sexta-feira, 7 de abril de 2017

Influência de espíritos autoritários desqualifica Chico Xavier e Divaldo Franco


As paixões religiosas ainda estarão nas agendas de debates, por se tornarem um processo perigoso, no qual se explora emoções e sensações que simulam estados de paz e tranquilidade, mas trazem energias maléficas, viciando a alma na busca desses "êxtases da fé", destas orgias sem sexo, sem drogas nem dinheiro, mas igualmente perniciosas e traiçoeiras.

Nota-se o perigo dessas armadilhas que as paixões perigosas permitem a reputação elevada dos deturpadores da Doutrina Espírita, de forma a que a maioria daqueles que questionam a deturpação tenham um empenho estéril, parando no meio do caminho.

É quando as paixões religiosas lhes inserem a fascinação obsessiva, perigoso tipo de obsessão já alertado por Allan Kardec, e que representa, no Brasil, com perfeita exatidão, o sentimento de apego de muitos brasileiros às figuras de Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, verdadeiros artífices da manipulação das mentes humanas.

O crítico da deturpação se amolece quando um sedutor processo de dominação, com melodias piegas, apresentando imagens de crianças pobres e velhos doentes sorrindo, paisagens floridas, peixinhos no fundo do mar, céu azul com o sol brilhando e coraçõezinhos ilustrados aparecem para anunciar a "superioridade" dos deturpadores, associados tendenciosamente a ideias de "amor, bondade e caridade".

Há muitos alertas, em obras de Allan Kardec - recomenda-se as traduções de José Herculano Pires, fiéis ao texto original - , que desmontam os festejados "médiuns", que já pecam pelo culto à personalidade e dissimulam seu trabalho deturpador sob o pretexto das "mensagens de amor".

Um deles corresponde à influência de espíritos autoritários, já descrita em O Livro dos Médiuns no capítulo 24, em conselho dado pelo espírito São Luís a respeito da identificação dos espíritos, como se observa explicitamente no item 10 dos princípios enumerados:

"10º) Os Espíritos bons jamais dão ordens: não querem impor-se, apenas aconselham e se não forem ouvidos se retiram. Os maus são autoritários, dão ordens, querem ser obedecidos e não se afastam facilmente. Todo Espírito que se impõe trai a sua condição".

São exclusivistas e absolutos nas suas opiniões e pretendem possuir o privilégio da verdade. Exigem a crença cega e nunca apelam para a razão, pois sabem que a razão lhes tiraria a máscara.


De forma explícita, nota-se que os "mentores" dos "médiuns" Chico Xavier e Divaldo Franco, Emmanuel e Joana de Angelis (lembrando que esta não teria sido Joana Angélica, mas o próprio Máscara de Ferro), personificam espíritos autoritários, que sempre forçavam seus subordinados a lhes obedecerem.

Em vários episódios das vidas dos dois "médiuns", Emmanuel e de Angelis ordenavam seus subordinados a continuar trabalhando. Nem a doença ou o cansaço noturno eram motivos para deixar os trabalhos, cumpridos de maneira opressiva e sobrecarregada, sob a desculpa de manter em ritmo intenso o "trabalho missionário", eufemismo para o proselitismo religioso em prol da deturpação do Espiritismo.

A obra de Allan Kardec prova, portanto, que espíritos de atuação autoritária e extremamente austera são, na verdade, espíritos inferiores, grotescos, contrariando a fama que se tem, no Brasil, de pretensa superioridade moral atribuída aos "mentores" dos dois "médiuns".

POR QUE ESPÍRITOS AUTORITÁRIOS SÃO VISTOS COMO "SUPERIORES" NO BRASIL?

O Brasil, conforme constata a professora de Filosofia da Universidade de São Paulo, Marilena Chauí, no livro Brasil: Mito Fundador e Sociedade Autoritária, revela a tradição autoritária que existe na sociedade brasileira, que permite que se aceite até a tirania sob pretextos diversos: "combate à corrupção", "disciplina", "devoção religiosa", "prosperidade econômica" e "reorganização da nação".

Diz a autora, na página 89: (...) as relações sociais e intersubjetivas são sempre realizadas como relação entre um superior, que manda, e um inferior, que obedece. As diferenças e assimetrias são sempre transformadas em desigualdades que reforçam a relação mando-obediência. (...)As relações entre os que se Julgam iguais são de "parentesco", isto é, de cumplicidade ou de compadrio; e entre os que são vistos como desiguais o relacionamento assume a forma ao favor, da clientela, da tutela ou da cooptação. (...).

O Brasil foi tomado, em sua História, de vários golpes sociais e políticos, e pela supremacia do status quo, do prestígio social, a que se permite delitos e violências para beneficiar ou proteger seus interesses. A Justiça premia com a impunidade quem é dotado de privilégios sociais e pratica crimes de roubo, fraude, falsidade ideológica, homicídio e outros, por eles serem motivados por "causas nobres" ou buscam vantagens socialmente aceitas.

A retomada conservadora que derrubou a presidenta da República, Dilma Rousseff, também foi motivado pela "revolta do bolor": elites dotadas de privilégios tão longamente preservados reagiam às transformações sociais que as faziam decair na sociedade, e organizaram uma frente social, midiática, parlamentar e jurídica para derrubar a chefe do Executivo e instaurar um governo que revertesse as conquistas populares em prol do zelo de antigos privilégios.

Não por acaso, uma das figuras mais cultuadas por essa sociedade é o político Jair Bolsonaro, símbolo da extrema-direita brasileira. De um perfil truculento e marcado por posturas autoritárias, preconceitos sociais e atitudes agressivas, Bolsonaro é uma ameaça ao país, na medida em que articula uma grande legião de seguidores confiantes de que ele um dia ocupará o Palácio do Planalto, mesmo que sem a consulta das urnas.

Se figuras assim são idolatradas e consideradas "símbolos de moralidade e eficiência humana", então faz sentido ignorar Allan Kardec e aceitar que um deturpador da Doutrina Espírita defina Emmanuel, por exemplo, como "espírito de máxima elevação" e "expressão da coerência e humildade humanas". É por isso que muitos brasileiros foram apoiar o golpe político que se deu, há um ano. A sociedade brasileira peca pelo seu autoritarismo e seu moralismo ferrenho.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

"Espíritas" não fazem palestras de graça. Há um preço de seu trabalho


Deturpar o Espiritismo, falando em "caridade" e criando todo um espetáculo de palavras bonitinhas, tudo isso de graça? Filmes "espíritas" que custaram algum dinheiro, disponíveis na íntegra, gratuitamente, para qualquer um ver? Livros "espíritas" permanentemente disponíveis de graça, para serem gravados no computador e até distribuídos para qualquer um?

Como diz o ditado, é bom demais para ser verdade. Não existe almoço grátis, diz a frase oficialmente atribuída ao economista neoliberal Milton Friedman, mas parece que para os "espíritas" só existe uma "moeda" em circulação entre eles, a da "luz", fora os "bônus-hora" que acreditam ser a unidade monetária em Nosso Lar.

