quarta-feira, 19 de agosto de 2015
Por que Divaldo Franco é um falso sábio?
Podemos definir Divaldo Franco seguramente como um charlatão e um pseudo-sábio, graças às mistificações e manobras discursivas que ele faz, a exemplo das práticas confusas de Francisco Cândido Xavier, embora de forma mais sutil que este.
Afinal, diferente de Chico Xavier, que se alimenta de um discurso de contrastes ideológicos que fazem um jogo de ideias e conceitos "admiráveis", Divaldo Franco tenta apelar através da aparente sobriedade e de estereótipos academicistas antiquados, como a figura douta e moralista do antigo professor, dotado de elegância, falsa modéstia e muito pedantismo "ilustrado".
Divaldo tenta, portanto, evitar cair nas mesmas encrencas de seu amigo. Lamenta pelas confusões que vitimam Chico Xavier mediante tantos incidentes causados por ele, ao mesmo tempo em que o anti-médium baiano tenta adotar posturas comedidas que o evitem cair em semelhantes escândalos.
Por isso Divaldo tenta se passar por "correto seguidor" de Allan Kardec, mesmo adotando o mesmo igrejismo chiquista e acreditando em delírios como as "crianças-índigo", ideias que o pedagogo francês rejeitaria sem um milésimo de hesitação.
Divaldo tenta bajular não só Kardec, mas o Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos, os alertas de Erasto e outras manifestações do Espiritismo autêntico. Bajula como forma de tentar fugir do desmascaramento, já que, como deturpador da Doutrina Espírita, Divaldo tenta usar um discurso que tentasse fazer crer o contrário.
E só mesmo um país ainda marcado por valores ultraconservadores, aliados a um saudosismo moralista e à crise educacional que há décadas atinge o país, que Divaldo Franco é visto como "sábio" e "filósofo" por brasileiros sem hábito de leitura a ponto de, durante algumas semanas, livros para colorir estivessem entre os mais vendidos no nosso mercado literário.
Divaldo não é considerado "sábio" e "filósofo" - isso quando não se atrevem a defini-lo como "cientista" e "professor" - por causa das ideias, já que seus seguidores, quando muito, leem livros às pressas, sem desenvolver a disposição para discernir e entender os textos lidos. Ele é considerado em tais qualidades por causa de poses e estereótipos, devido à "embalagem", não ao "conteúdo".
É uma questão de falta de discernimento que não é difícil de ser entendida. Afinal, Divaldo Franco segue os mesmos procedimentos dos falsos sábios dos tempos de Jesus de Nazaré. É conhecido da vida de Jesus que o ativista judeu condenava severamente a falsa modéstia e a pose aristocrática dos fariseus e saduceus que se gabavam em ser pessoas "iluminadas" por suas crenças.
A postura de falsa humildade, a pretensão de superioridade através da falsa modéstia e a pretensão de saber tudo se observa em Divaldo Franco, que seria reprovado tranquilamente por Jesus de Nazaré e por Allan Kardec.
Jesus reprovaria Divaldo por causa da pretensa humildade e sabedoria que tenta expressar, à maneira dos falsos sábios dos tempos do Império Romano, mesmo o pré-medieval. Kardec reprovaria Divaldo pelos deslizes que este cometeu em relação à Doutrina Espírita.
"Tem certeza, Divaldo, que o senhor não teria lido Jean-Baptiste Roustaing?", perguntaria Kardec ao anti-médium baiano, se tivesse havido oportunidade. "Sinceramente, vejo em suas ideias uma proximidade maior ao advogado que escreveu Os Quatro Evangelhos do que aos livros que procurei escrever", é o que provavelmente concluiria o professor francês.
Um aspecto de pseudo-sábio que as pessoas não admitem é a pretensão de saber tudo, que faz com que Divaldo Franco pareça ter respostas prontas para todos os temas. Dentro da complexidade da vida, isso é impossível, e quem age assim age contra o processo natural de busca da sabedoria, até porque se recusa a buscá-la, porque presume que "a achou".
Isso é bem diferente de, por exemplo, um intelectual como o saudoso Eric Hobsbawm. Sendo um dos mais renomados pensadores do século XX, Eric nunca teve a pretensão de saber tudo, e mesmo em seus brilhantes livros ele admitia "tentar dar uma compreensão pertinente" aos assuntos abordados, sem esconder que tinha dúvidas e consultava outras pessoas para obter informações.
O verdadeiro sábio é aquele que busca o saber, sem possui-lo como se fosse uma grande reserva de ouro. O verdadeiro sábio é aquele que pesquisa, questiona, duvida, pergunta, busca respostas e procura dar uma compreensão coerente das coisas, procurando esclarecer e explicar, mas sem que se arrogue em oferecer uma ideia "pronta" e "acabada" das coisas.
Divaldo, porém, parece querer oferecer o "saber" pronto, sem que possamos analisar nem questionar. Pelo contrário, a confusão, típica de um Brasil de pretensiosos, entre deslumbramento religioso e apreciação científica, faz com que muitos acreditem em Divaldo Franco e tudo o que ele diz, numa reação claramente devota mas (muito mal) disfarçada de apreciação científica e intelectual.
E aí o comércio de frases prontas e ideias acabadas, servidas como se fossem jantar de festas de gala, se movimenta com as duvidosas séries Divaldo Responde, que só servem para alimentar e adoçar a fé religiosa às custas de pretensas respostas para todas as questões. E, o que é pior, as pessoas acabam deixando de lado verdadeiros pensadores para ficar só com as "dicas de Divaldo".
Isso é muito grave. E essa ilusão corrompe a busca de conhecimento, acomodando as pessoas que são incapazes de buscar respostas por conta própria e pelo desenvolvimento do raciocínio. Se apoiam num pretenso sábio, só pelo pretexto de que ele traz as coisas prontas para serem resolvidas na vida, algo que nem sempre funciona para muitas individualidades.
E assim o "espiritismo" se alimenta de seus totens e falsos sábios. Se muitos ainda consideram o confuso Chico Xavier um "filósofo", eles podem se irritar ao ver alguém denunciando a imagem de falso sábio de Divaldo Franco.
Mas a verdade é que a lógica não permite que pessoas venham com tudo pronto, se o mundo dá voltas e as questões exigem mais análise de coerência do que a presunção da "verdade adquirida". E isso sabendo que Divaldo Franco levaria um ZERO irrecuperável do professor Allan Kardec.
terça-feira, 18 de agosto de 2015
Brasil e os dilemas da valorização da imagem da mulher
A ATRIZ GIOVANNA ANTONELLI É VALORIZADA POR UMA ESTÉTICA NATURAL, SEM O EXAGERO QUE MARCA AS "MUSAS" SILICONADAS.
O Brasil se transforma, ainda que muito longe dos devaneios fatalistas e de carregado moralismo religioso de Francisco Cândido Xavier, e de maneira não muito tranquila, mas conflituosa, vide a reação dos reacionários de todo tipo na Internet.
O machismo é uma dessas ideologias que começam a viver seu inferno astral, principalmente quando feminicidas que antes se apoiavam triunfantes no ideal da "defesa da honra masculina" hoje podem ser esculhambados por internautas de todo o país, serem presos em regime fechado ou encarar a tragédia própria, mesmo antes dos 60 anos, sofrendo infartos ou acidentes de trândito.
É uma época em que dois dos mais famosos feminicidas do país, o empresário Doca Street e o ex-jornalista Antônio Pimenta Neves, se encontram em idades avançadas, respectivamente 81 e 78 anos, faixa em que ocorrem boa parte dos óbitos entre famosos.
É temido, não só entre os machistas como mesmo na grande mídia conservadora, que os dois morram de uma hora para outra, mesmo quando se considera que Doca teve um passado de forte tabagismo e uso de cocaína, Pimenta ingeriu uma overdose de remédios e que, com menos idade que eles, o Brasil já perdeu gente de caráter muito mais admirável e digno do que eles.
Pois o machismo que começa a ver seu crepúsculo em nuvens cinzentas e que já viu jovens feminicidas morrerem em desastre de carro - um em Florianópolis, em dezembro de 2013 e outro em Brasília, há poucos meses - como amostra de um futuro sombrio para os "defensores da honra masculina" vê sua ideologia ruir com a mudança dos tempos.
