sexta-feira, 4 de novembro de 2016
Globo pode fazer parceria com "movimento espírita" para enfrentar Crivella e Record
A senha foi dada semanas atrás. Se valendo do carisma e da alta visibilidade da atriz Camila Pitanga, estrela da controversa novela Velho Chico, ela foi indicada por alguém da emissora para agradecer à sobrevida a um acidente que matou seu colega de cena, Domingos Montagner, viajando para um distante "centro espírita" em Goiás.
Em tese, a ideia era recorrer ao "médium" João de Deus - aquele que não teve coragem de fazer autocirurgia para retirada de um câncer (talvez ele precisasse de umas aulas com o espírito do dr. Leonid Rogozov) - apenas para Camila agradecer o fato de estar viva.
No entanto, não se acredita que ela tenha feito promessas a qualquer ente "espírita" e, além disso, ela é ateia e ideologicamente de esquerda. O "médium" João Teixeira de Faria, o João de Deus, é rico proprietário de terras e é blindado pela mídia direitista, tendo sido capa da revista Veja, conhecida por suas posturas extremamente reacionárias.
O próprio "movimento espírita" sempre se alinhou para a direita, vide o exemplo de Francisco Cândido Xavier. A atitude de Chico Xavier sempre foi explícita, por conta de suas ideias moralistas, calcadas na medieval Teologia do Sofrimento católica, e, além disso, defendeu a ditadura militar e esculhambou, diante de uma grande plateia e milhares de telespectadores, movimentos organizados por pessoas humildes como operários e camponeses.
Recentemente, o mais festejado "médium" do movimento, Robson Pinheiro, iniciou uma série de livros supostamente psicografados que tentam dar uma "base espiritual" aos preconceitos que o astro da literatura "espírita" tem em relação ao PT e aos movimentos esquerdistas, atribuindo a mentira de um suposto gangsterismo político, reforçando mentiras descaradas que, no Brasil, são lançadas pelas páginas emporcalhadas da revista Veja.
Livros como O Partido - Projeto Criminoso de Poder e A Quadrilha - Foro de São Paulo (Foro de São Paulo é nome de um congresso de partidos esquerdistas latino-americanos ocorrido em 1990 e realizado pelo Partido dos Trabalhadores) revelam que, não bastassem as lorotas que se bombardeiam contra Lula e Dilma Rousseff, ainda se atribui a eles e a líderes como Nestor e Cristina Kirchner, Evo Morales, Hugo Chavez e Nicolas Maduro (Nestor e Hugo já estão no além) malignas influências espirituais.
Só que Robson Pinheiro deu um tiro no pé quando atribuiu às manifestações anti-Dilma suposta intuição de espíritos superiores. Tais manifestações têm como organizadores grupos como Revoltados On Line. O "espiritismo" diz abominar a revolta humana.
Além disso, as "iluminadas" manifestações eram feitas por gente que demonstrava profundo ódio político e exibia até suásticas nazistas, defendia o golpe militar contra Dilma e alguns manifestantes chegavam a cometer grosserias como baixar as bermudas e exibir os traseiros. Duas senhoras foram vistas descansando com um cartaz escrito "Por que não mataram todos em 1964?".
POR QUE "ESPIRITISMO" E NÃO CATOLICISMO?
Com a vitória de Marcelo Crivella, "bispo" da Igreja Universal do Reino de Deus, para a Prefeitura do Rio de Janeiro, município que foi o berço da Rede Globo de Televisão, a empresa da família Marinho terá que ter muita cautela na hora de fazer oposição ao novo prefeito.
Isso porque a Globo não pode se opor a Crivella como se opõe, por exemplo, a Lula e Dilma Rousseff. A menor tentativa pode representar uma reação enérgica da Rede Record, que rebaterá na forma de reportagens escandalosas contra a Rede Globo.
O crescimento da Record e da Igreja Universal no Rio de Janeiro pode significar um dilema difícil para a Globo. Além disso, a ascensão da religião evangélica terá que fazer com que a Globo tenha que fazer concorrência sem parecer escancarada na competição.
Daí que o Catolicismo poderá até ser usado pela Globo, mas apenas eventualmente. Nota-se que a Globo anda usando mais o "movimento espírita" do que a Igreja Católica para sua dramaturgia religiosa, até pela roupagem aparentemente modesta e descompromissada que os "espíritas" apresentam, além do fato do "espiritismo" brasileiro ter praticamente o mesmo conteúdo doutrinário do Catolicismo, em muitos casos sendo mais católico do que os católicos propriamente ditos.
