GILMAR MENDES, DIVALDO FRANCO E REINALDO AZEVEDO - A última coisa que eles querem é a coerência.
O Brasil sofreu um atraso de décadas. Depois de tanto esforço pela redemocratização, sucumbimos a um governo republicano feito nos moldes do governo de Ernesto Geisel, combinando valores moralistas, tecnocráticos e até mesmo teocráticos, sem falar da corrupção e da incompetência que o status quo deixa passar.
A instauração do governo do presidente interino Michel Temer, até pelo modo confuso com que ele se deu diante de um suposto escândalo político que fez a antiga titular Dilma Rousseff, hoje afastada, ser derrubada por meros boatos mal esclarecidos, mas superestimados pela raiva coletiva, reflete um Brasil sem compromisso com a coerência.
Dominado por uma "cultura popular" feita sem vínculos comunitários com as classes populares, mas em função da aliança de empresas de entretenimento com emissoras de rádio regionais e redes de televisão, o Brasil deixa o mundo perplexo com seu apego desesperado à incoerência.
Há quem diga que a série de livros FEBEAPÁ - Festival de Besteiras que Assola o País, que Sérgio Porto escreveu sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, não só sobreviveu à morte prematura de seu autor (aos 45 anos, em 1968) como simplesmente saiu do papel para tornar-se realidade cotidiana. Um novo volume poderia ser composto apenas de fatos ocorridos nos últimos três anos.
O Brasil tornou-se surreal em diversos aspectos. E uma boa parcela de brasileiros prefere sacrificar a lógica e o bom senso para preservar as convicções pessoais, vide vários aspectos. E, em nome do status quo, são capazes de endeusar personagens que se envolvem em escândalos gravíssimos.
Vide o governo Michel Temer. A votação que possibilitou esse governo, realizada em 17 de abril passado na Câmara dos Deputados, pela abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff, se deu com muitos parlamentares envolvidos em corrupção que votaram pelo "sim" - "Fora, Dilma" - , sob a desculpa de "combate à corrupção".
Pior: envolvidos em homicídios, contravenção, desvio de dinheiro público, extração ilegal de madeira, contrabando, estelionato e outros crimes deram o "sim" "em nome da moralidade". E eram presididos por um deputado com um extenso histórico de corrupção, envolvido em escândalos de propina e desvio de dinheiro público para as contas dele e de sua família, num famoso paraíso fiscal.
CATÁSTROFE SÓCIO-POLÍTICA
A catástrofe sócio-política já existia anos atrás, quando pessoas que denunciavam arbitrariedades políticas, modismos culturais de gosto duvidoso, instituições de reputação discutível e outras aberrações eram esculhambadas pela Internet pelos chamados "troleiros" ou trolls, espécies de "cães de guarda" do "estabelecido", que, em certos casos, chegaram a criar blogues feitos exclusivamente para caluniar seus desafetos, mesmo não sendo eles famosos.
A combinação de burrice, reacionarismo e teimosia cria um quadro surreal do Brasil, que assusta o resto do mundo. Um Brasil neo-medieval, neuroticamente narcisista, onde as convicções pessoais estão acima da lógica e do bom senso, que vive a tirania da estupidez humana que, se deixarmos, é capaz de mandar no mundo.
É um Brasil cujo Estado do Rio de Janeiro sofre uma decadência avassaladora, que o coloca aos níveis de um Estado do Norte nos tempos da ditadura militar, e sofrendo a ameaça de ter um fascista no poder, o jovem Flávio Bolsonaro, filho do encrenqueiro Jair Bolsonaro, se caso a histeria dos psicóticos que pediram o "Fora Dilma" decidir eleger um figurão desses para a Prefeitura do Rio de Janeiro, que há muito deixou de ser a Cidade Maravilhosa de uma famosa marchinha.
Pois foi esta histeria que praticamente destruiu o Brasil, porque os cariocas, histéricos no seu provincianismo neo-coronelista, foram tentados em eleger para deputado federal o inexpressivo político Eduardo Cunha, que com um poder nas mãos propôs um projeto legislativo que vai contra a Constituição de 1988 e ameaça conquistas sociais históricas alcançadas nos últimos 80 anos.
Os cariocas acabaram prejudicando o país, e causando sérios problemas na medida em que se descobriu que Eduardo Cunha faz o tipo do corrupto carreirista e traiçoeiro, que com muito trabalho teve que ser expulso do poder e afastado da presidência da Câmara dos Deputados, já que Cunha seria o vice-presidente do governo Michel Temer.
Só quando foi tarde demais os cariocas passaram a fazer passeata contra Cunha. E isso quando a Rede Globo e o jornal O Dia, dois veículos manipuladores da opinião pública do RJ, passaram a repudiar o deputado.
E ainda havia o oportunismo do "funk", ritmo que nunca deveria ter sido levado a sério, e que nunca foi favorável a governos progressistas, até porque seus empresários são muito ricos e vivem às custas da exploração fútil das classes populares.
O "funk" só apoiou os governos do PT visando arrancar verbas públicas do Ministério da Cultura, para poupar seus empresários-DJs de investirem suas fortunas. Alguém acreditaria, mesmo, que um ricaço como Rômulo Costa, da Furacão 2000 e da rádio Top Rio FM, iria mesmo apoiar Dilma Rousseff? Muitos especialistas compararam Rômulo ao antigo militar Cabo Anselmo, que em 1964 disse ter apoiado João Goulart e, mais tarde, foi revelado agente da CIA.
MUNDO PERPLEXO
Jornalistas mais conceituados estão preocupados com o governo de Michel Temer. Em menos de um mês, o governo interino revelou uma surpreendente coleção de gafes, escândalos e inconvenientes. Entre os episódios risíveis, um Alexandre Frota sugerindo "propostas para a Educação no Brasil".
Para piorar, Frota se reuniu como ministro da Educação, Mendonça Filho - um leigo no setor - dias antes de um triste episódio de estupro coletivo chocar o Brasil e o mundo. Frota havia narrado um estupro que supostamente realizou contra uma mãe-de-santo em um programa de entrevistas e humor, e tanto o reacionário apresentador Danilo Gentili quanto plateia e outros presentes se divertiram, com muita animação, a essa estória.
A situação do Brasil de hoje é muito chocante, e a imprensa estrangeira, não necessariamente esquerdista e, em parte, aparentemente tão conservadora quanto o governo de Michel Temer, admite que seu governo foi implantado por um golpe político, institucional e jurídico, sob o apoio de grandes grupos de Comunicação.
Na mídia, observa-se a atitude psicótica da revista Veja, com sua linha editorial desequilibrada, na qual verdadeiras calúnias são lançadas para desmoralizar políticos como Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Não se trata de uma discordância saudável a Lula e Dilma, que até eles aceitam e autorizaram em seus governos, mas de uma escancarada campanha de difamação e injúrias.
Mas Veja é apenas o veículo mais radical e nervoso de uma mídia reacionária, Os veículos das Organizações Globo (O Globo, Rede Globo, Globo News e CBN), a Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo são também conhecidos pelo seu reacionarismo. Mas mesmo veículos supostamente "neutros" como o Grupo Bandeirantes (TV Bandeirantes e Band News TV e FM) e a revista Isto É, ou mesmo a baiana Rádio Metrópole FM também tem surtos reacionários surpreendentes.
Quanto aos comentaristas, pessoas como Merval Pereira, Reinaldo Azevedo, Eliane Cantanhede, Josias de Souza, Ricardo Noblat, Diogo Mainardi e Diego Escosteguy são algumas das vozes reacionárias que sacrificam a transparência da informação para colocarem seus juízos de valor acima da realidade, tornando-se, nos últimos tempos, "militantes" do impeachment de Dilma.
No Judiciário, além da atuação tendenciosa do Supremo Tribunal Federal e da parcialidade do juiz paranaense Sérgio Moro - que chegou a participar de eventos do PSDB - , além da atuação irregular de Gilmar Mendes, que se comporta mais como um político do que como membro do Poder Judiciário, sem poder esconder sua ação promíscua com os atuais detentores do poder.
