sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Mensagem "espiritual" atribuída a Allan Kardec dá indícios de obra 'fake'


É muito pouco provável que o professor Leon Rivail, conhecido pelo pseudônimo de Allan Kardec, tenha deixado mensagens espirituais. As mensagens que foram divulgadas atribuindo-se a ele soam muito igrejeiras, e, no caso brasileiro, bastante grotescas, sendo a mais famosa, por Frederico Júnior, lançada em 1889, mostrando um suposto Kardec que pedia para valorizarmos a "revelação da revelação" (nome dado à causa do deturpador J. B. Roustaing).

O que se pode inferir, com base na personalidade rigorosamente criteriosa e objetiva de Kardec, é que ele não teria retornado à Terra nem enviado mensagens espirituais. Mesmo deixando seu trabalho incompleto, Kardec teve consciência, na fragilidade de sua doença, de ter deixado uma orientação suficiente para a humanidade apreciar sua teoria e suas ideias.

A mensagem que reproduzimos abaixo é uma "pegadinha". Ela foi publicada na França, destinada à Revista Espírita e publicada nos Anais do Espiritismo daquele país. Isso sugere que a mensagem atribuída a Allan Kardec é "autêntica" e "indiscutível", mas indícios de que a mensagem tem veracidade duvidosa, embora sutis, podem ser identificados.

O texto, no seu conteúdo, apresenta um Kardec estranho, que se proclama um "missionário" e não um professor e muito menos lembra o Kardec original que lançava ideias com o objetivo de estabelecer um debate e mesmo um questionamento, a ponto de dizer que, se a Ciência provar logicamente o equívoco de uma ideia lançada pelo Espiritismo, que se prefira a Ciência do que a Doutrina Espírita.

No texto abaixo, embora o suposto Kardec fale em "ciência", o texto soa bastante igrejeiro. Ele transforma a "ciência espírita" numa religião e Kardec, estranhamente, trata a si mesmo como se fosse um "missionário". Isso parece bonito para as pessoas, mas contraria a natureza pessoal de Kardec, que nunca se comportou como se fosse um militante religioso.

As alegações do suposto Kardec soam místicas e o Espiritismo é visto como uma religião, e o texto triunfalista foge da natureza kardeciana original, embora, sendo uma mensagem veiculada na França e não no Brasil (onde supostas mensagens espirituais não escondem seu caráter fraudulento), pareça um sutil arremedo das mensagens que Kardec veiculou em obras finais como A Gênese e a coletânea Obras Póstumas.

Embora pareça estranho para os leigos, a Revista Espírita (La Revue Spirite), periódico fundado por Kardec, escapou dos propósitos originais do pedagogo de Lyon. O Espiritismo original também foi deturpado na França, a partir de J. B. Roustaing, mas mesmo os seguidores de Kardec suavizaram seu legado ao sabor de crenças católicas, o que comprometeu a essência original da Doutrina Espírita.

Isso significa que mesmo o Espiritismo francês se deixou diluir ao sabor do Catolicismo, não com a voracidade que se observa no Brasil, mas de maneira decisiva, tanto que, no decorrer dos tempos, deturpadores como Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier, teriam livros traduzidos para o francês.

Vamos ao texto da mensagem do suposto espírito de Kardec.

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Comunicação de Allan Kardec em 30 de Março de 1924, confiada à - "La Revue Spirite" - pelos Anais do Espiritismo de Rocheford-Sur-Mer (França). N. º de julho de 1924.

"Outrora os espíritas podiam ser contados nos dedos. Escarneciam e praguejavam contra aqueles que se interessavam por essa Ciência; esses tais eram tidos por malucos e evitados com cautela; mas, hoje, vai-se fazendo luz intensa sobre o Espiritismo, porque os sábios o explicam e procuram a realidade dos fatos. Eu não disse na minha vida terrestre, que o Espiritismo havia de ser cientifico ou morreria?

E a ciência vai pouco a pouco homologando os fenômenos espíritas.

Para muita gente, nós o sabemos, esses fenômenos continuam ainda incompreensíveis, porque não se pode explicar e analisar a força que os produz, mas dia virá em que os sábios à descobrirão e provarão que, se a matéria compõe nosso corpo, existe também no ser humano uma coisa mais sutil que anima esse corpo: a alma imortal!

Com grande alegria vejo um raio luminoso aclarando alguns sábios que tendo a princípio repelido os fatos com desdém, observando-os depois com atenção, vão reconhecendo a sua realidade.

Direi, portanto, aos que ainda não compreendem o Espiritismo: estudai, observai, mas não o aceiteis senão com a vossa razão e com a ciência; é por atenção acurada na observação dos fenômenos que chega a concluir: Cela est! ("É isso!", em francês - o tradutor manteve a expressão original)

Aqueles que nos fatos espíritas só vêm ilusão e crendices da parte dos médiuns que nós animamos, estão em erro, podem também estar de má fé.

Se há médiuns mais preocupados de seus interesses que da verdade, também os há, e em maior número, que são sinceros e desinteressados e são na realidade uma força psíquica poderosa, capaz de ajudar os Espíritos a produzir fenômenos; esses são para nós preciosos auxiliares que nos permitirão atingir o triunfo de nossa obra de Luz.

Que Deus abençoe esse trabalho dos Espíritos, que vai crescendo de dia para dia neste planeta, para maior bem da humanidade. Quanto a mim, a minha missão espiritual está cumprida em parte, e dentro de alguns anos tornarei a reencarnar-me entre vós, amigos; e muitas pessoas jovens, que aqui se acham presentes, poderão reconhecer-me então pela minha obra de Espiritismo.

Essa missão terrestre eu a aceitarei com jubilo por amor de meus irmãos da Terra; e para bem a desempenhar meu espírito está se instruindo, está se iluminando nestas maravilhas estupendas e sem limites, onde há tanto que observar.

