quinta-feira, 23 de julho de 2015

Cientistas brasileiros contrariam "profecia" de Chico Xavier

AUSTRÁLIA (NA FOTO, A CAPITAL CANBERRA) É UM DOS PAÍSES MAIS RECEPTIVOS AO TRABALHO DE CIENTISTAS E TÉCNICOS BRASILEIROS.

É sabido que os cientistas brasileiros estão indo embora. A falta de investimentos nas pesquisas científicas faz com que muitos brasileiros, não tendo recursos para levar adiante seus trabalhos, prefiram migrar para outros países, sobretudo desenvolvidos, onde existem condições financeiras e profissionais para realizarem suas pesquisas.

Esse não é um fato recente e, no entanto, também está longe de se encerrar, mesmo durante o "longo período" de "recuperação" que o mundo terá sob o presumido comando do Brasil, como sonhava Chico Xavier que, em sua visão provinciana, queria que o nosso país fosse o "coração do mundo".

Para piorar, o "sonho de 1969" ainda tinha a presunção de "garantir" que multidões de grandes pensadores, artistas e cientistas, e principalmente intelectuais de grande valor, passariam a viver no Brasil depois que guerras e catástrofes naturais (!) tornassem o Hemisfério Norte "inabitável", da mesma forma que haveria similares brasileiros de igual importância.

Risível. Que intelectuais "importantes" mostraremos no "coração do mundo"? Aqueles antropólogos e cineastas que corroboram com a visão caricata de povo pobre e com a etnografia de mercado do programa Esquenta! da Rede Globo? Que cientistas teremos? Aqueles igualzinho aos de Juiz de Fora que tentam comprovar o incomprovável dos embustes "mediúnicos" do "nosso bom profeta espírita"?

O país da corrupção política, da "cultura" da demagogia - faz-se o pior alegando ser por "boas intenções" - , dos baixos investimentos em Educação e Saúde e da prevalência de valores sociais retrógrados, com reflexo na nossa cultura, impedem que o Brasil possa assumir qualquer liderança mundial. Recuperar o país dessa degradação generalizada é um trabalho difícil que não conseguirá fazer o Brasil alcançar tal condição.

Em compensação, os países desenvolvidos
tentam resolver seus problemas. Afinal, eles são mais experientes. A Europa já passou por um período de muita fome e miséria depois da Segunda Guerra Mundial e, por isso, pôde somar estes problemas aos que já acumulou no decorrer dos séculos para resolverem, e assim se desenharam os países desenvolvidos que hoje conhecemos.

Aí os países europeus em geral decidiram realizar controle de natalidade para evitar a superpopulação e, por consequência, a crise sócio-econômica. Só que isso, levado adiante, faz com que a população não só reduzisse como envelhecesse, porque a baixa natalidade acaba envelhecendo a população e enfraquecendo a demanda socialmente ativa.

Isso faz com que as autoridades busquem alternativas para preencher a oferta de emprego, como a contratação de estrangeiros. No caso dos brasileiros, as oportunidades reservadas para áreas como Medicina, Engenharia e Informática, incluindo cursos de capacitação profissional ou formação universitária (incluindo pós-graduação) e programas de emprego temporário (que no entanto podem se converter em estáveis se depender do caso).

Muitos brasileiros já participaram desses programas em países como Canadá e Austrália, os que mais os oferecem para os cidadãos oriundos do Brasil. Mas a Nova Zelândia, a Noruega e a Alemanha também oferecem esses programas, que permitem um acolhimento melhor na vida dos que querem deixar o Brasil em busca de uma vida melhor.

Isso contraria severamente as "previsões" de Chico Xavier. Os cientistas brasileiros estão indo embora, vários já foram. Como também muitos dos técnicos e especialistas de altíssimo valor. E isso próximo de 2019. Faltam quatro anos. O que significa que o quadro não tende a ser diferente, diante do agravamento dos retrocessos que atingem o país.

Até o Sul e Sudeste, antes referências de modernidade e desenvolvimento no Brasil - embora aquém dos padrões do "velho mundo" - , tornaram-se redutos de um atraso antes inimaginável, através de um provincianismo que envolve a degradação sócio-cultural em vários sentidos, da corrupção política às humilhações de internautas encrenqueiros nas mídias sociais.

É um quadro social desfavorável para grandes projetos profissionais e educativos. Hoje estamos questionando todos esses valores, mas infelizmente os algozes estão no poder e não parecem sujeitos a cair. O que se sabe é que o "sonho" de Chico Xavier em ver o Brasil como "coração do mundo" foi liquidado mais uma vez com essa realidade do país perder seus grandes talentos profissionais e acadêmicos que migram para o exterior.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

"Espiritismo" é materialista, mas despreza a vida material. Como explicar isso?

PARA CHICO XAVIER, ESSE INFELIZ DEVERIA APENAS FICAR ORANDO EM SILÊNCIO, COM GARANTIA DE RECOMPENSAS FUTURAS SÓ NO ALÉM-TÚMULO.

O "espiritismo" não consegue explicar por que faz a apologia ao sofrimento humano. Alega que se deva sofrer da pior forma possível, recorrer a uma overdose de orações e religiosidade para ter um pouco menos de prejuízos e um pouco mais de benefícios, sempre longe de obter qualidade de vida ou mesmo chances plenas até de ajudar alguém.