Recentemente, Gilmar Mendes tornou-se relator de um processo judicial do deputado Eduardo Cunha contra o jornalista e deputado Jean Wyllys, apenas porque Cunha não gostou de ter sido chamado de "ladrão". A medida, longe de apresentar uma ação de uma vítima de danos morais - em se tratando de Cunha, isso é menos provável - , é muito mais um meio de desmoralizar um ativista de esquerda, cuja opção sexual vai contra as convicções religiosas apoiadas pelo ex-presidente da Câmara.
No final do mês passado, Gilmar Mendes jantou com o presidente interino Michel Temer, em mais uma estranha promiscuidade político-judicial. Cinicamente, Gilmar alegou que o jantar tinha "motivos profissionais", usando uma estranha desculpa de "pedir verbas" para o Tribunal Superior Eleitoral, presidido pelo ministro do STF.
Segundo especialistas em Direito, esse não é um processo correto de pedir verbas para o TSE. Para esse objetivo, o presidente do STF, no caso Ricardo Lewandovski, é que se reúne, em horário de trabalho, com o presidente da República para discutir o assunto e o Congresso Nacional é que vota a necessidade de investimentos, dentro do roteiro de orçamento da União para o referente ano. Nunca um jantar entre amigos poderia ter esse fim.
O "ESPIRITISMO" BRASILEIRO
O rol de escândalos aberrantes que se revela por trás do governo de Michel Temer - um governo interino que se autoproclama "definitivo", com planos para 2017 e 2018 mesmo diante da possibilidade legal de Dilma voltar ao poder - , que custou a saída de dois ministros - Romero Jucá, do Planejamento, e Fabiano Silveira, da Transparência - , anda deixando o mundo perplexo.
Mas o que mais espanta é que no Brasil uma parcela da sociedade quer impor suas convicções pessoais e sua visão oficial do mundo, sacrificando lógica, bom senso, coerência, interesse público etc. Mania que já foi o motivo de muitas trolagens, em que os internautas agressores sempre quiseram impor a prevalência de valores retrógrados "estabelecidos", em nome do status quo de políticos, tecnocratas, acadêmicos, empresários e até famosos (tipo Luciano Huck, por exemplo).
É assustador que o obscurantismo travestido de irreverência, praticidade ou motivação técnica se imponha à sociedade, à realidade e até ao mundo. Ver um José Serra transformado em ministro das Relações Exteriores querendo impor o ponto de vista surreal do governo Michel Temer, em detrimento da perplexidade que o mundo sente diante de um governo estranhamente instituído, é um claro exemplo disso.
É um país em que pessoas se reúnem surrealmente para cada um ficar isolado em si mesmo brincando com o WhatsApp no celular, vendo vídeos "divertidos" e mensagens "hilárias". O Brasil vive a ditadura da estupidez, resultado de uma mistura de ignorância, egoísmo, narcisismo, teimosia, agressividade e uma combinação contraditória de libertinagem e autoritarismo.
Também é o país que, no caso do "movimento espírita", também experimentou essa agressão à lógica e ao bom senso. Diante da promoção tendenciosa de um estranho caipira católico, que se declarava paranormal e depois foi fazer pastiches e plágios literários, aos níveis de um semi-deus, o "espiritismo" brasileiro é o exemplo de como se chuta o pau da barraca quando se trata de combater a lógica e o bom senso.
A memória curta, o jeitinho brasileiro, e a mania recente das pessoas usarem argumentos pretensamente racionais para defender posturas absurdas e desprovidas de coerência e lógica é que permitem que uma religião como o "espiritismo" se mantenha em situação aberrantemente impune e isso é preocupante.
É por causa da memória curta que os partidários de Francisco Cândido Xavier só conhecem ele através da agradável imagem de "filantropo" construída pelas Organizações Globo, corporação midiática cuja habilidade é manipular o inconsciente coletivo das pessoas. A popularidade do "funk" e de uma simples gíria, "balada", se devem ao poder da Rede Globo de Televisão.
Chico Xavier esteve associado a escândalos terríveis. E, em todos eles, Chico agiu de propósito, de maneira direta ou indireta. São casos aberrantes de plágios e pastiches literários, falsamente tidos como "psicografias", participou de fraudes de materialização, mas que as pessoas deixam passar porque nelas existe a fantasia dócil do "bom velhinho" associado a clichês da devoção religiosa.
Para piorar, Chico Xavier era adepto da Teologia do Sofrimento, a pior corrente da Igreja Católica de origem medieval, embora popularizada, nos últimos séculos, por Santa Tereza de Lisieux e, mais adiante, por Madre Teresa de Calcutá, denunciada por Christopher Hitchens e acadêmicos conceituados por usar essa ideologia para deixar os pobres e doentes sofrerem sem digna assistência.
Chico Xavier defendeu a Teologia do Sofrimento com suas próprias palavras. De maneira explícita, clara. evidente. Ele dizia para os sofredores não mostrarem sofrimento e sempre pregou que sofrer desgraças era "uma graça do Alto". Ninguém até agora admitiu oficialmente, mas, com a Teologia do Sofrimento, o "bondoso médium" causou um grande estrago na forma com que a Doutrina Espírita era introduzida no Brasil.
Chico defendeu a ditadura militar, também da forma mais explícita possível. Está no programa Pinga-Fogo, da TV Tupi de São Paulo, transmitido em 1971 e hoje disponível no YouTube. Era uma época em que antigos defensores do golpe de 1964, como Carlos Lacerda, já estavam na oposição, vendo que a ditadura vivia uma fase ainda mais cruel.
Só faltava, naquela época, o "médium" dizer que o truculento coronel Brilhante Ustra era apenas "agente de resgates coletivos" e que o ex-deputado Rubens Paiva (pai do escritor e dramaturgo Marcelo Rubens Paiva) foi morto por ter sido um "tirano romano" em outra encarnação.
A literatura de Chico Xavier é um repertório de visões preconceituosas, ideias retrógradas e valores moralistas dos mais conservadores. Mas a imagem ideológica construída habilidosamente por Antônio Wantuil de Freitas, da FEB, e, mais tarde, pela Rede Globo (que agora faz o mesmo com Divaldo Franco) tornou-se uma pegadinha tão habilidosa que enganou até mesmo muitos esquerdistas e ateus.
Daí que estes, que nunca poderiam sair em defesa de Chico Xavier e Divaldo Franco, tornaram-se, na boa-fé, fanáticos defensores, usando a desculpa de uma "bondade" que só é exaltada porque tem a chancela da religião. Até porque a "caridade" dos dois foi tão vaga ou ineficaz quanto o que os próprios chiquistas e divaldistas imaginam ter sido o governo Dilma Rousseff.
Alguém refletiu, por exemplo, que, se realmente funcionasse a "caridade" de Chico Xavier e Divaldo Franco, o país não teria sofrido a crise dos últimos anos? E o que dizer dos locais "protegidos" pelas "boas energias" dos dois religiosos, Uberaba e o bairro de Pau da Lima, em Salvador, incluídos entre os lugares do Brasil marcados por preocupantes índices de miséria e violência?
Mas, infelizmente, a lógica e a coerência não são o forte dos "espíritas", que só usam tais procedimentos para acobertar suas convicções pessoais. Acham que Chico Xavier, Divaldo Franco e o "movimento espírita" como um todo irão sobreviver ao que eles chamam de "tempestades de reações adversas" contra aquilo que eles dizem ser o "trabalho do bem".
É o Brasil que pessoas retrógradas de todo tipo, dos "espíritas" aos "troleiros", passando por setores corrompidos e reacionários do Executivo, Legislativo, Judiciário e também da grande imprensa (o chamado "quarto poder"), que tenta se valer, mesmo diante da reprovação do mundo.
O grande medo é o Brasil impor uma nova Idade Média, criar um novo Imperialismo de início financiado pelos EUA, e termos a ascensão dos Bolsonaro da vida e vivermos num novo obscurantismo religioso. Tudo porque uma boa parcela de brasileiros prefere a fantasia à liberdade e transforma suas convicções marcadas pela ignorância e pelo egoísmo em "verdades indiscutíveis". Isso é muito grave.
domingo, 5 de junho de 2016
sexta-feira, 3 de junho de 2016
Triunfalismo, um sentimento muito perigoso
Um dos vícios mais perigosos do "movimento espírita" é o triunfalismo. A ideia de se achar vitorioso em toda derrota, de achar que todo ataque alheio é propaganda de sua causa, isso revela não um sentimento de perseverança, de humildade e esperança, mas um tipo de arrogância pessoal dos mais preocupantes.