Eu estou aí haurindo poderosas forças espirituais para voltar ao serviço do progresso da humanidade terrestre, para afirmar a meus irmãos a realidade e a beleza desta vida do espírito no Espaço.

Sim, eu voltarei para trabalhar neste planeta onde lutei e sofri, mas estarei com o espírito mais forte, mais generoso, mais elevado, para aí fazer reinar mais fraternidade, mais justiça, mais paz".

sábado, 9 de setembro de 2017

Imagem "dócil" dos "médiuns" impede que eles sejam investigados em irregularidades


O "espiritismo" não passa de um grande balé de palavras bonitas que escondem um conteúdo conservador. Uma embalagem bonita e aparentemente "limpa", mas que no seu interior esconde uma série de graves e terríveis contradições.

No Brasil, há o costume das pessoas julgarem o conteúdo pela embalagem. O jogo das aparências, sobretudo numa sociedade de hierarquias rígidas e desiguais, onde o "topo da pirâmide" fica com tudo e a "base", sem sequer o necessário, é defendido de maneira ferrenha, neurótica e extremamente apegada.

O "espiritismo" brasileiro fala tanto em desapego, mas é uma das religiões que mais sofrem de apegos muito doentios. É o caso dos supostos "médiuns", que se vê claramente deturpando o legado espírita original, mas pelos quais há um esforço obsessivo em mantê-los como representantes daquilo que justamente deturpam e traem com gosto, a Doutrina Espírita.

O Brasil é um dos países mais ignorantes do mundo. Talvez o mais, se levarmos em conta que pesquisas são apenas recortes de uma parcela da sociedade. A desinformação generalizada faz com que muitas pessoas, mesmo tidas como "esclarecidas" e "progressistas", aceitem gato por lebre e cultuem um "espiritismo" que nada tem a ver com o original francês.

O apego aos "médiuns" atinge níveis que são definidos, pela Ciência Espírita original, como processos obsessivos de "fascinação" e, em certos casos, de "subjugação", criando uma ilusão de "boas energias amorosas" que, diante da mais inofensiva contestação, se convertem em explosões de ódio, raiva e até violência.

É o que se vê em relação a Francisco Cândido Xavier e outros. A adoração cega, a "fascinação" e "subjugação" que eram alertados, com muita antecedência, por Allan Kardec e seus mensageiros, infelizmente é um vício do qual dificilmente sai das mentes de muitos deslumbrados, obsediados pela mística e pela magia que se associam aos supostos "médiuns" brasileiros.

Isso é muito terrível. A imagem dos "médiuns" brasileiros, que romperam com o caráter intermediário da função e vivem do culto à personalidade, se equipara à imagem das fadas-madrinhas dos contos de fadas infantis. O próprio entretenimento das "belas estórias", que existe nas palestras e textos "espíritas" em geral, remete a uma forma grosseiramente adulta do lazer de ouvir estórias infantis durante a infância.

Isso garante a imunidade e a impunidade dos "médiuns espíritas", que se tornam "imexíveis" como os políticos do PSDB, às vezes bem mais do que os chamados tucanos. Há casos de irregularidades em obras "mediúnicas", sejam livros, cartas e pinturas, e ninguém investiga, ou, quando se investiga, lembra o simulacro de investigação que remete a atividades recentes da Polícia Federal, do Ministério Público e do Supremo Tribunal Federal que promovem uma "justiça seletiva".

São irregularidades graves, que em país menos imperfeito dariam em acusações de falsidade ideológica e ofensa à memória de pessoas mortas. O baiano José Medrado cria um falso quadro de Cândido Portinari, intitulado "São Francisco de Assis", e o exibe como um troféu no seu programa na TV Bandeirantes, mas ele nem de longe lembra o "São Francisco de Assis" original que o pintor havia feito em 1941.

Mas os casos de Chico Xavier são notórios. O aberrante contraste estilístico que se observa em obras espirituais atribuídas aos espíritos de Humberto de Campos, Auta de Souza, Olavo Bilac, Casimiro de Abreu e tantos e tantos outros, mesmo não-famosos, em relação ao que eles eram em vida, é evidente. Imagine se a adorável poetisa Auta de Souza, no mundo espiritual, abriria mão de seu estilo feminino de lirismo infantil para "escrever" igualzinho ao "médium" que a recebeu?

Tudo isso daria cadeia, em países menos evoluídos. É charlatanismo puro, uma atitude que até Kardec reprovaria com energia. E não foi por falta de aviso que essa irregularidade ocorre livremente no Brasil, pois a contundente obra O Livro dos Médiuns já preveniu a humanidade da apropriação de nomes ilustres que tanto espíritos farsantes quanto supostos médiuns se utilizam para levar vantagem com o sensacionalismo e a mistificação.

Mas experimente iniciar alguma investigação. Lágrimas serão derramadas pelos seguidores dos "médiuns", que chorarão copiosamente só de imaginar vem um de seus adorados como réus num tribunal. A situação é preocupante, porque a obsessão reage com muita cegueira, mediante falácias como "perseguição ao trabalho do bem" a pessoas, que, na verdade, só ajudam muito, muito pouco.

Sejamos sinceros. Se os "médiuns" brasileiros tivessem realmente feito caridade, até pela pretensão de grandeza que se atribui a eles, o Brasil teria atingido níveis escandinavos de qualidade de vida, até porque se alega que a ajuda desses "filantropos" é "profunda e transformadora".

Mas a verdade é que isso é conversa para boi dormir e o que os "médiuns" fazem é mero Assistencialismo, uma caridade paliativa, pontual, sem enfrentamento real com os problemas da pobreza, uma medida que "não cura" a doença da miséria, apenas "alivia" sua dor. Além disso, o Assistencialismo se preocupa mais em promover o "benfeitor" às custas de uma "caridade" que só traz resultados medíocres para os mais necessitados.