Perdido num receituário moralista conservador, o "espiritismo" despreza a necessidade de ter uma vida material melhor. Temos um prazo de cerca de 80 anos de vida que acaba sendo marcado por infortúnios pesados, mas desnecessários, impostos além do limite de alguém para suportá-los e, como se isso não bastasse, às vezes o azar faz alguém abreviar sua vida quando mais precisa levá-la adiante.

Obtendo tratamentos espirituais com a intenção de atrair sorte para emprego, o paciente acaba atraindo o azar que não tinha. Perde oportunidades de obter excelentes empregos, através de situações confusas que permitem esse infortúnio, por mais que o sujeito se esforce de maneira exemplar para realizar tais oportunidades.

Se for a vida amorosa, o homem que suplica para pedir que venha em seu caminho uma moça atraente e com afinidades de personalidade, ou seja, afinidades espirituais, ele acaba atraindo mulheres que não são atraentes, não possuem afinidade espiritual com ele e, além disso, às vezes só correspondem a padrões grotescos de sensualidade que o homem não aprecia.

Que "sorte" é essa que os tratamentos espirituais atraem? O homem pede uma mulher com personalidade e caráter, que se afine com ele e ajude a tornar sua vida melhor, e ganha de presente uma "periguete" que, quando muito, só serve para atos sexuais mais primitivos? Que espiritualismo é esse que só permite benefícios tão materialistas?

E, no emprego? Tem gente que perde no concurso público para trabalhar numa autarquia que lhe traria grandes aprendizados e, todavia, lhe é permitido trabalhar como celetista numa empresa corrupta cujo patrão "raposa velha" teve a "sorte" de fazer aniversário do mesmo dia do pobre coitado.

Pode ser contraditório afirmar que o "espiritismo" despreza a vida material e é materialista. Mas a verdade é que essa aparente contradição tem sentido e, no fundo, é bem menos contraditória do que se imagina, se observarmos alguns dados.

Primeiro, porque a valorização da vida material é, na verdade, uma necessidade de estabelecer uma relação positiva entre a ação do espírito encarnado e as condições sociais materiais diversas. Dar valor positivo à vida material é ser mais espiritualista, porque defende-se o melhor aproveitamento da matéria para o aperfeiçoamento do espírito.

Quando se desvaloriza a vida material e atribui à "vida futura" a recompensa do sofrimento na carne, o "espiritismo" está sendo muito materialista, porque, tornando a vida material uma trajetória de sofrimentos pesados ou de inúteis tentativas de superação de limitações, está, na verdade, tratando a vida material como algo sem importância.

A "rivalidade" que os "espíritas" pregam entre matéria e espírito, defendendo a vida material como uma penitência individual, como se a Terra fosse uma grande penitenciária, é que revela mais materialismo que espiritualismo, não bastassem os "espíritas" terem uma visão materialista sobre a misteriosa vida espiritual. Nosso Lar demonstra esse materialismo.

Não sabemos agora com precisão o que é vida espiritual, e as incipientes pesquisas de contatos com espíritos morreu com a bagunça que muitos supostos médiuns fizeram, sem excluir Chico Xavier e Divaldo Franco, cujas fraudes e pastiches contradizem a alta reputação que alcançaram.

O materialismo se dá pelo desprezo ao uso da vida material de forma qualitativa e diferenciada. Por exemplo, se um homem não quer qualquer mulher e exige que sua pretendente tenha afinidades espirituais com ele, ele não pode pegar qualquer solitária feita apenas para fins reprodutivos.

Da mesma forma, a mulher que deseja um homem diferenciado não pode pegar como cônjuge um homem que apenas "estava ali" o tempo todo, um grosseiro durão que apenas se porta como tendenciosamente gentil e falsamente descontraído e amoroso, um homem sem caráter mas com uma única capacidade de manipular as conveniências sociais.

No emprego, então, a pessoa que faz tratamento espiritual para atrair sorte para um bom emprego, visando aproveitar melhor sua inteligência e seu potencial criativo, não quer atrair para si um emprego "qualquer nota" que só serve para atrair um salário qualquer, enquanto o emprego dos sonhos se torna uma realidade distante e impossível.

O "espiritismo" não pensa em qualidade de vida. Faz apologia ao sofrimento. Só pensa em recompensas póstumas para o "corajoso" sofredor. E acha que a vida material é a mesma em qualquer encarnação, pouco ligando para a transformação dos tempos e das pessoas, o que nos faz compreender por que o "espiritismo" tornou-se uma religião retrógrada e parada no tempo.

Para os "espíritas", vive-se a vida material "como se pode", de preferência encarando qualquer cilada, tendo qualquer prejuízo, desperdiçando os melhores talentos que encontram obstáculos intransponíveis para a expressão livre e adequada de suas habilidades. Até o sentido de caridade, neste caso, é deturpada pela doutrina, ao defender a complacência ou submissão aos algozes.

Na medida em que o "espiritismo" despreza a necessidade de melhor aproveitar a ação espiritual na vida material, ele está sendo materialista. Porque, assim, o "espiritismo" pensa a matéria como qualquer coisa. O espírito encarnado é que tem que se embrutecer e emburrecer e viver apenas para atender necessidades materiais.

A ideia é sobreviver e não viver. Vida melhor acaba se reduzindo a uma utopia a ser atingida depois da morte, através da perspectiva do desconhecido, a "certeza" do incerto que o sadismo das religiões mais moralistas impõe e que não difere muito do Taylorismo econômico que sacrificava as classes operárias.

