quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Você aceita ser prejudicado por alguém de maior status?

OS SECRETÁRIOS ESTADUAL E MUNICIPAL DE TRANSPORTES DO RIO DE JANEIRO, CARLOS ROBERTO OSÓRIO E RAFAEL PICCIANI - Eles nunca andaram de ônibus e no entanto decidem pelo seu direito de ir e vir na ex-Cidade Maravilhosa.

Você acataria uma decisão de alguém porque ele tem diploma? Você o apoiaria porque ele é dotado da mais ampla visibilidade? Você daria razão a ele por causa de sua situação de poder? Você entregaria sua alma aos desígnios de alguém que se apoia numa imagem de bom-mocismo tramada pelos detentores do poder?

Se você imagina que as necessidades naturais que você possui na vida não têm valor e que você se entrega aos arbítrios de estranhos que se supõe dotados de algum status quo de âmbito acadêmico, político, mercadológico e midiático, então você está com um problema sério de auto-estima e está muito alienado, porque sua vida atua em função do que outros lhe impõem, e não pelo que você deseja de melhor para si.

No Sul e Sudeste, em particular no Estado do Rio de Janeiro, os retrocessos ocorrem porque o status quo virou determinante, por si só, para todo tipo de decisão. Daí os retrocessos violentos, que acontecem porque uma minoria de políticos, técnicos, empresários e promotores culturais assim quis.

As pessoas acabam se submetendo a arbítrios, retrocessos e transtornos diversos, muitos além da conta e acima do suportável, A qualidade de vida cai porque várias medidas nocivas foram vistas como "urgentes" por conta de algum suposto benefício, geralmente supérfluo, mas defendido até com certo radicalismo pelas pessoas por alguns motivos bastante óbvios.

Em primeiro lugar, é por causa de quem partiu tais decisões. Empresários, políticos, acadêmicos, promotores culturais e outros poderosos envolvidos são vistos como "sábios" em suas decisões que, no fundo, são equivocadas, desnecessárias e até mesmo prejudiciais, mas que o status quo define como "essenciais" porque "motivos de ordem técnica e financeira" foram levados em conta.

Em segundo, é por causa das promessas mirabolantes que falam em benefícios supérfluos, porém espetaculares. Se aceita um sistema de ônibus no Rio de Janeiro, que impôs pintura padronizada, dupla função do motorista-cobrador e trajetos reduzidos para forçar baldeação, em troca de espetaculares ônibus BRT que, depois, demonstraram ser pouco funcionais.

Alguém pensou uma vez na vida se os políticos que assumiram as secretarias de Transporte, como Alexandre Sansão, Carlos Roberto Osório e Rafael Picciani, andaram de ônibus na vida? Eles realmente viveram a realidade do passageiro de ônibus? Eles têm competência para decidir pelo transporte coletivo?

Os fatos comprovam que eles são incompetentes, mas suas decisões, de caráter arbitrário e antidemocrático, são aceitas confortavelmente porque eles combinam um status quo que envolve o poder político e o poder tecnocrático. Ninguém questiona coisa alguma, aceita-se porque atribui-se a eles uma habilidade e uma objetividade que não possuem.

Imagine se um flanelinha tiver diploma de doutorado e for tomado de mais plena visibilidade. Você entregaria a chave do carro a ele? Você daria o seu aparelho celular para ele cuidar, sem saber se ele poderá furtar?

O Rio de Janeiro decai completamente, seguindo o caminho de São Paulo nos anos 1990 e 2000, A crise se deu pela ilusão de que a aparente superioridade do status quo traria respostas positivas para a sociedade, o que não passou de uma fantasia.

Em São Paulo, políticos e jornalistas acabam decaindo pelas posições antissociais. O PSDB, apoiado por uma reputação tecnocrática, não conseguiu sequer garantir o abastecimento de água. A imprensa paulistana, apoiada por uma reputação de inteligência e conhecimento de causa, sucumbiu ao reacionarismo mais retrógrado e atrapalhado, o que faz com que veículos midiáticos que mantém colunistas deste nível comecem a sofrer prejuízos comerciais pela queda nas vendas.

A ilusão de que a modernidade se faz com a subordinação ao status quo, ignorando que muita gente se ascende através do clientelismo, do compadrio e das trocas de favores, sem ter competência alguma para uma causa que abraça, ainda intriga muitos brasileiros que vivem no Sul e Sudeste, sobretudo no Estado do Rio de Janeiro, crentes na superioridade dos poderosos e influentes.

Com isso, cria-se uma postura surreal que contamina a sociedade, das pessoas comuns aos produtores cinematográficos, dos executivos de televisão aos internautas das mídias sociais, que é a regra de se ficar calado para garantir o desenvolvimento econômico e a prosperidade social.

Daí a recusa de acadêmicos em investir nos candidatos a mestrado que apresentam algum questionamento mais arrojado. Daí a recusa de patrocinadores para quem pretende fazer filmes documentários mais contestadores. Daí, também, a trolagem que é feita por internautas violentos que são "cães de guarda" de valores estabelecidos, sejam modismos, decisões vigentes ou mesmo preconceitos sociais.

A submissão aos poderosos e influentes contamina a todos, e, no "movimento espírita", resulta nas aberrações que conhecemos, que é a chocante desonestidade doutrinária e intelectual de seus membros, que a todo custo tentam se proteger pela falsa reputação do pretenso bom-mocismo.

