sexta-feira, 1 de julho de 2016
A decadência da grande imprensa brasileira
Nunca a grande mídia brasileira, sobretudo a imprensa associada, esteve numa decadência avassaladora. Desde que houve uma crise política durante o governo Dilma Rousseff, os jornalistas da grande mídia perderam a cabeça de vez e passaram a publicar até mentiras e meias-verdades para forçar a derrubada do governo e a substituição pelo confuso e retrógrado governo de Michel Temer.
Rede Globo e seus veículos noticiosos associados, como CBN, Globo News, a revista Época e, sobretudo, o jornal O Globo, estabelecem o coro feroz junto à revista Veja - de um reacionarismo ainda mais rabugento, trapaceiro e rancoroso - , a Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo, em que o jornalismo se torna um brinquedo a serviço das vontades pessoais de seus donos, representantes de elites dominantes do país.
Mesmo outros veículos que hesitam entre um falso progressismo e explosões reacionárias doentias, como a Isto É, a TV Bandeirantes e mesmo a rádio baiana Metrópole FM, também se inserem nesse contexto, até porque também seguem o tendenciosismo da exploração da informação.
A Bandeirantes, por exemplo, tem o exemplo do jornalismo policialesco do Brasil Urgente, comandado por José Luiz Datena. Já na Rádio Metrópole, é notório o culto da personalidade que cerca seu dono e principal locutor, Mário Kertèsz, que como prefeito de Salvador havia armado um estarrecedor esquema de corrupção (a origem da Rádio Metrópole teria sido a aquisição das ações devido ao esquema de desvio de dinheiro público).
O jornalismo perdeu a qualidade em todos os sentidos. Os redatores e repórteres se tornaram submissos e passaram a escrever muito mal. Os editores e chefes de redações viraram apenas funcionários de plantão que só estão preocupados em vender um produto. Graças a isso, o jornalismo, quando não sofre erupções reacionárias, segue uma maresia de matérias acríticas e de recusa a abraçar questionamentos e reivindicações sérias.
Dá até para perceber que o redator-chefe é normalmente uma pessoa mal-humorada que só pensa no faturamento do produto jornalístico. Ele vê a notícia como mercadoria e normalmente adota uma linha editorial inofensiva e inócua. Só em casos como a presença, num poder governamental, seja ele federal, estadual ou municipal, de políticos contrários aos interesses do dono de cada veículo midiático, é que a maresia acrítica dá lugar a outro extremo, o criticismo cego e caluniador.
Daí o caso do segundo mandato de Dilma Rousseff, que fez a outrora moderna imprensa brasileira cair para um obscurantismo oposicionista típico de jornalecos e radiocas de regiões rurais interioranas. Literalmente, a máscara caiu e aquela "imprensa cosmopolita" demonstrou ser, na verdade, um reles coronelismo jornalístico.
Durante o governo Lula, quem primeiro revelou seu reacionarismo foi a Folha de São Paulo, controlada pela família Frias (seu atual titular, da família, é Otávio Frias Filho). Jornal que, entre os anos 1980 e 1990, construiu uma imagem de "moderno" e "progressista", passou a fazer uma oposição feroz a Lula que deu impulso a uma linha editorial caluniadora e falaciosa.
A Folha não só deixou a máscara cair como permitiu que seus contestadores fossem para a memória do passado para revelar às novas gerações que o jornal paulista havia emprestado suas viaturas para transportar presos políticos para o DOI-CODI, tenebroso órgão de repressão da ditadura militar.
Diante desse reacionarismo, a Folha também teve seu projeto de modernização, chamado "Projeto Folha", revelado como um processo de "limpeza ideológica" que expulsou vários esquerdistas, em prol de uma linha editorial neoliberal.
Destaca-se também a figura de Pedro Alexandre Sanches, jornalista cultural criado pelo Projeto Folha que, defendendo uma visão mercadológica da cultura brasileira, foi militar tendenciosamente na imprensa de esquerda para nelas tentar impor uma visão que aprendeu nas redações junto a Otávio Frias Filho, abordando a cultura popular de forma ao mesmo tempo caricatural e mercantilista, embora com argumentos falsamente modernistas.
Na Folha, nota-se também que, nos últimos meses, foi contratado para ser colunista na Folha um estudante que, diante da histeria anti-PT, destacou-se como um pretenso ativista através do Movimento Brasil Livre, Kim Kataguiri que, pelo seu péssimo entendimento de História e sua linguagem mediocremente panfletária de sua coluna, é visto com estranheza até por jornalistas da Folha. Kim costuma ser definido pejorativamente como "cidadão de kimta katiguria".
A Veja, no entanto, é campeã de reacionarismo. Com uma linha editorial rancorosa que contagia até seções culturais - as críticas de cinema eram quase sempre feitas sob um cinismo niilista e cegamente iconoclasta - , a revista do Grupo Abril se "consagrou" pelo raivoso reacionarismo de nomes como Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi, que sempre escreveram como se fossem trolls das redes sociais.
O reacionarismo de Veja combate todos os movimentos sociais. Estudantes, trabalhadores, camponeses, tribos indígenas, nada escapa da metralhadora giratória de Veja, que surgiu moderada em 1968, havia sido conservadora nos anos 1980 e, uma década depois, caiu no reacionarismo que se observa hoje.
MENTIRA PUBLICADA NA CAPA DE UMA EDIÇÃO DE VEJA.
A oposição a Dilma Rousseff, Lula e, no conjunto da obra, do Partido dos Trabalhadores, tem na Veja seu veículo mais virulento, em que mentiras e difamações, sobretudo contra os dois governantes, são feitas de maneira impune.
Numa das mentiras que viraram capa, inventou-se que Lula iria pedir asilo à Itália (com base na ideia de que o país europeu é berço da Máfia) para fugir da prisão e, em outra capa, Lula apareceu em foto-montagem vestindo roupa de presidiário. Diante dessa linha editorial, Veja acumula grandes estoques de exemplares encalhados toda semana, com a edição corrente chegando às bancas vendo pilhas da edição anterior que fracassou nas vendas.
O efeito da histeria anti-PT, no entanto, se tornou mais bem-sucedido através da Rede Globo, cujo histórico revela uma coleção de episódios sombrios que vêm desde quando ela era apenas um projeto de concessão de um canal de TV para a Rádio Globo do Rio de Janeiro, em 1957, oito anos antes de sua inauguração, desenvolvida com parceria ilegal com o grupo estadunidense Time-Life.
A Rede Globo foi fortalecida durante a ditadura militar, que ela apoiou, na mesma época em que a progressista TV Excelsior praticamente morreu estrangulada pelas pressões econômicas e burocráticas do regime militar.
Além disso, a Globo é conhecida, fora do âmbito jornalístico, de manipular o comportamento humano. No final dos anos 1970, relançou o mito do "médium" Chico Xavier baseado no que o jornalista da BBC, Malcolm Muggeridge, fez com Madre Teresa de Calcutá.
Culturalmente, a Globo chamou o ex-músico da Jovem Guarda, Michael Sullivan, para fazer um "desmonte" da MPB. Ele era compositor de sucessos de Xuxa Meneghel, apresentadora que representou o processo de sexualização do público infantil além de seu impulso para o consumismo e para a antecipação do estilo de vida adolescente na infância.
Nos anos 2000, a Globo investiu no sucesso do "funk carioca" como um processo de domesticação das populações pobres e de sabotar os debates sobre cultura popular no Brasil. Também nos anos 2000, usou a gíria "balada" para testar seu êxito na dominação das mentes do público jovem através do apresentador Luciano Huck.
Politicamente, a Globo é também conhecida por boicotar a cobertura noticiosa do movimento Diretas Já, em 1983 e 1984, por ignorar o favoritismo de Leonel Brizola para o governo do Estado do Rio de Janeiro e manipulou seus noticiários para influenciar os brasileiros a votarem, em segundo turno, no conservador Fernando Collor para a presidência da República, derrotando o rival Lula.
Normalmente, a Globo faz sua enérgica oposição ao PT e outras forças progressistas de maneira comedida, embora muitas vezes agressiva e eventualmente escancarada. Mas a coisa se intensificou quando, diante da denúncia de blogueiros progressistas de que um dos donos das Organizações Globo, João Roberto Marinho, estaria envolvido na construção ilegal de uma casa triplex em uma área de proteção ambiental, em Paraty, no Sul Fluminense, a empresa reagiu.
Foi aí que a Globo se nivelou a Veja e uma campanha violenta para tirar Dilma Rousseff do poder fez muitos cidadãos convertidos para um neoconservadorismo doentio vestirem a camiseta da Seleção Brasileira de Futebol, ignorando que a CBF tem um grave histórico de corrupção para pedir o fim desta prática no Governo Federal.
Foi diante dessa pressão que se abriu o processo de impeachment de Dilma Rousseff, com votações na Câmara dos Deputados (presididas pelo corrupto Eduardo Cunha) e do Senado Federal, com o respaldo de setores corrompidos do Poder Judiciário - através de figuras de valor ético duvidoso como Sérgio Moro e Gilmar Mendes - e que culminaram no atual governo de Michel Temer.
Esse processo, articulado pelo poder midiático, político e judiciário ligado às elites conservadoras, demonstra caraterísticas de um plano golpista, fato que é reconhecido mundialmente por jornalistas, acadêmicos e cientistas políticos mais conceituados e não necessariamente de esquerda e muito menos vinculados ao PT.
O aspecto risível, no entanto, está em comentaristas da revista Época e da Globo News, entre outros veículos da mídia reacionária, mesmo os não ligados à Globo, tentarem impor sua visão surreal à realidade, tentando desqualificar a visão da imprensa estrangeira, que, comprometida com a honestidade dos fatos, tem conhecimento de causa para perceber que o governo Temer foi instaurado por meio de um golpe político-jurídico.