Mesmo o machismo recreativo das mulheres-objetos, que nos últimos tempos usava o pretexto de "feminismo popular", sob a estranha complacência de parte do movimento feminista e de mulheres acadêmicas e ativistas de alguma projeção, decai mesmo diante dos protestos de parcela da intelectualidade brasileira.
O perfil da mulher acaba se transformando, e as chamadas "musas populares", geralmente de corpos siliconados e que transformam a sensualidade no fim em si mesmo, estão decaindo de forma vertiginosa e vergonhosa, embora muitas delas resistam a todo custo, tentando se colocar acima dos tempos e das transformações.
Recentemente, um portal baiano anunciou os "dotes físicos" de uma "musa" de um clube de futebol, o Esporte Clube Bahia, usando alegorias machistas como "abundância" e "peitulância", lembrando o que o Estado vivenciou com o decadente fenômeno É O Tchan, que hoje mal consegue se projetar no já declinante mercado da axé-music no Estado.
"SENSUALIDADE" OFENSIVA EM TODOS OS SENTIDOS
As siliconadas, com sua obsessão pela ostentação corporal, que transforma o corpo feminino numa mercadoria simbólica para alimentar a tara masculina de seu público, geralmente de baixo poder aquisitivo ou de perfil machista de classe média, apesar da blindagem intelectual que sugere um suposto feminino, são na verdade um amontoado de preconceitos sociais perversos.
Com peitos e glúteos artificialmente aumentados pelos silicones, as "musas populares", conhecidas também como "boazudas" ou "popozudas" ou pelo eufemismo de "gostosas demais", elas acabam depreciando duplamente tanto as mulheres de padrão estético dominante quanto aquelas que se encontram fora desses padrões.
Primeiro, porque as "musas populares" levam ao extremo a obsessão pela perfeição física, muito mais do que se acusam das modelos e atrizes que posam para capas de revistas como Cláudia, Boa Forma, Nova Cosmopolitan e Marie Claire.
É o que se observa em "musas" como Solange Gomes, Renata Frisson (Mulher Melão), Geisy Arruda, ou mesmo Tati Quebra-Barraco e Mulher Filé. A obsessão delas por plásticas e silicones contradiz o discurso das mulheres intelectuais mais influentes de que essa obsessão se limita apenas ao lado das mulheres de classe média sob influência de revistas femininas e comerciais de TV.
Segundo, porque as mulheres que não correspondem aos padrões estéticos, não sendo popularmente consideradas "bonitas" ou "formosas", também são depreciadas. Imagine a mulher pobre e negra que tem um corpo roliço e glúteos largos, sem preocupação com o aspecto estético e amando sua aparência tal como ela é, sendo parodiada por uma funqueira "sensual" que dá a ideia ofensiva de que a negra pobre de corpo "largo" só pode ser "sensual" e "sexualmente apelativa".
Afinal, existem mulheres de todo tipo e mesmo as não consideradas "atraentes" têm todo o direito de viverem bem e até terem seus companheiros e outros benefícios na vida. Se elas também são parodiadas por mulheres que, ao rebolarem e posarem com glúteos empinados, isso não pode ser visto como algo positivo.
Infelizmente, isso é visto como "positivo", sim. Quantos intelectuais já disseram que as siliconadas são a "expressão da mulher brasileira", enfiando alegações raciais e tudo, "etnicizando" a ideologia do "mau gosto" e da "autoesculhambação" popularesca que transforma as classes pobres em caricaturas cruéis de si próprias?
Sim, e documentários e monografias "sérios" foram feitos em série, dando um suporte "legítimo" e "admirável" a abordagens que, prometendo romper com o preconceito, se mostravam bem mais cruel e escandalosamente preconceituosas.
Se servir da mais engenhosa teoria etnográfica e das mais sofisticadas linguagens discursivas, para depreciar a mulher brasileira através da erotização mercantilista das "boazudas" siliconadas e seu "trabalho" reduzido a uma exploração obsessiva e leviana da sensualidade, "mostrando demais" sem fazer outra coisa de relevante, nem mesmo proteger seus corpos da superexposição.
Para piorar, alegações como "liberdade do corpo", "direito ao sexo" e "direito à sensualidade" contradizem a blindagem das feministas que, quando se refere à classe média, criam uma vigilância excessiva à apreciação da beleza feminina.
Na classe média, a mulher não pode ser assediada por machões nem ser ridicularizada pelos comerciais de TV. Mas, nas "periferias" idealizadas por intelectuais "provocativos", as mulheres pobres são "representadas" por "musas" que alimentam ainda mais a libido dos machões e, com suas gafes e seu erotismo grotesco, não temem explorar a imagem ridícula de si mesmas.
E isso ainda é feito, embora mais timidamente, já que a sociedade reage com críticas negativas ao sensualismo de mercado das "boazudas", ao "feminismo de resultados" feito por elas, mais próximo de um femismo, ou seja, de uma simbólica misandria, de um "ódio aos homens".
Por outro lado, mulheres com beleza mais natural, sem o uso abusivo do silicone ou, quando muito, apenas o uso discreto dessa substância para corrigir falhas nos seios, sem comprometer a forma física. Atrizes como Giovanna Antonelli, Paolla Oliveira e Alinne Moraes começam a desbancar as mulheres que "mostram demais".
Na verdade, esse mercado "feminista" de mulheres siliconadas que "mostram demais" era alimentado por empresários do sexo masculino, tão machistas quanto seu público, mas dotados de senso marqueteiro suficiente para inverter o discurso ideológico. As "boazudas" chegaram a embarcar nas causas LGBTT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e transgêneros) para disfarçar o machismo que elas representam com seus estereótipos "sensuais".
É assustador que uma minoria de homens, com personalidade não muito diferente à de capatazes de grandes fazendas, investem em milhares de mulheres que só se comprometem em mostrar sua "abundância" e "peitulância", e, ainda por cima, serem vendidas como "uma nova forma de feminismo". Mas chega um ponto em que não dá para esconder as contradições e o aspecto machista dessas "musas" torna-se indisfarçável.
O Brasil luta para tentar resolver os retrocessos. Num momento reage contra eles, mas em outro os beneficiários dos retrocessos também reagem. As "boazudas" tentam se impor e passar por cima das mudanças sociais que fazem obsoletas as formas obsessivas, grosseiras e forçadas de sensualidade feminina, mesmo quando "mostrar demais" deixa de ser sinônimo de atraente sedução.
O Brasil se transforma, ainda que muito longe dos devaneios fatalistas e de carregado moralismo religioso de Francisco Cândido Xavier, e de maneira não muito tranquila, mas conflituosa, vide a reação dos reacionários de todo tipo na Internet.
O machismo é uma dessas ideologias que começam a viver seu inferno astral, principalmente quando feminicidas que antes se apoiavam triunfantes no ideal da "defesa da honra masculina" hoje podem ser esculhambados por internautas de todo o país, serem presos em regime fechado ou encarar a tragédia própria, mesmo antes dos 60 anos, sofrendo infartos ou acidentes de trândito.
É uma época em que dois dos mais famosos feminicidas do país, o empresário Doca Street e o ex-jornalista Antônio Pimenta Neves, se encontram em idades avançadas, respectivamente 81 e 78 anos, faixa em que ocorrem boa parte dos óbitos entre famosos.
É temido, não só entre os machistas como mesmo na grande mídia conservadora, que os dois morram de uma hora para outra, mesmo quando se considera que Doca teve um passado de forte tabagismo e uso de cocaína, Pimenta ingeriu uma overdose de remédios e que, com menos idade que eles, o Brasil já perdeu gente de caráter muito mais admirável e digno do que eles.
Pois o machismo que começa a ver seu crepúsculo em nuvens cinzentas e que já viu jovens feminicidas morrerem em desastre de carro - um em Florianópolis, em dezembro de 2013 e outro em Brasília, há poucos meses - como amostra de um futuro sombrio para os "defensores da honra masculina" vê sua ideologia ruir com a mudança dos tempos.