De 2010 para cá, dos filmes religiosos co-produzidos pela Globo Filmes, apenas Maria Mãe do Filho de Deus, de Moacyr Góes, se destacou. Os demais são "espíritas", dois deles ligados a Chico Xavier, como Chico Xavier - O Filme e As Mães de Chico Xavier, além de ...A Vida Continua e Nosso Lar, baseados em livros atribuídos ao "espírito André Luiz".
As Organizações Globo há muito desfizeram as antigas impressões sobre Chico Xavier, a primeira como um exótico paranormal - quando uma edição de O Globo de 1935 mostrava o "médium" olhando de frente, trazendo um semblante assustadoramente trevoso - e a segunda como um herege (Chico Xavier era um católico de ideias ortodoxas, mas, como paranormal, tinha algumas práticas heterodoxas), e viram como um bom propagandista religioso conservador.
Desta forma, depois que os Diários Associados se desfizeram de boa parte de seu espólio - a TV Tupi foi extinta e a revista O Cruzeiro entregue a outros editores, que criaram uma linha editorial distante dos tempos áureos - , o "movimento espírita", que iniciava sua fase dúbia (bajular Allan Kardec mas praticar igrejismo), teve que apelar para a Globo para uma nova blindagem a Chico Xavier.
E aí a Globo e a FEB foram favorecidos pelo mito de Madre Teresa de Calcutá, construído por um documentário britânico, Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God), que o jornalista católico Malcolm Muggeridge fez em 1969, criando os paradigmas do que o público médio conhece como "exemplo máximo de caridade e amor ao próximo".
Tudo o que o documentário fez sobre Madre Teresa (na verdade acusada de maus tratos contra supostos assistidos) foi copiado para relançar o mito de "grande filantropo" de Chico Xavier: um marketing religioso era desenvolvido às custas de clichês de uma caridade que mais fascinava do que realmente ajudava o próximo. Uma caridade paliativa, que em verdade ajudava muito pouco.
Isso ocorreu no final da década de 1970 e havia a crise da ditadura militar, causada pelo fracasso do "milagre brasileiro". A mídia precisava domesticar a população, evitando mobilizações intensas, e a Globo viu em Chico Xavier a pessoa certa para esse processo de manipulação de corações e mentes.
Por outro lado, a ascensão de R. R. Soares e Edir Macedo, que aos poucos arrendavam horários para seus cultos eletrônicos, poderia fazê-los novos imperadores midiáticos, neutralizando o poder da Globo, que usou Chico Xavier (e todos os elementos ideológicos importados de Muggeridge) na tentativa de barrar o crescimento dos "pastores eletrônicos".
E olha que foi só em 1990 que a Rede Record foi adquirida por Edir Macedo (tio de Crivella) e o "movimento espírita" já fazia seu jogo duplo, de fingir apreciação "autêntica" do legado de Kardec enquanto mostrava um conteúdo escancaradamente catolicizado, através de Chico Xavier e Divaldo Franco, este também blindado pela Rede Globo, que o considerou "maior filantropo do país" sem ajudar sequer 0,1% da população brasileira.
A opção do "espiritismo" e não do Catolicismo se dá pela Globo para evitar que a Record aponte proselitismo religioso na "máquina global", já que os "espíritas" trazem consigo um verniz de modéstia e descompromisso que dissimulam bem o apelo religioso. Através do "espiritismo", a Globo é religiosa sem parecer explicitamente como tal.
Com a ascensão de Crivella, da Igreja Universal e da Record, a Globo poderá mexer os pauzinhos e apelar ainda mais para o "espiritismo", criando novelas ou fazendo com que seus contratados visitem "centros espíritas", como forma de propaganda tanto para a doutrina quanto para a empresa dos Marinho.
E isso não pode ser entendido como a disputa da "bondade espírita" contra o "mal neopentecostal", mas uma mera disputa religiosa sem maniqueísmos, mas com intenso e traiçoeiro jogo de interesses dos dois lados.
quarta-feira, 2 de novembro de 2016
O "espiritismo" defende o desperdício da vida
Imagine uma pessoa empurrando a cabeça de alguém para debaixo d'água enquanto apela para a vítima se esforçar para voltar à superfície? A vítima não consegue se superar, há apelos para ela se esforçar para voltar à superfície, mas ao mesmo tempo barreiras só crescem diante dela.
O "espiritismo" brasileiro, retrógrado e moralista, até condena o suicídio, tratado como um crime hediondo - para os "espíritas", o homicídio é um crime "culposo", movido por supostos "reajustes morais" e ao homicida é atribuída uma moratória de uma encarnação para "pagar o que deve" - , mas também nada faz para combater os motivos que levam alguém a se matar.