As fraudes constrangedoras causadas pelos anti-médiuns, que já são um equívoco por não assumirem a postura intermediária da mediunidade, mas se converterem em astros do espetáculo e centros das atenções, também são respaldadas pela pretensão de pseudo-sábios que possuem Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco, tidos como "filósofos" num país sem grandes filósofos.

O fanatismo e a complacência, que nos âmbitos considerados comuns geram atitudes como a trolagem na Internet, o boicote social dos próprios amigos e o boicote profissional sob o pretexto de afastar pessoas incômodas ao "sistema", no "espiritismo" se manifesta pela "fé raciocinada" que nada tem de racional, mas de cegamente emocional e, não raro, exaltada e irracional.

Daí que as pessoas que acreditam em alguém de maior status - a "elevação espiritual", por ser um status quo religioso e terreno, é apenas uma qualidade simbólica que se soma às da riqueza, do poder político, da fama e da tecnocracia, com todas suas paixões e vaidades - se prendem a sentimentos confusos de submissão, fanatismo, complacência e ignorância que pode gerar sérios danos.

Esses danos correspondem, sobretudo, aos prejuízos que as pessoas sofrem na vida, sem perceber, em todos os aspectos. Suas vidas se tornam cada vez mais miseráveis, ainda que não lhe falte dinheiro e bens, mas a qualidade de vida lhes foge aos poucos, já que a submissão costuma ter o preço das limitações de diversas naturezas.

Por isso é que a submissão a alguém com maior status, seja ele político, midiático, mercadológico, tecnocrático e até religioso pode gerar prejuízos, se a própria pessoa não for vigilante e questionadora a respeito do privilégio deste ou daquele poderoso ou influente. Acaba, a pessoa, se tornando escrava de sua baixa auto-estima, que a faz serva e subordinada do arbítrio dos poderosos e influentes.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Tragédia em Paris: mais "resgate coletivo"?


O que o "movimento espírita" vai dizer sobre os atentados em Paris, ocorridos na noite do último dia 13? Que foi o reflexo da decadência do "velho mundo"? Que foi um ato de intolerância religiosa que também apronta das suas contra os "misericordiosos espíritas"? Que foi um castigo sofrido pelas vítimas que morreram cumprindo "reajustes espirituais"?

O moralismo de uma doutrina que, com toda a bajulação em torno de Allan Kardec, praticamente boicota seu pensamento e só utiliza suas palavras (ou de Erasto, ou do Controle Universal do Ensino dos Espíritos) de maneira tendenciosa, é capaz de fazer julgamentos infundados, preocupado em fazer sua doutrina prevalecer no planeta, como um novo Império Bizantino.

Quanto as vítimas, será que elas serão mais um grupo de "culpados" pelo juízo de valor "espírita", que mesmo na sua ignorância completa sobre Ciência Espírita - quase não há a tão alegada e festejada mediunidade, 99% do que se atribui a essa prática é fraude, é "mentiunidade" - , tenta até fazer apostas sobre quem foi encarnação de quem.

Com a lista inicial de 129 mortos - até o fechamento do presente texto - , a tragédia foi uma das piores dos últimos tempos, e se tratam de pessoas de diversas procedências, algumas passeando nas ruas, outras que se alimentavam ou se divertiam no restaurante Le Carillon e na boate Le Bataclan (originalmente um teatro inaugurado em 1864), que era reduto de intelectuais parisienses.

É evidente que o episódio não simboliza o declínio do "velho mundo", mas a ascensão de um fundamentalismo religioso com práticas terroristas que pretende retroceder a humanidade aos padrões das crenças de seus militantes.

No entanto, a interpretação simplória dos "espíritas", que reduz a situação a um maniqueísmo entre o desamor de uns "pobres coitados" (os terroristas) e o sofrimento dos "deserdados da sorte" (os mortos e feridos), atribui às vítimas o cumprimento de um "pagamento" comum de pecados passados.

Quem é que teria coragem de dizer que os mortos pelos ataques teriam sido gauleses sanguinários, que colocavam hereges nos estádios para serem devorados por leões, ou jogavam eles nas praças para serem queimados pelo fogo, e por isso teriam sido castigados pela tragédia contemporânea?

Recentemente, um periódico "espírita" do Rio de Janeiro comparou os imigrantes que fugiam de áreas como a Síria - dominada pelo Estado Islâmico - em direção à Europa a supostos tiranos que voltavam aos territórios onde viviam durante o Império Romano. Atribuir negros em busca de exílio a antigos tiranos soou ofensivo e sugeriu uma visão racista por parte dos "espíritas".

Sem considerar individualidades, os "espíritas" acreditam que as pessoas podem sofrer tragédias em bloco. Como se seres humanos fossem coisas, o "espiritismo" brasileiro acredita que se pode cumprir punições por atacado, multidões pagando, a pretexto de um "resgate coletivo", por um suposto pecado comum, como um gado bovino recolhido para o abatedouro.

Além do mais, a preocupação sobre esse julgamento de valor leva em conta Paris, a capital da França, o berço do Espiritismo autêntico, a cidade que foi o campo de ação do lionês Allan Kardec. Vão julgar os franceses como se eles tivessem sido gauleses sanguinários, jacobinos violentos, bonapartistas belicosos, chauvinistas autoritários etc etc etc.

Faltam estudos sérios sobre mediunidade e vida espiritual e os "espíritas" brasileiros vivem brincando. Enquanto ilustres líderes fazem apostas sobre quem eles teriam sido - vaidades pessoais atribuem uma coleção de cientistas, artistas e religiosos como "encarnações passadas" - , eles supõem que diferentes pessoas de diferentes origens teriam sido romanos medievais com sede de sangue.