Observando as crises do "espiritismo" brasileiro, é preocupante o sentimento de triunfalismo de seus integrantes. Eles acham que as "pedras" que "chovem" sobre eles são um tipo de propaganda em favor da causa, que os ataques são uma campanha favorável.
O próprio Chico Xavier sempre se valia dessa estratégia para se sobressair. Ele foi uma das pessoas mais astutas e espertas que o país já teve. Sua esperteza é comparável a de Eduardo Cunha hoje, só que com habilidade maior e uma vantagem: poderia se esconder pela imagem dócil de um velhinho doente e por atos de aparente bondade.
O mito de Chico Xavier se construiu passando por cima de vários escândalos, vários deles comprovadamente desfavoráveis ao "médium". A sorte é que no Brasil muitas pessoas vivem da doença infantil do deslumbramento religioso e não há jeito de derrubar a imagem, digna de contos de fadas, do "homem chamado Amor".
Um desses escândalos foi o caso dos pastiches literários. Quem tem um hábito regular de leitura e é capaz de discernir estilos pessoais de diversos escritores sabe muito bem que os livros que Chico Xavier atribuía a autores espirituais destoa severamente do que estes haviam deixado em vida.
O pior, o mais grave, é que Chico Xavier, devoto da Teologia do Sofrimento - corrente católica que faz apologia do sofrimento humano - , botou sob a responsabilidade de Auta de Souza, Humberto de Campos e outros a defesa dessa lamentável causa.
Imagine se, por exemplo, um jornalista de Veja, como Reinaldo Azevedo, criasse um texto que dissesse ter sido psicografado e, atribuindo a autoria ao político cubano Ernesto Che Guevara, inventasse que o "espírito" defendesse o livre-mercado e a privatização de tudo, até da creche pública da esquina.
O triunfalismo de Chico Xavier é tão preocupante que, volta e meia, a sua imagem de "bondoso" se recicla de maneira preocupante. É o Brasil de Michel Temer. Michel Temer "é" Chico Xavier, é Divaldo Franco. É o Brasil retrógrado travestido de moderno, como o Catolicismo medieval do "médium" é travestido de filosofia futurista.
Acham os chiquistas que todo tipo de adversidade favorece seu triunfo. Manipulam a Teologia do Sofrimento para levar vantagem. Daí que, quando atacados, se acham os maiorais, acham que todo ataque é propaganda, toda adversidade lhes traz vantagem, todo obstáculo é um novo caminho, toda derrota lhes garante a vitória.
FORMA DOENTIA DE COMPLEXO DE SUPERIORIDADE
Isso não é um sentimento de perseverança nem de esperança. Antes fosse uma arrogância, uma manifestação das mais doentias de complexo de superioridade, e isso é uma coisa tão grave que, quando alguém demonstra um sofrimento desses, é bom sentir pena e buscar algum socorro. O triunfalista não está bem da cabeça.
A arrogância se dá porque o triunfalista ignora a autocrítica, não aceita a derrota, criando um discurso que pode parecer doce como mel e sugerir uma falsa humildade e uma pretensa perseverança, mas revela um conteúdo chantagista, cruel.
A pessoa que diz se achar vitoriosa em todo tipo de derrota é, muitas vezes, aquela que não aceita ser derrotada. E a lógica mostra que é muito mais grave alguém se achar invencível quando é derrotado sempre do que aquele que vence sempre e se acha invencível.
Pelo menos o vitorioso que se acha invencível tem como atenuante a consciência de que ganha todas. Ele sabe, pelo menos, que venceu e não vê obstáculos contra ele ou, se vê, os derruba facilmente. Ele tem noção de que posição está, e é sincero na sua arrogância.
O derrotado que se acha invencível é bem pior. Combinando coitadismo e complexo de superioridade, pode revelar uma personalidade ainda mais traiçoeira e ambiciosa. E que sentimentos de vingança ou revanche podem esconder de almas que se dizem "vitoriosas a cada derrota que sofrem"?
Tiranos surgiram nessa combinação indigesta entre derrota e arrogância, e não são as doces palavras de que "as derrotas acumuladas são um triunfo que glorificará a pessoa no futuro" que farão do triunfalista uma pessoa admirável. Hitler também surgiu nesse "mar de derrotas" encaradas como se fossem "vitórias".
O "espiritismo" sofre uma grave e irrecuperável crise. Isso porque suas contradições estão sendo expostas como carne viva, como feridas que não se cicatrizam. Palestrantes "espíritas" continuam bajulando Allan Kardec e exaltando Chico Xavier sem perceber que já não convencem demais com essa atitude de confundir contradição com equilíbrio, acendendo velas a dois senhores opostos entre si.
"INDÚSTRIA DA BONDADE"
Lendo Kardec e depois lendo Xavier, observa-se que contradições sérias e extremas ocorrem. E Chico Xavier revela-se o inimigo interno da Doutrina Espírita, na medida em que ele acoberta todo esse rol de mistificações, que rebaixam o Espiritismo a um subproduto do Catolicismo medieval, com pretensas alegações de "amor" e "bondade".
Sob essa roupagem, Chico Xavier insere princípios da retrógrada Teologia do Sofrimento, de maneira explícita mas nunca oficialmente assumida pelos "espíritas". Mas é preocupante que os chiquistas tentem a todo momento reabilitar o mito desse farsante, desse estelionatário moral, que não cobrava dinheiro, mas cobrava outros preços severos à vida humana, como a conformação do sofrimento de quem sofre e o perdão que este deva ter aos mais abusivos e cruéis algozes.
Cria-se um exército de flagelados, resignados com suas desgraças, para que a "indústria da bondade" se faça, para transformar os privilegiados em "bonzinhos" ajudando os sofredores e infortunados que aguentam "qualquer parada".
A ideia é criar um teatrinho de "caridade" nos quais os sofredores têm sempre que fazer um papel de conformistas e resignados, de forma que os privilegiados possam investir no bom-mocismo, passando uma falsa impressão de que eles "são também generosos".
Por trás disso, valores moralistas retrógrados são preservados, porque a Teologia do Sofrimento sempre condena o questionamento, a contestação, a reclamação. E isso em si demonstra uma falta de humanismo.
Chico Xavier era desumano. Reprovava sempre o dom humano de questionar e reclamar, que na pré-história impulsionou a espécie humana a criar utensílios e desenvolver o Conhecimento. Desta forma, Chico Xavier expressou uma contradição grave em relação ao pensamento kardeciano.
Diante dessa contradição demolidora, continuarão os "espíritas" a se manterem triunfalistas com essa postura "dúbia" que insiste em persistir? Estão eles confiantes de que sua doutrina está acima de tudo, da lógica, da coerência, do bom senso e até da realidade?
quarta-feira, 1 de junho de 2016
O perigo de recuperar bases kardecianas sem descartar Chico Xavier e Divaldo Franco
É muito comum as pessoas que, no Brasil, discutem a deturpação da Doutrina Espírita, se sentirem melindrosas quando as críticas chegam aos dois astros do "movimento espírita": Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco.
Ainda apegadas à fabulosa reputação dos dois, associados a estereótipos ligados ao amor, bondade, caridade e humildade, Chico Xavier e Divaldo Franco ainda exercem uma "fascinação" (no sentido de um tipo de obsessão alertado pelo Espiritismo original) até mesmo em ateus e kardecianos autênticos.
Só isso para explicar que os questionamentos sempre "morrem" quando se chega a essas duas figuras, que seduzem os incautos diante de um aparato de "filantropia" e "generosidade". O que é um perigo muito sério, uma armadilha traiçoeira e sutil que pega qualquer um desprevenido.