Não, ninguém se suicida por hobby, como diversão macabra de perfurar o próprio corpo para ver se as balas de revólver ou a ponta da faca são boas. Não estamos falando de malucos que existem por aí, mas de pessoas que se suicidam porque as barreiras da vida se tornam bastante pesadas para serem suportadas, mesmo com algum esforço.
Os "espíritas" revelam sua desumanidade quando desprezam as desgraças dos outros. "É no pior dos sofrimentos que se obtém a melhor das graças", pregam eles, acrescentando com a falácia "O que é a desgraça de uma encarnação inteira diante das bênçãos eternas da verdadeira vida?", ditas cinicamente por aqueles que, protegidos pelo prestígio religioso da Terra, se acham com um assento garantido no banquete dos puros.
A vida não pode ser um acúmulo de desgraças sem fim, de barreiras difíceis para ser superadas mesmo com o mais trabalhoso esforço. Fica muito fácil pedir para os sofredores e desgraçados da vida aguentarem tudo ou solicitar a eles o máximo de esforço, até acima de suas capacidades, para "vencer na vida".
No entanto, ninguém tem coragem de criticar os que cobram demais e criam barreiras para beneficiar alguém. É muito confortável a pessoa cobrar demais do outro, cobrar esforços descomunais, como que numa escravidão de padrões faraônicos, e forçar o sofredor a abrir mão até do que ele precisa para obter, quando muito, metade de um benefício.
Tudo vira uma questão de sobrevivência, quase animalesca, de quem está debaixo da pirâmide social. Não se critica quem cobra demais, de maneira abusiva ou sem levar em conta as limitações encontradas por quem está "embaixo", por se acreditar que quem está em cima pode exigir tudo porque está na "plenitude de seus méritos".
A hipocrisia "espírita" é apenas uma parte de uma hipocrisia social que permitiu a ascensão ao poder de um presidente de ideias retrógradas, Michel Temer, comprometido apenas com um crossover de elementos institucionais da ditadura militar, praxe política da República Velha e estrutura sócioeconômica do Segundo Império, nos quais se observa quadros de degeneração social diversos.
E o "espiritismo" é em boa parte culpado disso, porque, como suposta vanguarda dos movimentos espiritualistas, que faz até com que determinadas correntes digam com cínico orgulho que "não é uma religião, mas uma ciência", nunca contribuiu para avanço algum da humanidade, reduzindo sua "corajosa missão de caridade" a medidas paliativas que a ninguém jamais se ajudou de forma profunda e definitiva.
O moralismo "espírita" é medieval. Isso não é um juízo de valor. É uma constatação de caráter histórico, pois o "espiritismo" representou o resgate de conceitos jesuíticos do Brasil colonial, assimilando, no seu arcabouço ideológico, o que o Catolicismo brasileiro havia descartado de velho e antiquado.
Deslumbram a muitos, mesmo os não "espíritas", a suposta simplicidade do "movimento espírita" que dispensa os adornos das vestes sacerdotais e da arquitetura das igrejas, e o pretenso e falso racionalismo de seus pregadores, que se consideram acionistas majoritários da verdade.
Mas, diante dessa combinação de falsa simplicidade e falso racionalismo, o "espiritismo" tem uma moral ainda mais perversa do que a católica ou mesmo a neopentecostal, embora esta vertente religiosa seja claramente ligada, e de forma bem assumida, a um repertório moralista e social dos mais retrógrados.
No "espiritismo", que pode ser definido como a "doutrina do se vira", o sofredor tem que pagar o que não tem para obter um benefício. O "se vira nos 80" (com base no tempo estimado de vida humana, de 80 anos em condições naturais, mas pode ser até um terço ou um quarto disso) é uma amostra do descaso que os "espíritas" fazem do sofrimento humano, preferindo o desperdício da vida com sofrimentos pesados que forçam concessões pessoais muitíssimo severas.
Você sai desmontado diante desse espetáculo de infortúnios pesados. As portas fecham mas não é uma janela que se abre. Quando muito, é um buraco fétido que lhe serve de caminho. O desprezo à individualidade pelos "espíritas", vista como um capricho materialista, faz com que o sofredor abra mão até do que precisa e do que sabe para, tão somente, sobreviver.
De que adianta textos "espíritas" falarem de esperança e mostrarem pessoas de braços abertos sorrindo e olhando para o céu, numa paisagem florida e um céu radiante e azul, com um brilho solar atingindo a relva, se seu moralismo retrógrado e medieval diz para a pessoa aguentar o sofrimento ou se esforçar acima de suas capacidades para obter apenas metade do que precisa?
