quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Novos tempos?

PELO JEITO, ELES FARÃO O BRASIL SER O TAL "CORAÇÃO DO MUNDO".

Que novos tempos são estes? O delirante palestrante "espírita", Juliano Pozati, que corrobora teses da "data-limite" de Francisco Cândido Xavier que outro discípulo do "bondoso médium", Ariston Teles, renega com firmeza, parece otimista diante dos rumos do Brasil e da Terra.

É fácil usar a palavra "filosofia" e se apropriar de conhecimentos científicos de maneira pedante, para compor um repertório ideológico que mais tem a ver com messianismo religioso e predições esotéricas, dessas que compõem os horóscopos publicados diariamente na imprensa.

Coloca-se uma ilustração com o universo, destacando o planeta Terra, ou então figuras anatômicas humanas, desenhos humanoides despersonalizados, seja de corpo inteiro, seja só a cabeça, em diversos ângulos. E cria-se um discurso em cima, no qual conceitos esotéricos e religiosos se dissimulam numa verborragia pseudo-filosófica.

E aí vemos uma "filosofia" que nada tem de filosófica. Uma "filosofia" que não busca a verdade, mas uma forma igrejeira de ver estereótipos de "caridade" e "solidariedade". Se for da forma que Juliano Pozati, Geraldo Lemos Neto ou mesmo o próprio Divaldo Franco definem como "filosofia", o trevoso movimento Escola Sem Partido não precisa eliminar a disciplina Filosofia no ensino escolar.

Basta apenas deturpar. Eliminemos pensadores sérios como Sócrates, Platão, Kant, Weber, Nietzsche, Marx, Voltaire e coloquemos, no lugar, Chico Xavier, Divaldo Franco, Padre Marcelo Rossi, Edir Macedo, Lafayette Ron Hubbard (o "papa" da Cientologia), Silas Malafaia e similares.

Aí fica beleza. Uma "filosofia" em que nem o "filósofo" entende realmente do que fala, a não ser os princípios que envolvem moralismo e misticismo. Uma "filosofia" que não tem compromisso com a verdade, embora prometa a "redenção humana", a "solidariedade" e a "melhoria de vida". Tudo para garantir o sossego das "melhores famílias".

Por isso, não há como levar a sério as animadas palestras de Juliano Pozati e companhia, e nem o otimismo igrejeiro do verborrágico orador Divaldo Franco, que hoje promete "felicidade" e diz que "tudo está maravilhoso".

Eles vivem no seu mundo paralelo, de "boas notícias", alegando que "nunca se ajudou tanto o próximo como nos últimos tempos", menosprezando a gravidade das notícias negativas em que a violência não poupa sequer os próprios "espíritas". Em Niterói, um líder "espírita" foi morto ao entrar num "centro espírita" no bairro do Barreto, pouco tempo atrás.

Claro, para quem considera as vítimas de injustiças, violências e infortúnios diversos "romanos que hoje pagam pelo que fizeram", é fácil dizer que tudo está bem ou mal, dependendo da pessoa. E os "espíritas" são justamente os que MENOS tem moral para dizer como será o futuro na Terra, no Brasil ou no quintal da casa deles.

O pior é que esse "otimismo" ganhou um ingrediente insólito: a tardia apreciação das passeatas de 13 de março de 2016, que nem foram realmente o o auge das passeatas do "Fora Dilma" mas foram apenas o "ponto máximo" como um fenômeno midiático, já que a própria grande mídia (Globo, Folha, Veja etc) apoia essas manifestações.

Pois os "espíritas" encanaram em dizer que aquelas passeatas foram um momento de "despertar político" da juventude, quando os mais sérios cientistas políticos classificam tais eventos como um movimento desesperado de "analfabetos políticos", que só teve a envergadura que teve devido ao grande investimento financeiro e logístico do empresariado e de partidos políticos rivais ao PT, como PSDB e PMDB.

Os "espíritas" também definem o 13 de Março como "marco zero" da tão esperada "regeneração", como se os brasileiros que foram louvar o Pato da Fiesp junto com Kim Kataguiri, Lobão, Jair Bolsonaro e companhia tivessem recebido uma intuição da "espiritualidade superior".

No entanto, é bastante evidente que tais manifestações, na verdade, foram resultantes não de uma "intuição moral de grande elevação", mas antes um fruto de campanhas de ódio tão explícitas que um dos grupos organizadores desse "momento memorável" se chama "Revoltados On Line".

Além disso, em grande parte dessas manifestações, se observavam apelos de ódio ao PT, onde uma das faixas mostradas pedia "Por que não mataram todos (os esquerdistas) em 1964?". Jair Bolsonaro, um dos ídolos dessas passeatas, já fez declarações em apologia ao estupro e ainda discursou, na votação pela abertura do processo de impeachment na Câmara dos Deputados, em favor do brutal torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra.

A própria votação, impulsionada pelas "iluminadas" passeatas, foi presidida por um corrupto do porte de Eduardo Cunha, a duras penas afastado do cargo, tamanha a blindagem em torno dele, e muitos deputados federais acusados de crimes diversos, de crimes eleitorais a homicídio, foram votar o "SIM" pelo impedimento de Dilma Rousseff de continuar seu governo.

