, Robson Pinheiro, Jardel Gonçalves etc.
Chico Xavier é o caso ainda mais frequente, já que existe um apego preocupante dos brasileiros à sua figura, sejam "espíritas cristãos" ligados ou não à FEB, sejam kardecianos hesitantes, sejam pessoas que nem se declaram "espíritas", mas espiritualistas simpatizantes.
Isso porque, no caso dos kardecianos hesitantes, que têm até a intenção de recuperar as bases originais de Kardec, no entanto sentem uma inexplicável complacência com Chico Xavier, talvez com peninha de sua figura estereotipada de caipira frágil dos primórios e do velhinho humilde do restante da vida.
Só que eles não sabem o que fazer com Xavier. Tentam defendê-lo, justificam sua inocência em qualquer polêmica, e, quando não conseguem desmentir suas falhas, se limitam a dizer que "ele errou e precisa ser desculpado por isso". Só não conseguem esclarecer como aproveitar o anti-médium na hipótese de se recuperar, no Brasil, as bases do pensamento de Kardec.
Pelo contrário, eles caem em muitas contradições. Em certos momentos, eles descrevem Chico Xavier como a vítima inconsciente de muitos erros do "movimento espírita". Em outros, o descrevem como um líder não aproveitado da Doutrina Espírita, um poderoso ativista em prol da caridade humana.
Eles não conseguem definir se o anti-médium mineiro era firme ou submisso, achando que sua atividade dita mediúnica era "100% confiável" e que seus inúmeros erros, que os kardecianos hesitantes subestimam, devem ser "desculpados" porque Chico Xavier era uma pessoa ligada à "caridade" e à defesa da "fraternidade".
Dessa maneira, os kardecianos hesitantes não conseguem explicar essas contradições, e com isso também não conseguem estabelecer uma base realmente kardeciana, porque coloca os erros práticos dos "espíritas" debaixo do tapete, achando que os equívocos estão apenas na teoria e em algumas práticas.
Eles não sabem do que aproveitar de Chico Xavier, e, fora descartar os livros de Emmanuel, reconhecido por eles como o padre jesuíta Manoel da Nóbrega, obras que mais explicitam os erros de abordagem da Doutrina Espírita - junto à "série André Luiz" - , não sabem qual a obra xavieriana que poderiam aceitar, além das frases adocicadas de seus depoimentos e entrevistas.
Mesmo o caso André Luiz causa controvérsias. Afinal, praticamente apenas Nosso Lar e alguns livros derivados (como Missionários da Luz) são questionados severamente pelos kardecianos hesitantes, que ainda se dividem quanto à validade da "teoria mediúnica" de Nos Domínios da Mediunidade.
Por outro lado, os kardecianos hesitantes tendem a legitimar os conteúdos de Parnaso de Além-Túmulo, a coleção de pastiches poéticos que inaugurou a "psicografia" xavieriana, da mesma forma que veem veracidade nas obras que levam o nome de Humberto de Campos, embora admitam a ridicularidade do conteúdo de Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho.
Embora eles preguem o respeito e a apreciação do cientificismo de Kardec, eles evitam fazer qualquer questionamento com as atividades "espíritas" feitas no Brasil pelos "peixes grandes" (incluindo Xavier e Franco), levando em conta a mesma temeridade que, no Catolicismo, é definida pelo nome de "mistérios da fé".
Assim, eles preferem se abster da veracidade ou não das supostas "cartas mediúnicas", e não se encorajam em questionar, por exemplo, as atividades literárias ou artísticas atribuídas a espíritos de falecidos, exceto casos escancarados, como as supostas psicografias de roqueiros brasileiros, já que eles, muito populares e conhecidos, são abordados pelas mensagens de forma caricatural e cheia de contradições.
O que se pode concluir sobre os kardecianos hesitantes existentes no Brasil é que eles são um estágio ainda tímido e primitivo de busca de uma abordagem espírita autêntica. Ainda se apegam a fatos circunstanciais como a amizade de Chico Xavier e José Herculano Pires, que não reflete exatamente na viabilidade de aproveitar o anti-médium na recuperação do pensamento kardeciano, do contrário que essa facção tímida dos kardecianos tenta ainda acreditar.
