MALCOLM MUGGERIDGE, CHICO XAVIER E ROBERTO MARINHO - TUDO A VER.
O Brasil tem dessas tristes peculiaridades. Tem uma "cultura popular" surreal, controlada por uma elite de empresários do entretenimento que ditam o "gosto popular" por intermédio de executivos de rádio e TV. E temos ainda uma religiosidade extrema que teima em exercer monopólio sobre a realidade.
Muitos de nós ainda pensam a realidade como se fosse uma novela de televisão. Vemos as coisas de maneira institucionalizada, materialista ou mediante velhos preconceitos morais. Até o "funk" é um reflexo desses preconceitos e dessa imagem estereotipada e idealizada do "bom pobre" que as classes médias, ditas "esclarecidas", se mantém ideologicamente.
Há quinze anos, um ídolo religioso festivo e supostamente ecumênico, símbolo de aparente caridade e portador de uma mitologia ao mesmo tempo contraditória e fantasiosa, faleceu depois de anos doente. O "médium" Francisco Cândido Xavier, aliás, o primeiro anti-médium do Brasil, faleceu com 92 anos de idade, causando comoção entre seus fanáticos seguidores.
Popularmente conhecido como Chico Xavier, seu mito, aparentemente associado a qualidades positivas como "bondade", "humildade", "sabedoria" e "simplicidade", foi na verdade construído, e muiot bem construído, criando uma linearidade ideológica que agrada muitas pessoas, mesmo aquelas que não são consideradas "espíritas".
Mas mito bem construído não quer dizer necessariamente um mito realista. Afinal, é como diz o ditado: "é bom demais para ser verdade". O mito que hoje se conhece de Chico Xavier esconde aspectos bastante sombrios, a partir do fato dele ser um grande e gravíssimo deturpador da Doutrina Espírita.
Como uma versão brasileira de J. B. Roustaing, Chico Xavier difundiu, sob o rótulo de "espiritismo", conceitos extremamente contrários aos que foram originalmente difundidos pela obra de Allan Kardec. O caso aberrante de uma doutrina que renega os ensinamentos de seu precursor já é um atestado de desonestidade doutrinária, que faz desmerecer a alta reputação que o "espiritismo" brasileiro possui oficialmente.
Chico Xavier começou causando muitas confusões. Poeta mediano, ele preferiu investir numa suposta prosa e poética que se dizia "de autores já mortos", trazidas por alegada "comunicação espiritual".
Isso se constituiu numa farsa, na qual Chico Xavier evidentemente não participou sozinho, mas contou com uma multidão de editores e consultores literários, a serviço da FEB e sob a orientação do presidente da entidade, Antônio Wantuil de Freitas.
A farsa pode ser facilmente diagnosticada pelas irregularidades extremas de estilo, identificadas até mesmo em pequenos trechos, às vezes, mas, em outras, evidenciada por textos inteiros. Nomes como Auta de Souza e Humberto de Campos eram creditados em "obras espirituais" que nem de longe lembravam seus estilos originais. Soavam como os fakes da Internet soam hoje.
Só os enganos que Chico Xavier, que personificava o mito mineiro do "come quieto" (referência à imagem dos mineiros como "astuciosos") e, por isso, foi uma espécie de Aécio Neves religioso no seu tempo (o próprio Aécio manifestou profunda admiração pelo "médium"), no qual "fazia das suas" que nunca era punido, já desmerecem tanta idolatria, que chega ao nível da emotividade cega e viciada, uma espécie de masturbação com os olhos pela busca da comoção fácil.
Chico Xavier cometeu muitos males, além de deturpar a Doutrina Espírita e criar psicografias fake. Cometeu juízos de valor cruéis contra pessoas humildes que eram vítimas de infortúnios, acusadas de terem sido "romanos sanguinários". O juízo de valor, ao mencionar encarnação muito distante, era feito à revelia de qualquer teoria da Ciência Espírita e indicava, também, falta de misericórdia e descumprimento do ensinamento kardeciano do "esquecimento de vidas passadas".
O anti-médium - assim considerado por romper com o status de intermediário próprio do ofício de médium - de Pedro Leopoldo e Uberaba também cometeu outras crueldades: expôs demais as tragédias familiares, prolongando-as e alimentando o sensacionalismo midiático, combinado ao fanatismo religioso.
Ele evitou que pessoas encarassem a dor da perda de entes queridos na privacidade e num luto rápido, e, o que é mais grave, ainda enviou mensagens "espirituais" que soavam fake, produzidas por diversas fontes de pesquisa e interpretação, como a "leitura fria", alegando serem "mensagens espirituais" dos entes queridos, um trote comparável ao dos sequestradores que imitam as vozes de suas vítimas em sinistros estelionatos telefônicos.
O "médium" também difundiu valores ultraconservadores, vários deles próprios da Teologia do Sofrimento, corrente medieval do Catolicismo que fazia apologia da desgraça humana como meio de obter rapidamente as "bênçãos futuras". Com isso, criava mitos perigosos como "inimigo de si mesmo", que contraditoriamente incitava os sofredores a cometer suicídio, prática reprovada pelo próprio "espiritismo" brasileiro.
Há também trechos dos livros de Xavier que sugerem preconceitos sociais graves, como o racismo (quando, em Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, índios e negros eram classificados como "selvagens") e o machismo ("o verdadeiro feminismo é feito dentro do Lar e na prece", ironizava Emmanuel), além do juízo de valor contra pessoas pobres (Cartas e Crônicas).