A imprensa brasileira, que mostra seu grau de desequilíbrio emocional com Reinaldo Azevedo escrevendo artigos rancorosos e usando linguagem jocosa, ou Merval Pereira e Cristiana Lobo, da Globo News, mostrando surtos de raiva ou choro, é que não quer saber da realidade brasileira, até porque ela vai de encontro aos interesses dos grupos empresariais que controlam os meios de Comunicação no Brasil.
É através desse comportamento narcisista de impor suas mentiras pessoais à realidade que salta aos olhos do mundo inteiro que faz com que a imprensa brasileira entre num processo irrecuperável de decadência, com seus principais veículos demonstrando uma atuação cada vez mais desastrosa e vergonhosa diante da tarefa de transmitir informação à sociedade.
quarta-feira, 29 de junho de 2016
"Escola Sem Partido" faz os brasileiros pensarem sobre valores retrógrados da Educação
Recentemente, numa comunidade de ateus nas mídias sociais, um integrante - talvez um religioso "espírita" e deísta entusiasmado que só entrou nela para fazer proselitismo e "converter" as pessoas - chegou a defender o anti-médium baiano Divaldo Franco sob o pretexto de que ele, tido como "maior filantropo do Brasil", tinha um "revolucionário" projeto educativo na sua Mansão do Caminho, em Salvador.
Tal alegação é duvidosa se confrontarmos com os fatos que a realidade mostra, com a Mansão do Caminho não chegando a beneficiar 1% da população de Salvador e muito menos a população brasileira, como um todo e seu projeto educacional segue o mesmo modelo inócuo e paliativo de ensinar apenas coisas básicas e, no recheio, transmitir dogmas religiosos.
As pessoas acabam entendendo mal e invertendo as coisas. Veem como "transformador" um método educacional que possui o manto religioso e manipula as pessoas com crenças e ritos dissimulados pelas tarefas de ensinar a ler, escrever e trabalhar. E veem como "manipulador" um método educacional que estimula o questionamento e a mobilização social, ensinando as pessoas a pensar criticamente a vida e não aceitar tudo de mão beijada.
Como é que um igrejeiro como Divaldo Franco, que, a exemplo de Francisco Cândido Xavier, o festejado Chico Xavier do catolicismo enrustido do "movimento espírita", prega conformação no sofrimento e desaconselha o senso crítico, é considerado "mais transformador" que Paulo Freire, que priorizava o raciocínio questionador e a busca das pessoas de superar a pobreza e a ignorância pelo ativismo e pela mobilização?
Diante desse quadro estarrecedor, em que a educação que manipula é vista como "não-manipuladora" e vice-versa, um fato político veio à tona para mostrar os equívocos que estão por trás do mito da educação "transformadora" que vive sob a sombra da religiosidade.
Trata-se de um engodo chamado "Educação Sem Partido", uma farsa arquitetada pelos setores da sociedade organizada que foram os mesmos que se manifestaram vestidos de verde e amarelo nas passeatas contra a presidenta Dilma Rousseff.
Exposto por Alexandre Frota - famoso ator que fez sucesso nas novelas Roque Santeiro e Sassaricando, que depois virou ator pornô e atualmente é evangélico - ao lado do líder do movimento Revoltados On Line, Marcello Reis, ao ministro da Educação do governo Michel Temer, Mendonça Filho, o projeto reflete o contexto de uma sociedade reacionária em ascensão.
Alexandre Frota faz parte de uma legião de famosos que passaram a apresentar pontos de vista bastante reacionários e superestimaram o direito de fazer oposição aos governos do Partido dos Trabalhadores com um ódio cego e intolerante.
Além de Frota, militam pela "causa" nomes como os roqueiros Lobão e Roger Moreira (da banda Ultraje a Rigor), o comediante Danilo Gentili, jornalistas como Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Guilherme Fiúza, Eric Bretas, Merval Pereira e Diego Escosteguy, a apresentadora e também jornalista Rachel Sheherazade, a ex-jogadora de volei Ana Paula, o ator Thiago Lacerda e os escritores Luiz Felipe Pondé, Rodrigo Constantino, Marco Antônio Villa e Olavo de Carvalho.
PATRULHAMENTO IDEOLÓGICO NA ESCOLA "SEM IDEOLOGIAS"
O projeto "Escola Sem Partido" consiste em criar um projeto pedagógico "neutro", asséptico, no qual os professores estão proibidos de estimular o raciocínio crítico nas escolas, além de serem recomendados a evitar a discussão de problemas cotidianos e de transformações sociais que permitem a ascensão social de negros e a legitimidade social das relações homossexuais.
Em São Paulo, já se aplica esse projeto ideológico tido como "sem ideologias" em algumas escolas. Diante da sede arrivista das forças reacionárias no Brasil, que torcem para que Dilma Rousseff seja definitivamente afastada do poder em agosto próximo, o medo é que esse projeto educacional, que mais parece digno da ditadura militar, seja implantado em todo o país e passe a deformar gerações e gerações de cidadãos.
A ditadura militar já deformou gerações inteiras de cidadãos por conta de projetos educacionais voltados somente para o mercado, que mais desensinavam que ensinavam, transmitindo mentiras religiosas e até históricas, o que resultou nesse quadro que vemos com distorções alarmantes, do mercado de trabalho à cultura e ao entretenimento, tomados da mais assustadora mediocrização social.
O grande perigo é que esse projeto "Escola Sem Partido" leve às últimas consequências todo o método educacional da ditadura militar, que foi tão nocivo que chegou a enviar líderes estudantis menos perigosos para regiões distantes do país, isolados dos colegas, sob o pretexto de trabalharem o Projeto Rondon, fachada de educação em lugares distantes para desestruturar os movimentos estudantis contra a ditadura.
A "Escola Sem Partido" é, na verdade, um projeto partidarizado. Como "projeto de lei", é proposto, só para perceber o nível da coisa, por Jair Bolsonaro e seus familiares. Tem, na verdade, o selo do PSDB, PMDB, PP e PSC, entre outros associados, o que mostra que, só por ser pluripartidarizado, não significa que seja "apartidário".
Muito pelo contrário, esse projeto educacional "sem ideologias" tem muito de ideológico. Não quer expor questões ligadas a raça e gênero sexual, mas ensina valores de uma sociedade patriarcal e, sobretudo, teocrática, transmitindo uma ideologia que também se volta para o mercado, criando pessoas subservientes dentro de uma sociedade que é também tecnicista.
Um dos aspectos mais graves do "Escola Sem Partido" é a patrulha ideológica disfarçada de meios jurídicos. Professores podem ser denunciados pelos pais de alunos quando os docentes passarem a transmitir conhecimento e reflexão questionadora e adotarem métodos pedagógicos que escaparão do que as chamadas "boas famílias" esperam dos alunos.
Isso é gravíssimo. Os professores podem ter suas aulas gravadas a pedido dos pais e, se os profissionais de ensino transmitirem ideais humanistas e promoverem debates sobre problemas cotidianos, eles poderão ser processados judicialmente e serem demitidos ou receber outras punições. Por trás desse projeto "sem ideologias", há a defesa ideológica e o mecanismo de "caça às bruxas" para combater quem fuja do padrão asséptico-conservador do projeto "Escola Sem Partido"
Vivemos os tempos em que os concursos públicos, se valendo de um padrão moralista de estudo, em que a quantidade vale mais que a qualidade (estudar demais e aprender menos devido a sobrecarga de matérias e material), voltaram a exigir Matemática e Raciocínio Lógico a funções que nada têm a ver com isso.
Também vivemos os tempos em que o poder das universidades particulares aumenta e os cursos de pós-graduação se tornam cada vez menos gratuitos, mesmo em universidades públicas, afunilando cada vez mais a formação superior, uma vez que a pós-graduação hoje, em época de degradação do sistema de ensino, é a nova "universidade", já que a graduação universitária do Brasil medíocre tornou-se um novo "ensino médio", mais para high school que para nível superior.
O grande risco do projeto "Escola Sem Partido" é que valores ligados ao preconceito social, à supervalorização do mercado e ao proselitismo religioso serão ensinados, e estes são muito mais ideológicos e partidarizados do que a "escola marxista" que só existe nas mentes dos reacionários que querem o projeto educacional proposto ao governo Temer.
O Método Paulo Freire e outros métodos que, embora menos ousados, se empenhavam em favor da educação pública e ao desenvolvimento mental dos alunos não eram projetos ideológicos ou partidarizados. A histeria anti-comunista e anti-petista do reacionários de plantão é que inventou tudo isso, por não suportar projetos educacionais que estimulem pessoas a questionarem as injustiças existentes no mundo de hoje.
E vemos no "movimento espírita" a mesma atitude, embora de forma velada, Uma religião (que muitos se recusam a ver como tal) que acha "progressista" Chico Xavier dizer para os sofredores aceitarem as desgraças em silêncio e nunca revelar o sofrimento para outrem aceita qualquer coisa retrógrada como "positiva".
Talvez os "espíritas" estivessem rezando para que o projeto educacional ultraconservador, exposto por duas figuras estranhas ao meio pedagógico, incluindo um "revoltado" da Internet (logo os "espíritas" que tanto reprovam essa ideia de "revolta"), pelo menos seja "em favor da solidariedade e do amor ao próximo".
Daí o contexto vago de "solidariedade" e "bondade" como subprodutos da religião. Talvez os "espíritas" defendam com entusiasmo a "Escola Sem Partido", se ela pôr em prática o ensinamento de "valores cristãos".
Embora os "espíritas" não se misturem aos neopentecostais no conjunto da obra, eles se dão as mãos em muitas causas reacionárias, como o combate radical ao aborto. Até porque os "espíritas" já arrumam a "Lei de Causa e Efeito" para recomendar à estuprada que se case com o estuprador, já que a religião estabelece preceitos moralistas através do pretexto dos "resgates espirituais".
