terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Herculano Pires classificou Divaldo Franco como "impostor" em carta para jornalista


DIVALDO FRANCO APOIOU A "FARINATA" QUE JOÃO DÓRIA JR., VERGONHOSAMENTE, LANÇOU NO VOCÊ E A PAZ E DEPOIS CANCELOU.

Poucos percebem, neste dia em que uma pequena parcela de brasileiros vai para o Campo Grande, em Salvador, para um mero entretenimento religioso que é o Você e a Paz, evento que muitos incautos pensam ser um "movimento pacifista" (se isso realmente fosse, teria cessado a guerra até lá no Oriente Médio, não é mesmo?), seu ídolo Divaldo Franco cometeu, pelo menos, dois atos deploráveis nos últimos anos.

O primeiro foi na saída de um evento "espírita" na Espanha - cujo "movimento espírita" foi acusado de censurar um professor, com um processo por "danos morais" felizmente arquivado - , quando Divaldo Franco fez seu cruel julgamento de valor contra os refugiados do Oriente Médio.

"No campo das deduções e de acordo com o meu pensamento, penso que aqueles que estão hoje, de volta à Europa, são os antigos colonizadores que deixaram, até hoje, a América Latina na miséria.
Como foi negado todo o direito aos seus residentes, como aculturaram os selvícolas, destruindo culturas veneráveis, pela Lei de Causa e Efeito aqueles estão retornando hoje à pátria, no estado de miséria, e que ameaçam os próprios países de onde saíram, para, um dia, buscarem a fortuna para o conforto europeu".

Imagine se várias famílias souberem da declaração deste "sábio" e, constrangidas, decidirem processá-lo. Embora Divaldo não tenha citado nomes, ele cometeu uma atrocidade moral, por ignorar que as reencarnações que ele atribui, ao arrepio da Ciência Espírita, além de serem muito antigas (se é que a atribuição de Divaldo seja certa, o que é bem duvidoso) estão bastante superadas.

Divaldo deixou a máscara cair e se revelou impiedoso com tal declaração, pois os refugiados do Oriente Médio nem de longe querem buscar fortunas europeias, mas apenas rotinas de paz e tranquilidade, ainda que em condições sociais modestas. A declaração de Divaldo também pode sugerir intolerância religiosa contra judeus e muçulmanos que, segundo ele, deveriam se manter presos nas áreas de conflitos e "pagarem o que merecem", dentro do mito de "provas e expiações".

O segundo ato foi a decisão pessoal de Divaldo Franco de homenagear um político decadente, o prefeito de São Paulo, João Dória Jr., e permitir o lançamento oficial da "farinata", um alimento condenado por nutricionistas e ativistas sociais, na edição paulista do Você e a Paz.

Divaldo cometeu uma série de erros, da falta de firmeza em exigir a verificação técnica do alimento à permissão do uso de seu nome e do logotipo do evento por Dória Jr. no lançamento da "ração humana", sugerindo vínculo de imagem. Por sorte, Divaldo foi poupado de um escândalo sem precedentes, por causa do silêncio da imprensa. Nem a mídia de esquerda o criticou, se limitando a criticar o arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, como religioso envolvido no caso.

Divaldo é visto por muitos como um "médium" mais verossímil que Francisco Cândido Xavier. Tem, em relação a Chico Xavier, o diferencial de adotar um ar mais "professoral" e "intelectualoide", embora os livros fossem de um igrejismo ainda mais carregado que o de seu amigo mineiro, que ao menos produziu arremedos de livros "científicos", "jornalísticos" e falsamente intelectualizados.

A carta que reproduziremos foi escrita pelo maior entendedor do Espiritismo no Brasil, o jornalista José Herculano Pires, para o colega Agnelo Morato. Pires é o melhor tradutor da bibliografia kardeciana e conhecedor honesto da doutrina de Allan Kardec, sem o pedantismo que os deturpadores (como os próprios Chico e Divaldo) fazem dos ensinamentos espíritas originais.

Devemos tomar cuidado porque, aparentemente, J. Herculano Pires adota uma postura solidária a Chico Xavier e Emmanuel. Mas é aquela coisa de "amigos, amigos, negócios à parte" e cremos que Herculano, embora tivesse condescendência com a obra do amigo, não compartilha necessariamente com suas crenças, sendo duas trajetórias muito diferentes entre si, como Bob Dylan e Michael Jackson, por exemplo.

Chama a atenção que Herculano trata Divaldo Franco como um impostor, e afirma que o baiano é "roustanguista confesso", ou seja, desmente a declaração que o criador do Você e a Paz deu sobre Roustaing, de que "não tinha tempo para ler sua obra". Na verdade, Divaldo não teve mesmo é tempo de ler a obra kardeciana, e vendo que as traduções mais fiéis ao texto original vêm de Herculano, aí é que o anti-médium baiano não iria reservar tempo para ler, mesmo.

Além disso, Herculano também condena a "caridade" tão festejada de Divaldo, definida pelo ilustre jornalista como "conduta condenável" e usada como "meio de defesa para a sua carreira sombria no meio espírita". Em outra passagem, pode ser que Herculano demonstre misericórdia a Divaldo, mas o jornalista expressa claramente a preocupação pelos aspectos negativos do "médium".

Sabe-se que Divaldo obteve a risível reputação de "maior filantropo do Brasil" ajudando 0,0012% da população brasileira (isso é sinônimo de nada) e que, enquanto deixava o bairro de Pau da Lima, em Salvador, à própria sorte (ou azar), ele fazia turismo pelos países mais ricos com seu palavreado dado em palestras e conquistando os tesouros, inclusive europeus, das medalhas, diplomas, troféus e outros prêmios apenas pelo fato de ser um badalado ídolo religioso. Vamos à carta.

==========

(Carta endereçada ao jornalista Agnelo Morato)

Você sabe que o Chico mudou-se de Pedro Leopoldo para Uberaba, arrancado ao seio da família e à cidadezinha do seu coração por força das manobras das Trevas através do seu pobre sobrinho. Lembra-se? E não se lembra que o tópico mais importante da carta do Chico ao Jô é aquele em que ele (Chico) afirma que são essas mesmas Trevas (a mesma falange) que está agora se servindo do Divaldo? Para que fim? Para que fim?!

Muito antes do “estouro” com o Chico eu já havia sido advertido espiritualmente a respeito do médium baiano. Durante meses evitei encontrar-me com ele, pois é sempre desagradável constatar uma situação mediúnica nessas condições. Quando me encontrei, tudo se confirmou. Não tenho, pois, nenhuma prevenção pessoal, nada particular contra ele. O que tenho é zelo, é prudência, é necessidade de por-me em guarda e evitar que os outros se entreguem de olhos fechados às manobras que infelizmente se desenvolvem através da palavra ilusória desse rapaz. Espero em Deus que ele (agora roustainguista confesso e novo ídolo da FEB) ainda encontre o seu momento de despertar, antes que esta encarnação se finde.

Do pouco que lhe revelei acima você deve notar que nada sobrou do médium que se possa aproveitar: conduta negativa como orador, com fingimento e comercialização da palavra, abrindo perigoso precedente em nosso movimento ingênuo e desprevenido; conduta mediúnica perigosa, reduzindo a psicografia a pastiche e plágio – e reduzindo a mediunidade a campo de fraudes e interferências (caso Nancy); conduta condenável no terreno da caridade, transformando-a em disfarce para a sustentação das posições anteriores, meio de defesa para a sua carreira sombria no meio espírita.

Você acha, Agnelo, que Emmanuel advertiria o Chico sem motivo? Que o Chico se recusaria a receber o Divaldo e escreveria uma carta como aquela ao Jô por despeito ou ciúme mediúnico? Você acredita que o Chico esteja obsedado e que o Divaldo seja uma vítima inocente? Que todas as trapaças do Divaldo sejam bênçãos do Céu para o nosso movimento? Que seja nossa obrigação acobertar e bater palmas a companheiros que têm esse procedimento, relatado acima apenas em parte?