Portanto, essa postura ainda não consegue compreender a natureza original da doutrina de Allan Kardec. Deixa passar boa parte das fraudes e mistificações do "espiritismo" brasileiro, tanto pelo medo de avaliar essas práticas quanto pela complacência de estereótipos de "humildade, amor e caridade" que não se encorajam em contestar.
Com isso, a lição de Allan Kardec continua sendo parcialmente apreciada. Da parte dos kardecianos hesitantes, o pensamento de Kardec pode até ser aceito com correção e profundidade, mas tudo acaba ficando apenas na teoria, enquanto, na prática, continuam valendo as fraudes e mistificações que o "espiritismo" brasileiro continua fazendo.
segunda-feira, 27 de julho de 2015
"Espiritismo" se nivela a retrocessos religiosos do tempo de Jesus
Os rumos do "movimento espírita" no Brasil se tornam tão preocupantes que nota-se que a doutrina acaba recuperando os vícios e extravagâncias dos antigos aristocratas religiosos e dos exploradores da fé religiosa que eram tão combatidos por Jesus de Nazaré.
Muito se superestimou tanto o caráter bondoso de Jesus de Nazaré quanto das críticas que ele fazia às elites religiosas de seu tempo. Da primeira forma, ele reduziu-se a um patético e piegas pacifista a ser complacente com a crueldade dos homens, Da segunda forma, Jesus foi convertido num ferrenho "senhor dos exércitos" que não obstante combatia a caridade que ele próprio defendia.
Mas Jesus buscava a coerência e ela não é devidamente compreendida, porque o Jesus histórico hoje é praticamente pouco conhecido e ainda depende de descobertas e pesquisas arqueológicas, históricas, sociológicas e antropológicas para analisar sua pessoa humana fora da mistificação religiosa não raro surreal e fantasiosa.
Jesus demonstrava profundo conhecimento político e uma análise bastante abrangente da sociedade. Muito das conversas que ele dava quando visitava as casas das pessoas se perdeu. As conversas que permaneceram para a posteridade foram dadas por terceiros, mas o tendenciosismo religioso do Império Romano fez criar toda uma série de deturpações ao longo dos séculos.
O que se sabe é que Jesus não aprovava a pompa religiosa da época. Exemplificava fariseus e saduceus, que, apesar de diferentes, se uniam pelo excesso de formalidades religiosas que os faziam distantes da sociedade.
Jesus criticava todas as práticas religiosas de ritos, dogmas e extravagâncias que, depois, passaram a fazer parte também do Catolicismo medieval, que se apropriava do carisma de Jesus para distorcer suas lições originais. Nas mãos dos medievais, Jesus tornou-se seu anti-cristo.
O "avanço" do Catolicismo medieval se propagou por toda a Europa e se prolongou em países como Portugal, considerado um dos menos desenvolvidos do continente, que adotava práticas medievais até meados do século XIX, quando o Reino Unido e a França viviam transformações profundas de caráter político, científico e econômico, em que pese o despotismo bonapartista francês.
O Catolicismo português, de moldes medievais, influenciou diretamente o "desenho" da mentalidade religiosa do Brasil colonial, com a ação de padres jesuítas, como Padre Anchieta e Padre Manoel da Nóbrega (que "reapareceu" como Emmanuel, o mentor de Francisco Cândido Xavier), cuja hegemonia se encerrou no século XVIII, mas deixando profundo legado para a posteridade.
POMPAS, RITOS E FALSAS MODÉSTIAS
Com isso, os jesuítas foram reabilitados quando católicos com algumas práticas flexíveis e conhecedores superficiais da obra de Allan Kardec, sobretudo a partir de O Evangelho Segundo o Espiritismo, decidiram fundar o "movimento espírita", já na década de 70 do século XIX, mas oficialmente consagrada com a fundação da Federação "Espírita" Brasileira em 1884.
Desde então, surgiram "centros espíritas" que aos poucos evocaram espíritos de freis, sorores, freiras, irmãos, irmãs, padres, santos que passaram a ser seus "protetores espirituais". Uma multidão de jesuítas "há muito desencarnados" passou a ser orientadora das atividades "espíritas" realizadas até hoje.
E aí surgem as mistificações e deturpações que conhecemos. Surgem as abordagens moralistas e apenas os ritos religiosos são mais "modestos" em relação aos católicos. No entanto o "espiritismo" nem por isso tornou-se melhor que a Igreja Católica.