O grande problema é que o projeto "Escola Sem Partido" será um retrocesso para o Brasil, em níveis calamitosos. Ensinará mistificação religiosa, moralismo social, preconceitos de etnia, cor e gênero, valores mercantilistas que reforçam o egoísmo e a concorrência desleal, e criará uma grande marcha-a-ré social para o país, criando gerações bem mais deformadas que as educadas pela pedagogia ditatorial. O partido da Escola do Partido é a degradação do Brasil.
segunda-feira, 27 de junho de 2016
O catastrofismo e a sede mística de "sangue"
Há correntes ideológicas bastante traiçoeiras, que reúnem em seu conteúdo visões esotéricas, utopias ufológicas e conceitos pseudo-científicos, que se valem dessa verdadeira gororoba teórica para pregar catastrofismos e promessas messiânicas.
Os "profetas modernos" que se valem de rótulos como "filosofia", para pregar não a busca da verdade mas o obscurantismo, eventualmente usam a "psicologia do terror" para intimidar as populações e fazê-las viver sob o signo do medo, tornando-se vulneráveis a tiranias locais e a seitas dominadoras.
Ha o rumor dos gigantescos maremotos que dariam com a explosão do vulcão Cumbre Vieja (termo que, numa tradução aproximada, significa "Montanha Velha"), na Ilha de La Palma, que faz parte das Ilhas Canárias, arquipélago próximo à Península Ibérica (Portugal e Espanha), cujas rochas resultantes de lava endurecida seriam jogadas no Oceano Atlântico causando uma tsunami de cem metros.
Segundo relatos de cientistas que acreditam nesta tese, as ondas atingiriam dimensões que arrasariam cidades litorâneas inteiras, destruindo cidades da Costa Leste dos EUA, como Nova York, e as regiões Norte e Nordeste do Brasil. De acordo com esta teoria, o Estado do Amapá desapareceria do mapa.
O catastrofismo é surreal, porque seria difícil as ondas permanecerem gigantescas por todo o caminho. A tendência natural é uma onda crescer demais e diminuir em seguida. Mesmo na tsunami que atingiu a Indonésia e outros países asiáticos já estava em declínio, mais parecendo um alagamento, como num rio transbordando. E, vindo de uma grande distância, as ondas já estariam fracas no meio do Atlântico, dificilmente ameaçando as regiões, senão através das habituais ressacas.
A tese leva em conta uma suposta tsunami gigantesca que atingiu o Alasca, há 4 mil anos. Até porque é bastante duvidoso que um evento desses aconteceu com tamanha precisão, sabendo-se que teria sido o último grande evento do porte que teria acontecido na Terra.
Outros cientistas acham que isso é pura especulação e o geólogo e consultor Antônio Feijão usou uma leve ironia para contestar a tese por demais catastrófica:
"Com todo respeito aos geólogos e vulcanólogos que fizeram esses estudos, há centenas de variáveis que precisam ser inseridas e consideradas em seu modelo de previsão catastrófico. Mas o mais importante nesse momento é uma questão, à moda Garrincha, e perguntar se eles, os cientistas, combinaram com Deus o que irá acontecer com o Vulcão Cumbre Vieja, na Ilha de La Palma".
DATA-LIMITE TAMBÉM REVELOU CATASTROFISMO
A suposta catástrofe já havia sido anunciada em uma notícia do Fantástico que, sabemos, é um programa da Rede Globo, que além dos interesses comerciais inerentes, investe no sensacionalismo e na mentira para garantir a prevalência de um padrão ideológico que favorece seus empresários, os filos de Roberto Marinho. Vide, por exemplo, a campanha difamatória feita contra a presidenta Dilma Rousseff.
Certos catastrofismos podem revelar intenções ideológicas ocultas. O catastrofismo é uma forma de "psicologia do medo", estratégia tramada por políticos, empresários e setores científicos - é bom lembrar que mesmo entre cientistas e juristas há corrupção, e neste segundo caso a atuação tendenciosa do Poder Judiciário brasileiro é ilustrativa - para amedrontar a humanidade e fazê-la submissa a qualquer arbítrio que prometa suposta proteção de toda ordem.
O catastrofismo do vulcão Cumbre Vieja é comparável com supostas "profecias" que o "médium" Francisco Cândido Xavier teria dito, nos anos 1980, a Geraldo Lemos Neto, com base num sonho em 1969. A "previsão da data-limite" tinha uma tese surreal que envolvia um detalhe catastrofista bastante grave.
Segundo essa predição, o Hemisfério Norte seria uma região inabitável porque o problema dos conflitos internacionais e do terrorismo não seriam resolvidos e, com isso, Deus (?!) castigaria as nações belicistas impondo catástrofes naturais que iriam destruir as nações do Primeiro Mundo.
Chico Xavier teria revelado visões equivocadas de caráter geológico e até sociológico. Afirmava que populações eslavas iriam migrar para o Nordeste brasileiro, se esquecendo que a própria História do Brasil revelava que os primeiros eslavos que colonizaram o país migraram para a Região Sul e, quando muito, no interior de São Paulo.
Outros aspectos são a presunção de que estadunidenses iriam migrar para o Norte do Brasil, algo que contraria a natureza sociológica de que o povo dos EUA tende mais a migrar para o Rio de Janeiro e São Paulo, sociologicamente similares a cidades como Nova York e Los Angeles.
Chico Xavier também cometeu o grave erro de dizer que o Chile seria poupado da catástrofe. Se haveriam explosões vulcânicas e terremotos que destruiriam áreas como o Estado da Califórnia, nos EUA, e o Japão, é evidente que o Chile desapareceria da mesma forma, por fazer parte do mesmo Círculo de Fogo do Pacífico, região de intensas atividades vulcânicas e sísmicas.
IDEOLOGIA OCULTA
O que está por trás desses relatos tão assustadores, comparáveis a tantos outros que anunciaram várias vezes um "fim do mundo" que não se concretizou? Em muitos aspectos, tais "profecias" se revelam inconsistentes, por ignorar que certos processos catastróficos não teriam condições de acontecer, de fato.
Por trás do processo de deixar a humanidade amedrontada, criar fluxos migratórios desesperados para o interior dos continentes, dentro de um processo desesperado comparável ao da migração dos povos da Síria e outros países do Oriente Médio para a Europa, no qual há muitos naufrágios e outras tragédias, existe um conteúdo ideológico muito perverso.
Trata-se de uma espécie de "holocausto místico", um sutil "desejo de sangue" diante da insegurança que setores conservadores da sociedade têm diante da sua perda de privilégios de poder. O catastrofismo seria uma forma de mascarar um desejo genocida de alguns privilegiados com a "responsabilidade religiosa de Deus" e a "suposição higienista da Natureza", que "limpariam" o planeta exterminando áreas consideradas "ameaçadoras" para o status quo dominante.
Mesmo a "profecia" de Chico Xavier revela um dado muito cruel: a "possibilidade" de exterminação de regiões dotadas de adiantado progresso social, mesmo regiões imperfeitas e em séria crise como França, Itália e Grécia. A eliminação do Hemisfério Norte seria algo comparável ao do incêndio na biblioteca de Alexandria, no Egito, e na destruição da Grécia no declínio da Antiguidade.
No Brasil, a recente recuperação do Norte e Nordeste que, aos poucos, se emancipam de décadas de coronelismo político, econômico e sócio-cultural, e que esboçam um tímido mas notável progresso em relação a regiões que agora sofrem decadência avassaladora, como o Sul e Sudeste, sobretudo o Estado do Rio de Janeiro, unidade federativa que mais decaiu em todo o Brasil.
O Norte e Nordeste se tornaram símbolos dos graduais avanços sociais dos governos de Lula e Dilma Rousseff na presidência da República. É até ilustrativo que um blogue de "filosofia imortal" - que de "filosofia" só tem o nome, vide o conteúdo esotérico e pseudo-científico que expressa - tenha requentado a notícia da "tsunami do vulcão Cumbre Vieja" já que sua linha editorial sinalizava para uma sutil oposição a Lula e Dilma.
No caso de Chico Xavier, seu ufanismo brasileiro de caipira ultraconservador, claramente expresso no programa Pinga-Fogo, da TV Tupi de São Paulo, em 1971, condiz com as supostas profecias que ele teria falado para Geraldo Lemos Neto. Embora certas correntes chiquistas desmintam essa "profecia", ela está de acordo com o que os livros lançados pelo "médium" haviam descrito em várias passagens.
Chico Xavier era um católico ortodoxo, no que se refere às ideias e crenças da Igreja Católica por ele professas. Isso é fato. E Chico era adepto fervoroso da Teologia do Sofrimento, corrente de origem medieval que definia as desgraças como um processo de "purificação" da alma humana. Madre Teresa de Calcutá teria sido outra de suas adeptas e muitos acusavam ela de usar essa teoria para permitir os maus-tratos a seus assistidos nas Casas dos Moribundos.
Ainda que não haja nem venha a haver qualquer declaração oficial do "movimento espírita" de que Chico Xavier era adepto da Teologia do Sofrimento, e há quem diga que essa tese é "absurda", as próprias frases deixadas pelo "médium", relacionadas ao "sofrimento sem queixumes", revelam explicitamente isso. Não há possibilidade de afirmar "não foi Chico Xavier quem disse" porque a Teologia do Sofrimento saltou de suas próprias palavras.
E aí, juntando as peças do quebra-cabeça, a "profecia da data-limite" revela um caráter conservador, de evitar que a Terra assimile a experiência longa de nações desenvolvidas e, repetindo as tentativas de eliminar as lições da Antiguidade clássica (só duramente recuperadas no século XVIII), eliminasse o "velho mundo" sob supostas acusações de estimular o egoísmo materialista, abrindo o caminho para um cambaleante Brasil tomar as rédeas da humanidade remanescente.
Chico Xavier havia descrito, nessa "profecia", que as lacunas do Hemisfério Norte seriam preenchidas pela vinda de extra-terrestres, algo que condiz com o que ele declarou em várias ocasiões, sobretudo no Pinga-Fogo.