Não bastasse isso, Chico Xavier pedia para o povo, no auge da ditadura militar, "orar em favor dos militares", que construíam um "reino de amor" sob o sangue de muitos inocentes. E o anti-médium mineiro defendia a censura, ao dizer que "é no silêncio que Deus ouve os apelos dos sofredores".
Obscurantista, Xavier contrariava o legado kardeciano reprovando o questionamento. Odiava ver pessoas reclamando. Mas, quando lhe convinha, ele reclamava, também, como quando chamou de "bobagem da grossa" a desconfiança dos amigos do falecido engenheiro Jair Presente diante de irregularidades em supostas psicografias.
Xavier foi um mito ultraconservador que conseguiu ser empurrado até para a aceitação, um tanto ingênua, de pessoas progressistas, iludidas com a "boa imagem" de seu mito, aliando paradigmas de religiosidade muito retrógrados, mas ainda vistos como tradições a serem mantidas pelos brasileiros.
MITO DO "MÉDIUM BONDOSO" FOI PARA CONCORRER COM NEOPENTECOSTAIS
O que poucos percebem é que o mito de Chico Xavier mais conhecido hoje, o de suposto "símbolo de bondade e amor ao próximo", foi construído mediante uma necessidade de relançar o mito, antes associado a uma paranormalidade confusa e sensacionalista.
Deixou-se de enfatizar o suposto contato com os "literatos do além" e eliminou-se o envolvimento em supostas façanhas como psicofonia e materialização. Sem o tino sensacionalista de Wantuil, Chico Xavier, um mito sempre fabricado à maneira de um popstar, originalmente para enriquecer a FEB com as vendas de livros, sua imagem tinha que ser reciclada para um perfil mais clean, que permitisse a adoração religiosa sem causar tantas confusões.
E aí temos o seguinte contexto, em meados dos anos 1970: convulsões sociais com a crise da ditadura militar, ascensão de pastores eletrônicos (Edir Macedo e R. R. Soares) e desejo arrivista da Rede Globo em estabelecer um monopólio midiático. No "espiritismo", com a morte de Wantuil, veio a "fase dúbia" no qual os "espíritas" professavam um "roustanguismo sem Roustaing e com Kardec".
A FEB e a Rede Globo romperam com a animosidade e iniciaram um casamento feliz. Chico Xavier virou queridinho da Globo e seu mito foi reconstruído a partir de uma fonte internacionalmente conhecida: o documentário sobre Madre Teresa de Calcutá, Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God), de Malcolm Muggeridge, produzido pela BBC em 1969.
Muggeridge, católico de direita, reconstruiu o mito de Madre Teresa de Calcutá - depois acusada de deixar seus assistidos em condições degradantes - como um "símbolo da caridade plena", criando um roteiro digno de novela televisiva, com a "filantropa" posando com bebês no colo e falando frases de efeito que os incautos pensam ser "filosofia".
Todo esse roteiro foi feito para Chico Xavier através de noticiários da Globo, como o Fantástico e o Globo Repórter. Foi um longo trabalho desenvolvido a partir dos anos 1970, o que comprova que a concepção que os brasileiros têm de "doutrina espírita" vem da visão deturpada que a FEB desenvolveu e que foi lapidada pelo discurso da Rede Globo, rede tão poderosa que exerce influência até em parte de seus detratores, que lhe herdam até os hábitos e as formas de ver o mundo.
O mito "ecumênico" de Chico Xavier, associado a suposta filantropia (na verdade Assistencialismo, a caridade que não se interessa em combater os problemas sociais, mas antes minimizá-los sem mexer nos privilégios das elites, as mesmas que premiam os "médiuns" com medalhas e condecorações, tais como ditadores, tiranos e corruptos fizeram com Madre Teresa), foi construído pela Globo para evitar que concorrentes criassem seitas religiosas com forte aparato midiático.
A Globo não conseguiu evitar que a Rede Record, cuja cabeça-de-rede, a TV Record de São Paulo, é remanescente das primeiras emissoras de TV surgidas no Brasil, fosse adquirida por Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. Mas teve de se consolar por ter conseguido transformar Chico Xavier numa "unanimidade", algo que nos faz lembrar de Nelson Rodrigues, quando certa vez associou a ideia de "unanimidade" a uma estupidez.
Faz sentido. Afinal, a adoração a Chico Xavier revela uma sociedade subserviente às paixões religiosas, com medo de esclarecer sobre a realidade nem sempre agradável da vida, e medo sobretudo de romper com paradigmas conservadores.
Reunindo paradigmas de religiosidade e moralismo bastante conservadores, Chico Xavier virou "santo" pelas "bênçãos" da Globo, e se os brasileiros adoram o "médium", eles expressam um conservadorismo que nem sempre se encorajam a assumir, tão apegados à pretensões e dissimulações que ocultam o lado beato e reacionário de muitos brasileiros, mesmo os ditos "modernos".
sexta-feira, 30 de junho de 2017
quinta-feira, 29 de junho de 2017
Grupo religioso se reúne em Brasília para vigílias e orações
Na noite de ontem, um grupo de vinte religiosos se reuniu em Brasília para fazer uma "vigília". A reunião ocorre toda terça-feira e o grupo, aparentemente sem fins ideológicos nem bandeiras, tem como único objetivo "pedir bênçãos para o Brasil". O grupo reúne católicos, evangélicos e "espíritas".
A coisa, a princípio, parece bem intencionada. Pessoas dotadas com alguma esperança, se reunindo sem se preocuparem com desavenças pessoais, para pedir que vibrações positivas cerquem o Brasil e permitam criar energias psíquicas para superar a crise. Seria muito bom se não fosse um detalhe: as religiões costumam também participar em movimentos que pedem soluções golpistas.