Isso desvia os debates em torno de políticas estratégicas de combate ao terrorismo, Desvia a questão pela complexidade política que contrapõe o Oriente Médio ao Ocidente. E isso acaba também prejudicando os próprios "espíritas" que, pelos seus juízos de valor e pela presunção de quem foi quem em outras vidas, acaba causando ofensas pessoais sérias.

Francisco Cândido Xavier, o "adorável" Chico Xavier de seus seguidores, foi julgar as pobres vítimas do incêndio em um circo em Niterói, supondo que todos teriam sido gauleses sanguinários, e só saiu impune porque era um grande protegido da Federação "Espírita" Brasileira e pelos grandes donos da imprensa e das emissoras de televisão.

Woyne Figner Sacchetin, no entanto, chegou a ser processado quando fez o mesmo com as vítimas do acidente da TAM, em São Paulo, no ano de 2007, o que fez uma parente de três vítimas processar o "médium" e médico por danos morais. Já dá para perceber que se não fosse a baixa instrução sócio-educativa e a falta de dinheiro para pagar advogados, os familiares das vítimas do circo teriam também processado Chico Xavier.

Daí a grande diferença de hoje, em que se discute mais as coisas na Internet. É claro que se vive uma ampla resistência ao pensamento crítico, com pessoas preferindo brincar no WhatsApp, ler livros e ver vídeos "divertidos" e "positivos" (embora não dê para entender por que muitos acham "positivo" idosas gordas escorregarem na borda de uma piscina).

A dúbia tendência do "espiritismo" de hoje, cujo roustanguismo enrustido tenta caprichar na bajulação em torno de Allan Kardec, não conseguirá responder de forma transparente o problema dos atentados em Paris. Eles envolvem uma complexidade de relações sociais, políticas e religiosas e, em certo sentido, a religião aparece como um dos vilões do episódio. Analisar tudo isso não é fácil.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O que faz muitos jovens serem grosseiros?

KIM KATAGUIRI, DO CONSERVADOR MOVIMENTO BRASIL LIVRE, É UM DOS MILITANTES DA NEURÓTICA DIREITA BRASILEIRA.

Qual a relação que têm os fanáticos torcedores de futebol carioca, os internautas que ficam endeusando siliconadas como Solange Gomes e Mulher Melão, ícones da hipersexualização do corpo feminino, e os "revoltados" que pedem a saída da presidenta Dilma Rousseff do Governo Federal na marra?

Simples. É o reflexo de uma juventude tomada de valores primários e que se apoia em valores conservadores que vão do machismo ao golpismo político ou da supervalorização do futebol como um lazer totalitário e escapista, um meio sutil de garantir o poder dos dirigentes esportivos junto à grande mídia.

A onda de reacionarismo juvenil existe desde a década de 1990, quando o conservador Fernando Collor - atualmente travestido num falso progressista - assumiu a Presidência da República. Jovens de classe média ou alta, usuários constantes de Internet, passaram a defender valores estabelecidos pela mídia, pela política e pelo mercado, para não dizer pelo moralismo mais retrógrado.

No entanto, essa onda se tornou ainda mais explícita nos últimos meses, quando vieram grupos defendendo valores dos mais negativos, envolvendo machismo, racismo, violência, desrespeito às leis, e tudo isso usando a desculpa de "desejar um Brasil livre" e "lutar contra a corrupção".

Alguns aperitivos já eram vistos há dez anos, quando internautas faziam trolagem para zelar por valores ditados pela grande mídia e pelo mercado, ensaiando a defesa de valores machistas considerando tabu falar mal das "mulheres-frutas", fenômeno de hipersexualização do corpo feminino lançado pela grande mídia através do "funk" (ritmo que poucos admitem ser um subproduto das Organizações Globo).

A ascensão de grupos reacionários como Revoltados On Line, Acorda Brasil e Movimento Brasil Livre, que a exemplo de organizações surgidas durante o governo João Goulart, chegam a ser financiadas por grandes empresas, é um sinal de alerta, ao lado de vários episódios recentes de profundo retrocesso social.

Comentários racistas eram feitos em série contra várias pessoas negras, e duas vítimas famosas foram atingidas: a jornalista Maria Júlia Coutinho, a Maju, e a atriz Taís Araújo. Passeatas pelo Fora Dilma exibiam clamores pedindo a volta da ditadura militar (agora denominada "intervenção militar").

A funqueira Renata Frisson, a Mulher Melão, tentou empastelar um toplessaço no Rio de Janeiro, manifestação de mulheres chamando a atenção para problemas femininos como o estupro e o câncer de mama, e desvirtuou o sentido original do protesto, com seu volumoso corpo siliconado e sua figura sensacionalista desviando as atenções dos jornalistas com o falso feminismo da "mulher-fruta".

Eduardo Cunha, inexpressivo político carioca que havia presidido a Telerj, era protegido e depois desafeto de Fernando Collor e se casou com a bela jornalista Cláudia Cruz, se ascendeu à vida política por meio de um surto moralista de cariocas satisfeitos ou resignados com as arbitrariedades locais do PMDB carioca.

Outro político mais votado pelos cariocas, o truculento Jair Bolsonaro, afeito a posições do mais retrógrado reacionarismo e tido como desordeiro até no Exército em que servia, recentemente foi recebido por um grupo de neo-nazistas enquanto desembarcava de seu avião num aeroporto de Recife.