Mas o que está por trás de tudo isso é o fim das lições do "velho mundo", que, quando muito, só permaneceriam em réplicas disponíveis nos países do Hemisfério Sul. Além de uma grande porção de celebridades e intelectuais renomados serem exterminadas nessa hipotética catástrofe, nomes discriminados pelo "espiritismo" brasileiro como Wolfgang Bargmann, Percival Lowell e Franz Anton Mesmer também "desapareceriam" de vez.
Dessa forma, prevaleceria, na visão de Chico Xavier, o desejo de uma nova Idade Média, na qual o "espiritismo" brasileiro, que demonstrou ser a herança do Catolicismo medieval por intermédio de sua expressão portuguesa - que prevaleceu no Brasil até meados do século XX, quando a Igreja Católica optou por reformas que o "movimento espírita" não acompanhou - , seria a "religião do mundo", lembrando as pespectivas trazidas por Jean-Baptiste Roustaing em Os Quatro Evangelhos.
O mundo teria que aceitar teses absurdas como atribuir a Chico Xavier suposto pioneirismo em descobertas científicas como as funções da glândula pineal e a risível previsão de descoberta de vida em Marte, atribuindo a livros do "médium" lançados em 1935 e 1939 tudo que o astrônomo do Arizona (EUA), Percival Lowell, havia estudado bem antes do caipira de Pedro Leopoldo nascer.
Quanto ao catastrofismo, isso revela apenas um jogo psicológico, que agrada muito pessoas que seguem uma visão conservadora. E há cientistas e juristas que também se corrompem, adotando visões equivocadas e métodos tendenciosos. Sobretudo num Brasil em que tanto o "cientista" Alexander Moreira-Almeida quanto o "jurista" Sérgio Moro camuflam seus erros metodológicos e suas incompreensões risíveis com uma pose de "sérios".
sábado, 25 de junho de 2016
Por que o apego aos retrocessos?
AÉCIO NEVES SAUDANDO MICHEL TEMER - Governo retrógrado e corrupto dos derrotados de 2014.
O que tem em comum o governo Michel Temer, os atentados numa boate gay em Orlando, a ascensão da extrema-direita na Europa e o fundamentalismo do Estado Islâmico? Em diferentes contextos, há um saudosismo perigoso de uma parcela da sociedade pedindo para voltar tempos de valores sociais mais retrógrados.
2016 se revela um ano problemático. Pessoas consideradas de alguma contribuição moderna para a sociedade, como o escritor Umberto Eco e o cantor David Bowie, faleceram. Em contrapartida, políticos idosos como José Sarney e Paulo Maluf se recusam a sair de cena e a sociedade patriarcalista e machista vive com medo de ver os feminicidas Pimenta Neves e Doca Street, com fortes indícios de doenças graves em estágio avançado, morrerem de repente.
Morreram também talentos promissores, como o ator Aaron Yeltchin e a cantora Christina Grimmie. É um ano em que cidades antes consideradas redutos de modernidade, como Paris e Rio de Janeiro, sucumbem a decadências vertiginosas, desafiando aqueles que ainda creem nessas cidades como "modelos" a serem seguidos pelas demais regiões. É também um período em que as mídias sociais (do antigo Orkut ao atual WhatsApp) mostra internautas cada vez mais retrógrados e ignorantes.
Além disso, há a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, complicando a integridade econômica, e, no Brasil, um confuso governo interino, que se pretende efetivo - Michel Temer fala em governar até o fim de 2018 - , com base numa agenda cheia de retrocessos e com uma equipe e base de apoio (neste caso com Aécio Neves, Eduardo Cunha e companhia) envolvida em escândalos de corrupção.
Há um grande apego aos retrocessos. Uma nostalgia doentia, que acaba criando em seus defensores um rompimento com a realidade, já que o radicalismo das convicções sociais faz com que muitos reajam contra princípios realistas, contra a lógica e contra a ética.
Retornam movimentos extremistas que vão desde o fundamentalismo religioso que reivindica uma volta às crenças de, pelo menos, dois mil anos atrás, até grupos que querem uma higienização racial para promover uma sociedade, pelo menos, de maioria branca. Há os plutocratas, os machistas, os racistas, os elitistas que também querem um mundo praticamente exclusivo deles.
No Brasil, um fato aberrante é a boa reputação que um encrenqueiro como Jair Bolsonaro tem para uma parcela considerável de brasileiros e a criação de movimentos como "International Klans", que espalhou panfletos em alguns lugares em Niterói. E há o medo do hesitante governo Michel Temer, a exemplo dos primeiros anos "frouxos" da ditadura militar, se converter em uma conduta ainda mais cruel e repressiva para a população.
Nos EUA, grupos racistas e homofóbicos eventualmente se manifestam, fora os atiradores de diversas origens que praticam chacinas em várias partes do país. O Klu Klux Klan, de triste lembrança, continua existindo. Na Europa, grupos de extrema-direita atraem adeptos em vários países, e um fascista de 52 anos assassinou uma parlamentar britânica que defendia a permanência do Reino Unido na União Europeia e depois foi preso.
As pessoas em geral perderam a noção da realidade, as mídias sociais incluem de reacionários doentios que praticam cyberbullying a fãs "afogados" nas suas fantasias que, contrariados com a realidade, querem matar seus ídolos.
A ilusão da "tecnologia de ponta" revela um caminho inverso da humanidade desinformada que, conhecendo vagamente fatos passados, sem fazer o discernimento necessário, acabam se interessando por eles e defendendo uma sociedade ainda mais retrógrada.
Um tempo em que mulheres eram coisas e machistas, deuses (daí que feminicidas, por exemplo, "nunca podem morrer"). Que patrões detinham o monopólio de decisão sobre os empregados. Que os aumentos de preços eram suportados como sendo decisões divinas. Que os tecnocratas sempre decidiam pelo povo, por pior que seja uma decisão. Que divindades e lendas guiavam multidões a seus templos de adoração. Que ruas só eram ocupadas por "brancos limpinhos e perfumados".
Mesmo a rebeldia é guiada para defender tais valores obscurantistas. Um "espírito do contra" que vê num retrocesso uma forma de catarse, um saudosismo obscurantista, um "medo da clareza" e um pavor do progresso, que faz com que os incomodados do Sol do futuro corram, ao mesmo tempo ferozes e assustados, ameaçadores e fugitivos, às suas "cavernas de Platão".
A coisa acontece de forma tão aberrante que, no Brasil, a chamada grande imprensa (Globo, Folha, Veja, Estadão) chega a impor sua visão míope das coisas, se revoltando quando jornalistas estrangeiros retiram a máscara do golpismo político do governo Temer e sua equipe de "notáveis" corruptos.
Um comentarista de Época, Guilherme Fiúza, chegou a cometer uma violenta gafe, publicando um texto no qual acusa o jornal estadunidense New York Times de ser patrocinado pelo PT. Fiúza "pagou mico" diante de correspondentes internacionais conceituados.
Recentemente, o empresário da Folha de São Paulo, Otávio Frias Filho, levou uma bronca de uma jornalista britânica que definiu a grande mídia brasileira como golpista e voltada aos interesses de seus donos. Graças a esse quadro (e de pistolagens que matam blogueiros e quem denunciar o coronelismo regional local), a ONG Repórteres Sem Fronteiras registrou que o Brasil caiu, de 2015 para 2016, de 99º para 104º lugar em liberdade de imprensa.
E quem imagina que o "espiritismo" está fora disso está enganado. A religião que se diz "futurista" e "esclarecedora" demonstrou, na verdade, ser, até mais do que a atual linhagem da Igreja Católica, herdeira do Catolicismo medieval português, e a postura "dúbia" que bajula Allan Kardec mas pratica igrejismo não consegue dissimular essa realidade.
Perdido em suas próprias contradições, o "espiritismo" nem de longe pode ser considerado futurista nem moderno, mas antiquado e velho, um catolicismo medieval redivivo. Ver que igrejeiros moralistas como Chico Xavier e Divaldo Franco são considerados "futuristas" é, no fundo, constrangedor.
Mas num Brasil em que muitos veem como a "última palavra em humor" uma comédia mexicana de 45 anos atrás (nada contra essa comédia, mas ela reflete o "espírito dos anos 70"), tentam transformar Paulo Maluf num político cult e veem modernidade no projeto ditatorial de Jaime Lerner e seus ônibus visualmente padronizados, fica complicado questionar o "futurismo" atribuído a dois religiosos que mais parecem ter vindo dos porões mofados da República Velha.
O que assusta, seja no Brasil e no mundo, é a confiança com que retrógrados de todo tipo têm em fazer a marcha a ré da humanidade com menos atropelos possíveis, ou, no pior dos casos, com menos arranhões. Acham que a humanidade entrará no futuro retomando um passado que combina barbárie e preceitos moralistas, privilégios de poucos e flagelos de muitos, um egoísmo de uma minoria que pede aos outros caridade e misericórdia para os egoístas e seus atos abusivos e danosos.
Enquanto se desenha um mundo injusto e surreal no qual convicções sociais querem se sobrepor à realidade, os egoístas sentem a ilusão de sua invulnerabilidade: quem fica rico às custas do empobrecimento do outro e acha que não perderá dinheiro, o sujeito que tira a vida de outrem e imagina que nunca vai morrer, a pessoa que pratica corrupção e acha que não será punida, o sujeito que impõe uma medida nociva acreditando que ela nunca será revogada, o sujeito que humilha outrem acha que nunca será desmoralizado etc.
Todo esse egoísmo parece prevalecer e desafiar impasses, irregularidades, escândalos e toda revolta popular. O triunfo dos retrógrados em prol de seu egoísmo passadista parece desafiar as circunstâncias, até o momento em que a realidade cobre sua conta àqueles que investem e se apegam a esses retrocessos desesperados.
O que tem em comum o governo Michel Temer, os atentados numa boate gay em Orlando, a ascensão da extrema-direita na Europa e o fundamentalismo do Estado Islâmico? Em diferentes contextos, há um saudosismo perigoso de uma parcela da sociedade pedindo para voltar tempos de valores sociais mais retrógrados.