Ainda hei de lhe contar um dia, pessoalmente, a trama que tive de ajudar alguns amigos a desfazer – uma trama maquiavélica, de tipo medieval, para pôr um “fim feliz” ao caso Chico-Divaldo, deixando o Chico na condição de ciumento e o outro na condição de vítima inocente.

Temos de ser, meu caro, mansos como as pombas, mas prudentes como as serpentes. Quem o disse foi o Cristo, que deve entender do assunto. E Kardec adverte, em “O Livro dos Espíritos”, Kardec e os Espíritos, que é obrigação dos homens de bem desmascarar os falsos profetas. Obrigação, veja bem, obrigação! Por isso não recuo diante (embora não me considere tão “de bem” assim…) diante dos casos de Divaldo, Hercílio Maes e Ramatis, Roustaing e FEB. Não será com a minha conivência que o joio sufocará o trigo da seara. Isso tem me custado caro, muito caro: mas Deus me tem ajudado a suportar o ônus. 

Sua carta é muito engraçada em certo sentido. Para defender o Divaldo você critica a minha posição em referência a três médiuns. Um é o Urbano, de quem você diz “o discutido Urbano”. Confesso que isso me surpreende. Soube, ainda em vida do Urbano, de um caso entre ele e o Russo, aí em Franca, que aliás me pareceu sem sentido. Fora disso, o que sempre vi foram demonstrações de confiança na mediunidade de Urbano, mesmo de parte daqueles que condenavam seu temperamento às vezes violento – pois a mediunidade é uma coisa e o temperamento é outra. Minha experiência de muitos anos com Urbano foi das mais felizes. Ainda não encontrei outro médium de tanta sensibilidade e que tantas provas me desse da sua legitimidade. E você deve saber que essa foi também a opinião do Schutel, do Leão Pita, do Baptista Pereira, do Odilon Negrão, do Wandick de Freitas, do Parigot de Sousa e tantos outros. Nunca o Urbano serviu de instrumento para mistificações conscientes ou para desvirtuamentos doutrinários. Tenho por ele o respeito que merecem os verdadeiros médiuns.

No caso Arigó, você diz que eu o defendi mesmo depois da sua queda. E como não fazê-lo? Ainda há pouco enviei a Matão uma entrevista, pedida pelo Jô, em que explico algo do assunto. Arigó, realmente, nos últimos tempos, deixou-se levar pelos interesses materiais, empolgou-se pelas possibilidades que se abriam diante dele, mas esteve longe de praticar os atos indígnos que lhe atribuíram os adversários. 

Esteve em grande perigo, mas a culpa foi mais dos espíritas do que dele. Era um homem rude, semialfabetizado, vivendo num burgo medieval dominado pelo clero. As instituições espíritas em geral só se interessaram pelos resultados positivos do seu trabalho, mas não lhe deram apoio. As Federações fizeram como Pilatos: lavaram as mãos na bacia de César. Em Marília, num congresso de jovens, a FEB proibiu que fosse votada uma moção a favor dele (que estava preso em Lafaiete), mas autorizou a votação de uma moção em favor da construção da sua sede em Brasília… Isso, sim, é que é dois pesos e duas medidas. Até que Arigó resistiu muito, demorou bastante a entrar em deterioração, e só não acabou no desastre completo porque o Fritz já havia dito que, na hora perigosa, o levaria para lá.

A morte de Arigó o salvou na hora “h”, no dia “d”. Cabe-nos agora aproveitar o saldo positivo que ele deixou e que é imenso. Por sinal que os seus erros eram pessoais, individuais. Nunca Arigó tentou levar os seus erros pessoais ao meio espírita como prática e exemplo. Errou por falta de visão, por envolvimento do meio, por falta de apoio moral. Nunca tivemos, porém, no campo da intervenção cirúrgica espiritual mediunidade maior. E não seríamos nós, agora que ele se foi, que o seu caso já se encerrou, não seríamos nós que iríamos desmoralizá-lo. A mediunidade é uma coisa e o médium é outra. Mas para os jejunos no assunto as duas coisas se misturam. Acusar Arigó depois de morto, por deslizes que não chegaram a comprometer a sua mediunidade, seria dar armas aos adversários e às Trevas. Além disso, na enxurrada de mentiras e calúnias lançadas contra ele há muita incompreensão espírita. O que nos interessa em Arigó é a espantosa mediunidade que enriqueceu o patrimônio das realidades espíritas na Terra. Você queria que eu o acusasse? 

No caso do Rizzini não há também intenção malévola alguma. Rizzini é médium e bom médium. Conheço-o há tempos e já tive boas experiências com ele. Se você acha que a sua atual produção psicográfica deixa a desejar, isso não me parece motivo suficiente para que eu o ataque ou desencoraje. Rizzini está se iniciando nesse campo novo e já produziu muita coisa boa, quase excelente. Não é um fingido nem um trapaceiro, mas um espírita corajoso e que deu mostras de sua fidelidade à doutrina nas horas difíceis, quando muita gente boa se encolheu, se fechou em copas. Ele é sincero, franco, leal – e às vezes até agressivo, mas dessa agressividade que caracteriza os espíritos corajosos. Não há a menor possibilidade de compará-lo ao perigo que Divaldo representa em nosso movimento. Entre Rizzini e Divaldo há o abismo da impostura.

Perdoe-e, caro Agnelo, se acaso usei de algumas frases ou expressões que poderão impressioná-lo. Escrevo-lhe de coração aberto, de irmão para irmão, tratando de assuntos que exigem clareza, posições definidas. A hora é de transição, de confusões, e devemos manter nossa posição com segurança. Não me seria possível calar nem desconversar diante da sua “provocação”. Aqui vai a resposta, caboclo velho, o tiro de trabuco desfechado na testa, como convém quando o tocaieiro escondido na moita ameaça a caravana desprevenida.

Não me queira mal. Nem me interprete mal. Divaldo me interessa como criatura humana, como nosso irmão, pelo qual devemos orar, pedir a Deus que o livre de maior envolvimento das trevas. Estou pronto para recebê-lo para o cafezinho, principalmente na sua companhia, mas sem que você ou ele alimente a vã esperança de me arredar da posição assumida. Como você viu acima, meus motivos são fortes demais, são de rocha. 

Perdoe-me se magoei a sua sensibilidade, principalmente nesse campo tão melindroso da afetividade. Com a qual Divaldo e outros da mesma linha costumam jogar com habilidade. Não trapaceio com o coração, com o sentimento. Louvo o seu interesse fraterno pelo Divaldo – ele necessita disso, e muito. Mas entendo que o Chico também precisa da nossa fidelidade, do nosso amor, da nossa gratidão. Ele não tomaria a atitude que tomou no caso por simples leviandade. Chico é uma personalidade espiritual formada no cadinho da dor, do sacrifício. Os seus guias espirituais são bastante conhecidos de nós todos. Que direito temos nós de rejeitar a sua advertência num caso como esse? Então ele só nos serviria quando fala em coisas que nos agradam?

Recomende-me ao Novelino, a d. Aparecida, aos seus familiares e aos amigos francanos. E não se esqueça, meu caro, de que estou escrevendo francamente para um francano…


Um grande e sincero abraço do:

HERCULANO

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

"Espiritismo" brasileiro e a contradição que deslumbra, mas confunde e nunca esclarece


O joguinho de ideias contraditórias das frases de Francisco Cândido Xavier são vistos de forma mais realista quando as pessoas se despem do véu das paixões religiosas. Tomados de fascinação obsessiva, veem beleza onde não tem e acham que ideias truncadas e confusas podem ser consideradas "simples" e "esclarecedoras" só porque vieram de um ídolo religioso.

As frases de Chico Xavier, no entanto, revelam um caráter bastante simplório. Conselhos baratos de auto-ajuda, que nem precisam ser dados, servindo apenas de um mero joguinho de palavras feito por puro entretenimento e para fazer do "médium" um mito semelhante ao de Madre Teresa de Calcutá - cortesia Malcolm Muggeridge / Rede Globo - , ela mesma uma malabarista de palavras para bancar a dublê de "sábia", como também queria ser o "médium".

