quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
Brasil, retrocessos e 'cyberbullying'
O Brasil vive um contexto em que os detentores de práticas reacionárias de todo tipo, dos políticos envolvidos com o governo Michel Temer (inclusive o próprio presidente) aos valentões da Internet, chamados de cyberbullies, se acham no pleno controle de seus atos mesquinhos, achando que, à menor adversidade, podem dar a volta por cima e até cometer represálias.
Isso é muito preocupante, sobretudo num cenário de estabilidade forçada em que o jogo de interesses tudo faz para fazer prevalecer e permanecer um sistema de privilégios de poder e de valores conservadores ou retrógrados em que seus detentores parecem gozar de imunidade e impunidade.
Escândalos graves ocorrem, confusões e impasses atingem tais pessoas, e tudo depois é abafado ou atenuado com a blindagem garantida pela ilusão que varia desde a posição social, a brecha das leis e a própria privacidade da aparente segurança no lar.
No caso do cyberbullying, isso faz de seu praticante um pretenso "rei" da Internet. Ele comanda campanhas de ataque contra alguém que simboliza um ponto de vista ou mesmo uma posição social ou etnia que não corresponde ao que ele gosta. Através de uma comunidade na qual ele participa, qualquer uma - pode ser "Eu Odeio Acordar Cedo", "Eu Curto Sertanejo" ou "Eu Estou com a Galera na Balada" - ele chama outros membros associados para participar de uma humilhação.
É aí que, por exemplo, espaços de recados da vítima viram falsos chats em que primeiro são escritos comentários irônicos, que depois "evoluem" para ofensas e agressões para terminar com ameaças de morte ou coisa parecida.
Não obstante, o líder de tais agressões organiza um blogue ofensivo, no qual usurpa o acervo pessoal da vítima - como textos de blogues ou fotos pessoais - para reproduzi-los indevidamente para fins de calúnia e difamação, escrevendo comentários ofensivos ou fazendo paródias com fim claramente depreciativo.
A ilusão da impunidade faz com que o agressor, quando é denunciado por tal página ofensiva, reaja ainda com gozações, e, sabendo do endereço da vítima, visita a cidade desta para fazer ameaças, pouco se importando se sua valentia-ostentação desperte a desconfiança de milicianos ou traficantes que fazem ponto no local e confundem o cyberbully com um membro de uma quadrilha rival.
Crente de que pode tudo, o valentão digital mantém no seu ciclo vicioso. Cria textos de ofensa, é criticado e denunciado com isso, e reage com mais textos de ofensa. Quando denunciado com mais intensidade, vai para a cidade da vítima fazer ameaças. e fica repetindo tudo como num disco riscado.
Estamos acostumados a achar e admitir que mudanças só tendem para o pior e tragédias e fracassos são sempre para pessoas humanistas e de visão mais progressista. O Brasil tem o vício de puxar as coisas para trás, proteger valores ultraconservadores ainda que sob o preço do sangue alheio. E garantir abusos de pessoas dotadas de algum privilégio ou influência social.
Hoje esses valores estão em crise e são essas pessoas que surtam. Mais do que propagadores do ódio e praticantes de desordens nas redes sociais, os cyberbullies são "patrulheiros" de valores antiquados ou pré-estabelecidos, que correm o risco de soar obsoletos por causa das campanhas na Internet.
Daí que páginas ofensivas atingem porta-vozes de causas humanistas ou de visões questionadoras sobre o "estabelecido". enquanto os agressores acham que estão protegidos. A verdade é que isso exige que as leis devam ser revistas, criando punições duras na Internet.
Tudo isso tem que ser feito não para reprimir aqueles que trazem informações que vão contra dados oficiais e nem sempre verídicos ou transparentes, mas para intimidar quem realmente queira depreciar e ofender quem discorda do "estabelecido", mesmo usando como pretexto alegações morais ou criem farsas como parodiar e depois criar falsas denúncias contra a blogueira Lola Aronovich.
A verdade, também, é que muitos dos cyberbullies são empresários, políticos, celebridades, busólogos, membros de fãs-clubes de ídolos popularescos, produtores de rádios, filhos de advogados e juristas, entre outros de alguma forma ou de outra alinhados com o esquema de poder. Alguma coisa tem que ser feita para dar um freio a esses abusos, pois as pessoas detentoras de alto status social já estão indo longe demais com seus interesses e opiniões retrógrados.
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
A preocupante fúria dos "valentões" da mídia e da Internet
Já teve página satírica do "Escreva Lola Escreva" chamado "Lola Escreva Lola". Tem blogue de "comentários críticos" feito por busólogo psicótico querendo brigar com todo mundo.Tem página "jornalística" chamada "O Implicante". Canal de youtuber chamado "Mamãe Falei". Exércitos de reaças nas comunidades específicas do Facebook. Mentiras que criminalizam Lula nos vídeos do YouTube que se multiplicam feito cupins em madeira ruim.
O reacionarismo na Internet, a onda de ódio que se espalha nas redes sociais mas possui também ecos na grande imprensa. Veículos como a Globo News e as revistas Veja e Isto É também possuem jornalistas com essa mentalidade irresponsável. Se há um Reinaldo Azevedo e um Diogo Mainardi rosnando na mídia, o sociopata da busologia encontra estímulo para fazer sua paginazinha de "comentários críticos" para montar aos poucos sua coleção de desafetos.
Isso é terrível. O Brasil tem um cenário cultural tenebroso e chegou a um quadro político catastrófico. O país se tornou mais vulnerável a retrocessos, e mesmo depois da redemocratização em 1985 o Brasil nunca conseguiu recuperar plenamente os progressos sócio-culturais e econômicos sonhados duas décadas antes. O que ocorreu, até maio de 2016, foram tentativas, algumas até bem sucedidas, mas depois ceifadas pelo golpe político que assaltou o poder.
O que chama a atenção é que boa parte desses brutamontes digitais é religiosa. Em alguns casos, é uma "galera irada" que vive entre o porre de cerveja e a leitura da Bíblia. Entre o moralismo extremo e punitivo e a libertinagem irresponsável e impune, eles agem como uma grande ameaça, praticamente chegando ao poder com seus preconceitos sociais e seus abusos desmoralizantes.
O Brasil vive uma crise de valores e muitos desses agressores, na verdade, fazem "patrulha ideológica" para proteger valores ou reputações que estão ameaçados. Geralmente estão associados a valores, personalidades, abordagens ou atitudes que eram considerados dominantes antes da expansão da liberdade de expressão na Internet.
Da pintura padronizada em frotas de ônibus à venda do pré-sal do petróleo aos estrangeiros, passando por "mulheres-frutas", cantores estrangeiros dos anos 1970, jovens atores de novelas da Globo, times de futebol ou figuras como o reacionário Jair Bolsonaro, a "patrulha" ainda segue com uma agenda cheia de preconceitos sociais que antes imaginávamos superados ou intimidados.
As pessoas hoje não escondem que defendem a redução de salários, a venda de nossas riquezas para o exterior, o fim da escola pública, a escravização do trabalhador, a depreciação de negros, índios e pessoas LGBT, e se expressam abertamente não só na Internet, como em vários eventos públicos, ainda que em bastidores. Vide pessoas como o diretor teatral Cláudio Botelho, o empresário das lojas Riachuelo, Flávio Rocha, e o publicitário Nizan Guanaes.