É muito fácil cobrar de quem está embaixo. No entanto, quem está no status quo ou em alguma posição social vantajosa, ainda que seja a etária (como a pretensa maturidade da velhice), fica fácil cobrar de quem não atingiu a plenitude social a se esforçar além da conta e ainda ser culpado pelas barreiras que os outros lhe impõem no caminho.
Um pai irritado cobra do filho mais esforço para procurar emprego e estudar aquilo que tem dificuldade de entender para passar em algum concurso. Mas ignora o problema que o filho tem que, quando se oferece para obter um emprego, ouve um lamento de um profissional de recursos humanos que, meio sem graça, diz que "infelizmente não é possível conceder um emprego".
Da mesma forma, organizadores de concursos públicos criam questões prolixas de provas, com conteúdo fora das exigências específicas de cada função, num questionário que normalmente seria resolvido em dez horas para um concurso de cerca de três horas e meia. O candidato certo para um cargo perde porque tinha que estudar demais e perdeu tempo estudando apenas uma parte do programa de estudos, em dois meses.
As exigências escalafobéticas do mercado de trabalho e do meio acadêmico, justificadas pelo pretexto do moralismo técnico e religioso (quanto mais se esforçar, "meter a cara" e "ralar mesmo", mais se conseguirá alto), que são os princípios da tirania meritocrática, fazem com que, contraditoriamente, o sol brilhe para quem é incompetente mas tem mais sorte na vida.
Como um rapaz que rejeita o pedido de namoro de uma melhor amiga, que depois ele descobre ser o amor de sua vida, muitas instituições deixam de contratar empregados e servidores públicos que poderiam ter uma atuação dinâmica, apenas por frescuras apoiadas por "valiosas tradições morais".
Em contrapartida, as pessoas que "metem a cara", "têm jogo de cintura" e possuem boa aparência e lábia para arrumar um emprego do qual não precisam de verdade, obtém tais funções e, sem ter a competência natural para isso, se corrompem diante da dificuldade do trabalho e do prestígio que ele lhes representa, promovendo um desempenho irregular para inflar suas fortunas pessoais diante do descumprimento dos deveres profissionais.
Isso mostra o quanto o moralismo de "valores nobres" permite a corrupção e a degradação social e moral. Não é estranho o moralismo sem moral, porque o moralismo é severo para quem está embaixo da pirâmide social, mas é flexível até demais para quem está no lado de cima. O moralismo sempre foi pesado para os pobres, nunca para os ricos, e variável na classe média, conforme o "lado" em que ela se apoiar.
É nesse "estado de espírito" que se apoia o moralismo "espírita", que, só por acreditar na reencarnação e na vida após a morte, permite que pessoas percam o tempo colecionando desgraças na vida. Afirmam os "espíritas", arrogantes, que "ninguém está aqui por turismo", se esquecendo que os próprios "espíritas" fazem turismo como mercadores das palavras bonitinhas. Vide Divaldo Franco, por exemplo.
O "trabalho da caridade" não justifica como suposto atenuante do "turismo espírita", com seus membros, de maneira esnobe, viajando para Lyon como quem vai para a Disney World, ou indo ver o túmulo de Allan Kardec em Paris como se estivesse entrando em contato com o Mickey ou o Pato Donald.
Até porque o "espiritismo" ajudou muito pouco em termos filantrópicos. Podemos até dizer que nada ajudou, vide as áreas "iluminadas" de Uberaba e do bairro do Pau da Lima, em Salvador, que são atingidas por pobreza extrema e violência crescente. Ou na Taquara, no Rio de Janeiro, onde um suposto médium foi assassinado em circunstâncias misteriosas.
O "espiritismo", pelo seu conteúdo religioso ultraconservador, nunca ajudou plenamente. A opção original de ter descartado o cientificismo de Allan Kardec e preferido adotar Jean-Baptiste Roustaing, escolha dissimulada ao longo dos tempos a ponto do nome de Roustaing desaparecer, como Eduardo Cunha do cenário político nacional, influi nesse rol de escolhas retrógradas e nocivas à sociedade.
Daí seu moralismo que acaba defendendo o desperdício da vida, aceitando que as pessoas sejam capachos do Destino, brinquedos das adversidades humanas, que abram mão de seus próprios talentos para trabalhar em servidão a algozes, a encarar a degradação social própria, anulando projetos de vida valiosos, que não podem ser feitos em qualquer encarnação.
É certo que a reencarnação existe, a vida espiritual existe e a vida não termina após a morte. Mas usar isso para defender que pessoas aguentem dificuldades acima dos limites e capacidades é defender o desperdício da vida, sob a desculpa de que "as desgraças de uma encarnação inteira só só um segundo diante da eternidade da vida futura".