Pelo contrário, o "espiritismo" reproduziu as piores qualidades do Catolicismo medieval, tirando apenas os pontos mais coercitivos e inserindo no seu conteúdo práticas hereges duvidosas, feitas sob o rótulo de "mediunidade".
Mesmo assim, nota-se que a pompa religiosa dos "espíritas" não difere muito dos fariseus e saduceus dos tempos de Jesus. Da mesma forma, os vendilhões dos templos que encontram paralelo exato nos neo-pentecostais, também não deixam de ter seus equivalentes no "espiritismo". Vide o mercado de livros "espíritas", com suas grandes vendas "para a caridade".
Se, nos tempos de Jesus, os sacerdotes que ele criticava tiravam onda nos seus templos e se sentavam nos bancos da frente para orarem, fingindo falsa humildade e bajulando suas divindades com doações ínfimas e orações que mais se destacam pela forma das palavras do que pelo conteúdo e intenção, no "espiritismo" a coisa não é diferente.
Vide, por exemplo, a falsa imponência de Divaldo Franco. que como um fariseu moderno faz pose de suposta serenidade, fazendo suas orações com a beleza das palavras arrumadas, que acobertam o envaidecimento e o charlatanismo de sua religiosidade espetacularizada pela verborragia discursiva.
Ou então o falso lirismo que envolve Chico Xavier e suas frases diabéticas de auto-ajuda barata, que servem apenas como adornos de pompa religiosa que apresentam uma humildade de fachada e um verniz de falsa simplicidade que se apoia, sobretudo, em uma bibliografia contraditória, confusa, prolixa e de leitura bastante pesada e penosa.
O que Jesus faria com os "espíritas" brasileiros? Iria acolhê-los como velhos amigos e abraçá-los com o maior carinho fraterno? Não. Jesus lhes decepcionaria, chamando-os de hipócritas, bajuladores e exploradores da boa-fé humana, usurpadores de tragédias familiares, mistificadores de segunda categoria e plagiadores literários, já que é difícil enganar o bastante culto e observador Jesus.
Afinal, trata-se da velha pompa, das velhas extravagâncias, dos velhos e velhacos envaidecimentos, do verniz de perfeição e humildade tão viscosos quanto o da pretensa simplicidade dos fariseus e saduceus. Sem falar do comércio de livros "espíritas", literatura ruim que se baseia em moralismos e mistificações.
Tudo isso lembra a velha hipocrisia religiosa que Jesus combatia, com suas palestras bastante informativas e esclarecedoras, e claras e fáceis de entender do contrário das complicações rebuscadas e prolixas dos velhos religiosos que o ativista judeu contestava. O "espiritismo" resgatou essa velha hipocrisia e apenas adaptou-a aos contextos atuais, sem no entanto eliminar sua essência.
domingo, 26 de julho de 2015
'A Vida Além do Véu', o livro que inspirou 'Nosso Lar'
Uma das matrizes para a compreensão surreal da vida espiritual, feita à revelia dos estudos sérios e das pesquisas cautelosas e criteriosas da Ciência Espírita, está na obra de um reverendo protestante inglês, George Vale Owen, através do livro A Vida Além do Véu (Life Beyond the Veil).
Tendo vivido entre 1869 e 1931, George nasceu em Birmingham e formou-se na Queen's College em Oxford. Ordenou-se sacerdote anglicano em Liverpool, em 1893. Depois que sua mãe faleceu, em 1909, alegou adquirir habilidades mediúnicas. dizendo ter recebido um espírito mentor, Astriel.
Em seguida, recebeu um espírito que se autodenominou "Leader" ("Líder", em inglês), que, descrevendo também a suposta vida espiritual, ditou o texto do livro Ministério do Céu, fazendo a maior parte das comunicações posteriores e o texto do livro Os Batalhões do Céu. Leader, guia espiritual de Owen, passou a se chamar Ariel, nome creditado nessas comunicações e nos livros.
Passou a escrever livros com mensagens atribuídas a vários espíritos. Um desses livros foi A Vida Além do Véu, lançado em 1913, prefaciado pelo espírita de primeira viagem, o bem intencionado mas não muito especializado (pelo menos nos níveis de Allan Kardec) Arthur Conan Doyle, o famoso autor das instigantes estórias de Sherlock Holmes.