Achar que tanto faz sofrer numa encarnação e acreditar que vida melhor só existe no além-túmulo é desprezar a oportunidade do espírito aproveitar melhor a sua rara oportunidade em cada encarnação. O mundo muda, existem reencarnações, mas cada encarnação é única em seus contextos e caraterísticas humanas.

Desprezar a necessidade de evitar sofrimentos na vida presente, buscando qualidade de vida para um encarnado, é desprezar o potencial do espírito em aproveitar melhor a vida material, e achar que encarnação é aguentar qualquer limitação sem intervir contra a mesma é, isso sim, uma visão escancarada e cruelmente materialista.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Não se deve ensinar Chico Xavier a espíritas iniciantes


Iniciativa extremamente infeliz um blogue que se volta a ensinar Doutrina Espírita para iniciantes falar em "excelente entrevista" com Francisco Cândido Xavier, como se fosse maravilhoso ouvir suas "previsões" a respeito do futuro da humanidade.

Afinal, a iniciativa, além de ser pouco recomendável, ou melhor, até de muita urgência evitar, revela um grande risco de ensinar para os espíritas iniciantes coisas erradas, vindas de um grande mistificador e que, podemos dizer, era um grande charlatão.

O "espiritismo" já é uma doutrina confusa nas mentes dos mais experientes, cheia de contradições que mesmo quem se diz entendido da doutrina no Brasil não consegue discernir, O duplipensar "espírita" faz os veteranos ficarem desnorteados, entre o pedantismo científico e o deslumbramento religioso, imagine o que ele faria com os iniciantes.

Já sabemos dessa entrevista de Chico Xavier. Ele foi falar do mesmo lero-lero religiosista de sempre. Aquele mesmo conselho religiosista de pedir fraternidade, que seduz a todos por conta da viciada emotividade da fé cega que corrompe até aqueles que se dizem dotados de alguma capacidade de raciocínio questionador.

É aquela mesma coisa que Chico Xavier recebeu de Emmanuel em 1938, que descreveu em Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho usurpando o hoje maculado nome de Humberto de Campos, que citou no tal sonho dormido depois da viagem de astronautas da NASA à Lua, em 1969, e que ficava dizendo em entrevistas ou livros aqui e ali.

O "futuro" de Chico Xavier é coisa tão risível, que seria preferível que ouvíssemos uma história de um pescador ou de um dono de boteco sobre o que cada um destes acharia do futuro da humanidade. Eles podem até delirar e falar muita lorota, mas pelo menos seriam relatos bem mais deliciosos e divertidos de se ouvir.

Já a lorota de Chico Xavier, de que o Brasil será a nação mais poderosa do planeta, se baseia na tese de que o Hemisfério Norte desenvolvido poderá desaparecer, que o Brasil se tornará poderoso e que o "espiritismo" será a religião que "causará muito interesse no planeta".

Esse roteiro já vimos no drama que destruiu a antes imponente e desenvolvida Grécia. Descontados aspectos atrasados daqueles tempos (o machismo, a escravidão, a extravagância das elites e as guerras, além dos assustadores gigantes de um olho só que amedrontam muita gente que lê as obras mitológicas), a Grécia Antiga era um projeto de sociedade bastante desenvolvida de seu tempo.

As guerras destruíram a Grécia Antiga e o resto do mundo antigo: astecas, fenícios, egípcios, maias. Tudo isso ao longo dos séculos, entre a Antiguidade e o fim da Idade Média. O Império Romano constituiu num retrocesso, ao criar um modelo de poder teocrático a partir da sanguinária Igreja Católica Apostólica-Romana.

E aí a humanidade na Terra custou a recuperar o rumo de sua História. Até hoje não se consegue ter a mesma competência arquitetônica dos egípcios, e a imponência intelectual dos filósofos se estacionou nos últimos anos.

Com o fim do Hemisfério Norte, em que se presume que milhares de personalidades importantes tenham suas vidas ceifadas de imediato, só nos restará as réplicas de seu legado, em livros, CDs, DVDs, sítios na Internet etc, guardadas e preservadas no Hemisfério Sul. Pode ser alguma coisa, mas é essencialmente insuficiente.

É igualzinho a Idade Média. Uma humanidade desenvolvida é dizimada (Grécia Antiga e Hemisfério Norte), um império surge de repente (Império Romano e o Brasil feito "coração do mundo") e uma religião torna-se o sustentáculo político do novo império (Catolicismo e "espiritismo cristão").

E qual a opção que o "bom" Chico Xavier acreditava para preencher a lacuna deixada pelo "mundo desenvolvido" extinto? A invasão de extra-terrestres que iriam trazer "sabedoria" para o mundinho restante. Para quem fez Nosso Lar pensando fazer ficção científica (ruim) travestida de realismo espiritualista, isso faz sentido.

Chico, além disso, cometeu sérios deslizes geográficos e geológicos. Ele se esqueceu que, se o Hemisfério Norte for destruído por violentos terremotos e erupções vulcânicas, que atingiriam o Japão e a Califórnia, nos EUA, fatalmente destruiria todo o Chile, por fazer parte do Círculo de Fogo do Pacífico.