A engenhosa dissimulação dos "espíritas" permite que a deturpação seja bem sucedida até diante dos esforços de recuperação das bases kardecianas originais. A "fase dúbia", em declínio mas ainda em evidência, consiste nesse mal disfarçado roustanguismo apoiado nas promessas de que Allan Kardec seria "devidamente respeitado" em suas ideias e procedimentos.

Tudo é feito mediante um preço. E se existe a aparente gratuidade em certas atividades e eventos, é porque há outros meios de faturamento. Nota-se que publicações "espíritas" são produzidas em quantidade industrial, com livros que, em princípio, não são liberados para consumo gratuito, ou filmes que também não tem esse destino inicial, quando lançados, porque precisam obter renda de outras formas.

Há até mesmo os "congressos espíritas", não só no Brasil mas em outros países onde houver receptividade desta doutrina igrejista que desfigurou a obra de Kardec, nos quais os "espíritas", sobretudo os "médiuns" dotados de culto à personalidade, fazem suas espetaculares palestras, com palavras bonitinhas, mediante o cachê arrecadado pelas taxas cobradas pelos eventos.

Os adeptos do "espiritismo" brasileiro acham isso "ótimo", porque "o dinheiro vai para a caridade". Mas é uma "caridade" que pouco ajuda, nunca cumpriu, sequer pela metade, a promessa de transformar a sociedade, e quando se fala nessa "filantropia" os focos sempre se voltam para o "benfeitor", pois os necessitados se rebaixam apenas a pálidos figurantes desse oba-oba publicitário.

No entanto, os palestrantes "espíritas" vivem uma vida confortável, em muitos casos virando verdadeiros aristocratas. Há até casos de gente rica, mesmo, como o anti-médium goiano João Teixeira de Faria, o João de Deus, que também é latifundiário.

Daí a facilidade com que eles têm para pregar a Teologia do Sofrimento, que através do exemplo de Francisco Cândido Xavier, pegaram emprestado do Catolicismo medieval. E isso é constatado com as próprias palavras que Chico Xavier, em várias oportunidades e mesmo sob atribuição a supostos autores mortos, disse a respeito dessa ideologia que faz apologia das desgraças humanas como um suposto atalho para obter as graças divinas.

Os "espíritas" não sofrem, e fazem o que querem com o legado kardeciano. Podem trair Kardec à vontade, para depois dizer que manifestam "fidelidade absoluta" e "respeito rigoroso" ao pedagogo francês. São os próprios inimigos internos que desfiguram a Doutrina Espírita, mas se arrogam em usar em causa própria os próprios alertas do espírito Erasto a respeito.

Sobre a questão da "gratuidade", há o mito de que Chico Xavier doou os direitos autorais de seus livros "para a caridade". Isso é fantasia. O que o anti-médium mineiro fez foi doar os direitos à FEB, o que fez enriquecer o poder de sua cúpula, sobretudo o "padrinho" Antônio Wantuil de Freitas, que presidia a entidade.

Chico Xavier fortaleceu o poder de Wantuil e a força centralizadora da FEB. Mas, depois que Wantuil morreu, em 1974, o mineiro foi pegar carona num movimento de falsos dissidentes - entre eles, Divaldo Franco - , se aproveitando de divergências de federações regionais com o poder central da FEB (que só privilegiava, das federações regionais, a FEESP, paulista), aproveitando também para fazer revanche contra Luciano dos Anjos, dirigente da FEB que denunciou plágios de Divaldo sobre obras de Chico.

Foi aí que veio a "fase dúbia", já que, como Jean-Baptiste Roustaing, o deturpador pioneiro, era o símbolo do poder centralizado do alto clero da FEB, o nome de Allan Kardec, então subestimado, passou a ser a "bandeira" dos "regionalistas" que, a partir de 1975, foram isolar o poder dos herdeiros de Wantuil e traçar o "movimento espírita" tal qual conhecem os brasileiros médios, seguidores ou não da doutrina igrejeira.

A ideia é fingir que se abandonou o roustanguismo, pois ele simbolizava o poder da FEB, e com isso fazer de conta, também, que se estava recuperando as bases kardecianas originais. Chico Xavier tentou se aproximar do amigo José Herculano Pires - não nos esqueçamos do ditado "amigos, amigos, negócios à parte" - , que integrava o grupo dos "científicos" junto a Carlos Imbassahy, o pai, e Deolindo Amorim, este pai do jornalista Paulo Henrique Amorim.

Isso criou um engodo muito pior do que aquele difundido nos tempos de Wantuil. Assuntos científicos, ainda que de forma pedestre e pedante, passaram a ser evocados. Ativistas de todo tipo passaram a ser bajulados. Uma suposta liberdade temática passou a ser adotada, diferente do falso cientificismo que a Era Wantuil permitia que fosse evocado, nos moldes de Os Quatro Evangelhos de Roustaing.

Isso porque se considera que, pior do que a deturpação propriamente dita, é uma deturpação dissimulada. A mentira passa a ser pior quando ela tenta a todo custo um aparato de verdade. A "fase dúbia" tornou-se pior do que o roustanguismo assumido, porque até Erasto é usado para defender práticas e ideias que o próprio espírito de Erasto reprovaria sem um pingo de hesitação.

O que se nota é a ascensão dos "médiuns" dotados de culto à personalidade, logo transformados em anti-médiuns. A comunicação com os mortos saiu prejudicada porque os "médiuns" não tinham concentração suficiente para o contato verdadeiro com o além, e inventavam mensagens apócrifas cheias de propaganda religiosa que só fazia afastar os mortos mais e mais, com a exceção de espíritos zombeteiros e farsantes, que se divertem com isso.

Geralmente esses "espíritos das trevas" raramente enviam mensagens para os "médiuns", mas eles dão sugestões e intuem o tempo todo nesse processo cheio de contradições do "movimento espírita". Se alegram com o igrejismo, com os espetáculos de palavras bonitas, com o aparato da caridade e da fraternidade. E os espíritos inferiores são os que justamente permanecem em lugares onde se toca a "música espírita", até porque lhes traz lembranças felizes e os propósitos ajudam.

O rol de deturpações que a "fase dúbia" trouxe no Brasil, desfigurando a Doutrina Espírita e seus ensinamentos, faz também com que o "espiritismo" brasileiro seja um reduto perigoso do estrelato e da mitificação.

E isso parte não só de "espíritas de borracharia", mas também de gente "tarimbada", que poucos sabem terem sido deturpadores que conseguiram a fama e o prestígio e hoje vestem a máscara de "santos", dizendo "sempre coisas boas" para tranquilizar as massas e deixá-las prontas para receber valores místicos e moralistas de valores ético e lógico duvidosos.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

"Médiuns" se tornaram uma aberração no Brasil

A MÍDIA ESTIMULA AS DISTORÇÕES EM TORNO DA FIGURA DO MÉDIUM.

