domingo, 17 de abril de 2016

O "espírita" e a volta no além


Um palestrante "espírita", já muito idoso, encerra sua vida na Terra, morrendo de velhice, tranquilo e sereno diante de alguns entes queridos. Estava ansioso em ir para a "pátria espiritual" certo que uma grande cerimônia o receberia no retorno ao além-túmulo.

Imaginava ele, muito adorado na Terra, que seria recebido por alguns amigos e familiares, seria condecorado por representantes de Deus e Jesus Cristo e um coro de anjos distribuído em dois lados, cantando como crianças em vozes meigas e infantis e interpretando canções religiosas ou outras com letras sobre fraternidade e amor.

Na chegada ao mundo espiritual, porém, o palestrante "espírita" sentiu uma estranheza. "Acho que não é aqui, deve ser mais adiante, vou andar, agora sou só espírito, não vai me cansar jamais", pensa o orador consigo mesmo.

Ele anda e observa apenas o cenário de um "chão de nuvens" sob um céu azul, igual ao que ele via quando viajava de avião e olhava pela janela. Paciente, o orador andou, ainda inseguro por se ver na situação atual, sem o peso do corpo físico.

Nada. Nada. Nada. Tudo um vácuo, um "assoalho" de algodão sob um céu azul bonito, mas que, de tão monótono, já não causava mais interesse nem fascínio. O orador "espírita" estava achando a caminhada longa demais, até que veio, ao longe, um homem de vestes brancas e uma bolsa que se aproximava.

- Olá, irmão. Vejo que regressou há pouco para este lado. - disse o rapaz, que se identificou como Secretário da Consciência.

- Olá, meu querido irmão. Eu regressei, sim, mas eu quero saber onde será minha cerimônia de recepção. Meus parentes, meu amigo que foi antes de mim, meus benfeitores, creio que todo mundo se reúna, com as maiores autoridades dos planos superiores e corais de crianças bonitas cantando hinos belíssimos de amor, para fazer uma festa para me receber.

O secretário deu uma discreta risada, mas manteve a compostura.

- Meu amigo, como você pode supor que essa festa esteja sendo feita para recebê-lo?

- Entenda, prezado irmão. Eu fui um líder espírita, um grandioso orador, um homem que só dedicou à caridade. Nunca cobrei jamais por um trabalho, atendia as pessoas gratuitamente, passei a vida servindo à sociedade, viajando para divulgar a boa palavra do Evangelho de Jesus.

- Hum. Deixe eu ver, eu tenho um relatório dentro de meu banco de dados. Trago um computador comigo. Vejamos. Seu nome?

O orador "espírita" disse seu nome.

- Hum. - disse o secretário, iniciando a consulta do banco de dados, usando o nome do orador. Encontrou o nome correspondente e seu longo currículo de atividades.

O secretário ficou sério e atento. Mas depois franziu as sobrancelhas, com semblante ao mesmo tempo silencioso e grave.

- Prezado (nome do orador). Seu currículo não parece ser grande coisa, não.

- Como assim? - protestou o "espírita". - Eu só servi ao próximo. Transmiti as lições de Jesus! Tenho cometido meus erros, sim, mas não creio que isso me impeça de estar no banquete dos espíritos puros!

- É, mas você cometeu erros graves, sim. Compreendeu muito mal a Doutrina Espírita de Allan Kardec. - disse o secretário.

- Mas como?! Eu lia os livros de Kardec, eu sempre trazia alguns ensinamentos do mestre lionês!

- Não é o que se observa. As lições que você transmitiu se aproximam mais a um catolicismo antiquado. E ainda assim mascarado por uma oratória complicada, prolixa e de difícil compreensão.

- Mas eu sempre expus com clareza as ideias.

- Não é o que se observa. E, para piorar, suas viagens só serviram para espalhar tais mistificações, criando problemas para a compreensão da Doutrina Espírita.

- Mas pelo menos eu fiz bondade, ajudei o próximo, se eu expus mal as minhas ideias, peço que me desculpem.

- Nem tanto. Você mal conseguia ajudar uma comunidade, sua instituição de caridade ficava num bairro muito perigoso de um subúrbio e você nem agiu para diminuir essa situação.

- As pessoas é que não queriam me ouvir falando do Cristo.

- Não, as pessoas eram cristãs de várias correntes. Até a sua.

- Pelo menos o meu projeto de caridade, se pecou pela quantidade, primou pela qualidade.

- Também não. Seu projeto de caridade era só paliativo, eliminando a pobreza absoluta sem no entanto realizar justiça social plena. Era apenas uma concessão de sopinhas, um alojamento modesto e um projeto educacional que não ensinava a pessoa a questionar o meio em que vive, mas tão somente a trabalhar, ler, escrever, fazer as contas e, o que é pior, ser religiosamente manipulado.

- Mas minha educação nunca obrigou pessoa alguma a ter alguma religião.

- Não é o que se vê. A pregação religiosa era sutil, sob o pretexto da fraternidade, mas sempre havia, com seus dogmas e ídolos. E, além disso, você se esbaldava ao lado dos ricos e poderosos.

O orador "espírita", então, reagiu com a irritação que seria inimaginável e inconcebível para seus seguidores.

- Eu estive ao lado deles para promover a caridade e aceitar de bom grado o que me concediam de prêmios e homenagens. Sempre estive no lado dos humildes e apenas queria promover a fraternidade entre ricos e pobres.

- Não é o que parece. Você nunca cobrou providências dos ricos e poderosos, se limitando apenas a elogiá-los. Você também nunca ouviu os pobres, você adorava vê-los calados e sorridentes, tudo era um teatrinho de suposta paz e harmonia forçada.

- Mas pelo menos, com tantas imperfeições, haverá festa para me receber. Para o bem e para o mal, eu sempre foi adorado e muito querido pelas pessoas, era acolhido por multidões toda vez que passava por qualquer lugar que fosse.

- Festa? Para lhe receber? Corais de anjos cantando hinos religiosos? Autoridades de planos superiores lhe condecorando pelos seus atos?

O secretário desabou em risada. O orador, irritado, perguntou:

- Como é, irmão? Terá festa? Ou será que viveremos nesse deserto de algodão sob os nossos pés?

- Meu irmão. Não se recebem almas do além com festas. Mesmo os mais evoluídos. O que aqui tem é a revisão da Consciência. E, em se tratando de um mistificador como você, feito "espírito puro" pelas paixões do deslumbramento religioso, aí é que não haverá festa alguma.

O secretário, dizendo isto, guardou o computador em sua bolsa e completou:

- A propósito, pode se dirigir para a rota à direita, que lhe enviará para os planos inferiores da erraticidade, até que você decida reencarnar para aprender.

sábado, 16 de abril de 2016

O "espiritismo" e sua mania de triunfalismo


Como que achasse que pode afastar uma tempestade com um ventilador, o "movimento espírita" ainda acredita que se tornará vitorioso com suas contradições e com sua zona de conforto garantida pela tendência "dúbia", que é bajular Allan Kardec e praticar o igrejismo.