Um desordeiro digital, já com ficha na polícia, está sendo investigado por possível envolvimento num blogue ofensivo à professora cearense Lola Aronovich, usando o nome dela para declarações que a blogueira, também militante feminista, em nenhum momento faria. O desordeiro já chegou a publicar um manual de estupro em um de seus blogues.

No Rio de Janeiro, o fanatismo de torcedores dos quatro principais times de futebol - Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo - chegam mesmo ao ponto de fazer assédio moral e usar a torcida pelo esporte como moeda para as relações sociais, discriminando as pessoas que declaram não se interessarem por essa modalidade. Pessoas que nunca torceram para qualquer um desses times sofrem preconceitos sociais ou são negativamente marcadas pelos cariocas.

A grosseria juvenil tornou-se um fenômeno preocupante porque mostra que pessoas que pareciam arrojadas e modernas se dedicam a ações retrógradas, em certos casos extremas, como os nazistas que compareceram para saudar Jair Bolsonaro.

Valores que vão da defesa extremada do consumismo, mesmo no entretenimento - o fanatismo do futebol e o endeusamento machista a mulheres siliconadas que "mostram demais" - até inclinações racistas e golpistas de toda forma, em que se inclui a defesa do livre comércio de armas e de organizações neo-medievais como o Imperial Klans, revelam o lado sombrio que atrapalha o progresso do Brasil.

A baixa popularidade do Partido dos Trabalhadores tornou-se um dos fatores dessa onda reacionária (queentre 2005 e 2007 chegou a forjar falso esquerdismo, com parte dos reacionários fingindo apoiarem o PT e outra o PSOL só para impressionar os amigos), que se revolta demais com o reformismo acanhado que os governos de Lula e Dilma Rousseff realizaram em 12 anos.

É um reformismo acanhado, que pouco fez para realizar as prometidas profundas reformas sociais, mas o suficiente para despertar a ira dos que viam o risco de perderem os privilégios e o poder de influência que haviam desenvolvido e consolidado nos anos 90 e começo dos anos 2000.

Muitos desses jovens zelam por valores que correspondem a contextos de poder diversos: o poder político, o poder midiático, a "mão invisível" do mercado, a grande indústria do entretenimento, as instituições moralistas que pregam valores de cunho machista ou racista etc.

Esses "cães de guarda" apenas usam um discurso "rebelde" para causas anti-rebeldes. E representam um perigo para a sociedade brasileira, sob diversos aspectos. Protegidos pela relativa pouca idade (quando muito, eles estão no começo dos 40 anos), eles personificam o que Renato Russo havia cantado em 1984, na música "A Dança", do primeiro LP de seu grupo Legião Urbana:

"Você é tão moderno / Se acha tão moderno / Mas é igual a seus pais / É só questão de idade / Passando dessa fase / Tanto fez e tanto faz".

Por enquanto, o verniz de modernidade que a juventude garante protege esses novos reacionários. Mas quando eles um dia se tornarem realmente "maduros", mostrarão o quanto soarão velhos e antiquados, sem a roupagem de rebeldia, juventude e modernidade que lhes mascara seus propósitos retrógrados.

domingo, 15 de novembro de 2015

Os atentados em Paris e a questão do "velho mundo"


Na noite da sexta-feira 13, de novembro de 2015, uma série de atentados ocorreram nos arredores de Paris, seja dentro de uma boate, seja no entorno de um estádio onde se realizava uma partida de futebol com a Seleção Francesa. A tragédia teve um saldo de 129 mortos e causou comoção mundial. Ela aconteceu cerca de dez meses após o atentado que matou, entre várias pessoas, 12 membros da equipe do periódico Charlie Hebdo, espécie de equivalente ao brasileiro O Pasquim.

O grupo jihadista Estado Islâmico anunciou sua autoria nos atos terroristas. O grupo tornou-se uma das maiores facções do chamado fundamentalismo islâmico, e seu potencial terrorista é dos mais violentos. O grupo tem como objetivo combater os valores da civilização, na busca, tanto saudosista quando desesperada, de retroceder a humanidade aos níveis das escrituras consideradas "sagradas" pelos jihadistas.

O problema da civilização e dos atentados terroristas é bastante complexa. No entanto, os "espíritas" não podem ver como a decadênca do Hemisfério Norte, como sugerem as supostas profecias de Francisco Cândido Xavier do sonho de 1969, que supunha que o "velho mundo" iria ser destruído, primeiro por atentados terroristas, segundo por catástrofes naturais.

Quem acompanha este blogue sabe que os relatos de Chico Xavier trazidos por Geraldo Lemos Neto, aparentemente não conhecidos na voz do próprio anti-médium, soam por demais ridículos. Acredita-se que Chico tenha dito realmente o sonho para Geraldo, e os dados conferem com o que Emmanuel teria descrito em A Caminho da Luz, livro de 1938, que haveria uma "reunião" entre os ditos "maiores líderes do universo", espíritos dos quais o único encarnado seria Chico Xavier.

A tragédia francesa, similar às ocorrentes nos EUA, Reino Unido e Espanha e o caso Charlie Hebdo, é apenas um reflexo do fundamentalismo religioso que sonha em ver um mundo regresso aos padrões primitivos da religiosidade do Oriente Médio. Não que os terroristas não se servissem de tecnologias atuais ou de utensílios modernos, mas o que lhes pesa é a volta à essência do que eles acreditam através das crenças obtidas nos livros "sagrados".