O livro foi lançado em 1920 no Brasil, através da editora da Federação "Espírita" Brasileira. Seu tradutor, no entanto, foi Carlos Imbassahy, o pai, que havia sido um dos autênticos espíritas brasileiros e voltados à base doutrinária de Allan Kardec.
A tradução do livro e seu lançamento no Brasil foram feitos para estimular o debate sobre a vida espiritual, através de um relato já considerado controverso, supostamente ditado por vários espíritos a respeito do que se imagina ser o mundo espiritual. E, se o "espiritismo" brasileiro é catolicizado, nota-se a herança protestante no trabalho de Owen.
GEORGE VALE OWEN.
O enredo de A Vida Além do Véu começa com a divagação sobre assuntos ligados a fé religiosa ao lado de abordagens pretensamente filosóficas e científicas. Em seguida, mostra a evolução do espírito na erraticidade, mostrando colônias espirituais. Bem antes do livro, Astriel havia descrito esse "cenário" nos livros Os Baixos Campos (ou Planos) do Céu e Os Altos Campos (ou Planos) do Céu.
Owen descreve uma suposta cidade espiritual chamada Castrel, uma colônia destinada a atender espíritos de pessoas falecidas na infância. Seria um cruzamento de "hospital" com "escola" que prepararia as crianças para serem enviadas para outros planos espirituais, assim que atingissem a fase adulta.
Há também a "região das trevas", nas quais espíritos considerados mais evoluídos são enviados para prestar assistência e orientação moral. O livro encerra com conceitos tidos como espíritas. A mãe de Owen e Ariel se destacam entre os aparentes mensageiros espirituais.
TABELA DO BLOGUE OBRAS PSICOGRAFADAS COMPARANDO O LIVRO DE OWEN COM UMA DAS "PSICOGRAFIAS" DE CHICO XAVIER.
Antes de Nosso Lar, Francisco Cândido Xavier teria iniciado o plágio de A Vida Além do Véu através de Cartas de Uma Morta, de 1935, livro atribuído à psicografia de Maria João de Deus, mãe do anti-médium mineiro.
O livro seria o primeiro em que Chico Xavier arrisca a descrever a "vida espiritual". Depois do "ambicioso" livro poético Parnaso de Além-Túmulo, que ganhava segunda edição em 1935, o anti-médium ainda posava para fotos de O Globo, mostrando um semblante assustador olhando de frente.
Também em 1935, Xavier alegava ter sonhado com Humberto de Campos, o que "justificou" a apropriação do carisma do autor falecido em 1934. Quando a Cartas de Uma Morta, o blogue Obras Psicografadas não só apresenta tabela comparativa (ver acima) como fez outras comparações, referentes à natureza da narrativa:
1º) Uma mãe desencarnada (espírito) se comunicando com o filho na Terra.
2º) A narrativa feita pela mãe do local onde se encontra e um evento, marcado pela reunião de espíritos, que ouvem uma palestra.
3º) O ponto máximo da palestra, marcado por orações e flores que caem sobre os presentes.
4º) A citação de que no momento de clímax do evento, ocorrem mudanças na “atmosfera”: O céu pareceu ter intensificado sua cor / Um luar indescritível, projetando-se …
Sobre Nosso Lar, que inferimos ter sido um trabalho "conjunto" em que Chico Xavier não só plagiou o livro de Owen como teria recebido sugestões de Wantuil de Freitas. da FEB, e até do então pré-adolescente e depois parceiro Waldo Vieira, já considerado "médium" e fã de HQ, inclusive de ficção científica, a "colônia espiritual" era copiada da Universidade das Cinco Torres do livro de Owen.
O que se comprova é que A Vida Além do Véu foi fonte de muitos plágios de Chico Xavier, que dele se serviu para copiar vários de seus trechos, o que faz com que boa parte das psicografias associadas ao anti-médium mineiro percam a credibilidade que fazem a sua fama e prestígio.
Se os herdeiros de George Vale Owen tivessem sabido disso, teriam processado Chico Xavier. Só que a justiça britânica não seria moleza e não haveria o desconhecimento manifesto pelos juízes brasileiros. O anti-médium mineiro estaria frito, nesta situação.
sábado, 25 de julho de 2015
Frase de antropóloga dos EUA contraria "filosofia" de Chico Xavier
Com o caso da jovem negra Sandra Bland, cujo provável assassinato dentro da prisão causou grande revolta nos EUA e, em parte, no resto do mundo, uma frase da antropóloga, romancista e ativista estadunidense Zora Neale Hurston veio à tona. Antes de falarmos dessa notável intelectual estadunidense, vamos explicar o caso que aconteceu recentemente.