A doutrina brasileira está em séria crise, porque não resolveu suas contradições com a escolha da tendência religiosa, herdada de Jean-Baptiste Roustaing, e a pretensão de agradar os científicos com a bajulação a Allan Kardec e todos os aparatos "intelectualizados" dos "espíritas" das últimas décadas.

Mais uma vez os "espíritas" se acreditam na certeza de que passarão por cima de qualquer contestação, porque só eles é que se julgam detentores da lógica e do bom senso, ou, quando não se colocam nessa exclusividade, se acham os "melhores" nessa qualidade.

O escândalo de Francisco Cândido Xavier causado pelas apropriações de nomes de várias personalidades literárias falecidas, seja Humberto de Campos, sejam os autores alegados em Parnaso de Além-Túmulo, inspiram a atual ilusão, já que o desfecho favorável ao "médium" permitiu o crescimento dessa doutrina marcada de contradições e equívocos diversos.

O que poucos sabem é que Chico Xavier NUNCA foi legitimado por literato algum. Ninguém disse que suas "psicografias" literárias eram autênticas. O que a FEB usou como "confirmação" eram declarações hesitantes e abstenções vindas de nomes como Agripino Grieco, Monteiro Lobato, Apparicio Torelly (Barão de Itararé) e Raimundo Magalhães Júnior.

Por outro lado, críticos como Osório Borba, Malba Tahan, João Dornas Filho e Attila Paes Barreto comprovam, com argumentos consistentes, as irregularidades literárias das supostas psicografias, de qualidade inferior a das obras deixadas em vida.

Os herdeiros de Humberto de Campos também reagiram, processando Chico Xavier e a FEB exigindo que se especialistas analisassem as "psicografias" atribuídas ao escritor para ver se eram autênticas ou não. Se autênticas, os direitos autorais seriam repassados para os herdeiros. Se falsas, Chico e a FEB teriam que indenizar a família pelo uso impróprio do nome.

A Justiça, naqueles padrões jurídicos de 1944 - se hoje temos um Sérgio Moro ainda "virgem" da complexidade legislativa de hoje, imagine há sete décadas - , achou a ação improcedente e o processo deu num empate. Nem Chico Xavier e a FEB, nem os herdeiros de Humberto de Campos tiveram a causa ganha.

Mas o "zero a zero" rendeu pontos a Chico Xavier, e fez seu mito crescer monstruosamente. E esse mito cresceu sem controle, já que vieram outros escândalos, como as denúncias do sobrinho Amauri Xavier Pena, o caso Otília Diogo e a crise do roustanguismo e o "médium" mineiro aparentemente passou incólume a tudo isso.

O exemplo de Chico Xavier, depois realimentado por uma campanha de propaganda da Rede Globo, semelhante ao que a BBC, via Malcolm Muggeridge, fez com Madre Teresa de Calcutá, inspirou no "movimento espírita" esse sentimento de triunfalismo, como se visse nas críticas severas uma forma análoga a de uma tempestade devastadora que tende a passar após sua ocorrência.

Isso é até engraçado, porque os tão espiritualizados "espíritas" usam um fenômeno material para se julgarem incólumes a toda crise, achando que as críticas e questionamentos a irregularidades cometidas pelo "movimento espírita" podem surgir e crescer, mas desaparecer como uma tempestade de véspera que é sucedida por um céu limpo e sem nuvens.

O Brasil, um país novo e só agora enfrentando questões que o "velho mundo" já havia enfrentado décadas e até séculos atrás, ainda não consegue perceber a lógica das coisas. Se perde no deslumbramento religioso que parece ter respostas para tudo, mas não tem.

E os "espíritas" esperando as críticas passarem como a trovoada do fim do dia, amanhecendo com o mundo todo concordando com eles. Mas isso é uma grande ilusão, já que as críticas vieram para ficar, resgatando informações de antigas crises, que se acumularam na atual crise, acrescidas de novas informações, o que deixa o "movimento espírita" numa situação insustentável.

Isso é um efeito de suas escolhas. A sua preferência pela postura igrejeira, seu Catolicismo por vezes convicto e informal, por outras enrustido, a recente opção "dúbia" de fingir fidelidade absoluta e respeito rigoroso à obra de Allan Kardec, tudo isso fez os "espíritas" criarem seus próprios impasses. Eles foram vítimas de sua própria "lei de causa e efeito".

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Mais comparação sobre Humberto de Campos e sua suposta obra espiritual


Vamos comparar aqui dois textos que levam o nome de Humberto de Campos. O primeiro se refere à suposta obra espiritual, que se demonstra inverídica, em mais uma amostra que publicamos, do livro Reportagens de Além-Túmulo, capítulo 29, "O Diagnóstico".

O segundo, de um capítulo do livro Grãos de Mostarda, que o autor maranhense deixou em vida, publicado em 1926. O capítulo intitula-se "O Purgativo". Nele observa-se o senso de humor que inexiste na obra espiritual, por mais que ela tentasse imitar o estilo de Humberto. A obra trazida por Chico Xavier continua sendo um texto pesado de se ler, com narrativa melancólica e igrejista.

Nota-se, também, que o texto "mediúnico" faz uma propaganda do "espiritismo" brasileiro, através das reclamações de um enfermo estereotipado, que duvidava dos receituários "espíritas" e só confiava na "ciência da Terra". É certo que a propaganda não se refere, em verdade, à doutrina de Allan Kardec, mas à sua deturpação igrejeira praticada no Brasil.

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O DIAGNÓSTICO

Francisco Cândido Xavier - Atribuído supostamente a Humberto de Campos - Reportagens de Além-Túmulo - FEB, 1943