O Brasil é um país tão atrasado que confunde ignorância com originalidade, provincianismo com estilo. E, no caso do Espiritismo, as pessoas estão tão acostumadas com a deturpação feita no nosso país que, quando se critica essa prática infeliz, os deturpadores são praticamente poupados.

A figura do médium foi um dos prejuízos da deturpação da Doutrina Espírita. Os brasileiros vestiram a camisa do ex-presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, que se estranha por que os chiquistas, discípulos de Francisco Cândido Xavier, não se declaram também wantuilistas (de Wantuil), roustanguistas (do deturpador pioneiro Jean-Baptiste Roustaing) e até marinistas (da família Marinho, dona das Organizações Globo, que colaboraram na renovação do mito de Chico Xavier).

A gente até desafia Juliano Pozati e companhia a fazerem Data Limite Segundo Jean-Baptiste Roustaing, porque no fundo é este advogado francês que se tornou o guia maior do "espiritismo" brasileiro, da mesma forma que o hoje renegado Eduardo Cunha é mentor do programa do governo Michel Temer, incluindo a terceirização para atividades-fim no emprego, ideia do governo Fernando Henrique Cardoso, mas ressuscitada pelo ex-presidente da Câmara dos Deputados.

O que temos hoje no "espiritismo" é praticamente um Catolicismo à paisana, falsamente modesto até para manter uma fachada humilde para reciclar o conteúdo medieval descartado por gerações mais recentes da Igreja Católica. Sim, porque, com toda a evocação do nome de Allan Kardec, tão bajulado e pronunciado em vão, os "espíritas" herdaram o espólio do Catolicismo jesuíta do período colonial.

E aí temos a distorção da figura do médium. Nos tempos de Kardec, a função era meramente eventual. Na verdade, uma tarefa trabalhada de vez em quando, de maneira quase anônima, discreta e sem objetivos de lucro. Pelo menos no que se diz àqueles que cumprem adequadamente a tarefa, pois exclui-se os ocultistas que dizem "falar com o além", que existiam até na Antiguidade e correspondiam a atividades marcadas pelo charlatanismo e pela ganância financeira.

No Brasil, o médium virou uma grande aberração. Tanto que até o termo "médium" é distorcido desde o início. Sabe-se que não é necessariamente médium aquele que "fala com os mortos". Quem "fala com os mortos" é paranormal ou um tipo de sensitivo.

Paciência. O Brasil é tão ignorante que não entende a natureza das palavras. "Comunismo", que vem da inocente expressão "comum", é visto como um misto de tirania e corrupção. "Capitalismo", cujo prefixo é "capital", reserva de dinheiro de bancos e empresas, é visto como "doutrina político-econômica voltada para o social".

Esquecem que o termo "médium" vem de uma palavra latina relacionada a "meio". É um termo ligado às ideias de intermediário, meio, canal, mas não o centro. Neste caso, "meio" não é "centro", porque no âmbito comunicativo, "meio" é um ente passivo de uma ligação entre dois lados, e "centro" é o ente ativo, para o qual os dois lados se subordinam na ligação.

O termo "médium" é distorcido, em primeiro momento, porque é o cara que "fala com os mortos", ainda que não transmita a "comunicação" para outros vivos. Em segundo momento, o "médium" passa a ser o astro principal de um espetáculo que inclui simulações de "comunicação espiritual", porque, na prática, os "médiuns" apenas "falam" pelos mortos, que continuam incomunicáveis.

Isso é fácil de identificar. Mensagens parecidas umas às outras, que apresentam falhas relacionadas aos respectivos aspectos pessoais em cada falecido, e que quase sempre terminam com um mershandising religioso, do tipo "vamos nos unir na fraternidade em Cristo".

Não há como fingir que tudo é autêntico e acreditar em tolices do tipo "o espírito de fulano estava tão tomado de amor que se esqueceu do próprio estilo" ou "o espírito tal doou seu estilo pessoal para a caridade e investiu na linguagem universal do amor".

Mas se isso já é deplorável, essa "mentiunidade", ou seja, a mediunidade de faz-de-conta, a coisa se agrava quando o "médium" vira um dublê de filantropo, pensador e ativista. Quando o "médium" se transforma em pretenso sábio, misturando pedantismo científico, esoterismo, moralismo e igrejismo, não há como levar a sério esse falso intelectualismo. Mas, infelizmente, muitos não só levam a sério quando se incomodam quando são questionados diante dessa postura.

Um dado mais preocupante é que os "médiuns" brasileiros são dotados de culto à personalidade. A aparente postura de humildade e os arremedos de filantropia praticados não podem ocultar esse dado de extrema gravidade e que é o que joga no lixo a verdadeira tarefa de médium, porque os "médiuns" que temos, além de uma quantidade acima da normal, são praticamente os líderes do espetáculo, as atrações de cada lugar (mesmo as "casas" onde eles "administram"), e até grifes para quem quer receber "mensagens dos mortos".

É terrível isso. O "médium" virou uma aberração. Essa constatação é realista, mas assusta muita gente. As paixões religiosas ainda seduzem muitos, as imagens alucinógenas de jardins floridos nos quais o rosto de Chico Xavier brota nas flores, ou a cabeça de Divaldo Franco voando pelos céus azuis de novens brancas, marcam as mentes de muitos deslumbrados.

Diante da cegueira emocional e da ilusão que o falso saber traz às pessoas, um "discurso de sabedoria" que parece claro e esclarecedor na forma, mas é confuso e obscurantista no conteúdo. Num país em que as pessoas acham que conseguem viver num contexto de burrice e corrupção das leis - o Judiciário hoje está cada vez mais irregular, tendencioso e corrompido - , então o "médium" pode ser visto equivocadamente como "filósofo" ou "cientista".

As pessoas tem que parar de serem escravas dessa cegueira emocional bem protegida pelos conceitos de pós-verdade que transformam qualquer mistificador rebuscado em "filósofo". Deixar de se revoltarem quando há críticas severas contra os "médiuns" que erram até na "caridade", pois sua aparente filantropia, se ajuda alguém, ajuda muito pouco, servindo mais para a promoção pessoal do "benfeitor" do que para a resolução verdadeira das injustiças e desigualdades sociais.

A gente até vê "médiuns" felizes dando palestras para os ricos e adulando as elites, em vez de cobrar delas maior investimento contra a miséria. E "espíritas" em geral dizendo para as pessoas "amarem o sofrimento". Que esperar de bondade de uma doutrina dessas, deturpada até a medula - diga-se de DNA roustanguista - , mais preocupada em dizer para os sofredores "aguentarem a barra"?

terça-feira, 4 de abril de 2017

O sentido dos gozos das "bênçãos futuras"

OS PRAZERES MUNDANOS DA TERRA SÃO BEM CONHECIDOS. MAS OS PRAZERES MUNDANOS DO "OUTRO LADO" AINDA PRECISAMOS ENTENDER.