Vergonhoso é ver que Chico Xavier fazia todo um espetáculo de ostentação, a níveis de espalhafato, em pomposas caravanas que só serviam para oferecer doações que se esgotavam em três semanas. Enquanto os mantimentos de um evento filantrópico se esgotavam das despensas das famílias carentes, ainda havia muita comemoração por aquele donativo praticado. Os resultados da "caridade" desaparecem, mas as comemorações continuam, em desrespeito ao sofrimento dos mais pobres.

Igualmente vergonhoso é ver que um fanático seguidor de Divaldo Franco, numa comunidade de ateísmo (?!) nas redes sociais, tenha insistido tanto em defender a risível imagem do suposto médium como "maior filantropo do país", quando dados concretos confirmam que ele não chegou a ajudar 1% da população de Salvador, quanto mais em níveis nacionais.

A teimosia do referido internauta, num meio em que a pós-verdade se dispõe de um exército de desculpas que promovem a supremacia do contrassenso sobre a coerência, tão comum nas redes sociais, revela a preocupação que se tem em definir a "bondade humana" apenas pelo rótulo da religião e pelo prestígio de ídolos religiosos. A miséria dos infortunados da sorte é só um detalhe.

É preciso haver mais questionamentos sobre o "espiritismo" brasileiro e que eles possam ultrapassar os limites da Internet, criando esforços para que até a grande imprensa seja, mesmo a contragosto, induzida a admitir os problemas que envolvem a doutrina igrejeira.

Se ao menos a chamada imprensa alternativa, sobretudo a mídia progressista, rompesse com a complacência obsessiva que envolve os "médiuns espíritas" - que, aliás, são protegidos da mídia mais reacionária, sobretudo as Organizações Globo - e resolvesse investigá-los, sem medo de fazer demolir, como castelos de areia, a imagem adocicada aos níveis das fadas-madrinhas, seria um belo esforço.

Afinal, enquanto as paixões religiosas inebriam as pessoas na Terra, acreditando que as mensagens fake atribuídas aos mortos mas vindos apenas das mentes dos "médiuns" são "autênticas" apenas porque mostram "lindas mensagens", nos planos espirituais os espíritos ficam assustados com as pernas-de-pau longas que a mentira "mediúnica" arruma para manter o status de "verdade absoluta".

A ilusão doentia dos "médiuns" imunes a tudo, até mesmo à coerência dos fatos, só foi possível porque as pessoas são desinformadas, se rendem fácil às tentações da paixão religiosa (tão inebriantes quanto as tentações do sensualismo) e são capazes de mentir a si mesmos dizendo que são "as mais esclarecidas e as mais realistas". Infelizes daqueles que estão presos nestas ilusões.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O blefe perigoso do Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho

A EXTREMA-DIREITA CRESCE, NO ÁPICE DA RETOMADA ULTRACONSERVADORA QUE VIGORA NO BRASIL DESDE 2016.

O quadro político brasileiro simplesmente desqualificou, por completo, o mito de que o Brasil seria "o coração do mundo e a pátria do Evangelho". Não há como os "espíritas" falarem que esse mito apenas "começará em 2019" e que "será um longo caminho". Sabe-se que tudo isso se sustenta com muitas falácias e que a situação do Brasil, na comunidade das nações, não só voltou a ser humilhante como se tornou ainda mais constrangedora para o exterior.

Como o "espiritismo" brasileiro não conseguiu mais esconder seu ultraconservadorismo, um resultado amargo, porém natural, pelas escolhas que a doutrina igrejeira fez a partir do apreço a Jean-Baptiste Roustaing, sabe-se que suas perspectivas de que o Brasil entraria numa "nova era" e que "comandaria o progresso da humanidade" são ao mesmo tempo falaciosas e perigosas.

Podemos garantir que, a poucos meses da "data-limite" - a alegada "profecia" de Francisco Cândido Xavier divulgada em 1986, de que um sonho de 1969 prenunciava uma "moratória de 50 anos" para a humanidade planetária, antes da ascensão do Brasil como "nação-guia" do planeta - , o Brasil perdeu todas as condições da tão sonhada posição. Isso parece ruim, mas é bom, em certo sentido.

Em primeiro lugar, os rumos que o Brasil está vivendo desmoralizaram os "espíritas", que demonstraram que, por trás de seu discurso "futurista", havia um conteúdo doutrinário medieval, cada vez mais afastado de Allan Kardec, ainda que seu nome fosse bajulado com insistência e seus ensinamentos, mal interpretados, fossem evocados de forma pedante pelos palestrantes "espíritas".

A chamada "nova era", fantasia que fez lotar muitas casas "espíritas", na carona de tantos movimentos esotéricos e místicos, uns misturando até ufologia e horóscopo com pastiches de religiões hindus e chinesas, foi derrubada quando, no Brasil, se observa a barbárie querendo voltar com toda força.

Recentemente, se fala de casos de vários homens se achando no direito de se masturbarem em público, ofendendo as pessoas que são alvo desse ato grosseiramente praticado em ônibus. E isso fora os casos de racismo, machismo, homicídio, homofobia e outros, além da ascensão "tranquila" e "segura" do político Jair Bolsonaro, que parece estar indiferente às críticas que recebe e aos escândalos, gravíssimos, que provoca.

Mas se até Chico Xavier é imune aos escândalos que provocou, tendo reagido, em seu tempo, aos piores impasses com vitimismo e hipocrisia - o caso Otília Diogo, que ele acompanhou com gosto nos bastidores, é um exemplo - , sempre buscando um meio de se livrar de encrencas e aliciar pessoas (como o caso de Humberto de Campos Filho, que processou o "médium" e depois foi por este seduzido por um espetáculo de Ad Passiones e Assistencialismo em Uberaba), então Bolsonaro também pode tudo.