2016 se revela um ano problemático. Pessoas consideradas de alguma contribuição moderna para a sociedade, como o escritor Umberto Eco e o cantor David Bowie, faleceram. Em contrapartida, políticos idosos como José Sarney e Paulo Maluf se recusam a sair de cena e a sociedade patriarcalista e machista vive com medo de ver os feminicidas Pimenta Neves e Doca Street, com fortes indícios de doenças graves em estágio avançado, morrerem de repente.
Morreram também talentos promissores, como o ator Aaron Yeltchin e a cantora Christina Grimmie. É um ano em que cidades antes consideradas redutos de modernidade, como Paris e Rio de Janeiro, sucumbem a decadências vertiginosas, desafiando aqueles que ainda creem nessas cidades como "modelos" a serem seguidos pelas demais regiões. É também um período em que as mídias sociais (do antigo Orkut ao atual WhatsApp) mostra internautas cada vez mais retrógrados e ignorantes.
Além disso, há a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, complicando a integridade econômica, e, no Brasil, um confuso governo interino, que se pretende efetivo - Michel Temer fala em governar até o fim de 2018 - , com base numa agenda cheia de retrocessos e com uma equipe e base de apoio (neste caso com Aécio Neves, Eduardo Cunha e companhia) envolvida em escândalos de corrupção.
Há um grande apego aos retrocessos. Uma nostalgia doentia, que acaba criando em seus defensores um rompimento com a realidade, já que o radicalismo das convicções sociais faz com que muitos reajam contra princípios realistas, contra a lógica e contra a ética.
Retornam movimentos extremistas que vão desde o fundamentalismo religioso que reivindica uma volta às crenças de, pelo menos, dois mil anos atrás, até grupos que querem uma higienização racial para promover uma sociedade, pelo menos, de maioria branca. Há os plutocratas, os machistas, os racistas, os elitistas que também querem um mundo praticamente exclusivo deles.
No Brasil, um fato aberrante é a boa reputação que um encrenqueiro como Jair Bolsonaro tem para uma parcela considerável de brasileiros e a criação de movimentos como "International Klans", que espalhou panfletos em alguns lugares em Niterói. E há o medo do hesitante governo Michel Temer, a exemplo dos primeiros anos "frouxos" da ditadura militar, se converter em uma conduta ainda mais cruel e repressiva para a população.
Nos EUA, grupos racistas e homofóbicos eventualmente se manifestam, fora os atiradores de diversas origens que praticam chacinas em várias partes do país. O Klu Klux Klan, de triste lembrança, continua existindo. Na Europa, grupos de extrema-direita atraem adeptos em vários países, e um fascista de 52 anos assassinou uma parlamentar britânica que defendia a permanência do Reino Unido na União Europeia e depois foi preso.
As pessoas em geral perderam a noção da realidade, as mídias sociais incluem de reacionários doentios que praticam cyberbullying a fãs "afogados" nas suas fantasias que, contrariados com a realidade, querem matar seus ídolos.
A ilusão da "tecnologia de ponta" revela um caminho inverso da humanidade desinformada que, conhecendo vagamente fatos passados, sem fazer o discernimento necessário, acabam se interessando por eles e defendendo uma sociedade ainda mais retrógrada.
Um tempo em que mulheres eram coisas e machistas, deuses (daí que feminicidas, por exemplo, "nunca podem morrer"). Que patrões detinham o monopólio de decisão sobre os empregados. Que os aumentos de preços eram suportados como sendo decisões divinas. Que os tecnocratas sempre decidiam pelo povo, por pior que seja uma decisão. Que divindades e lendas guiavam multidões a seus templos de adoração. Que ruas só eram ocupadas por "brancos limpinhos e perfumados".
Mesmo a rebeldia é guiada para defender tais valores obscurantistas. Um "espírito do contra" que vê num retrocesso uma forma de catarse, um saudosismo obscurantista, um "medo da clareza" e um pavor do progresso, que faz com que os incomodados do Sol do futuro corram, ao mesmo tempo ferozes e assustados, ameaçadores e fugitivos, às suas "cavernas de Platão".
A coisa acontece de forma tão aberrante que, no Brasil, a chamada grande imprensa (Globo, Folha, Veja, Estadão) chega a impor sua visão míope das coisas, se revoltando quando jornalistas estrangeiros retiram a máscara do golpismo político do governo Temer e sua equipe de "notáveis" corruptos.
Um comentarista de Época, Guilherme Fiúza, chegou a cometer uma violenta gafe, publicando um texto no qual acusa o jornal estadunidense New York Times de ser patrocinado pelo PT. Fiúza "pagou mico" diante de correspondentes internacionais conceituados.
Recentemente, o empresário da Folha de São Paulo, Otávio Frias Filho, levou uma bronca de uma jornalista britânica que definiu a grande mídia brasileira como golpista e voltada aos interesses de seus donos. Graças a esse quadro (e de pistolagens que matam blogueiros e quem denunciar o coronelismo regional local), a ONG Repórteres Sem Fronteiras registrou que o Brasil caiu, de 2015 para 2016, de 99º para 104º lugar em liberdade de imprensa.
E quem imagina que o "espiritismo" está fora disso está enganado. A religião que se diz "futurista" e "esclarecedora" demonstrou, na verdade, ser, até mais do que a atual linhagem da Igreja Católica, herdeira do Catolicismo medieval português, e a postura "dúbia" que bajula Allan Kardec mas pratica igrejismo não consegue dissimular essa realidade.
Perdido em suas próprias contradições, o "espiritismo" nem de longe pode ser considerado futurista nem moderno, mas antiquado e velho, um catolicismo medieval redivivo. Ver que igrejeiros moralistas como Chico Xavier e Divaldo Franco são considerados "futuristas" é, no fundo, constrangedor.
Mas num Brasil em que muitos veem como a "última palavra em humor" uma comédia mexicana de 45 anos atrás (nada contra essa comédia, mas ela reflete o "espírito dos anos 70"), tentam transformar Paulo Maluf num político cult e veem modernidade no projeto ditatorial de Jaime Lerner e seus ônibus visualmente padronizados, fica complicado questionar o "futurismo" atribuído a dois religiosos que mais parecem ter vindo dos porões mofados da República Velha.
O que assusta, seja no Brasil e no mundo, é a confiança com que retrógrados de todo tipo têm em fazer a marcha a ré da humanidade com menos atropelos possíveis, ou, no pior dos casos, com menos arranhões. Acham que a humanidade entrará no futuro retomando um passado que combina barbárie e preceitos moralistas, privilégios de poucos e flagelos de muitos, um egoísmo de uma minoria que pede aos outros caridade e misericórdia para os egoístas e seus atos abusivos e danosos.
Enquanto se desenha um mundo injusto e surreal no qual convicções sociais querem se sobrepor à realidade, os egoístas sentem a ilusão de sua invulnerabilidade: quem fica rico às custas do empobrecimento do outro e acha que não perderá dinheiro, o sujeito que tira a vida de outrem e imagina que nunca vai morrer, a pessoa que pratica corrupção e acha que não será punida, o sujeito que impõe uma medida nociva acreditando que ela nunca será revogada, o sujeito que humilha outrem acha que nunca será desmoralizado etc.
Todo esse egoísmo parece prevalecer e desafiar impasses, irregularidades, escândalos e toda revolta popular. O triunfo dos retrógrados em prol de seu egoísmo passadista parece desafiar as circunstâncias, até o momento em que a realidade cobre sua conta àqueles que investem e se apegam a esses retrocessos desesperados.
quinta-feira, 23 de junho de 2016
A escravidão de uma editora "espírita"
Já se falou de um conhecido palestrante "espírita", aquele que diz para todos "deixarem de ser bestas", que explorava profissionalmente seus empregados, sem remunerá-los dignamente, em uma editora que produzia uma revista.
Isso é uma escravidão moderna, sobretudo quando se tentava argumentar que as pessoas tinham que trabalhar "por caridade". Pouco importa se os funcionários da editora tinham contas a pagar, precisavam ter sustento próprio, viviam de favor em casas de parentes pela falta de dinheiro para arcar com as despesas, todos tinham que aceitar aquela humilhante situação e fingir que a "luz" já era a "rica remuneração" a seus trabalhos.
Houve funcionária que, mãe solteira, tinha que comprar remédio para a filha, e mal conseguia obter o dinheiro do almoço. Ficava sem comer muito, retendo o dinheiro para ver se juntava para pagar as despesas. Houve outros funcionários que também saíam antes dos patrões para "almoçar" um pequeno pacote de biscoito wafer para manter o resto do dinheiro em sua renda pessoal.
E o pior é que alguns funcionários ficavam com a carteira assinada, embora trabalhassem apenas como "estagiários". e de um teórico salário de R$ 1.000, entre 1999 e 2001, só o dinheiro do almoço, incluído na remuneração (que na prática já incluía os encargos, fazendo com que o salário real fosse bem menor), era regularmente concedido.
Isso é escravidão moderna. E várias empresas, incluindo lojas de roupas de grife e redes internacionais de lanchonetes, também praticam o trabalho escravo. Embora não seja aquele trabalho dos engenhos de cana-de-açúcar que vigoraram até as últimas décadas do século XIX, a degradação remete, sim, à exploração indigna de mão-de-obra.
É chocante, para muitos, ver que um "misericordioso" palestrante "espírita", amigo de Divaldo Franco, José Medrado, Richard Simonetti e admirador de Chico Xavier, todos mistificadores, mas ainda assim associados a um carisma inabalável por conta das conveniências que a religião garante à sociedade, ter explorado dessa forma o mercado de trabalho, a ponto de ter que comparecer ao tribunal várias vezes para tratar de processos trabalhistas.
Isso mostra o quanto a religião "espírita", tão cheia de contradições, mostra seus aspectos sombrios. O mais grave é que a complacência das pessoas faz com que se use a desculpa "quem nunca erra?" para inocentar quem é comprovadamente responsabilizado por erros graves, servindo como um mero pretexto para aceitar a idolatria e o prestígio de pessoas que não merecem tais benefícios.