As ideias de que "é sendo fraco que se torna forte", "é no silêncio que Deus ouve sua voz", "é no pior sofrimento que se obtém as bênçãos do Alto", entre tantas outras, cria um apelo muito confuso de resignação extrema, sucumbindo ao conformismo excessivo e até à baixa auto-estima.

É sabido que o "espiritismo" brasileiro diz condenar o suicídio, mas contraditoriamente pede a pessoa a aceitar infortúnios e desgraças que condicionam o suicídio. Em muitos casos, os "espíritas" se revelam insensíveis, como na situação de pessoas humilhadas e ameaçadas de morte por cyberbullies, os valentões das redes sociais. Ninguém se suicida por diversão.

As frases contraditórias de Chico Xavier são apenas parte do imenso rol de contradições que mancha terrivelmente o "espiritismo" brasileiro que o deixa em desvantagem até mesmo em relação às piores seitas neopentecostais, que podem ser retrógradas, mas, pelo menos, assumem suas ideias e praticam honestidade doutrinária. Pelo menos os evangélicos dessa corrente assumem que pretendem retroceder a sociedade brasileira para os padrões do tempo de Moisés.

A ideia de aceitar o sofrimento calado porque "o silêncio é a voz dos sábios" e achar que a "fraqueza é a verdadeira força" podem soar muito lindos, deslumbrando muitas pessoas, levando multidões às lágrimas - a tal "masturbação com os olhos" da comoção reduzida a puro entretenimento - , mas refletem o caráter de confusão que sempre marcou o "espiritismo" no Brasil.

Além de nada adiantar falar frases como "é no pior dos sofrimentos que a pessoa consegue as graças de Deus", como se os maiores azarentos fossem os "maiores felizardos da sorte grande", pois seu efeito social é ZERO, ela pode também desnortear as mentes das pessoas.

Afinal, o que é ser fraco ou forte? Não é mais o contexto da situação que vale, mas o prestígio religioso de um "médium" sob o qual representam paradigmas de falso orientalismo místico, falsa sabedoria e supervalorização de recursos metafóricos e poéticos para ditar receitas de vida e supostas fórmulas de salvação pessoal.

FALSO CRISTO

Em muitos casos, as frases seguem o receituário da Teologia do Sofrimento, que os "espíritas" seguem, mas se envergonham em assumir. Mas se a Teologia do Sofrimento tem como função forçar os sofredores a aceitarem as desgraças da vida, seus conceitos também servem para livrar a pele do próprio Chico Xavier diante das enrascadas que ele provocou.

Por exemplo, o discurso da "força da fraqueza", ou da "sabedoria da ignorância", já que Chico Xavier tentou se promover como "ignorante" para glamourizar suas supostas psicografias, foi uma estratégia usada pelo "médium" para forçar a comoção pública diante de situações em que ele era duramente criticado, fazendo com que o coitadismo se convertesse em vantagens para o "médium".

O coitadismo é uma estratégia de dominação às avessas, que transforma um "médium" envolvido em confusões causadas ou apoiadas por ele em pretensa vítima, e que abriu precedente para os "médiuns" virarem os "falsos Cristos" alertados por Jesus de Nazaré em seu tempo e corroborada pela literatura kardeciana.

Com essa pose de vitimismo ou coitadismo, os "médiuns", ao reagirem em silêncio as críticas feitas contra eles em seus sérios erros, eles tentam, através desse processo invertido de dominação, provocar a comoção pública e a absolvição, mesmo quando há provas de culpa e responsabilidade grave pelos atos cometidos.

Enquanto isso, os "amigos espíritas" acabam também forçando os sofredores a suportarem o sofrimento, através desse discurso contraditório de "força X fraqueza", "silêncio X voz", além de confundir desgraça com desafio e derrota com aprendizado. "Pimenta nos olhos dos outros é refresco" parece ser o ditado preferido do "espiritismo" brasileiro.

domingo, 17 de dezembro de 2017

O "espiritismo" e o perigoso apelo do "bombardeio de amor"


Se você critica a deturpação igrejeira que rebaixa a Doutrina Espírita a um sub-Catolicismo e, em dado momento, não se aprofunda nas críticas e sucumbe à adoração ou, ao menos, à "respeitosa simpatia" aos "médiuns" deturpadores, cuidado: você pode ter se deixado levar pelo "bombardeio de amor".

"Que ótimo! Amor demais sempre é bom! Quem dera uma explosão de amor a tomar a Terra, fazendo com que a paz se reine entre os povos", diria algum desavisado da ocasião. Mas o "bombardeio de amor", que no Brasil é visto quase sempre como um fenômeno positivo, é reconhecido, no mundo desenvolvido, como um tipo muito perigoso de falácia e de dominação das pessoas.

"Bombardeio de amor,é dessa guerra que o mundo precisa!", diz uma página no Facebook, reduto de pessoas com visão simplória e distorcida da realidade. Muita gente não sabe a estranheza que é o processo de dominação através de um simulacro de afeição intensa e na ênfase de apelos emocionais muito fortes, feitos para arrancar o máximo de comoção das pessoas.

O "médium" Francisco Cândido Xavier, para decepção de muita gente, se revelou, além de realizador de pastiches literários - não sem a colaboração de terceiros, diga-se de passagem - , foi um artífice de vários processos de manipulação da mente: tinha um olhar hipnótico, quando jovem, e mexia com diversos processos que parecem herdados dos espetáculos circenses ou de práticas ocultistas.

Cita-se, entre outros, as técnicas ilusionistas de suposta materialização, como se viu no caso Otília Diogo - no qual Chico Xavier devia ter sido também responsabilizado, pois fotos de Nedyr Mendes da Rocha, depois divulgadas, comprovam que o "médium" acompanhou com gosto todos os preparativos da farsa - , e a "leitura fria", que é a captura de informações trazidas pela forma com que as pessoas dão seus depoimentos e fornecem as informações correspondentes.

Toda essa habilidade de manipular e controlar as mentes das pessoas transformou um deturpador do Espiritismo em um semi-deus, jogando também com as palavras, veiculando ideias contraditórias com suas supostas frases de sabedoria e lançando mão de todo tipo de apelo emocional para dominar as pessoas e levá-las às lágrimas. E, mesmo quando os chiquistas definem seu ídolo como "pessoa simples e humilde", estão praticando divinização às avessas e movidos por paixões religiosas.

Chico Xavier foi um dos artífices do truque do "bombardeio de amor", uma estratégia muitíssimo perigosa de dominação. Nas reuniões "mediúnicas" comandadas por ele, todo um repertório de apelos emocionais era feito, de forma a arrancar a catarse emotiva dos frequentadores, num clima de exagerada afetividade motivado pelos aparatos de beleza e de emotividade profunda.

Para dominar o jornalista Humberto de Campos Filho, em 1957, todo um teatro foi feito. Se a encenação das Caravanas de Amor era anualmente produzida, através de um Assistencialismo que "excepcionalmente" ajuda os pobres de forma paliativa em determinados períodos, no caso do filho do escritor maranhense Humberto de Campos, ela tinha que ser muitíssimo elaborada.

Um dos pontos máximos foi quando o "médium" abraçou o filho do escritor. Juntando os apelos emocionais da doutrinária do início ao fim e o abraço após o fim da sessão, o que se observou não foi a prática saudável de uma "afeição verdadeira" de "sincera misericórdia", mas ao apelo do "bombardeio de amor" que desarmou Humberto de Campos Filho.

O "amoroso" ardil foi facilitado porque, anos antes, a viúva de Humberto, Dona Catarina Vergolina de Campos, conhecida pelo apelido de Dona Paquita, havia falecido. Ela liderava o processo judicial contra o "médium" e a FEB, e, com a cilada que dominou o filho Humberto, sua falecida mãe ficou responsabilizada pela ação judicial que, sabemos, deu em nada. Até parece que foi Gilmar Mendes que inocentou Chico Xavier e a FEB. Mas isso foi em 1944.