O prestígio religioso e as paixões religiosas são armadilhas das mais terríveis. Tentações das mais traiçoeiras, elas são como armadilhas camufladas com a relva do bosque, em que o buraco onde cairá a presa é totalmente coberto para dar a impressão de inexistência.

Desta forma, tantos gozos, prazeres e luxúrias se escondem pela roupagem da simplicidade, da humildade, do espiritualismo. Quantas mensagens cruéis se escondem no balé de lindas palavras, quanto prazer pela desgraça alheia se disfarça com lindas estórias de superação, nos fazendo acreditar que é muito fácil suportar desgraças que nos fazem bater o coração com tantos sobressaltos!...

A mancenilheira, árvore linda de belíssimas folhas, com um tronco modesto mas bonito de se ver, e cujas frutas parecem maçãs e, consta-se, têm sabor delicioso, é totalmente venenosa. O risco de morte existe num simples toque em seu tronco. Comer as frutas, então, é quase certeza de infecção generalizada e mortal.

Imagine alguém falar umas frases dotadas da mais perfumada beleza, de seus lindos vocábulos, com argumentos aparentemente coerentes. Imagine o quanto belas palavras podem ferir, defendendo que devamos abrir mão de tudo, em nome do prêmio dos céus, pouco importando se desperdiçamos nossa limitada encarnação com desgraças e fracassos retumbantes. Vejamos algumas frases hipotéticas:

"Se você desenvolveu seus talentos, desenvolva outros. Se tudo dá errado, aceite as derrotas e aproveite as circunstâncias infelizes para desenvolver outras habilidades".

"Aquela garota com quem você sentiu afinidade profunda representa suas ilusões. Agradeça a circunstância dela ter se afastado de você e ter se desposado com outro homem. Aceite a outra, com a qual você não se identifica e até sente repulsa, grande oportunidade para resolver as diferenças".

"A empresa onde você trabalha é corrupta? Semeie a honestidade nela, transforme-a num lugar de solidariedade e trabalho".

"Você, mulher, apanha do marido? Tenha paciência, sorria para ele e seja gentil, para que ele possa de repente sentir alguma compaixão por você".

"Perdeu tudo na vida? Agradeça, porque você terá ganhos melhores e mais duradouros!".

Você é induzido a acreditar que esse balé de palavras lindas seja sempre benéfico e instrutivo para sua vida. Tudo parece lindo, mas quem sabe se não há juízos de valor, preconceitos, recados cruéis e sádicos por trás de palavras que parecem, à primeira vista, tão confortadoras?

Nas décadas de 1940 e 1950, fez muito sucesso um personagem de cartum chamado Amigo da Onça. Criação de Péricles Maranhão, consistia num sujeito franzino, vestido smoking branco, com cabelo engomado e bigode fininho, que sempre se comportava de maneira gentil com as pessoas que sofrem ou estão a sofrer alguma desgraça. Cada charge mostrava uma frase descontraída e simpática do Amigo da Onça, cruel com sua simpatia e palavras cordiais.

Esquecemos o quanto a religião, que precisa de uma "reserva" de sofredores para forjar caridade, usa palavras bonitas e todo um aparato de simpatia e cordialidade para forçar a aceitação da desgraça. É aquela coisa: "para inventar uma caridade, inventam-se primeiro os desgraçados".

Os "espíritas" tentam, com seu balé de palavras, dizer que "ninguém nasceu para sofrer". No primeiro instante, dizem que o sofrimento é lindo e que acumular desgraças traz bênçãos para o futuro. Depois fazem rodeios e tentam argumentar que "não é pelo prazer de sofrer" , mas pela necessidade de "entender o sofrimento", e só o fazem isso depois de receberem críticas.

Imagine o caso do governo Temer. Ele queria cortar investimentos sociais quase que por completo e teve que recuar diante da pressão popular. Mas primeiro ele expôs sua intenção de cortar investimentos e deixar as populações carentes na mão.

Fala-se muito em "bênçãos futuras", como se isso fosse um prêmio de loteria. Ninguém sabe o que é essa tal de "bênção" e o acúmulo de desgraças humanas é defendido pelos "espíritas" como se fosse uma competição visando um troféu. Os "espíritas" tanto falam em abrir mão dos gozos materiais mas eles mesmos esperam os gozos simbólicos da "pátria espiritual".

Muitos que recorrem aos "centros espíritas" para fazer tratamento reclamam do azar que acabam contraindo. E não são em "centros" de fundo de quintal, de falsas médiuns escancaradas que só se comunicam com os mortos de mentira que vestem cobertores brancos. São em casas tidas como "conceituadas", pois os erros, no "espiritismo" brasileiro, são feitos por "peixe grande", mesmo.

Muitas pessoas recorrem a esses tratamentos visando justamente obter sorte para o trabalho, abrir mão de prazeres mundanos, buscar nova orientação de vida e o que ocorre? Atraem circunstâncias infelizes, se tornam reféns dos próprios prazeres mundanos dos quais querem fugir, as únicas oportunidades vitais que conseguem segue esse triste universo.

E, para piorar, ainda contraem animosidades por nada, num pequeno e leve debate inimigos perversos surgem do nada, criando páginas ofensivas na Internet, das quais é preciso muito esforço jurídico para bani-las, e isso quando a Justiça anda corrompida, tendo um valentão como Alexandre de Moraes na corte do Supremo Tribunal Federal.

Enquanto os "espíritas" pouco se importam se os sofredores perdem encarnações inteiras com sofrimentos e desgraças que impedem até a justa ação da iniciativa, do trabalho e do esforço, machucando a paciência humana com humilhações, sobressaltos e ameaças, os próprios religiosos acham que podem reduzir o número de reencarnações necessárias para conquistar o "gozo maior" no "outro lado da vida".

Criam balés de palavras bonitas, expostas em palestras e em livros que vendem como água. Escondem a fortuna que pegam para si e só mostram as migalhas que transferirão para a "caridade". Fazem turismo espalhando a deturpação do Espiritismo e, quando entram em contato com as elites do poder e do dinheiro, não é para cobrar, mas para adular, em troca de medalhas, diplomas e outras condecorações.

Desta forma, há todo um teatrinho no qual os "espíritas" - sem excluir o "renomado" Divaldo Franco ou, em outros tempos, Chico Xavier - expõem sua linda coreografia de palavras aos públicos de elite, sob a ânsia de arrancar aplausos e posar ao lado de aristocratas nas colunas sociais. Isso em si já consiste em gozos terrenos, no qual a vaidade é uma tentação que aparece discretamente, mas com seu poder secreto ainda maior.

Diante desse mercado de palavras bonitas e atos filantrópicos de fachada, que mais servem para glorificar o benfeitor do que ajudar os necessitados - as ajudas até existem, mas são muito medíocres e sem eficiência definitiva - , vamos lembrar da lição presente em O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, na tradução de José Herculano Pires.