Portanto, é equivocado levar em conta a interpretação chiquista de que a tragédia seria uma "punição" contra os arbítrios antigos do "velho mundo", um "castigo" contra o histórico complexo de superioridade das antigas elites da Europa e Ásia. Não se trata de uma "queda do velho mundo" em detrimento do caminho a ser aberto para a ascensão da nação brasileira, mas um outro cenário.

Primeiro, porque o "velho mundo" ainda pode resolver seus problemas e sua longa experiência de tragédias e traumas diversos trouxe experiência para as autoridades poderem negociar o combate a esses problemas de ampla gravidade. Segundo, porque o Brasil é que está sofrendo uma séria crise, além da profunda decadência do Sul e Sudeste desenvolvidos, sobretudo o Estado do Rio de Janeiro, cidade tão vulnerável a atentados quanto Paris, Nova York ou Londres.

As próprias "previsões" de Chico Xavier, cheias de erros graves quanto a aspectos relativos à Sociologia, Geologia e História, são notórios. Supor que, numa hipótese de catástrofes naturais a atingir regiões como Califórnia (EUA) e Japão, o Chile ser poupado, é um erro, porque o país sul-americano seria também destruído na ocasião, até por completo, por fazer parte do Círculo de Fogo do Pacífico.

Por outro lado, supor que estadunidenses fossem migrar para a Região Norte, e não para o Sul e Sudeste que é sua tendência sociológica, também é equivocado. Da mesma forma que a ida dos eslavos para o Nordeste brasileiro, uma região considerada calorenta demais para esses povos.

Só esses aspectos desqualificam a "previsão" que comove tantos fanáticos por Chico Xavier, que rendeu livro e documentário, material demais que foi gasto para uma bobagem dessas. E não é a tragédia de Paris, como não foi a de Nova York em 2001, que simbolizará o declínio do "velho mundo", que poderá dar uma volta por cima mesmo em incidentes trágicos como este.

O que se observa é que o "velho mundo" não cabe no maniqueísmo fácil de Chico Xavier, que contrapõe "tiranos europeus e asiáticos" com a "alegre e fraterna nação brasileira". Europa e EUA vivem um conflito com o Oriente Médio, e não são necessariamente aliados em conflito, em que pese tiranos como Sadam Hussein e Osama Bin Laden terem surgido como colaboradores dos Estados Unidos.

A questão é muito mais complexa para que um suposto médium, em seu sonho comum de quem dorme, se ache na segurança de supor qualquer coisa de caráter geopolítico ou geológico. E se levarmos em conta que outra corrente chiquista, a de Ariston Teles, não legitima as "profecias" da "data-limite", a situação fica mais complexa.

Pior para os "espíritas" comentarem qualquer coisa sobre o trágico atentado de Paris. Mais uma tese maluca de "resgates coletivos" de antigos romanos reencarnados? Mais uma demonstração simplória de "falta de amor no coração"? Queda do "velho mundo" a abrir espaço para a ascensão brasileira?

Não. Simplesmente não. Misturar ciência política malfeita com pregações de moralismo religioso não dá certo. Daí a gafe que um periódico "espírita" fez quando acusou os imigrantes que fogem do Oriente Médio e outros países em guerra, em maioria negros e árabes, de terem sido "tiranos sanguinários" da antiga Europa.

Pegou mal o julgamento de valor de uma doutrina que pede para os outros não julgarem. A "data-limite" deixa muita gente na paciência-limite de aturar julgamentos precipitados e cruéis contra seus entes queridos.

sábado, 14 de novembro de 2015

PMDB carioca: suas mentiras e desculpas

EDUARDO CUNHA E EDUARDO PAES - Xarás e afins.

Mais um episódio veio à tona para manchar o PMDB carioca e desmascarar a ala fluminense do partido, já famosa pelo autoritarismo e pelo desrespeito às leis, deixando o Estado do Rio de Janeiro numa situação vexaminosa, com um acúmulo de tragédias e gafes acima de níveis aceitáveis para uma unidade federativa tida como referência de modernidade e progresso para o país.

Desta vez, é o secretário executivo de Coordenação de Governo da Prefeitura do Rio, Pedro Paulo Carvalho, cotado para suceder Eduardo Paes na administração municipal da outrora Cidade Maravilhosa, que vira notícia pelas denúncias de que ele teria agredido a ex-mulher, Alessandra Mendes Marcondes.

Como é de praxe, Pedro Paulo seguiu a cartilha dos políticos do PMDB carioca e seus técnicos associados, de Alexandre Sansão a Eduardo Cunha: dar desculpas. Pedro tentou usar frases de efeito para justificar seus erros: "Quem é que não exagera numa briga?", "Qualquer casal tem brigas".

A única coisa que o PMDB carioca sabe fazer é dar desculpas.
Se uma medida é arbitrária, seus responsáveis tentam dar justificativas de ordem técnica. Se é prejudicial ao povo, eles dizem que é necessário fazer sacrifícios. Se eles são acusados de burlar as leis, alegam que a lei está no seu lado. Se eles erram, dizem que "ninguém está isento de erros". E por aí vai.

No calor dos conflitos da Zona Norte e da Zona Sul, com as aristocracias pregando uma ação higienista para barrar suburbanos do acesso às praias da Zona Sul, mas também barrar pessoas trabalhadoras da Zona Norte que atuam na Zona Sul de pegarem um transporte direto e, portanto, mais rápido, o secretário municipal de Transportes, Rafael Picciani, impôs a redução de percursos de linhas que ligam as duas regiões e veio com uma série de desculpas.