O Brasil está doentio e não é por falta de religião. Pelo contrário, é a overdose de religião, combinada a uma contraditória coexistência de libertinagem e autoritarismo, O "espiritismo" brasileiro não deixa também de fazer sua parte, sobretudo quando seus palestrantes pedem para os sofredores aceitarem o sofrimento e perdoarem os abusos dos algozes, como se esses atos de complacência às injustiças sociais significassem alguma possibilidade de evolução humana. Só que não.
domingo, 29 de janeiro de 2017
Brasil é "balneário" para espíritos atrasados?
O Brasil é atrasado em todos os sentidos. Na complacência com os crimes de gente rica e na forma um tanto paternalista e espetacularizada de "caridade", observa-se um país viciado em muitos retrocessos. Os retrocessos são tantos que, no âmbito econômico, já assustam até os tecnocratas do conservador Fundo Monetário Internacional, boquiabertos com o radicalismo ultraconservador do presidente Michel Temer e sua "equipe de notáveis".
Nosso país está tão atolado em visões reacionárias ou retrógradas - que veem as necessidades humanas sob a ótica "pragmática" (limitada a motivos utilitaristas, como a mera sobrevivência, pouco importando desejos diferenciados de qualidade de vida e valorização do prazer) e os méritos mediante a noção material de relações de hierarquia - que o mundo fica estarrecido diante do Brasil que parece ter se perdido em algum período da Idade Média.
Preconceitos sociais liberados e trazidos por gente de elite, antes considerada "gabaritada". Veículos de mídia perdidos entre a libertinagem sexual quase troglodita e o moralismo punitivista severo. Aliás, a mídia que temos - Globo, Abril, Folha, Estadão, Jovem Pan etc, sem esquecer regionais como a gaúcha RBS e a baiana Metrópole - é simplesmente tão atrasada que até os sucessos musicais mais contemporâneos soltam um forte cheiro de mofo.
Tudo está velho no Brasil e a maioria das pessoas presa na zona de conforto de convicções, temores e neuroses que não fazem mais sentido. Paradigmas de valores morais, religiosidade, justiça social, punições humanas, méritos de toda espécie, parecem terem regredido para tempos de barbárie ou de profundo conservadorismo sócio-político na humanidade, deixando o Brasil numa preocupante situação de decadência social, que atinge até boa parte dos "esclarecidos".
Só para sentir o estranho moralismo em que vivemos, uma parcela da sociedade chega a ter medo de ver feminicidas ricos morrerem de repente ou então seitas religiosas entrarem em falência - os "espíritas", então, devem estar tremendo diante da crise de sua doutrina que só se agrava - , e a ignorância generalizada cria uma moral um tanto cambaleante que criminaliza ou inocenta conforme as conveniências.
O Brasil é um "balnerário" para espíritos atrasados? O que vemos são ecos diversos de sociedades ou grupos retrógrados: o Brasil foi tomado de patrícios do Império Romano, de medievais, de nazi-fascistas, de seguidores do apartheid, de macartistas, de absolutistas franceses. Até parece que, desde 1500, nosso país se tornou o depósito de lixo da humanidade.
É certo que o Brasil teve essa "missão" a partir da ideia concebida pelas autoridades portuguesas de mandar para longe do território lusitano prostitutas, ladrões, assassinos, desordeiros e loucos, que passaram a viver no território brasileiro e, provavelmente, a atravessar os séculos reencanando de maneira viciada, sempre de acordo com seus caprichos pessoais, ao mesmo tempo obscurantistas e extravagantes.
O Brasil é o sexto país mais ignorante do planeta, ocupando o primeiro lugar entre os sul-americanos. A estupidez viciada se reflete nas redes sociais, em que o ultraconservadorismo social é notado até em pessoas ditas "rebeldes", aparentemente modernas, mas cujas ideias que defendem deixariam um fidalgo medieval cair da cadeira de tão chocado.
Já tivemos tempos ultraconservadores que, todavia, obedeciam a uma lógica social e a uma certa coerência de contexto. Se abusos havia, eles obedeciam a um estágio de evolução institucional, que ainda estava atrasado. Se havia elitismos, eles pelo menos se manifestavam de maneira mais sutil ou controlada.
Hoje todos parecem ter surtado de vez. Práticas de clientelismo político que só seriam normais na República Velha estão sendo retomadas de forma escancarada pelo governo Michel Temer. O descaso político ficou institucionalizado, com os cortes de investimentos em Saúde e Educação, antes frutos da omissão política, virando leis de emenda constitucional. As empresas já estão livremente demitindo pessoas e querendo reduzir salários, sob a desculpa de se adaptar aos "novos (?!) tempos".
O machismo, não bastasse o medo de ver seus membros mais violentos "vestirem o paletó de madeira" (por mais que eles fumem ou usem drogas), tem também o dado surreal de contrapôr as mulheres-objetos com as "rainhas do lar", atribuindo às primeiras um falso feminismo, muito mal justificado pela "liberdade do corpo" e muito mal expresso por uma aparente solteirice das musas siliconadas.
O próprio "espiritismo" acompanha o "espírito do tempo" (olhe o trocadilho) e faz apelos para os sofredores aceitarem o sofrimento, não reclamarem e encararem tudo com fé e esperança. Expressando maior identificação com a Teologia do Sofrimento católica, o "movimento espírita", com tais apelos, demonstra subliminarmente seu apoio ao retrógrado governo Temer.
O Brasil está caótico, institucionalmente inseguro, socialmente viciado. O país vive uma catástrofe social sem precedentes, e as pessoas não percebem, como aqueles doentes da Síndrome de Riley-Day que são incapazes de sentir qualquer dor. Parecem até felizes, rindo dos problemas da vida. Não é à toa que, levando isso às últimas consequências, o Estado do Rio de Janeiro é agora conhecido como "Riley-Day Janeiro".
Isso é um alerta terrível. E já que fazem quatro anos de tragédia com a Boate Kiss, fruto da imprudência e intransigência de vários envolvidos - empresários, autoridades e banda musical, que soltou rojões que causaram o terrível incêndio - , quantas Boates Kiss vão acontecer, quantos voos da Chapecoense ocorrerão, para mostrar às pessoas que nem tudo é sonho e fantasia e que o Brasil está no caos e na desordem social?
Politicamente, o governo Temer é uma sucessão interminável de confusões, ameaças, retrocessos, recuos e tudo de ruim. É uma tragicomédia em que o lado trágico ainda é mais forte. E não é só a tragédia de Teori Zavascki, que, como ministro do STF e relator da Operação Lava Jato, deixou a seus envolvidos uma complicada lacuna, mas a tragédia da "normalidade" de seu governo, com ministros-problema como Eliseu Padilha, José Serra, Alexandre de Moraes e outros.
A grande mídia está cada vez mais retrógrada, com uma cultura musical plenamente abominável - em que os bregas mais antigos, como "pagodeiros" e "sertanejos" dos anos 90, agora são jogados para cantar clássicos da MPB, num oportunismo canastrão e pedante - cujo "maior acontecimento" é o Big Brother Brasil, já na 17ª edição.
Tudo isso revela ecos de todo tipo, desde a religiosidade medieval que faz muitos deslumbrados endeusarem Chico Xavier com uma emotividade piegas, até o erotismo compulsivo de uma Mulher Melão ou Solange Gomes que servem para as masturbações de machistas juvenis sexualmente descontrolados.
Até parece que o Brasil virou um "hotel" para espíritos retrógrados que perderam a sua razão de ser em outras áreas do planeta, e que agora tentam fazer o feitiço do tempo forçando o país a regredir mais ainda, a andar para trás desafiando as transformações dos tempos e criando um autismo isolacionista no qual uma considerável parcela de brasileiros ainda esnoba o resto do mundo, confundindo o atraso em que vive o Brasil com "originalidade". Coisa de quem pensa retrógrado.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
Religião, apelo à emoção e estrelato
MICHAEL JACKSON, SÍMBOLO DA MITIFICAÇÃO HUMANA NA MÚSICA POP.