Nele, há uma mensagem publicada no Capítulo 20, Trabalhadores de Última Hora, no item III, "Trabalhadores do Senhor", no qual o Espírito da Verdade, em mensagem enviada por um discreto médium a serviço de Kardec, em Paris, no ano de 1862, dá um recado que poucos imaginam ter serventia justamente aos vaidosos malabaristas das palavras dóceis do "movimento espírita":

"Mas infelizes os que, por suas dissensões, houverem retardado a hora da colheita, porque a tempestade chegará e eles serão levados no turbilhão! Nessa hora clamarão: 'Graça! Graça!' Mas o Senhor lhes dirá: 'Por que pedis graça, se não tivestes piedade de vossos irmãos, se vos recusastes a lhes estender as mãos, e se esmagastes o fraco em vez de o socorrer? Por que pedis graça, se procurastes a recompensa nos prazeres da Terra e na satisfação do vosso orgulho? Já recebeste a vossa recompensa, de acordo com a vossa vontade. Nada mais tendes a pedir. As recompensas celestes são para aqueles que não houverem pedido recompensas da Terra'".

Os que sofrem fazem sua parte para superar seus vícios e desenvolver novas habilidades. As confusas energias do "espiritismo" que deturpa o legado de Kardec é que não deixam, forçando os infelizes que querem deixar a superfície a seguirem a corrente que os empurrará de volta ao lugar onde querem deixar. E não raro se afogam e morrem na praia.

Mas, ainda assim, os sofredores se esforçam e um dia, ao se recusarem a aventura masoquista de seguir a corrente para se manter reféns das tentações mundanas que querem romper, terão algum benefício, trazido não pelo milagre disforme da "bênção futura", mas pelo resultado de algum raciocínio inusitado para resolver seus problemas.

Por outro lado, os "espíritas", apressados em obter o passaporte para o Céu, caprichando o máximo nas belas palavras e ações de fachada, já receberam as recompensas terrenas do prestígio religioso e conquistaram o céu imaginário das paixões religiosas. Eles que se contentem com a reputação terrena, aparentemente inabalável, de seus fanáticos seguidores, e com as ilusões que a magia do deslumbramento religioso envolve em torno de si.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

"Espiritismo" condena os castigos eternos? Mesmo?


O "espiritismo" brasileiro deturpou tanto que sucumbiu à Teologia do Sofrimento, corrente medieval da Igreja Católica. Perdido num resgate dissimulado do igrejismo de Jean-Baptiste Roustaing - nome que, assim como o ex-deputado Eduardo Cunha, é renegado oficialmente, mas tem suas ideias herdadas quase que na sua integridade - , os "espíritas" agora só apelam para as pessoas aceitarem o sofrimento.

Aparentemente, o "espiritismo" segue sua fonte original, a Doutrina Espírita nem sempre, ou talvez quase nunca, devidamente compreendida pelos brasileiros, quanto à ideia dos castigos eternos. Segundo o Espiritismo em geral, os castigos eternos não existem, havendo apenas o cumprimento de provações mediante um prazo limitado.

Só que as correntes que hoje predominam no "movimento espírita" não pensam nisso. Acham que, quanto mais desgraças, mais abençoado será o sofredor. bastando ele abrir mão de seus desejos e o que os "espíritas" entendem como "paixões terrenas".

Por exemplo, se um homem ou mulher desejam se casar com alguém pelo critério da afinidade pessoal, isso é "paixão terrena". Ou trabalhar onde melhor aproveitar o talento pessoal. Os "espíritas" acham isso frescura e recomendam ao desgraçado ou à desgraçada que aceitem se casar com cônjuges com graves divergências pessoais e trabalhar em empresa corrupta embora de grande projeção socio-econômica.

A ideia é viver uma vida "qualquer nota" e perder tempo resolvendo conflitos e outras complicações, quando a pessoa poderia ter oportunidades maiores de ajudar o próximo, com mais amplitude e espontaneidade.

Quanto tempo o homem perde tentando dialogar com uma esposa fútil? E a mulher, tentando amansar um marido violento? E o sujeito que tem que aguentar as variações mentais do patrão que lhe manda fazer uma coisa, e depois reclama e pede para fazer diferente?

O tempo que se perde para resolver desavenças neste tipo, na vida conjugal, poderia ter sido dispensado se houvessem oportunidades maiores de juntar casais afins, como o próprio Espiritismo nos mostra através de Allan Kardec e Amèlie Gabrielle Boudet.

Alguém acharia, segundo a visão dos "sábios espíritas brasileiros", que, se Allan Kardec, em vez de ter se casado com uma intelectual, se desposado de uma mulher de perfil leviano, ele aproveitaria seu tempo para estudar e transmitir as ideias que lançou? Boa parte do tempo seria usada para tentar amenizar as divergências com a esposa, o que tiraria preciosos dias para atividades mais nobres.

Do jeito que os "espíritas" ultimamente andam defendendo o sofrimento, cada vez mais identificados com a Teologia do Sofrimento católica e medieval, a ideia dos "castigos eternos" acaba lhes tomando o gosto, usando até como desculpa: "O que é uma vida inteira de desgraças diante da eternidade da vida futura?".

Há muitos relatos de pessoas que reclamam de serem brinquedos das circunstâncias. O problema dessas pessoas não é a desilusão em si, mas o fato de que o "remédio" é dado "acima da dose necessária" e, depois da desilusão, o sofredor se transforma não em alguém diferente de vida diferenciada, mas num escravo da ilusão do outro.

Muitos reclamam que recorrem a tratamentos espirituais nas "casas espíritas" dispostos a abrir mão dos chamados "prazeres mundanos", para depois passarem a atrair justamente as pessoas mais fúteis e levianas para a vida amorosa, fazendo os assistidos presas justamente daquilo que querem largar.

Isso é um grande desrespeito e o que se vê é a indiferença, a níveis das autoridades do Império Romano, do "espírita" em relação ao sofrimento alheio. Quando se fala que "o remédio está acima da dose", é como se os "espíritas" dissessem, com sadismo: "Pois é nos efeitos danosos da dose excessiva que o remédio surte efeito. A doença é a própria cura, quanto mais dor e malefícios, mais curado você ficará".

O malabarismo discursivo é muito fácil de moldar conselhos amargos com palavras belas. O adorno das palavras tornou-se a única arte do "movimento espírita", juntamente com um arremedo de filantropia que ajuda muito pouco, só servindo para dar cartaz a um astro "espírita", geralmente um "médium" dotado de culto à personalidade.

A deturpação "espírita" atinge todos os aspectos, e agora que a Teologia do Sofrimento mergulha fundo no "movimento espírita", então se deturpa o próprio conceito de castigo humano, já começando a gostar dos "castigos eternos", usados sob pretextos como "resgates morais" e "reajustes espirituais". Depois vão dizer que não se identificam com a Idade Média.

domingo, 2 de abril de 2017

"Espiritismo" pode ser extinto?