Mesmo o machismo recreativo das mulheres-objetos, que nos últimos tempos usava o pretexto de "feminismo popular", sob a estranha complacência de parte do movimento feminista e de mulheres acadêmicas e ativistas de alguma projeção, decai mesmo diante dos protestos de parcela da intelectualidade brasileira.
O perfil da mulher acaba se transformando, e as chamadas "musas populares", geralmente de corpos siliconados e que transformam a sensualidade no fim em si mesmo, estão decaindo de forma vertiginosa e vergonhosa, embora muitas delas resistam a todo custo, tentando se colocar acima dos tempos e das transformações.
Recentemente, um portal baiano anunciou os "dotes físicos" de uma "musa" de um clube de futebol, o Esporte Clube Bahia, usando alegorias machistas como "abundância" e "peitulância", lembrando o que o Estado vivenciou com o decadente fenômeno É O Tchan, que hoje mal consegue se projetar no já declinante mercado da axé-music no Estado.
"SENSUALIDADE" OFENSIVA EM TODOS OS SENTIDOS
As siliconadas, com sua obsessão pela ostentação corporal, que transforma o corpo feminino numa mercadoria simbólica para alimentar a tara masculina de seu público, geralmente de baixo poder aquisitivo ou de perfil machista de classe média, apesar da blindagem intelectual que sugere um suposto feminino, são na verdade um amontoado de preconceitos sociais perversos.
Com peitos e glúteos artificialmente aumentados pelos silicones, as "musas populares", conhecidas também como "boazudas" ou "popozudas" ou pelo eufemismo de "gostosas demais", elas acabam depreciando duplamente tanto as mulheres de padrão estético dominante quanto aquelas que se encontram fora desses padrões.
Primeiro, porque as "musas populares" levam ao extremo a obsessão pela perfeição física, muito mais do que se acusam das modelos e atrizes que posam para capas de revistas como Cláudia, Boa Forma, Nova Cosmopolitan e Marie Claire.
É o que se observa em "musas" como Solange Gomes, Renata Frisson (Mulher Melão), Geisy Arruda, ou mesmo Tati Quebra-Barraco e Mulher Filé. A obsessão delas por plásticas e silicones contradiz o discurso das mulheres intelectuais mais influentes de que essa obsessão se limita apenas ao lado das mulheres de classe média sob influência de revistas femininas e comerciais de TV.
Segundo, porque as mulheres que não correspondem aos padrões estéticos, não sendo popularmente consideradas "bonitas" ou "formosas", também são depreciadas. Imagine a mulher pobre e negra que tem um corpo roliço e glúteos largos, sem preocupação com o aspecto estético e amando sua aparência tal como ela é, sendo parodiada por uma funqueira "sensual" que dá a ideia ofensiva de que a negra pobre de corpo "largo" só pode ser "sensual" e "sexualmente apelativa".
Afinal, existem mulheres de todo tipo e mesmo as não consideradas "atraentes" têm todo o direito de viverem bem e até terem seus companheiros e outros benefícios na vida. Se elas também são parodiadas por mulheres que, ao rebolarem e posarem com glúteos empinados, isso não pode ser visto como algo positivo.
Infelizmente, isso é visto como "positivo", sim. Quantos intelectuais já disseram que as siliconadas são a "expressão da mulher brasileira", enfiando alegações raciais e tudo, "etnicizando" a ideologia do "mau gosto" e da "autoesculhambação" popularesca que transforma as classes pobres em caricaturas cruéis de si próprias?
Sim, e documentários e monografias "sérios" foram feitos em série, dando um suporte "legítimo" e "admirável" a abordagens que, prometendo romper com o preconceito, se mostravam bem mais cruel e escandalosamente preconceituosas.
Se servir da mais engenhosa teoria etnográfica e das mais sofisticadas linguagens discursivas, para depreciar a mulher brasileira através da erotização mercantilista das "boazudas" siliconadas e seu "trabalho" reduzido a uma exploração obsessiva e leviana da sensualidade, "mostrando demais" sem fazer outra coisa de relevante, nem mesmo proteger seus corpos da superexposição.
Para piorar, alegações como "liberdade do corpo", "direito ao sexo" e "direito à sensualidade" contradizem a blindagem das feministas que, quando se refere à classe média, criam uma vigilância excessiva à apreciação da beleza feminina.
Na classe média, a mulher não pode ser assediada por machões nem ser ridicularizada pelos comerciais de TV. Mas, nas "periferias" idealizadas por intelectuais "provocativos", as mulheres pobres são "representadas" por "musas" que alimentam ainda mais a libido dos machões e, com suas gafes e seu erotismo grotesco, não temem explorar a imagem ridícula de si mesmas.
E isso ainda é feito, embora mais timidamente, já que a sociedade reage com críticas negativas ao sensualismo de mercado das "boazudas", ao "feminismo de resultados" feito por elas, mais próximo de um femismo, ou seja, de uma simbólica misandria, de um "ódio aos homens".
Por outro lado, mulheres com beleza mais natural, sem o uso abusivo do silicone ou, quando muito, apenas o uso discreto dessa substância para corrigir falhas nos seios, sem comprometer a forma física. Atrizes como Giovanna Antonelli, Paolla Oliveira e Alinne Moraes começam a desbancar as mulheres que "mostram demais".
Na verdade, esse mercado "feminista" de mulheres siliconadas que "mostram demais" era alimentado por empresários do sexo masculino, tão machistas quanto seu público, mas dotados de senso marqueteiro suficiente para inverter o discurso ideológico. As "boazudas" chegaram a embarcar nas causas LGBTT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e transgêneros) para disfarçar o machismo que elas representam com seus estereótipos "sensuais".
É assustador que uma minoria de homens, com personalidade não muito diferente à de capatazes de grandes fazendas, investem em milhares de mulheres que só se comprometem em mostrar sua "abundância" e "peitulância", e, ainda por cima, serem vendidas como "uma nova forma de feminismo". Mas chega um ponto em que não dá para esconder as contradições e o aspecto machista dessas "musas" torna-se indisfarçável.
O Brasil luta para tentar resolver os retrocessos. Num momento reage contra eles, mas em outro os beneficiários dos retrocessos também reagem. As "boazudas" tentam se impor e passar por cima das mudanças sociais que fazem obsoletas as formas obsessivas, grosseiras e forçadas de sensualidade feminina, mesmo quando "mostrar demais" deixa de ser sinônimo de atraente sedução.
segunda-feira, 17 de agosto de 2015
Suposta psicografia atribuída a Tancredo Neves é divulgada
Uma mensagem atribuída a um espírito ilustre, o político Tancredo Neves, falecido há 30 anos, foi divulgada, mostrando um caráter igrejista atípico a sua pessoa, mas bastante comum nas supostas psicografias. Ela foi dada pelo anti-médium Robson Pinheiro, o atual "queridinho" do comercialismo literário "espiritualista".
O texto é longo e um tanto prolixo, e tendenciosamente cita Allan Kardec - alvo de bajulações cada vez mais intensas do "movimento espírita" - , mas também um esquecido paranormal estadunidense, Edgard Cayce (1877-1945).
O texto forja um eruditismo de pensamento apesar da apelação religiosista carregada, sobretudo aquela mesma súplica de "orarmos" pelo momento atual. O texto evoca "circos romanos", e pede a ação "nas redes sociais, na família, no trabalho e na sociedade", numa perspectiva sutilmente igrejista, mas dissimulada por clichês do discurso solene político.
É mais um apelo dos "espíritas", que ultimamente andam citando levianamente o nome de Allan Kardec, como se ele aceitasse comodamente qualquer desvio do Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos.
Com práticas "mediúnicas" forjadas, abordagens especulativas e fantasiosas da vida espiritual e apelação religiosista e catolicizada, os "espíritas" podem passar o tempo todo louvando Kardec e jurando fidelidade absoluta a ele, que não convencerão, já que agem em grave contradição com o pensamento e a prática do professor francês.