COMOÇÃO VIROU "MASTURBAÇÃO COM OS OLHOS"

O grande perigo do "bombardeio de amor" é que Chico Xavier conseguiu dominar muita gente a ponto de se tornar um suposto símbolo das virtudes humanas, como se os conceitos de "bondade", "caridade", "amor" e "solidariedade" etc, tivessem sido patenteados pelo "médium" e seus seguidores (como Divaldo Franco, por exemplo).

É como se a "bondade humana" fosse uma logomarca de propriedade dos "médiuns espíritas" e se transformado em "franquia", na qual "todos podem livremente obter" desde que haja o vínculo de imagem aos "médiuns". É aquela coisa: "o uso é livre, mas é obrigatório dar crédito ao responsável".

Isso é bom? Isso é péssimo. O domínio com que os ídolos religiosos que deturparam o legado de Allan Kardec, rebaixando-o a um sub-Catolicismo medieval, tomado pelos mais diversos e sutis apelos emotivos, revela muitos e graves equívocos.

Primeiro, o "bombardeio de amor" das reuniões "espíritas" se tornou um ingrediente obrigatório para supostos eventos de esclarecimento e socorro moral, que se convertem em entretenimentos baratos de catarse, no qual a comoção virou um elemento já previamente esperado, uma "masturbação com os olhos" na qual o choro virou uma mera diversão. E, o que é mais preocupante: frequentemente as pessoas se divertem às custas da desgraça alheia, através de relatos de "dor e superação".

As pessoas já chegam aos "centros espíritas" esperando se comoverem com algum relato dado em palestra. Há toda uma expectativa de estórias comoventes ou, quando muito, de "grandes lições de vida". E isso mostra que a coisa não é boa.

As reuniões "mediúnicas" de Chico Xavier se comparavam aos entretenimentos das "tábuas Ouija" estudados por Kardec. Ironicamente, se os espetáculos de mesas girantes e objetos se movendo - nos quais havia fortes indícios de fraudes - serviram para os estudos questionadores do pedagogo de Lyon, no Brasil a Ciência Espírita, através de suposta mediunidade, foi rebaixada ao velho recreio com o mesmo apelo sombrio das "tábuas Ouija".

ATRIBUÍDAS A DIFERENTES ESPÍRITOS, ASSINATURAS SEGUEM O MESMO ESTILO PESSOAL DA CALIGRAFIA DE CHICO XAVIER. PROBLEMAS ASSIM TENTAM SER OCULTADOS PELO TRUQUE DOMINADOR DO "BOMBARDEIO DE AMOR".

O que poucos imaginam é que o "bombardeio de amor" cega a razão. Cria-se, no Brasil, uma falácia de dar validade a coisas que "escapam às percepções da razão", uma visão medieval que faz com que certos absurdos sejam aceitos, quando eles se relacionam a mitos da fé e do misticismo.

ANTI-KARDECIANO

O "bombardeio de amor", de uma forma ou de outra, foi condenado, não com o uso dessa expressão, pela bibliografia kardeciana. Mas seu sentido é identificado quando o pedagogo francês e seus mensageiros espirituais descrevem estratégias de espíritos mistificadores em dominar as pessoas, apelando para palavras como "Deus, amor e caridade" para inserir ideias levianas e absurdas.

As reuniões "mediúnicas" de Chico Xavier são exemplo disso. Espetáculos de catarse emocional que fariam sentido em algum canto europeu da Idade Média, onde a mistificação prevalece sobre a razão, conforme podemos atestar diante de tantos casos de pessoas consideradas céticas ou leigas que, ao assistirem a tais sessões, saiam praticamente hipnotizadas com aquilo que, ingenuamente, entendem como "vibrações elevadas de amor e solidariedade".

Ninguém parou para pensar o que está por trás de tantos apelos fortemente emotivos. Do mesmo modo, ninguém sequer desconfiou se uma doutrina considerada racional como o Espiritismo seria capaz de permitir eventos como esse, dotados da mais piegas e deslavada catarse emocional, que mal consegue esconder um apelo igrejeiro por baixo dessas manifestações de "profundo amor".

A situação é tão grave que, diante desses eventos ritualísticos, em que a carga emotiva substitui a antiga pompa dos ritos católicos medievais, mas mantém o mesmo sentido manipulador e dominador de fiéis, as "mensagens mediúnicas" atribuídas a entes queridos falecidos são aceitas como "autênticas" mesmo com um detalhe seriamente comprometedor.

Enquanto as assinaturas dos ditos mortos divergem drasticamente das caligrafias mostradas nos documentos de identidade, as mesmas apresentam o mesmo estilo pessoal de Chico Xavier, facilmente identificável mesmo quando a assinatura parece mais corrida e apressada.

Tomados pela emotividade hipnótica, as pessoas não entendem por que o "bombardeio de amor" é tão nocivo. Mas seu efeito colateral também ajuda a explicar o caráter maléfico desse apelo: as pessoas são tomadas de emoções aparentemente elevadas e saudáveis, mas basta um questionamento qualquer para as "amorosas" pessoas se explodirem em raiva e rancor.

Há uma grande diferença entre a emotividade saudável e a emotividade doentia. Na emotividade saudável, não há o aspecto catártico nem o transe extasiante que as paixões cegas possuem, e paixão cega é o resultado produzido pelo "bombardeio de amor", que traz não uma energia elevada da admiração saudável, mas a energia pesada e escravizante da adoração cega e fanática.

É por isso que, diante dos atos de violência contra a mulher, seus agressores e assassinos falam tanto em "amor" e "paixão". Mas o que os feminicidas sentem é paixão cega, uma sensação pesada de apego, não o "amor verdadeiro" que muitos pensavam que tais homens sentiam por suas "companheiras". Até porque, segundo o dito popular, "quem ama não mata".

Outro aspecto a considerar é que a "alegria" que o "bombardeio de amor" traz tem efeitos similares aos da ingestão de um entorpecente como a cocaína. Há ilusões de que a auto-estima e a confiança melhoraram, que a alegria tornou-se plena, que a paz passou a reinar, mas é só surgir uma contrariedade para que a pessoa aparentemente feliz e serena se exploda em raiva, rancor, irritação profunda e até incontrolável.

Muitos questionadores de Chico Xavier revelam que já receberam ameaças, comentários irônicos (do tipo dizer, em falsa mansidão, que o "irmão (questionador) está alterado") e até bullying por parte dos adeptos e fãs do "médium". Nas redes sociais, reduto de atos sociopatas, não por acaso o "médium" possui cadeira cativa, praticamente dominando, mais que o próprio Kardec, as páginas relacionadas à Doutrina Espírita existentes.

O que se pode concluir com o "bombardeio de amor" é que ele, sendo uma modalidade mais perigosa do Ad Passiones (apelo à emoção) que é um tipo de falácia, serve para proteger a deturpação do Espiritismo e evitar que os questionamentos se aprofundem.

Assim, há gente que, como quem acredita num galinheiro recuperado por raposas, considere que os próprios "médiuns" deturpadores do Espiritismo possam recuperar as bases doutrinárias que eles mesmos destruíram. Infelizmente, a emoção trava o raciocínio em muita gente.

sábado, 16 de dezembro de 2017

A invigilância no questionamento da deturpação do Espiritismo pelos "médiuns"


Se alguém é um questionador da deturpação que atinge o Espiritismo no Brasil, desses que admitem que a Doutrina Espírita aqui anda "muito catolicizada", mas recua diante da necessidade de questionar com maior profundidade as atividades dos "médiuns" brasileiros, então esse alguém também foi movido pelas paixões religiosas e tomado de fascinação obsessiva, ou, em casos mais radicais, subjugação a esses "médiuns".

"Isso é um absurdo! Eu mantenho minha lucidez de ideias, eu apenas quero relativizar, porque os médiuns são, pelo menos, admiráveis em outros aspectos, e temos que reconhecer a qualidade deles", é a resposta mais comum que esse alguém pode dar.

Não tem escapatória. A pessoa é tomada de fascinação obsessiva e foi atingida pelo "bombardeio de amor" que só no Brasil é considerado uma coisa positiva, porque, no mundo desenvolvido, que passou por mil infortúnios ainda inéditos entre os brasileiros - que, quando muito, só ouviram falar dos mesmos - , essa estratégia é considerada falaciosa, traiçoeira e até mortal.