Isso é um grande desrespeito e uma perversidade às pessoas. É brincar com o sofrimento alheio, se escondendo por trás do escudo da religião. Ignorar individualidades, talentos, necessidades, limites e problemas que os outros sofrem só faz o religioso, sobretudo o "espírita", mostrar seu caráter desumano, moralista, severo e desprezador, até porque moralistas assim nunca passaram pelo sofrimento que os desafortunados da sorte têm que suportar no dia a dia.
segunda-feira, 31 de outubro de 2016
O "mundo" da plutocracia está ruindo no Brasil
A rebelião de antigas supremacias sociais em reconquistar o poder, por enquanto, recuperou seus privilégios e, mesmo diante de tantas confusões, tenta se manter de pé mesmo à mercê de tantos escândalos graves.
É claro que isso traz um risco de um novo cenário fascista que pode trazer sérios holocaustos para o Brasil, já que a "revolta do bolor" traz de volta a hegemonia de setores retrógrados ou conservadores diversos, forçando o Brasil a andar para trás e apresentando a Idade Média ao nosso país.
O Brasil só fez aumentar sua crise quando afastou Dilma Rousseff do poder. Gente bem mais corrupta conquistou o cenário político atual, mas a prevalência de forças conservadoras e reacionárias faz com que seus seguidores permitissem todo tipo de irregularidade em nome do status quo.
Até parece que tudo começou com Francisco Cândido Xavier, um realizador de pastiches e plágios literários grotescos que sofreu a mais absoluta impunidade devido ao prestígio religioso que alcançou. Um dos piores arrivistas do país, Chico Xavier era um Aécio Neves do seu tempo, no sentido de praticar gravíssimas irregularidades e não receber punição alguma da Justiça.
O "espírito do tempo" de hoje é a recuperação desesperada do status quo. O Brasil virou um país de uma sociedade plutocrática e psicopata. Vários aspectos podem ser enumerados como posturas típicas da sociedade representada, de forma direta ou indireta, pelo poder retrógrado do governo de Michel Temer:
1) Pessoas já estabelecem critérios seletivos de justiça, radicalizando a já sutil impunidade da Justiça brasileira que condena os pobres e libera os ricos. Uma sociedade que se sente no direito de desejar a morte de petistas, mas se ofende quando se fala que feminicidas ricos têm câncer ou algum sério risco de falecer de infarto;
2) Pessoas masoquistas que, apoiando barbaridades como a PEC 241 do governo Temer, aceitam reduzir os salários dos trabalhadores, a venda das empresas brasileiras aos estrangeiros e a censura de conteúdo letivo na Escola Sem Partido sob a desculpa de "resolver a crise" e "trazer o progresso para o país";
3) Personalidades de extrema-direita como Jair Bolsonaro e seus filhos acabam tendo reputação expressivamente positiva entre a população, mesmo quando eles são denunciados (com provas documentais) por corrupção;
4) As pessoas estão desprezando princípios éticos e admitindo casos de corrupção, rupturas legais, interpretações legislativas tendenciosas e parciais, desde que se mantenha a reputação de pessoas dotadas de algum status quo maior: idade, dinheiro, fama, diploma, religião, poder político etc;
5) Surtos reacionários que revelam preconceitos de classe, raça, gênero e ideologia revelam uma assustadora liberdade de uma parcela da sociedade de transmitir visões segregacionistas que, em certos casos, são consideradas crime pela Lei;
6) Há uma cega adoração a pessoas que possuem algum status quo maior, seja atribuída à experiência de vida, experiência profissional, acúmulo de dinheiro, acúmulo de fama, projeção religiosa, prestígio político etc, a ponto de muitas pessoas se irritarem quando alguém diz que essas elites estão erradas.
Até nas famílias comuns os pais de família, iludidos com a idade e um simples acúmulo de décadas de vida, procuram sempre ficar com a palavra final para tudo, se aborrecendo quando contrariados, numa atitude diferente dos filhos, que normalmente estão preparados para desilusões e renúncias. É surpreendente que muitos pais têm medo de ouvir um "não" dos filhos, mais do que os filhos de ouvirem um "não" dos pais.
É assustador esse resgate de valores conservadores diversos, que variam do prestígio religioso a movimentos fascistas. Depois da libertinagem trazida pela bregalização cultural patrocinada pela grande mídia, ocorre o extremo oposto, com o resgate desesperado do que há de mais conservador na sociedade brasileira, sob os mais diversos aspectos.
No "espiritismo", nota-se a ascensão de ideias ultraconservadoras, como se os "espíritas" saíssem do armário mais uma vez e, depois de uma fase dúbia em que, desde os anos 1970, passaram a praticar igrejismo dissimulado com bajulações a Allan Kardec, aos poucos a doutrina brasileira da FEB e similares se torna praticamente a seita da Teologia do Sofrimento.