CHICO XAVIER (DIR, QUASE ESCONDIDO), PARTICIPANDO DA FARSA DE OTÍLIA DIOGO, COBERTA COM UM LENÇOL COMO A FALSA IRMÃ JOSEFA.

O Brasil sofre a decadência dos prestígios sociais. Um desgaste avançado, para o qual aparentemente são possíveis esforços de superação de problemas e resolução de escândalos, mesmo os mais graves e mortais. Um tipo de "sociedade ideal" marcada por sérias imperfeições está decaindo e perdendo o sentido, e os surtos reacionários dos últimos meses só revelam esse triste quadro.

Diante de um cenário político o qual o presidente Michel Temer impõe medidas não só impopulares - como ele mesmo admite - mas prejudiciais à população, por mais que se diga que são "medidas contra a recessão" e os poderes Legislativo e Judiciário atuando como se o povo brasileiro não existisse, até o "espiritismo" revela sua decadência preocupante.

É verdade que muitos brasileiros não conseguem enxergar essa situação. Acham eles que os defeitos do "espiritismo" são "superestimados". Essas pessoas, saudosas da antiga estabilidade forçada, quando a sociedade contraditória mas "estável" permitia fazer argumentos "racionais" para fenômenos irracionais, imaginam que o mal do "espiritismo" brasileiro é apenas ter "entendido mal" a obra original de Allan Kardec, como se isso fosse apenas um acidente e não um propósito.

Só que não se faz uma coisa por acidente com 400 livros ou centenas e centenas de palestras pelo mundo. Francisco Cândido Xavier, que como aniversariante de hoje é mais uma vez alvo das paixões religiosas de seus seguidores e simpatizantes, e Divaldo Franco eram há muito criticados pela deturpação igrejista e, mesmo assim, a levaram adiante e até as últimas consequências. Isso não se faz "sem querer", os dois sabiam muito bem o que estavam fazendo ao longo dos anos.

Mas o festival de desculpas até permite que a deturpação aconteça. Gente que nunca leu Kardec vai correndo pescar um parágrafo para interpretar mal e dizer que a deturpação é até "aceitável" ou "saudável", sob o pretexto da "tradição religiosa brasileira" ou das "afinidades com os ensinamentos cristãos", meros eufemismos para a catolicização que atingiu no nosso país a Doutrina Espírita.

Só que a coisa piora, em vários sentidos, acompanhando as várias "manadas" de privilegiados - que vão do porte de arma a um aparente carisma nas redes sociais, passando pelo dinheiro, fama, poder político e empresarial etc - , e as pessoas "de cima" estão cada vez escondendo menos o desejo de transformar em ruínas o lado de baixo da pirâmide.

Os "espíritas" entraram no espírito do tempo (olha o trocadilho) no qual se legaliza o descaso político com a coisa pública, através da emenda do corte de gastos públicos. É um contexto que, há poucos dias, aprovou a terceirização geral no mercado de trabalho, rebaixando o trabalho assalariado aos padrões do mercado informal e das pequenas prestações de serviço.

Daí que, a cada vez mais, os palestrantes "espíritas" se voltam mais para a Teologia do Sofrimento, corrente medieval da Igreja Católica que, no Brasil, teve em Chico Xavier seu adepto mais fervoroso. Quem for ler os princípios da Teologia do Sofrimento e compará-los com as obras do anti-médium mineiro, se surpreenderá com a identificação profunda entre ambas, embora, oficialmente, os "espíritas" nunca assumiram seguirem tal corrente católica.

Apelos para as pessoas suportarem as desgraças da vida, alegações de que o sofrimento "só traz" progressos humanos - esquece-se que o sofrimento, principalmente em excesso, também pode produzir também tiranos e chefes de narcotráfico, por exemplo - , súplicas para as pessoas abrirem mão de desejos e necessidades, e até textos hipócritas sobre "o ter e o ser" são difundidos nas páginas, periódicos e palestras "espíritas".

Isso é Teologia do Sofrimento. Até quando os "espíritas", assustados com essa constatação, dizem, desesperados, que "ninguém veio para sofrer, mas para encarar desafios e aprendizados", os adeptos católicos da Teologia do Sofrimento (que não é aceita por toda a Igreja Católica, mas por alguns setores mais conservadores) também dizem as mesmas desculpas. Leia os livros de João Mohana e compare com as obras de Chico Xavier. Os argumentos são exatamente os mesmos.

A inclinação do "movimento espírita" brasileiro à Teologia do Sofrimento, não bastasse o igrejismo entusiasmado e a falsa mediunidade - os "médiuns", diante do vício tipicamente brasileiro da falta de concentração (que faz muita gente não ter interesse de ler livros e ouvir música), "falam" em nome dos mortos - fazem derrubar a doutrina brasileira, que com toda a evocação, a níveis bajulatórios, do nome de Kardec, se afasta cada vez mais de seus ensinamentos.

A "fase dúbia", que representou a ascensão de Divaldo Franco e o relançamento do mito de Chico Xavier nos moldes que o inglês Malcolm Muggeridge fez com Madre Teresa de Calcutá, só acentuou ainda mais as contradições do "movimento espírita", que com toda a promessa de recuperar as bases originais do Espiritismo, manteve toda a herança do igrejismo de Jean-Baptiste Roustaing.

É bom deixar claro que o plano ideológico da "fase dúbia" do "movimento espírita" sempre seguia o modus operandi dos cenários político-midiáticos conservadores, quando havia uma preocupação maior em simular uma "democracia" enquanto se mantinha valores autoritários, reacionários e pragmatistas. O moralismo "espírita", com suas alegações para "amar o sofrimento" e sobre os "reajustes espirituais" revela um acentuado conservadorismo neste movimento religioso.

E isso contraria severamente a natureza da obra de Allan Kardec, reduzido aqui a um autor que tem a obra distorcida irresponsavelmente por traduções igrejistas que rebaixam o pedagogo a um mero sacerdote católico. Kardec desenvolveu sua obra acompanhando os ventos do Iluminismo francês, e mesmo quando ele descrevia fenômenos e ideias católicas, o propósito dele nunca foi o igrejismo, mas o debate laico em torno de fenômenos espíritas.

Enquanto nas obras de Allan Kardec ele deixava claro que recomendava o debate e o questionamento, até porque ele lidava com um assunto novo e precisava de ajuda para compreender as problemáticas que apareciam, nota-se nas obras deixadas por Chico Xavier o contrário, a recomendação de que não se podia questionar nem contestar, subordinando a Razão aos limites da fé religiosa mais rígida.

A partir de Xavier, o "espiritismo" brasileiro caiu numa série de contradições e equívocos gravíssimos. Isso deixou a religião, que se autoproclamava "a vanguarda dos movimentos espiritualistas", numa posição pior do que o próprio Catolicismo medieval, do qual os "espíritas" embasam seus postulados, e as seitas neopentecostais, que concorrem com o "espiritismo" na veiculação de valores morais ultraconservadores.