As pessoas ainda precisam aprender a respeito de sua emotividade e das noções idealizadas de "bondade", voltadas mais a uma estória de fadas do que de um processo concreto de ajuda ao próximo. Precisam ver que, por exemplo, não é só a cultura pop que pega emprestada da religião o ato de adorar os ídolos, mas o caminho inverso.
Não é preciso aqui detalhar paralelos de Michael Jackson com astros da religiosidade como Madre Teresa de Calcutá e Francisco Cândido Xavier. Eles também são construídos como astros pop, mas uma série de ilusões garantidas pelo mito da religiosidade omitem esse processo e fazem com que tudo pareça espontâneo e natural.
No "espiritismo" brasileiro, então, nem se fala. Além da ilusão de religiosidade que garante, aos olhos da Terra, o Paraíso a determinadas figuras "sagradas" - que no retorno ao mundo espiritual levam um choque ao saber que tal "oportunidade", tida como certa, não se deu - , há ainda outra ilusão resultante do hábito do brasileiro de dissimular as coisas: a ilusão de uma "racionalidade" e "objetividade" que não existem.
Isso garante uma dupla ilusão. A ilusão da religiosidade, que garante aos deslumbrados da Terra a "garantia" de que seus ídolos irão para um "mundo perfeito", após o fim da vida. E a ilusão da racionalidade, que dá um verniz de "objetividade" e "lógica" nas paixões da fé religiosa que o "espiritismo" copia da Igreja Católica.
SUPERFICIALISMO
A revista Seleções, edição brasileira da conservadora revista estadunidense Reader's Digest, em sua edição de janeiro de 2017 publicou um artigo de Sanghamirta Chakraborty, intitulado "Toque de Mãe", sobre uma visita feita a Madre Teresa de Calcutá à residência dela, na cidade indiana do seu famoso codinome, em 1989. A visita teria sido feita por ela para acompanhar uma amiga que precisava entrevistá-la para uma reportagem.
O artigo não traz novidades e apenas reforça a mitificação em torno de Madre Teresa. É algum daqueles relatos que, se envolvessem, em vez de ídolos religiosos, astros da cultura pop, como atores e cantores, seriam apenas reportagens ou artigos comuns, a ocupar as biografias dos idolatrados. Mas como se tratam de ídolos religiosos, cada relato desses é visto como atestado de pretensa superioridade espiritual destas personalidades.
Um trecho do artigo segue aquela visão deslumbrada de justificar as coisas com nada. É o deslumbramento religioso que faz as pessoas afirmarem alguma grande virtude sem trazer informações objetivas nem precisas, dando declarações que não vão além do "achismo" e, lembrando o caso do promotor brasileiro Deltan Dallagnol, da "força-tarefa" da Operação Lava Jato, é feito "sem provas, mas com muita convicção". Vejamos:
"(...) Sempre morei nesta cidade em que Madre Teresa adotou como sua, na qual construiu uma instituição que salvou milhões, lhes deu uma vida decente ou dignidade da morte. Éste é o lugar de onde ela inspirou milhões de pessoas a serem voluntárias e fazerem doações à sua causa. Eis aqui uma mocinha americana que viajou milhares de quilômetros para vê-la, E eu, eu estou aqui o tempo todo.
É claro que Madre Teresa também já teve seu quinhão de críticas, geralmente de quem vê um 'plano' por trás da ajuda aos pobres. Mas não foi por isso que não tentei. Li sobre seu trabalho e vi na televisão. Mas nunca me passou pela cabeça vir visitá-la".
A narração da visita apenas parecia uma conversa amistosa que se encerrou com as tais "bênçãos". E um relato semelhante se observa através das respostas de internautas a um risível artigo de "Filosofia Imortal" sobre uma improcedente "confirmação" de "previsões" de Chico Xavier em 1969, sobre visitas de extra-terrestres em bases estadunidenses ocorridas antes, em 1964 e 1967:
"Eu tive a honra de conhecer pessoalmente o Chico Xavier, um homem simples, sábio e caridoso, talvez o mais caridoso que já conheci em todas as historias de pessoas em nossa era, faturou milhões com sua obra e doou cada centavo. Tenho visto simpatias, previsões e muitos outros relatos falsos que são atribuídos ao Chico,contrariando exatamente um dos pilares da doutrina que é a desmistificação e a fé com raciocínio. Muitos falam de Chico sem nenhum embasamento da realidade do que ele foi e representa para nossa evolução de caráter, fraternidade e humildade. Não é atoa que ele se considerava apenas um cisco no processo de evolução necessária para chegar a Jesus. Quer entender Chico? Então esqueça os fenômenos e apegue-se a caridade!".
O deslumbrado chiquista fala que tenta dar um verniz "realista" ao relato do contato pessoal com o anti-médium mineiro, criando falsas argumentações, pois trata Chico, comprovado deturpador da Doutrina Espírita, como se fosse "espírita autêntico" e, confuso, o internauta se apega a mitos, se recusando a questionar ou analisar fenômeno.
Esse é um tipo de sujeito que põe o mito acima do ser humano. Mas tenta fazer rodeios para que sua visão seja a mais "realista" e "consistente". Diferente dos católicos comuns, que ao menos assumem estarem tomados de emoção, os "espíritas" tentam parecer "racionais", "objetivos" e "coerentes". Fazem todo um engodo de argumentos "objetivos" para tudo terminar numa reles emotividade religiosa.
Imaginamos se esse contato pessoal com ídolos religiosos também não mostra as mesmas ilusões que o contato com um astro da música pop ou do cinema de Hollywood. Nestes casos, há um distanciamento entre a imagem idealizada da celebridade e a sua vida pessoal, e, embora as fantasias dos fãs sejam grandes, há uma consciência, por menor que seja, desse distanciamento, já que o admirador não faz parte da vida pessoal da celebridade, sendo quase sempre um estranho.
No contado com ídolos religiosos, porém, o devoto religioso tem a ilusão de que "furou o cerco" do mito e "penetrou na profundidade da realidade". O devoto acredita que, conhecendo pessoalmente o ídolo religioso, "penetra na sua intimidade" e se torna "beneficiado" pelo que entende como a "realidade do bem", ignorando que ele entrou em contato não com uma "figura humana", mas como um mito, com todo o seu distanciamento que não pode ser subestimado.
Temos que analisar os escaninhos da emotividade religiosa, dos apelos à emoção e das pós-verdades. E também a forma como se vê a "bondade" e a "caridade", quando se exalta, até com certo exagero, atividades que apenas ajudam muito pouco, dando ao "benfeitor" um cartaz e uma glorificação que estão aquém aos resultados de sua pálida filantropia.
A roupagem "realista" do "espiritismo" brasileiro mais parece um segundo verniz para o da devoção religiosa. Se esta já não estabelece diferença entre mito e realidade, aquela, concordando com a primeira, vai mais além, não estabelecendo diferença entre emoção e razão.
O deslumbramento dos católicos já é um problema que o apelo à emoção, ou o Argumentum Ad Passiones, se torna uma falácia bem sucedida. Entre os "espíritas" é um problema mais grave ainda, pois se protege sob a máscara da "fé raciocinada", desculpa para que mitos sejam sustentados por argumentos falsamente objetivos. É esse deslumbramento, que se apoia no pretexto da "bondade", que protege os deturpadores que corromperam o trabalhoso legado de Allan Kardec.