Sim, muitos textos publicados na Internet ou trazidos em "centros espíritas" e publicações escritas apelam para a aceitação do sofrimento e das desgraças, usando os mesmos argumentos dessa teoria católica-medieval, que defende o sofrimento humano como "aprendizado para a alma", o mesmo argumento já trazido no Catolicismo medieval e por seus seguidores da Teologia do Sofrimento.
Há até mesmo a literatura reacionária de Robson Pinheiro, o mais novo astro das supostas psicografias, e que escreveu livros usando alegações de "influências espirituais" para suas teses anti-petistas que cairiam muito bem nas páginas da revista Veja.
Mas o problema é que esse resgate de forças reacionárias que toma conta do país acontece com o consentimento de irregularidades diversas, como a "corrupção do bem" - no "espiritismo", por exemplo, a falsidade ideológica é até estimulada em nome das "mensagens de amor" - , a corrupção política, o desrespeito às leis e a prática de crimes, como o homicídio, sobretudo mediante bandeiras moralistas como "defesa da honra masculina" ou "direito à propriedade".
É uma sociedade que não mede escrúpulos em ser agressiva, estúpida, violenta, intransigente e intolerante, ou mesmo egoísta, impondo um "mundo cão" no qual é impossível lutar por melhorias. As pessoas do lado de baixo da pirâmide social é que têm que se adaptar para enfrentar um contexto social tão trevoso, e sobre estas se fazem as cobranças mais desmedidas e injustas, enquanto as oportunidades oferecidas são muito escassas e de difícil conquista.
Azar da plutocracia. O que ela faz é uma provisória retomada do poder, mesmo que seja para arrombar as portas da ética, da justiça social e do respeito humano. Isso porque, se a vida está instável e imprevisível para quem está no lado de baixo da pirâmide, quem está em cima não está menos invulnerável nesse cenário imprevisível e extremamente caótico.
De desentendimentos sérios entre os plutocratas até mesmo o risco de latrocínios, já que a exclusão social a ser implantada no governo de Michel Temer obrigará as elites a fazerem manobras rápidas para entrar nas garagens para evitar o assédio mortal dos assaltantes mais violentos, a sociedade "de cima" é que está vendo o mundo ruir e, por isso, tenta uma salvação desesperada reconquistando antigos privilégios.
Diante desse quadro, em que mesmo o governo Temer não tem garantias de completar o mandato, as elites correm o risco de enterrar os seus filhos, diante de uma explosão de um caos sem controle, já que a arrogância e a agressividade dos agentes sociais que tiraram Dilma do poder cobra um preço caro para os privilegiados que, diante de uma festa empolgante, terão uma ressaca extremamente dura e trágica, pelos naturais efeitos das injustiças sociais cometidas até com certo radicalismo.
sábado, 29 de outubro de 2016
O perigo "filosófico" do mito do "inimigo de si mesmo"
Parece lindo o mito do "inimigo de si mesmo", que deixa as pessoas movidas por paixões levianas diante de tanto misticismo religioso. A ideia de "vencer a si mesmo", que muitos incautos acreditam ser até "filosofia", torna-se na verdade uma grande armadilha retórica.
O problema não é combater os conflitos internos, mas isso é uma questão da natureza da vida humana e não um efeito de uma suposta auto-rivalidade. O problema, quando se fala no mito do "inimigo de si mesmo", é justamente a contradição que isso pode causar em quem prega esse princípio moralista.
Você pode imaginar que os religiosos que pregam o "combate da pessoa contra si mesma" são os mesmos que apelam para o "amor próprio". Tão presunçosos em serem "filósofos" - e um religioso, em especial um "espírita", sempre é um zero em Filosofia - , os religiosos só conseguem confundir as pessoas, com um obscurantismo ideológico que mais se perde do que encontra a verdade.
Imagine. Uma ideologia religiosa que diz para a pessoa se amar e que, em outro momento, diz que a pessoa é inimiga de si mesma. Evidentemente, as contradições que ocorrem tentam ser reparadas no discurso por um malabarismo retórico que transforma "não" e "sim" em "sinônimos", mais confundindo do que esclarecendo as coisas.
Além disso, é muito vago e abstrato pregar para a pessoa "vencer a si mesma". A vida é tão complexa que isso simplesmente é inútil e conselhos assim são pura perda de tempo. E, se a religião se apoia na Teologia do Sofrimento, que é o caso do "movimento espírita", o mito do "inimigo de si mesmo" acaba sendo trabalhado como uma criminalização da individualidade humana.