Sandra Bland, ativista nascida em Chicago, tinha 28 anos e, vivendo em Waller County, no Texas, estava dirigindo seu carro quando foi detida por um policial branco que alegava que ela não havia obedecido a sinalização do trânsito.
O tira ainda implicou com o fato dela fumar dentro de seu carro, e ela reclamou dizendo que tinha direito de fazê-lo. Irritado e armado de um aparelho que produzia choque elétrico, o guarda forçou Sandra a sair do carro, jogando-a no chão, onde ficou deitada até ser algemada e levada para a prisão.
No último dia 13 de julho, Sandra Bland foi encontrada morta, e aparentemente uma autópsia no seu cadáver alegou que ela "havia se suicidado". Movimentos de defesa dos direitos humanos questionam o laudo e afirmam que as imagens divulgadas da prisão teriam sido editadas para atenuar a culpa do policial.
Várias celebridades manifestaram solidariedade à vítima em diversas declarações dadas nas mídias sociais. A frase de Zora Neale Hurston foi resgatada de uma ilustração publicada no Instagram da jovem atriz negra Amandla Stenberg, de Jogos Vorazes (Hunger Games), que recentemente se envolveu numa polêmica com a sub-celebridade Kylie Jenner, por causa da apropriação tendenciosa da estética da cultura negra, através de um penteado no cabelo.
Zora Hurston nasceu em 1891 no Estado ultraconservador do Alabama. Trabalhou com uma geração de antropólogos, como Franz Boas e Margareth Mead, que, influenciados pela Escola dos Annales dos franceses Marc Bloch e Lucien Febvre, rompiam com abordagens eurocêntricas da Antropologia, passando a abordar uma visão mais realista e abrangente da humanidade.
Ela escreveu romances, chegou a ser atriz de teatro, foi casada com um músico de jazz e depois com um rapaz bem mais jovem do que ela. Zora faleceu doente, poucas semanas depois de completar 69 anos de idade, em 1960, época em que os movimentos contra o racismo se intensificavam nos EUA.
A FRASE QUE DERRUBA O PENSAMENTO DE CHICO XAVIER
Com impressionante lucidez, Zora Hurston havia dito uma frase contra a submissão das pessoas, e que serve de lição para o problema do racismo, principalmente nos Estados do Texas e do Alabama, famosos por abrigarem grupos brancos que defendem radicalmente a segregação racial.
Zora disse: "If you are silent about your pain, they'll kill you and say you enjoyed it" ("Se você fica calado a respeito de sua dor, eles irão matá-lo e dizer que você adorou isso"). É uma frase enérgica e realista, e que denuncia o sadismo hipócrita dos algozes.
Isso é muito diferente das frases "dóceis" de Chico Xavier que os brasileiros tão debilmente publicam nas redes sociais. Chico queria o "sofrimento em silêncio", o "consolo" restrito à prece, e não raro dizia para as pessoas "sofrerem amando", esperando as bonanças que viriam depois, provavelmente no além-túmulo.
Veja que diferença. Zora condenava a passividade e a complacência com a opressão. Chico queria o perdão, a misericórdia e até o sentimento masoquista de sofrer a dor "com amor". E é assustador que os brasileiros deem preferência à frase de Chico Xavier, que ideologicamente era uma das pessoas mais retrógradas do país.
É assustador que o mundo gira e que exemplos de coerência se observam lá fora, enquanto o Brasil, em sua recente onda de provincianismo, prefere seu narcisismo que cria totens e valores retrógrados, fora da realidade e sem muito proveito ou benefício reais.
Daí a sabedoria de Zora diante da pseudo-filosofia do anti-médium mineiro. Este queria que os brasileiros se prostrassem no sofrimento sem solução, aguentando tudo com paciência subserviente, daí a urgência de recorrermos à frase de uma intelectual estrangeira para tirar os brasileiros de suas fantasias infantis.