Além disso, que gafe terrível foi cometida por Chico Xavier quando, tentando ser o sabichão sobre os futuros povoamentos de estrangeiros no Brasil, os povos eslavos, vindos de nações bastante frias, iriam se instalar nos Estados do Nordeste brasileiro, cujo padrão térmico iria trazer a esses europeus um choque de temperatura que os faria ficarem doentes e morrerem com muita facilidade.

A História do Brasil registra que, na virada do século XIX e XX, quando povos eslavos se instalaram no Brasil, eles escolheram os Estados do Sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) para viverem, além de São Paulo, que na antiga divisão de regiões do Brasil, pré-1956 (data de criação da SUDENE - Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste), também fazia parte da Região Sul.

Não há como infantilmente aceitarmos Chico Xavier a título de "espiritismo para iniciantes" porque sua confusa trajetória, cheia de contradições e erros gravíssimos, não pode ser aceita sob o pretexto dos estereótipos de "bondade" e "humildade" a ele associados.

Pelo contrário, quem quer ensinar Doutrina Espírita para iniciantes e se mantém apegado ao "carisma" de Chico Xavier acaba cometendo uma grande irresponsabilidade e um gravíssimo equívoco, porque as coisas não são sempre do jeito que parecem.

Chico Xavier, com seu histórico de pastiches literários e exploração sensacionalista das tragédias familiares, não bastasse seu moralismo ultraconservador que fazia apologia ao sofrimento humano, só pode ser recusado pelos brasileiros.

A verdade é que questionar e contestar Chico Xavier, isso sim, é um grande serviço, que não pode ser feito por iniciantes. Não se deve ensinar Chico Xavier para quem é iniciante no Espiritismo. Até porque sua figura traiçoeira precisa ser analisada e questionada por quem é mais entendido e experiente no assunto.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Tudo passa?


Francisco Cândido Xavier era dado a um sadismo. Ele foi o maior sado-masoquista que existiu na história do Brasil, porque fazia apologia o sofrimento com seus livros, cartas e depoimentos, e se divertia explorando as tragédias humanas.

É sempre aquele mesmo papo: você sofre as piores coisas da vida e vai o "bom médium" dizer para você aguentar tudo sem se queixar. Lhe aconselha, com palavras mansas, a não questionar, evitar o raciocínio contestatório e, o que é pior, ainda tem o descaramento de dizer que o melhor é "sofrer amando".

Sim, é isso mesmo que você vai ler se consultar as frases de Chico Xavier. Você, que se ilude com a boa imagem dele e com os estereótipos maravilhosos a ele associados, sabe que ele teve uma maneira bem dócil e suave para dizer, em textos às vezes prolixos, em outros carinhosos, que no fundo querem somente dizer "VÁ SE FERRAR!".

Você até se ofende, porque a única coisa que importa na vida é o "bom velhinho". Você não liga para seus pais idosos, para seus tios e avós, seu professor idoso dos tempos de escola lhe cumprimentou e você foi lacônico e insensível com ele, o Noam Chomsky lançou um livro sobre alertas políticos sérios e você nem deu bola e você ainda disparou dizendo que João Gilberto é ultrapassado.

Desprezando os idosos e idosas diversos, você se apega a Chico Xavier - o pior apego que um cidadão, sobretudo brasileiro, pode ter é aos estereótipos do anti-médium mineiro - com a forma mais obsessiva que se pode imaginar. Você está obsediado e não sabe. Nem tem razões para adorar tanto o anti-médium mineiro, mas faz e continua fazendo, mesmo se isso lhe der um maior azar (e dá).

Aí você, no seu doce masoquismo de aceitar o pior sofrimento "com amor", responde que nós estamos sendo cruéis com Chico Xavier, que ignoramos sua "inigualável bondade" e blablablá. E aí tenta desmentir o sadismo do "bom velhinho" ao lembrar que, apesar de recomendar que "soframos com amor", Chico nos lembrava de que, na vida, "tudo passa".

Claro. Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Sofremos ano após ano, a dor aumenta, os infortúnios crescem, nossa capacidade de resolvê-los se torna cada vez mais difícil, pessoas nos caluniam e nos humilham sem que possamos reagir para salvar nossos direitos.

Aí temos que achar tudo isso ótimo, desperdiçar uma encarnação inteira com tudo dando errado, sem que trabalhássemos nossa inteligência e senso de justiça para coisa alguma, tratando o prazer e a vontade como se fossem atos criminosos e sermos escravos do destino e dos arbítrios alheios, acreditando que a "vida futura" nos trará recompensas melhores e maiores.

Chico Xavier faltou com o respeito à gente. Perdemos um prazo de cerca de 80 anos de vida, talvez menos, talvez mais, para ficar sofrendo enquanto as soluções para superarmos esses sofrimentos se tornam piores, e a água invade o fundo do poço até nos afogarmos.

Sofremos tudo isso "com amor" para só conseguir alguma coisa depois que morrermos e desperdiçar uma encarnação inteira nada fazendo senão só aguentar males dos mais absurdos. Em muitos casos morremos cedo e nem precisamos escrever cartas para nossos entes, porque os "médiuns" escrevem por nós e acabam fazendo propaganda religiosa só para lotar "centros espíritas" e vender mais livros.

O que a ideologia de Chico Xavier fez seus deslumbrados seguidores se esquecerem é que temos esse breve período de vida material para desempenharmos nossa inteligência e aperfeiçoarmos nosso caráter, e não virarmos escravos do infortúnio, da calúnia e da má sorte.