Segundo o historiador Jorge Ferreira, até "espíritas kardecistas" participaram da Marcha da Família Unida com Deus pela Democracia, movimento que impulsionou o golpe civil-militar de 1964. Recentemente, as manifestações pelo "Fora Dilma" tiveram adesão sobretudo de seitas neopentecostais e o aval do "movimento espírita".
Quem não se lembra de nomes como Janaína Pascoal, a juíza que participou da elaboração do pedido de impeachment de Dilma Rousseff? E nomes como Marco Feliciano e Jair Bolsonaro, comprometidos com causas moralistas retrógradas? E o ator Alexandre Frota, depois da ascensão de Michel Temer ao poder, sendo divulgador da Escola Sem Partido? Todos eles são evangélicos.
E o "movimento espírita"? Robson Pinheiro escreveu "psicografias" atribuindo forças astrais à suposta corrupção do PT. Robson e o "Correio Espírita" chegaram a atribuir "começo de uma era" para manifestações de "coxinhas" vestidos com a camiseta da (corrupta) CBF que, em parte, queriam até "intervenção militar" (eufemismo para um novo golpe militar).
Essas manifestações, nas quais se viu jovens fazendo grosseria, baixando as bermudas para mostrar seus glúteos nus para ridicularizar a presidenta Dilma, além de cartazes com símbolos nazistas e até senhoras descansando com o cartaz "Por que não mataram todos em 64?", foram definidas como "momentos de despertar político da juventude" e há quem tenha suposto que o Brasil estava inaugurando um "período de regeneração".
Os católicos é que parecem mais moderados, tanto pelo conservadorismo mais ameno de alguns setores e pelo progressismo de outros setores. Eles passaram os "espíritas" para trás em termos de visão progressista e a Igreja Católica hoje assumiu uma abordagem mais moderna, que os "espíritas" nem de longe conseguem mais fazer.
Já o "espiritismo" brasileiro parece acompanhar, à sua maneira, o ultraconservadorismo dos neopentecostais. Se estes pretendem retroceder o Brasil aos padrões moralistas do tempo de Moisés, os "espíritas" sonham em ver o Brasil num contexto sócio-religioso e místico dos tempos do imperador Constantino.
Na prática o "espiritismo" está se formatando para ser a versão atualizada do velho Catolicismo jesuíta português, que vigorou no Brasil no período colonial, e que entrou em declínio depois que o então primeiro-ministro português Marquês do Pombal, adotando um rígido corte de gastos para fazer Portugal recuperar-se de um violento terremoto, decidiu cortar as atividades da Companhia de Jesus na então colônia sul-americana.
Daí que há uma certa incoerência em muitas atividades "espíritas", na verdade com forte ranço católico, como a obsessão por preces. A religião abraçou a causa medieval da Teologia do Sofrimento e o governo Temer contava com uma agenda política bem ao gosto dos "espíritas", como as reformas trabalhista e previdenciária e a Escola Sem Partido, cujo projeto não difere muito do que já é adotado na Mansão do Caminho de Divaldo Franco.
Deste modo, a religião que pede para as pessoas aceitarem o sofrimento - como fazia Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier - e definiu o momento atual como "início de regeneração" deveria se repensar antes de apelar para preces por um país melhor. Afinal, o que o país sofre hoje em provações está muito de acordo com o velho moralismo adotado pelos "espíritas".
quarta-feira, 28 de junho de 2017
Sócrates e Jesus criticaram os falsos sábios de seu tempo
O Brasil está muito atrasado. Aqui as pessoas atribuem os falsos sábios como "verdadeiros" porque passam "mensagens amorosas" ou posam ao lado de crianças pobres. Ah, como é fácil mistificar e manipular as mentes das pessoas com os apelos à emoção (Ad Passiones)...
Quem conhece a trajetória do filósofo grego Sócrates e do ativista da Judeia, Jesus de Nazaré, sabe que os dois sempre contestaram os pseudo-sábios, marcados pela pretensão de terem respostas para tudo e da pose de grandiloquente erudição.
Sócrates se passava por ignorante não por um capricho religioso de submissão e suposta humildade, mas como um jogo irônico de fingir que exalta a sabedoria do interlocutor para depois desarmá-lo com argumentação habilidosa.
A frase "tudo que sei é que nada sei" é tão badalada e até apreciada por oportunistas e pedantes de todo tipo, ou de pessoas marcadas pela boa-fé da pretensa sabedoria, mas este sentido deturpado mais parece um gancho para mistificadores e oportunistas do que um atestado de simplicidade e realismo.
Jesus de Nazaré falava dos "sacerdotes" e dos "escribas", que fingiam humildade perante seus mestres religiosos, mas se gabavam em sentar nos primeiros bancos de seus templos, orando com falsa modéstia, enquanto falavam ou escreviam belas palavras, textos enfeitados, ou faziam oratórias em tons dramáticos, alguns se passando por "profetas".
Eram críticas duras que demonstravam os defeitos dos falsos sábios: textos empolados, oratória dramática, linguagem rebuscada, pretensão de ter respostas para tudo, ambição em possuir a verdade, fingir humildade a seus mestres religiosos, adotar extravagância nas poses e gestos.
As pessoas hoje em dia costumam enxergar o argueiro nos olhos dos oportunistas do passado, mas se recusam a ver as traves nos olhos dos oportunistas do presente. E o quanto os "médiuns espíritas" personificam os pseudo-sábios dos dias atuais, sem que, no entanto, despertassem qualquer tipo de desconfiança.