Vale observar a mensagem do suposto Tancredo Neves - será que o atrapalhado Aécio Neves iria adorar? - , para ver como os supostos médiuns "espíritas" apelam para o oportunismo e o tendenciosismo, sem conhecer realmente a natureza da vida espiritual e da prática mediúnica, que passam longe de qualquer panfletarismo religioso que se vê nas mensagens publicadas.
A carta é longa e requer uma leitura cautelosa. Vale lembrar que a veracidade não se verifica pelas semelhanças, em muitos casos fáceis de serem imitadas, mas pelas diferenças que podem contradizer a autenticidade. E o panfletarismo religioso dessa mensagem já põe dúvida, assim como o "brasileiros e brasileiras" que parece ser mais típica do seu então vice e depois sucessor, José Sarney.
De forma ainda mais oportunista, Robson Pinheiro, não bastasse a atribuição da mensagem a Tancredo Neves, ainda se arroga em supor que o texto foi escrito tendo como testemunhas o ativista abolicionista do Segundo Império, José do Patrocínio, e o ex-presidente Getúlio Vargas, que teve em Tancredo seu último ministro da Justiça.
Em tempo: Robson Pinheiro usou a tradução de Guillón Ribeiro para O Livro dos Espíritos, publicada pela FEB, na qual a expressão em francês equivalente à "sua (de Jesus) doutrina" foi substituída levianamente pela expressão "doutrina do Salvador".
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Suposta psicografia de Robson Pinheiro atribuída a Tancredo Neves
Amigos e companheiros, brasileiros e brasileiras,
Nosso país passa por momentos incomuns em seu cenário político, econômico e social, mas, sobretudo, por uma crise sem precedentes de ordem espiritual, a qual se faz perceber nos desdobramentos do nosso momento político e na conjuntura socioeconômica na qual estamos todos inseridos e imersos.
Não podemos ignorar as palavras de Allan Kardec ao registrar que “de ordinário, são eles [os espíritos] que vos dirigem”.[1] Sob esse pensamento, que traduz a realidade da vida nos bastidores de todas as ações humanas, sabemos que as dificuldades enfrentadas pelo povo brasileiro não são somente da parte daqueles que detêm o poder ou que o veem fugir de suas mãos. Nós enfrentamos, neste momento, um dos casos mais graves de obsessões complexas num âmbito generalizado em nossa nação. O país passa por uma crise espiritual na qual as forças da oposição ao progresso culminaram com a derrocada de valores e conquistas do povo brasileiro, afetando, em grande medida, as instituições públicas. Tudo isso levando-se em conta que, desde os bastidores da vida, espíritos representantes das sombras, das trevas mais ínferas, têm manipulado suas marionetes — políticos, homens públicos, empresários e homens do povo, desde as pessoas mais comuns até aquelas que em alguma grau detêm poder ou liderança sobre a multidão e, ainda, as que formam opinião e são capazes de influenciar a situação reinante — a qual, a cada dia, agrava-se a passos claros.
Não podemos desconsiderar que a arma da qual se utilizam os representantes das trevas deste século é eficiente o bastante para minar as forças daqueles que querem acertar, pois formam quadrilhas, grupos de poder para os quais é mais importante sua manutenção no poder, a qualquer custo, do que o bem-estar do povo e das instituições que zelam por nosso futuro promissor como nação.
Não nos esqueçamos de que, por trás de homens, estão as hostes espirituais da maldade, que fazem de tudo para saquear os cofres públicos, solapar a economia, fraudar, corromper os valores éticos, assim roubando do povo brasileiro o sono de sossego ou a fé em dias melhores. A estratégia dessas entidades consiste, em larga medida, em promover a desgraça daqueles homens e daquelas instituições que ainda acreditam e representam o bem, a honestidade, a retidão de caráter e os valores que nos tornaram, ao longo dos séculos, a grande nação que somos. É a política das trevas, por meio de suas marionetes encarnadas, a deturpar tanto o significado quanto a razão mesma da ética e de valores nobres e sadios mediante o assassinato da fé do povo, alardeando uma visão populista ao mesmo tempo que encobre sua verdadeira face de estandarte do mal e das forças da escuridão.
Estamos em plena guerra espiritual, na qual o campo de batalhas está cada vez mais próximo de nós, de nossas famílias, de nossas vidas. Não mais podemos pensar num tempo de tranquilidade ou de aparente segurança, pois ninguém está seguro diante dos lobos travestidos em peles de ovelhas com seus discursos preparados para enganar e levar a multidão a erro. Em troca, deixam as migalhas caírem de seus cofres particulares, ou dos cofres e das contas bilionárias das quadrilhas que tomaram de assalto e aparelharam o governo, o país e as instituições que deveriam nos representar.
Mas não estão sós esses homens que assim agem. Como marionetes das forças das trevas, eles representam um forte aparato de guerra que é utilizado a fim de retardar o progresso e fazer com que as instituições do bem sejam afetadas diretamente, pela força, a arrogância, as mentiras e as pretensões das quais se valem para fazer afundar o barco da nação brasileira.
A política faliu; os homens públicos faliram; muitas empresas sucumbiram mediante o abuso daqueles que tentam dominar a qualquer custo, e, inclusive, muitos homens de bem, muitas pessoas de boa vontade, iludidas, deixaram-se levar pelas promessas vãs, pelas políticas públicas populistas, com seu idealismo patético a distribuir suas migalhas, que ainda hoje retêm a população mais sofrida na situação de dependência crônica dos programas forjados para iludi-la, visando à ignorância do povo acerca do que se comete nos bastidores. Misérias e bolsas oportunistas são oferecidas à gente pobre mas também aos ricos, enquanto lobos vorazes pilham a economia e buscam se manter disfarçados de ovelhas no comando de uma das maiores nações do planeta.
Não nos enganemos, meus amigos, pois não estamos lutando “contra a carne e o sangue”, mas, como disse o apóstolo Paulo, “contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade”.[2] Em outras palavras, a guerra não é contra homens, apenas; com efeito, é de ordem espiritual. Nosso discurso não é meramente político, mas de convicção espiritual da realidade dos seres trevosos com os quais lidamos. Quem é incapaz de perceber a gravidade da hora, o estiramento das convicções e o assalto aos valores em pleno curso, deve-se indagar, honestamente, se sua visão já não está comprometida pelos feiticeiros da hipnose vigente, pelos artífices da derrocada da nação brasileira, dos dois lados da vida.
Por isso, hoje não nos resta uma alternativa plenamente confiável, embora vislumbremos a possibilidade de modificar esse panorama, dando um novo rumo ao nosso futuro. Se, por um lado, não se apresenta alguém que reúna condições genuínas e plenas de representar a nação e o povo brasileiro fazendo frente a esta marca da corrupção que avassala desde Brasília até a base mesma da sociedade — isto é, o povo comum —, pelo menos nos resta a alternativa de optarmos por uma ética ou, quem sabe, pela possibilidade de mudar, uma vez que o horizonte não nos aponta um líder ou uma liderança isenta de chances de perpetuar o erro. Ou, mais modestamente: diante do quadro dramático em que se vê a nossa nação, errar menos já seria de muito bom grado diante do extremo a que chegaram os representantes eleitos democraticamente pelo nosso povo, iludido pelas promessas, as mentiras e as ideologias de um governo dos mais corruptos que a história do Brasil já conheceu. Diante de tamanha manipulação mental, hipnótica e sensorial empregada por aqueles que formaram a quadrilha que nos governa desde os bastidores do Palácio da Alvorada até os bastidores da vida, sem dúvida errar menos já significaria grande avanço.
Nosso momento é grave, não somente economicamente, mas espiritualmente falando. Sobretudo do ponto de vista espiritual, pois sabemos, com o mínimo de perspicácia e observação, que forças ocultas estão em plena concentração na tentativa de afundar o barco da nação brasileira, sobre a qual já foi dito, um dia, que deveria ser o coração do mundo e a pátria do Evangelho.
Segundo podemos constatar, o coração está parando; está enfermo e precisando urgentemente de uma cirurgia moral, ética e espiritual. E é raro que um processo cirúrgico não cause apreensão e seja indolor.