Se em algum momento sofremos ou perdemos as coisas, o ideal seria que fossem apenas formas de aprendizado e regulação dos nossos desejos e atos, mas não a ponto de fazer com que as melhores pessoas fiquem sofrendo demais e as pessoas de mau caráter tivessem sorte para contornarem as mais complicadas encrencas.

A doutrina de Chico Xavier, que nada tem a ver com Allan Kardec, parece que não quer que os bons tenham o necessário, e permite que os maus tenham mais do que merecessem ter. É uma religião que acaba protegendo um Fernando Collor, aparentemente capaz de contornar qualquer encrenca, mas deixa um José Wilker morrer no meio do caminho.

Foi José Wilker, um dos mais talentosos artistas da atuação do país e uma das mentes mais brilhantes de criação e análise das artes cênicas, profundo conhecedor de cinema e teatro, foi só consultar um "centro espírita" para morrer de infarto no meio do caminho, antes de completar 70 anos.

Wilker tinha um projeto de carreira para os 90 anos de idade. Tinha planos de filmes, estava dirigindo novas peças de teatro, e disponível para muitos novos papéis como ator. Faleceu com pelo menos 25 anos de caminho pela frente.

Já se Fernando Collor morresse hoje, aos 66 anos de idade, não faria falta. Como político, foi um dos piores da história de nosso país. Foi um corrupto de carreira, tão cafajeste que é viciado em uma boa retórica. Mas ele parece ganhar todas, e mesmo estando sob investigação, parece ter condições de contornar tudo e, o que é pior, agora com reputação de político "progressista".

O Brasil passa por retrocessos profundos. Isso porque seu sistema de valores privilegia a mediocridade, a incompetência, o maucaratismo, as conveniências e os jogos de interesses. E é toda essa escória social que parece ser favorecida pelas circunstâncias. Tudo passa?

A impunidade que os maus sofrem, se ela terminar, ocorre geralmente na encarnação em que eles já estão arrependidos. É o "fiado espírita": faça mal primeiro e pague as consequências depois de se arrepender.

Esse receituário moralista, vindo do "bondoso" Chico Xavier, é a cicuta que adoça primeiro mas envenena os corações das pessoas. Gente que não é capaz de criar bons exemplos por si só, com a dependência psíquica dos "bons exemplos" do anti-médium mineiro.

Incapazes de criarem seus próprios bons exemplos, sua própria caridade, sua própria humildade, essas pessoas acabam preferindo que os brasileiros sofram, que infortúnios cresçam e apareçam, que as pessoas sejam proibidas de realizar seus desejos e projetos de vida, enquanto Chico Xavier é sempre lembrado pelas palavras bonitinhas que não passam de conversa para boi dormir.

Além disso, o termo "tudo passa" de Chico Xavier acaba se tornando uma forma sádica, porém em dóceis palavras, de querer que se adiem as coisas. Deixa-se tudo para depois, sejam a melhoria de vida dos bons e a punição aos maus. Como se uma encarnação nada valesse, como se a vida fosse inútil.

domingo, 19 de julho de 2015

O duplipensar "espírita"


Na obra 1984, de George Orwell, a Oceânia adota a técnica do duplipensar, que se fundamenta no falseamento da realidade, na manipulação da informação, na adulteração do passado e no desenvolvimento de um pensamento em que mentira e verdade se confundem. O próprio sentido de duplipensar é dúbio, podendo ser a mentira necessária ou a verdade absoluta, mesmo quando apresentam sentidos invertidos.

Vendo o caso do "espiritismo", que sofre sua grave crise desde que se aprofundaram os questionamentos, as reações feitas ainda se baseiam nas ilusões fáceis de outros escândalos. Vários casos pareciam render vitórias inabaláveis para os "espíritas", que imaginam poder dar a volta por cima na atual crise.

Em 1944, tiveram a sorte de ter sido o questionamento feito contra eles - que envolvia a apropriação de Chico Xavier à imagem simbólica do falecido escritor Humberto de Campos - desconhecido dos meios jurídicos de então, o que significou a inocência do anti-médium, não porque ele ganhou a causa, mas porque ele foi favorecido pelo zero a zero jurídico.

Em 1958, o sobrinho do anti-médium, Amauri Xavier, ameaçou revelar os bastidores da produção de livros "espíritas", prometendo dar informações sobre a sexta edição de Parnaso de Além-Túmulo, da qual chegou a colaborar. Com isso, o "movimento espírita" teria realizado uma campanha de calúnias contra o jovem, estranhamente falecido em 1961. A blindagem conseguiu salvar Chico Xavier de um novo escândalo.

Entre 1965 e 1970, começaram a ser denunciadas fraudes de materialização, a partir das atividades de Otília Diogo que, entre outros personagens, se passava pelo espírito da irmã Josefa. Chico Xavier apoiava tais brincadeiras, e teria assistido a várias delas desde 1953, chegando mesmo a assinar atestados para forjar autenticidade a essas farsas.

No entanto, apesar da cobertura investigativa da imprensa, que irritou os "espíritas" (sim, eles se irritam), Chico Xavier saiu imune pela interpretação, um tanto malandra, de que "cúmplice não é culpado". E o anti-médium foi depois ao Pinga-Fogo da TV Tupi defender a ditadura militar e seus seguidores fizeram vista grossa a isso.