Embora a imagem dos "médiuns espíritas" agradasse muitas e muitas pessoas - é claro, à custa de muito Ad Passiones, tipo de falácia relacionado a todo tipo de apelo emocional - , eles se encaixam perfeitamente nas caraterísticas dos pseudo-sábios dos tempos de Sócrates e Jesus.
Como não pensar, por exemplo, no Divaldo Franco de poses grandiloquentes, oratória dramática, textos rebuscados, ideias prolixas e conceitos mistificadores? Dói para muitos saber que um ídolo religioso como ele pode estar associado à ideia de pseudo-sábio, o que faz muitas pessoas caírem da cama depois de sonharem com os "médiuns" cercados de criancinhas dançando ciranda.
E Francisco Cândido Xavier? A ignorância de Chico Xavier nem de longe pode ser comparada com a do filósofo grego. Afinal, não se trata da ignorância como modéstia contra a erudição acadêmica e nem um recurso irônico para desmascarar os falsos sábios. Até porque, neste caso, é Chico Xavier que é o falso sábio, e se ele foi ignorante em algo, foi de Espiritismo, porque ele nunca teve real interesse em conhecer profunda e honestamente o legado de Allan Kardec.
Dói para muitos brasileiros, tomados da emotividade cega que os mantém na zona do conforto da fé mistificadora e do entorpecimento das palavras belas e imagens dóceis, ver seus ídolos sendo definidos por outrem como falsos sábios, daí tantas resistências e revoltas, não raro com um ódio e uma irritação impróprios para quem se julga portador de elevadas vibrações.
Mas a verdade é que os "médiuns" são, sim, falsos sábios. Eles seguem a orientação igrejeira de Jean-Baptiste Roustaing, o que diz muito quanto ao fato de estarem afastados dos postulados espíritas originais. Nem todos que estufam o peito para dizer "Kardec, Kardec" serão considerados espíritas autênticos, e é certo que poucos que evoquem o nome do professor lionês sejam dignos de tal condição.
Os oportunistas do passado eram criticados por Jesus e Sócrates, mas os similares atuais dos falsos sábios tentam avançar na sua esperteza exaltando justamente quem reprovava os seus semelhantes de outrora. A esperteza mostra mil armadilhas e ser falso significa, acima de tudo, ter a pretensão de parecer verdadeiro, sem sê-lo de fato. Quantas armadilhas são colocadas num cenário que parece um jardim de flores...
terça-feira, 27 de junho de 2017
Unidos pela deturpação
O "espiritismo" brasileiro, nos últimos 40 anos, tentou forjar uma estabilidade, na qual a antiga supremacia dos "místicos" tornou-se mais dissimulada e menos centralizada. O alto clero da FEB, com a morte do ex-presidente Antônio Wantuil de Freitas, se isolava enquanto os astros do "movimento espírita" passavam a pregar um "roustanguismo com Kardec".
O discurso de "fraternidade" era apenas um pano de fundo para que os deturpadores do "movimento espírita", agora com poder maior para as federações regionais, construíssem sua "torre de Babel" apenas abafando divergências severas. Todos, porém, com um propósito comum: trair a Doutrina Espírita com a deturpação igrejeira, mas sempre dando a falsa impressão de que cumprem "fidelidade absoluta" e "respeito rigoroso" à Codificação.
A "fraternidade da deturpação" tem suas divergências aqui e ali. Uns admitindo "virtudes" na obra de J. B. Roustaing. Outros vendo seu nome como um palavrão. Uns admitindo a "profecia da data-limite". Outros a renegando completamente. Uns inserindo até Astrologia no Espiritismo. Outros falando em masturbação e ato sexual em "colônias espirituais". Outros definindo a homossexualidade como "doença", outros como "mera confusão emocional". Uns admitindo um tributo dos "espíritas" ao Vaticano. Outros dizendo que isso é uma leviandade.
Tudo isso seria apenas uma questão de liberdade e diversidade de opiniões e escolhas se não fosse a alegação destes mesmos "espíritas" de supostamente professarem "um único e exato tipo de Espiritismo, o de Allan Kardec". Ver que tal postura acoberta uma série de hipocrisias é bastante constrangedor, e deixamos que o legado de Kardec seja transformado num "samba do crioulo doido", em nome da "caridade" e da "fraternidade".
Qualquer farsa cometida pelos "espíritas" é logo defendida com imagens de crianças pobres, destas que se obtém do acervo do Getty Images, Stock Photos e outros serviços de imagens. A "carteirada filantrópica" do "movimento espírita" é sempre servida como desculpa para se admitir qualquer tipo de deturpação, como se distorcer os ensinamentos de Allan Kardec ao sabor do igrejismo fosse válido "pelo pão dos pobres".
Para piorar, existem aqueles que criticam a "vaticanização" mas a praticam com gosto e exaltam os "vaticanizadores" do Espiritismo. De que adianta falar mal do "espiritismo à moda da casa", dos "múltiplos espiritismos", da "vaticanização", dos "Constantinos espíritas", para depois exaltar como "exemplo de sabedorias" obras igrejistas como aquele novo romance da autora "espírita" cujo enredo é do mais abundante moralismo igrejista?
Quantos "espíritas" falam mal da Idade Média, dizem que o Catolicismo medieval é "página virada", mas defendem ideias próprias do Catolicismo jesuíta que vigorou no Brasil-colônia e chamam para "proteger" as "casas espíritas" as almas dos mais diversos membros da Companhia de Jesus? E quantos críticos da "vaticanização" se esquecem que os próprios Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco são os maiores "vaticanizadores" de toda a Doutrina Espírita?