Essa atitude é comparável com a de Madre Teresa de Calcutá, que sob o pretexto da "caridade", transformava as Casas dos Moribundos em depósitos de gente enferma, com internos expostos uns aos outros ao contágio de doenças gravíssimas, não bastasse eles não serem devidamente assistidos.
Os "filhos crescidos" de Madre Teresa eram mantidos mal alimentados, remediados apenas com paracetamol e aspirina, e recebiam injeção em seringas reutilizadas, algo comparável ao que usuários de drogas fazem entre si e que é responsável pela disseminação de doenças mortais como AIDS.
No entanto, oficialmente, Madre Teresa é considerada "santa até quando era viva", tem garantido seu processo de canonização pelo Vaticano e muitos acreditam que ela tenha sido uma "grande mãe" dos pobres e enfermos.
Os "espíritas" cultuam Madre Teresa como se ela fosse um ícone do "movimento espírita". Também ignoram seu lado sombrio, denunciado por Christopher Hitchens e confirmado por pesquisas acadêmicas. Os "espíritas" adoram comparar Madre Teresa a Chico Xavier, nas qualidades positivas, mas observa-se uma realidade desigual quando se tratam de aspectos negativos.
Com toda a blindagem que cerca Madre Teresa de Calcutá, pelo menos existe também um movimento de contestação expressivo e o meio acadêmico não se rende aos "encantos" da imagem religiosa da freira albanesa. Mesmo com um mito concebido de forma bastante organizada, Madre Teresa pôde ter sua imagem desconstruída por livros, documentários e monografias reconhecidos pela opinião pública.
Já Chico Xavier, mesmo com seu mito construído de maneira confusa - só no final dos anos 1970 o mito de Chico Xavier foi reconstruído nos mesmos moldes que Malcolm Muggeridge fez com Madre Teresa e sob o apoio explícito da Rede Globo - , a blindagem em torno dele é muito mais forte e mesmo os meios acadêmicos e jurídicos não se dispõem a desafiar esse mito.
Daí que, por exemplo, o nome de Humberto de Campos, que comprovou-se ter sido levianamente utilizado por Chico Xavier, já que as obras "psicográficas" realmente não condizem ao estilo original do autor maranhense, circula impunemente nas obras publicadas pelo "médium" mineiro, não só pela falta de punição legal, mas pelo estímulo e apoio dado por setores influentes da sociedade.
E isso permite abusos diversos. Divaldo Franco começou suas obras "psicográficas" plagiando Chico Xavier, que já era um plagiador. "Espíritas" atualmente professam um igrejismo extremado, mas dizem condenar a "vaticanização do Espiritismo". Alguns negam que o "espiritismo" brasileiro seja uma religião, acham que é "filosofia", mas adotam procedimentos e abordagens escancaradamente religiosas.
O "espiritismo" só tem a sorte de ser mais sutil que as seitas neopentecostais, e passar uma imagem mais simpática e supostamente despretensiosa. Além disso, o "espiritismo" se comporta como um Catolicismo à paisana, o que faz com que a adesão de católicos não-praticantes se torne ainda mais entusiasmada. O "espiritismo" deixa as pessoas "à vontade".
Por isso ninguém desconfia dos aspectos sombrios. E ninguém percebe o quanto pessoas que querem trabalhar são maltratadas justamente por uma editora "espírita" que só remunera o almoço mas atrasa salários de maneira indefinida. E o palestrante "espírita" ainda diz que as pessoas deveriam trabalhar por "caridade", se "preocupando menos" com a questão salarial.
Enquanto isso, os preços de tudo, como produtos, contas e serviços aumentam de maneira descontrolada, desafiando as remunerações que não crescem dignamente e até diminuem, e as carteiras de dinheiros ficando cada vez mais vazias. Vai alguém dizer para quem cobra um preço que irá pagar essas coisas com "luz". Será que essa desculpa vai convencer, "espíritas"?
terça-feira, 21 de junho de 2016
Niterói, a cidade do interior que nenhuma cidade do interior quer ser
No último dia 28 de maio, um desfile internacional reunindo celebridades estrangeiras realizou-se no Museu de Arte Contemporânea, em Niterói. Pode parecer um fato normal, não fosse um detalhe: por poucas horas, Niterói teve um destaque no Brasil e no mundo.
Foi apenas uma pálida lembrança de uma cidade que chegou a ser capital do Estado do Rio de Janeiro. O próprio Estado vive um estado (olha o trocadilho) de decadência avassaladora, e, se a cidade vizinha, o Rio de Janeiro, sofre uma decadência que não dá mais para esconder - recentemente, a cidade protagonizou um caso de estupro coletivo - , Niterói leva essa decadência até as últimas consequências.
É como se a antiga capital fluminense aceitasse tardiamente a condição subserviente imposta pela fusão dos antigos Estados do Rio de Janeiro e da Guanabara (este constituído apenas do município do Rio, depois que deixou de ser o Distrito Federal), decisão feita pela ditadura militar.
Mesmo diante dessa ação arbitrária, que "esvaziou" Niterói com praticamente toda a migração de negócios e instituições diversas para a cidade vizinha mais famosa, havia iniciativas de destaque como a até hoje insuperável experiência da rádio de rock Fluminense FM e a construção do imponente Museu de Arte Contemporânea, criação do renomado arquiteto Oscar Niemeyer.
Mas até essas duas façanhas decaíram. No espaço de sintonia da antiga Fluminense, opera uma rádio de notícias. Além disso, existe a complacência de adeptos da antiga Fluminense, ligados a iniciativas como o memorial Maldita 3.0 e rádios como a (hoje inativa) Kiss Rio FM e a digital Cult FM, com a canastrice eletrônica da Rádio Cidade, FM que se comprovou sem vocação, nem competência e muito menos tradição na cultura rock, além de ser feita por gente que não entende do ramo.
No caso do MAC, o aspecto decadente se refere não ao museu em si, mas ao seu derivado, o Módulo de Ação Comunitária, o Maquinho, museu voltado ao público infanto-juvenil, que teria sido dominado por traficantes do Morro do Palácio, no Ingá.
Niterói sucumbiu a uma decadência que, em certos aspectos, é até pior do que o do município vizinho. É certo que a decadência observada na cidade do Rio de Janeiro atinge níveis catastróficos que fazem a cidade sucumbir a um inimaginável atraso que a coloca abaixo até do que capitais do Norte, Nordeste e Centro-Oeste viveram durante a ditadura militar. Mas Niterói está pior no contexto de sua acomodação que faz muitos dos críticos dizerem que a cidade "parou no tempo".
ACESSO CARO E DEMORADO
Reduzida a ser uma cidade-dormitório, Niterói está suja e miserável, com um grande número de mendigos e marginais nas ruas, bairros violentos (Fonseca, Viradouro, Caramujo e São Francisco são alguns dos exemplos), comércio decadente com lojas se fechando e um sistema deficitário de abastecimento em que produtos se esgotam no mercado rapidamente e demoram para serem reabastecidos.
Niterói não faz jus à antiga posição de um dos maiores Índices de Desenvolvimento Humano do país. O título teria sido obtido por dados maquiados, já que, a partir da década de 1990, a cidade decaiu muito.
Só o bairro do Viradouro, por exemplo, era um bairro de classe média quase aos níveis de Icaraí, mas hoje é uma "terra sem lei" onde traficantes circulam pela rua em plena luz do dia e controlam até mesmo o Conjunto Residencial Sílvio de Noronha, o Conjunto da Marinha do bairro. De vez em quando, o bairro sofre ocorrência de tiroteios em manhãs ou tardes de grande movimento.
A cidade de Niterói se comporta como uma cidade interiorana e perigosa, como nenhuma cidade do interior do país gostaria de ser. Sua urbanização caótica faz com que haja concentrações de favelas além da conta nas regiões de Pendotiba e Caramujo, criando uma estrutura desigual e desumana.
O comércio sofre com poucas opções de lojas e serviços. Até no âmbito da saúde faltam clínicas e consultórios realmente especializados em determinadas áreas. Lojas fecham constantemente, criando "corredores da falência" em vários cantos da cidade. O dado insólito é que, mesmo com esse quadro dramático, há o dado surreal do prefeito Rodrigo Neves ser premiado pelo SEBRAE por um projeto de empreendedorismo que nunca foi posto em prática.
Mas mesmo o comércio que existe e tem continuidade peca pelo desabastecimento, já que estoques de vários produtos desaparecem rapidamente mas levam uma média de duas ou três semanas para serem reabastecidos. Niterói se mostra um dos piores setores de logística existentes no país, e olha que a cidade fica no centro dos grandes distribuidores e fabricantes de produtos. Isso sem falar da lentidão dos operadores de caixas de supermercados, que mais parecem namorar o computador.
Eventos culturais também são raros numa Niterói que chegou a ser cosmopolita. A cidade que tinha uma cena de rock e MPB fortes, que deu ao Brasil de Leopoldo Fróes a Leila Diniz, vive a supremacia de ritmos popularescos (como "sertanejo" e "funk") e carece de verbas públicas para viabilizar uma rotina constante de atrações culturais de qualidade.
Na mobilidade urbana, destaca-se a péssima distribuição de linhas de ônibus, pois não há uma linha direta ligando, por exemplo, Charitas ao bairro de Alcântara, em São Gonçalo, e na cidade que constrói a ligação Charitas-Cafubá não há uma ligação direta entre os bairros vizinhos de Rio do Ouro e Várzea das Moças, cujo acesso precisa ser feito pela Rodovia RJ-106, complicando o trânsito no local.
Há também os problemas de deslocamento para o Rio de Janeiro, já que para ir à cidade vizinha o deslocamento é caro e, no caso da Ponte Rio-Niterói, bastante demorado, o que faz com que o niteroiense seja um "estrangeiro" para os cariocas, em que pese o vício da mídia fora do Rio de Janeiro confundir Niterói como se fosse um distrito da (outrora) Cidade Maravilhosa.