Em primeiro lugar, Rafael - da família aliada do deputado Eduardo Cunha, aquele das "pautas-bombas" - mentiu quando disse que apenas 20% dos cariocas terá que usar baldeação. Segundo, ele tentou alegar que as mudanças que fizeram, por exemplo, linhas tradicionais como 415 Usina / Leblon, 455 Méier / Copacabana e 484 Olaria / Copacabana reduzirem seu percurso para a Candelária, no Centro, foram feitas para "racionalizar" o sistema.

O mais grave é que Rafael Picciani, que demonstra não ter qualquer vivência de ônibus (ele é um jovem rico que usa seu próprio carrão), vendo o sistema "de fora", disse que tais mudanças iriam "otimizar" o transporte, melhorar o trânsito (com menos ônibus e MUITO MAIS carros?) e que "facilitariam" a mobilidade urbana.

Como assim "facilitar"? Mobilidade urbana que obriga as pessoas a andarem mais, a pegar mais de um ônibus e que dificulta, com a pintura padronizada, as pessoas de identificarem com rapidez a emresa de ônibus que vão pegar?

As autoridades do PMDB carioca - orientação que, no entanto, contagiam até o prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, um petista com "QI de PMDB" conhecido pejorativamente como "chinelo do Pezão" (em alusão ao governador fluminense) - tentam argumentar de toda forma. São arrumadores de desculpas. Tentam minimizar suas falhas graves e fazer crer que são capazes de grandes realizações, que estudam propostas, que agem em benefício da população e nada fazem de essencial para isso.

Se eles derrubaram o Viaduto da Perimetral, numa iniciativa bastante controversa mas benéfica - a ponte "escondia" a Av. Rodrigues Alves e seu entorno, fazendo a área se tornar perigosa até de dia - , foi porque eles tiveram que realizar uma dívida antiga, já que a ponte foi resultante de um projeto urbanístico desastrado, que piorou quando o fluxo de veículos tornou-se ainda maior.

Fora isso, nem mesmo a Praia de Rocha Miranda do Parque Madureira pode ser considerada como benéfica, porque é uma "concessão" às necessidades de lazer da população suburbana que, no entanto, revela um caráter tendencioso, apenas para apaziguar a revolta do povo da Zona Norte que perdeu o acesso direto por ônibus para a Zona Sul e Barra da Tijuca, sendo obrigada a pegar mais de um ônibus e pagar mais de uma tarifa.

Só que a "maravilhosa praia", cuja inauguração contou com um oportunista Eduardo Paes tomando banho de "chuveirão" com os suburbanos, não é mais do que uma pequena piscina com areia, um pequeno balneário que não tem a imponência natural das praias cariocas, mas também não compensa em extensão e opções de lazer. É apenas um paliativo que nada resolve, até porque faltam hotéis, lojas e outras opções à altura do que se tem em Copacabana, Ipanema e Leblon. Até atrações musicais de ponta dificilmente tocariam no Parque Madureira. Rolling Stones? João Gilberto? Nem sonhando!

Até mesmo lojas de discos como a Satisfaction, localizada na Rua Francisco Sá, não existem em Madureira. Deveria haver uma loja do gênero, com vendedores que conhecessem música e vendessem discos de MPB autêntica, rock autêntico e jazz, priorizando nomes não comerciais e sem apelar para o patrocínio ridículo da canastrona Rádio Cidade, já que o patrocínio de rádios pseudo-roqueiras em muitos casos "queima" a imagem das lojas especializadas entre o público.

O PMDB carioca é todo Eduardo Cunha. Se Eduardo Cunha deixar a presidência da Câmara dos Deputados, ele continuará no Rio de Janeiro. Eduardo Cunha continhará sendo Eduardo Cunha através de Eduardo Paes, Sérgio Cabral Filho, Luiz Fernando Pezão, Alexandre Sansão, Carlos Roberto Osório, José Mariano Beltrame, Rodrigo Neves, Pedro Paulo Carvalho, Rafael Picciani e seu pai, Jorge Picciani, e irmão, Leonardo Picciani. Todos eles são Eduardo Cunha.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Trolagem revela falta de discernimento de internautas


A Justiça já revelou que são 70 os suspeitos de terem publicado ofensas à atriz Taís Araújo, no final do mês passado, no perfil dela no Facebook. Eles estão sob investigação e até comunidades em que eles participaram ou outros veículos de mídias sociais também estão no alvo dos investigadores.

O incidente expôs um problema muito antigo, que é o vandalismo digital, potencialmente reacionário, que é a atitude, individual ou grupal, de internautas reagirem contra valores e questionamentos que se opõem ao seu sistema de crenças e valores.

Em muitos aspectos, as campanhas que consistem sobretudo em processos "organizados" de difamação de determinados internautas expressa um profundo reacionarismo conservador, na medida em que os ofensores soam como "cães-de-guarda" do status quo, reagindo contra quem contesta modismos e iniciativas defendidas pelo poder do mercado, da mídia, da política, do entretenimento.

Dois sentidos norteiam esses desordeiros digitais. Um é a preocupação com a defesa do "estabelecido", principalmente em relação a coisas que parecem "novidades", como a gíria "balada" (símbolo da influência da grande mídia na manipulação do público juvenil) e a pintura padronizada nas empresas de ônibus do Rio de Janeiro, fora outras coisas.

Outro sentido é a falta de discernimento que eles têm, iludidos com a crença da impunidade e da segurança do anonimato, que os faz não apenas agir com imprudência, movidos pelos próprios impulsos, como também por pura burrice e falta de noção das consequências que seus atos podem causar.