Vivemos a viciada complacência com as hierarquias e com a desinformação generalizada das pessoas que parecem ter a sensação, bastante enganosa, de que estão vivendo os tempos áureos. Para elas, bastava tirar o PT no poder e era só "arrumar a casa". Elas pensam que os projetos retrógrados do governo Michel Temer - apoiado pelos "espíritas" - irão beneficiar os não-ricos, mesmo com o desmonte dos direitos trabalhistas e a desnacionalização predatória de nossa economia.

Essa sensação enganosa pode até gerar o discurso de que a "data-limite" se "consolidou" em 2019 e o Brasil "está a salvo". Fala-se de falácias como a "inauguração da Pátria do Evangelho" ("Correio Espírita") e "o fim da recessão na nossa Economia" (O Globo). Depois os "espíritas" não gostam quando alguém diz que Chico Xavier não passa de mais uma estrela da Rede Globo...

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Madre Teresa e o Assistencialismo


Há vinte anos, Madre Teresa de Calcutá faleceu, aos 87 anos de idade. Nascida no mesmo ano que Francisco Cândido Xavier, Madre Teresa é um nome do Catolicismo adotado pelos "espíritas", o que diz muito sobre o caráter conservador do "espiritismo" brasileiro, que acolhe esta que é um dos ícones da Teologia do Sofrimento, corrente medieval do Catolicismo.

O próprio mito de Madre Teresa de Calcutá, construído pelo discurso engenhoso e emocionalmente apelativo do jornalista católico inglês Malcolm Muggeridge, inspirou no Brasil a reinvenção do mito de Chico Xavier, sem os apelos pitorescos do antigo tutor do "médium", o presidente da FEB Antônio Wantuil de Freitas, mas com a narrativa de novela tomada emprestada da Rede Globo, que fez o papel de "Muggeridge" da ocasião.

A ideia é sempre criar um paradigma de "caridade" e "bondade" que cause mais deslumbramento do que resultados concretos. No que se refere aos efeitos da sociedade, essa "caridade" traz resultados bastante medíocres, expondo mais o nome do "benfeitor" que se torna objeto de idolatria, extrema e cega, até mesmo quando os donativos que haviam sido distribuídos à população carente tenham se esgotado há um tempo.

A sociedade brasileira é extremamente conservadora e mesmo pessoas que se julgam "progressistas" e "modernas" não conseguem mais esconder seu conservadorismo extremo e, por vezes, reacionário, que contraditoriamente só aceita transformações sociais moderadas, que não mexem nos privilégios das elites dominantes.

Daí que é uma sociedade que vê a "caridade" apenas como um derivado da religião. O raciocínio da sociedade é meramente institucionalista, quase mercantil. Afinal, a "bondade" reduz-se a um "produto", no qual as pessoas prestam mais atenção ao "benfeitor" que é alvo de adoração extrema, quase que como um velocino de ouro.

Os necessitados são só um detalhe. Fala-se vagamente que "muitas pessoas" foram beneficiadas, sem dar informações concretas, se contentando com meras propagandas institucionais, em que os "benfeitores" são cercados de crianças e velhinhos e faz sua "humilde" ostentação que lhe garante os prêmios e os aplausos de autoridades e aristocratas.

Há denúncias sobre aspectos sombrios de Madre Teresa de Calcutá, bastante conhecidos. Mas suponhamos que a "caridade" que ela fez foi "verdadeira". Nem considerando assim permite defini-la realmente como caridade plena, pois se trata apenas de Assistencialismo, "caridade paliativa", uma ideia que as pessoas tomadas de paixões religiosas, como os "espíritas", que remetem aos "médiuns" o culto à personalidade, não conseguem perceber.

O que o "espiritismo" sempre fez foi Assistencialismo. Ele é muito diferente de Assistência Social, embora os "espíritas" aleguem essa segunda denominação. Mas a verdade é que a diferença entre Assistencialismo e Assistência Social é que, enquanto o primeiro apenas "alivia as dores", a segunda "cura a doença" da pobreza.

Os "espíritas" criam toda uma retórica sobre "assistência social", "caridade transformadora", "revolução social" etc. Mas, na prática, só fazem Assistencialismo. Afinal, se a caridade fosse realmente transformadora, o Brasil teria atingido padrões escandinavos de vida, se levarmos a sério a pretensão de grandeza que sempre se atribuiu ao "espiritismo" brasileiro.

Infelizmente, o Brasil sucumbiu ao contrário, e vemos o desmonte voraz dos direitos sociais, comandado pelo presidente Michel Temer, e o "espiritismo" brasileiro dá o maior apoio, vendo neste desmonte "uma excelente oportunidade de exercitar o desapego, o acordo entre irmãos, a resignação e a fé diante do sofrimento".

Os "espíritas" que idolatram Chico Xavier, Divaldo Franco, João de Deus, Madre Teresa e outros "filantropos", movidos pelas paixões religiosas, chegam a cometer a incoerência de dizer que "não é missão da caridade promover o progresso sócio-econômico do país", caindo em muita contradição, porque caridade tem a ver com qualidade de vida, sim.

Enquanto a "bondade" servir apenas para a idolatria religiosa de "benfeitores" que comemoram demais pelo pouco que fazem, as virtudes humanas se reduzem a esse estereótipo do rótulo religioso, da visão institucionalista, burocrática e até mercadológica, que comprova a crença de muitos de que a sociedade é sórdida e a bondade só existiria sob o rótulo de um movimento religioso.

Os brasileiros têm essa visão de "bondade" porque veem novela demais, e seu paradigma é o Criança Esperança da Rede Globo. Submetidas a uma narrativa ao mesmo tempo fabulosa e maniqueísta, feita aos moldes de um "conto de fadas" para adultos, as pessoas entendem a "bondade" sem a compreensão realista verdadeira. Mesmo a miséria lhes é apresentada em tons de dramalhão, o que impede a compreensão objetiva do problema.