Além disso, há também a macaqueação da tenebrosa iniciativa da pintura padronizada nos ônibus do Rio de Janeiro, repetida em Niterói e em São Gonçalo, escondendo empresas de ônibus da população, coisa que não é resolvida pela exibição de pequenos logotipos que se perdem num olhar à distância ou se confundem quando colocados em janelas junto a outros logotipos (símbolo de cadeirante, de vistoria ecológica, preço da tarifa etc).
O pior é que as autoridades de Niterói falavam, com seu natural cinismo demagógico - não muito diferente do da famosa cidade vizinha e de pessoas do nível de um Eduardo Cunha - , que a pintura padronizada "tirava o vínculo visual" das empresas de ônibus, mas impunha um vínculo com a Prefeitura, num claro apelo de propaganda política, que praticamente "partidariza" o sistema de ônibus, com evidente prejuízo para os passageiros que usam ônibus para ir e vir de suas casas.
Nas linhas intermunicipais e interestaduais, Niterói peca pelo horário limitado e muito raro de várias linhas de ônibus para outras cidades, como Itaguaí e Três Rios, e pelo equívoco de um dos ramais da linha Rio X Salvador, que passa pelo município, não estabelecer parada na Rodoviária de Niterói, que há muito tempo perdeu o glamour que o Centro Norte, como um todo, que era similar ao da Praça Mauá carioca e hoje reduziu-se a um decadente reduto de ébrios, mendigos e marginais.
OUTROS PROBLEMAS
Não há uma lei de combate à poluição sonora e Niterói leva ao extremo o fanatismo pelo futebol, uma doença grave que atinge o Grande Rio e que chega a condicionar as relações sociais pela obrigatoriedade de gostar por futebol e, de preferência, torcer por um dos quatro times cariocas (Flamengo, Fluminense, Botafogo e Vasco), seguindo a regra da região metropolitana em que há gente que pergunta antes o time de alguém antes de saber o seu nome.
Durante as partidas esportivas, podendo ser até véspera de dia útil, no fim de noite, com pessoas indo dormir para acordarem para mais um dia de trabalho e várias morando longe e tendo que acordar ainda de madrugada, torcedores gritam feito feras ensandecidas a cada gol de seu time de preferência.
Pior é que esses torcedores, muitas vezes, parecem ficar em silêncio sepulcral, em boa parte do andamento do jogo, até que um gol faz com que uma gritaria em níveis altíssimos de decibéis, que fazem um quarteirão de bairro parecer uma arquibancada de estádio, desaba acordando os que já começavam a dormir, perdendo o sono com tanta barulheira.
Niterói parece muitas vezes rural e sem higiene, que até os caminhões de lixo espalham fedor por onde passam, diante de bovinos cidadãos que, seguindo a "Síndrome de Riley Day" (alusão à doença na qual sua vítima é incapaz de sentir qualquer tipo de dor) dos cariocas em geral, já nem sentem o mau cheiro que já existe em ruas fétidas de esgoto, de lixo espalhado e fezes de cães nas calçadas.
Há também o caso do grande número de fumantes em Niterói, um reflexo que acontece também em outras regiões do Grande Rio. O pior é que as pessoas que fumam têm o descaramento de andarem cerca de três, quatro ou cinco quarteirões sem fumar, só com o cigarro aceso na mão, cuja fumaça incomoda justamente os não-fumantes.
Isso é uma grande falta de respeito com quem não fuma. Se a pessoa é capaz de andar quatro ou cinco quarteirões sem fumar, por que então ela não para de fumar de vez, ao invés de ficar segurando um cigarro aceso para poluir a atmosfera? Ignoram os fumantes que um simples cigarro contém substâncias análogas ao de venenos de rato e fumaças que escapam dos canos dos automóveis.
A acomodação do Grande Rio é geral. O município do Rio de Janeiro já aflige o país com sua trágica e avassaladora decadência, simbolizada recentemente pelo estupro coletivo e, um pouco antes, pela queda de uma ciclovia mal-construída.
Mas Niterói causa espanto pelo fato de sua decadência não só ser semelhante ao da cidade vizinha como apresenta outros aspectos, que fazem com que Niterói decaia para um provincianismo pior do que seria admissível num Estado como o Acre. Mesmo tardiamente, é assustador que Niterói tenha passado a aceitar a condição humilhantemente servil que a ditadura militar lhe reservou quando realizou a confusa fusão dos Estados do Rio de Janeiro e Guanabara.
domingo, 19 de junho de 2016
Rio de Janeiro realmente está em estado de calamidade pública
VÍTIMA DE ESTUPRO COLETIVO CHEGANDO PARA DEPOR EM DELEGACIA NO RIO. A CALAMIDADE PÚBLICA NÃO É SÓ ECONÔMICA.
A semana terminou com o governador interino do Rio de Janeiro, Francisco Dornelles, decretar estado de calamidade pública. A notícia chocou o país, mas de forma menos intensa, já que o Estado do Rio de Janeiro já tinha sido cenário de tantas ocorrências funestas, nos últimos anos.
Portanto, antes que a chamada "boa sociedade" carioca dissesse que esse decreto é um "mimimi" para arrancar verbas federais à toa, ou que é "culpa do PT" - de repente os petistas viraram bodes expiatórios de "tudo que está aí" no país - ou que não passa de uma grande frescura política.
É certo que Francisco Dornelles nem de longe é um político carismático. Ele parece um "dinossauro" político, da árvore genealógica familiar tanto de Getúlio Vargas quanto de Tancredo Neves (avô do desastrado e corrupto senador Aécio Neves) e, politicamente, de variantes conservadoras do governo carioca.
No entanto, o decreto só reflete a decadência avassaladora que o Estado do Rio de Janeiro e, por conseguinte, a sua antes imponente capital, está sofrendo. Uma decadência generalizada, algo como uma antiga vedete sofrendo AVC. A ex-Cidade Maravilhosa, palco de tantas ocorrências infelizes, realmente sofre uma calamidade pública, e ela não é somente econômica.
As pessoas têm a mania de admitir a crise quando falta dinheiro. Se tem dinheiro, não há crise. Se há sucesso comercial, não há crise. Essa é uma visão bastante enganosa que as últimas ocorrências estão pondo em xeque-mate naqueles que acreditam que, fora a "falta de verbas", o Rio de Janeiro "continua lindo".
Só a queda de uma ciclovia muito mal construída, matando dois ciclistas, e o caso do estupro coletivo que vitimou uma adolescente, mostram o quanto o Rio de Janeiro sofre uma decadência sem limites. E Niterói, antiga capital do Estado, segue o mesmo declínio, feliz em servir-se de capacho para a cidade vizinha, virando uma cidade provinciana do tipo que muitas cidades do interior já começam a romper.
É o espírito do tempo. O Rio de Janeiro decai como um todo. A cidade da Bossa Nova de 60 anos atrás hoje é a cidade do grotesco "funk", que agora se enrola todo para explicar um machismo que nunca assumiu antes.
Da mesma forma, é a cidade cuja boa parcela da população deu de presente ao país personalidades políticas de valor deplorável como o antes apenas inexpressivo Eduardo Cunha, eleito deputado federal em 2014 e convertido num tirânico e irresponsável presidente da Câmara dos Deputados, e o fascista Jair Bolsonaro, que chegou até a fazer apologia ao estupro, quando brigou com uma deputada do PT.
Os cariocas pagaram caro porque foi através de Eduardo Cunha que se interrompeu o mandato de Dilma Rousseff, que mesmo com suas imperfeições tentava manter o país nos eixos, com o controle dos preços, revalorização gradual dos salários e implantação de medidas de âmbito social. Cunha está associado às "pautas-bombas", propostas associadas a retrocessos sociais ligados a preconceitos religiosos e elitistas e à ganância financeira dos "moralistas" envolvidos.
Agora Cunha só está ameaçado de perder o mandato parlamentar - ele apenas está suspenso, embora tenha perdido a chance de, como presidente da Câmara, exercer eventualmente a presidência da República, nas ausências do titular Michel Temer - depois de muita trabalheira e pelo fato de que, pelo temperamento difícil, Cunha também oferece perigo para o grupo político que fez afastar Dilma, até pelo medo do deputado e marido de uma ex-jornalista da Globo "ir longe demais".
Arrivismo tem limites. E, na terra da Rede Globo, mídia traiçoeira de péssimos serviços de manipulação da opinião pública, até o público de rock, ligado a paradigmas de rebeldia juvenil, recebeu o péssimo "presente de grego" da Rádio Cidade, decadente emissora que usa o lema "Rock de Verdade" mas trabalha com equipe sem envolvimento algum com o gênero e com uma grade de programação que remete aos mesmos programas de besteirol e sucessos musicais da Jovem Pan FM.
Mas a tolerância do público roqueiro autêntico - ligado a projetos como Maldita 3.0, Kiss FM e Cult FM - com a supremacia mercadológica da Rádio Cidade (o pretexto é deixar que uma emissora incompetente mas "melhor estruturada" firme o rock no mercado, algo como deixar que um lobo faminto reorganize um rebanho de ovelhas) também revela um contexto de conveniências.
Afinal, já que até a imprensa internacional (ridicularizada por incompetentes jornalistas da grande mídia, que se pretendem "donos da verdade" com suas visões fora da realidade) acusa os políticos do PMDB carioca de agravarem a crise fluminense, faz sentido essa preocupação em "manter" uma decadente e incompetente "rádio rock": os donos da Cidade estabelecem alianças comerciais e turísticas com o próprio PMDB, os dirigentes esportivos e os empresários de grandes eventos.
Mas também os interesses econômicos e políticos também ganham um tempero automotivo, com o sistema de ônibus do Rio de Janeiro sofrendo uma decadência em níveis catastróficos - ou calamitosos, para citar o decreto de Dornelles - e não é só por motivação econômica.