A pessoa que questiona a deturpação do Espiritismo, reconhece que ela anda igrejeira demais, porém, por mais que admita que as obras produzidas pelos "médiuns" Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco destoam, em muitos aspectos, dos ensinamentos espíritas originais, sente a tentação de manter sua idolatria até diante da recuperação da pureza kardeciana, é fraca e sem firmeza.

De forma bastante explícita, Allan Kardec havia recomendado, em várias obras, que se deve combater a deturpação espírita com firmeza e energia. sem que desse um pingo de consideração ou ressalva aos deturpadores. Mensageiros como Erasto e São Luís também disseram coisas semelhantes, eles que voltaram como espíritos a enviar mensagens aproveitadas na literatura espírita original.

O que isso significa? Significa que, mesmo quando os deturpadores venham com apelos emocionais, alegações de defesa e prática de caridade, amor e paz, mesmo assim não se deve ter qualquer consideração, porque isso é um artifício para se inserir ideias mistificadoras e valores conservadores.

GRANDE ATRASO ATÉ ENTRE OS "ADIANTADOS"

É típico, infelizmente, no Brasil, um certo melindre e complacência mesmo entre pessoas que se consideram com uma visão de mundo mais adiantada e abrangente. Isso significa que abordagens realistas e progressistas sempre esbarram num limite, tomado de alguma condescendência aqui ou ali, quando o coração bate forte e o cérebro "dá branco".

O Iluminismo, por exemplo, esbarrou em uma defesa ferrenha do regime escravo, já que os simpatizantes das ideias francesas não abriam mão do que consideravam "urgente" para a economia nacional. Além disso, havia a visão, hoje reconhecidamente preconceituosa, contra índios e negros, que não eram considerados "cidadãos".

Recentemente, as forças progressistas manifestaram a profunda complacência com o "funk", ritmo sonoro de forte apelo comercial, mas de valor artístico-cultural duvidoso, patrocinado pela mídia empresarial e que aborda o povo pobre de maneira caricatural e estereotipada, e, para piorar, vinculada a valores morais retrógrados, entre reacionários, como o machismo, e libertinos, como a erotização obsessiva.

Neste sentido, é triste que, dentro de abordagens bastante avançadas, sempre há um dado decepcionante. O brilhante intelectual veterano que acaba tendo ideias reacionárias rabugentas. O admirável ativista social que parece complacente com as formas que o mercado de entretenimento exploram o povo pobre. Ou a feminista empenhada que, num lapso de percepção, vê empoderamento na hipersexualização das "mulheres-objetos".

É esse contexto que faz com que os contestadores da deturpação espírita pararem, complacentes com a imagem "dócil" dos "médiuns espíritas", que, sabemos, não passa de um mito de valor duvidoso cuja produção de consenso é fabricada pela mídia empresarial, que nem sempre é confiável.

Afinal, a mídia empresarial serve a interesses de uma elite e muito dos valores "imparciais" que ela empurra até para as forças progressistas - e as chamadas esquerdas aceitam tudo de bandeja, por causa do apelo emocional de pobres supostamente felizes - são traiçoeiros.

No caso dos "médiuns espíritas", para a mídia é mais lucro promovê-los como supostos ativistas à custa de mero Assistencialismo do que deixar que alguém como Lula volte a promover inclusão social de verdade se voltar à Presidência da República.

É assustador que mesmo os espíritas, independente de serem bastardos ou não, mas com alguma inclinação à esquerda, corroborem com abordagens sobre os "médiuns espíritas" que claramente partem de concepções defendidas pela Rede Globo de Televisão. Como no caso do "funk", as esquerdas acabam, mesmo sem querer, assimilando os valores sociais da Globo e acabam compartilhando uma visão conservadora de abordagem social.

ESQUERDISTAS DEFENDENDO "MÉDIUNS" CONSERVADORES

Daí o aspecto surreal de esquerdistas defendendo Chico Xavier e Divaldo Franco, às custas de imagens de crianças pobres que nem sabem se têm algum realismo ou não. Acabam aceitando, com submissão bovina, a divinização dos "médiuns", mesmo quando sua "caridade" só traz, quando muito, resultados medíocres, porque, se assim não fosse, a alegada "grandeza" que tanto se atribui aos "médiuns" teria dado ao Brasil padrões escandinavos de qualidade de vida.

É até chocante que posturas de intransigente complacência, como uma defesa cega dos "médiuns", sejam expressas até em páginas contrárias ao establishment social, político e midiático. Nas redes sociais, uma página de ateus, um defensor de Divaldo Franco se infiltrou na mesma para defender a imagem "superior" de seu ídolo, pouco se ligando se os resultados da sua "filantropia" foram e são expressivos ou não.

Em muitos casos, os defensores dos "médiuns espíritas" chegam mesmo a desprezar os resultados da "caridade" e até usar como pretexto a vida complexa das grandes cidades. Isso é uma grande falácia, afinal os "médiuns" se vendem com uma imagem de "grandeza" capaz de supor a previsão de grandes fatos revolucionários da humanidade, daí se supor que eles seriam capazes de transformar cidades inteiras em paraísos escandinavos sob o clima tropical.

Nem mesmo as contradições, comuns entre os "espíritas", de que as transformações da sociedade para melhor já se estabeleceriam num dia, mas deixariam de se realizar no dia seguinte, são aceitas sem críticas. "O Brasil está mudando, a regeneração está vindo", é o relato de véspera, mas, depois, dize-se que "dificuldades extremas impediram a regeneração, adiada para um momento oportuno".

As esquerdas se limitam a contestar os movimentos neopentecostais, que, por ironia, estabeleceram, com o esquerdismo, uma aliança com limites. A Rede Record, da Igreja Universal do Reino de Deus, acolheu e deu autonomia a jornalistas egressos da Globo, mas que se comprometeram de verdade a abraçar causas progressistas, como Paulo Henrique Amorim (filho do espírita Deolindo Amorim), Rodrigo Vianna e Luiz Carlos Azenha.

No entanto, os "espíritas" são claramente protegidos da Rede Globo. Depois de ser blindado pela TV Tupi, Chico Xavier passou a ser blindado pela Rede Globo, o que vale até hoje, postumamente. Divaldo Franco e João de Deus também são blindados pela Globo e suspeita-se que o conservador Carlos Vereza, que atuou na novela Velho Chico, sugeriu à colega Camila Pitanga (que se declarou esquerdista e ateia) a visitar João em Abadiânia, para agradecer a sobrevida dela a uma tragédia.

Os esquerdistas, no entanto, não questionam o "espiritismo" brasileiro e seus "médiuns", mesmo quando a blindagem da Globo aposta em novelas e filmes "espíritas" com abordagem igrejeira forte e narrativa similar às telenovelas já contestadas pelos intelectuais de esquerda.

No mesmo caminho, os contestadores da deturpação igrejeira, independente de serem de direita ou não, também hesitam em desqualificar os "médiuns", intimidados pela "doce imagem" a eles associada, o que garante o êxito da deturpação do Espiritismo no Brasil.

Dessa maneira, de relativismos e complacências, constrói-se um escudo que faz sempre com que o Espiritismo, da forma como é feita no Brasil, se torne sempre refém da deturpação. Enquanto não há firmeza nos questionamentos, mas há um "medinho" de afrontar a imagem mítica dos "médiuns espíritas", a "vaticanização" da Doutrina Espírita continua firme e forte, por mais que haja artifícios de suposta fidelidade aos postulados espíritas originais.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

A esperteza de Chico Xavier em dois episódios

O JORNALISTA POLICIAL ORLANDO CRISCUOLO

No caso do suposto crime do disparo acidental que matou o jovem Maurício Garcez Henrique, do qual saiu inocentado o amigo José Divino Nunes, um artigo chama a atenção. De autoria de Orlando Criscuolo, conhecido repórter policial da mídia paulista, por sua trajetória no Diário da Noite de São Paulo, ele expressou todo o seu deslumbramento movido pelas paixões religiosas e pela fascinação obsessiva em torno do "médium" Francisco Cândido Xavier.