Uma grande prova do quanto essas pessoas só aceitam uma "caridade" mais restritiva, que promova a imagem pessoal do "benfeitor", é que elas são as mesmas que se irritam quando políticos e ativistas progressistas, como o ex-presidente Lula e o professor Paulo Freire, realizam projetos de inclusão social mais ampla.

As pessoas que costumam glorificar ídolos como Chico Xavier, Divaldo Franco etc. acabam se irritando com os projetos progressistas, que acusam seus idealizadores de "corruptos", "escolas de guerrilheiros", "doutrinação ideológica" etc. Preferem projetos como a pedagogia igrejeira da Mansão do Caminho, de Divaldo Franco, que aliás se insere nos padrões que estão de acordo com a proposta ultraconservadora da Escola Sem Partido.

Para a sociedade conservadora, é melhor defender uma "caridade" espetacularizada que, embora ajude muito menos pessoas e traga resultados medíocres, é envolvida pela fabulosa mística religiosa, rende uma narrativa digna de contos de fadas e, o que lhe é mais importante, não ameaça os privilégios das elites. A definição desta "caridade" como "transformadora" é apenas conversa para boi dormir. E para as elites dormirem sossegadas, também.

sábado, 2 de setembro de 2017

No Brasil das 'fake news', querem reabilitar o falso Humberto de Campos


O Brasil é hoje marcado pelas páginas de fake news, portais reacionários da imprensa de segundo escalão que, na prática, soam como "satélites" da grande imprensa, que também cada vez mais está desinformando e manipulando as pessoas.

Páginas como "Imprensa Livre", "Jornalivre", "Diário do Brasil", ""Folha da Pátria" e o que vier com nomes igualmente pomposos, difundem notícias de valor verídico bastante duvidoso, em muitos casos transmitindo juízos de valor sem provas, visando sobretudo proteger os interesses das classes dominantes, que sustentam essas páginas mentirosas financiando espaços na Internet.

No "espiritismo", a habitual falta de concentração típica dos brasileiros impede a real comunicação com os mortos. Se ela faz os brasileiros não terem paciência sequer para ouvir música ou ler um livro, quanto mais para se comunicar com o povo do além-túmulo?

Daí que os ditos "médiuns", aberrações que são idolatradas e recebem culto à personalidade, recorrem a obras fake, caprichando nas mensagens religiosas para desencorajar qualquer denúncia. Ninguém iria apontar fraude em "mensagens de amor".

O "espiritismo", no seu desespero paranoico de tentar reabilitar o mito de Francisco Cândido Xavier, agora tenta partir para todos os lados. Algumas concessões têm que ser feitas, como o periódico "Correio Espírita" admitir que Chico Xavier não foi reencarnação de Allan Kardec, mas esta concessão foi feita mais para destacar o anti-médium mineiro e reforçar a "peculiaridade" do "espiritismo" que é feito no Brasil.

A reabilitação de Chico Xavier - algo comparável ao que se fez com Aécio Neves na política - envolve até mesmo a duvidosa e farsante obra que usa o nome de Humberto de Campos. O volume da série "Grandes Temas do Espiritismo", da revista Espiritismo & Ciência (sic), insiste em tentar dar alguma validade à farsa que usurpou o falecido autor maranhense.

A capa da edição destaca o pseudônimo que Chico Xavier e o presidente da Federação "Espírita" Brasileira, Antônio Wantuil de Freitas, deu para o pseudo-Humberto, "Irmão X", uma paródia do Conselheiro XX, apesar da pronúncia ser "irmão xis" diante do "conselheiro vinte". Conselheiro XX foi um pseudônimo usado por Humberto para escrever crônicas satíricas sobre personalidades históricas ou de seu tempo.

A revista, que, como muitas outras, ensina e informa mal a Doutrina Espírita, define como "fundamental" a obra do suposto Humberto de Campos para a divulgação do Espiritismo, algo que vemos ter sido bastante duvidoso e de muito mau gosto, por ter sido uma usurpação de um nome ilustre para vender livros, promover sensacionalismo em torno do "médium" e assim seduzir e enganar a opinião pública, aliciada por apelos igrejeiros das "mensagens fraternais".

O QUE REALMENTE ACONTECEU

A farsa do "espírito Humberto de Campos", que causava, com muita razão, indignação nos meios intelectuais, foi o maior escândalo causado por Chico Xavier, uma das confusões deploráveis que o anti-médium causou mas das quais se serviu do vitimismo para sair ileso de qualquer enrascada. O caso jogou Chico e Wantuil para os tribunais, e os dois, espertos, chegaram mesmo a veicular uma carta fake atribuída a Humberto na qual há apelos muito estranhos. Entre eles:

"(...)Exigem meus filhos a minha patente literária e, para isso, recorrem à petição judicial. Não precisavam, todavia, movimentar o exército dos parágrafos e atormentar o cérebro dos juízes. Que é semelhante reclamação para quem já lhes deu a vida da sua vida? Que é um nome, simples ajuntamento de sílabas, sem maior significação? Ninguém conhece, na Terra, os nomes dos elevados cooperadores de Deus, que sustentam as leis universais; entretanto são elas executadas sem esquecimento de um til".

Essa declaração Humberto nunca daria, porque se trata de uma ideia um tanto estranha. Um autor defendendo a omissão de sua identidade, como se autorizasse a usurpação de seu nome ao bel prazer, sob a desculpa da "elevada cooperação para Deus". A frase é muito estranha e traz um forte indício do estilo pessoal de Chico Xavier.