Os próprios Chico Xavier e Divaldo Franco, em seus livros, tentavam dar a falsa impressão de que não compartilham com o "superado" e "decadente" medievalismo católico. Mas isso foi conversa para boi dormir, porque tais obras são repletas do mais profundo e explícito medievalismo católico, com as mais piegas exaltações e defesas de dogmas católicos e expressões explícitas da mística própria do velho Catolicismo Apostólico Romano.
Da parte de Xavier, se via o redivivo padre Emmanuel da Nóbrega falando, de maneira hipócrita, do fim do Catolicismo medieval e das "tristes lembranças" daqueles tempos, fingindo defender irrestritamente o novo advento da Era do Conhecimento, porque Emmanuel sempre se expressou um severo opositor ao pensamento crítico e questionador, quando este se encoraja a contestar a validade dos velhos dogmas católicos ou dos dogmas neocatólicos inventados pelo "espiritismo", como a predestinação do Brasil como "pátria do Evangelho".
Quantos "vaticanizadores" do Espiritismo se protegem pela capa dos "fiéis discípulos do legado de Kardec". E quanta "vaticanização" é transmitida por baixo dos panos, sob a promessa de "respeitar rigorosamente as bases kardecianas", não raro com desmedido entusiasmo. Desta forma, os deturpadores querem que confundamos liberdade religiosa com confusão e contradições graves. O que tem de lobo querendo respeitar rigorosamente o rebanho...
segunda-feira, 26 de junho de 2017
Provas que os "médiuns" brasileiros não podem ser filósofos
FILÓSOFOS OFERECEM PERGUNTAS, ENQUANTO "MÉDIUNS ESPÍRITAS" SE SUPÕEM POSSUIR RESPOSTAS PARA TUDO.
Muitas pessoas, tomadas pela emotividade cega e pelas paixões religiosas, não conseguem discernir as coisas e contraem a mania de certos preciosismos. Uma delas é atribuir aos "médiuns" brasileiros a errônea reputação de "filósofos", uma grande bobagem sem pé nem cabeça.
A atribuição se dá sob desculpas bastante falaciosas. Só porque filosofia quer dizer "amiga da verdade" e aos "médiuns" brasileiros se associa a suposta imagem de superioridade moral e ao pretenso intelectualismo, as pessoas tendem a achar que eles são "verdadeiros filósofos" por causa da suposta inclinação à "verdade" e à "sabedoria".
Essas pessoas nunca leram um livro filosófico e pensam que filosofia é um punhado de frases curtas que se joga nas redes sociais como se fosse "lição de vida", uma prática confusa que pode alternar depoimentos coerentes de intelectuais autênticos como pregações moralistas ou mistificadoras de ídolos religiosos.
Essa atribuição de "filosofia" nada tem de racional, mas é típica do pretensiosismo preciosista de muitos brasileiros, que sempre arrumam uma desculpa "nobre" para seus caprichos e interesses individuais.
Por exemplo, se gostam de tal cantor pop, não é porque suas músicas agradam, mas porque ele é "um grande poeta", mesmo quando suas letras são verdadeiras bobagens. Ficam superestimando o astro, quando o que ele faz não é um amontoado de sucessos comerciais interpretados à custa de muita coreografia e alimentados por factoides de sua vida pessoal.
Os ídolos religiosos são beneficiados por esse pretensiosismo, no qual a emotividade cega se julga substituta da razão. Mas ignora, no caso dos "médiuns espíritas" brasileiros, a grande incoerência que é atribuí-los como "filósofos", que não é difícil de ser diagnosticada por quem entende da verdadeira Filosofia. Vejamos:
1) OS "MÉDIUNS" SE PRETENDEM A TER A RESPOSTA PRONTA PARA TUDO - Os verdadeiros filósofos não têm essa pretensão. O pensamento autenticamente filosófico não tem a pretensão de mostrar respostas, mas questões, procurando instigar o pensamento questionador, enquanto os "médiuns espíritas" têm por tarefa promover a conformação sem estimular o raciocínio crítico das pessoas.
2) OS "MÉDIUNS" EXPRESSAM IDEIAS MISTIFICADORAS - Por mais que um raciocínio filosófico apresente equívocos, seu propósito original é apresentar uma linha coerente de apresentação de ideias. Mas aí os seguidores dos "médiuns espíritas" vão dizer que o que estes falam é "claro, simples e coerente" e "dotado de muita lógica", mas essa alegação, além de ser mais emotiva que racional, revela uma falta de atenção. Se perguntarmos a esses seguidores sobre que razões eles têm, eles responderão de maneira confusa e expressarão sua constrangedora ignorância.
3) OS TEXTOS DOS "MÉDIUNS" SÃO PROLIXOS E REBUSCADOS - Não é próprio do filósofo autêntico o embelezamento de textos, mas o desenvolvimento de ideias. Em muitos casos, seus textos podem até serem difíceis de ler mas eles não tendem a serem prolixos ou rebuscados. Já os textos dos "médiuns" valem mais pelo adornamento de palavras, nas quais o pretexto das "mensagens de amor" e "lições de vida" só servem para dissimular ideias confusas e tentativas vãs de argumentação que divagam demais para apresentar ideias, havendo o risco constante de contradição e falta de lógica.
Com isso, facilmente se questiona a atribuição dos seguidores dos "médiuns" de que seus ídolos são "verdadeiros filósofos". Nem as alegações de "elevada condição moral" justificam, porque os três equívocos apresentados já comprovam que os "médiuns" não se comprometem com a busca da verdade, mas antes a posse de uma pretensa verdade à qual eles acham que não pode ser analisada.