Entre 1973 e 1975, Chico Xavier chegou a apoiar, explicitamente, um projeto de deturpação ainda mais radical através de traduções grosseiras de um livro de Kardec. José Herculano Pires denunciou o escândalo e a deturpação foi cancelada.

Era a época do auge da crise do roustanguismo, e desde então o "movimento espírita" passou a adotar uma apreciação envergonhada da obra de Jean-Baptiste Roustaing. Quando muito, o roustanguismo se limita à cúpula da Federação "Espírita" Brasileira. Fora dele, o que se viu foi justamente a aplicação de um "duplipensar", uma postura dúbia que vicia até mesmo quem combate os vícios do "movimento espírita".

O duplipensar "espírita" consiste na ideia de buscar recuperar as bases doutrinárias de Allan Kardec, mas contraditoriamente continua idolatrando Chico Xavier, Divaldo Franco e suas atividades não obstante fraudulentas.

Se antes o mal do "espiritismo" era o religiosismo exagerado e um coquetel ideológico que misturava mistificação e moralismo, a atual linha investe na contraditória equação entre uma apreciação pedante dos temas científicos impulsionados por Allan Kardec e uma mística pseudo-humanitária simbolizada pelos estereótipos relacionados ao "bondoso" Chico Xavier.

Esse duplipensar chega a atingir até mesmo aqueles que, a princípio, até parecem espíritas genuínos, mas ainda se mostram condescendentes com Chico Xavier, seduzidos pelos estereótipos que cercam o anti-médium.

Com tudo isso, não há como recuperar as bases kardecianas se o maior de seus traidores se mantém a prova de qualquer contestação. Querer a autêntica Doutrina Espírita sem romper com Chico Xavier é um exemplo do duplipensar da Oceânia do livro de Orwell.

sábado, 18 de julho de 2015

"Espiritismo" faz de muitos adeptos "sacos de pancadas" humanos


Você adoraria ser um "saco de pancadas"? Pois é isso que o "espiritismo", com suas energias confusas combinadas com seu misticismo moralista e sua espiritualidade irregular e corrompida, quer de você.

A ideologia de Francisco Cândido Xavier, tido equivocadamente como "progressista" e "moderno", enfatiza o silêncio da prece e o sofrimento sem queixumes, coisas que nada têm de progressistas, mas são extremamente conservadoras.

Não é exagero dizer que Chico Xavier é um ultraconservador, uma espécie de "AI-5 com amor". A apologia de seus textos e frases em prol do sofrimento humano são extremamente cruéis e dotadas de um sadismo terrível, mas da forma como são escritas e expostas, elas confortam muita gente.

É como um veneno saboroso, que mata depois de maravilhoso deleite. A cicuta, ou melhor, a "chicuta" das frases adocicadas do "bom velhinho" que fez horrores se autopromovendo às custas da ostentação de tragédias familiares ou da usurpação do carisma de pessoas mortas - só para citar alguns: Humberto de Campos e Irma de Castro, a Meimei - , parece ter um sabor agradável.

Nessa peçonha de palavras bonitinhas, as pessoas mal conseguem perceber que são aconselhadas a se contentar com suas situações inferiores e seus infortúnios e, de preferência, nunca estarem prevenidas às tragédias que lhes tiram do convívio, muitas vezes de forma que poderia ser antes evitada, as pessoas mais especiais.

A "dócil" doutrina de Chico Xavier roga por um país cujo seu exército de excluídos, vivos ou prematuramente mortos, sejam pessoas muito especiais. Mesmo pessoas que morreram relativamente idosas, como José Wilker e o geógrafo Milton Santos, se inserem neste contexto.

Daí que é muito estranho quando pessoas diferenciadas, quando se tornam "espíritas", passam a sofrer sérias limitações. Nem mesmo sua inteligência, seu jogo de cintura e sua habilidade para contornar dificuldades conseguem romper as barreiras que, de maneira surreal, se impõem às suas vidas e que criam situações confusas que lhes roubam as melhores oportunidades de ascensão.

Não adianta ter um desejo de ajudar as pessoas, ou de aprimorar sua inteligência, ou de aprender e ensinar as pessoas. Quem é diferenciado parece ser um algoz para o "espiritismo" que, com seu dedo ferino, têm a arrogância de julgar as pessoas com voracidade, embora sempre "recomende" aos outros para "não julgar" e "a ninguém acusar".

Se o "espírita" tem uma personalidade mais "carneirinha" ou "bovina" e aceita tudo de mão beijada, a não ser aquilo que o sistema de valores permite que seja combatido, nada acontece de grave, pelo menos em tese. O "espiritismo" chega a ser menos cruel para tais pessoas.

Se bem que, mesmo entre elas, infortúnios também acontecem. A devota "espírita" pode até se curar do câncer ou se livrar de ser assaltada ao perder um ônibus na volta de um "centro espírita", mas vê sua filha confidente morrer de acidente de moto guiada pelo namorado, enquanto lhe resta aquele filho viciado em drogas que, apesar disso, continua vivo e furtando sempre os objetos preciosos de sua mãe.

Será que também é lindo um "espírita" ver seu telefone celular roubado por um assaltante? Se levarmos em conta as "palavras carinhosas" de Chico Xavier, teríamos que acreditar que o ladrão fez isso não só para testar nossa paciência de "antigos romanos que éramos", mas pela tola tese de que o meliante talvez precisasse do telefone para alguma coisa. "Lindo", não é?