Pela frase de Zora, faz sentido o masoquismo dos chiquistas. Eles preferem ficar calados na dor, enquanto os algozes os matam, literal ou simbolicamente através dos infortúnios. Então os algozes vão logo dizendo para os chiquistas que eles adoraram esse flagelo. Mas aí os chiquistas agradecem e dizem amém.
sexta-feira, 24 de julho de 2015
Chico Xavier, Emmanuel e homossexualismo
Lançado em 1970, o livro Vida e Sexo, da safra Emmanuel / Chico Xavier, se encontra num contexto em que o anti-médium mineiro precisava moderar um pouco no conservadorismo acentuado (mas digerível por meio de suas palavras dóceis) que marcou sua trajetória.
Era a época em que o movimento hippie, mesmo tendo se tornado um modismo desgastado nos EUA (maculado pelos episódios da violência dos Hell's Angels em Altamont e da chacina dos seguidores da seita de Charles Manson), começava a se propagar pelo mundo.
E, como no Brasil as coisas começam a ocorrer muito tarde, foi em 1970 que o movimento hippie começou a pegar de vez e, pasmem, ainda se encontravam hippies pelas ruas brasileiras no começo dos anos 1980.
E aí Chico Xavier tentava pegar carona no psicodelismo. Um exemplo é o tal "sonho" de 1969 que o fez um simulacro de profeta com pretensões de cientista, cientista político e estrategista geográfico dos mais infelizes, com graves erros sociológicos, geográficos e geológicos que anulam qualquer validade de sua "linda profecia".
Entre o "sonho" de 1969 e os ajustes na suposta psicografia de Jair Presente, em que a primeira mensagem saiu "no estilo Chico Xavier" e as demais viraram um caricato amontoado de gírias hippies com narrativa forçadamente alucinógena, houve também um posicionamento um tanto tendencioso quanto ao assunto do momento, o homossexualismo.
Nota-se, na Contracultura dos anos 1960, que diversos movimentos sociais reclamavam liberdade e direitos, como os homossexuais, os negros, os universitários, o operariado e o campesinato, só para dizer os principais. Foi, na época, um fator inédito no mundo e, por incrível que pareça, já dava seus sinais no comecinho da década, quando aparentemente não havia psicodelia nem hippies.
Com isso, o machismo de Emmanuel e o moralismo dele e de Chico Xavier tinham que maneirar. Até pelo fato de Chico ter tido um jeito considerado efeminado de falar e agir, como um caipira tipicamente provinciano e submisso que era.
Tanto no livro Vida e Sexo quanto num momento na entrevista do anti-médium mineiro no programa Pinga-Fogo, da TV Tupi de São Paulo, a postura chiquista-emmanueliana sobre o homossexualismo parece "favorável", mas não menos preconceituosa. Observem as seguintes declarações, primeiro, do livro e, depois, da entrevista no programa da Tupi. Depois, nossas considerações:
A homossexualidade, hoje chamada também transexualidade, definindo-se, no conjunto de suas caraterísticas, por tendência da criatura para a comunhão afetiva com outra criatura do mesmo sexo, não encontra explicação fundamental nos estudos psicológicos de base materialista mas é perfeitamente compreensível à luz da reencarnação.
Embora a sociedade terrena seja constituída, em sua maioria, por criaturas heterossexuais, o mundo vê, na atualidade, em todos os países, extensas comunidades de irmãos em experiências dessa espécie, somando milhões de homens e mulheres solicitando atenção e respeito, em pé de igualdade ao respeito e à atenção devidos aos heterossexuais.
A vida espiritual pura e simples rege-se por afinidades eletivas essenciais; contudo, através de milênios e milênios, o Espírito passa por fileira imensa de reencarnações, ora em posição de feminilidade, ora em condições de masculinidade, o que sedimenta o fenômeno da bissexualidade, mais ou menos pronunciado, em quase todas as criaturas.
O homem que abusou das faculdades genésicas, arruinando a existência de outras pessoas com a destruição de uniões construtivas e lares diversos, é em muitos casos induzido a buscar nova posição, no renascimento físico, em corpo morfologicamente feminino, aprendendo, em regime de prisão, a reajustar os próprios sentimentos, ocorrendo o mesmo com a mulher que tenha agido de igual modo.
(FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER / EMMANUEL. VIDA E SEXO. FEB, 1970)
ALMYR GUIMARÃES Chico, tem aqui uma pergunta de dona Maria Lúcia Silva Gomes. Pergunta: "Como se explica o homossexualismo e a perturbação no comportamento sexual à luz da doutrina espírita?"