   Antes da reunião, Tomé Colavida imprimiu a carícia habitual aos bigodes longos, fisgou a médium Dona Eulália com um olhar de prevenção e dirigiu-se ao orientador dos trabalhos, atenciosamente :
   – Senhor Martinho, vejamos o caso de meu diagnóstico. Iniciados os serviços psicográficos, espero que o receitista me não falte com os esclarecimentos técnicos, relativamente aos meus males orgânicos. Imagine o senhor que já visitei diversos agrupamentos sem resultado satisfatório.
   – Não obteve definições precisas? – indagou o bondoso diretor da reunião, demonstrando fraternal interesse.
   – Nunca. Frequentemente, recebo mensagens de Acácio, amorosa entidade que se afirma amigo de outras eras; todavia, suas elucidações não me satisfazem. E vivo desalentado, aflito. Desde muito, permaneço arredio da Medicina. Meu sobrinho Sinfrônio, clínico de renome, aconselhou-me exames detalhadas. Entretanto, perambulei em vão, através de laboratórios, por mais de dois anos e, de alguns meses para cá, vivo interessado no Espiritismo, procurando, porém, inutilmente, a solução do meu caso, pelas salas mediúnicas.
   – Mas, não terá obtido conselhos, receituário, indicações? – inquiriu Martinho, emocionado.
   – Sim – esclareceu o doente –, semelhantes recursos não me têm faltado; contudo, que me vale o roteiro sem nomenclatura? Necessito obter o diagnóstico de minha verdadeira situação. Creio não andaria bem avisado se usasse remédios, ignorando quais os sofrimentos físicos. Preciso esclarecimentos exatos, diretrizes francas. Apesar, porém, de minha insistência, os Espíritos nunca traçaram o diagnóstico desejado. Aconselham-me, atendendo talvez a minha ansiedade, com a panacéia das boas palavras. Entretanto, isto não serve ao meu temperamento amigo da verdade.
   Martinho sorriu paciente e obtemperou:
   – Em todas as coisas, meu amigo, há que considerar os desígnios providenciais de Deus.
   – Mas não estou contra Deus – objetou o doente, numa expressão de superioridade. – Se é que os desencarnados vêem nossa máquina orgânica, externa e internamente, por que semelhante esquivança aos meus pedidos reiterados? Sabem acima dos médicos, enxergam mais que os raios X, auscultam além da epiderme. Donos de tamanhas possibilidades, por que a negação de algumas palavras que me aclarem as dúvidas? Medicar-se alguém, sem o conhecimento da própria situação, constitui grave perigo. Simples receituário não satisfaz ao homem observador e inteligente.
   O orientador da reunião não quis alimentar a palestra e permaneceu em silêncio, convidando, em seguida, os presentes à oração habitual.
   Terminados os trabalhos, a folha de papel que relacionava o nome de Colavida não exibia coisa alguma, além de certas indicações para tratamento. Nada de explicações técnicas, nada de terminologia científica.
   – E o diagnóstico? – perguntou o enfermo, desapontado, fitando a médium, entre a desconfiança e a censura.
   – Não recebi qualquer observação, neste sentido murmurou Dona Eulália, humilde e tímida.
   – Ora, ora, Sr. Martinho – disse Tomé ao diretor dos trabalhos –, às vezes chego a pensar que este movimento de comunicações com o outro mundo não passa de grosseira mistificação. Peço definições médicas e respondem-me com apontamentos de alimentação e nomes de tinturas! Aonde iremos com isso?
   Depois de mirar Dona Zulália, de alto a baixo, com ares de zombaria, perguntou:
   – Quem receita por seu intermédio?
   – É o Dr. João Crisóstomo de Toledo, que foi antigo médico nestes sítios.
   Tomé riu, sarcástico, e acrescentou:
   – Parece que ele anda desmemoriado e completamente alheio à Medicina. Este Espírito deve ser um espertalhão.
   A esta altura, Martinho adiantou-se:
   – Mas, Sr. Colavida, nesta casa não temos o direito de insultar benfeitores. Não somente os Espíritos amigos, mas também Dona Eulália não nos pedem retribuição alguma. Os mentores espirituais, certamente, sacrificam-se bastante, vindo até nós, e a médium abandona sagradas obrigações domésticas para atender aos nossos apelos. Não desconheço as nossas deficiências e admito que a nossa tarefa esteja repleta de falhas e erros que a experiência corrigirá; mas, seria justo acusar de embusteiros os que se devotam ao trabalho, com amor e renunciação?
   Tomé percebeu o terreno falso em que se colocara, pedindo desculpas, invocou o famoso subconsciente e rogou fosse admitido à próxima sessão, recebendo as melhores expressões de fraternidade por parte dos companheiros ali reunidos.
   Na semana seguinte, repetiram-se os mesmos comentários, com a teimosia renitente de Colavida, a boa-vontade de Martinho e a natural timidez de Dona Eulália. O enfermo estava ansioso. Solicitava pareceres do médico desencarnado, emitia observações técnicas e, por último, pedia, se possível, o comparecimento de Acácio, o amigo invisível, para maior esclarecimento da situação. Findos os trabalhos da noite, verificou-se que João Crisóstomo lançara no papel as mesmas recomendações anteriores, sem omitir uma vírgula. Nada de nomear a enfermidade do consulente. Acácio, contudo, escrevera-lhe mensagem ponderada e afetuosa.
   – «Meu irmão – dizia ele, revelando intimidade e carinho –, não aguardes um diagnóstico que nos seria difícil fornecer. Vale-te da cooperação do amigo espiritual que te ministrou indicações tão úteis e procura pô-las em prática. Por que impor condições aos que te beneficiam? O grande problema não é o de receberes uma frase complicada, à guisa de definição, mas sim buscares a restauração das tuas energias, cheio de boa-vontade. O diagnóstico, Tomé, nem sempre pode ser perfeito e nem sempre se ajusta às finalidades da renovação orgânica. O corpo do homem é uma usina de forças vivas, cujos movimentos se repetem no tocante ao conjunto, mas que nunca se reproduzem na esfera dos detalhes. As dores de cabeça são idênticas nas sensações que proporcionam, mas quase sempre desiguais nas origens. Como te oferecer um diagnóstico exato, se amanhã sensíveis modificações podem ocorrer em tuas células mais íntimas? Não te furtes ao benefício, apenas porque não podes impressionar os olhos mortais com meia dúzia de termos indecifráveis. Trata-te, meu amigo! o tempo é precioso. Cuida da maquinaria física, aceita a bondade do Eterno Pai, sem cristalizar o pensamento nas normas secundárias da ciência terrestre. Lembra que te amamos intensamente e desejamos teu bem-estar.»
   Leu Colavida a mensagem afetuosa, volvendo irritadiço;– Afinal, estou sem compreender coisa alguma. Sinto-me doente, cansado, peço esclarecimentos que satisfaçam e os invisíveis me dirigem exortações?!
   E, fixando o olhar na médium, rematava:
   – Francamente, minha decepção é sem limites. Martinho, na fé serena que lhe assinalava as atitudes, ajuntou tranqüilo:
   – É o que merecemos, meu amigo. Desejávamos receber o diagnóstico, mas ...
   Tomé coçou nervosamente a cabeça e cortou-lhe a palavra:
   – Nada de reticências. Presenciamos verdadeiros fracassos. D que lastimo é o tempo perdido a procurar elucidações, quando me asseveravam que o Espiritismo é fonte de verdade. Onde a franqueza nestas farsas em que venho pondo minhas melhores esperanças? Em todos os Grupos, apenas encontrei material incompleto, entre médiuns
supostamente humildes e doutrinadores pretensamente inspirados. Estou farto. Não vim procurar consolações, mas informes necessários. Estes Espíritos, contudo, devem andar lá no Alto à maneira dos asnos cá em baixo. Em toda parte é dissimulação, ignorância, fanatismo. Solicito diagnóstico e lançam-me recomendações estranhas a todo conhecimento de posologia. Abandonarei minha experiência, convencido de que Espiritismo e mediunidade são duas tolices mundiais.
   Os companheiros já se haviam retirado. Apenas Martinho e Dona Eulália permaneciam ali, suportando heroicamente a neurastenia do enfermo malcriado. Reconhecendo-lhe a irritação, dispunham-se ambos a abandonar o recinto, em silêncio, quando, ao primeiro gesto de despedida, Tomé procurou retê-los ansiosamente:
   – Por quem são! ajudem-me!... Não desejo sair, experimentando tamanha impressão de abatimento moral. Quero a verdade, senhor Martinho. Auxilie-me na consecução deste propósito. A falta do diagnóstico desejado acabrunha-me. Sinto que tudo é mentira em torno de meus passos.
   E depois de fixar a médium, ansiosamente, concluiu:
   - Dona Eulália, se esses Espíritos que a senhora diz ouvir e ver são personalidades reais, por que razão me negam a verdade? Agora que estamos a sós, atendam-me por amor de Deus. Peçamos diretamente aos invisíveis que se manifestem e me esclareçam.
   Havia tamanha emoção naquelas palavras, que Martinho e a médium se entreolharam penalizados. À interpelação silenciosa do diretor das sessões, a nobre senhora respondeu bondosamente:
   – Estou pronta.
   Sentaram-se os três. O orientador orou com lágrimas, invocando a Providência Divina. Foi então que o amigo espiritual, por intermédio de Dona Zulália, falou em voz triste, mas firme:
   – Tomé, em vão temos procurado auxiliar-te na cura. Atende ao teu caso orgânico, enquanto é tempo, porque teu corpo está dominado pela morféia nervosa. Colavida fez-se pálido e esforçou-se por não cair, ali mesmo, fulminado pelo diagnóstico doloroso.
   Suspenderam-se as preces, sob forte emoção.
   No dia imediato, o doente atormentado procurou gabinetes de pesquisas e especialistas em moléstias do sangue, obtendo a confirmação amarga. À noite, insistiu para que Martinho e Dona Eulália se reunissem na sua companhia. Estava desfigurado, em pranto. Terminada a prece do diretor da reduzida assembléia, o enfermo exclamou soluçando:
   – Oh! benfeitores invisíveis, por quem sois, auxiliai-me no destino cruel! Que surpresa dolorosa me preparastes, dando-me conhecimento da realidade terrível!...
   Mas, nesse instante, a generosa entidade de Acácio tomou o punho da médium e escreveu :
   «Conforma-te, meu querido Tomé! Não queria a verdade completa, o diagnóstico aproximado de tua situação orgânica? Não chores. Lembra-te de que Jesus é o Divino Médico e não esqueças que, se tens agora a lepra do mundo,não estás esquecido pela bondade de Deus.»