Muitas pessoas, tomadas pela emotividade cega e pelas paixões religiosas, não conseguem discernir as coisas e contraem a mania de certos preciosismos. Uma delas é atribuir aos "médiuns" brasileiros a errônea reputação de "filósofos", uma grande bobagem sem pé nem cabeça.
A atribuição se dá sob desculpas bastante falaciosas. Só porque filosofia quer dizer "amiga da verdade" e aos "médiuns" brasileiros se associa a suposta imagem de superioridade moral e ao pretenso intelectualismo, as pessoas tendem a achar que eles são "verdadeiros filósofos" por causa da suposta inclinação à "verdade" e à "sabedoria".
Essas pessoas nunca leram um livro filosófico e pensam que filosofia é um punhado de frases curtas que se joga nas redes sociais como se fosse "lição de vida", uma prática confusa que pode alternar depoimentos coerentes de intelectuais autênticos como pregações moralistas ou mistificadoras de ídolos religiosos.
Essa atribuição de "filosofia" nada tem de racional, mas é típica do pretensiosismo preciosista de muitos brasileiros, que sempre arrumam uma desculpa "nobre" para seus caprichos e interesses individuais.
Por exemplo, se gostam de tal cantor pop, não é porque suas músicas agradam, mas porque ele é "um grande poeta", mesmo quando suas letras são verdadeiras bobagens. Ficam superestimando o astro, quando o que ele faz não é um amontoado de sucessos comerciais interpretados à custa de muita coreografia e alimentados por factoides de sua vida pessoal.
Os ídolos religiosos são beneficiados por esse pretensiosismo, no qual a emotividade cega se julga substituta da razão. Mas ignora, no caso dos "médiuns espíritas" brasileiros, a grande incoerência que é atribuí-los como "filósofos", que não é difícil de ser diagnosticada por quem entende da verdadeira Filosofia. Vejamos:
1) OS "MÉDIUNS" SE PRETENDEM A TER A RESPOSTA PRONTA PARA TUDO - Os verdadeiros filósofos não têm essa pretensão. O pensamento autenticamente filosófico não tem a pretensão de mostrar respostas, mas questões, procurando instigar o pensamento questionador, enquanto os "médiuns espíritas" têm por tarefa promover a conformação sem estimular o raciocínio crítico das pessoas.
2) OS "MÉDIUNS" EXPRESSAM IDEIAS MISTIFICADORAS - Por mais que um raciocínio filosófico apresente equívocos, seu propósito original é apresentar uma linha coerente de apresentação de ideias. Mas aí os seguidores dos "médiuns espíritas" vão dizer que o que estes falam é "claro, simples e coerente" e "dotado de muita lógica", mas essa alegação, além de ser mais emotiva que racional, revela uma falta de atenção. Se perguntarmos a esses seguidores sobre que razões eles têm, eles responderão de maneira confusa e expressarão sua constrangedora ignorância.
3) OS TEXTOS DOS "MÉDIUNS" SÃO PROLIXOS E REBUSCADOS - Não é próprio do filósofo autêntico o embelezamento de textos, mas o desenvolvimento de ideias. Em muitos casos, seus textos podem até serem difíceis de ler mas eles não tendem a serem prolixos ou rebuscados. Já os textos dos "médiuns" valem mais pelo adornamento de palavras, nas quais o pretexto das "mensagens de amor" e "lições de vida" só servem para dissimular ideias confusas e tentativas vãs de argumentação que divagam demais para apresentar ideias, havendo o risco constante de contradição e falta de lógica.
Com isso, facilmente se questiona a atribuição dos seguidores dos "médiuns" de que seus ídolos são "verdadeiros filósofos". Nem as alegações de "elevada condição moral" justificam, porque os três equívocos apresentados já comprovam que os "médiuns" não se comprometem com a busca da verdade, mas antes a posse de uma pretensa verdade à qual eles acham que não pode ser analisada.
domingo, 25 de junho de 2017
"Espiritismo" e sua falta da verdadeira autocrítica
Diante de tantos deslizes e tantas deturpações, o "espiritismo" brasileiro tenta argumentar que "erra muito, sim" e que a deturpação foi um caminho de tantos equívocos. Mas diz isso visando tão somente evitar sofrer os efeitos de suas más escolhas.
É suficiente assumir os erros? Não. Tantos são os que cometem erros gravíssimos e até crimes hediondos com a consciência de que optaram pela má escolha. E tantos os que cometem erros de maneira convicta fazem vitimismo quando são alvos dos prejuízos causados.
O "espiritismo" brasileiro cometeu erros gravíssimos e se afastou completamente dos ensinamentos de Allan Kardec. Se perdeu no caminho do pensamento de J. B. Roustaing e depois fez de tudo para dar a falsa impressão de que é "o mesmo Espiritismo de Kardec só que com as tradições religiosas brasileiras", uma desculpa sem pé nem cabeça.
Tentam reparar erros aqui e ali, mas isso é insuficiente, porque a prevalência da "catolicização" do "espiritismo" se tornou extrema. Os "espíritas" agem com muita hipocrisia. Numa primeira ocasião, abraçam o roustanguismo e a "vaticanização" com muito entusiasmo. Na ocasião seguinte, passam a ter vergonha das posturas que com tanta convicção defenderam.
Evidentemente, todo mundo erra. Mas há quem erra com mais gravidade que outros, errando de uma maneira irresponsável e intransigente. E o "espiritismo" cometeu traições doutrinárias graves ao pensamento de Kardec, defendendo coisas que a Ciência Espírita define como absurdas, como supor mundos espirituais sem realizar um estudo sequer e concebendo tudo pelos caprichos materialistas.