É muito perigoso defender esse mito. Isso acaba criando o auto-ódio, a auto-repulsa, porque a ênfase no "combate a si mesmo", com toda a enrolação das desculpas verossímeis, inviabiliza ou torna difícil ao sofredor admitir qualquer chance de recuperar a auto-estima e o amor-próprio.
Se o indivíduo é "seu inimigo", como ele poderá "amá-lo"? "Amai os vossos inimigos"? Quantos passeios retóricos em que nunca se chega ao caminho da coerência mas é feito de tudo, pelo desfile engenhoso das palavras bonitas, para que se tenha a falsa impressão de que a coerência foi finalmente conquistada.
Afinal, não se sabe se o sofredor, sofrendo, é beneficiado, ou se, beneficiado, estará sofrendo, ou se seu inimigo é ele mesmo ou seu algoz, se seu algoz é seu amigo, se o sofredor deve agradecer a Deus pela desgraça obtida ou pela oportunidade de progresso perdida etc. Nada fica claro, tudo vira um engodo sem sentido, cujo único sentido é a beleza das palavras que soam com água com açúcar nos corações de muitas pessoas.
Há um grande perigo em dar um sentido "filosófico" à ideia do "inimigo de si mesmo". Até porque, se ele parte para uma contradição no qual o indivíduo tanto é convidado a se amar e valorizar quanto a ser combatido como sendo um pior inimigo, então não existe verdade. São contradições sérias que dão uma sensação imediata de indecisão e incoerência.
Não há como os religiosos correrem e explicarem "não é bem assim". Até porque eles lançarão mão de juízos de valor e de um desfile pomposo de palavras bonitas e organizadas, que só servem para vender livros de auto-ajuda ou de conteúdo religioso.
A primeira sensação é que fica e o choque que o indivíduo tem diante da ideia de que ele é seu pior inimigo torna-se muito sério para que o indivíduo depois possa desenvolver um amor-próprio. Além disso, nos casos do suicídio, então, como o suicida nada tem a perder diante do juízo de valor alheio, porque ele já está perdido, tanto faz se ele é considerado carrasco de si mesmo.
O problema maior é o próprio moralismo religioso por trás do mito do "inimigo de si mesmo", uma ideia tão abstrata que os religiosos acabam usando para condenar a individualidade, para fazer o indivíduo não necessariamente viver melhor numa coletividade, mas ser apenas "mais um no rebanho".
Não se pode ver sabedoria neste mito. Ele só serve para dar um "tom poético" ao moralismo religioso, travesti-lo de falsa filosofia e deslumbrar as pessoas com um discurso hipnótico e envolvente. E serve, acima de tudo, para as vaidades dos pregadores religiosos, artífices das belas palavras, mas inimigos da lógica e do bom senso e, por conseguinte, da verdadeira Filosofia.
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
Globo pode ter usado atriz em competição religiosa contra Record
CAMILA PITANGA E A FUNCIONÁRIA DA CASA ONDE O "MÉDIUM" JOÃO DE DEUS ATUA, EM ABADIÂNIA, GOIÁS.
Para quem está apegado às paixões religiosas é tudo natural e saudável. Mas causa estranheza o fato de Camila Pitanga ter ido a um "centro espírita" para apenas agradecer o fato de não ter sofrido o mesmo acidente que matou seu amigo e colega Domingos Montagner, seu par romântico na novela Velho Chico, que se encerrou há algumas semanas.
Ateia e esquerdista, Camila não precisava recorrer ao "médium" João Teixeira de Faria, o João de Deus, para agradecer. E ainda assim gastar dinheiro com viagem, ela e o pai, o veterano ator Antônio Pitanga. para ir à Abadiânia Goiás, só para isso.
A atriz poderia ter ficado em casa, agradecido no íntimo de sua vida particular, sem qualquer tipo de alarde. Teria sido muito mais saudável e, acima de tudo, louvável. E a escolha de recorrer a João de Deus pode ter vindo de outro alguém porque Camila, por si só, não iria espontaneamente recorrer para onde recorreu.
A novela Velho Chico teve um ator "espírita", Carlos Vereza, que entrou para fazer um outro padre, depois que o ator Umberto Magnani, que fazia um padre, faleceu vítima de acidente vascular cerebral. Vereza é conhecido por ter feito o médico "espírita" Adolfo Bezerra de Menezes no cinema.
Para quem está apegado às paixões religiosas é tudo natural e saudável. Mas causa estranheza o fato de Camila Pitanga ter ido a um "centro espírita" para apenas agradecer o fato de não ter sofrido o mesmo acidente que matou seu amigo e colega Domingos Montagner, seu par romântico na novela Velho Chico, que se encerrou há algumas semanas.