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O PURGATIVO

Por Humberto de Campos - Grãos de Mostarda - 1926

(BERNARD GERVAISE)
A MÃE - Ainda não fez efeito, doutor! Nunca vi uma coisa assim!
O MÉDICO - Nenhum efeito?
A MÃE - Absolutamente nenhum. Eu chego a pensar que o farmacêutico talvez se tenha enganado ao preparar a receita.
O MÉDICO - Seria possível? Mostre-me o que ficou no fundo da garrafa.
A MÃE - aqui está, doutor; veja.
O MÉDICO - Hum! Hum! Não; não houve erro. É esta mesmo a poção laxativa que eu receitei... E a senhora deu como eu prescrevi: dois cálices, dos grandes?
A MÃE - Sim senhor. E os nossos cálices são bastante grandes... São destes...
O MÉDICO - De manhã, em jejum?
A MÃE - Sim, senhor.
O MÉDICO - E com aquele quarto de hora de intervalo?
A MÃE - Sim, senhor; contado a relógio.
O MÉDICO - É interessante. Interessante e incompreensível!
JULINHO - (derretendo-se em lágrimas} - Hi! hi! hi! Eu sei... porque é... que não fez... efeito...
Eu sei!... hi! hi! hi!...
O MÉDICO - Que foi, meu filho? Diga...
JULINHO - Eu não quero dizer... hi! hi! hi!...
A MÃE - (derretendo-se em lágrimas) Dou duas moedas para o cofre... Diga!
JULINHO - Eu quero mais. Eu quero cinco moedas... Eu quero que não me castiguem... quando eu disser... hi! hi! hi!
A MÃE - Pois, bem, eu dou... Que foi que você fez? Vomitou a poção?
JULINHO - Hi! hi! hi!... Eu não vomitei a poção... Mas eu não fiz efeito... porque eu estava brincando com a garrafa... hi! hi! hi!... e engoli a rolha!...

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Chico Xavier usa Humberto de Campos para pregar Teologia do Sofrimento


Oportunista, Francisco Cândido Xavier sempre tentava botar na conta das "personalidades do além" a sua linha conservadora de pensamento. Defensor entusiasmado da Teologia do Sofrimento, corrente da Igreja Católica que prega aos sofredores aguentarem com resignação as suas desgraças sob a desculpa de "receber mais rápido as bênçãos divinas", Chico não cansava de defender isso, com suas palavras.

Desta vez, ele, através do livro Reportagens de Além-Túmulo, de 1943, usou o nome de Humberto de Campos para mais um texto igrejista, com forte ranço católico, no Capítulo 28 intitulado "A Queixosa". A narrativa tenta imitar a agilidade de Humberto, mas ele nunca escreveria uma prosa igrejeira destas, de forte tom moralista e longe de significar uma leitura prazerosa e proveitosa.

Chico Xavier, desta forma, criou um conto de uma queixosa estereotipada que é abandonada por familiares e amigos só porque reclamava de suas desgraças. Botou na conta de Humberto de Campos e elaborou o texto com alguns colaboradores da equipe editorial da FEB.

A lição que traz este livro é perniciosa: "aguente o sofrimento sem reclamar e espere a bênção vir, não se sabe quando nem como". É certo que não devemos passar a vida toda reclamando, mas da forma que o texto demonstra, até um mínimo questionamento é amaldiçoado pela pena ultraconservadora de Chico Xavier, o mesmo que defendeu abertamente a ditadura militar.

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A QUEIXOSA

Francisco Cândido Xavier - atribuído supostamente a Humberto de Campos - Reportagens de Além-Túmulo - FEB, 1943.