As pessoas ainda precisam aprender a respeito de sua emotividade e das noções idealizadas de "bondade", voltadas mais a uma estória de fadas do que de um processo concreto de ajuda ao próximo. Precisam ver que, por exemplo, não é só a cultura pop que pega emprestada da religião o ato de adorar os ídolos, mas o caminho inverso.
Não é preciso aqui detalhar paralelos de Michael Jackson com astros da religiosidade como Madre Teresa de Calcutá e Francisco Cândido Xavier. Eles também são construídos como astros pop, mas uma série de ilusões garantidas pelo mito da religiosidade omitem esse processo e fazem com que tudo pareça espontâneo e natural.
No "espiritismo" brasileiro, então, nem se fala. Além da ilusão de religiosidade que garante, aos olhos da Terra, o Paraíso a determinadas figuras "sagradas" - que no retorno ao mundo espiritual levam um choque ao saber que tal "oportunidade", tida como certa, não se deu - , há ainda outra ilusão resultante do hábito do brasileiro de dissimular as coisas: a ilusão de uma "racionalidade" e "objetividade" que não existem.
Isso garante uma dupla ilusão. A ilusão da religiosidade, que garante aos deslumbrados da Terra a "garantia" de que seus ídolos irão para um "mundo perfeito", após o fim da vida. E a ilusão da racionalidade, que dá um verniz de "objetividade" e "lógica" nas paixões da fé religiosa que o "espiritismo" copia da Igreja Católica.
SUPERFICIALISMO
A revista Seleções, edição brasileira da conservadora revista estadunidense Reader's Digest, em sua edição de janeiro de 2017 publicou um artigo de Sanghamirta Chakraborty, intitulado "Toque de Mãe", sobre uma visita feita a Madre Teresa de Calcutá à residência dela, na cidade indiana do seu famoso codinome, em 1989. A visita teria sido feita por ela para acompanhar uma amiga que precisava entrevistá-la para uma reportagem.
O artigo não traz novidades e apenas reforça a mitificação em torno de Madre Teresa. É algum daqueles relatos que, se envolvessem, em vez de ídolos religiosos, astros da cultura pop, como atores e cantores, seriam apenas reportagens ou artigos comuns, a ocupar as biografias dos idolatrados. Mas como se tratam de ídolos religiosos, cada relato desses é visto como atestado de pretensa superioridade espiritual destas personalidades.
Um trecho do artigo segue aquela visão deslumbrada de justificar as coisas com nada. É o deslumbramento religioso que faz as pessoas afirmarem alguma grande virtude sem trazer informações objetivas nem precisas, dando declarações que não vão além do "achismo" e, lembrando o caso do promotor brasileiro Deltan Dallagnol, da "força-tarefa" da Operação Lava Jato, é feito "sem provas, mas com muita convicção". Vejamos:
"(...) Sempre morei nesta cidade em que Madre Teresa adotou como sua, na qual construiu uma instituição que salvou milhões, lhes deu uma vida decente ou dignidade da morte. Éste é o lugar de onde ela inspirou milhões de pessoas a serem voluntárias e fazerem doações à sua causa. Eis aqui uma mocinha americana que viajou milhares de quilômetros para vê-la, E eu, eu estou aqui o tempo todo.
É claro que Madre Teresa também já teve seu quinhão de críticas, geralmente de quem vê um 'plano' por trás da ajuda aos pobres. Mas não foi por isso que não tentei. Li sobre seu trabalho e vi na televisão. Mas nunca me passou pela cabeça vir visitá-la".
A narração da visita apenas parecia uma conversa amistosa que se encerrou com as tais "bênçãos". E um relato semelhante se observa através das respostas de internautas a um risível artigo de "Filosofia Imortal" sobre uma improcedente "confirmação" de "previsões" de Chico Xavier em 1969, sobre visitas de extra-terrestres em bases estadunidenses ocorridas antes, em 1964 e 1967:
"Eu tive a honra de conhecer pessoalmente o Chico Xavier, um homem simples, sábio e caridoso, talvez o mais caridoso que já conheci em todas as historias de pessoas em nossa era, faturou milhões com sua obra e doou cada centavo. Tenho visto simpatias, previsões e muitos outros relatos falsos que são atribuídos ao Chico,contrariando exatamente um dos pilares da doutrina que é a desmistificação e a fé com raciocínio. Muitos falam de Chico sem nenhum embasamento da realidade do que ele foi e representa para nossa evolução de caráter, fraternidade e humildade. Não é atoa que ele se considerava apenas um cisco no processo de evolução necessária para chegar a Jesus. Quer entender Chico? Então esqueça os fenômenos e apegue-se a caridade!".
O deslumbrado chiquista fala que tenta dar um verniz "realista" ao relato do contato pessoal com o anti-médium mineiro, criando falsas argumentações, pois trata Chico, comprovado deturpador da Doutrina Espírita, como se fosse "espírita autêntico" e, confuso, o internauta se apega a mitos, se recusando a questionar ou analisar fenômeno.
Esse é um tipo de sujeito que põe o mito acima do ser humano. Mas tenta fazer rodeios para que sua visão seja a mais "realista" e "consistente". Diferente dos católicos comuns, que ao menos assumem estarem tomados de emoção, os "espíritas" tentam parecer "racionais", "objetivos" e "coerentes". Fazem todo um engodo de argumentos "objetivos" para tudo terminar numa reles emotividade religiosa.
Imaginamos se esse contato pessoal com ídolos religiosos também não mostra as mesmas ilusões que o contato com um astro da música pop ou do cinema de Hollywood. Nestes casos, há um distanciamento entre a imagem idealizada da celebridade e a sua vida pessoal, e, embora as fantasias dos fãs sejam grandes, há uma consciência, por menor que seja, desse distanciamento, já que o admirador não faz parte da vida pessoal da celebridade, sendo quase sempre um estranho.
No contado com ídolos religiosos, porém, o devoto religioso tem a ilusão de que "furou o cerco" do mito e "penetrou na profundidade da realidade". O devoto acredita que, conhecendo pessoalmente o ídolo religioso, "penetra na sua intimidade" e se torna "beneficiado" pelo que entende como a "realidade do bem", ignorando que ele entrou em contato não com uma "figura humana", mas como um mito, com todo o seu distanciamento que não pode ser subestimado.
Temos que analisar os escaninhos da emotividade religiosa, dos apelos à emoção e das pós-verdades. E também a forma como se vê a "bondade" e a "caridade", quando se exalta, até com certo exagero, atividades que apenas ajudam muito pouco, dando ao "benfeitor" um cartaz e uma glorificação que estão aquém aos resultados de sua pálida filantropia.
A roupagem "realista" do "espiritismo" brasileiro mais parece um segundo verniz para o da devoção religiosa. Se esta já não estabelece diferença entre mito e realidade, aquela, concordando com a primeira, vai mais além, não estabelecendo diferença entre emoção e razão.
O deslumbramento dos católicos já é um problema que o apelo à emoção, ou o Argumentum Ad Passiones, se torna uma falácia bem sucedida. Entre os "espíritas" é um problema mais grave ainda, pois se protege sob a máscara da "fé raciocinada", desculpa para que mitos sejam sustentados por argumentos falsamente objetivos. É esse deslumbramento, que se apoia no pretexto da "bondade", que protege os deturpadores que corromperam o trabalhoso legado de Allan Kardec.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
Brasil persiste no culto às mulheres-objeto
O Brasil continua sendo uma sociedade terrivelmente machista. E, como também é marcado pela hipocrisia de uma boa parcela reacionária da nossa sociedade, é um machismo nunca assumido no discurso, mas praticado de forma escancarada e até agressiva.