Lendo os livros e artigos de Allan Kardec e os alertas de espíritos como Erasto, observa-se que eles avisaram, com toda a clareza possível, para as pessoas evitarem as armadilhas dos deturpadores da Doutrina Espírita, que fariam de tudo para obter a confiança absoluta de suas vítimas.
Com o máximo de clareza, identifica-se muitos aspectos que as pessoas no Brasil deixaram passar: os deturpadores manipulariam por textos rebuscados e prolixos e oratória empolada, falariam de coisas lindas e boas, dominariam as pessoas falando de amor, bondade e humildade, e sempre transmitiriam uma imagem agradável que dificultasse qualquer reação contrária a esses espíritos levianos.
Identifica-se dois tipos de obsessão que se tornam motores para a prevalência do "espiritismo" brasileiro em sua fase dúbia (que bajula Kardec mas pratica o igrejismo). A "fascinação", que consiste na pessoa ser seduzida pelo deturpador religioso através de uma porção de ideias e aspectos agradáveis, e a "subjugação", que é a submissão completa a esse deturpador.
As pessoas geralmente exercem "fascinação" por Chico Xavier e Divaldo Franco. Se entregam, com morbidez quase voluptuosa, às suas imagens de pretensos filantropos. Embora admitam que eles "entenderam mal" a Doutrina Espírita, sempre justificam a complacência pela desculpa da "bondade", da "filantropia" e da "humildade".
Chegam a dizer que os dois "ajudaram muita gente" sem dar argumentos convincentes. Acham que eles, pelo menos, "sempre foram grandes filantropos", ignorando o fato de que os locais de sua influência, Uberaba e o bairro de Pau da Lima, em Salvador, estão entre as áreas mais violentas no Brasil. Alguém tem coragem de circular por Uberaba ou Pau da Lima na penumbra da madrugada?
As instituições já seguem o processo de "subjugação". Ninguém investiga Divaldo Franco e, quando tenta investigar Chico Xavier, é só uma tarefa de fachada que só serve para fingir admitir uma polêmica e depois legitimar todas as farsas e mistificações do anti-médium.
Isso porque as classes de juristas, jornalistas e acadêmicos estão subordinadas à imagem "bondosa" associada aos dois anti-médiuns, e não conseguem sequer questionar se essa imagem não teria sido construída, se ela é falsa ou se mesmo aspectos verossímeis como a "caridade praticada" na Mansão do Caminho realmente trazem resultado ou não.
BASES FICAM IRRECUPERÁVEIS COM CHICO E DIVALDO
Para quem quer recuperar as bases doutrinárias do Espiritismo original, melhor seria esquecer e desprezar Chico e Divaldo, e admitir que eles, com toda a imagem "bondosa" que apresentam, são realmente os inimigos internos da Doutrina de Allan Kardec.
Aceitá-los a pretexto deles serem, "pelo menos, símbolos de amor e bondade", é legitimar a deturpação de uma forma ou de outra. Afinal, mau Espiritismo não se compensa com tais pretextos. Até porque bom-mocismo não compensa mau serviço. O amor não é cúmplice da desonestidade, ninguém mente para ajudar os desfavorecidos.
O grande perigo de aceitar Chico e Divaldo é que, no caso da recuperação das bases kardecianas, o processo se revela traiçoeiro, a aceitação torna-se uma armadilha que pode, sim, manter a deturpação através de algumas etapas:
1) Pressupondo que Chico Xavier e Divaldo Franco são "bondosos", dá se alguma credibilidade para os dois anti-médiuns.
2) Com isso, eles são creditados como "exemplos de caráter" e, por isso, adorados de uma forma quase incondicional pelas pessoas que querem recuperar as bases kardecianas.
3) Sendo "exemplos de caráter", eles passam a ganhar uma confiança plena que dá imunidade a ambos.
4) Em primeira instância, se admite que eles "entenderam mal" a Doutrina Espírita, mas pela imagem de "bondosos" que recebem, os questionadores são tentados a ler ou reler as obras lançadas pelos dois "médiuns".
5) Com isso, as pessoas são seduzidas pelas "mensagens lindas" que as obras trazem, passando a dar crédito nas obras deturpadoras como se fosse "uma abordagem diferente e atualizada".
6) Diante disso, à aceitação das "palavras de amor" se segue a "revisão de posições" na qual se "avalia" as ideias deturpadoras como se elas fossem "melhor" do que as do tempo de Kardec, afinal elas teriam sido publicadas décadas depois.
7) Com isso, a pessoa que queria recuperar as bases originais do pensamento kardeciano passa a legitimar visões deturpadoras, porque estas vêm de pessoas consideradas "bondosas" e "admiráveis".
Não existe meio-termo. A pessoa que acha que pode cultuar Chico e Divaldo porque eles são "bondosos" e não chegar perto de seus livros será tentada alguma vez a lê-los. A visão "imparcial" é apenas o começo de um caminho no qual os questionadores sempre escorregarão na rampa que a deturpação arruma para fazer seus opositores declinarem para o apoio do "movimento espírita".
É um processo traiçoeiro. Primeiro se diz que os deturpadores são "bondosos". Depois se dá confiança plena a eles. Em seguida, a curiosidade impele a leitura de suas obras. No fim, há a aceitação das ideias deturpadas e a invalidação das bases kardecianas, que se tornam irrecuperáveis.
Portanto, é essa armadilha que se arma e que já havia sido prevenida há mais de 150 anos. E o Brasil se recusa até hoje a ouvir tais advertências. Em vez de aceitar dez verdades, aceitou-se uma única mentira: a mentira igrejeira de Chico Xavier e seu discípulo Divaldo Franco.
segunda-feira, 30 de maio de 2016
A complacência com o escândalo
O Brasil está sendo bombardeado por denúncias de escândalos envolvendo o governo interino do presidente Michel Temer e as diversas forças políticas, sociais e midiáticas que o apoiam. Gravações divulgadas pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, divulgaram vários desses incidentes.
Em resumo, os incidentes mostram que o impeachment da presidenta Dilma Rousseff nunca passou de um ato negociado por políticos suspeitos de participação do esquema de corrupção e que viam na medida do impedimento político da chefe do Executivo federal e sua substituição pelo vice, já convertido no traidor da antiga titular, uma forma de barrar o avanço da Operação Lava-Jato.
Os escândalos mostram que houve uma articulação entre a grande imprensa, os movimentos juvenis e políticos da oposição conservadora ao PT que investiram dinheiro para a campanha do impeachment. Consta-se que o dinheiro que acusam faltar no Brasil por causa da crise é a grana que eles roubaram para si, sobretudo nos últimos três anos.
Rede Globo, Folha de São Paulo, PSDB, PMDB e Movimento Brasil Livre foram algumas das pessoas jurídicas citadas nas gravações entre os negociadores da expulsão de Dilma Rousseff visando proteger os corruptos mais perigosos. Aécio Neves, Eduardo Cunha, Otávio Frias Filho, Gabriel Chalita, José Serra e o próprio Michel Temer foram as pessoas físicas citadas.
Tudo escândalo atrás de escândalo. O PMDB de Michel Temer e Eduardo Cunha e o PSDB de José Serra e Aécio Neves financiando panfletos e pagando caravanas e passeatas anti-Dilma. Temer negociando cobertura jornalística na Rede Globo. Políticos indiciados pela Lava-Jato negociando formas de forçar a queda de Dilma Rousseff.
Vários envolvidos em corrupção foram designados ministros do governo Michel Temer para obterem foro privilegiado e serem poupados de investigações. Dilma Rousseff foi expulsa em função de votações de deputados e senadores envolvidos em crimes que vão de extração irregular de madeira das árvores até assassinato.
E O "ESPIRITISMO" BRASILEIRO?
A porção de escândalos é uma consequência da complacência das pessoas que, em nome do status quo, aceita que seus ídolos cometam escândalos gravíssimos e vergonhosos. sem perceber a gravidade desses atos.
A aceitação de um governo que, em menos de duas semanas, revela uma sucessão de grandes gafes e escândalos e cuja trajetória causa espanto nos jornalistas estrangeiros, que não praticam o panfletarismo irresponsável que se observa em veículos como a Rede Globo e a revista Veja, mostra o clima viciado que reina na sociedade brasileira.