Algumas verdades devem ser expostas, esclarecendo os incautos que, com a memória curta e com a percepção equivocada da "bondade" trazida pelas novelas da Rede Globo e pelo Criança Esperança - lembremos que Chico é um protegido da Globo - , veem as coisas como se fossem um conto de fadas, e por isso se recusam a perceber o que está por trás do caso Humberto de Campos. Vejamos:

1) Chico Xavier teria feito uma revanche, por não ter gostado da resenha que Humberto, em vida, fez do livro Parnaso de Além-Túmulo. Embora, aparentemente, Humberto tenha visto semelhanças de estilo nos poemas "psicografados" em relação aos autores originais, o que não indica que Humberto teria legitimado o livro, ele reprovou a "psicografia" sob a alegação de que "autores mortos não podiam concorrer com autores vivos". Ao morrer, pouco depois, Humberto teve o nome usurpado por Chico Xavier, que teria inventado um sonho para justificar a "parceria".

2) Os parentes de Humberto de Campos moveram, contra Chico Xavier e a FEB, um processo judicial que foi um tanto ingènuo na petição: pedia à Justiça analisar as "psicografias" para ver se eram autênticas ou não. Se caso positivo, os herdeiros participariam dos lucros dos livros, mediante direitos autorais. Se caso negativo, Chico e a FEB teriam que indenizar os familiares. Faltou firmeza para apontar que a "psicografia" era uma demonstração de falsidade ideológica, facilmente identificável numa leitura analítica.

3) A "seletividade" da Justiça, famosa por inocentar criminosos ricos - "condenados" à liberdade condicional - e, recentemente, por poupar políticos do PSDB e até do PMDB, em 1944 inocentou Chico Xavier pela desculpa de achar o processo "improcedente", ou seja, a Justiça ignorou a verdadeira natureza da questão, pegando mais no problema secundário de direitos autorais, quando se vê que o caso era claramente de falsidade ideológica, pois o "espírito Humberto de Campos" comprovadamente era diferente, em estilo, do que o autor maranhense demonstrou em vida.

4) O escritor Agrippino Grieco, apontado pelos "espíritas" como "comprovador" da "autenticidade" do "espírito Humberto de Campos", por ver, em princípio, algumas semelhanças entre a obra deixada em vida e a "psicografia", mudou seu ponto de vista e se desiludiu ao saber das revelações dadas aos que questionaram a "obra mediúnica". Com isso, Grieco se envergonhou de ter acreditado na "autenticidade", ao ver que havia irregularidades no estilo do Humberto original e do "espírito".

5) Visando abafar futuros processos judiciais, o esperto Chico Xavier tentou fazer agrados aos familiares de Humberto. O filho homônimo, que virou produtor de TV, foi seduzido pela "doce emboscada" de assistir a um culto liderado por Chico Xavier, em 1957. Esperto, Chico pediu à casa espírita (o Grupo Espírita da Prece, em Uberaba), para organizar atividades de Assistencialismo (caridade meramente paliativa), enquanto ele se valia de um recurso considerado falacioso, chamado "bombardeio de amor" (um tipo perigoso de apelo emocional). Assim, Chico "encheu de afeições" o produtor Humberto de Campos Filho, que foi levado a chorar copiosamente, e depois o produtor era levado pelo "médium" a acompanhar uma caravana ostensiva demais para uma finalidade meramente paliativa: a doação de mantimentos e roupas. Portanto, uma "caridade" que serve mais para propaganda do "benfeitor" do que para realizar uma profunda transformação social.

ESTILOS DIFERENTES

Para quem acha que o "espírito Humberto de Campos" tem "semelhanças" com o Humberto de Campos original, impressão que se dá numa leitura meramente superficial e apressada, identificamos as diferenças de estilos entre o autor original e o "espírito", que devem ser levadas em conta.

1) O estilo de narrativa do Humberto de Campos original era ágil, quase cinematográfica e gostosa de se ler. O do "espírito Humberto" era mais pachorrenta, prolixa, cansativa e inspirava uma leitura "pesada" e entediante, que só agrada a quem for beato religioso.

2) O texto de Humberto de Campos original era culto e correto, porém bastante acessível e coloquial. O do "espírito" era prolixo, rebuscado, pretensamente erudito, porém com sérios vícios de linguagem, como escrever "que cada" (trocadilho com "quicada").

3) A escrita de Humberto de Campos original era descontraída, com uma linguagem parnasiana quase modernista. A do "espírito" tem um forte acento igrejista, era melancólica e deprimente, soando mais como um velho folhetim medieval.

4) Os temas de Humberto de Campos original eram diversos, relacionados à realidade política e cultural, e quase sempre laicos. Mesmo um conto sobre Jesus, no livro O Monstro e Outros Contos, falava mais sobre infância e não de religião. Já o "espírito" era monotemático, escrevendo episódios bíblicos ou usando situações cotidianas para veicular mensagens religiosas, não raro correspondendo ao pensamento pessoal de Chico Xavier.

CONCLUSÃO

As observações acima foram constatadas mediante leitura minuciosa e cuidadosa das duas biblografias, a original de Humberto de Campos e a suposta obra espiritual. As semelhanças de estilo entre os dois repertórios não é muita, e quando há, revela um grande pastiche literário.

A verdade é que a atribuição da "obra espiritual" a Humberto de Campos se conclui falsa, porque as diferenças estilísticas são extremas. Daí que a revista "Espiritismo & Ciência", no volume "Grandes Temas do Espiritismo" dedicados ao suposto Irmão X, cometeu uma grande perda de tempo e se junta à onda das "informações fake" que, em certos casos, cria exércitos de jovens fascistas. Os adeptos de Jair Bolsonaro, tido pelas fake news como "o homem mais honesto do Brasil", que o digam.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

As contradições graves dos "pensadores espíritas"


Quanta hipocrisia acontece no "movimento espírita" nos últimos 40 anos. Tanta deturpação do legado de Allan Kardec é feita, mas os próprios deturpadores insistem em explorar sua teoria, como se fossem "autênticos" adeptos da obra deixada pelo pedagogo de Lyon.