De um lado temos homens capazes de cometer atos como a chacina na festa de Ano Novo em Campinas, por ódio da ex-mulher e dos familiares dela, sobretudo mulheres. De outro, temos o recreio machista das mulheres siliconadas que só ficam mostrando fotos "sensuais" que, de tão obsessivas, nem inspiram mais sensualidade.
Há mulheres-frutas, ex-integrantes da Banheira do Gugu, entre outras, que aceitam o papel de brinquedos sexuais. Solange Gomes, ex-Banheira, fica o tempo todo "sensualizando" na Internet mas reclama de assédio machista numa escola de samba que não a quis mais como rainha de Carnaval (não confundir com rainha da bateria). A funkeira Renata Frisson, a Mulher Melão, é uma verdadeira "mulher-coisa" e ainda se acha "feminista".
A hipersexualização ocorre porque existe um público machista, que vê a mulher como um brinquedo para suas fantasias sexuais desenfreadas, criando uma ilusão em que tudo é fácil e permitido, o que faz irem às ruas e acharem que toda mulher é Solange Gomes e Mulher Melão para sair aí dando cantadas baratas ou agarrando seus corpos.
O Brasil entrou num surto reacionário nos últimos tempos, mas tudo isso estava latente desde os anos 90, quando intelectuais eram treinados para defender a degradação da cultura popular e a grande mídia despejava sensacionalismo grotesco e a espetacularização da violência e da estupidez humana. Poucos se lembram que a bregalização cultural (que nos últimos anos se valeu do discurso hipócrita de "vítima de preconceito") e a imprensa policialesca criaram condições para o país doentio de hoje.
Se existem mulheres que só vivem de mostrar o corpo, é porque existe um público cruelmente machista nas redes sociais. Evidentemente, ninguém vai abrir o jogo, ninguém vai se assumir machista, ninguém vai se assumir reacionário, todos usam os melhores discursos, e para todo o efeito, os machistas são "pessoas liberais e da paz" e as mulheres-objeto "feministas com o livre direito de mostrar o corpo".
São hipócritas as alegações de "direito à sensualidade" e "liberdade do corpo" porque as mulheres que assim pensam usam isso como desculpa para ficarem se ostentando o tempo todo. Elas esquecem que sua "liberdade do corpo" está a serviço da tara machista e dos impulsos sexuais dos seus aparentes admiradores. E elas não medem escrúpulos em fazer esse papel machista, apesar do rótulo "feminista" muito mal sustentado pela aparente solteirice amorosa.
Há uma grande diferença entre mulheres de uma personalidade mais decente, que de vez em quando aparecem em posições sensuais, e outras que encaram a sensualidade como um fim em si mesmo. Para complicar as coisas, as mulheres que "só se sensualizam" usam o exemplo das mulheres decentes para se achar no "direito à sensualidade".
Só que uma mulher decente, entre uma foto sensual e outra, aparece em outros momentos usando roupas comportadas e mostrando outras atividades. Podem conversar sobre política, atuar, cantar, dançar e escrever livros, e divulgar ideias consistentes. Já a mulher-objeto só se "sensualiza", usando roupas apelativas até quando vão a eventos fora do contexto sensual, como lançamento de livros e velórios.
O Brasil vive um machismo que trata de forma restrita e desigual a emancipação feminina. Há um cruel condicionamento da independência da mulher, que obriga aquelas que buscam aprimorar conhecimentos, ter uma vida comedida e aprimorar o caráter, a se vincularem obrigatoriamente a um marido "importante", seja ele um empresário ou um profissional liberal, ou alguém com o mesmo poder de influência.
A mulher que pode ser solteira, de acordo com essa ideologia maligna, é aquela que cumpre os ideais machistas sem a "moderação" do homem. Seguem "por conta própria" os valores machistas, sejam as moças que só ficam em casa vendo TV e ouvindo música brega, sejam as "turbinadas" que ficam "sensualizando" o tempo todo, até quando o contexto não permite.
Isso é bastante cruel e precisa ser discutido e debatido na sociedade. O que se observa, através da grande mídia, é esse machismo que tenta filtrar a emancipação da mulher de todas as formas, seja confinando as mulheres inteligentes e comedidas à vida marital, seja liberando as mulheres-objetos para o recreio afoito dos internautas que, mais tarde, sairão por aí nas ruas estuprando garotas, achando que "tudo é possível" e que toda mulher é "fruta" ou vem de certas "banheiras".
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
A mensagem anti-kardeciana do "poeta alegre"
Certas práticas ou produtos do "movimento espírita" são risíveis de tão simplórios, resultantes de atitudes referentes à visão deturpada da Doutrina Espírita, frequentemente dissimuladas pelo bom-mocismo das "casas espíritas" e seus palestrantes mais festejados.
No "Artigos Espíritas", página portuguesa mas que representa a mesma deturpação brasileira da Doutrina Espírita, foi publicado um poema de um suposto espírito, chamado "poeta alegre", cujos poemas são tão toscos que há muitas dúvidas de que realmente se trata de um espírito. Os poemas publicados em seu nome mais parecem poeminhas de rima fácil, desses que se faz em exercícios de aula de Português no ensino fundamental.
Até aí, nada demais. O que chama a atenção, num poema recente, intitulado "Ciência e Paciência", supostamente psicografado por um tal de JC no "Centro de Cultura Espírita" na cidade portuguesa de Caldas da Rainha, é uma preocupação inútil com as relações entre ciência e impaciência. Segue o poema e, depois, mais comentários deste texto.
==========
Ciência e Paciência - Atribuído a poeta alegre
O Homem busca
Na Terra,
Muita ciência,
Mas não tem paciência.
O Homem vive
Na fartura ou indigência
Mas de pouco vale
Sem ter paciência
O Homem procura
Viver com decência
Mas isso é pouco
Se não tem paciência
O Homem pode
Ter muita valência
Mas a mais difícil
É ter paciência
A paciência
É a prova final
Dos estudos em curso
Na escola carnal
Procura, pois,
Estimular a paciência
E perante a adversidade
Treina essa “ciência”
Ciência sem paciência
É como espiritualidade sem fé
Não condiz uma com a outra
Não te mantém de pé….
==========
Embora o "autor espiritual" reconheça ser possível "ciência com paciência", é ridícula a preocupação dele com a "impaciência humana" na busca do Saber. É um texto anti-kardeciano, que traz uma mensagem desnecessária, atribuindo à Ciência os ranços de impaciência e intolerância que em verdade são muito raros e excepcionais.
O poema do "poeta alegre" demonstra que sutilmente entra em colisão com os ensinamentos de Allan Kardec, como se observa no "espiritismo" deturpado que tanto bajula o nome do pedagogo francês quanto despreza suas lições mais caras, ou apenas as aproveita de forma distorcida e de acordo com os interesses arrivistas dos "mensageiros espíritas".
Desde a Antiguidade, a paciência era companheira das atividades científicas. Embora haja casos de indignação diante de problemas e conceitos diversos, e polêmicas tensas diante de muitas teses, o trabalho científico e intelectual quase sempre buscou atuar de forma paciente, sobretudo quando o pensador pesquisa conceitos e ideias das quais sente algum incômodo, por discordá-las firmemente.
Esquece o "poeta alegre" de que a paciência é trabalhadora constante da Ciência, que as obras científicas são compostas de longos livros e fartas bibliografias, além de palestras e artigos longamente planejados, tudo resultante de análises em que ideias são postas à prova diante de argumentos dificilmente elaborados e um raciocínio minucioso e cuidadoso.