E o que tudo isso resultou, após manobras jurídicas e uma votação decisiva no Senado? Dilma foi impedida e o que temos no governo é um Michel Temer que muda demais no Brasil para um presidente interino que só cumpre um mandato "tampão".

Pior: ele chamou muitos corruptos para sua "equipe de notáveis", em que até um "insuspeito" Henrique Meirelles está envolvido em fraudes na Friboi, na qual o banqueiro atuava como consultor administrativo. E Michel Temer já lançou a "Ponte para o Futuro", que na verdade é um pacote de medidas de caráter medieval que pretendem retroceder o país para os padrões sociais do período colonial.

Será que isso é trabalhar o "Coração do Mundo"? É risível ver o Brasil sendo o centro do mundo quando o Plano Temer, ou seja, a tal "ponte futurista", prevê o retorno à sua postura subordinada e subserviente aos países ricos (como os EUA). Mas se Chico Xavier dizia que o cérebro do mundo era os Estados Unidos, isso tudo tem a ver.

É muito perigoso fazer um país ser o centro do mundo. Vide o Império Romano ou a Alemanha nazista. Ver o Brasil envolvido em mais uma roubada desse tipo, por mais que economicamente seja um capacho de Tio Sam, é algo ainda mais preocupante, que alegações "espiritualistas" sob o pretexto da "solidariedade" e do "amor ao próximo" não conseguem convencer.

Que novos tempos são esses? São mais sombrios e caóticos. E muitos brasileiros ficam suspirando de tristeza ao ver que até a problemática e caótica Turquia consegue frear um golpe militar, enquanto o Brasil legitima um golpismo de toga apoiado pela grande mídia, que dita o que os brasileiros devem pensar e agir. E muitos esquecem que Chico Xavier só virou "filantropo" por causa da Rede Globo!

terça-feira, 2 de agosto de 2016

A estranha realidade dos obstáculos intransponíveis


Numa discussão familiar, os pais cobram de filhos que demoram para obter emprego. Acham que os filhos deveriam se esforçar mais do que podem, "meter a cara" para "vencer na vida" a todo custo. Os filhos aceitam os conselhos, e, na enésima peregrinação para buscar empregos, veem as portas fechadas e, por mais que tentem argumentar que precisam de trabalho, nada obtém.

Os pais estão certos na queixa, mas não veem os limites pesados demais que a vida traz aos filhos, que até se esforçam muito, com jogo de cintura, habilidade, perseverança, espírito de iniciativa, simpatia e tudo o mais, mas nada, nada conseguem de trabalho digno e que garanta uma renda satisfatória e uma oportunidade para trabalhar habilidades pessoais.

São pessoas que praticamente viram brinquedos do Destino. Tudo porque os que estão "em cima" na pirâmide social não devem mexer, mas quem está "embaixo" tem que mexer até quando não tem condições e os esforços dão em fracasso.

É um mercado de trabalho ganancioso e preconceituoso, que exige veteranos com menos idade, bonitões e piadistas, enquanto os concursos públicos exigem conhecedores de Matemática e Direito até quando se dedicam a vagas de nível médio ou, no nível superior, para a Comunicação Social, e os cursos de pós-graduação aceitam temas inócuos para monografias que sejam ornamentadas de retórica técnica, mas vazias de conteúdo reflexivo e questionador.

Imagine você exigir demais de uma pessoa e impedir que ela conquiste alguma coisa com algum esforço. Imagine impor dificuldades e somar a estas outras dificuldades de superação. Aí é brincar com quem precisa romper com seus limites sociais, e mostra o quanto é fácil cobrar do que ajudar, criar condições para o outro se superar.

Os obstáculos se tornam intransponíveis e mesmo o "espiritismo", que se gaba em ser a "religião da bondade", anda apelando ultimamente para os que "estão embaixo" aguentarem dificuldades, se esforçarem mais do que podem, como peixinhos que são pressionados a escalar uma grande árvore.

As pessoas que recebem broncas dos pais - estes, contraditoriamente, indecisos se seus filhos devem trabalhar fora ou ajudar na casa, ou paradoxalmente acreditando ser possível as duas coisas - até acham isso justo e com razão, mas o que esses filhos têm que fazer quando fazem todo o possível para obter emprego e encontram somente barreiras insuperáveis?

É muito fácil o "espírita", normalmente um funcionário público ou com um emprego do mesmo nível econômico, que chega a desviar dinheiro da filantropia para seu conforto pessoal, dizer que as pessoas que sofrem dificuldades impossíveis de serem superadas a "mudar os pensamentos", "criar outros talentos", "aceitar os desígnios do Alto" e "confiar em Deus".

O "espírita" perdeu a noção do sofrimento do outro. A Teologia do Sofrimento, que o "espiritismo" brasileiro cada vez mais comprova sua ligação, é o privilegiado dizendo para o sofredor aguentar as desgraças. É a corrente religiosa que se baseia no ditado popular "pimenta nos olhos dos outros é refresco".