CHICO XAVIER Temos tido alguns entendimentos com Espíritos amigos e notadamente com Emmanuel a esse respeito.
O homossexualismo, tanto quanto a bissexualidade ou bissexualismo como a assexualidade são condições da alma humana. Não devem ser interpretados como fenômenos espantosos, como fenômenos atacáveis pelo ridículo da humanidade. Tanto quanto acontece com a maioria que desfruta de uma sexualidade dita normal, aqueles que são portadores de sentimentos de homossexualidade ou bissexualidade são dignos do nosso maior respeito. E acreditamos que o comportamento sexual na humanidade sofrerá de futuro revisões muito grandes, porque nós vamos catalogar, do ponto de vista de ciência, todos aqueles que podem cooperar na procriação e todos aqueles que estão numa condição de esterilidade.
A criatura humana não é só chamada à fecundidade física, mas também à fecundidade espiritual. Quando geramos filhos, através da sexualidade dita normal, somos chamados também à fecundidade espiritual, transmitindo aos nossos filhos os valores do espírito de que sejamos portadores.
Não nos referimos aqui aos problemas do desequilíbrio nem aos problemas da chamada viciação nas relações humanas. Estamos nos referindo a condições da personalidade humana reencarnada, muitas vezes portadora de conflitos que dizem respeito seja à sua condição de alma em prova ou à sua condição de criatura em tarefa específica.
De modo que o assunto merecerá muito estudo e poderemos voltar a ele em qualquer tempo que formos convidados Porque nós temos um problema em matéria de sexo na humanidade, que precisaríamos considerar com bastante segurança e respeito recíproco.
Se as potências do homem na visão, na audição, nos recursos imensos do cérebro nos recursos gustativos, nas mãos, na tatilidade com que as mãos executam trabalhos manuais, nos pés; se todas essas potências foram dadas ao homem para a educação, para o rendimento no bem, isto é, potências consagradas ao bem e à luz em nome de Deus, seria o sexo, em suas várias manifestações, sentenciado às trevas?
(ENTREVISTA DO PROGRAMA PINGA-FOGO, APRESENTADO POR ALMYR GUIMARÃES, TV TUPI DE SÃO PAULO, 28 DE JULHO DE 1971)
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Note-se que, apesar da postura "respeitosa", tanto Chico Xavier quanto Emmanuel não deixam de adotar um preconceito moralista, "não condenando" o homossexualismo no enunciado, mas condenando nos pormenores.
Observa-se que Chico Xavier credita a homossexualidade a uma espécie de confusão de identidade, pois essa opção se daria por causa dos "conflitos da alma" e sua avaliação sugere que a opção obedece a uma espécie de castigo reencarnacional por conta de uma sexualidade mal resolvida.
Já Emmanuel descreve que o homem torna-se homossexual como uma punição por ter arruinado relações conjugais construtivas em outra encarnação, como meio de "reajuste emocional", o mesmo ocorrendo com a mulher em semelhante condição de delito.
As duas frases, no entanto, parecem um "assopra-e-morde", porque, embora Emmanuel e Chico Xavier afirmem que os homossexuais "nossa maior atenção e respeito, em pé de igualdade com a atenção e respeito dados aos heterossexuais", nota-se um moralismo punitivo que transforma os homossexuais em condenados.
Isso é um grande absurdo. A questão sexual é apenas uma questão de escolha, e não de punição ou reajuste. É certo que muitas pessoas tornam-se homossexuais porque se desiludem com a vida heterossexual, mas isso não quer dizer que a condição de homossexualidade seja uma punição. Em muitos casos, pode ser apenas uma busca inusitada por prazer ou por uma nova paixão.
Portanto, o que se pode inferir é que Chico e Emmanuel só não puderam expressar homofobia porque, naqueles tempos em que o hoje conhecido movimento LGBTT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e trangêneros) estava a todo vapor nos EUA e Europa, os dois não poderiam se manter em valores considerados obsoletos.
Além do mais, esta postura, tendenciosa, "em respeito" aos homossexuais, iria também confrontar com a igualmente tendenciosa postura "fielmente espírita", já que Allan Kardec afirmava que o espírito não tem sexo e as encarnações podem variar quanto ao gênero. O moralismo chiquista apenas mudou os anéis para preservar os dedos sem trazer coisa alguma de moderno ou transformador.
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