Claro, as complicações da vida do cidadão, que, ao perder o seu telefone celular, terá que se esforçar rapidamente para bloqueá-lo indo à loja do fabricante do aparelho, e mudar todos os dados na Internet, nas inscrições diversas, nas contas e serviços vários, trocando o número do telefone e tudo o mais.

E aí o "espiritismo", como na tira do Amigo da Onça - ironicamente, uma das maiores vítimas da máquina de plagiar de Chico Xavier - acha essas complicações o máximo, porque assim as pessoas "aprendem mais" e podem "aproveitar as boas oportunidades para resolver seus problemas".

Claro, talvez digam os chiquistas, possuidores de tão "tenra sabedoria", que a pimenta que arde nos olhos dos outros é um belíssimo refresco, porque assim as pessoas poderão encontrar a luz, como o profeta Paulo de Tarso, que conheceu Jesus depois que ficou cego. Talvez acreditem que a ardência nos olhos irá garantir bálsamos e luzes na "fé em Cristo".

Se o "espírita" é diferenciado e deseja ter um bom emprego para aprimorar sua inteligência e ajudar as pessoas, é bom desistir. Ele que arrume um emprego qualquer e aguente patrões prepotentes ou colegas humilhadores, e que aceite qualquer cilada "com muito amor e gratidão".

Infelizmente, o "espiritismo" brasileiro não é uma doutrina de progresso como se alardeia por aí. É, sim, uma doutrina de servidão, quase como um manual prático de como enfrentar as piores coisas da vida em prol de uma recompensa que só virá depois da morte, algo que engana e ilude as pessoas como toda seita religiosa de perfil retrógrado.

Afinal, tudo acaba sendo uma desculpa para sofrer mais e ficar submisso a essas mazelas. As "bênçãos futuras", pretexto para que se aceitem as piores barbaridades na vida de alguém, são vistas como um prêmio, embora seja algo que não se pode definir e nem se tem garantia segura de que realmente haverá.

E aí o "espiritismo" comete os mesmos piores vícios das religiões mais retrógradas. Ela tenta convencer as pessoas de acreditar na "certeza do incerto", e aceitar se darem mal na vida em prol de um benefício futuro que ninguém sabe como é, o que se trata e se realmente haverá.

Diante dessa falta de discernimento, as pessoas aceitam fazer o papel de "sacos de pancadas" nas lutas da vida. E, neste caso, até Edir Macedo, com seus piores defeitos, passou na frente de Chico Xavier. Sua Igreja Universal do Reino de Deus, pelo menos, tem como lema "Pare de Sofrer".

sexta-feira, 17 de julho de 2015

A preocupante polarização do Brasil de Fernando Collor e Eduardo Cunha


É preocupante que o Brasil, que sofreu uma avalanche de retrocessos nos últimos 50 anos e, de forma ainda mais intensa, nos últimos 25, ainda se ache em condições de se tornar potência mundial e vanguarda espiritual da humanidade planetária.

A epidemia que atinge o Brasil, comparável à gripe espanhola de 100 anos atrás - que chegou a matar o presidente da República, Rodrigues Alves, no começo de 1918 - , pode não causar danos físicos, mas traz danos sociais profundos. É o provincianismo, que impele as pessoas de terem uma compreensão confusa, incoerente e atrasada da realidade em volta.

O Rio de Janeiro tornou-se um caso preocupante, porque, pela primeira vez, depois de Pereira Passos - ainda mais antigo que a gripe espanhola que atingiu muitos brasileiros, pois urbanizou a Cidade Maravilhosa cerca de uma década antes - , a outrora capital do país, antes símbolo da modernidade, tornou-se uma das cidades mais atrasadas do país.

Tudo retrocedeu. Até o desabastecimento dos supermercados, no Grande Rio, atingiu proporções dignas de cidade do interior. E isso com o Rio de Janeiro próximo a sedes, estaduais ou interestaduais, dos fabricantes e distribuidores de produtos. Até a Bahia - do estereótipo, injusto, do povo "preguiçoso", passou uma boa rasteira nos cariocas - , o que é preocupante.

Nas mídias sociais, boa parte dos reacionários e matutos são internautas do Rio de Janeiro. Ver que pessoas de formação universitária e bom poder aquisitivo, com pinta de surfista (só para citar um estereótipo moderno), morando na Barra da Tijuca (a "Hollywood" brasileira, no sentido urbano do termo), agirem como se fossem um misto de Klu Klux Klan com Comando de Caça aos Comunistas, é estarrecedor.

Isso sem falar no clima de bangue-bangue que atinge a cidade, mostrando a falência das UPPs e a falência maior ainda do autoritário grupo político de Eduardo Paes que, de tão matuto, acho que sistema de ônibus era igual criação de gado bovino e juntou diferentes empresas de ônibus para usar o mesmo visual da província e ganhar o carimbo da Prefeitura.

São pessoas sendo mortas por balas perdidas. Policiais sendo assassinados a queima-roupa. E cidadãos sendo assaltados por ladrões que, num contexto desses, só precisavam de faca para renderem suas vítimas. Teve assassinato à luz do dia na movimentada estação do metrô no entorno da Rua Uruguaiana.

E o que se observa, no âmbito ideológico? Fora os reacionários (mal) fantasiados de esquerdista - apesar do QI nos níveis do lendário senador estadunidense Joseph McCarthy, famoso pelo reacionarismo neurótico - observa-se, no status quo da opinião pública, a polarização entre uma direita psicótica e uma esquerda festiva.