Os "espíritas", desprezando as individualidades pessoais, não estão aí, por exemplo, se um jovem rapaz não consegue conquistar as moças mais interessantes de sua turma na Faculdade, mas atrai periguetes que haviam sido namoradas de homens "da pesada" em bairros suburbanos.

Insensíveis, os "espíritas" até recomendam ao rapaz: "Aceite, quem sabe a periguete seja carente de amor. E se o ex-namorado vier contra você, dialogue, fale com calma, porque eu tenho certeza que ele compreenderá. Seja fraterno, é aí que o amor encontra terrenos mais férteis, longe do sensualismo (sic) e da cupidez".

Muito fácil dizer isso. Fácil oferecer amor em quem só quer saber de sexo. Fácil conversar com quem não quer ouvir, e fácil dialogar diante de pessoas armadas querendo esfolar. O rapaz não está a fim da periguete, mas têm ainda que enfrentar o ex-namorado e seus capangas, que não querem diálogo, querem apenas exterminá-lo.

Numa entrevista de "auxílio fraterno", em um "centro espírita" do bairro de Amaralina, em Salvador, um frequentador que reclamava de problemas amorosos e só atraía moças com as quais não sentia atração nem afinidade foi aconselhado pelo indiferente entrevistador a assumir sua homossexualidade, um comentário tão hipócrita quanto também homofóbico.

Afinal, essa ideia de que "não gosta de qualquer mulher, é gay" é um comentário dito por homofóbicos, já que faz parte de uma psicologia machista, na qual o homem tem que aceitar a primeira mulher que vêm à frente, ignorando atração e afinidade, sob pena de ser considerado "homossexual", termo também visto de maneira igualmente pejorativa e condenatória.

Vivemos uma silenciosa e sutil crise de valores dominantes e estruturas sociais dominantes que tentam permanecer em pé na marra, num processo ao mesmo tempo estúpido, imprudente, obsessivo e violento dos que estão "em cima" manter ou recuperar velhos privilégios e paradigmas obsoletos de vida humana.

É como se o terraço de um prédio fosse atingido pelo mofo crescendo em suas paredes e, por causa disso, o síndico queira implodir os andaimes das bases, para salvar o prédio. Hoje é o Brasil do status quo que tenta se salvar, mesmo num processo de perecimento acelerado, e os piores obstáculos impostos a quem está "embaixo" só revelam a fragilidade de quem está "em cima".

Seja pela idade, pelo dinheiro, pelo poder político, pelo sucesso da fama, pela formação acadêmica, pela função tecnocrática, pelo carisma religioso, o "Brasil de cima", velho e paralizado no tempo, por estar existencialmente tetraplégico, quer forçar a sociedade não só parar no tempo como regredir, exigindo dos que estão "embaixo" não só aguentar o mais difícil, mas agir pelo impossível.

O velho discurso religioso do "marketing da superação", exaltando pessoas que superaram dificuldades extremas, só serve como uma ilusão para o gozo esnobe dos que já obtiveram privilégios, de preferência sem as dificuldades que seus "ídolos da superação" tiveram.

Por trás de tantas manobras e limites impostos pelo "mundo cão" que "é impossível combater", dominado pelos vícios e privilégios da plutocracia e outras "cracias", há um egoísmo ao mesmo tempo sádico e imprudente, que impõe sacrifícios pesados demais para os que estão "embaixo" superarem, sem oferecer ajuda nem sequer brechas para a superação.

Desse modo, a "boa sociedade" mostra não só seu egoísmo moralista, mas também sua fragilidade, sua obsessão em manter as estruturas sociais podres que nada oferecem mais de respostas para os novos tempos.

É um Brasil que vê velhos paradigmas perecerem e cuja "revolta do bolor" só serve para frear provisoriamente a decadência, com investimentos financeiros, publicitários (de influenciar a opinião pública) e jurídicos (para institucionalizar valores obsoletos). Mas o natural curso do tempo cobrará um preço ainda mais caro, não para os "debaixo", mas para os "de cima".

domingo, 31 de julho de 2016

"Coxinhas" cancelam protestos de 31 de Julho. Orientação de "espíritos superiores"?

KIM KATAGUIRI, DO MOVIMENTO BRASIL LIVRE: "CRIANÇA-ÍNDIGO"?

A julgar pela entusiasmada classificação, pelo "movimento espírita" brasileiro, de que as passeatas de 13 de Março foram sinais de "despertar político", "libertação" e "intuição dos espíritos de luz" contra "tudo que está aí", o significado de "crianças-índigo", "cristais" ou "estrelas" não pode ser outro: COXINHAS.

Pois como explicará o "espiritismo" diante do cancelamento das históricas passeatas de 31 de Julho, que iriam inaugurar, para os olhos dos "espíritas", sempre confiantes na sua "boa palavra", a transição do Brasil de país problemático para "Coração do Mundo e Pátria do Evangelho"?

O "espiritismo" havia tomado o gosto da Era Michel Temer, já que diversos blogues do gênero haviam publicado, em série, textos pedindo aos sofredores aguentar dificuldades. "Abram mão de seus desejos", "não reclamem diante das dificuldades" e "bem-aventurados os perseguidos" são algumas das mensagens encontradas.