Quantas obras igrejeiras de moralismo tão mofado foram publicadas, que se chocam com a sobriedade do pensamento kardeciano. Quanto moralismo retrógrado feito, defesas da Teologia do Sofrimento, ideias "emprestadas" da Astrologia e do ocultismo em geral, e tantas e tantas analogias à liturgia católica, como evocação de padres jesuítas e freiras como "protetores" de "casas espíritas".
O problema é que o "espiritismo" fez tudo isso com gosto, e fez coisas desonestas como a mediunidade fake, que destoa das personalidades originais dos mortos alegados e era feita visando o mershandising religioso. São atitudes equivocadas que deveriam ter sido evitadas, mas os supostos "médiuns" estavam em busca de autopromoção, com falsa paranormalidade e, depois, pretenso ativismo e pseudo-intelectualismo.
Os efeitos causados por isso não são pequenos, e a deturpação da Doutrina Espírita não foi feita por acidente. Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco não teriam deturpado o Espiritismo por boa-fé, fizeram tudo de propósito, com gosto e de maneira mais convicta, insistente e reincidente.
Isso porque Chico Xavier e Divaldo Franco produziram atividades de grande repercussão, grande alcance de público e feitas durante muito tempo. 400 livros de Chico, outras centenas de Divaldo, os ciclos de palestras deste último, ao redor do mundo, para plateias cheias e pessoas influentes, o igrejismo de ambos não pode ser acidental, e eles claramente contrariam frontalmente o pensamento kardeciano, sendo portanto deturpadores da pior espécie.
Mas há, ainda, quem queira aproveitá-los na recuperação das bases doutrinárias. Como? Pela aparente filantropia, que, sabemos, não passa de Assistencialismo, mera caridade paliativa e pontual que pouco ajuda a população carente e mais serve para a propaganda pessoal dos "médiuns"?
Não. E o "espiritismo" brasileiro se encontra nesse impasse, e segue o seu pior caminho, que é fingir o mais autêntico apego a Kardec. Talvez se os "espíritas" brasileiros assumirem que romperam com Kardec e preferem o roustanguismo, seria menos mal, mas o Brasil vive de arrivismos e pretensões. Mesmo quem está na retaguarda faz de tudo para parecer estar na vanguarda.
E aí vemos que teoria e prática se desencontram. Os "espíritas", agora afeitos a bajular Herculano Pires, Deolindo Amorim e o que vier, falam tanto no "respeito rigoroso a Allan Kardec", mas, na prática, cometem traições muitíssimo graves, desenvolvendo um clone fajuto e mais antiquado da Igreja Católica. Se os "espíritas" assumem seus erros, eles deveriam pensar realmente o que querem na vida, em vez de insistirem nesse vergonhoso "roustanguismo com Kardec".
sábado, 24 de junho de 2017
"Caridade espírita" quase nada ajudou o Brasil
Principal argumento para blindar a deturpação da Doutrina Espírita e proteger a reputação dos "médiuns" que vivem do culto à personalidade, a "caridade espírita" não faz jus a sua fama de "transformadora" e "revolucionária" que seus adeptos tanto alardeiam por aí.
A "caridade" praticada pelo "espiritismo" brasileiro se limita a tarefas pontuais, dentro das definições do Assistencialismo. Até aí, nada demais, diante de "casas espíritas" que fazem projetos assistenciais e acolhem um grupo de pessoas pobres. O problema é o fato de que a medida é usada para proteger os deturpadores e tentar abafar qualquer questionamento, além de servir para a propaganda e promoção pessoal de seus ídolos religiosos, sobretudo "médiuns".
Para começar, nem tudo que é considerado oficialmente "caridade" no "espiritismo" brasileiro deve ser considerada como tal. As "cartas dos mortos" de Francisco Cândido Xavier, por exemplo, foram um processo pernicioso e perigoso que mistura fraudes com obsessão, além de alimentar o sensacionalismo através da divulgação da grande mídia.
Em primeiro lugar, isto é um ato de obsessão, na qual se evoca o nome do falecido sem muita necessidade, dentro de um clima de emotividade ao mesmo tempo piegas e mórbida, e ignorando se o espírito do falecido realmente está ou não disponível para trazer tal mensagem. Em certos casos, mas poucos, talvez estivesse disponível, não fosse o fato do "médium" Chico Xavier produzir mensagens fake, da mente do próprio mineiro.
A fraude foi diagnosticada por diversas fontes, e se torna, para desespero dos chiquistas, verídica. Há o estranho aspecto de muitas mensagens começarem com "Querida mamãe" e apresentarem propagandismo religioso explícito. Além do mais, muitas das mensagens apresentam claramente problemas de caráter pessoal do respectivo autor, como assinaturas diferentes das originais e aspectos de personalidade que contradizem com o que a respectiva pessoa foi em vida.
É a mesma queixa que se dá em relação aos autores famosos, quando Humberto de Campos, Olavo Bilac, Auta de Souza, Casimiro de Abreu, Augusto dos Anjos e outros "aparecem" nos livros de Chico Xavier com graves falhas quanto aos respectivos estilos e personalidades, praticamente refletindo, invariavelmente, a mesma linguagem e o mesmo pensamento pessoal do "médium", trazendo fortes indícios de terem sido obras fake.
As "mensagens dos mortos" não podem ser consideradas "caridade" porque acabam prolongando as tragédias humanas. Em vez das pessoas poderem encarar as tragédias de seus entes queridos no sossego da privacidade e num luto que poderia ser mais curto, a situação se prolonga e se complica com a exploração pitoresca e sensacionalista dessas supostas mensagens e pelo fato delas apresentarem indícios de fraudes, alimentados pela "leitura fria".