O próprio Allan Kardec era muito paciente e cuidadoso nos seus trabalhos. Era muito cético e por isso sempre perguntava para poder entender de forma concisa e correta determinado fenômeno. E sua paciência se deu também às oposições que eram feitas contra suas descobertas, além do fato de que, ainda muito doente, Kardec se dedicava pacientemente aos seus derradeiros trabalhos.
A paciência de Kardec se dava em longas viagens, pagas pelo dinheiro dele, sem qualquer patrocínio alheio. E se dava também nos artigos da Revista Espírita, nos quais procurava responder a argumentos contrários ou mesmo a ataques, com paciência cirúrgica e um esforço enorme em elaborar respostas lógicas e consistentes.
Outro aspecto anti-kardeciano do poema do "poeta alegre", devido à sua implicância com a "impaciência da Ciência", é que Allan Kardec havia dito que, se houvesse alguma coisa errada no Espiritismo que fosse provada pela Ciência, que se preferisse ficar com esta última. E que se houvesse argumentos lógicos que contradizessem as descobertas de Kardec, ele mesmo se disporia a reavaliar os conceitos e mudá-los.
E A IMPACIÊNCIA DA FÉ?
O que o "poeta alegre" se esquece é que a fé religiosa é que tem mais focos de impaciência do que o raciocínio científico. O cientista, quando busca o Saber, é mais paciente, analisa argumentos contrários, busca conceitos mais consistentes e dotados de sentido.
Já o religioso, não. Quando busca o Saber, é de maneira confusa, portanto, impaciente, misturando argumentos pedantes com devaneios de ordem mística, atendendo apenas a seus caprichos sonhadores, aos seus preconceitos e interesses pessoais.
Os "espíritas" se demonstram impacientes em tudo. Querem ser intelectualizados com seu igrejismo, e quando apelam para evocar a Filosofia, o fazem da pior maneira: criam um engodo esotérico, com pedantes abordagens de temas filosóficos abstratos, misturam com misticismo religioso e o resultado é uma colcha-de-retalhos nada filosófica e, portanto, mais próxima de crenças igrejeiras do que de qualquer promoção de Conhecimento.
Os próprios "espíritas" se revelam impacientes, na sua incapacidade de argumentar. Preferem que seus pontos de vista prevaleçam por "estarem acima da lógica e do bom senso". Nada mais anti-Kardec do que isso: estar acima da lógica e do bom senso por causa de "conceitos" que "escapam da razão humana", como as irregularidades em muitas supostas psicografias, que destoam dos aspectos pessoais dos autores mortos alegados.
Mas outra impaciência é ficar com a "palavra final". Como os palestrantes "espíritas" fazem um espetáculo de "palavras bonitas" e "lindas ações" - como a chamada "caridade paliativa", ou "assistencialismo", "bondade" feita mais para causar impressão do que promover ajuda e progresso social - , eles se acham com a posse da palavra final, a julgar pelo próprio ídolo Chico Xavier, ele mesmo considerado pelos seus seguidores o proprietário maior da verdade do Universo.
Diante disso, o "poeta alegre" escorregou de vez. Ele deu um recado desnecessário, porque os cientistas são os que mais lidam com a paciência na busca do Saber. Os "espíritas", sim, é que andam impacientes com sua chance de ingresso no "reino dos puros", e tentam a todo custo caprichar no balé de palavras e no espetáculo assistencialista, para que seu bom-mocismo pudesse lhes garantir a "divinização" ao sabor das paixões terrenas da fé religiosa.
sábado, 21 de janeiro de 2017
Prestígio social e a banalização do erro
ROMERO JUCÁ, MICHEL TEMER, GEDDEL VIEIRA LIMA E RENAN CALHEIROS - Eles cometem erros graves e o pessoal tranquilinho em casa?
A banalização do erro humano cria uma moral seletiva. Pessoas que cometem erros pequenos mas são desprovidas de prestígio social são seriamente criticadas, enquanto outras, que cometem erros gravíssimos e até crimes de arrancar os cabelos, são poupadas e vistas apenas como pessoas que cometem pequenas molecagens.
O Brasil começa a viver uma crise de status quo, porque é justamente nas pessoas dotadas de alguma superioridade, como na idade, no dinheiro, na fama, no diploma e no poder exercido de alguma forma é que se observam os erros mais graves e preocupantes, o que deixa os deslumbrados ainda acomodados na sua indiferença, vivendo na doce ilusão de que os "tarimbados", quando erram, apenas "erram como todo mundo".
O "errar como todo mundo", sob a desculpa de dizer "quem nunca erra?" ou "somos gente como a gente" faz com que haja essa complacência. O governo de Michel Temer, por exemplo, é uma terrível e assustadora catástrofe política e as pessoas não parecem preocupadas com isso. Até pouco tempo atrás, era o mesmo pessoal que se enfurecia só de ver a cara de Dilma Rousseff na TV.
Imagine você sendo passageiro de um navio que navega em águas revoltas num momento de tempestade e o timoneiro e a tripulação, além de cometerem delitos - digamos que eles cheguem até a furtar objetos das bagagens dos passageiros - , se desentendem seriamente a ponto de haverem casos de agressões físicas entre os conflituosos.
Imagine se o timoneiro deixa de guiar o navio por causa dessa confusão toda, que cria um caos nos bastidores e a embarcação ainda está rumando em direção a um rochedo. Você, passageiro do navio, permaneceria tranquilo numa situação dessas, acrescentando que o céu apresenta trovoadas, o ar se movimenta em vendaval e no mar se formam ondas gigantes?
A situação é como essa metáfora e o governo Michel Temer, que só pode ser considerado "governo" por uma simples formalidade, pois mais parece desgoverno, é recheado de tantos e graves deslizes e escândalos que só mesmo o surrealismo para explicar a serenidade das pessoas e a ingenuidade (ou cinismo?) de uns em rir desses escândalos, como se a tragédia fosse uma comédia?
São erros cometidos pelo próprio Temer e seus associados: Romero Jucá, Henrique Meirelles, Alexandre de Moraes, José Serra, Geddel Vieira Lima, Renan Calheiros, Rodrigo Maia, Aécio Neves, ou mesmo Gilmar Mendes, Carmem Lúcia e os irmãos donos das Organizações Globo (José Roberto, João Roberto e Roberto Irineu Marinho). A plutocracia política, econômica, jurídica e midiática revela erros muito graves que o status social quer que sejam vistos como "coisa menor".
Com o nível de responsabilidades que têm os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário - é bom deixar claro que até o "super-herói" Sérgio Moro tem irregularidades graves em sua trajetória - , é assustador que haja tantos e tantos escândalos, porque o Brasil é deixado à deriva num momento em crises sociais profundas, algo que mais parece véspera de catástrofe.
No Rio de Janeiro, então, a serenidade de pessoas indiferentes a isso faz com que famílias entrem num restaurante mesmo quando um caminhão de lixo fedorento, cujo ar fétido flui em contato com a comida a quilo, contaminando os alimentos, e todos vão felizes fazer sua refeição sem saber que o contato do lixo com a comida pode produzir, após a ingestão, uma intoxicação alimentar.
A felicidade dos cariocas, não só eles mas principalmente eles, é um retrato surreal do país que mergulha em gravíssimas crises, que hoje culminam com as rebeliões nos presídios que não só envolvem a chamada "nata do banditismo" nacional, mas também envolvem supostos fornecedores de entorpecentes consumidos por gente rica nas festas.