Isso coincide com a perspectiva de que o presidente interino, assim que se tornar efetivo - quando a pressão do empresariado, da mídia associada e de setores solidários do Legislativo, do Judiciário e do Ministério Público, influírem na votação final do impeachment de Dilma Rousseff pelo Senado - , impor um pacote de retrocessos político-econômicos que devolverão o Brasil a um estágio anterior à Era Vargas.

Daí a mensagem subliminar do "espiritismo" brasileiro, que, através desses recados pela "aceitação" e pela "perseverança", dentro dos valores da Teologia do Sofrimento que a doutrina brasileira não mais pode esconder, manifesta seu apoio entusiasmado a esse governo retrógrado, pelo qual seus palestrantes pedem "orações em favor" do presidente e "preces para ele trabalhar em prol do próximo".

São meros apelos igrejistas, que definem o caráter de uma religião que se autoproclama "ciência e filosofia", se autodefine como "futurista" e "racional" mas não consegue mais esconder sua herança dos valores medievais do Catolicismo português, que sempre estiveram nos corações dos "espíritas" desde os primórdios roustanguistas da FEB.

E aí, como explicarão os "espíritas" diante do cancelamento das passeatas anti-PT - as que exibiam as cores da bandeira brasileira que tanto encantaram os "espíritas" e inspiraram Robson Pinheiro a escrever um romance, O Partido: Projeto Criminoso de Poder - , que seriam comandadas justamente pelos grupos Movimento Brasil Livre e Revoltados On Line (soa irônico os "espíritas" condenarem tanto a ideia de "revolta"), que desistiram do evento?

Sabe-se que o cancelamento, anunciado há alguns dias, teve como desculpas o fato de que a votação final do impeachment ocorrerá no final de agosto e que o período marca a volta dos jovens à escola, com o fim das férias previsto para o começo do referido mês.

E os "espíritas", o que dirão? Dirão que "espíritos traiçoeiros" iriam atrapalhar as passeatas, por isso os "espíritos benfeitores" iriam aconselhar a suspensão do evento. Explicar como os "amiguinhos pouco esclarecidos", eufemismo para os "espíritos obsessores", irão atrapalhar os eventos, é algo complicado, mas como o "espiritismo" veio para confundir e não para explicar, é compreensível.

Vamos ver como é que os "espíritas" sairão desta, eles que agora terão que assumir a herança católica medieval - em muitos momentos, seu catolicismo é ainda mais retrógrado do que o que a Igreja Católica desenvolve hoje - e, principalmente, a Teologia do Sofrimento, que se expressa claramente nos textos que são divulgados pelos próprios "espíritas".

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Vamos ter também romances sobre Pokemon Go?


O mercado literário brasileiro segue a tendência do contexto surreal que o país vive nos últimos anos. O hábito de ler livros é desnorteado em nome de uma cruzada contra o Conhecimento, diante da supremacia de tendências literárias que estão mais para uma literatura "água com açúcar" que nada acrescenta às mentes das pessoas, já emburrecidas pela grande imprensa cada vez mais estúpida.

Autores emergentes que escrevem obras comprometidas com a transmissão de conhecimentos e de questionamentos não conseguem sequer vender e-Books, que costumam ser mais baratos. Em compensação, autores surgidos do nada que escrevem romances religiosos, por exemplo, têm chance de figurar, mesmo provisoriamente, nas listas dos 20 mais vendidos.

Vimos que, nos últimos anos, o mercado literário sempre lançou algum modismo para barrar os livros informativos, evitando que as pessoas, através da leitura, saibam mais. Houve os romances sobre vampiros e as biografias de cachorros com nomes de roqueiros, dois anos atrás.

Depois, veio a aberração dos "livros para colorir", que quase nenhum texto tinham. Era aberrante que eles chegaram a estar na lista dos mais vendidos de "não-ficção", o que faria uma pessoa mais sensata perguntar o que desenho de árvores incolores tem a ver com a realidade em que vivemos, que seria o foco dessa categoria literária.

Aí vieram os Youtubers, um modismo em que qualquer pessoa com forte apelo entre o público juvenil através dos vídeos do portal social da Internet decide escrever um "diário" em forma de livro e vende como bala em porta de escola. Alguns são realmente bons, como Kéfera Buchmann e Isabela Freitas, mas há também coisas lamentáveis.

Mas aí vieram os romances de jogos de Minecraft, para criar mais uma barricada livresca para a marcha do Conhecimento, uma forma de despejar um monte de títulos e modismos para evitar que até mesmo livros jornalísticos mais mainstream - como os de Fernando Morais, por exemplo - fiquem muito tempo nas listas dos mais vendidos.

Diante desse cenário, também propiciam as vendas dos livros religiosos em geral, com "histórias lindas" aqui e ali, supostas obras proféticas (como uma tal 2036), livros de auto-ajuda e esoterismo (que vão na onda) e, é claro, a literatura "espírita", hoje representada, nos livros mais badalados, pelas obras de Robson Pinheiro (que inaugurou o "espiritismo coxinha"), o Data-Limite Segundo Chico Xavier de Juliano Pozati e o pedantismo verborrágico da série Divaldo Franco Responde.