Por exemplo, os ataques racistas acontecem sem que seus responsáveis tenham qualquer noção das punições que atos racistas (crime inafiancável) e injúrias raciais (que preveem punições mais brandas, como oito anos de detenção) preveem de acordo com a lei.

Outro caso é quando internautas fazem gozações contra homens que ficam solteiros por muito tempo, um ato de grande burrice, porque ficar solteiro é a coisa mais fácil do mundo e, geralmente, namorada de quem humilha os outros não costuma ter "sangue de barata" para aceitar que seu companheiro perca tempo com tanta futilidade. Se ela o vir agindo assim, ela termina a relação e o "zoeiro" fica tão "encalhado" quanto sua vítima.

A arrogância sem limites e a ilusão de que o troleiro pode reagir a qualquer adversidade com gozações e ironias, seja nas mídias sociais, seja através de blogues ofensivos, o faz se sentir certo de que, para cada contrariedade que enfrentar, basta ele usar seu senso de humor grosseiro e suas declarações para tentar fazer os outros crerem que ele está a prova de qualquer encrenca.

Geralmente eles têm um apreço cego ao status quo. Aliás, vários desses desordeiros digitais estão a serviço de governos, órgãos de imprensa, redações jornalísticas, fãs-clubes, emissoras de rádio etc. Estão a serviço de "peixes grandes". Não é coincidência que um jornalista como Reinaldo Azevedo, da Veja, escreva como se fosse um troll. Ele só difere por não se disfarçar de "cidadão comum", já que o contexto lhe permite usar sua identidade real.

Só que eles vivem num mundo em que eles são tiranos fanfarrões, sádicos humoristas que fazem ofensas gratuitas, pessoas que parecem inatingíveis, invulneráveis. E se acham com o apoio solidário de muita gente, pois acreditam que as vítimas é que são impopulares, protegidas por uns poucos infelizes, como acontecia nas humilhações do bullying nas escolas.

Nos ambientes escolares, valentões se valiam da relativa popularidade que exerciam nas turmas para humilhar de pessoas que não correspondiam aos padrões sociais dominantes. As ocorrências, durante muito tempo, eram impunemente vistas e até apoiadas, mesmo por pessoas aparentemente de bem, que acreditavam que o valentão só queria "brincar um pouco".

A coisa mudou quando as humilhações escolares passaram a mostrar, nos EUA, um cenário sombrio de chacinas e suicídios, que renderam até mesmo produções como o documentário Tiros em Columbine (Bowling for Columbine), feito em 2002 pelo cineasta Michael Moore. Foi a partir de tais episódios que surgiu o termo bullying, sem termo equivalente em português do Brasil.

A partir daí, as humilhações infanto-juvenis e similares deixaram de serem vistas como brincadeiras descontraídas, e começaram a mostrar os preconceitos existentes por trás desses ataques. Defesa de valores trazidos por instituições dominantes, seja a Prefeitura do Rio de Janeiro ou a Rede Globo de Televisão, ou considerados "bem sucedidos" pelo mercado e pela indústria do entretenimento, são exemplos típicos.

Dessa forma, os troleiros são os ditadores em potencial. Hoje eles humilham internautas que não se conformam com as arbitrariedades do "estabelecido". Amanhã, os troleiros serão empresários que farão demissão em massa ou governantes que reprimirão passeatas de trabalhadores com bombas de gás lacrimogêneo, para não dizer com tiros de fuzil.

Daí ser importante verificarmos e combatermos as humilhações existentes na Internet, como no caso dos ataques racistas contra Taís Araújo ou a criação de um blogue ofensivo contra Lola Aronovich, como forma de prevenir um futuro pior.

Se deixarmos a parcela dessa juventude desordeira se ascender no poder, acreditando no seu "humor irreverente", teremos nos altos escalões da sociedade e do poder pessoas bem piores do que Eduardo Cunha, a imporem decisões à revelia da lei, da ética e, sobretudo, do respeito ao outro.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

"Centros espíritas" e a questão 233 de O Livro dos Médiuns

OS PROCESSOS MEDIÚNICOS DO "ESPIRITISMO" BRASILEIRO COSTUMAM SER ABORDADOS COMO AMBIENTES DE PURA SISUDEZ.

Um dos dogmas do "movimento espírita" é acreditar que a "perfeição moral" se expressa necessariamente num ambiente de muita sisudez. A ideia de uma colônia espiritual, como a de Nosso Lar, conforme mostra não só o filme, mas outras abordagens "espíritas" conhecidas, marcada por uma rígida polidez comportamental, traz um aparato de profunda seriedade e formalismo.

No entanto, a extrema formalidade do comportamento, a seriedade de gestos, de uma combinação de rostos carrancudos mas dotados de aparente serenidade, no contexto em que se encontra o "espiritismo" brasileiro não a tornam imunes à ação de espíritos brincalhões que, entendendo o clima, também fazem suas poses de "muita seriedade".

Allan Kardec, em O Livro dos Médiuns (tradução de José Herculano Pires), havia alertado, na questão 233, que integra a Parte 2, "Das Manifestações Espíritas", no seu capítulo 21, "Influência do Meio", sobre o cuidado que se deve ter até mesmo em reuniões tidas como mediúnicas que pareçam extremamente sérias.