   Benvinda Fragoso tornara-se amplamente conhecida pelas suas queixas constantes. Quem a ouvisse na relação dos fatos comuns afirmaria, sem hesitar, que a infeliz arrematara todos os desgostos do mundo.
   Órfã de pai e mãe, vivia à custa de salário modesto, numa fábrica de toalhas, onde fora admitida por obséquio de amigos devotados. Todavia, se a existência era laboriosa, não faltavam recursos para torná-la melhor. Não se casara, mas dois sobrinhos inteligentes e generosos faziam-lhe companhia no ambiente doméstico. Os genitores não lhe deixaram haveres em espécie, mas sempre legaram à filha o patrimônio do lar, edificado ao preço de sublimes sacrifícios.
   Benvinda rodeava-se de oportunidades benditas, mas não sabia aproveitá-las. Cristalizara-se nas queixas dolorosas, aniquilando as próprias energias. A mente enfermiça desfigurava as sugestões mais belas da vida diária.
   – Sou profundamente infeliz – dizia a uma colega de trabalho –, vivo insulada, à maneira de animal sem dono, ao léu da sorte. Morrer seria para mim uma felicidade. Diz-se que o fim é sempre doloroso. Não será, porém, mais agradável alcançar o termo do caminho no seio de tantas sombras e surpresas angustiosas?
   – Não digas isso, Benvinda – observava a companheira, com intimidade –, temos saúde, não nos falta trabalho, teus sobrinhos gostam de ti. Não nos sintamos desditosas, quando a oportunidade de serviço continua em nossas mãos.
   Mal-humorada – explodia a queixosa, exasperada:
   – Que dizes? a existência esmaga-me e desde a infância há sido para mim pesada carga de sofrimentos. Referes-te aos sobrinhos, e que significam eles em meu caminho senão agravo de preocupações? O mundo é cárcere tenebroso, inferno terrível, onde somos convocados a ranger dentes.
   Calava-se a colega, ante o transbordamento de revolta insensata.
   Na estação do frio, aferrava-se Benvinda em lamentações amargosas; no verão, acusava a Natureza, declarava-se incapaz de tolerar o calor ; e, se chovia, amaldiçoava as nuvens generosas.
   Dispondo de muitas horas no ambiente doméstico, a infeliz nunca soube valorizar o santo aconchego das paredes acolhedoras, onde os pais carinhosos lhe haviam dado o beijo da vida.
   Enquanto os sobrinhos, quase crianças, permaneciam no trabalho, Benvinda recorria às vizinhas e, mãos cruzadas em sinal de preguiça, continuava incorrigível:
   – Ah! Dona Guilhermina, a vida vai-se tornando insuportável. Este mundo resume-se em miséria e desengano. Até quando serei humilhada e perseguida pela má sorte?
   – Oh! minha filha! – respondia a interpelada, fixando gestos de mãe compadecida, por ocultar a verdadeira expressão da personalidade habituada à maledicência – Deus é bom Pai. Não desanime. Tenhamos confiança na Providência. Tudo passa neste mundo. A fé pode transformar nossas dificuldades em motivos de vitória e alegria.
   – Fé? – replicava Benvinda, exaltada – estou descrente das orações. Deus nunca me atende. Quando sonhava, há dez anos, a organização de um lar que fosse somente meu, rezei pedindo a proteção do Céu e meu noivo desapareceu para desposar outra jovem, mais tarde, longe de mim. Quando meu pai se decidiu à operação, supliquei à Providência lhe poupasse a vida, atendendo a que eu era órfã de mãe, desde os mais tenros anos, e sobreveio a infecção que o levou à sepultura. Quando minha única irmã adoeceu, recorri de novo à confiança no Poder Celestial e Priscila morreu, deixando-me os filhos por criar, através de obstáculos numerosos. Como vê a senhora, minha crença não poderia resistir a choques tamanhos. Estou sozinha, abandonada ; sou o cão anônimo, desprezado em desvãos do caminho.
   Mas, como a assistência espiritual da Esfera Superior se vale de todos os meios para socorrer ignorantes e infelizes, a vizinha, não obstante a má-fé, constituía-se em instrumento de consolação ao bafejo de amigos desvelados do Plano Superior e replicava:
   – Entretanto, quem sabe todas as desilusões não resultaram em beneficio? O noivo, que a enchia de esperança, talvez a envenenasse de desesperação, mais tarde; o genitor teria evitado a operação cirúrgica, mas possivelmente se tornaria dementado, percorrendo hospícios ou convertendo-se em palhaço da via pública; a irmã ter-se-ia curado da pneumonia, mas, viúva muito jovem, talvez lhe amargurasse o coração fraterno, cedendo a sugestões inferiores no caminho da vida.
   Em vez de ponderar as observações amigas, Benvinda retrucava:
   – Não me conformo: para mim a vida se resume no drama pungente que aniquila o espírito, ou na comédia que revolta o coração.
   A palestra continuava, pontilhada de lamentos e acusações gratuitas ao mundo, até que os rapazelhos chamavam à porta. A tia, que perdera tempo em lamúria improdutiva, aproximava-se do fogão, apressada.
   – Esta vida não me serve! – dizia em voz alta, amedrontando os jovens – até quando serei escrava dos outros, capacho do Destino? Maldita a hora em que nasci para ser tão desgraçada.
   Os sobrinhos miravam-na entristecidos.
   – Quando conseguirmos melhor remuneração, titia – exclamava um deles, bondosamente –, havemos de auxiliá-la, retirando-a da fábrica. Não é a senhora nossa verdadeira mãe pelo espírito?
   Benvinda, no entanto, longe de comover-se com a observação carinhosa, multiplicava as impertinências.
   – Não creio em ninguém – bradava de cenho carregado –, quando vocês puderem, deixarme-ão na primeira esquina. Não pensam senão em diversões e más companhias. Crêem que resolverão meus problemas com promessas?
   Observando-lhe a feição neurastênica, os rapazes esperavam a refeição, sisudamente calados. Terminada esta, regressavam naturalmente à rua. O ambiente doméstico pesava. A lamentação viciosa é força destrutiva.
   Benvinda não reparava que as amizades mais íntimas a deixavam sozinha no circulo das queixas injustificadas. Ninguém estava disposto a ouvir-lhe as blasfêmias e críticas impiedosas. As colegas de serviço evitavam-lhe a palestra desanimadora. As vizinhas refugiavam-se em casa ao vê-la em disponibilidade no quintal invadido de ervas rústicas. Os sobrinhos toleravam-na, desenvolvendo imenso esforço. Nesse insulamento, a infeliz piorava sempre. Começou a queixar-se amargamente do serviço e a acusar a administração da fábrica. Enquanto sua atitude se limitava a circulo reduzido, nada aconteceu de extraordinário; todavia, quando resolveu dirigir-se ao gerente para reclamações descabidas, recebeu a ordem inflexível de demissão.
   Enclausurada no desespero, não tinha percepção das oportunidades que se desdobram no caminho de todas as criaturas, nem compreendia que não era a única pessoa a lutar no mundo. Crendo-se mártir, agravou a ociosidade mental e foi relegada a plano de absoluto isolamento.
   Nem amigos, nem trabalho, nem colegas, nem sobrinhos.
   Tudo fugiu, evitando-lhe a atmosfera de padecimento voluntário.
   Depois de perder a casa, em venda desvantajosa, a fim de obter recurso à manutenção própria, passou ao terreno da mendicância sórdida.
   Foi nessa situação escabrosa que a morte do corpo a compeliu a novos testemunhos.
   Desencantada e abatida, acordou na vida real em solidão mais dolorosa. Ninguém a esperava no pórtico de revelações do Além-túmulo. Estava só, sem mão amiga.
   E os sofrimentos de que se julgara vítima na Terra?
   Não esperava convertê-los em títulos de ventura celestial? Descrera da Providência no mundo, entretanto, no íntimo, sempre acreditara que haveria glorioso lugar para os desventurados e famintos da experiência humana. Depois de longo tempo, em que se multiplicavam provas ásperas, rogou ao Espírito de sua mãe que a esclarecesse na paisagem nova. Tinha sede de explicações, ânsias de paz e fome de entendimento.
   Depois da súplica formulada com lágrimas angustiosas, sentiu a aproximação da desvelada genitora.
   – Benvinda – murmurou a terna mensageira, carinhosamente –, não te dirijas a Nosso Pai lamentando o aprendizado em que te encontras. Toda queixa viciosa, minha filha, convertese em crítica injusta à Providência. Estás convicta de que sofreste na Terra; entretanto, a verdade é que envenenaste os poços da Divina Misericórdia. Fugiste às ocasiões de trabalho, desfiguraste o quadro sublime de realizações que te aguardavam a boa-vontade nas estradas da luta humana. Hoje aprendes que a lamentação é energia que dissolve o caráter e opera o insulamento da criatura. Não conseguiste afeições em ninguém, não soubeste conquistar a gratidão das criaturas, nem mesmo das coisas mais ínfimas do caminho. Sofre, minha filha! A dor de agora é tua criação exclusiva. Não imputes a Deus falhas que se verificaram por ti mesma.
   – Oh! minha mãe! – suplicou a infeliz – não poderei, porém, voltar e aprender novamente no mundo?
   – Mais tarde. Por agora, para que alcances alguma tranqüilidade, incorporar-te-ás à extensa falange espiritual que auxilia os rebeldes e inconformados da luta humana. Reduziste a existência a montão de queixas angustiosas, sem razão de ser. Trabalharás agora, em espírito, ao lado daqueles que se fecham na teimosia quase impenetrável, a fim de compreenderes o trabalho perdido...
   E a queixosa trabalha até agora, para abrir consciências endurecidas à compreensão das bênçãos divinas.
   É por isso que muitos homens, em momentos de repouso, são por vezes assaltados de idéias súbitas de trabalhos inesperados. Criaturas e coisas enchem-lhes a visão interna, requisitando atividade mais intensa. É que por aí, ao redor da mente em descanso, começam a operar os irmãos de Benvinda, a fim de que a preguiça não lhes aniquile a oportunidade, qual aconteceu a eles mesmos.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Em crise, Brasil se prende a estereótipos