Com isso, autores emergentes que querem lançar novas questões e transmitir informações que dificilmente aparecem na grande mídia, não conseguem vender nem divulgar adequadamente seus trabalhos. E, da forma que a nossa sociedade anda entorpecida pela grande mídia e um tanto estupidificada com o sadomasoquismo de seu antipetismo cego e de sua indiferença à catástrofe política do governo Michel Temer, são esses autores os mais discriminados.

Ficamos esperando se haverá também, como no Minecraft, uma série de obras literárias inspiradas no jogo de Pokemon Go, a onda do momento. Para um mercado que acolheu "livros para colorir" como se fosse literatura de não-ficção, tudo pode esperar. Vamos sugerir até que cada livro venha com um sorvete de brinde para o leitor jogar em sua testa.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

"Espíritas" ficam de fora na Rio 2016. Não faz mal, se unam aos católicos


Mesmo com a recomendação do Ministério Público Federal para que se amplie a contemplação de religiões durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, o comitê organizador da Rio 2016 se omitiu em responder sobre o caso, fazendo com que religiões de matriz africana e outras seitas como o "espiritismo" não tenham representação nas cerimônias a serem realizadas durante o evento.

Religiões como cristianismo, budismo, hinduísmo, judaísmo e islamismo terão representantes em plantão durante a realização de cerimônias, a serem feitas em português, espanhol e inglês. Não houve informação se tendências evangélicas estão incluídas no critério de cristianismo, já que o termo costuma estar associado à Igreja Católica.

O que se observa é a exclusão do "espiritismo" nas cerimônias. A religião, segundo dados estatísticos, tem, oficialmente, 2% de adeptos em toda a população brasileira, mas ela não terá representante de plantão para realizar cultos ou rituais específicos no evento.

Apesar de não ter havido uma resposta ao Ministério Público, representantes dos organizadores da Rio 2016 afirmaram que o Centro Olímpico estará aberto a todas as religiões e que as cinco religiões escolhidas se baseiam nas crenças da maioria dos atletas olímpicos e paralímpicos participantes.

Diante disso, a sugestão que se dá aos "espíritas", que tanto falam em resignação e perseverança, para eles deixarem de tristeza nesta ocasião e, em vez de tentar explicar o cientificismo de Allan Kardec para os organizadores olímpicos, seria melhor os "espíritas" se unirem aos católicos.

Isso porque o "espiritismo" brasileiro nunca se lembrou de Allan Kardec nos momentos mais necessários, preferindo a influência jesuíta do Catolicismo do Brasil-colônia - de origem portuguesa e de conteúdo medieval - e tanto preferiu criar práticas análogas às da Igreja Católica.

Vide a "água fluidificada" (água benta), o "auxílio fraterno" (confessionário), os "centros espíritas" e suas "doutrinárias" (igreja e missa), a concepção de "colônia espiritual" e "umbral" (Paraíso e Inferno), de "resgates espirituais" (pecado original) e de "espíritos benfeitores" (santos). Para cada atividade ou conceito católico, um equivalente "espírita".

E como os "espíritas" não parecem ter problemas em conciliar com este ou aquele segmento da sociedade, nada melhor do que eles se relaxarem e se integrarem aos católicos, porque a história do "movimento espírita" sempre esteve ligada a práticas e procedimentos que minimizassem os conflitos iniciais com os católicos, atitude que tão cedo culminou numa verdadeira vaticanização do Espiritismo realizada no Brasil. Agora é assumir isso de vez na Rio 2016.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Muito fácil os "espíritas" exigirem paciência dos outros


No "espiritismo", há uma grande manobra discursiva. Você, que não é palestrante, não é conselheiro, não é o anti-médium dotado de fama e prestígio, está na plateia e não no plenário dos "centros espíritas" você é o "eu" que os "espíritas" dizem para deixar os desejos e os anseios de lado, mudar totalmente os planos de vida e aguentar alegremente todo tipo de desgraça.

Você é que tem que abrir mão dos talentos, das necessidades, dos planos de vida tão trabalhosamente feitos. Jogue tudo fora e, depois que você aprendeu as lições amargas das desilusões da vida, que lhe fez abandonar muitas ilusões, é a vez de você ser escravo das ilusões dos outros, o que faz com que suas desilusões tivessem sido em vão.

É como se você tivesse sido vítima de uma brincadeira. E o "espírita", com discurso "benevolente", diz que você está "sendo testado a todo momento", e tudo o que você deve ter é paciência, disciplina, aguentar a barra pesada não se sabe até quando, ceder em tudo, até mesmo nas suas habilidades.

Há uma grande diferença entre encontrar desafios e suportar desgraças. No primeiro caso, os desafios não vão contra anseios nem talentos, antes os remodelassem e aperfeiçoassem. E, quando a pessoa é tomada de vontades e interesses que no fundo não lhes beneficiam, os desafios surgem por meio de desilusões que regulam desejos e vontades estabelecendo limites, como um remédio dado em doses moderadas pela receita médica.