233. A seriedade de uma reunião, entretanto, não é sempre suficiente para haver comunicações elevadas. Há pessoas que nunca riem, mas nem por isso têm o coração mais puro. Ora, é acima de tudo o coração que atrai os Espíritos bons. Nenhuma condição moral impede as comunicações espíritas, mas se estamos em más condições nos entretemos com os que se nos assemelham, que não perdem a ocasião de nos enganar e quase sempre estimulam os nossos preconceitos.

Vemos assim a enorme influência do meio sobre a natureza das manifestações inteligentes. Mas essa influência não se exerce como pretendiam algumas pessoas, quando ainda não se conhecia como hoje o mundo dos Espíritos, e antes que as experiências mais decisivas tivessem esclarecido as dúvidas. Quando as comunicações concordam com a maneira de ver dos assistentes, não é que as suas opiniões se tenham refletido no Espírito do médium como num espelho, mas que os Espíritos simpáticos a estes, para o bem ou para o mal, participam das mesmas idéias. A prova disso é que, se puderem atrair outros Espíritos, para se comunicarem em lugar dos que habitualmente os cercam, o mesmo médium falará umas linguagens muito diferentes, dando comunicações bastante afastadas das suas idéias e convicções.

Infelizmente, a invigilância dos "médiuns" brasileiros, sobretudo em "centros espíritas", mesmo os tidos como "mais conceituados", é constante. Aspectos como a concordância entre diversos assistentes e a aparente transmissão de "mensagens de bem" não é garantia para se proteger de ações levianas, que no Brasil se adaptaram a tradições informais de dissimular ações fúteis e perniciosas.

O rigor da mediunidade é algo tão complexo, pois, embora não se exija formação técnica para tal atividade, estabelece critérios de verificação que não garantem totalmente a segurança do trabalho exercido. A mediunidade é um dom possível para qualquer pessoa, mesmo fora do contexto espírita, mas também indica riscos sérios e graves.

No Brasil, o que se observa é a preocupação no rigor apenas da forma, para mascarar um conteúdo que é atrapalhado ou irregular, ou simplesmente inexistente. Em muitos casos, a mediunidade nem existe, e há o artifício de maquiar falsas psicografias com mensagens de apelo religioso, para assim apaziguar possíveis reações de pessoas indignadas.

As "mediunidades" causam desentendimentos diversos. Não há harmonia sequer na forma como são feitas. A "psicofonia" do médico Adolfo Bezerra de Menezes da parte dos baianos José Medrado e Divaldo Franco é de uma diferença aberrante, que elimina toda a credibilidade de cada ato, além de crermos que Bezerra já reencarnou depois de 1900 e está na segunda encarnação após este desenlace.

Em José Medrado, "Bezerra" fala como um velho franzino de voz esganiçada, como se estivesse com uma espinha presa na garganta. Em Divaldo, "Bezerra" é um velho roliço e bonachão, doente em seu leito de morte, mas com voz em timbre firme, ainda que trêmula e chorosa. A de Medrado não passa muita emoção. A de Divaldo se torna piegas de tão emotiva e paternal.

Há muitos aspectos irregulares, que deixariam esta postagem longa demais. Nota-se que a aglomeração de assistentes e espectadores nos "centros espíritas", da forma como se via sobretudo no caso de Francisco Cândido Xavier, não permite a honestidade e a veracidade das manifestações supostamente expressas de espíritos do além.

Quando Chico Xavier fazia seus trabalhos "mediúnicos", ele se encontrava em ambientes tomados de forte emotividade, potencialmente sem controle, devido aos sentimentos de ansiedade ali constantes. Com tantas pessoas e assistentes dessa forma, e sabendo que o próprio Chico Xavier teve trajetória irregular, o êxito mediúnico nesses ambientes é praticamente improvável.

A sisudez não é garantia de seriedade. A postura séria, a aparente incapacidade de sorrir e dar risadas, a posição austera e o ar de objetividade não fazem necessariamente do indivíduo uma pessoa séria. Dependendo da situação, tais posturas podem soar extremamente patéticas e ridículas, A postura de gestos, ritos e discursos pode não corresponder à seriedade de ideias, ações nem intenções.

Ser alegre ou sisudo não influi na seriedade de ideias nem procedimentos. Comédias podem apresentar mensagens sérias, como também artigos científicos, só para citar alguns exemplos. Mas em outros casos não. E o "espiritismo" brasileiro revela não ter lidado o assunto da mediunidade com absoluta seriedade, ocultando fraudes às custas do status quo de seus praticantes.

Falsas humildades, falsa simplicidade, a falsa modéstia da origem humilde que se converte em vaidade plena ao primeiro sabor do sucesso, falta de estudo, falta de sinceridade, tantas irregularidades fazem com que o contato com o mundo espiritual, através dos "espíritas" brasileiros, seja simplesmente prejudicado, até de forma irreversível.

Afinal, digam o que digam os líderes "espíritas", chorosos em serem "vítimas de perseguição", diante de uma enxurrada de críticas e questionamentos que eles mal têm condições de argumentar. O que é certo é que os espíritos sérios do além-túmulo se afastam do "espiritismo" brasileiro, e nem de longe chegam sequer a dar recado, tamanha a desconfiança que sentem.

Por isso, a maioria dos "centros espíritas", na falta de práticas espíritas realmente honestas, transparentes e sinceras, preferem se ocupar em fazer pregações moralistas, sobretudo de natureza familiar, ou forjar arremedos de filantropia que apenas parcialmente se dirigirão aos pobres, e mesmo assim de forma paliativa e superficial, já que os líderes também se enriquecem com parte da "caridade". Triste, mas verídico.