Quantos exércitos de palavras bonitas, perfumadas e enfeitadas, são acionados na desesperada preocupação de palestrantes, escritores e "médiuns" do "movimento espírita" ficarem com a palavra final. Quantos esforços de textos que apelam para a coerência dos outros, quando os próprios "espíritas" desprezam a sua própria coerência, se contradizendo o tempo todo.

Lançar ideias é um ato de profunda responsabilidade social, mas uma ideia não é um produto que, num dia, é mal servido e, em outro, é corrigido. Que é possível um pensador corrigir suas ideias e lançar obras que possam desmentir alguns conceitos apresentados, tudo bem, mas não da forma leviana que fazem os "espíritas".

Estes, sempre se preocupando com a palavra final, acreditando estarem com a posse da verdade - embora, no discurso, tentem desmentir isso, fingindo "caráter mais humano" - , sempre lançam uma ideia equivocada com a pretensão de apresentarem uma visão definitiva e coerente das coisas. Lançam, acreditando na ilusão de que não serão questionados por tal ideia apresentada.

Mas eis que a ideia repercute mal e eles têm que rever as ideias que acreditavam serem definitivas e pouco mutáveis. Imaginam que se podem produzir conceitos diferentes dos anteriores como alguém que prepara um pastel sem higiene e, no dia seguinte, o prepara com a maior limpidez possível.

Só que não é assim. A pretensão da posse da verdade, ou, pelo menos, da palavra final sobre as coisas, tudo para proteger o prestígio religioso do "espírita", faz o palestrante escrever ou dizer uma coisa, achando ser uma visão definitiva, e no momento seguinte escrever ou dizer algo diferente.

Dizer que todos somos falíveis é inútil, porque o "espírita" recorre a isso para evitar a decadência de sua reputação religiosa. Ele precisa "explicar" seus erros para evitar a desqualificação, mas, ao continuar bancando o "intelectual espírita", ele acumula uma obra cheia de contradições, um vergonhoso engodo de palavras bonitas e amistosas, mas um conteúdo extremamente confuso e cheio de incoerências.

PARÓDIAS DA PEREGRINAÇÃO DE JESUS

Poucos admitem que Jesus de Nazaré andava de casa em casa conversando com as pessoas para esclarecer a sociedade atrasada de seu tempo de diversas coisas. A posteridade deu uma abordagem religiosa da coisa, mas o que Jesus queria fazer, numa atitude reprovada pelos pais (Maria e José não aceitavam que ele virasse um andarilho a dizer coisas "subversivas"), era trazer às pessoas revelações inquietantes que a inteligência peculiar do jovem Jesus analisava da sociedade de seu tempo.

Jesus era um grande crítico dos pretensos intelectuais do seu tempo, da tirania do Império Romano e da ganância das pessoas. Seu trabalho era mais sócio-político do que religioso, e sua missão de falar com as pessoas era um ato considerado "anormal" e condenado pela sociedade dominante. Tanto que, por difundir "certas coisas", Jesus foi condenado à cruz, sem o julgamento de Pilatos que foi uma invenção ficcional da Idade Média para culpar os judeus e inocentar os romanos.

Embora os "espíritas", que vivem fazendo turismo pelas mais belas cidades a pretexto de "divulgar a boa nova", digam que estão fazendo o "mesmo trabalho peregrino de Jesus", o que eles fazem, na verdade, está mais próximo do que os velhos sacerdotes e escribas e dos pretensos profetas usurpadores da crendice alheia fizeram no tempo de Jesus e que este reprovava duramente.

Se Jesus voltasse e visse a maioria dos religiosos que atuam em seu nome, ele ficaria envergonhado bem mais do que quando viu os comerciantes de uma sinagoga venderem suas mercadorias em frente ao templo, episódio que ficou conhecido como "os vendilhões do templo".

Jesus havia alertado sobre os falsos cristos e falsos profetas. Allan Kardec alertou sobre os deturpadores do Espiritismo. Até o espírito Erasto se manifestou sobre tal risco, ele que viveu no tempo de Paulo de Tarso (o antigo anti-cristão Saulo, que depois virou admirador de Jesus). E no entanto nós vemos não só falsos cristos e falsos profetas, mas falsos kardecs, falsos erastos, falsos herculanos pires e o que vier de "lobo em pele de cordeiro".

Mesmo os "conceituados" Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, eles mesmos deturpadores de primeira hora a envergonhar o legado espírita original, não escapam a esse festival de incoerências e confusões em suas obras rebuscadas e prolixas, de palavras perfumadas e enfeitadas escondendo toda uma podridão de sentidos obscuros e levianos.

De que adianta centenas de livros ou de palestras (Chico Xavier lançou mais de 400 livros), na mais espetacular coreografia das palavras agradáveis, arrancando lágrimas de gente incauta como que num orgasmo pelos olhos, se seu conteúdo é confuso, contraditório, em que conceitos primeiramente tidos como definitivos e taxativos são desmentidos depois da maneira mais desavergonhada e cafajeste?

Um Divaldo Franco, por exemplo, ávido em ficar prevendo os anos de evoluções da humanidade, veio desmentir, recentemente, esse passatempo, criticando a mania "dos outros" em estabelecer datas para isso e aquilo. Ah, os argueiros dos outros, ignorando a trave dos próprios olhos!

A paródia da peregrinação cristã, feita pelos fariseus contemporâneos do "espiritismo", os rebaixa aos piores sacerdotes dotados da vaidade obtida pela pretensão de alcançar os céus com menor demora possível, às custas de uma carreira de palavras enfeitadas e perfumadas e atos fajutos de caridade que mais produzem idolatria e devoção do que resultados concretos para a sociedade.