No segundo caso, o remédio é dado acima da dose necessária. As desgraças sucessivas desafiam qualquer esforço, afrontam qualquer esperança, violentam qualquer perseverança em superar uma dificuldade. Obrigam a pessoa a abrir mão do que mais precisa, obrigando-a a fazer o que não sabe, a amar o que não gosta, já que a vontade e a vocação são combatidos como se males fossem.

"TER" E "SER"?

A traiçoeira Teologia do Sofrimento, originária dos tempos medievais do Catolicismo, em que o legado de Jesus de Nazaré foi deturpado ao extremo - chegaram a promovê-lo como um suposto "senhor dos exércitos", para justificar a carnificina das Cruzadas - , pedia para as pessoas aguentarem o sofrimento "com paciência", porque esse é o caminho das "bênçãos futuras".

Um texto é ilustrativo da Teologia do Sofrimento "espírita", com todos os clichês discursivos desta ideologia, como a ideia de que você tem que aguentar todo tipo de desgraça - descrita sob o eufemismo de "desafios" e "testes" - , acima da dose necessária, ainda que desperdice uma encarnação inteira sem poder trabalhar seus talentos nem habilidades.

A ideia de "ter" e "ser" chega a ser hipócrita, porque há muitos casos de pessoas que fazem os tais "tratamentos espirituais" para resolver os problemas da vida e contrair benefícios menos materialistas e o que recebe são justamente "oportunidades" ligadas a caprichos materialistas.

O sujeito quer trabalhar numa autarquia, tendo um projeto humanista para a sociedade, e a "oportunidade" que aparece é trabalhar numa empresa privada corrupta, que lhe oferece mais fama e vantagens materiais do que oportunidade para ajudar as pessoas.

A mulher quer se casar com um homem de caráter, acaba se casando com um empresário arrivista, que lhe garante mais bens materiais do que amor. E o homem que quer se casar com uma mulher de caráter acaba somente atraindo mulheres-objeto, símbolos justamente do "sensualismo" tão condenado pelo "espiritismo" brasileiro.

Independente de querer ter ou não alguma coisa, o próprio "espiritismo", pelas suas energias confusas, não prece medir a dose certa para o sofrimento humano. Sua falta de noção do tempo limitado de uma encarnação e sua falta de discernimento quanto à vida futura faz com que seus pregadores façam juízos de valor aqui e ali, vendo como "frescura" a agonia do outro, que aos olhos "espíritas" deve continuar sofrendo com paciência e ficar sorrindo o tempo todo.

O MITO DE "VENCER A SI MESMO"

É muito, muito perversa a ideia que os "espíritas", tão "bondosamente", falam do mito de "vencer a si mesmo". Isso denota a influência maligna da Teologia do Sofrimento no "espiritismo" brasileiro, através de Francisco Cândido Xavier.

O texto que referimos se refere a Chico Xavier como "vencedor de si mesmo" e as "recomendações" são sempre de "combater a arrogância e teimosia". E mais uma vez o "espiritismo" se contradiz em tantas e tantas coisas.

A pessoa que quer um trabalho digno, mas obtém um emprego que traz fama e prestígio e não dignidade, obtendo visibilidade mas não podendo dar uma contribuição honesta para o próximo, de nenhum modo pode ser considerada uma pessoa que vive desafios para superar a busca de autopromoção.

Da mesma forma, não se pode dizer que está combatendo o "sensualismo" se o modesto rapaz nerd que é impedido de namorar uma destacada moça da sala, que ele considera não só bela, mas de personalidade interessante, consegue atrair uma moça vulgar e grosseira, tipo "periguete", cobiçada por outros homens e que acaba de encerrar uma relação de namoro com um valentão ciumento e vingativo.

Os "espíritas" vão tentar argumentar que são "oportunidades insólitas", que o patrão corrupto é que mais precisa de ajuda, que a "boazuda" precisa de carinho, que o nerd que é agredido pelo ex-namorado da "boazuda" cumpre "reajuste espiritual" etc. Os "espíritas" são verdadeiros malabaristas discursivos. Vide a verborragia de Divaldo Franco.

É um grande perigo esse mito de "vencer a si mesmo" de abrir mão, se "preciso", até das próprias necessidades, transformando a vida humana numa asfixia existencial, é o duplo sentido dessa palavra, tão tida como "confortadora", mas dotada da mais aberrante crueldade.

Afinal, "vencer a si mesmo" tem um significado oculto, mas muito mais verdadeiro: "derrotar a si mesmo". É a linguagem usada em todo tipo de competição: "vencer" é "derrotar". "Derrote-se", "derrube-se", "lute contra o pior inimigo que é você mesmo". Essa ideia vem da Teologia do Sofrimento e não há sentido lógico que faça os "espíritas" negarem essa herança.

Isso nada diz quem vive no mau-caratismo e está mergulhado em arrogâncias e privilégios abusivos. Até porque o próprio "espiritismo" apela para nunca reclamarmos nem maldizermos, mas esses apelos se dirigem mais aos sofredores.

Quem está "em cima" vive tranquilo e nem está aí para pensar se está sendo humilde ou arrogante. Até porque o "espiritismo" prega o "fiado espírita", a pessoa pode abusar hoje que só pagará "pelo que fez" nas próximas encarnações. Uma lógica materialista de pagar os erros cometidos.