Para quem não sabe, a "leitura fria" é um método psicológico no qual o entrevistador colhe informações do entrevistado por meio de uma conversa em tom intimista. Com isso, o entrevistador não colhe apenas as informações que são ditadas pelo entrevistado, mas colhe também outras, mais sutis ou subliminares, que são trazidas pelo modo com que as pessoas falam ou reagem a respeito de alguma ideia.
Além disso, há várias denúncias de que as supostas mensagens espirituais seriam compostas de diversas informações colhidas não só da "leitura fria" ou das fontes diversas (imprensa, diários pessoais, conversas informais durante eventos "espíritas"), mas até mesmo dos formulários preenchidos pelos pacientes quando recorrem ao "auxílio fraterno".
Foi aí que veio uma pegadinha, num "centro espírita" em Campo Grande, Rio de Janeiro, em que a atriz Márcia Brito - que foi a Flora Própolis da Escolinha do Professor Raimundo - afirmou ter se impressionado quando a suposta mensagem atribuída ao falecido filho Ryan Brito citou o celular e RG da mãe. Ela se esqueceu que forneceu essas informações quando preencheu o formulário que sempre se faz num "auxílio fraterno".
Há muitas estranhezas nisso, não bastasse o fato do Brasil ter mais "médiuns" do que naturalmente se poderia ter. E também pelo fato dos "médiuns" não terem o caráter intermediário, mas serem sempre as atrações principais, com direito ao culto à personalidade, apesar de toda a roupagem de pretensa humildade. Além disso, os "médiuns", no Brasil, viram dublês de pensadores e de filantropos, garantindo assim seu estrelato.
E isso se reflete também na forma como os "espíritas" veem a "caridade", mais preocupados com o prestígio religioso do "benfeitor espírita", quase sempre um "médium", do que com os resultados alcançados, que, através de minuciosas pesquisas, se revelam bastante medíocres.
As próprias ações apresentam caraterísticas de Assistencialismo e não de Assistência Social. Só para entender a diferença dos dois, Assistência Social é uma caridade que transforma e o Assistencialismo é apenas uma caridade paliativa, que minimiza efeitos drásticos. Numa comparação mais metafórica, a Assistência Social elimina a doença da pobreza, o Assistencialismo apenas alivia suas dores e seus sintomas, sem no entanto trazer a cura.
O que vemos é o aspecto constrangedor de todo o estardalhaço que se faz com a "caridade espírita" diante de tão pouca coisa. As "caravanas" de Chico Xavier foram um espetáculo bastante ostensivo, exibicionista, mas cujo objetivo é muito frouxo: doar roupas e cestas básicas e oferecer sopas, um ato meramente paliativo, só considerado urgente em situações de calamidade pública.
Há muita diferença entre calamidade pública e pobreza extrema, porque na calamidade pública - recentemente houve um trágico incêndio num edifício residencial em Londres, mas a História registra o drama da Segunda Guerra Mundial - as perdas são inevitáveis em situações drásticas, de graves conflitos e catástrofes naturais.
Na pobreza extrema, o que ocorre são distorções sociais consequentes do descaso político, mas próprias de situações de aparente paz social e que podem ser resolvidas não pela caridade paliativa, mas por políticas profundas de emprego, educação e assistência social que instituições não-religiosas, envolvendo sindicatos e entidades de trabalhadores rurais, estão mais preparadas para fazer.
O grande problema dessa "caridade espírita" é que os mantimentos que a população recebe se esgotam em três semanas, se levarmos em conta que muitos pobres compõem famílias numerosas. Enquanto os "espíritas" saem comemorando por meses uma "caridade" feita num fim de semana ou numa efeméride, seus "beneficiados" voltaram à mesma situação carente de antes.
Há também outro problema, que se refere ao estrelato dos "médiuns". Enquanto a Mansão do Caminho não consegue ajudar, ao longo de seus 65 anos de existência, sequer 1% da população de Salvador (em índices nacionais, a coisa seria pior), Divaldo Franco faz turismo para fazer palestras para ricos e poderosos no Primeiro Mundo, promovendo a deturpação e espalhando as traições doutrinárias que o baiano fez ao legado kardeciano.
A realidade em que vive o Brasil não conseguiu superar a pobreza extrema e os moradores de rua só crescem, diante desse quadro político neoconservador que promove a exclusão social através das reformas trabalhista e previdenciária do governo Michel Temer.
Por sua pretensão de grandeza e pelo alto prestígio dos "médiuns", que se autoproclamam "os maiores ativistas sociais" do Brasil, se a "caridade espírita" tivesse realmente funcionado, o Brasil teria atingido níveis impressionantes de desenvolvimento social.
Não adianta os "espíritas" dizerem que a "tarefa é complexa", ou que "houve obstáculos no caminho", "os espíritos inferiores não deixaram" ou coisa parecida, porque a pretensão de grandeza faz com que muitos palestrantes "espíritas" digam, num dia, que "estão vencendo os obstáculos", mas, no dia seguinte, desmentem dizendo que "não foi possível realizar a tarefa".
O que concluímos é que a "caridade espírita", seja de forma quantitativa e qualitativa, só trouxe resultados medíocres. Houve ajuda, mas ela está bem abaixo das expectativas e ela não traz mérito algum à doutrina deturpadora, porque não se pode usar a "caridade" como escudo para trair Allan Kardec, porque usar o "pão dos pobres" como justificativa para a deturpação é rebaixar a "bondade" como um ato permissivo a qualquer leviandade. Isso não é "bondade" verdadeira.
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