Em caráter emergencial, precisamos nos irmanar em oração, todos os que de alguma maneira querem o bem do povo brasileiro. Precisamos pedir a Jesus que tenha misericórdia dos filhos desta terra e das lideranças e dos representantes do povo, mas que também sustente os esforços daqueles poucos que resistem e querem acertar; dos que militam em defesa da ética, da justiça, do desmascaramento dos lobos que enganam e enganaram a multidão num momento frágil de sua fé no futuro e utilizaram do poder de barganha para comprar com promessas levianas aqueles que não souberam e ainda não sabem distinguir entre a ovelha e o lobo — este, o bando que governa, distribuindo migalhas em troca de votos e popularidade. Quem sabe, clamar para que os cidadãos sejam capazes de discernir e identifiquem quem deseja ajudar educando e objetiva, de fato, libertá-los da miséria, da servidão da consciência e da ignorância. Precisamos nos reunir em oração, mesmo aqueles que de alguma maneira ainda se deixam levar pelas promessas que já se mostraram vazias e pelo idealismo disseminado em nome desta política desumana, que com certeza não tem sua origem nos dirigentes espirituais da nação, mas nas hostes da maldade, nos representantes da escuridão que estão encastelados nos corações daqueles que, em troca do sofrimento do povo brasileiro, tentam dominar e perpetuar-se no poder a qualquer custo.
Nosso convite é para orarmos, juntarmos nossas energias e possibilidades espirituais, e não somente vibrações, para que nos pronunciemos cada vez mais. Que tenhamos a coragem de sair de nossos lares, de ir às ruas, de nos manifestar pelo bem e pelo direito, pela vitória da ética e da dignidade. E não falo aqui a favor ou contra partidos políticos, mas a favor do bem, da justiça e das conquistas de nossa nação.
Que possamos descruzar os braços, sair do comodismo diante dos acontecimentos, tentando de alguma maneira nos pronunciar a fim de não darmos ainda mais razão ao pensamento de que, se o bem não domina, é porque “os bons são tímidos”[3] — ou fracos. Sem que se ergam os cristãos como dantes se ergueram perante as arbitrariedades dos ímpios, que culminaram nos circos romanos da Antiguidade; sem que nos mexamos e façamos a nossa parte — muito mais do que simplesmente rezarmos e pedirmos ajuda ao Alto, sabendo que todos somos a ajuda que o Alto envia para agir no momento de crise —; sem isso, se não agirmos e formos proativos, seremos apenas uma voz rouca que, aos poucos, será silenciada em meio à multidão dos que sofrem e do poder dos marginais a serviço da escuridão. Seremos apenas miseráveis, escondidos em nossas casas de oração, batendo no peito a clamar socorro, escondidos com medo de nos mostrar em nome da causa do bem pela qual todos deveríamos nos expor e mostrar que, juntos, podemos muito mais!
Não se acanhem, não se iludam. Estamos em plena guerra espiritual, e, numa guerra, onde estarão os representantes de um reino em tudo superior aos reinos falidos dos homens e dos representantes das sombras?
Oremos, sim, rezemos mais ainda, mas sobretudo nos posicionemos, em nossas redes sociais, em nosso círculo de ação, em nossas famílias, no trabalho e na sociedade, enquanto é tempo — antes que seja levantada a bandeira da escuridão a substituir a do bem no seio do Brasil. Esteja de que lado estiver, defenda você qualquer ideologia que defender, qualquer partido político ou religião, saiba que você não está fora dessa luta e, se não se posicionar urgentemente, será arrastado pelo caudal das lutas e provações que já se avizinha da gente brasileira, ocasionado pela política desumana e sombria dos seres das trevas e de seus representantes políticos no mundo.
Relembrando o pensamento de Edgard Cayce, numa de suas profecias modernas: nenhuma instituição, nenhuma família, ninguém ficará isento de passar pelas lutas e pelas provações coletivas que se abaterão sobre a nação neste momento grave de provas a que serão submetidos o povo brasileiro e o mundo em geral.[4] Portanto, em nome do bem, em nome da justiça, em nome da ética e da sobrevivência de nossa nação, dos valores morais e das conquistas sociais, em nome de Jesus, que representa a política divina do Reino, convocamos você a se pronunciar, a se mostrar, a mostrar a sua cara e sair do comodismo de sua poltrona; a sair às ruas e gritar, falar, divulgar nas redes sociais que nós, os que acreditamos num mundo melhor, não compactuamos com a situação, a posição e as atitudes de franco desequilíbrio espiritual, social, político, tampouco com o desrespeito como vem sendo tratado o povo brasileiro nos últimos tempos. Precisamos formar um feixe de varas, estar juntos, embora não fundidos, mas, sobretudo, precisamos nos unir no propósito de enfrentar as hostes da maldade instaladas em Brasília e nos bastiões do poder em todo o território brasileiro. A bandeira do bem e da justiça urge ser hasteada, e os bons, os que dizem representar o bem, precisam sair de seu ostracismo e mostrar que realmente representam uma política divina, e não a política humana marcada pela corrupção dos valores e da fé.
Robson Pinheiro pelo espírito Tancredo Neves (sic), na companhia (sic) dos (supostos) espíritos José do Patrocínio e Getúlio Vargas
Belo Horizonte, 04/08/2015
[1] kardec, Allan. O livro dos espíritos. 1ª ed. esp. Rio de Janeiro: feb, 2005. p. 306, item 459.
[2] Efésios 6:12.
[3] kardec. O livro dos espíritos. Op. cit. p. 526, item 932.
[4] Cf. “Os tempos do fim”. In: pinheiro, Robson. Pelo espírito Ângelo Inácio. A marca da besta. Contagem: Casa dos Espíritos, 2015. p. 120-170.
domingo, 16 de agosto de 2015
Como fazer os "espíritas" separarem Humberto de Campos de Chico Xavier?
Um dos piores casos de obsessão espiritual ocorridos no Brasil partiu justamente daquele tido como o "maior brasileiro da História", associado por muitos à ideia de perfeição espiritual, caridade infinita e sabedoria intuitiva: Francisco Cândido Xavier.
Pois foi justamente ele, na verdade um indivíduo de credibilidade duvidosa, plagiador de livros, usurpador da memória dos mortos e católico infiltrado nas tentativas de se praticar a Doutrina Espírita no Brasil, que fez de Humberto de Campos a pior de todas as obsessões que se pode imaginar de um encarnado para um desencarnado.
Chico Xavier tornou-se o único a sair não apenas impune diante do uso indevido e oportunista da imagem e do carisma de alguém falecido, mas também estimulado e, pasmem, respeitado e apoiado por essa apropriação indébita.
Chegou-se a um tempo em que Humberto de Campos, como morto, tivesse passado a ser um subordinado de Chico Xavier, e mesmo os críticos do chiquismo, desinformados, chegam a atribuir o "Humberto de Campos espírito" como verídico, embora de forma bastante negativa.
Pois a verdade é que Humberto de Campos nunca teve a ver com Chico Xavier e, se este evocava o tempo todo o espírito do autor maranhense, este, na verdade, se afastava cada vez mais do anti-médium mineiro, constrangido com a paranoia deste. Sim, foi uma paranoia de Chico Xavier se apropriar de Humberto de Campos.
A verdade é que Chico Xavier não gostou das resenhas que Humberto de Campos, quando ainda era vivo, escreveu sobre Parnaso de Além-Túmulo, e há dúvidas se a aparente legitimação do escritor e acadêmico à atribuição de autorias espirituais aos pastiches poéticos, feitas pelo escritor e articulista, soariam irônicas ou não.
Humberto teria escrito que não aprovaria as "obras do além" porque elas concorreriam com as produções feitas pelos autores vivos e desviariam a atenção do grande público destes para os autores falecidos. e esse estranho comentário teria irritado Chico Xavier.
Consta-se que Chico Xavier e a Federação "Espírita" Brasileira combinaram, na pessoa do seu então presidente Antônio Wantuil de Freitas, a apropriação do legado simbólico de Humberto de Campos - ou seja, seu carisma e popularidade - , ao qual seria atribuída a autoria "espiritual" de parte dos livros lançados pelo anti-médium.