Criscuolo narra uma experiência que havia tido visitando o anti-médium mineiro há muitos anos, sendo que o jornalista não creditou o ano exato. Como informações afirmam que Criscuolo atuava na imprensa nos anos 1950, 1960 e 1970 - o artigo é de 1979 - , infere-se que a antiga experiência havia ocorrido entre os anos 1950 e 1960.

O jornalista disse que havia escrito uma carta com nome e endereço fictícios que entregaria ao "médium". Nela se falava de um mal e se pedia qual o remédio certo para tal moléstia. Criscuolo dizia ter sido ele cético na época e queria usar um "meio menos honesto" para denunciar possíveis fraudes "mediúnicas" à opinião pública.

Ao chegar, ele apresentou a missiva para o "médium" e ele analisou, aparentemente sob orientação de Emmanuel. Depois, declarou "perdão" ao jornalista e disse que "só há um remédio: a verdade". A multidão teria olhado para o jornalista, que ficou com um certo medo, naquela ocasião.

Será uma combinação prévia, na qual o jornalista encenava seu ceticismo e medo? Ou seria um atestado da esperteza de Chico Xavier, que nunca foi a pessoa simples e humilde que tanto se alardeia oficialmente. Note-se que o Diário da Noite era integrante dos Diários Associados, grupo empresarial que publicava a revista O Cruzeiro e cujo dono era Assis Chateaubriand, o Chatô.

Em O Cruzeiro, em 1944, os jornalistas David Nasser e Jean Manzon, este como repórter fotográfico, foram entrevistar Chico e foram avisados que não poderiam entrevistá-lo naquela vez. Eles criaram um truque no qual se passavam por jornalistas estadunidenses - se bem que Manzon poderia aproveitar sua naturalidade francesa para se passar por alguém daquele país - e, com isso, conseguiram entrevistar o "médium".

Os dois saíram satisfeitos com a reportagem e foram embora. Mas ao verificar um dos livros, reconheceram a dedicatória de Emmanuel citando o nome de David Nasser, o que pode ser explicado pelo fato de Nasser ter sido então um repórter já famoso em seu meio e não ter se deixado enganar o esperto "médium", até porque Nasser não aparentava um repórter vindo dos EUA.

O "INVENTOR DE NOTÍCIAS", DAVID NASSER.

Nos anos 1970, tanto Criscuolo e Nasser pareciam "arrependidos" do ceticismo. Imagina-se se esses relatos não teriam sido truques combinados com o "médium" que, blindado pelos Diários Associados, queria forjar um contato com pessoas céticas?

Não se sabe, embora muitos aspectos verídicos se observem na reportagem de David Nasser - embora ele tenha se consagrado como "inventor de notícias" - como o fato de Chico Xavier ser um grande leitor de livros. E há uma foto de Jean Manzon mostrando Chico copiando informações de livros e jornais, o que traz fortes indícios de que suas "psicografias" haviam sido fraudulentas.

O artigo de Orlando Criscuolo foi publicado no Diário da Noite de São Paulo, de 10 de setembro de 1979. O texto que reproduzimos sob o caso David Nasser e Jean Manzon é um fragmento de um trecho do livro As Vidas de Chico Xavier, de Marcel Souto Maior, de 2003.

No caso de Criscuolo, chama-se a atenção no forte teor de fascinação obsessiva por Chico Xavier, marcado pelo perigoso processo do bombardeio de amor, que fez o jornalista chorar durante o segundo encontro com o "médium" e, no artigo, defini-lo como "quase Deus". Da parte de Nasser, o deslumbramento existe, porém parece bem mais discreto, ao narrar, em 1974, o episódio ocorrido três décadas antes.

==========

CHICO XAVIER SALVOU INOCENTE DA CADEIA

Por Orlando Criscuolo - Diário da Noite (SP), 10 de setembro de 1979.

Francisco Cândido Xavier, ou simples e carinhosamente Chico Xavier.

Ao longo dos seus cinquenta e dois anos de atividades, somente duas vezes tive contato com ele. A primeira, e lá se vão muitos anos, foi quando lhe entreguei uma carta com um nome e endereço fictícios para que ele, auxiliado por Emmanuel, seu guia espiritual, respondesse qual ou quais remédios, para o espírito ou para o corpo, que deveriam ser indicados em favor da “pessoa” cuja carta ele segurava entre os dedos de sua mão esquerda. Olhos cerrados, fisionomia serena, apenas seus lábios se movimentavam na boca semi-aberta.

A seu lado, contrastando com o ambiente de respeito que se podia sentir nos músculos de todos os rostos das pessoas que superlotavam a pequena sala onde nos encontrávamos, eu não conseguia dissimular um sorriso maroto que brotava de dentro de mim.

Era o repórter procurando, por meios menos honestos, encontrar um caminho para denunciar publicamente uma farsa ou uma “mistificação grosseira” que já estava sendo aceita por uma incalculável multidão como uma verdade incontestável.

Francisco Cândido Xavier largou lentamente a carta-mentira sobre a mesa, colocou a mão esquerda sobre os olhos sempre cerrados e enquanto os dedos da mão direita se crispavam em torno do lápis, seus lábios pronunciaram uma frase que o lápis ágil se encarregou de marcar no papel.

“Que Deus te perdoe meu filho.”

Todos os olhares, a maioria de espanto, se voltaram para mim. Ele apanhou a “carta-mentira” e colocando-a junto às minhas mãos abertas sobre a mesa, com uma serenidade que só os santos podem ter, disse:

“Para este mal só há um remédio: a verdade.”

Não fui capaz de escrever uma só linha em forma de reportagem sobre este encontro. Pela primeira vez em minha vida eu senti medo.

Muitos anos depois, num dos corredores da TV Tupi de São Paulo, quando Chico Xavier se preparava para uma entrevista no “Pinga-Fogo”, vi quando ele, delicadamente, deixou de conversar com um pequeno grupo de pessoas voltando-se para uma senhora idosa que estava às suas costas, e que ele provavelmente jamais tinha visto, foi até ela e segurou as duas mãos trêmulas da mulher entre as suas, com uma mansidão de santo. Algumas lágrimas rolaram pelas faces da velhinha. Chico Xavier quis falar, mas não pôde. Tive a impressão de que por trás de seus óculos escuros seus olhos também ficaram embaciados por lágrimas. Quando eu quis identificar a velhinha, ela tinha desaparecido do prédio. Um mistério, que de simples tornou-se indecifrável para o repórter.

Santa Izildinha, Antoninho da Rocha Marmo, Donizete Tavares de Lima, o padre de Tambaú, José de Freitas, o Arigó e muitos outros são nomes que figuram em muitas de minhas reportagens e que me recordam grandes e controvertidos acontecimentos. São nomes que fizeram com que milhares de lágrimas fossem derramadas por gratidão, por respeito ou até mesmo por um desejo insatisfeito. Nenhum deles, nunca, arrancou uma só lágrima dos meus olhos.

Nesta última quarta-feira, porém, tive que cerrar fortemente os olhos para que eles não se enchessem de lágrimas, lágrimas de arrependimento por nunca ter tido a coragem de escrever uma só reportagem sobre Chico Xavier. Hoje, ela aqui está. E a escrevo convicto de que o famoso médium espírita de Uberaba é algo mais do que um homem: é quase um Deus.

==========

TRECHO DO LIVRO AS VIDAS DE CHICO XAVIER, DE MARCEL SOUTO MAIOR, 2003.

Para liquidar o assunto de vez, David Nasser, Jean Manzon e o piloto do avião de Chateaubriand, Henrique Natividade, bolaram um plano infalível. Nasser e Manzon se apresentariam como repórteres americanos e Natividade faria o papel de intérprete da dupla. Chico ficaria seduzido pela idéia de ser notícia internacional e se sentiria mais à vontade diante dos estrangeiros. Afinal de contas, a reportagem seria lida longe dali, longe do Rio. 