O tratamento desigual que se dá a pessoas diferentes que fazem a mesma coisa, como um jovem pobre que furta uma bolsa, tratado com mais crueldade pela polícia do que um político que desvia para sua conta particular o dinheiro público que seria para uma escola, motiva essa complacência.
Quando o status quo protege encrenqueiros, que estão associados a estereótipos de valor tecnocrático, político, midiático, empresarial e religioso, as pessoas aceitam que determinados indivíduos cometam gafes preocupantes, crimes perversos, a mais pérfida corrupção e outros delitos graves.
Desde que tais delitos graves não afetem a imagem "admirável" que tais pessoas inspiram a esses setores complacentes da sociedade, até a impunidade é socialmente aceita, com Michel Temer seguindo "normalmente" o seu mandato num país em que um Guilherme de Pádua que matou uma atriz atrai seguidores em sua conta no Instagram.
No "espiritismo", a memória curta escondeu as irregularidades gravíssimas e os escândalos preocupantes que poderiam ter derrubado Francisco Cândido Xavier, mas não impediram os processos de transformá-lo no semi-deus que seus fanáticos seguidores querem que ele continue sendo.
Os fatos mostram que Chico Xavier cometeu vergonhosos plágios e pastiches literários, pregou um igrejismo retrógrado sob o verniz de "doutrina espírita" e fazia juízos de valor que contradiziam seus apelos para que "ninguém julgasse quem quer que fosse".
Chico Xavier foi um corrupto (praticar plágios e pastiches literários e atribuir autoria de mortos é um ato desonesto e, portanto, uma corrupção) que as conveniências políticas, empresariais e religiosas, com uma ajudinha da mídia (TV Tupi e Rede Globo), fizeram transformá-lo, tendenciosamente, num "simbolo máximo de amor e de bondade".
Até mesmo a "caridade" de Chico Xavier é muito, muito duvidosa. Primeiro, porque seus projetos assistenciais eram paliativos e nunca ajudaram de maneira ampla, profunda e definitiva as pessoas. Eram aquela "bondade" feita dentro dos clichês moralistas e paternalistas da religião, que "ajudam", mas de maneira limitada sem afetar o sistema de privilégios vigente.
Segundo, porque Chico teve também posturas ideológicas muitíssimo estranhas. Defendeu explicitamente a ditadura militar, já em sua cruel fase, num programa de televisão. Acusou vítimas do incêndio em um circo de Niterói de terem sido, em outras vidas, romanos sanguinários. Ficou irritado quando amigos de Jair Presente reclamavam de irregularidades nas supostas mensagens espirituais e definiu o ceticismo destes jovens de "bobagem da grossa".
Depois vem palestrante "espírita" em seu blogue falar em livros novos sobre Chico Xavier com as capas desses volumes aparecendo diante do céu azul, como se as obras tivessem sido escritas sob encomenda do "Alto". Puramente ridícula essa propaganda a respeito de Chico Xavier, em que se investem no aparato das "palavras de amor", "estórias lindas" e coisa parecida.
Retomando o tema dos escândalos, Chico Xavier passou por escândalos graves, muitos deles de sua direta responsabilidade, por se atrever a fazer pastiches literários sob o pretexto de serem "psicografias". É culpa de Chico Xavier, sim, de criar confusões e causar tanta indignação e revolta de pessoas que só queriam coerência e transparência e foram levianamente xingadas de "cruéis" só porque o fraudador era um ídolo religioso.
Chico Xavier ludibriou os brasileiros já leigos em literatura e, incapazes de ver diferença entre Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade, se revelaram menos capazes de perceber a diferença entre um fluente Humberto de Campos registrado em vida e um suposto "espírito Humberto de Campos" de escrita pesada, cansativa e deprimente.
Chico Xavier dividiu famílias quando divulgava mensagens atribuídas aos parentes mortos que claramente não tinham a ver com o estilo de escrita dos falecidos. Fazia pais brigarem com mães, primos com irmãos, filhos com pais, sogros com genros ou noras, porque uns se comoveram com o tom "amoroso" das mensagens e não conseguiam ver a irregularidade das mesmas, entorpecidos pela sedução das "palavras de amor".
Chico Xavier aprontou muito e de forma feia e irresponsável. E saiu impune dessa, sendo o exemplo máximo da impunidade social que volta e meia transforma estelionatários e assassinos de grande status sócio-econômico em "pessoas legais". Chico fez fraudes, pastiches e outras coisas retrógradas e tornou-se endeusado na posteridade. Divaldo Franco também fez das suas e segue o mesmo caminho para a divinização póstuma no futuro.
Daí que essas pessoas acabam merecendo o governo irregular de Michel Temer, que traz um projeto retrógrado para o Brasil e conta com uma equipe cheia de corruptos e incompetentes. Até parece que Michel Temer se inspirou em Chico Xavier para fazer o seu governo.
Ou talvez Aécio Neves e Eduardo Cunha (um forneceu a Temer as propostas eleitorais do PSDB de 2014 e outro, as "pautas-bombas" que propôs na Câmara dos Deputados) é que possam ter se inspirado no "bondoso médium" para criar esses programas de governo que praticamente farão o Brasil se atolar na Teologia do Sofrimento, ideologia tão defendida (mas de forma não-assumida) pelo "médium" mineiro.
Daí o preço dos brasileiros em usar o status quo político, econômico, empresarial, tecnocrático e, sobretudo, religioso, para acobertar escândalos e legitimar pessoas que não merecem legitimidade alguma. O progresso social fica para depois. Primeiro, os prejuízos, depois, nunca se sabe.
sábado, 28 de maio de 2016
A esperteza de Chico Xavier diante dos herdeiros de Humberto de Campos
Ficamos pasmos em ver o quanto determinados oportunistas conseguem obter a imunidade absoluta no Brasil, uma ilusão de impunidade plena e absoluta que se vale sobretudo pela complacência de multidões e o silêncio das leis.
É certo que Francisco Cândido Xavier tomou um violento choque ao retornar ao mundo espiritual, decepcionado com a recepção, ou melhor, com a falta de recepção que teve no além-túmulo, o que mostra o quanto as fantasias religiosas alimentam vaidades piores do que as de muitos aristocratas, que não obstante têm mais consciência de seus erros que muitos figurões sagrados do "espiritismo" brasileiro.
Mas, enquanto esteve na Terra, Chico Xavier se beneficiou de sua esperteza, ao lado da engenhosidade de seu mentor terreno, o presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, e, mais tarde, da cumplicidade das Organizações Globo, que deixaram a hostilidade ao "médium" de lado e passaram a vê-lo como um instrumento de manipulação religiosa.
As pessoas não conseguem perceber que são manipuladas pela Rede Globo. Se Chico Xavier é um mito considerado "intocável" por muitas pessoas, deve-se agradecer à Rede Globo. Não há como exaltar Chico Xavier e não exaltar a Rede Globo. Por conseguinte, não dá para exaltar Divaldo Franco se mantém uma postura adversa à Rede Globo.
Foi a Globo, por exemplo, que forneceu os paradigmas de "bondade" e "caridade" que conhecemos. A Globo tem a arte de mexer no inconsciente coletivo e influir até no inconsciente de parte dos seus detratores. A gíria "balada" é um exemplo. O fanatismo pelo futebol carioca e a adoção do clube espanhol Barcelona pelos torcedores brasileiros são outros exemplos.
As pessoas se comportam como se saíssem de uma sessão de hipnose. Saem sem ter a menor impressão de que foram hipnotizadas. E Chico Xavier foi um dos maiores ilusionistas do Brasil. Ele teria sido um fã de circos, do processo de hipnose, da leitura fria e do ilusionismo mágico.
A maior mágica que o ilusionista Chico Xavier fez foi seduzir as pessoas. Numa reportagem do jornal O Globo de 1935, quando ele era apenas um paranormal e a empresa de Roberto Marinho não tinha a posterior hostilidade ao "médium", este já demonstrava um semblante assustador, olhando de frente, com um semblante bastante pesado.