O sistema decai pelos erros grotescos que atropelam de morte o interesse público com medidas impopulares - como a dupla função motorista-cobrador que demitiu muitos trabalhadores que sustentavam famílias, a pintura padronizada que esconde empresas de ônibus sob a mesma pintura, confundindo a população e favorecendo a corrupção político-empresarial que fez empresas surgirem e serem extintas, linhas trocarem de empresa e tudo o mais, sem que a população saiba.
A aceitação da pintura padronizada nos ônibus por uma população resignada fez com que as autoridades abusassem e impusessem novos retrocessos, como o fim das linhas diretas da Zona Norte para a Zona Sul, sob a desculpa do "sistema integrado", que já ceifou também linhas distantes como 465 Cascadura / Gávea, 676 Méier / Penha e 952 Penha / Praça Seca, complicando a vida de muitos moradores.
Era todo o processo que se vê hoje no governo Michel Temer. No conjunto da obra, uma coleção de retrocessos trazidos por um sistema de valores no qual o que vale é o status quo de quem decide, e não a validade ou não de uma medida.
Outra calamidade pública eram as ações de trolagem e cyberbullying nas mídias sociais, em que ataques em massa eram combinados para quem não concordava com esses valores estabelecidos, campanhas difamatórias complementadas, em certos casos, com blogues caluniadores criados contra os desafetos, geralmente parodiando suas atividades e usando de forma leviana e desrespeitosa seu legado pessoal.
Isso significa a ação de jovens desprovidos de formação educacional e moral que usam da "liberdade da rede" para depreciarem e ameaçarem quem discorda de um sistema de valores machista, racista, tecnocrático, midiático e econômico nos quais o poder dominante é praticamente divinizado e defendido com submissão extrema, cabendo punição a quem discordar disso.
Ver que jovens assim travestem sua mentalidade medieval através de uma falsa rebeldia, um uso de palavrões, ironias e sarcasmos que parecem "modernos", trajes que variam de universitários ou mesmo suburbanos comuns a outros que misturam hippies, black power, surfistas, skatistas e outros tipos aparentemente arrojados é assustador.
Só esses encrenqueiros digitais, em maioria residentes no Grande Rio, que mostram que a calamidade pública que atinge o Rio de Janeiro não se limita à crise econômica, mas um conjunto de valores. A própria vitória eleitoral do PMDB e a ascensão de figuras como Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro revela esse obscurantismo sócio-cultural, que é a verdadeira calamidade que faz o Rio de Janeiro perder toda a razão de ser como antiga cidade-modelo para o resto do Brasil.
A semana terminou com o governador interino do Rio de Janeiro, Francisco Dornelles, decretar estado de calamidade pública. A notícia chocou o país, mas de forma menos intensa, já que o Estado do Rio de Janeiro já tinha sido cenário de tantas ocorrências funestas, nos últimos anos.
Portanto, antes que a chamada "boa sociedade" carioca dissesse que esse decreto é um "mimimi" para arrancar verbas federais à toa, ou que é "culpa do PT" - de repente os petistas viraram bodes expiatórios de "tudo que está aí" no país - ou que não passa de uma grande frescura política.
É certo que Francisco Dornelles nem de longe é um político carismático. Ele parece um "dinossauro" político, da árvore genealógica familiar tanto de Getúlio Vargas quanto de Tancredo Neves (avô do desastrado e corrupto senador Aécio Neves) e, politicamente, de variantes conservadoras do governo carioca.
No entanto, o decreto só reflete a decadência avassaladora que o Estado do Rio de Janeiro e, por conseguinte, a sua antes imponente capital, está sofrendo. Uma decadência generalizada, algo como uma antiga vedete sofrendo AVC. A ex-Cidade Maravilhosa, palco de tantas ocorrências infelizes, realmente sofre uma calamidade pública, e ela não é somente econômica.
As pessoas têm a mania de admitir a crise quando falta dinheiro. Se tem dinheiro, não há crise. Se há sucesso comercial, não há crise. Essa é uma visão bastante enganosa que as últimas ocorrências estão pondo em xeque-mate naqueles que acreditam que, fora a "falta de verbas", o Rio de Janeiro "continua lindo".
Só a queda de uma ciclovia muito mal construída, matando dois ciclistas, e o caso do estupro coletivo que vitimou uma adolescente, mostram o quanto o Rio de Janeiro sofre uma decadência sem limites. E Niterói, antiga capital do Estado, segue o mesmo declínio, feliz em servir-se de capacho para a cidade vizinha, virando uma cidade provinciana do tipo que muitas cidades do interior já começam a romper.
É o espírito do tempo. O Rio de Janeiro decai como um todo. A cidade da Bossa Nova de 60 anos atrás hoje é a cidade do grotesco "funk", que agora se enrola todo para explicar um machismo que nunca assumiu antes.
Da mesma forma, é a cidade cuja boa parcela da população deu de presente ao país personalidades políticas de valor deplorável como o antes apenas inexpressivo Eduardo Cunha, eleito deputado federal em 2014 e convertido num tirânico e irresponsável presidente da Câmara dos Deputados, e o fascista Jair Bolsonaro, que chegou até a fazer apologia ao estupro, quando brigou com uma deputada do PT.
Os cariocas pagaram caro porque foi através de Eduardo Cunha que se interrompeu o mandato de Dilma Rousseff, que mesmo com suas imperfeições tentava manter o país nos eixos, com o controle dos preços, revalorização gradual dos salários e implantação de medidas de âmbito social. Cunha está associado às "pautas-bombas", propostas associadas a retrocessos sociais ligados a preconceitos religiosos e elitistas e à ganância financeira dos "moralistas" envolvidos.
Agora Cunha só está ameaçado de perder o mandato parlamentar - ele apenas está suspenso, embora tenha perdido a chance de, como presidente da Câmara, exercer eventualmente a presidência da República, nas ausências do titular Michel Temer - depois de muita trabalheira e pelo fato de que, pelo temperamento difícil, Cunha também oferece perigo para o grupo político que fez afastar Dilma, até pelo medo do deputado e marido de uma ex-jornalista da Globo "ir longe demais".
Arrivismo tem limites. E, na terra da Rede Globo, mídia traiçoeira de péssimos serviços de manipulação da opinião pública, até o público de rock, ligado a paradigmas de rebeldia juvenil, recebeu o péssimo "presente de grego" da Rádio Cidade, decadente emissora que usa o lema "Rock de Verdade" mas trabalha com equipe sem envolvimento algum com o gênero e com uma grade de programação que remete aos mesmos programas de besteirol e sucessos musicais da Jovem Pan FM.
Mas a tolerância do público roqueiro autêntico - ligado a projetos como Maldita 3.0, Kiss FM e Cult FM - com a supremacia mercadológica da Rádio Cidade (o pretexto é deixar que uma emissora incompetente mas "melhor estruturada" firme o rock no mercado, algo como deixar que um lobo faminto reorganize um rebanho de ovelhas) também revela um contexto de conveniências.
Afinal, já que até a imprensa internacional (ridicularizada por incompetentes jornalistas da grande mídia, que se pretendem "donos da verdade" com suas visões fora da realidade) acusa os políticos do PMDB carioca de agravarem a crise fluminense, faz sentido essa preocupação em "manter" uma decadente e incompetente "rádio rock": os donos da Cidade estabelecem alianças comerciais e turísticas com o próprio PMDB, os dirigentes esportivos e os empresários de grandes eventos.
Mas também os interesses econômicos e políticos também ganham um tempero automotivo, com o sistema de ônibus do Rio de Janeiro sofrendo uma decadência em níveis catastróficos - ou calamitosos, para citar o decreto de Dornelles - e não é só por motivação econômica.
O sistema decai pelos erros grotescos que atropelam de morte o interesse público com medidas impopulares - como a dupla função motorista-cobrador que demitiu muitos trabalhadores que sustentavam famílias, a pintura padronizada que esconde empresas de ônibus sob a mesma pintura, confundindo a população e favorecendo a corrupção político-empresarial que fez empresas surgirem e serem extintas, linhas trocarem de empresa e tudo o mais, sem que a população saiba.
A aceitação da pintura padronizada nos ônibus por uma população resignada fez com que as autoridades abusassem e impusessem novos retrocessos, como o fim das linhas diretas da Zona Norte para a Zona Sul, sob a desculpa do "sistema integrado", que já ceifou também linhas distantes como 465 Cascadura / Gávea, 676 Méier / Penha e 952 Penha / Praça Seca, complicando a vida de muitos moradores.
Era todo o processo que se vê hoje no governo Michel Temer. No conjunto da obra, uma coleção de retrocessos trazidos por um sistema de valores no qual o que vale é o status quo de quem decide, e não a validade ou não de uma medida.
Outra calamidade pública eram as ações de trolagem e cyberbullying nas mídias sociais, em que ataques em massa eram combinados para quem não concordava com esses valores estabelecidos, campanhas difamatórias complementadas, em certos casos, com blogues caluniadores criados contra os desafetos, geralmente parodiando suas atividades e usando de forma leviana e desrespeitosa seu legado pessoal.
Isso significa a ação de jovens desprovidos de formação educacional e moral que usam da "liberdade da rede" para depreciarem e ameaçarem quem discorda de um sistema de valores machista, racista, tecnocrático, midiático e econômico nos quais o poder dominante é praticamente divinizado e defendido com submissão extrema, cabendo punição a quem discordar disso.
Ver que jovens assim travestem sua mentalidade medieval através de uma falsa rebeldia, um uso de palavrões, ironias e sarcasmos que parecem "modernos", trajes que variam de universitários ou mesmo suburbanos comuns a outros que misturam hippies, black power, surfistas, skatistas e outros tipos aparentemente arrojados é assustador.
Só esses encrenqueiros digitais, em maioria residentes no Grande Rio, que mostram que a calamidade pública que atinge o Rio de Janeiro não se limita à crise econômica, mas um conjunto de valores. A própria vitória eleitoral do PMDB e a ascensão de figuras como Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro revela esse obscurantismo sócio-cultural, que é a verdadeira calamidade que faz o Rio de Janeiro perder toda a razão de ser como antiga cidade-modelo para o resto do Brasil.
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