E OS "ESPÍRITAS"?

Aí entra a questão do "eu" e do "outro". Muito fácil você, que não é o palestrante nem o escritor de livros, ser aconselhado a aguentar o sofrimento sem reclamar, sem maldizer, sem pedir qualquer coisa, mesmo que seja uma coisa digna. Antes a pessoa nadasse em dinheiro por causa de um trabalho indigno cujo patrão é amigo de "espíritas iluminados".

Mais fácil ainda é o palestrante "espírita", ele que se julga detentor da "boa palavra", o que parece fascinante, mas não obstante tais pessoas que agem assim não são mais do que versões humanas da mancenilheira, considerada a árvore mais venenosa do mundo.

Ele diz para os "outros" abrirem mão de desejos, de vontades, de talentos, mudar constantemente os planos de vida para muitas vezes abrir mão do necessário, embora em certos casos o fútil e o supérfluo possam prevalecer.

Para o "espírita", é muito fácil, no seu juízo de valor, acreditar que o sofredor tenha que perder uma encarnação inteira sem fazer algo de proveitoso. Quando muito, só de aceita a oferta de sopinhas para os pobres, como se isso adiantasse muita coisa. De resto, que ele fique no "sensualismo" do "funk", dos espetáculos de UFC, na fama fácil da empresa corrupta, e brinque de ser "caridoso" nesses ambientes em que a futilidade cega as almas.

Mas o "espírita" não imagina que ele é o que reclama mais, é maledicente, é orgulhoso, vaidoso, teimoso. Ele pede para outrem ceder em suas teimosias e caprichos, mas é justamente o palestrante "espírita" que mantém a teimosia de exaltar dois senhores antagônicos, Allan Kardec e Chico Xavier, sob os opulentos prêmios das condecorações, muitas vezes dadas por aristocratas e corruptos embriagados de orgulho, arrogância e intransigência.

Os sofredores que recebem os "sábios conselhos" é que tem que aguentar uma realidade que sucumbe aos níveis surreais, em que os privilegiados agora desafiam a realidade, a ética, a lógica para proteger seus benefícios e vantagens e os sofredores aguentam desgraças além das doses necessárias para a evolução e reestruturação moral de suas vidas.

É fácil o "espírita" dizer em palestras, blogues e livros para o sofredor suportar as dificuldades, mesmo as mais pesadas. Fácil pedir ao "outro" paciência e apelar para ele não reclamar. Mas o "espírita" que recebe prêmios e medalhas das elites corruptas e opulentas não vê que, neste caso, sua "boa palavra" não é mais do que a mancenilheira na vida dos outros, lindos discursos que arruínam as vidas das pessoas com base na visão "espírita" da Teologia do Sofrimento católica.

sábado, 23 de julho de 2016

A preocupante resignação dos cariocas


O carioca sai de casa para pegar um ônibus para ir ao trabalho. Vai para uma avenida geral, mal recuperado do sono e cheio de coisas a fazer, mas é obrigado a ter a atenção redobrada por causa da pintura padronizada que faz as diferentes empresas serem visualmente iguais, umas às outras.

Isso já é um grande transtorno. No ir e vir, isso revela o quanto os cariocas estão conformados com medidas nocivas, prejudiciais, como um simples fato de pegar um ônibus com pintura padronizada, já que o autoritarismo do PMDB carioca - o mesmo do deputado afastado Eduardo Cunha - fez proibir que cada empresa de ônibus tivesse a sua identidade visual própria.

As autoridades impõem a medida usando desculpas de caráter "técnico" e o povo aceita. Empresas mudam de nome, linhas trocam de empresa e a pessoa acredita que voltará para casa sã e salva, quando os noticiários confirmam que só esta medida, na verdade um mershandising não assumido da Prefeitura do Rio de Janeiro (é ela que fica com o vínculo de imagem das frotas de ônibus, como se estas fossem um gado do secretário de Transportes), causou decadência no transporte público.

E é uma decadência trágica, terrível, de ônibus sucateados que frequentemente se envolvem em acidentes de trânsito de arrepiar. É claro que isso acontecia antes de haver pintura padronizada, mas naquela época não era tão frequente assim e o sucateamento dos ônibus revela a confusão de representatividade do sistema implantado em 2010.

É um sistema em que a Secretaria de Transportes (representada pela pomposa sigla SMTR) tem poder concentrado no serviço de ônibus, sendo o secretário não o fiscal do sistema, como deveria ser, mas um tirano dotado de um discurso pseudo-racional. Em contrapartida, as empresas de ônibus não podem exibir suas identidades visuais, mas interferem no jogo eleitoral, financiando seus candidatos e até recorrendo a fraudes para que estes sejam eleitos.

Quem fica perdendo é o cidadão. O cidadão que não pode eleger o candidato que quiser porque a "máquina eleitoral", esse cabresto eletrônico chamado "urna eletrônica" - um instrumento "futurista" que não é adotado por países mais evoluídos do mundo, pelo risco de fraude que isso representa - , também sente dificuldades em pegar um ônibus.