O Brasil costuma pensar a realidade como se fosse uma propaganda publicitária, um enredo de novela, um filme de ficção. E é isso que faz as pessoas se apegarem a estereótipos e, por mais que tentem argumentar racionalmente suas convicções pessoais, a constatação é que os cérebros das pessoas parecem estar dotados de um "ponto" no qual os executivos da mídia dão suas ordens.

As pessoas tentam argumentar cada bobagem ou cada coisa equivocada como se fossem assessores de imprensa, legisladores ou cientistas frustrados. Muitos não sabem sequer o que realmente querem, e aceitam prejuízos e retrocessos porque acreditaram piamente naquilo que ouviram, por iniciativa de tecnocratas duvidosos, decisão de autoridade duvidosa e divulgado por uma mídia duvidosa.

As pessoas acabam defendendo aquilo que lhes prejudica. Ou aquilo que não lhes traz vantagem alguma. Vive-se como "se pode", até quando não se poderá viver sequer o "possível", porque o Brasil decai a níveis surreais, por conta da prepotência de autoridades ou de outros representantes do status quo cujos estereótipos sugerem pretensa superioridade, carisma e poder.

Temos um Congresso Nacional que, da parte da Câmara Federal sob a liderança de Eduardo Cunha, quer fazer o Brasil retroceder ao período colonial. Temos uma religião "futurista", o tão conhecido "espiritismo" brasileiro (sim, o de Chico Xavier e Divaldo Franco), que, na verdade, quer retroceder o país aos parâmetros religiosos e intelectuais da Idade Média.

Saímos de casa sem poder saber o ônibus que vamos pegar, já que a pintura padronizada deixou as diferentes empresas de ônibus com o mesmo visual. E, quando voltamos, temos que saltar do local errado que o ônibus errado nos levou, olhando para todos os lados para evitar o ladrão da proximidade, e pegar talvez mais um ou dois que nos levem para casa ou próximo dela.

Quando usamos a Internet e contestamos algum problema nas mídias sociais, em primeiro momento, quando a discussão é privativa e feita às costas do poder em geral e da opinião pública, há um mínimo de tolerância. Mas quando as reclamações convertem em uma iniciativa para interferir nas leis e decisões alheias, os "concordantes" se rebelam e passam a fazer trolagem.

Sim, porque só é permitido reclamar dos problemas nas mídias sociais, de forma privativa e discreta, como se reclamar fosse apenas um "esporte", um "passatempo". Se a queixa se transforma em ação para resolver o problema, ocorre o surreal: aqueles que concordaram com as queixas reagem contra aquele que intervém, fazendo humilhações e ameaças violentas.

As pessoas não têm noção da crise, e a visão geral é que tudo "é culpa do PT". Projetos de retrocessos sociais ocorrem fora do "lulo-petismo" e da "ação dos petralhas" e as pessoas não percebem. ficando felizes na sua vida medíocre, mesmo abastada, preferindo rezar, contar piadas e jogar conversa fora mesmo quando problemas surgem sob suas sombras.

É preocupante que as pessoas se prendam a estereótipos em tudo. Suas vidas se degradam, e isso não é só um "privilégio" das periferias, mas algo que atinge também classes abastadas, de nível universitário, dotadas de algum conforto na vida. Tudo porque o status quo lhes faz legitimar, apoiar e subordinar-se ao poder ou influência de maus poderosos, maus tecnocratas, maus ativistas e outros maus cumpridores de papéis sociais.

A ânsia de ver Dilma Rousseff fora do poder faz com que as pessoas se esqueçam de influências perigosas como as do deputado Eduardo Cunha, que, a pretexto de "servir a Deus" - a exemplo do truculento Jair Bolsonaro - , agem para tornar o Brasil uma pátria obscurantista, retrógrada, com trabalhadores reduzidos a uma multidão de escravos mal remunerados.