As contradições criaram muitas confusões, da mais extrema gravidade. O caso Otília Diogo é um dos mais sérios escândalos da trajetória de Chico Xavier e simbolizou o rompimento dele com o discípulo Waldo Vieira, que se mudou de Minas Gerais para Foz do Iguaçu, no Paraná, para fundar uma outra seita, que comandou até o fim da vida.

No caso de Otília Diogo - um caso de "fogo amigo" em que um fotógrafo "espírita" registrou os bastidores da farsa, com Chico Xavier observando tudo animadamente - , produziu-se um espetáculo ilusionista que forjava uma suposta materialização de alguns espíritos, sobretudo a falecida irmã Josefa, que eram encenados pela farsante Otília, que pegava emprestado do trabalho circense técnicas como romper as correntes e atravessar grades, típicas dos mágicos circenses.

Chico Xavier era visto conversando com as pessoas presentes, vendo tudo, permanecendo animado e atento. O caso aconteceu entre 1963 e 1964, e, a partir desse último ano, começaram as denúncias que culminaram até 1970, com a apreensão de um material usado para a farsa. Chico Xavier, cúmplice da farsa, foi "inocentado", e a revista O Cruzeiro, antes hostil ao "médium" - que no entanto era blindado pela TV Tupi - , passou a lhe dar consideração e até ceder espaço para publicação de textos.

Levando em conta as "boas energias" de Chico Xavier, a "retratação" de O Cruzeiro custou caro para os Diários Associados. Em 1975, a revista faliu e, para continuar circulando, teve que mudar seu formato e linha editorial, se tornando uma clone fajuta da revista Visão (que lembrava mais aquelas seções de jornalismo geral que haviam nas revistas pornográficas), até desaparecer de circulação, dez anos depois.

Mas não foi somente isso: pouco depois da TV Tupi produzir a novela A Viagem, de Ivani Ribeiro, claramente inspirada no livro Nosso Lar e cuja temática envolvia mitos próprios do "espiritismo" brasileiro, como "resgates morais" e "colônias espirituais", foi a vez da pioneira emissora paulista amargar uma fulminante falência, com greves de funcionários com salários atrasados transmitidas em outras emissoras de TV.

Mas, aí, Chico não precisava mais da blindagem da TV Tupi. A FEB, depois da morte do ex-presidente Antônio Wantuil de Freitas - o "criador" de Chico Xavier - , o "médium" e beato católico passou a receber a ajuda da Rede Globo de Televisão, emissora favorecida pela ditadura militar (que o "bondoso homem" apoiou), que produziu um novo mito, mais "limpo" do que aquele criado por Wantuil, e inspirado em Muggeridge no documentário sobre Madre Teresa.

Parecia roteiro de novela. O "filantropo" chegava a um local, acolhido pela multidão, ele cumprimentava a todos, que o recebiam exultantes, ele pegava bebê no colo, depois se agachava para cumprimentar miseráveis sentados no chão, em seguida entrando na "casa de caridade" para ver seus aposentos, cumprimentar doentes deitados na cama, ver crianças pobres tomando sopa na copa-cozinha, e finalmente se dirigir a uma mesa em um salão para dar depoimentos que viravam frases de efeito para "filosofias baratas" que hoje preenchem as páginas de "pensamentos" nas redes sociais.

Tudo isso se observava em Madre Teresa e foi imitado por Chico Xavier. O problema é que as pessoas, que enxergam a realidade concreta como se fosse uma novela e atribui os prestígios sociais a dádivas divinas - daí a não estranheza da alta corte do Judiciário contar com um Alexandre de Moraes, apesar de seu currículo extremamente falho - , acham tudo ótimo e não percebem as armadilhas que suas paixões religiosas e sociais lhes mostram.

O "espiritismo" não se deturpou sem querer ou para se adequar, por si mesma, às tradições católicas (sob eufemismo de "cristãs"). Deturpou porque, em dado momento, julgava a obra kardeciana "indigesta" e "insuportável", e só aproveitou alguns aspectos genéricos, deixando o resto dos postulados "espíritas" brasileiros por conta da obra Os Quatro Evangelhos de Jean-Baptiste Roustaing.

Não se faz uma coisa "sem querer" com longa produção de trabalhos nem ampla difusão de ideias. Chico Xavier e Divaldo Franco fizeram tudo na plena consciência de seus atos, difundindo para o grande público ideias que causariam constrangimento ao próprio Kardec, tamanha a oposição a seus postulados. Há até alusões racistas e machistas na obra de Xavier.

Isso fez o "espiritismo" cair em tantas contradições que nem mesmo uma das causas associadas a Chico Xavier, a "profecia da Data-Limite", é uma unanimidade entre seus seguidores. A multiplicação de irregularidades é tal que o "espiritismo" já pode ser considerado em processo de decadência, de agonia, porque a "fase dúbia" revela seus graves equívocos e o esforço de neo-roustanguismo só reflete a precária situação deste movimento religioso.

As pessoas menos ingênuas até param para pensar: uma religião pode ser extinta? E o "espiritismo", ele pode também ser extinto? A compreensão ultraconservadora da realidade, na qual modos de ver a realidade são inspirados na ficção novelesca e no otimismo pragmático das corporações da mídia, sobretudo redes de TV como a Globo, que parece ter virado "espírita", faz as pessoas acreditarem que o mundo pode até acabar, mas as religiões não.

Mas as próprias pessoas que se irritam com o aprofundamento dos questionamentos à deturpação da Doutrina Espírita - sempre vem a turma do "não é bem assim" que tenta blindar Chico e Divaldo, mesmo "admitindo" também questionar a deturpação - acabam demonstrando seu conservadorismo, seu reacionarismo latente, com a defesa de ideias retrógradas sob a crença de que elas são "atemporais", "eternas" e "impessoais", "acima de classes e ideologias".

A julgar pelos próprios jargões transmitidos pelo poder midiático, nos quais há um coloquialismo de fachada feito para manipular as massas, já que gírias como "balada" e "galera" simbolizam esse controle dos meios de Comunicação na fala cotidiana, junto a jargões como "cliente" substituindo a expressão "freguês", resgate de expressões arcaicas como "traíra" no lugar de "traidor" ou neologismos como "sofrência" no lugar de "sofrimento", nota-se o quanto as pessoas viraram gado das redes de TV.

E é isso que as faz ao mesmo tempo falsamente esclarecidas, sempre dispostas a dar desculpas "racionais" para ideias sem pé nem cabeça, ou mesmo para prejuízos humanos. A própria concepção de "espiritismo" que temos só está consolidada por causa do poder da Rede Globo, que herdou de Wantuil a tutela de Chico Xavier e seus herdeiros. A sociedade brasileira acredita numa estabilidade forçada do status quo que favorece os "espíritas" mas também os próprios donos da Globo.

sábado, 1 de abril de 2017

Qual é o interesse de acusar de tiranos os refugiados do Oriente Médio?