É uma situação de calamidade pública, de provocar insônias e não sonos tranquilos, de inspirar apreensão e não tranquilidade, e que não permite relativismos do tipo "todo mundo erra". Isso é até uma hipocrisia, porque as elites são tão distintas em qualidades positivas, mas quando erram têm que ser niveladas ao cidadão comum, mesmo sendo erros graves de gente rica ao lado de erros pequenos de gente pobre ou de classe média.
E O "MOVIMENTO ESPÍRITA"?
A complacência ao erro também é muito comum no "espiritismo" brasileiro. A deturpação que teve em Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco seus maiores propagandistas é uma gravidade sem tamanho que empastelou, de forma deplorável e irresponsável, o legado de Allan Kardec.
Não se trata de algo acidental ou feito sem propósito, apoiado por boa-fé ou cometido pela falta de tempo. Chico Xavier e Divaldo Franco deturparam com muito gosto e propósito o legado kardeciano, mas seus fanáticos seguidores insistem que isso foi apenas efeito de "falta de tempo para estudar" os postulados espíritas, tese muito bonita e bem articulada, mas sem veracidade nem consistência.
A "falta de tempo para estudar" não procede como motivo da deturpação "acidental" porque tanto Chico quanto Divaldo produziram vários livros cujo conteúdo contraria severamente os postulados originais da Doutrina Espírita, e não se produz farto material por causa de um "pequeno erro de atenção" ou "falta de aprendizado".
Se fosse assim, qualquer calouro de faculdade já teria pronta sua tese de mestrado, com monografia pronta na base do achismo e enfeitada com linguagem empolada. O que os dois "médiuns" fizeram é de extrema gravidade e feita de puro propósito. Eles deturparam porque quiseram e gostaram, essa é a verdade mais crua, embora difícil de ser aceita por muitos.
Chico Xavier já tinha "dez anos de espiritismo", como se atribuía oficialmente, quando elaborou o livro Nosso Lar em 1943. O livro mostra uma "colônia espiritual", coisa que Allan Kardec em nenhum momento julgou plausível em suas obras, devido à inexistência de estudos que apontassem sequer um único indício de tais lugares no mundo espiritual. A vida espiritual apenas tinha existência aceita por argumentos lógicos, mas carecia de estudos para ver como ela era.
O "movimento espírita" criou práticas que mais parecem arremedos do que se fazia na Igreja Católica, como "água fluidificada" (nome que soa redundante), em lugar da "água benta" e o "auxílio fraterno", espécie de "confessionário". Nos "centros espíritas" brasileiros, a reunião de estudo tão citada pelo pedagogo de Lyon foi substituída por uma missa em que a única ruptura ocorreu no ritual do senta-e-levanta dos ritos, além do aparato pomposo de batinas, órgão etc.
Não há um aspecto do cientificismo de Allan Kardec que tenha sido adotado. Em primeira instância, porque a FEB teve como propósito original dar preferência a Jean-Baptiste Roustaing, que criou as raízes do "espiritismo" que conhecemos. Só depois, com a fase dúbia, nos anos 1970, é que se fez um "roustanguismo sem Roustaing", supostamente fiel aos postulados originais de Kardec.
E o que acontece? Acontece que os erros dos "espíritas" também são encarados como coisinhas pequenas. O fato deles admitirem que "erram o tempo inteiro", declaração que esconde uma falsa modéstia e um medo de sofrer os efeitos de suas irregularidades, revela o quanto o prestígio religioso serve não só para alimentar vaidades pessoais, mas também de proteger contra os efeitos naturais de suas decisões e práticas desacertadas.
Não há uma tradução de um livro sequer de Franz Anton Mesmer, o estudioso de Magnetismo que inspirou o professor Rivail a estudar os fenômenos espíritas e adotar o codinome Allan Kardec, e por isso os passes, não bastasse o caráter "passebo" (trocadilho com "placebo", relacionado a supostos remédios de efeitos inócuos), se reduzem apenas a um espetáculo de sacudir de mãos no ar ou tocando no corpo de alguém.
São erros cometidos de propósito, que por isso mesmo não podem ser minimizados nem relativizados. E os erros de Chico Xavier foram de uma gravidade imensa, que derrubam, como uma onda do mar atingindo um castelo de areia, sua reputação de "iluminado" e "espírito puro". Ele causou muita confusão e isso não é culpa dos que o questionaram, porque, no caso dos pastiches literários, os fatos mostram que os críticos literários que contestavam o "médium" estavam certos.
Não há como servir de "carteirada religiosa" para minimizar os erros gravíssimos vistos no "movimento espírita". Não há como atribuir, quando uma pessoa sofre desgraças em excesso, a culpabilidade da vítima, porque isso acaba revelando um juízo de valor severo, injusto e, portanto, muito cruel dos "espíritas", algo que se torna digno de processo por danos morais.
Os erros de Chico, Divaldo e seus semelhantes são de muita gravidade. Eles envolvem tanto o desprezo conceitual aos postulados espíritas originais quanto à indisposição de obter o rigor necessário das práticas mediúnicas, que no Brasil se reduziram a um faz-de-conta usado como propaganda religiosa.
São erros graves, porque os "espíritas" assumiram responsabilidades que pressupunham a consciência de virtuais erros, o que mostra que os "espíritas", principalmente os "médiuns" tão festejados e adorados, assumiram o risco diante dos deslizes que cometeram ao longo dos anos.
Achar que, só porque "todos erram", os "espíritas" devem ser eximidos de responsabilidade e, portanto, de sofrer os efeitos drásticos de seus atos, é ainda mais deplorável, porque isso revela o orgulho e o medo de ver sua reputação ser reduzida a nada diante da revelação de tão graves erros. É como se tivessem medo de caírem do alto da escada que constroem para o Céu.
A banalização do erro humano cria uma moral seletiva. Pessoas que cometem erros pequenos mas são desprovidas de prestígio social são seriamente criticadas, enquanto outras, que cometem erros gravíssimos e até crimes de arrancar os cabelos, são poupadas e vistas apenas como pessoas que cometem pequenas molecagens.
O Brasil começa a viver uma crise de status quo, porque é justamente nas pessoas dotadas de alguma superioridade, como na idade, no dinheiro, na fama, no diploma e no poder exercido de alguma forma é que se observam os erros mais graves e preocupantes, o que deixa os deslumbrados ainda acomodados na sua indiferença, vivendo na doce ilusão de que os "tarimbados", quando erram, apenas "erram como todo mundo".
O "errar como todo mundo", sob a desculpa de dizer "quem nunca erra?" ou "somos gente como a gente" faz com que haja essa complacência. O governo de Michel Temer, por exemplo, é uma terrível e assustadora catástrofe política e as pessoas não parecem preocupadas com isso. Até pouco tempo atrás, era o mesmo pessoal que se enfurecia só de ver a cara de Dilma Rousseff na TV.
Imagine você sendo passageiro de um navio que navega em águas revoltas num momento de tempestade e o timoneiro e a tripulação, além de cometerem delitos - digamos que eles cheguem até a furtar objetos das bagagens dos passageiros - , se desentendem seriamente a ponto de haverem casos de agressões físicas entre os conflituosos.
Imagine se o timoneiro deixa de guiar o navio por causa dessa confusão toda, que cria um caos nos bastidores e a embarcação ainda está rumando em direção a um rochedo. Você, passageiro do navio, permaneceria tranquilo numa situação dessas, acrescentando que o céu apresenta trovoadas, o ar se movimenta em vendaval e no mar se formam ondas gigantes?