O esperto mineiro já demonstrava seus dons hipnóticos. Chico Xavier comia quieto na hora de atrair apoio da sociedade, e sua gradual esperteza, "turbinada" com os truques de marketing de Wantuil, e, mais tarde, com a necessidade da Rede Globo criar um ídolo religioso para amansar o povo que estava fulo da vida com a ditadura militar, o fez ser visto como um quase Deus pelos brasileiros.
Um exemplo da esperteza de Chico Xavier tem como vítimas os herdeiros de Humberto de Campos. Chico não havia gostado dos comentários do autor maranhense sobre Parnaso de Além-Túmulo, uma resenha dividida em duas partes no qual o "reconhecimento" de Humberto da suposta veracidade psicográfica soa uma leve ironia.
Em vez de Humberto glorificar Chico Xavier pelo seu feito, o autor de O Brasil Anedótico reclamou da concorrência que seriam as obras atribuídas aos autores do além-túmulo em relação à obra produzida pelos vivos. A resenha de duas partes foi publicada em 1932.
Dois anos depois, o próprio Humberto ficou seriamente doente. Parecia envelhecido, mas tinha só 48 anos de idade. Faleceu em 1934 e foi aí que Chico Xavier começou a pensar num meio de reagir àquela resenha que ele não gostou.
Chico então inventou um sonho, cuja narrativa é completamente tola de tão simplória. Foi em 1935, em conversa com um amigo. Chico narrou um suposto sonho no qual o "médium" via uma multidão e, dela, saiu o escritor, que teria perguntado ao mineiro: "Você é o menino do Parnaso? Prazer! Sou Humberto de Campos".
É ilustrativo que Chico Xavier usava sonhos para tentar convencer as pessoas de supostas missões em sua vida. Em 1986, ele teria dito a Geraldo Lemos Neto um sonho de 1969 sobre uma suposta reunião de espíritos governantes (?!) do Sistema Solar, incluindo Jesus Cristo, preocupados com a ameaça de uma Terceira Guerra Mundial. Este sonho deu origem à suposta profecia da "data-limite".
Chico Xavier resolveu desenvolver um Humberto de Campos diferente do original. Com a ajuda de Antônio Wantuil e outros colaboradores da equipe editorial da FEB, eles escreveram as obras que levavam o nome do autor maranhense com um estilo bastante diferente do deixado em vida.
Se o Humberto de Campos que esteve entre nós tinha uma prosa fluente, culta mas acessível, com narrativa dinâmica e quase cinematográfica e um texto quase sempre descontraído, o suposto espírito tinha uma prosa muito pesada, pretensamente erudita e empolada, mas com sérios vícios de linguagem (há muitos cacófatos, por exemplo, como "que cada" e "chama Maria"), uma narrativa cansativa e um texto deprimente e melancólico.
Mesmo que o espírito Humberto tivesse se entristecido muito com a morte prematura, ele nunca escreveria do jeito que se atribui nos livros lançados por Chico Xavier. Está muito claro que Humberto não escreveu esses textos, que em muitos momentos revelam não só o estilo pessoal do "médium" (mesclado com os estilos prováveis de seus parceiros, como Wantuil), mas também defendia posturas pessoais de Chico, como a Teologia do Sofrimento.
Até hoje ninguém oficialmente veio declarar que Chico Xavier era o defensor da Teologia do Sofrimento, tal qual se faz, no exterior, sobre Madre Teresa de Calcutá. É até curioso isso, porque Chico e Madre Teresa, tão comparados um com o outro em coisas boas, não recebem essa comparação quando se trata de aspectos sombrios como este.
A disparidade de estilo tornou-se evidente. Tão evidente que veio então um processo movido pelos herdeiros de Humberto, a viúva, Dona Catarina Vergolina e os filhos, Henrique e Humberto. A irmã dos dois rapazes, Maria de Lourdes, apenas apoiou o processo, mas não se envolveu nele.
O processo colocou Chico Xavier e a FEB no banco dos réus, e foi um dos episódios que, recentemente, causam a choradeira dos "espíritas", sempre afeitos a promover o coitadismo em torno do "médium", transformado num falso Cristo a se promover às custas da oposição alheia, criando um sentimento perigoso chamado "triunfalismo", uma espécie de arrogância na qual uma pessoa se sente vitoriosa pelas derrotas que sofreu.
E aí, vemos o que deu no meio jurídico. O aspecto do direito autoral de uma obra psicográfica era um tema desconhecido dos juristas brasileiros em 1944. Neste sentido, o caso Humberto de Campos, muito noticiado na época, abriu precedente para futuras análises. Mas se a Justiça de hoje é muito falha, tomada por gente parcial como Sérgio Moro e delinquentes como Gilmar Mendes, imagine então sete décadas atrás!
ARMADILHA DAS "MENSAGENS DE AMOR"
O caso deu num empate. Até Humberto de Campos Filho admitiu isso. Mas, como se observa em certos campeonatos esportivos, em que um empate faz de um time em vantagem um vencedor, Chico Xavier saiu em vantagem. A esperteza dele, espírito traiçoeiro que em seus 92 anos de vida trabalhou sua vaidade como ídolo religioso absoluto, viu no caso de 1944 um impulso para seus interesses pessoais.
Imagine alguém que era um mero caipira, funcionário público, católico conservador com dons paranormais, figura sem a menor importância e que, naturalmente, só seria lembrada hoje como um verbete do Guia dos Curiosos ou de alguma enciclopédia de fatos pitorescos, que passou a ser visto como um quase Deus, tornando-se oficialmente uma unanimidade nacional.
Tudo isso foi ideologicamente construído. Como um enredo de novela da TV. É assustador que os brasileiros costumam raciocinar a realidade como se fosse um episódio de novela, e lágrimas são derramadas à toa com a piegas e inconsistente ideia de um "médium" supostamente perseguido, dramaticamente atacado por críticos e analistas vistos como "vilões cruéis".
Pouco importa se a lógica e a coerência estão do lado de críticos literários sérios e competentes, que com muita razão e conhecimento de causa questionam a veracidade de supostas psicografias atribuídas a autores literários. A infantilidade dos adeptos de Chico Xavier insiste em ver nessas críticas atos de perversidade e perseguição a um "homem de bem".
Aí vemos posturas desiguais em relação ao Primeiro Mundo, curiosamente "condenado" pela suposta profecia da "data-limite". O Primeiro Mundo condenaria sem hesitação pretensas psicografias desse tipo, que abertamente contrariam os estilos originais dos autores alegados. Não havia desculpa de "bondade", "mensagens de amor" ou coisa parecida que salvasse a credibilidade dessas obras.
Aqui é que prevalece uma postura condescendente. Aqui é que a ideia de lógica e coerência é atacada pelo juízo de valor dos deslumbrados da fé religiosa. A armadilha das "mensagens de amor", por mais que sustentem graves mentiras e fraudes, faz prevalecer o místico e o fantasioso sobre o real e o lógico, pouco importando se o açúcar das palavras tempere o veneno das mistificações traiçoeiras.
A MÃE DE HUMBERTO ESTAVA "NO PAPO"
E aí o que se viu, no caso de Chico Xavier? Ele já tinha "no papo" a mãe do autor maranhense, Ana de Campos Veras, que, tomada de sentimentalismo, foi seduzida pela aura de "bondade" e "afeição" pela esperteza do "médium".
Sem verificar os aspectos das supostas psicografias, até porque nem sempre familiares se tornam especialistas dos entes queridos falecidos, Ana ainda mandou uma foto do filho acrescida da seguinte mensagem: "Ao prezado sr. Francisco Xavier, dedicado intérprete espiritual do meu saudoso Humberto, ofereço com muito afeto esta fotografia como prova de amizade e gratidão".
Depois, em 1957, Chico Xavier armou uma estratégia ao saber, previamente, que Humberto de Campos Filho iria visitá-lo. Humberto, por curiosidade, já estava frequentando "centros espíritas" e, como figura de televisão, tinha amigos que aderiram ao "espiritismo" brasileiro.
Chico já estava colaborando com um "centro espírita" em Uberaba, a Comunhão Espírita Cristã, bem antes de se instalar definitivamente na cidade onde ele visitava muito há um bom tempo. Era parceiro de um jovem "médium" de lá, Waldo Vieira, desde que este era ainda muito jovem.