Assim, deu no que se deu: um Humberto de Campos que nada tinha a ver com o autor original de prosa fluente, descontraída e laica, mas um choroso religiosista melancólico, de prosa pesada e pedante, de leitura que só é agradável para beatos submissos à fé religiosa.
Isso causou uma polêmica que culminou nos tribunais. Os herdeiros de Humberto de Campos tentaram processar a FEB e Chico Xavier, mas como os juízes, naquele meado de 1944, não entenderam o problema, tudo ficou no empate, embora isto tenha favorecido o anti-médium, dando origem à sua mistificação que deslumbra muitos brasileiros até hoje.
O empate também gerou uma blindagem da FEB com Chico Xavier, tanto que, quando um novo escândalo estava por vir com a promessa de denúncias por parte do sobrinho do anti-médium, Amauri Xavier, criou-se uma campanha caluniosa contra este jovem, numa sucessão de incidentes que culminaram na misteriosa morte do rapaz.
A blindagem fez Chico Xavier tornar-se um "monstro" maior do que aquele que Humberto de Campos escreveu num conto, em que as figuras da Morte e da Dor tentaram criar um ser. O "monstro" criado pelas duas não deu certo, mas o "monstro" Chico Xavier se agigantou como se fosse o "dono do Brasil".
De repente, Chico Xavier e seu jogo de contradições - o "caipira que virou profeta", o "fraco que se fortaleceu", o "simples que passou por cima de todos os obstáculos" etc - fez o anti-médium estar acima de todos os fatos e circunstâncias, tentando fazê-lo penetrar até nos círculos laicos, com suas frases adocicadas que no fundo não têm serventia alguma.
Pior: Chico Xavier defendeu o golpe de 1964 e ainda defendeu a ditadura militar em 1971 - época em que direitistas como Alceu Amoroso Lima e Carlos Lacerda já se manifestavam contra o regime - , e no entanto setores das esquerdas se tornaram complacentes com sua figura.
A complacência absoluta e aberrante com Chico Xavier fez com que tudo se aceitasse dele, e poucos perceberem que ele tornou-se o maior beneficiário da impunidade que existe no Brasil, já que ele abertamente estava associado a pastiches literários, posições reacionárias e apoios a fraudes, e saiu ileso e imune a tudo isso, inocentado pelos erros gravíssimos que cometeu, muitas vezes com gosto.
E isso num país que criminaliza o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva até quando ele dá bom dia. Lula tornou-se até o inverso de Chico Xavier, porque Chico pode ser inocentado até pelos piores erros comprovadamente por ele praticados, e Lula é culpado até pelos acertos que havia realizado em seu governo.
SOLUÇÃO PARA DESAPEGAR HUMBERTO DE CAMPOS DE CHICO XAVIER: CONHECER A OBRA DO AUTOR MARANHENSE
E como fazer separar Humberto de Campos desse "encosto" chamado Chico Xavier, se as buscas da Internet reforçam ainda mais esse apego e essa obsessão que tanto envergonha a trajetória do escritor maranhense que, em seu tempo, tinha uma grande popularidade e prestígio?
Em primeiro lugar, os brasileiros deveriam voltar a ler Humberto de Campos, apenas pelos livros que ele escreveu em vida. Esqueçam as obras que tenham como crédito "Francisco Cândido Xavier pelo espírito Humberto de Campos" porque isso é fraude da grossa.
Essa fraude pode ser seguramente comparada com o confrontamento com o que Humberto escreveu em vida e o que Chico Xavier lançou usando o seu nome, já que as diferenças gritantes de linguagem, qualidade da escrita e temas abordados revelam-se indiscutivelmente graves.
Não nos devemos iludir com as semelhanças existentes aqui e ali, porque toda imitação e todo plágio têm como objetivo parecerem com o original, daí o aproveitamento deste ou daquele aspecto bem conhecido.
O que deve se chamar atenção é quanto às diferenças e contradições, que, estas sim, podem derrubar a veracidade tão vagamente cogitada através das semelhanças genéricas, porque basta uma única diferença contraditória para derrubar dez semelhanças atribuídas entre o verdadeiro e o falso.
Conhecendo melhor a vida e a obra de Humberto de Campos, criam-se condições para separá-lo de vez do famoso usurpador. Temos que ter mais firmeza de espírito e romper com o anti-médium que só é "bonzinho" porque a grande mídia diz, sem que a realidade comprove de maneira confiável e definitiva.
Portanto, vamos separar Humberto de Campos de Chico Xavier. Vamos apreciar o que Humberto de Campos nos deixou em vida, sua admirável literatura, seus depoimentos, suas ideias, e deixar de lado os delírios religiosistas que Chico Xavier teria colocado em nome do autor maranhense.
Abandonar Chico Xavier e o falso Humberto de Campos das obras "espirituais", ficando com o que o verdadeiro Humberto deixou em vida, é respeitar a sua pessoa e seu legado artístico, e, em parte, respeitar e valorizar, através dele, o nosso legado cultural, que já está por demais desrespeitado e empastelado pelas circunstâncias.
sábado, 15 de agosto de 2015
O "espiritismo" que pede perdão, mas não perdoa
O perdão é a melhor vingança? Ou não seria a vingança o melhor perdão? Na ideologia "espírita", os mais retrógrados e até cruéis têm um prazo de noventa anos para propagar seus erros, ou, quando muito, promoverem seus graves erros como "arroubos de juventude", sempre parecendo bem-sucedidos em relação às suas vítimas.
Já as vítimas são sempre vistas como "culpadas" por alguma falta passada, e por isso sofrem de maneira prolongada, "de acordo com seu merecimento". O dedo acusador "espírita", doutrina brasileira que se autoproclama "rigorosamente fiel a Allan Kardec", revela esse aberrante aspecto herdado pelo "renegado" Jean-Baptiste Roustaing.
Afinal, está em Os Quatro Evangelhos que a encarnação humana é um processo de castigo e sofrimento. Isso contraria Allan Kardec, que sempre viu na vida material um processo de aprendizado e bom proveito do espírito humano.
Já a ideologia de Francisco Cândido Xavier, que orienta o "espiritismo" brasileiro, segue esse ideal roustanguista, de forma tão explícita quanto hipócrita, já que a herança de Roustaing não é assumida. Falam tanto que são fiéis a Allan Kardec, mas quando se fala em encarnação, a visão que defendem é a roustanguista.
O perdão que o "espiritismo" pede é para os outros. A "ética dos outros" é um dos pilares do "movimento espírita", que pedem para que outros não julguem, apenas aceitem, compreendam e perdoem. Mas quando é do lado dos "espíritas", isso não acontece.
É o que se vê nos tratamentos espirituais, que só trazem o benefício "seletivo" por aqueles que aceitam as imposições da vida. Se a pessoa é mais conservadora, religiosista e tudo o mais, o tratamento tem efeito positivo. Mas se o indivíduo é mais diferenciado, o tratamento pode se revelar de um preocupante mau agouro.
Sem se decidirem que avaliação ou definição atribuem para espíritos de personalidade diferenciada - só a discriminatória ideia de "crianças-índigo" pode envolver de jovens cientistas a traficantes de drogas - , os "espíritas" lançam seus dedos acusadores contra aqueles que pedem justamente auxílio e perdão.
Tentam atribuir a vidas passadas o sofrimento das pessoas, e se limitam a recomendá-las "paciência" e obediência aos "desígnios de Deus". Resta ao sofredor abrir mão de seus princípios e se reduzir a mais um "carneiro" no rebanho, de preferência tendo que encarar as arbitrariedades alheias e correr o risco de sofrer situações vexaminosas e vexatórias.
Chico Xavier chegou a dizer que o "sofrimento é lindo", e falava coisas do tipo "enquanto você está no auge do pior infortúnio, os pássaros cantam como sempre cantaram nos mais belos dias de Sol". Declaração do mais profundo cinismo roustanguista, mas também um plágio do Amigo da Onça das tirinhas brasileiras.