O que assusta é que o carioca está disposto a aguentar todo tipo de retrocesso. Parece um portador da Síndrome de Riley Day, doença que impede as pessoas de sentir dor. As pessoas perdem a noção de seus próprios prejuízos e são manipuladas pela mídia para defender isso ou aquilo.

No Rio de Janeiro, os retrocessos não se dão somente pelos rombos dos cofres públicos, pelo aumento da violência nas ruas, mas por muitas outras coisas. Por exemplo, a ironia do Rio de Janeiro, um dos centros de fabricação e distribuição de produtos, demorar a renovar estoques, já que os produtos desaparecem das prateleiras e ficam pelo menos duas semanas sem reposição.

Mas mesmo atitudes "positivas" como haver, em tese, "rádio de rock", para o público voltado para este estilo, revela um retrocesso: a supremacia de uma FM incompetente, a Rádio Cidade, sem pessoal especializado no gênero, com uma programação que só toca os "sucessos" (hits) e que nem de longe aborda o básico da cultura rock, já que sua grade é literalmente chupada de rádios pop como Mix e Jovem Pan.

A rádio só irá sair do ar em 31 de julho por conta da baixa audiência, mas mesmo assim a tristeza do público soa como uma ingenuidade, afinal a Rádio Cidade não tinha 1% da competência das rádios de rock originais e seus locutores, de tão perdidos, esperavam que os ouvintes lhes mostrassem o que deveriam tocar a mais de músicas de rock. Só que os locutores têm formação pop e, com ela, seus preconceitos, e dificilmente aceitariam tocar o rock que não rola nas paradas de sucesso.

E aí entrou também a resignação: roqueiros que conheceram o legado da Fluminense FM, rádio de rock que marcou o dial do Grande Rio, não parecem se indignar com a incompetente Rádio Cidade, aceitando sua existência em troca de um hipotético fortalecimento do mercado roqueiro, aguentando uma FM coordenada por um fã de "sertanejo" (!) e cujos programas tratam o ouvinte como um idiota, só pela garantia de ter medalhões do rock tocando no Rio todo ano.

A resignação se estende também na aceitação do "funk", um pastiche de folclore popular carioca, como paradigma de "cultura popular", mesmo sendo o ritmo um subproduto do poder midiático (sua popularidade só se deu sob o apoio da Rede Globo de Televisão, Folha de São Paulo e afins), mesmo quando o ritmo aborda o povo pobre de maneira caricatural e sutilmente pejorativa.

Mas o conformismo está também nas pessoas ouvirem sempre as mesmas músicas do pop adulto, fazerem sempre as mesmas festas, irem às boates com o prazer que lhes foge como um gato assustado, terem um injustificado fanatismo pelo futebol carioca, cada vez mais sem graça, e pouco se incomodar se a cerveja produzida hoje tem mais gosto de urina espumante.

É esse conformismo que transforma o carioca num masoquista, que permite que o Rio de Janeiro sofra a decadência vertiginosa que está sofrendo, pois o referido Estado, cuja capital é sede das Olimpíadas de 2016, passou por um retrocesso tão imenso que sua situação hoje é nivelada ao dos piores momentos dos Estados do Norte e Nordeste no período da ditadura militar.

Muitos cariocas ainda se encontram em estado de choque diante dessa constatação. Não acreditam que o Estado do Rio de Janeiro e a ex-Cidade Maravilhosa estejam em situação tão decadente. Alguns até esnobam, desde os senhores de idade que com sarcasmo hipócrita leem jornal e dizem que "não tem mais jeito", tratando a desgraça carioca como se fosse piada, até os "coxinhas" que se reúnem nas praias cariocas para contar piadas, como se tudo "estivesse bem".

Só que a situação é séria e boa parte da culpa está nessa resignação dos cariocas com os próprios retrocessos. O carioca perdeu o antigo espírito de resistência, substituindo-o pela desistência. Fora uma minoria que faz o contrário, pratica trolagem e cyberbullying para defender justamente os retrocessos estabelecidos, o clima do Rio de Janeiro é de uma apatia masoquista.

As pessoas acham que, em troca de supostos benefícios, aceitam transtornos diversos, tanto pela resignação ao que lhes é imposto - muitas vezes movido pelo status quo de quem decide - , tanto pela ilusão das próprias pessoas em serem capazes de encarar dificuldades. Vai que elas aceitam pegar um ônibus padronizado e vão parar no hospital, depois de um acidente "daqueles".

E assim os cariocas vão aceitando, aceitando, aceitando as coisas, esperando que um Jornal Nacional ou O Dia lhe digam o que devem aceitar ou não. Eduardo Cunha só se tornou odiado pelos cariocas depois de tanta campanha midiática.

É perigoso depender disso para se indignar dos problemas. De aceitação em aceitação, os cariocas correm o risco de parar um dia num campo de concentração. E aí, no dia do sol vai pintar uma vontade de ir à praia de Copacabana ou Ipanema e não vai dar, porque o alojamento está trancado e ocorre um vazamento de gás mortal. Será que teremos que chegar a esse ponto para acordarmos?