Havia um porém: Rômulo Joviano. O engenheiro conhecia a identidade deles e podia desmascarar o trio a qualquer momento. Precisavam concluir o serviço antes da chegada do patrão de Chico. Mas, mesmo sendo rápidos, eles ainda corriam perigo. E se Rômulo telefonasse para alertar o empregado? Nasser, Manzon e Natividade tomaram a decisão: cortariam o fio do telefone do entrevistado. Dito e feito. 

O truque deu certo. Chico escancarou as portas de casa para os “estrangeiros” e posou para fotos então inéditas na imprensa. [...] Após uma hora e meia de entrevista, Jean Manzon, David Nasser e o “intérprete” se despediram do entrevistado. Enganaram o “idiota” e ainda ganharam livros de presente. Jogaram os exemplares na mala e saíram às pressas, eufóricos. No dia seguinte, estavam no Rio. 

A reportagem foi publicada no dia 12 de agosto com uma lacuna estranha. Ela não mencionou como os jornalistas conseguiram passar o vidente para trás. Nasser jogou fora a chance de lançar a dúvida: Se Chico tem um guia e tem acesso aos espíritos, como foi enganado tão facilmente? 

Chico leu o texto e ficou apavorado, O juiz não teria dúvidas. O rapaz já imaginava o veredicto: todos os indícios levam a crer que Francisco Cândido Xavier imitou o estilo de Humberto de Campos. Culpado. Sacudia-se, em meio à violenta crise de choro, quando Emmanuel voltou. Estava inspirado: 

Chico, você tem que agradecer. Jesus foi para a cruz e você foi só para O Cruzeiro. 

O réu não conseguiu achar graça. Por que Emmanuel não evitou aquele vexame? Por que não desmascarou a fraude e revelou a identidade dos jornalistas? 

Só trinta anos depois, uma reportagem publicada por O Dia, em 28 de abril, e assinada por João Antero de Carvalho, revelaria, em detalhes, os bastidores daquela saga de David Nasser e Jean Manzon. A confissão foi feita por um Nasser arrependido, o mesmo capaz de definir Chico Xavier como “o maior remorso da minha vida”. 

O repórter voltou no tempo e reconstituiu a noite em que passava para o papel seu furo jornalístico, dois dias depois do encontro com Chico Xavier. Já era madrugada, quando ele foi interrompido por um telefonema de Jean Manzon. O fotógrafo parecia nervoso.  

- David, você trouxe aquele livro que o homem nos ofereceu?

- Claro que sim.

- Pois bem, abra-o na primeira página e leia a dedicatória. Nasser largou o telefone fora do gancho e, curioso, correu à procura de seu exemplar. Levou um susto ao deparar com a frase:  

“Ao irmão David Nasser, oferece Emmanuel”. 

- Que negócio é esse, Manzon, alguém revelou nossa identidade? 

O fotógrafo e o motorista também foram pegos de surpresa. Diante do mistério, os três fizeram um pacto de silêncio. A reportagem saiu sem aquele episódio.  


Segundo Nasser, a verdade, em jornalismo, era menos importante do que a verossimilhança. 

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Chico Xavier pegou carona em caso criminal que seria resolvido sem ele

MAURÍCIO GARCEZ HENRIQUE, MORTO POR DISPARO ACIDENTAL FEITO POR AMIGO.

Um episódio que comprova o quanto o "médium" Francisco Cândido Xavier beneficiou e foi beneficiado pelo sensacionalismo jornalístico que o transformou num "super-médium" e num dublê de filantropo e pensador, associando a ele uma suposta solução de um crime que mostrava indícios de que seria resolvido sem sua colaboração.

O fato foi esse. Em 08 de maio de 1976, Maurício Garcez Henrique estava na casa do amigo José Divino Nunes, no bairro de Campinas, em Goiânia. Enquanto conversavam na sala, Maurício pegou o revólver da mala do pai de José Divino e descarregou a arma, tirando as balas e, de brincadeira, fingiu apontar a arma ao amigo que logo disse para largar o objeto.

José tomou o revólver de Maurício, que foi para a cozinha buscar cigarros. Enquanto isso, José ligava o aparelho de som e girava o dial para mudar a estação de rádio. De repente, o revólver fez um disparo, Maurício soltou um grito e José foi logo socorrê-lo, estando este gravemente ferido. Maurício morreu depois.

O caso foi registrado na 6ª Vara Criminal de Goiânia e, a princípio, José Divino foi acusado de homicídio doloso, quando há intenção de matar, mas de acordo com depoimento de José e de seus familiares, o que ocorreu foi homicídio culposo, feito sem intenção de tirar a vida de outrem. Ainda assim, o caso permaneceu um mistério nunca oficialmente resolvido.

Mas eis que, dois dias depois, "super" Chico Xavier aparece sob a promessa "heroica" de resolver a situação. No dia 27 de maio de 1978, ele dá início a uma série de supostas psicografias atribuídas ao espírito de Maurício das quais a primeira carta está reproduzida a seguir, reproduzindo sempre aquele estilo igrejeiro e piegas das "cartas mediúnicas", que seguem o mesmo pensamento e começam com saudações como "querida mamãe" ou "querida mamãe, papai, Fulana minha irmã etc". Vejamos:

===========

Querida Mamãe, meu querido pai, querida Maria José e querida Nádia.

Estou em oração, pedindo para nós a benção de Deus. Não posso escrever muito; venho até aqui, com meu avô Henrique, só para lhes pedir resignação e coragem.

Peço-lhes não recordar a minha volta para cá, criando pensamentos tristes. O José Divino e nem ninguém teve culpa em meu caso. Brincávamos a respeito da possibilidade de se ferir alguém, pela imagem no espelho; sem que o momento fosse para qualquer movimento meu, o tiro me alcançou, sem que a culpa fosse do amigo, ou minha mesmo. O resultado foi aquele. Hospitalização de emergência, para deixar o corpo longe de casa.

Se alguém deve pedir perdão, sou eu, porque não devia ter admitido brincar, ao invés de estudar.
Mas meu avô e outros amigos me socorreram e fui levado para Anápolis, para ser tratado por uma enfermeira que dirige uma escola de fé e amor ao próximo, que nos diz ser a irmã Terezona, amiga das crianças.

Soube que ela conhece meu avô e nossa família, sendo agora uma benfeitora, que preciso agradecer e mencionar.

Quanto ao mais, rogo à Nádia e à Maria José, minhas queridas irmãs, para não reclamarem e nem se ressentirem contra ninguém. Estou vivo e com muita vontade de melhorar.

Queridos pais, tudo acontece para o nosso bem e creio que seria pior para mim se houvesse enveredado pelos becos dos tóxicos, dos quais muita pouca gente consegue voltar sem graves perdas do espírito.

Estou com saudades, mas estou encarando a situação com fé em Deus e com a certeza de um futuro melhor.

Recebam, querido papai e querida mamãe, com as nossas queridas Nádia e Maria José, e com todos os nossos, um abraço de muito carinho e respeito, do filho que lhes pede perdão pelos contratempos havidos.

Prometendo melhorar, para faze-los tão felizes quando eu puder, sou o filho e o irmão saudoso e agradecido,

Maurício Garcez Henrique.

==========

No livro Lealdade, organizado por Hércio Marcos Cintra Arantes e lançado originalmente em 1982 por uma pequena editora - hoje o livro é comercializado pela igrejista editora IDE - , há um histórico dos fatos e da "colaboração" de Chico Xavier para supostamente resolver o crime.

O juiz da 6ª Vara Criminal de Goiânia na época (1978-1979), Orimar de Bastos, havia acolhido a "psicografia" e, tomado de uma certa fascinação obsessiva, declarou:

"Temos que dar credibilidade à mensagem psicografada por Francisco Cândido Xavier, anexada aos autos, onde a vítima relata o fato e isenta de culpa o acusado, discorrendo sobre as brincadeiras com o revólver e o disparo da arma. Coaduna este relato com as declarações prestadas por José Divino, quando do seu interrogatório".


O DOCUMENTO DE IDENTIDADE DE MAURÍCIO E UM FRAGMENTO DA CARTA LANÇADA POR CHICO XAVIER: ASSINATURAS BASTANTE DIFERENTES.