A direita psicótica, simbolizada por Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, Rachel Sheherazade, Eliane Cantanhede e o roqueiro Lobão, quer um país mergulhado no mais castiço e castrador capitalismo e quer que o povo seja excluído dos benefícios sócio-econômicos e dos debates públicos no país.

A esquerda festiva, simbolizada por Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo, Gustavo Alonso, Eduardo Nunomura e outros que, na verdade, imigraram da mídia direitista e outros ambientes similares, quer uma cultura brasileira mergulhada no mais castiço e castrador capitalismo e quer que o povo seja excluído dos benefícios sócio-econômicos e dos debates públicos.

A diferença entre uns e outros é só pontual. A direita psicótica tem um discurso raivoso e não admite sequer um papel positivamente caricatural para o povo pobre. A esquerda festiva tem um discurso sorridente, e admite que o "melhor lugar" para as classes populares é fazer um papel de debiloide através de uma "cultura popular" submetida às regras vorazes do mercado de entretenimento.

É preocupante ver que a intelectualidade que se divide entre esses dois papéis igualmente cruéis para as classes populares, em que uns querem ver o povo à deriva e outros apenas admitem ao povo a expressão de papéis ridículos, que o "bom elitismo" dos "generosos pensadores" festivos, desejando a espetacularização da miséria, define como "cultura do mau gosto".

Na política, nota-se uma polarização semelhante. Tem-se, num lado, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, dotado de ideias retrógradas, como se nota nos casos da terceirização, do fator previdenciário e na redução da maioridade penal, além de uma reforma política que sutilmente lhe arrumasse uma chance de transformá-lo em primeiro-ministro.

Para quem não sabe, a terceirização é a eliminação de conquistas trabalhistas, reduzindo o emprego a uma ocupação instável, insegura e muito mal remunerada. O fator previdenciário é um cálculo feito para adiar para muitos anos a aposentadoria, obrigando os idosos a trabalhar mais. A redução da maioridade penal apenas irá lotar as prisões com adolescentes que só cometeram crimes porque se inspiraram nos "adultos selvagens" da programação violenta da televisão.

No outro, tem-se o senador Fernando Collor de Mello, o ex-presidente que decidia medidas contrárias aos interesses dos trabalhadores, confiscou as poupanças dos brasileiros, era um privatista doentio - queria vender até as universidades públicas - e desvalorizou a indústria nacional, enfatizando demais a importação de produtos (inclusive os péssimos automóveis da russa Lada).

Todavia, depois que ele recebeu o impeachment e a proibição de exercer direitos políticos por oito anos, Fernando Collor voltou como se fosse personagem de filme de Luís Buñuel: cortejado por seus opositores e aclamado como "estadista moderno e progressista", quase tratado como se fosse um político emergente de centro-esquerda.

O teste desta blindagem veio quando o Supremo Tribunal Federal ordenou que buscassem e apreendessem bens e documentos em casa, empresas e instituições que Fernando Collor controlava, direta ou indiretamente. Três automóveis caríssimos (Ferrari, Porsche e Lamborghini) foram apreendidos. Collor é acusado de receber R$ 3 milhões do esquema de propinas de uma subsidiária da Petrobras, a BR Distribuidora.

Se, em vez de Collor, fosse Aécio Neves, a esquerda toda comemorava. Mas como não foi um político do PSDB, setores da esquerda ficaram incomodados e fizeram coro quando Collor, furioso, disparou no palanque do Senado Federal que tinha sido "humilhado" e que o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, "extrapolou" os limites do Estado democrático e da Constituição.

Fernando Collor tornou-se o símbolo tardio das esquerdas festivas - embora parte dela diga "não ir com a cara dele" - por ter sido o presidente que apoiou todo o contexto de decadência sócio-cultural vivida no Brasil, em que a Economia virou a medida de todas as coisas, mesmo com um povo brasileiro entregue ao emburrecimento duplamente produzido pela falta de investimentos na Educação e pelos valores retrógrados transmitidos pela mídia.

Imaginemos como se daria essa polarização, se um dia Eduardo e Fernando se tornarem os favoritos para concorrer à Presidência da República. O obscurantismo "cristão" de Eduardo Cunha e o neoliberalismo "popular" de Fernando Collor não são as melhores soluções para resolver os problemas do país, mas medidas que só agravarão esses mesmos problemas.

Acreditar que Eduardo Cunha trará moralidade e cidadania ou que Fernando Collor fará um país mais justo e mais moderno são tolices mediante o que os dois representam. Polarizar a política com um líder vindo do grupo autoritário e antilegalista do PMDB carioca e um antigo político da ARENA e do esquecido PRN convertido num "populista" pretensamente progressista.

Essa polarização se torna preocupante porque são dois lados de uma mesma moeda, em que um lado se preocupa demais com a "nobreza" e outro quer dar "pão e circo" para a "plebe". Nenhum dos lados tem compromisso real com o progresso do país e com o atendimento das necessidades das classes populares, e o Brasil só tende a piorar quando os dois passarem a polarizar o jogo político.

E, mais uma vez, não há como acreditar que o Brasil possa vir a ser "potência mundial", "coração do mundo", "vanguarda da humanidade" ou coisa parecida, passando por retrocessos que o fazem, na verdade, se atolar na retaguarda dos países emergentes.