As acusações dos "sábios espíritas", que não entendem de Ciência Espírita e suas ideias sobre mediunidade e vida espiritual não são mais do que pura especulação, frequentemente chegam à arrogância de atribuir às dificuldades insuperáveis do sofredor a uma suposta reação ao mal que dizem que ele teria cometido em algum momento do Império Romano.
Se os pássaros continuam cantando, se o curso dos rios continua como antes e o céu está bonito, coisas assim não são para serem ditas para quem sofre e pede socorro. Isso é uma grande falta de respeito às pessoas, que têm o direito de reagir às suas angústias e aos seus piores infortúnios. É o instinto de sobrevivência.
Querer que as pessoas não reclamem, que sofram "amando", que não questionem e só "confiem", esperando com overdose de preces por uma bonança que não virá, talvez nem postumamente - apesar do risinho otimismo dos "espíritas" sobre a "vida futura" - , tudo isso é uma grande manifestação de desrespeito e revela um não-perdão dos "espíritas".
A moral do "movimento espírita", de raiz roustanguista (por mais não-assumida que seja), tem esse aspecto sutilmente vingativo. O sofredor foi um "romano cruel" no passado, terá que rezar demais e ser beato nos ritos e eventos "espíritas" para sair dessa, pelo menos parcialmente.
Geralmente o sofredor nem sai de seus infortúnios. Alguns estragos ocorridos são irreparáveis e tudo que ele tem que fazer é orar, orar, orar, ir para "centro espírita" assistir às doutrinárias, ouvir os maçantes discursos de Divaldo Franco, e isso quando não se recomendam os venenosos livros de Emmanuel com supostas dicas para uma "vida melhor".
Aliás, se ler os livros de Emmanuel, é certo que piores infortúnios virão. A maioria das doutrinárias chega a ter efeito neutro, se bem que elas influem nos bloqueios ao emprego, à vida amorosa e outros âmbitos, só permitindo que se faça o "jogo do sistema": abrir mão de seus princípios e seus potenciais e "viver como se pode", obedecendo à imposição das situações.
Mas, com os livros do jesuíta, a coisa vai sempre pior, pois constantemente surgem situações humilhantes, encrencas ameaçadoras, infortúnios ainda mais pesados. Isso para dar um susto e criar insegurança ao sofredor, que já nem mais é empurrado para ser um beato "espírita", ele acaba se tornando ESCRAVO mesmo da doutrina igrejista.
Pois é através dos livros de Emmanuel que o "espiritismo" brasileiro mostra o quanto pede o perdão dos outros, mas não faz a sua parte. Pede para que ninguém se vingue, mas faz a sua vingança. São livros mal escritos, cheios de erros de abordagens, e cuja leitura dá mais azar do que passar debaixo de uma escada ou quebrar um espelho num banheiro.
Isso tem a ver com a herança roustanguista de que a encarnação só serve para castigo e sofrimento. Alguns "espíritas" até defendem isso sutilmente, com aquela maneira "sem querer querendo" que acontece muito no Brasil, de pessoas defendendo as piores posições mas tentando desmenti-las sempre. No Brasil, o malabarismo das palavras é a arma dos algozes e dos corruptos.
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
Erasto e o caso do "espiritismo" hoje
A advertência de Erasto a Allan Kardec, por intermédio de um médium (soa redundância, mas temos que escrever assim, até pelo fato de que os "médiuns" brasileiros quase nunca têm a função intermediadora dos verdadeiros médiuns), revela-se tão atual e urgente que, na verdade, prova o quanto o Brasil é sempre o país desprevenido e o último a saber das coisas diversas.
O "movimento espírita" tenta agora, com seus mais diversos indivíduos e com as derivações e dissidências formadas dentro de suas bases igrejistas, alegar "fidelidade absoluta e rigorosa a Allan Kardec", enquanto dá continuidade às suas costumeiras mistificações e fraudes.
Alguns desses "espíritas", achando que todo mundo é tolo e julgando Allan Kardec como se fosse um corno manso a aceitar qualquer desvio de sua doutrina, sob o pretexto do "amor e caridade", chegam mesmo a usar Erasto para condenar o "mau espiritismo" dos outros, se esquecendo que estes são os primeiros a serem reprovados pela advertência do discípulo de Paulo de Tarso.
Um trecho de sua mensagem revela-se contundente, pois, se Erasto acusava os inimigos da Doutrina Espírita de pregarem a divisão e a desunião, não são os igrejistas os unificadores, mas estes mesmos, com seus discursos dóceis, com suas ilustrações evocando jardins floridos, céus ensolarados e crianças belíssimas, tentam manchar a doutrina de Kardec com seus mitos e dogmas.
Eis o que Erasto disse, a respeito de como os inimigos do Espiritismo iriam agir, o que faria os brasileiros que tiverem um mínimo de discernimento ficarem horrorizados com os que no país tentam professar "em nome de Allan Kardec":
"Meus amigos, vossos excelentes Guias já vos disseram: - ‘Tereis que lutar não só contra os orgulhosos, os egoístas, os materialistas (...) mas ainda e sobretudo contra a turba de espíritos enganadores, que (...) em breve virão assaltar-vos: uns com dissertações sabiamente combinadas, nas quais insinuarão a heresia ou algum princípio dissolvente; outros, com comunicações abertamente hostis aos ensinos dados pelos verdadeiros missionários do Espírito de Verdade. Ah!, crede-me, não temais desmascarar os embusteiros, que, novos Tartufos, se introduzirão entre vós, sob a máscara da religião; sede igualmente impiedosos para com os lobos devoradores que se escondem sob as peles de cordeiros..."
As dissertações sabiamente combinadas acontecem e são produzidas em quantidades industriais. As fraudes e farsas são feitas tanto por encarnados quanto por desencarnados. Os orgulhosos, associados aos enganadores, fingirão a mais absoluta humildade e se portarão, quando contestados, com a mais aparente serenidade, como se eles é que fossem os "espíritos puros".
São orgulhosos a simularem "superioridade moral", egoístas que glorificam o sofrimento, desde que seja para seus seguidores, a troco de "recompensas" póstumas, materialistas que julgam que a vida material não presta e só deve ser feita pela angústia e pelo infortúnio, impedindo que o espírito intervenha na encarnação de forma proveitosa e prazerosa (que estimularia a espontaneidade).
São esses os "espíritas" que arrancam aplausos de muitos, que julgam "rigoroso respeito ao pensamento kardeciano", que inserem conceitos alienígenas, combinando heresias ocultistas com moralismo medieval, promovendo a deturpação da Doutrina Espírita em prol do mais retrógrado igrejismo, acobertado dos mais belos discursos e imagens.
Em primeira instância, deturpam o pensamento de Allan Kardec inserindo ideias fantasiosas, conceitos pedantes, valores moralistas dos mais antiquados, enquanto reduzem os "centros espíritas" a pretensos e confusos consultórios familiares, em templos da mais conservadora pregação moralista e do mais escancarado, porém improvisador, igrejismo.
Depois, lançam milhares de artigos e seminários jurando a "fidelidade absoluta" a Kardec, usando textos e advertências dele e de seus derivados - como a mensagem de Erasto e o Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos - em causa própria. É estarrecedor este caso, em que as mesmas pessoas que deturpam a Doutrina Espírita são as que mais apelam pela suposta fidelidade a ela.
Em última instância, não conseguindo convencer as pessoas de que seu "espiritismo" deturpado está "de acordo com Kardec", e vendo o escândalo bater à porta dos "centros espíritas" e ameaçar tirar seus líderes dos pedestais, tentam apelar com os mais belos e melífluos discursos e imagens.
Acuados, tentam forjar "superioridade" mantendo-se aparentemente serenos. E despejam os textos mais lindos na forma, caprichando em "bons exemplos", ilustrando seus artigos com jardins floridos, céus azuis com o brilho do Sol, meninas tocando em girassóis, mulatinhos sorridentes tomando sopa, avós recebendo abraços de adultos etc.
Sobre Tartufo, a comparação se deve à reação dos religiosos que, ao se verem parodiados na peça do notável ator, diretor teatral e dramaturgo Molière (nascido Jean-Baptiste Poquelin, 1622-1673), estreada em 1664 nos palcos franceses, o que causou um escândalo que fez o país, governado pelo rei Luís XIV, quase censurar a peça.