Se reunissem os textos isolados que certos palestrantes "espíritas" produzem, como se juntam as peças de um quebra-cabeça, o que se resultará é uma vexaminosa antologia de textos contraditórios que não se dialogam entre si, em que num texto se expõe a correta teoria kardeciana e em outro os delírios igrejeiros de André Luiz e Emmanuel.

A contradição não é um problema em si, se houvesse contexto para tal. Mas para os "espíritas", que sempre lançam um ponto de vista que julgam firme e definitivo, partir para uma ideia contrária à anterior demonstra total incoerência, manchando sua obra que se pretende ser a "expressão do bom senso e da coerência", mas que resulta num festival de contrassensos e incoerências que só são aceitas por quem não é suficientemente informado e esclarecido das coisas.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

"Espiritismo" brasileiro e sua crise irrecuperável


O "espiritismo" brasileiro está numa das piores crises de seus 133 anos. A situação está insustentável, porque vieram à tona todo um acúmulo de equívocos trazidos desde quando o movimento preferiu seguir a orientação dos místicos, em detrimento dos científicos. A coexistência dos dois, longe de representar um equilíbrio, só provocou problemas que apenas são abafados momentaneamente.

Atualmente, o "movimento espírita" consiste numa Torre de Babel traçada por imenso acordo. Palestrantes e "médiuns" entram em choque em pequenas nuances da abordagem igrejeira que cometem, além da dissimulação que faz uns bajularem Erasto, outros admitirem Roustaing, uns falarem em "data-limite", outros discordarem disso etc etc etc.

Mas tudo isso é apenas uma tentativa de criar uma "desordem organizada", no qual todos deturpam a obra de Allan Kardec, mas adotam modos pessoais de dissimulação. Condenam a "vaticanização" no discurso, mas na prática são seus mais entusiasmados praticantes.

O aparato de "amor" e "caridade", o balé de belas palavras, a aparente facilidade dos deturpadores arrumarem desculpas para todo que fizerem, cria uma ilusão de que o "espiritismo" pode tudo, que o "espiritismo" é a única religião brasileira capaz de desafiar a lógica e o bom senso, na esperança de liquidá-los em prol de um "espaço reservado" para o contrassenso e as invencionices feitas ao sabor da fé deslumbrada.

Nos últimos anos, a "solidariedade espírita" se deu em torno da deturpação. A manutenção de muitos roustanguistas enrustidos representou toda uma sorte de hipocrisias, quando os palestrantes "espíritas" passaram a expor "corretamente" a teoria espírita original, mas praticam, até com mal disfarçado entusiasmo, o mais extremado igrejismo.

De que adianta expor a teoria espírita original se a mediunidade é fake? De outro modo, é também inútil "rechear" as mensagens supostamente espirituais com um conteúdo "mais verossímil", como nas dos jovens falecidos, antes escritas em tom estranhamente solene, hoje excessivamente coloquiais, havendo sempre o "efeito Jair Presente", que apresentou tais distorções extremas.

Mensagens "espirituais" acabam sendo produzidas como se fossem salgadinhos ao gosto do freguês. O próprio caso de Jair Presente (jovem engenheiro que faleceu em 1974) já ocorreu nos primórdios da "fase dúbia" do "movimento espírita", quando a primeira mensagem trazida por Francisco Cândido Xavier mostrava o habitual igrejismo e as mensagens posteriores mostravam um coloquialismo excessivo e forçado, estranhamente neurótico e por demais alucinado.

O próprio Chico Xavier deixou sua máscara cair, deixando de lado sua imagem "santificada" ao se irritar com os comentários justos dos amigos de Jair, que não conseguiam ver autenticidade alguma nas supostas psicografias. Paciência, eram pessoas que conviveram com Jair, sabiam como ele era e como ele se expressava com os outros. E Chico Xavier disparou um comentário bem ríspido, chamando a desconfiança dos amigos de Jair de "bobagem da grossa".

O "espiritismo" brasileiro apresentou, nos últimos 40 anos, uma série de circunstâncias infelizes. A religião mais blindada do país, embora não seja a mais popular - todavia, é a religião que conta com o apoio da Rede Globo - , tenta de tudo para manter uma imagem "limpa", lançando mão até de revistas ruins nas bancas, que ensinam tudo errado da Doutrina Espírita e reduzem Kardec a um boneco e servir de brinquedo para seus deturpadores brasileiros.

A situação, porém, está insustentável e a crise é irrecuperável. Isso porque a promessa dos deturpadores do Espiritismo em "aprender melhor Kardec", com uns até exagerando e forçando a barra na pretensão ao falar em "não apenas aprender, mas viver Kardec", nunca deu certo. Volta e meia e o velho igrejismo roustanguista que muitos julgam superado e combatido retorna com muito mais força do que se imagina.

Figuras de formação católica como os "médiuns" Chico Xavier e Divaldo Franco, ao serem promovidos a "líderes espíritas", deixam a doutrina refém do igrejismo, tornando inúteis os esforços como o de Alamar Régis Carvalho, que alega reprovar a "vaticanização", e de Orson Peter Carrara, que bajula o espírito de Erasto, porque até eles praticam o igrejismo de raiz roustanguista.

Há muita hipocrisia e antes os "espíritas" tivessem assumido renegar o legado de Kardec e assumir o roustanguismo de vez. A volta da velha promessa de "não apenas aprender, mas viver Kardec no dia a dia", será mais uma promessa em vão, porque o "espiritismo" continuará correndo atrás do próprio rabo, praticando o roustanguismo que esconde sob uma embalagem pretensamente kardeciana, dando apenas continuidade à "fase dúbia" que arruinou o Espiritismo no Brasil.