Há indícios de que Waldo, fã de revistas de ficção científica, tenha dado sugestões para Chico rechear Nosso Lar de feições "futuristas", até para diferir do evidente plágio do livro do inglês George Vale Owen, A Vida Além do Véu (The Life Beyond the Veil), livro aliás já publicado no Brasil pela FEB. André Luiz teria ganho traços mais definidos pela imaginação do menino-prodígio Waldo.
E aí houve todo um teatro. Humberto de Campos Filho, o sujeito que ligeira mas firmemente dizia que as obras "psicográficas" nunca teriam escrito pelo pai, foi chamado pelo "médium" que comandava a doutrinária.
Aí os dois se abraçaram chorando (sempre as lágrimas!) e Chico foi logo apresentar as atividades "filantrópicas" - a tal "revolução da sopinha", com cozinheiras preparando a "sopa dos pobres" num galpão aberto nas laterais - e, depois, apresentar um velhinho humilde que estava triste e, após receber um sussurro de Chico Xavier, passou a sorrir. Humberto Filho caiu na mesma armadilha que sua avó.
Muito simplório. E mostra o quanto Chico Xavier era esperto. Essa ocorrência de sedução de Humberto de Campos Filho, atraindo a confiança dele, ocorreu um ano antes do sobrinho de Chico denunciar as fraudes do tio e foi vítima de uma estranha campanha que resultou em tragédia.
Só no Brasil que, recentemente, condena Lula e Dilma Rousseff sem comprovação de crime e transforma os dois nas poucas pessoas que podem ser caluniadas, pode-se deixar passar em branco o caso de Amauri Xavier, vítima de calúnia e difamação de parte de quem justamente diz reprovar todo tipo de ato neste sentido.
Foi Amauri anunciar que iria denunciar todas as irregularidades do tio e outros figurões "espíritas". que depois inventaram coisas absurdas sobre ele, além de humilhações pesadas trazidas por escritores "espíritas" tomados de um aparentemente inconcebível surto de ódio e de rancor.
Amauri era acusado até de ser falsificador de dinheiro, só faltando acusá-lo de ter atirado a bomba atômica em Hiroshima e Nagazaki. E, com um vício limitado ao consumo de álcool - não havia indícios que ele consumisse entorpecentes ou remédios fortes de prescrição médica - , Amauri teria falecido aos 27 anos, idade estranha para um mero vício alcoólico, já que os alcoolistas tendem a morrer geralmente na virada dos 30 para os 40 anos. Teria sido Amauri envenenado por alguém?
Chico Xavier acabou aceitando a perda do sobrinho. Mas, neste caso, ele acabou consentindo com os algozes do rapaz. Uma grande crueldade entre muitas, nunca devidamente assumidas, do "iluminado médium". Mas também o esperto paranormal de Pedro Leopoldo, forçado a arrumar as malas para Uberaba, onde viveu o resto de seus dias, já tinha um país sob seu controle.
E a mãe e o filho de Humberto de Campos já foram conquistados "no papo". E assim Humberto de Campos foi o primeiro escritor cuja apropriação indébita de seu nome e prestígio foi não só consentida mas estimulada e aceita até hoje. Com todas as comprovações de que Humberto nunca teria escrito tais obras "espirituais".
quinta-feira, 26 de maio de 2016
O governo de Michel Temer e a histeria das zonas de conforto
Não é segredo algum que o Brasil é um país bastante conservador. A histeria de uma boa parcela da sociedade em querer a saída, "na marra" e sem um motivo preciso e consistente, da presidenta Dilma Rousseff do poder, revela esse reacionarismo que se esconde até em pessoas que parecem modernas, como se observa nas mídias sociais na Internet.
A revolta das zonas de conforto das pessoas com algum privilégio, por menor que seja, permitiu que o insosso Michel Temer tomasse posse como presidente interino, embora com fome, mas sem qualquer apetite, de concluir o mandato em 2018 como efetivo.
Temer mostrou um ministério e um projeto político comparáveis ao dos tempos da "distenção" do governo do general Ernesto Geisel, já que foi um retrocesso em relação aos vários avanços ocorridos desde que o também general João Baptista Figueiredo preparava o caminho para a redemocratização.
Usando como pretexto a recuperação econômica, o governo Michel Temer cometeu diversos retrocessos sociais. Diante da repercussão negativa de muitas medidas, ele tenta reparar alguns males extremos, como dotar a equipe ministerial só de homens, mas dando às mulheres a solução paliativa dos cargos do segundo escalão. Mas não é a mesma coisa.
Nas mídias sociais, nota-se a histeria anti-petista que vê marxismo em tudo, vindo de direitistas que nunca leram os livros de Karl Marx. As pessoas são tomadas da mania de julgar o mundo de acordo com suas convicções pessoais, com argumentos "racionais", como se o cérebro estivesse sempre a serviço do umbigo.
E isso não é um hábito exclusivo da direita, embora lhe fosse o mais típico. A ideia de ver o "funk" como "progressista" é um vício de setores da esquerda. Direita e esquerda também erram, no plano religioso, ao ver a ideia de "bondade" como um subproduto da fé religiosa.
Hoje as zonas de conforto estão em risco, como um edifício que apresenta rachaduras, anunciando um desabamento futuro. As pessoas procuram acreditar no "balança mas não cai" dos seus valores retrógrados que nunca desaparecem, das convicções pessoais equivocadas que nunca se desqualificam e sempre encontram meios de apresentar justificativas "racionais" aqui e ali.
Relações hierárquicas, medidas paliativas, privilégios sociais acomodados, tudo isso está em risco e, em parte, está protegido pelo conservadorismo político do impopular Temer. Há um desespero das pessoas em se apegarem a uma rotina "perfeitamente imperfeita" vigente nos últimos 40 anos, mesmo com o perecimento avançado de muitos paradigmas.
Só que a crise tende a aumentar, o que se comprova com os protestos que Michel Temer está sofrendo do povo brasileiro e a repercussão negativa que seu governo tem no exterior. O pânico de muitos brasileiros, os que pensam o mundo com seus umbigos, em ver o exterior contestando o que suas zonas de conforto definem como sagrado, é evidente.
E isso é assustador, porque a paranoia está transformando a imprensa antes especializada em alguma coisa num antro de reacionários cometendo gafes e transmitindo desinformação. Está transformando os internautas em pessoas convictas de sua burrice, que tentam proteger com argumentos falsamente inteligentes.
Essa crise se acentuará, o que, em 2019, irá derrubar de vez a tese do "coração do mundo" dita por Francisco Cândido Xavier, ele mesmo uma expressão das zonas de conforto de seus seguidores. Ele, Chico Xavier, o símbolo desse apego passadista a uma "república velha" parcialmente democrática, mas sempre garantidora de privilégios de poder e da prevalência de paradigmas retrógrados que só atendem a interesses imediatistas de uns poucos.
terça-feira, 24 de maio de 2016
O caso Ana Hickman e o caos da vida amorosa no Brasil
No último fim de semana, um jovem fanático pela apresentadora Ana Hickman, da Rede Record, invadiu um hotel em Belo Horizonte, onde ela estava para divulgar um dos produtos que levam o seu nome e quase provocou uma tragédia, tendo que sofrer a dele, lembrando a frase de Allan Kardec: "melhor que caia um do que caiam várias pessoas".
O jovem, Rodrigo de Pádua, de 30 anos, sentia paixão doentia pela apresentadora, que é casada com seu agente, o empresário Alexandre Correa, e tem um filho do mesmo nome do marido. Rodrigo ignorava essa condição e escrevia frases ensandecidas que se queixavam da "paixão não-correspondida".
Ele havia chegado ao hotel na tarde do último dia 21 e, entrou no quarto da apresentadora, que estava com o cunhado, Gustavo Correa, e a concunhada e assessora, Giovana Oliveira, esposa de Gustavo. Ele teria rendido Gustavo primeiro, obrigando-o a dirigir-se ao quarto, e depois obrigou ele, Ana e Giovana a ficarem de costas.