Foi de extrema gravidade a declaração do orador "espírita" e anti-médium baiano, Divaldo Franco, durante um congresso na Espanha, a respeito dos refugiados do Oriente Médio. Mesmo em palavras aparentemente mansas e agradáveis, Divaldo estabeleceu um juízo de valor extremamente cruel contra as pobres criaturas que saem de países em guerra para tentar a sorte na Europa.

"No campo das deduções e de acordo com o meu pensamento, penso que aqueles que estão hoje, de volta à Europa, são os antigos colonizadores que deixaram, até hoje, a América Latina na miséria.
Como foi negado todo o direito aos seus residentes, como aculturaram os selvícolas, destruindo culturas veneráveis, pela Lei de Causa e Efeito aqueles estão retornando hoje à pátria, no estado de miséria, e que ameaçam os próprios países de onde saíram, para, um dia, buscarem a fortuna para o conforto europeu".

A gravidade da declaração está em alguém que se acha protegido pelo prestígio religioso e que, por isso, se acha na moral de atribuir a sofredores uma suposta sentença, evocando sobretudo encarnações antigas que, se for realmente o caso, teriam sido superadas. A declaração de Divaldo Franco, portanto, tornou-se extremamente infeliz, principalmente partindo de alguém que é tido como uma aparente unanimidade religiosa.

Sabe-se que Divaldo Franco é o maior deturpador vivo da Doutrina Espírita, já que Francisco Cândido Xavier faleceu há 15 anos. Assim como Chico Xavier, Divaldo também corrompeu a atividade de médium, que no Brasil passou a ser dotada de culto à personalidade, se distanciando da função discreta, modesta e meramente serviçal que se via nos temos de Allan Kardec.

A acumulação de prestígio religioso, que poucos percebem também ser demonstração de gozos terrenos, faz o suposto médium - não bastasse a irregularidade de sua atividade, pois, através da típica debilidade brasileira da falta de concentração, dificilmente ocorre de verdade a comunicação com os mortos - uma grande aberração da qual muitos estão acostumados, mas não era para estar.

Temos um "espiritismo" igrejeiro e uma "mediunidade" de faz-de-conta, e os ditos "médiuns", se tornando mais figuras pitorescas, a alimentar o sensacionalismo midiático para depois se tornarem ídolos religiosos, além de se autoproclamarem "santos" ou, ao menos, serem promovidos como tais, também viram dublês de "intelectuais" com seu engodo de ideias místicas e moralistas recheadas de pedantismo científico.

Com isso, os "médiuns", se valendo de sua suposta erudição, de seu prestígio religioso, do alegado "vínculo com Deus" e do espetáculo de palavras bonitinhas que agradam multidões, se acham no direito de fazer julgamentos de valor, com base nas próprias abordagens deturpadas e distorcidas do suposto espiritismo que se pratica no Brasil.

Que moral teve Chico Xavier em acusar as vítimas do incêndio do circo em Niterói de terem sido romanos sanguinários? Nenhuma. E ainda mais botando na responsabilidade de Humberto de Campos, falecido três décadas antes! É uma leviandade na qual o prestígio religioso vira uma desculpa para sair julgando quem quer que fosse, e partindo justamente de quem pedia para os outros não julgarem.

Da mesma forma, vem Divaldo Franco dizer que os refugiados do Oriente Médio foram colonizadores europeus no passado e que eles "estão pagando" com tragédias e miséria o retorno ao Velho Continente. A acusação se estendeu à ganância, atribuindo o retorno à "busca da fortuna para o conforto europeu".

Ainda que haja gente problemática entre os refugiados, a maioria é de cidadãos de bem. Um julgamento de valor como o de Divaldo, assim como o de Chico Xavier, podem causar danos morais sérios, se tal visão causar ampla repercussão. Tal julgamento já resultou em processos judiciais contra "espíritas" como o médico Woyne Figner Sacchetin e uma pediatra de Rondonópolis, Mato Grosso, cujas alegações de "reajustes espirituais" foram consideradas ofensivas.

Sacchetin, no livro O Voo da Esperança, acusou as vítimas da tragédia com um avião da TAM, há dez anos, de terem sido romanos sanguinários, e usou o nome de Alberto Santos Dumont como o suposto autor da "psicografia". O médico e suposto médium foi processado por familiares que se sentiram ofendidos com tal acusação e o livro teve que ser recolhido das livrarias.

Foi exatamente a mesma coisa que Chico Xavier fez em Cartas e Crônicas, usando o nome de Humberto de Campos (mal disfarçado pelo pseudônimo "Irmão X"), com o agravante do "médium" neste caso gozar de alto prestígio religioso e as vítimas serem pobres e sem recursos para pagar advogados para processar o "psicógrafo".

A pediatra de Rondonópolis se recusou a atender uma menina de sete anos cuja mãe revelou ter sido a criança vítima de estupro, por acusar a pequena paciente de "pagar reajustes espirituais" pelo crime cometido por um tio. Disse que a criança havia cometido "sensualismo" em outras vidas e "guardava muita energia sexual" que havia propiciado o tio a fazer o ato sexual. A médica foi processada por dano moral pela acusação leviana.

Chico Xavier e Divaldo Franco tornam-se ainda muito mais graves e deploráveis porque se acham protegidos pelo prestígio religioso, um privilégio não muito diferente da fama e do estrelato e igualmente movido pelas paixões terrenas.

Da mesma forma, uma acusação leviana contra os refugiados do Oriente Médio - que não saem de seus países de origem como quem sai do Brasil em viagem à Disney, mas para fugir de ambientes violentos em que qualquer lugar pode ser alvo de tiros ou bombas - revela uma série de preconceitos sutis. Racismo? Elitismo? Moralismo? Intolerância social?

Isso é extremamente grave, e piora mais ainda para a situação de seus acusadores porque eles citam encarnações antigas, possivelmente já superadas, e contrariam as recomendações de Allan Kardec de esquecimento de vidas passadas. E revelam uma completa falta de misericórdia, por mais que os "espíritas" aleguem que os infortunados "mereçam consideração".

Isso se dá porque a "bondade" vira uma mera moeda da vaidade religiosa. O "espírita" que primeiro diz que fulano é "desgraçado" e depois "merece nosso carinho e perdão" é um hipócrita, porque na primeira declaração ele o condena, na segunda o acaricia, como alguém que primeiro apunhala alguém para depois pedir desculpas. Um "perdão" assim é como o "beijo da morte", que serve mais para alimentar a vaidade do "espírita" por conta de sua pretensa humildade.

O prestígio religioso e as paixões religiosas comprovam, portanto, sobretudo em relação a esse pretenso espiritismo cheio de irregularidades, o quanto de vaidades, omissões, fraudes e juízos de valor se fazem, leviandades mil que se apoiam nas desculpas da "ligação a Deus". E os "espíritas" ainda acreditam que vão ao Céu e serão acolhidos por espíritos amigos, autoridades e coro de anjos.