Graças à comédia teatral, a expressão "Tartufo" acabou simbolizando a pessoa hipócrita e o religioso enganador e farsante, e eis que, na mesma França de Molière, a ciência de Allan Kardec recebe a advertência de Erasto sobre os riscos de sua deturpação.
O Brasil acabou sendo o local perfeito dessa deturpação, que até chegou a ser experimentada na França, após o falecimento de Kardec em 1869, quando até seus seguidores se tornaram hesitantes e a influência de Jean-Baptiste Roustaing se tornou sedutora para seus compatriotas.
No entanto, é no país sul-americano que essas deturpações se tornaram prósperas, diante da fragilidade das diversas instituições sociais e da fácil inclinação dos brasileiros de apreciar estereótipos. Desse modo, as mais traiçoeiras mistificações ganhavam respaldo fácil e nem a Justiça chegava a desafiá-las de maneira firme e segura.
Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier adorado por seus seguidores, cometeu uma série de aberrantes rupturas com o pensamento de Kardec, que o anti-médium mineiro nunca quis se identificar nem conhecer direito. Ele nunca foi com a cara de Allan Kardec, era um católico das antigas, mas foi vinculado forçadamente à Doutrina Espírita, de forma estarrecedora.
Tentaram colocar Chico Xavier acima de todas as circunstâncias, passando por cima de todos os obstáculos, chegando mesmo a ser considerado o único que podia cometer seus próprios erros - vários de preocupante gravidade - e não ser responsabilizado por isso.
Pior: há correntes que tentam recuperar as bases kardecianas sem deixar de considerar alguma validade de Chico Xavier. Não se decidem do que aproveitar do anti-médium mineiro, e se deixam seduzir pela suposta imagem de "líder caridoso e de boa índole".
A partir disso, ovos de serpentes traiçoeiras, que como filhotes se contorcem parecendo graciosas minhocas, se multiplicam e crescem, e as armadilhas "espíritas" se tornam mais engenhosas, e seus líderes dotados do mais habilidoso malabarismo discursivo e ideológico, feitos para escapar de qualquer denúncia que os desmascarasse de vez.
Por isso, há todo um movimento de pretensa fidelidade a Allan Kardec, uma fidelidade que se reduz à letra "desencarnada", à mera conversa para boi dormir. E que permite que mistificações sejam feitas impunemente, sob o verniz do "amor e caridade", acobertando toda uma corrupção que acontece no "movimento espírita" e que faz mensalões e lava-jatos parecerem brincadeiras infantis.
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
A ditadura das zonas de conforto no Brasil
A onda de conformismo e de pouco questionamento que existe no Brasil nos últimos 50 anos e, de maneira mais intensa, nos últimos 25, é preocupante. A "felicidade" de pessoas que se contentam com pouco permite que arbitrariedades e retrocessos aconteçam sem que viva alma se desse conta disso.
As páginas que promovem questionamentos profundos sobre a realidade são as que menos visitas recebem, a não ser quando um gancho mais polêmico puxa a curiosidade das pessoas, como um assunto de grande predominância na agenda noticiosa do dia.
Nem mesmo o Twitter e o Google+ ou o Facebook conseguem chamar a atenção das pessoas. Pelo menos não há mais aquela adesão surpreendentemente maciça, porém negativa, em que um texto é lido por mais gente em menos tempo, só que quase todos reagem com ódio, sarcasmo e violência.
Isso porque o reacionarismo na Internet, que continua existindo, no entanto começa a ser visado. Se os encrenqueiros digitais antes davam surra e voltavam para dormir tranquilos, hoje eles dão surra, apanham e podem ter seus computadores levados para uma delegacia de polícia para investigação.
Mesmo assim, a situação não parece ter melhorado. Se, só no hábito de leitura de livros, os supérfluos ocupam cerca de 60% dos mais vendidos, criando modismos que procurem desviar o público da leitura de obras mais consistentes, fora dele a coisa é ainda pior.
Há até mesmo a má fama dos "vídeos da Internet", em que os destaques sempre se voltam para as mais variadas tolices, como um bebê recém-nascido que dubla Frank Sinatra ou um gato que pula do alto de uma geladeira e assusta uma dona-de-casa.
Fica muito difícil conscientizar e mobilizar dessa forma. E o nível de percepções das pessoas, que agora se limitam a brincar com o WhatsApp de seus celulares, torna-se ainda mais atrofiado e, mais complicado ainda é ver que, nestes casos, a pior ignorância é a ignorância da própria ignorância.
O Brasil passa por muitos retrocessos. O Sul e Sudeste, principalmente o Rio de Janeiro, tornam-se casos aberrantes e preocupantes. O Estado do Rio de Janeiro vive um surto de provincianismo e boa parte de seu povo parece viver numa bolha de plástico, num cenário que chega a ser pior na Bahia dos tempos de Antônio Carlos Magalhães.
No Estado do Rio de Janeiro, há o poder de uma geração de tecnocratas, executivos de mídia, empresários do entretenimento, donos de supermercados e políticos (com o destaque para o autoritário PMDB carioca) que influi em decisões retrógradas que acabam prevalecendo diante da resignação popular e do desconhecimento de problemas sérios por trás disso tudo.
As pessoas parecem conformadas com a vida "dentro dos limites". Acabam, de retrocesso em retrocesso, vivendo abaixo de suas necessidades básicas. A precarização da vida, a ignorância de sua própria ignorância, a ilusão de ter tudo nas mãos só porque tem o WhatsApp no seu celular,
O consumismo, o entretenimento vazio, impulsivo e inconsciente, a busca de um prazer que não se sabe se tem ou como é, a aceitação cega do que é decidido "de cima", os critérios elitistas de popularidade, formação acadêmica e poder político como ilusões para atribuir superioridade a quem na verdade é inferior, são problemas que acabam prejudicando os brasileiros.
A zona de conforto marcada por tamanhas ilusões, em que os problemas são tão banalizados que suas denúncias a ninguém sensibilizam, por mais que muitos aparentemente concordem com isso, deixa as pessoas vulneráveis para a degradação social que poderá arruinar o Brasil.
É a zona de conforto espiritualista, de Silas Malafaia a Chico Xavier, é a zona de conforto cultural, dos "sucessos populares" ou dos "clássicos radiofônicos", é a zona de conforto da mobilidade urbana, da submissão e endeusamento ao "filhote da ditadura" Jaime Lerner e suas ideias que perderam a validade (como pintura padronizada nos ônibus e dupla função motorista-cobrador).
Ou então, é a zona de conforto do futebol, da cerveja, das bobagens despejadas no YouTube e que aquele "programa da tarde" veicula como se fosse grande coisa. Ou então é a zona de conforto do programa policialesco de TV que promete "defender a justiça e a cidadania" com suas abordagens dignas de claustros da Idade Média.
As pessoas ficam iludidas com o próprio pessimismo, que lhes permite aceitar qualquer barbaridade. os retrocessos acontecem ano após ano, de forma que não cause dor às pessoas. Assim, de 1965 para cá, o Brasil regrediu muito sem que as pessoas se percebam e o mínimo de qualidade de vida que se reivindicava antes do Golpe de 1964 hoje é considerado erroneamente "artigo de luxo".
As pessoas precarizam suas vidas, suas necessidades, sua cultura, seus anseios e suas satisfações. Indispostas a questionar problemas e sem saber o que e como mobilizar, acabam, com essa desculpa de "viver feliz com o básico", se afundando abaixo de suas necessidades básicas.
Assim, as pessoas acabam reduzindo suas vidas a rudimentares manuais de sobrevivência dos piores momentos. Acham que sobreviver a eles é fácil e satisfatório, que basta viver o pior "da maneira que se pode" para tudo ficar bem.
Até que depois as tragédias passem a ser oferecidas de bandeja não mais com o sabor doce dos primeiros retrocessos, mas com o gosto amargo dos retrocessos ainda mais confusos, efeitos danosos da complacência extrema. O deputado Eduardo Cunha que o diga.
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