Rodrigo então deu dois tiros que acertaram Giovana, que saiu ferida sem gravidade. Gustavo sentiu que poderia reagir e avançou sobre Rodrigo, Houve luta corporal e, na tentativa de desarmar Rodrigo, Gustavo o baleou, causando sua morte. Depois disso, Gustavo desceu até a recepção do hotel para entregar a arma.
O Brasil vive uma situação dramática no que se diz à carência amorosa e aos modelos ideológicos de machismo e emancipação feminina. Neste caso, o mal não está no casamento de Ana Hickman, que expressa com o marido uma relação de cumplicidade que se amplia na cooperação familiar, já que o cunhado Gustavo é da equipe que cuida da carreira dela, mas em outros aspectos bastante delicados vindos de uma sociedade ainda dominada por valores machistas.
Rodrigo personifica aquela teimosia doentia de homens que querem que mulheres se sujeitem a seus desejos e vontades. Seria um feminicida em potencial, já que estava indignado com a "indiferença" de Ana (ora, ela nem sabia que ele existia; ele teria sido um anônimo fã, como muitos), e eventualmente um feminicida que atingiria a esposa de outro, como Guilherme de Pádua, que assassinou a colega Daniella Perez em 1992, esposa de outro ator, Raul Gazolla.
SOCIEDADE MACHISTA
É um dado surreal homens que se acham no direito de vida e morte de suas mulheres, mas ignoram a própria tragédia. Um país com medo de encarar óbitos de feminicidas e cuja imprensa conservadora também tem receio de noticiar tais óbitos. Imagine o ex-promotor de Atibaia, Igor Ferreira, que mandou matar a esposa grávida, morrer de infarto em casa. E Doca Street morrendo no hospital, provavelmente derrotado pelo câncer. Mas suas vítimas morreram com menos idade que eles.
É um machismo que mata e se recusa a morrer, que pela fúria recorre ao revólver, à faca e outras armas, mas tem um medo enorme de encarar tumores malignos, ataques cardíacos ou acidentes de trânsito, causas potenciais dos feminicidas. Um machismo que, ideologicamente, tenta resistir simbolicamente nas restrições que tenta introduzir sutilmente na emancipação feminina.
Isso pega mais pesado nas mulheres solteiras, entregues a um processo de imbecilização cultural que inclui um gosto musical mais rasteiro, uma religiosidade exagerada e um apego a um entretenimento vazio de conteúdo e importância, sendo capachos do que a mídia dita para elas curtirem e apreciarem.
É certo que existe a regra da mulher inteligente e de personalidade distinta que precisa se vincular à imagem de um marido ou namorado, pouco importando se é uma relação de amor ou conveniência, uma liberdade de escolha ou um trampolim social. Simbolicamente, no contexto brasileiro, isso acaba sendo visto como um "filtro" para dificultar a frequência de mulheres emancipadas e solteiras como se observa em países como França e Bélgica.
A "MULHER IDEAL" E A "NÃO-IDEAL"
O grande problema não é exatamente a mulher se casar, mas a distribuição desigual de casadas e solteiras. A imagem da solteira é idiotizada pela grande mídia: ou é a fanática por noitadas, como as ex-integrantes do Big Brother Brasil, ou é a que aceita ser "coisificada" e ter seu corpo transformado numa mercadoria de consumo, como se nota em Solange Gomes, ex-musa da Banheira do Gugu Liberato, e a funqueira Renata Frisson, a Mulher Melão.
Mas há também, fora do âmbito recreativo, a imagem estereotipada as solteiras "recatadas", geralmente sem apelo sexual, que a grande mídia também trabalha sob o pretexto do "popular": moças infantilizadas que ouvem geralmente "pagode romântico", axé-music e "sertanejo", são de classe média baixa e, "encalhadas", seu único envolvimento com os homens é através da relação com os afilhados, que se equipara à amizade entre duas crianças.
A grande mídia não trabalha apenas a imagem da mulher ideal, como a das apresentadoras, atrizes, jornalistas de TV e modelos de passarela, dotadas de algum diferencial de personalidade, associadas ao charme e à beleza naturalmente deslumbrante, consideradas "mulheres ideais". Ela também trabalha o oposto, ao promover a degradação de outras mulheres que não têm o aprimoramento cultural das "ideais".
As mulheres "não-ideais" são geralmente submissas à mídia, não têm muito o que dizer por conta própria, e são empurradas a uma solteirice compulsória, combinada a uma baixa-auto estima forjada pela manipulação midiática, que as impele a apreciar os piores referenciais culturais ou estabelecer uma personalidade submissa às convenções sociais ou mesmo aos ditames machistas.
Não se vê uma mulher solteira, no Brasil, que se destaca por um gosto musical mais refinado. Rock alternativo? Só se virar cover de uma banda de "forró eletrônico". MPB mais sofisticada? Só se aparecer na trilha sonora de novela da Rede Globo.
Isso faz com que as mulheres consideradas "ideais" tenham um perfil cada vez mais raro. A mulher que apresenta um programa de TV de viagens que toca uma banda de rock melodioso que quase ninguém conhece não existe aos montes.
Em contrapartida, há genéricos de Solange Gomes em pelo menos uma dezena de subcelebridades que fazem o tipo da "morena fogosa" de personalidade um tanto atrapalhada e cuja única "tarefa" é mostrar o corpo como uma mercadoria em liquidação.
Mesmo quando há atrizes consideradas "solteiríssimas", o referencial delas é lamentável: o pastiche de música caipira de Chitãozinho & Xororó, o comercialismo pedante de Ivete Sangalo, o "funk carioca", o "pagode romântico", ou "qualquer som da moda".
Essas solteiras refletem um tipo de mulher que só vai ouvir Flávio Venturini, Maria Bethânia, Djavan e Elis Regina se a Rede Globo deixar. Medem o gosto por livros pelos listões de best sellers, nem que seja para consumir apenas auto-ajuda, títulos religiosos ou "livros para colorir". O gosto literário chega a ser bem mais rasteiro do que as misses que afirmavam só ler O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exùpery.
CONFUSÃO E DESIGUALDADE
A péssima aculturação das mulheres solteiras comuns, que se tornam até arrogantes nos seus referenciais culturais rasteiros - nas mídias sociais, há quem defenda essa "cultura" rasteira com muita convicção e fanatismo - , se comportando o contrário da "mulher ideal", menos pela obrigação de ter uma boa aparência, boa voz e bom vestuário do que pela imposição da mídia de serem "as piores possíveis".
Isso é tão certo que a chamada "ditadura da beleza" é a que mais pesa nas mulheres "não-ideais". Elas é que são induzidas a buscar a "estética ideal" mais do que as mulheres "ideais", mais espontâneas em suas qualidades.
Daí o fato de subcelebridades, funqueiras, axézeiras, mulheres-frutas, "miss bumbum", ring girls do UFC e similares terem apetite redobrado em plásticas faciais, uso de botox, apliques no cabelo e outros processos cosméticos e cirúrgicos que, em tese, são feitos para o aperfeiçoamento estético para competir com as mulheres "ideais".
Muitas mulheres comuns vão na onda. No meio do caminho, várias morrem fazendo tratamentos cirúrgicos ou cosméticos em clínicas de valor duvidoso, geralmente sem especialização nem higiene. Mas o aperfeiçoamento estético não reflete no aprimoramento cultural.
Também nem as causas modernas conseguem reverter a situação. Tantas dessas musas apelam para o apoio à causa LGBT, tentam adotar uma "atitude corajosa" em relação ao sexo, capricham na adesão às novidades tecnológicas, mas se atrapalham, sobretudo quando tentam forjar feminismo, confundindo-o com misandria (horror a homens).
Há uma grande confusão e isso reflete o pior legado do machismo às mulheres do contexto "mais popular": a precária educação escolar que atinge também a classe média e a péssima educação midiática que impõe os piores referenciais culturais, transformando seu público em capachos dos interesses midiáticos e do mercado. E a mulher solteira, no Brasil, é apenas uma das vítimas dessa verdadeira rede de intrigas do rádio, da TV e da imprensa escrita e digital.
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