No "espiritismo" brasileiro, o efeito mais grave que se observa é que os maiores deturpadores da Doutrina Espírita, Chico Xavier e Divaldo Franco, são aceitos comodamente por causa dos estereótipos diversos que os cercam, sobretudo ligados a supostas filantropias.

Os estereótipos chegam mesmo a delirantes atribuições de qualidades que eles nunca tiveram: filósofos, cientistas, psicólogos, mestres. A emotividade extrema que tira das pessoas o dom da razão faz com que se exaltem ou depreciem pessoas sob um simples impulso de instintos.

As pessoas não querem abandonar totens e se assustam quando seus ídolos e dogmas são postos em xeque. Quando se fala em crise fora dos manjados terrenos da Política e da Economia, correm de medo. Querem resolver problemas na vida lendo livros para colorir ou histórias sobre jogos de Minecraft. Acham mais fácil "combater" vampiros e bonecos eletrônicos do que resolver os problemas da vida.

Essa prisão a estereótipos, dos tecnocratas que impõem malefícios como se fossem "sacrifícios necessários", de políticos antipopulares que se impõem como "alternativa viável" ao "insuportável" PT, de ídolos religiosos que cometem irregularidades mil mas "são bondosos", dos ídolos musicais caricatos e canastrões que "são autenticamente populares" porque se apresentam sempre em plateias lotadas, tocam em rádios e TVs de grande audiência etc.

As pessoas, agindo assim, mostram o quanto a chamada ditadura midiática e a influência do mercado e dos meios de comunicação exercem nas pessoas. Mesmo adultos sucumbem a essa influência, e de maneira ainda mais perigosa, porque são manipulados e ainda arrumam desculpas "lógicas" para defender ideias que lhes são induzidas por esta manipulação.

Desta maneira, o Brasil não só mantém seu atraso como pode perder as conquistas que teve. Os retrocessos mostram que a crise que o país vive vai muito além da Economia e da Política e, principalmente, do PT. Se no país de Tom Jobim, "grande artista" hoje é Wesley Safadão, é sinal que o país sofre uma decadência que vai muito além dos "limites do lulo-dilmo-petismo".

terça-feira, 12 de abril de 2016

É muito fácil os "espíritas" exigirem dos outros o sacrifício


Os membros do "movimento espírita" se impacientam quando muitos sofredores e angustiados reclamam dos pesados infortúnios que sofrem, sem poder terem uma solução adequada para seus problemas.

Para piorar, mesmo os mais dedicados tratamentos espirituais, em vez de resolver um problema, contraem outros, bem mais graves. As pessoas, buscando proteção, acabam ficando mais inseguras, desprotegidas e vulneráveis.

E aí o palestrante "espírita", o sacerdote moderno das "belas palavras", o artífice das mensagens de "otimismo e fé", o "cavaleiro da esperança" do "espiritismo" brasileiro, reage dizendo que as pessoas só querem misericórdia e não sacrifícios.

E aí a palestrante "espírita", senhora "bondosa", fica dizendo ao desafortunado que contraiu azar depois que fez um tratamento espiritual, que esse tratamento "está dando certo" e apenas os "amiguinhos ignorantes" é que fazem de tudo para atrapalhar. Como se dar errado fosse sinônimo de dar certo, o que é um grande desrespeito a quem sofre.

Os artífices "espíritas" da palavra, malabaristas das "belas mensagens fraternais", vivem em situação confortável. Têm boa vida, embora tentem dar a impressão de que vivem "bem, mas com simplicidade". Não sofrem grandes infortúnios, suas famílias quase não enfrentam tragédias precoces e repentinas, e são apoiados por membros da alta sociedade.

Eles não percebem o equívoco que fazem quando dizem, com "bondade paternal", que a certas pessoas são necessários "sacrifícios" como uma forma de "aprendizado" para a vida. Esquecem eles da diferença que existe entre desafios e desgraças e acham que infortúnios longos não podem causar danos às pessoas, como remédios tomados acima da dose.

Em suas pregações, eles costumam argumentar: "O 'eu' não quer sacrifícios. Pede ao 'outro' ajuda além da conta. O 'eu' fica paralisado, esperando que a graça venha em suas mãos quando é necessário agir para obter superação".

Só que falar é fácil. Mas a verdade é que eles são o "eu" que pede misericórdia, compreensão e aceitação. O pobre coitado que sofre, que pede solução para seus problemas, é que é o "outro" que o "eu" dos palestrantes "espíritas" exige sacrifícios, confundindo desafios com desgraças, infortúnios com aprendizados, e do qual se pede mais esforço e quase não lhe dá ajuda.

O ideólogo religioso tenta se anular como o "eu" psicológico, atribuindo a um ente ainda misterioso, chamado "Deus", suas convicções ideológicas. O ideólogo religioso tenta se camuflar no rótulo de "nós", ou seja, "eu e os outros", e com isso se exime da culpa de ser o "eu" que cobra demais do "outro".

Mas a verdade é que o "espiritismo", com sua moral severa, apoiada no juízo de valor de supor encarnações passadas sem conhecer adequadamente a Ciência Espírita trazida por Allan Kardec, e busca inspiração na Teologia do Sofrimento popularizada por Chico Xavier, demonstra um sutil egoísmo moralista diante das angústias dos sofredores.

Sem perceber individualidades, para o palestrante "espírita" pouco importa se um homem com habilidades de ser um brilhante professor só tem a seu acesso um trabalho sombrio de flanelinha de rua, de preferência enfrentando concorrentes perigosos que podem matar a pessoa. Mas aí, se matar, pouco importa para os "espíritas", que, ao verem a vida carnal como algo "qualquer nota", acham que toda reencarnação é igual a outra. Deixou de fazer algo, tente daqui a cem anos!

O "espírita" julga os outros, cobra esforço dos outros, mas quanto ao seu igrejismo, ao seu Catolicismo informal, sem batina, sem revestimentos de ouro, mas com muitos dogmas e ritos católicos adaptados à "rotina espírita", não pode ser criticado nem cobrado.

Sem poder discernir as coisas, já que os "espíritas" se dizem "rigorosamente fiéis" a Allan Kardec mas o traem o tempo inteiro com o igrejismo extremado, tanto faz se um jovem solitário com dificuldades na vida amorosa querer se casar com uma mulher do perfil de Emma Watson (e não se fala da beleza dela, mas do seu nível de inteligência) e só ter em seu caminho mulheres fúteis como as siliconadas que só se afirmam pelo grotesco físico e são péssimas para conversa.

A complexidade da vida não é entendida pelos "espíritas", que pensam que a vida humana se limita a um processo simplório e aleatório de resolução de conflitos e prática de solidariedade, sem entender que pessoas também têm dons específicos, necessidades específicas e habilidades próprias.