Mas alguns fatores estranhos devem ser observados. Orimar achou que as assinaturas eram semelhantes e que, com a coincidência do relato de José Divino e o conteúdo da carta, estava provada a inocência de José Divino, hipótese que no entanto poderia ter sido provada de outra forma, sem a necessidade da suposta mensagem mediúnica. Pelo contexto, é bem provável que Maurício perdoasse José, não precisando que a "psicografia" informasse isso.

Todavia, as assinaturas, analisadas acima, comparando o fragmento do manuscrito lançado por Chico Xavier e a assinatura presente no documento de identidade de Maurício, percebe-se que Orimar foi apressado e nem deve ter se lembrado das assinaturas. Talvez o juiz fosse muito ocupado para analisar as coisas e deve ter dado seu parecer através de uma primeira e precipitada impressão.

As caligrafias são totalmente diferentes. Não há uma hipótese que indique semelhança, e observa-se que a caligrafia da suposta psicografia tem o mesmo estilo da caligrafia pessoal do "médium". Mesmo uma boa vontade não consegue colher semelhança alguma nas duas assinaturas, em relação a Maurício, mas também não consegue desmentir a semelhança muito grande com a caligrafia pessoal de Chico Xavier.

Quanto às informações da carta, o próprio livro Lealdade fala de visitas constantes dos familiares de Maurício a Uberaba, o que poderia sugerir o fornecimento de informações através da "leitura fria". Há no Grupo Espírita da Prece, onde trabalhou Chico Xavier, uma equipe de funcionários - que o "espiritismo" chama de "tarefeiros" - treinados para analisar gestos, formas de dicção e informações dadas pelos clientes para colher dados para supostas psicografias.

Há também as consultas de fontes da imprensa, geralmente fornecidas por familiares ou mesmo por integrantes de "centros espíritas" dos locais dos incidentes. Há também objetos pessoais, como diários ou algumas cartas ou anotações diversas, relacionadas ao morto ou escritas por ele. Hoje até o perfil nas redes sociais serve para colher essas informações.

Junta-se tudo isso e cria-se um repertório para forjar uma falsa psicografia de conteúdo verossímil. A sorte, por exemplo, é se uma tia ou um primo de um morto fornecerem informações que não são de conhecimento do pai e da mãe do dito cujo, e com isso se espalha a falácia de que a "psicografia" apresentou informações que "a família do morto desconhecia absolutamente".

A "contribuição" de Chico Xavier, portanto, além de desnecessária, era duvidosa para servir de prova de inocência de José Divino. A inocência já tinha probabilidade de quase certeza, e outros meios como perícias e outras investigações poderiam chegar ao resultado, sem a "ajuda psicográfica".

Por outro lado, a atuação do "médium" se revelou uma intromissão, que favoreceu a imprensa sensacionalista e garantiu a projeção de um ídolo religioso através dessa fraude que causou a comoção pública e fez as "casas espíritas" de todo o país lotarem, diante de apelo tão fortemente emocional.

O episódio representou, mais uma vez, o espetáculo pitoresco da suposta mediunidade, feito à revelia da Ciência Espírita, criar uma falsa ideia do que seria o trabalho mediúnico, mediante conceitos que eram difundidos ao arrepio dos ensinamentos kardecianos originais. Portanto, a "psicografia" foi, na verdade, inútil, e só serviu para os propósitos acima citados.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Atenção, esquerdistas! Fundador de Caros Amigos, Léo Gilson Ribeiro reprovou Chico Xavier


Não há como entender por que setores das chamadas esquerdas sentem alguma complacência com o "médium" Francisco Cândido Xavier. Ele sempre foi um católico ortodoxo, bastante conservador, apoiou o golpe de 1964, defendeu a ditadura civil-militar, apoiou Fernando Collor de Mello para presidente da República em 1989 e era defensor da Teologia do Sofrimento, corrente mais retrógrada do Catolicismo.

Não bastasse isso, Chico Xavier foi definido como "progressista" de graça, sem qualquer motivo que tenha um pingo de consistência ou verossimilhança. Ele sempre condenava o questionamento, a crítica, em sua maior divergência com Allan Kardec, que sempre estimulou o debate a ponto de, no desenvolvimento das ideias, o pedagogo francês preferir a prevalência da Ciência sobre o Espiritismo.

Quantos apelos para a aceitação do sofrimento em silêncio, à submissão aos algozes, à resignação com os infortúnios da vida! Isso é progressista? Pois enquanto as esquerdas mais cordeirinhas - que caem facilmente em armadilhas com apelos emocionais de pessoas pobres sorridentes (o "funk", subproduto da mídia hegemônica, é exemplo disso) - aceitam o retrógrado Chico Xavier, lembremos de um dos grandes intelectuais brasileiros.

Léo Gilson Ribeiro, falecido há dez anos, havia feito, na revista Realidade, em 1971, uma crítica severa às supostas psicografias do anti-médium mineiro, em referência sobretudo a obras que causaram indignação nos meios literários, como o livro Parnaso de Além-Túmulo - estranhamente reparado cinco vezes - e as obras que levam o nome de Humberto de Campos ou Irmão X.

"Era doutor em literatura pelas universidades de Hamburgo e Heidelberg e amigo pessoal do escritor Guimarães Rosa e da poeta Hilda Hilst; com toda essa bagagem, tornou-se um dos críticos literários mais influentes e mais respeitados do país. Foi premiado com o Jabuti em 1968 e com o Esso (de reportagem) em 1969", diz um texto de Caros Amigos, a respeito da morte de Léo.

Léo era um renomado intelectual que atuou como repórter e redator na revista Realidade, nos anos 1960 e 1970, e foi um dos fundadores no fim dos anos 1990, da revista Caros Amigos, um dos principais periódicos da mídia alternativa.

"Durante toda a sua vida Leo Gilson foi um batalhador pela cultura das letras no Brasil. Atacava ferinamente as traduções malfeitas, as edições improvisadas – procurava impor o respeito ao leitor. Combateu incansavelmente a incultura nacional, procurando difundir a boa literatura por todos os meios a seu alcance", diz outro texto da nota fúnebre de Caros Amigos.

A mesma nota acrescenta: "Profundo conhecedor da literatura universal, não se conformava com o fato de os brasileiros não terem maior consideração pela sua própria leitura; achava, por exemplo, perfeitamente cabível que o poeta Carlos Drummond de Andrade fosse considerado como sendo de estatura mundial e merecedor do Nobel".

"Além dos muitos ensaios publicados, escreveu livros de crítica literária entre os quais se destacam “Cronistas do Absurdo” (ed. José Álvaro, 1964) e “O Continente Submerso” (Editora Best-Seller,1988). No teatro escreveu a peça “Balada de Manhattan” que recebeu o Prêmio Governador do Estado em 1971 e traduziu textos de Tennessee Williams e Steven Berkoff", finaliza a nota sobre o escritor feita pela Caros Amigos.

Léo também foi defensor dos movimentos sociais e reprovava o totalitarismo do comunismo soviético, pois seu esquerdismo era democrático e ele fazia essa defesa no seu trabalho jornalístico, sendo um dos grandes batalhadores da mídia alternativa no Brasil.

O comentário de Léo Gilson Ribeiro sobre Chico Xavier é bastante contundente e traz uma análise, desagradável para muitos, sobre as irregularidades das supostas psicografias literárias, nas quais se observa claramente que estas fogem dos estilos originais dos mortos alegados.

Portanto, não é um intolerante religioso que fala contra o "bondoso trabalho" de um suposto médium, mas um crítico literário que é profundo conhecedor dos escritores brasileiros e não faz o tipo do especialista complacente que vê semelhanças onde não existem, tal como aqueles que confundem A com H. Léo tornou-se famoso por essa frase que encerra esta postagem, que podemos usar como recado aos esquerdistas que ainda sentem alguma complacência com os "médiuns espíritas":

"Uma coisa é clara: Quando o ‘espírito’ sobe, sua qualidade desce. É inconcebível que grandes criadores de nossa língua, depois da morte, fiquem por aí gargarejando o tatibitate espírita".