A situação é como essa metáfora e o governo Michel Temer, que só pode ser considerado "governo" por uma simples formalidade, pois mais parece desgoverno, é recheado de tantos e graves deslizes e escândalos que só mesmo o surrealismo para explicar a serenidade das pessoas e a ingenuidade (ou cinismo?) de uns em rir desses escândalos, como se a tragédia fosse uma comédia?
São erros cometidos pelo próprio Temer e seus associados: Romero Jucá, Henrique Meirelles, Alexandre de Moraes, José Serra, Geddel Vieira Lima, Renan Calheiros, Rodrigo Maia, Aécio Neves, ou mesmo Gilmar Mendes, Carmem Lúcia e os irmãos donos das Organizações Globo (José Roberto, João Roberto e Roberto Irineu Marinho). A plutocracia política, econômica, jurídica e midiática revela erros muito graves que o status social quer que sejam vistos como "coisa menor".
Com o nível de responsabilidades que têm os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário - é bom deixar claro que até o "super-herói" Sérgio Moro tem irregularidades graves em sua trajetória - , é assustador que haja tantos e tantos escândalos, porque o Brasil é deixado à deriva num momento em crises sociais profundas, algo que mais parece véspera de catástrofe.
No Rio de Janeiro, então, a serenidade de pessoas indiferentes a isso faz com que famílias entrem num restaurante mesmo quando um caminhão de lixo fedorento, cujo ar fétido flui em contato com a comida a quilo, contaminando os alimentos, e todos vão felizes fazer sua refeição sem saber que o contato do lixo com a comida pode produzir, após a ingestão, uma intoxicação alimentar.
A felicidade dos cariocas, não só eles mas principalmente eles, é um retrato surreal do país que mergulha em gravíssimas crises, que hoje culminam com as rebeliões nos presídios que não só envolvem a chamada "nata do banditismo" nacional, mas também envolvem supostos fornecedores de entorpecentes consumidos por gente rica nas festas.
É uma situação de calamidade pública, de provocar insônias e não sonos tranquilos, de inspirar apreensão e não tranquilidade, e que não permite relativismos do tipo "todo mundo erra". Isso é até uma hipocrisia, porque as elites são tão distintas em qualidades positivas, mas quando erram têm que ser niveladas ao cidadão comum, mesmo sendo erros graves de gente rica ao lado de erros pequenos de gente pobre ou de classe média.
E O "MOVIMENTO ESPÍRITA"?
A complacência ao erro também é muito comum no "espiritismo" brasileiro. A deturpação que teve em Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco seus maiores propagandistas é uma gravidade sem tamanho que empastelou, de forma deplorável e irresponsável, o legado de Allan Kardec.
Não se trata de algo acidental ou feito sem propósito, apoiado por boa-fé ou cometido pela falta de tempo. Chico Xavier e Divaldo Franco deturparam com muito gosto e propósito o legado kardeciano, mas seus fanáticos seguidores insistem que isso foi apenas efeito de "falta de tempo para estudar" os postulados espíritas, tese muito bonita e bem articulada, mas sem veracidade nem consistência.
A "falta de tempo para estudar" não procede como motivo da deturpação "acidental" porque tanto Chico quanto Divaldo produziram vários livros cujo conteúdo contraria severamente os postulados originais da Doutrina Espírita, e não se produz farto material por causa de um "pequeno erro de atenção" ou "falta de aprendizado".
Se fosse assim, qualquer calouro de faculdade já teria pronta sua tese de mestrado, com monografia pronta na base do achismo e enfeitada com linguagem empolada. O que os dois "médiuns" fizeram é de extrema gravidade e feita de puro propósito. Eles deturparam porque quiseram e gostaram, essa é a verdade mais crua, embora difícil de ser aceita por muitos.
Chico Xavier já tinha "dez anos de espiritismo", como se atribuía oficialmente, quando elaborou o livro Nosso Lar em 1943. O livro mostra uma "colônia espiritual", coisa que Allan Kardec em nenhum momento julgou plausível em suas obras, devido à inexistência de estudos que apontassem sequer um único indício de tais lugares no mundo espiritual. A vida espiritual apenas tinha existência aceita por argumentos lógicos, mas carecia de estudos para ver como ela era.
O "movimento espírita" criou práticas que mais parecem arremedos do que se fazia na Igreja Católica, como "água fluidificada" (nome que soa redundante), em lugar da "água benta" e o "auxílio fraterno", espécie de "confessionário". Nos "centros espíritas" brasileiros, a reunião de estudo tão citada pelo pedagogo de Lyon foi substituída por uma missa em que a única ruptura ocorreu no ritual do senta-e-levanta dos ritos, além do aparato pomposo de batinas, órgão etc.
Não há um aspecto do cientificismo de Allan Kardec que tenha sido adotado. Em primeira instância, porque a FEB teve como propósito original dar preferência a Jean-Baptiste Roustaing, que criou as raízes do "espiritismo" que conhecemos. Só depois, com a fase dúbia, nos anos 1970, é que se fez um "roustanguismo sem Roustaing", supostamente fiel aos postulados originais de Kardec.
E o que acontece? Acontece que os erros dos "espíritas" também são encarados como coisinhas pequenas. O fato deles admitirem que "erram o tempo inteiro", declaração que esconde uma falsa modéstia e um medo de sofrer os efeitos de suas irregularidades, revela o quanto o prestígio religioso serve não só para alimentar vaidades pessoais, mas também de proteger contra os efeitos naturais de suas decisões e práticas desacertadas.
Não há uma tradução de um livro sequer de Franz Anton Mesmer, o estudioso de Magnetismo que inspirou o professor Rivail a estudar os fenômenos espíritas e adotar o codinome Allan Kardec, e por isso os passes, não bastasse o caráter "passebo" (trocadilho com "placebo", relacionado a supostos remédios de efeitos inócuos), se reduzem apenas a um espetáculo de sacudir de mãos no ar ou tocando no corpo de alguém.
São erros cometidos de propósito, que por isso mesmo não podem ser minimizados nem relativizados. E os erros de Chico Xavier foram de uma gravidade imensa, que derrubam, como uma onda do mar atingindo um castelo de areia, sua reputação de "iluminado" e "espírito puro". Ele causou muita confusão e isso não é culpa dos que o questionaram, porque, no caso dos pastiches literários, os fatos mostram que os críticos literários que contestavam o "médium" estavam certos.
Não há como servir de "carteirada religiosa" para minimizar os erros gravíssimos vistos no "movimento espírita". Não há como atribuir, quando uma pessoa sofre desgraças em excesso, a culpabilidade da vítima, porque isso acaba revelando um juízo de valor severo, injusto e, portanto, muito cruel dos "espíritas", algo que se torna digno de processo por danos morais.
Os erros de Chico, Divaldo e seus semelhantes são de muita gravidade. Eles envolvem tanto o desprezo conceitual aos postulados espíritas originais quanto à indisposição de obter o rigor necessário das práticas mediúnicas, que no Brasil se reduziram a um faz-de-conta usado como propaganda religiosa.
São erros graves, porque os "espíritas" assumiram responsabilidades que pressupunham a consciência de virtuais erros, o que mostra que os "espíritas", principalmente os "médiuns" tão festejados e adorados, assumiram o risco diante dos deslizes que cometeram ao longo dos anos.
Achar que, só porque "todos erram", os "espíritas" devem ser eximidos de responsabilidade e, portanto, de sofrer os efeitos drásticos de seus atos, é ainda mais deplorável, porque isso revela o orgulho e o medo de ver sua reputação ser reduzida a nada diante da revelação de tão graves erros. É como se tivessem medo de caírem do alto da escada que constroem para o Céu.
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