Pedir o atendimento a esses dons, necessidades e habilidades não tem a ver com orgulhos materialistas, caprichos de vaidade ou exigências extravagantes, mas o respeito a uma missão que um prazo de vida relativamente curto, que dificilmente atinge o espaço de um século, tem para oferecer para a pessoa desenvolver suas qualidades.

A questão não é ser o "bonzinho". Os "espíritas" só pensam em bom-mocismo, mas não entende que, quando a pessoa é privada de desenvolver seus próprios dons, forçando-a a subir na vida se sujeitando a pessoas mais medíocres e tirânicas do que ela, encenando o "teatrinho da superação" que vai divertir a vaidade dos deslumbrados da fé religiosa, se está cometendo um prejuízo.

A vida não é um jogo de resolver conflitos e prestar solidariedades. É um processo de desenvolver habilidades, dons pessoais, fazer a pessoa crescer um pouco na sua trajetória pessoal, neste pequeno prazo de, no máximo, uns 85 anos, que lhe é oferecido pela Natureza.

Daí que aguentar qualquer sofrimento e limitação, sob o pretexto de "ampliar o aprendizado", como num masoquismo religioso de "quanto pior, melhor", acreditando que a desgraça é o "atalho para o céu", é um grande desperdício, e os "espíritas" acabam brincando com o sofrimento alheio, ao pensar que o sofredor deveria sacrificar-se mais e não ficar esperando misericórdia.

O "espiritismo", através de seu moralismo severo travestido de "belas palavras", acaba permitindo que o encarnado se torne brinquedo de espíritos traiçoeiros, vire um boneco das circunstâncias maléficas, manipulado de forma a ter mais dificuldades de superar infortúnios, aumentando o custo dos esforços e o abandono de habilidades, dons, necessidades e até sonhos.

Pensando assim, exigindo que o "outro" (o "eu" da pessoa que sofre) se sacrifique mais e mais, os "espíritas" revelam seu pior "eu", tomado pela vaidade de possuir a "melhor palavra", pelo orgulho de pregar a "melhor moral", enquanto escondem seus privilégios, como os velhos sacerdotes que sempre pedem humildade e sacrifício dos "outros" e se esquecem de fazerem sua parte.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Livro de autor "não-espírita" endeusa Divaldo Franco


Em matéria de tendenciosismo, o "movimento espírita" é muito, muito habilidoso. Neste sentido, o "espiritismo" brasileiro ganha das seitas neopentecostais pela sua esperteza em forjar objetividade científica, imparcialidade e despretensão, diante dos grotescos pastores da Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus e similares.

O Brasil já é um país surreal, em muitos e muitos aspectos, e quer comandar o mundo através de seu religiosismo esquizofrênico e sua sociedade longe de ser desenvolvida e próspera. Faz sentido que o país tornou-se terreno fértil para a deturpação da Doutrina Espírita que se tentou fazer na própria França de Allan Kardec.

Foi lançado há alguns meses o livro A Jornada Numinosa de Divaldo Franco, de Sérgio Sinotti, pela Livraria Leal, primeiro ensaio biográfico sobre o anti-médium baiano, obra supostamente dotada de objetividade e imparcialidade, por um "livre pensador", "observador isento" e não um "confrade ou acólito".

Na verdade, não é o primeiro livro sobre a vida de Divaldo Franco lançado nos últimos tempos. Há também a biografia jornalística Divaldo Franco - A Trajetória de um dos Maiores Médiuns de Todos os Tempos, de Ana Landi, da Bella Editora. Há ainda muitos outros livros falando sobre o trabalho "filantrópico" de Divaldo, o "maior filantropo do país" que não chega a ajudar 0,1% da população de Salvador e deixa Pau da Lima sob as trevas da violência.

Ambas as biografias tentam trazer objetividade ao processo de endeusamento de Divaldo Franco, um ídolo religioso similar ao de Francisco Cândido Xavier. Mas, diferente de Chico Xavier, Divaldo tenta apresentar uma roupagem "científica", através de sua pose "professoral" e de seu discurso rebuscado como que de um velho tribuno.

Quanto ao livro de Sérgio Sinotti, há um ponto a observar a respeito da palavra "Numinosa", que faz um claro trocadilho com a palavra "Luminosa". Segundo o dicionário Michaelis, "numinoso", "segundo a filosofia da religião de Rudolf Otto, aplica-se ao estado religioso da alma inspirado pelas qualidades transcendentais da divindade".

Isso significa que o livro do "não-espírita" Sinotti, mesmo assim, procura endeusar Divaldo Franco, transformando-o em um indivíduo dotado de "religiosidade da alma inspirado na transcendência da divindade". Pura divinização de uma simples pessoa.

Divaldo Franco é o plano B de uma possível falência do fenômeno Chico Xavier, envolto em confusões graves que vêm à tona em inúmeras denúncias. Já existe até mesmo uma campanha pelo relançamento, ou pelo menos pela disponibilização na Internet, do livro O Enigma Chico Xavier Posto à Clara Luz do Dia, de Attila Paes Barreto.

A diferença de Divaldo é, portanto, a roupagem "científica" e o verniz de "objetividade" que garantem que um ídolo religioso e a deslumbrante adoração que o cerca sobrevivam diante de aparentes questionamentos sobre o igrejismo entusiasmado.

De um lado, o discurso do pretenso "sábio", suposto filósofo, um falso "mestre" que afirma ter todas as respostas para tudo, algo que não é próprio de um verdadeiro mestre. Divaldo é um mistificador e deturpador da Doutrina Espírita, mas veste a capa do "bom kardeciano", de vez em quando puxando a brasa do mestre lionês para a muqueca igrejista do anti-médium baiano.

E isso é muito perigoso, porque camuflar o deslumbramento religioso com falsa objetividade científica é a maior habilidade do "movimento espírita", que dissimula seu igrejismo altamente místico (ou misticismo altamente igrejista, tanto faz) com alegações supostamente científicas.

Quando não funcionam as alegações científicas, investe-se no bom-mocismo, nos papos de "filantropia", "amor", "bondade", "caridade" e outras palavras lindas. Tudo para seduzir quem está de fora do circo da religião "espírita".

Isso é grave. Os inimigos internos da Doutrina Espírita, que a catolicizaram, assim que a fizeram irremediavelmente corrompida e hipócrita (se diz fiel a Allan Kardec mas contra ele se cometem traições doutrinárias severas), agora tentam cooptar ateus e agnósticos para seu domínio.

O "espiritismo" brasileiro, desta forma, sendo o Catolicismo medieval redivivo, fazer todos os artifícios para manter o seu poder e cumprir a hegemonia tão sonhada e descrita pelo seu "renegado" Jean-Baptiste Roustaing, em Os Quatro Evangelhos, que, muito antes de Chico Xavier e sua "data-limite", já falava na supremacia do "espiritismo" catolicizado sobre a humanidade da Terra.