Ateia e esquerdista, Camila não precisava recorrer ao "médium" João Teixeira de Faria, o João de Deus, para agradecer. E ainda assim gastar dinheiro com viagem, ela e o pai, o veterano ator Antônio Pitanga. para ir à Abadiânia Goiás, só para isso.
A atriz poderia ter ficado em casa, agradecido no íntimo de sua vida particular, sem qualquer tipo de alarde. Teria sido muito mais saudável e, acima de tudo, louvável. E a escolha de recorrer a João de Deus pode ter vindo de outro alguém porque Camila, por si só, não iria espontaneamente recorrer para onde recorreu.
A novela Velho Chico teve um ator "espírita", Carlos Vereza, que entrou para fazer um outro padre, depois que o ator Umberto Magnani, que fazia um padre, faleceu vítima de acidente vascular cerebral. Vereza é conhecido por ter feito o médico "espírita" Adolfo Bezerra de Menezes no cinema.
ALIADA DA REDE GLOBO, A REVISTA VEJA TAMBÉM PARTICIPA DA COMPETIÇÃO RELIGIOSA ENTRE "MOVIMENTO ESPÍRITA" E A IGREJA UNIVERSAL.
Isso poderia ser coincidência, mas Carlos Vereza também está a serviço do poder midiático. De tendência ideológica oposta a de Camila - esta é enteada de uma parlamentar do Partido dos Trabalhadores, enquanto Vereza é anti-petista radical - , o ator também é membro do Instituto Millenium, instituição que aglutina o que há de mais retrógrado na mídia brasileira.
O Instituto Millenium, surgido há cerca de 15 anos, revelou figuras como Rodrigo Constantino e Guilherme Fiúza, que estão entre alguns dos mais reacionários escritores do país. Outros reacionários, como Reinaldo Azevedo, o dono da Folha de São Paulo, Otávio Frias Filho, e Carlos Alberto di Franco (membro da mesma neo-medieval Opus Dei, que tem o governador paulista, o tucano Geraldo Alckmin, como filiado), também integram o "instituto".
Não é segredo algum que o "espiritismo" virou a religião da Rede Globo. De formação católica, a Globo vê no "espiritismo" uma espécie de "catolicismo à paisana", aproveitando as deturpações que a doutrina da FEB, de raiz roustanguista, desenvolveu ao longo do tempo.
Sabe-se que a atual postura dúbia do "movimento espírita", a de bajular Allan Kardec e simular cientificismo mas praticar o igrejismo mais entusiasmado, um "roustanguismo sem Roustaing e com Kardec", fez a religião popularizada por Francisco Cândido Xavier se tornar, praticamente, um catolicismo ao mesmo tempo ultraconservador e discreto, uma religião que pode se passar por um movimento espiritualista "sem compromissos".
Isso é ótimo para a competição midiático-religiosa que a Rede Globo trava contra os movimentos neopentecostais desde o final da década de 1970. Para enfrentar R. R. Soares - que arrendou programas em diversos canais, sobretudo a TV Bandeirantes - e, principalmente, Edir Macedo (que no alvorecer dos anos 90 adquiriu a Rede Record), a Globo ajudou a reciclar o mito de Chico Xavier.
Foi aí que o mito de Chico Xavier, antes trabalhado de forma confusa e "crua" pela FEB, o que não impedia a ocorrência de escândalos como as famosas polêmicas com críticos literários, passou a ser explorado de maneira limpa, como uma propaganda publicitária bastante habilidosa e muitíssimo bem planejada.
A Globo tomou como fonte de inspiração o documentário Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God), que o jornalista católico britânico Malcolm Muggeridge produziu, escreveu e apresentou sobre Madre Teresa de Calcutá. O documentário criou os paradigmas hoje consagrados de mito religioso e dos estereótipos de caridade que mais deslumbram do que ajudam. Uma caridade que serve mais como conto-de-fadas do que para o progresso da humanidade.
Daí o mesmo roteiro encenado por Madre Teresa e Chico Xavier: acolhidos pela multidão ao chegar a uma "casa de caridade", abraçando pessoas pobres, acolhendo velhinhos doentes, carregando bebês no colo, ver crianças humildes tomando sopinha e dando entrevistas usando frases de efeito sobre os valores da Teologia do Sofrimento, corrente católica medieval que fazia apologia das desgraças humanas como "caminho mais rápido" de "purificação espiritual".
Era ótimo, para a Globo, usar um "espírita", e não um católico assumido, para enfrentar os "bispos" neopentecostais porque a competição religiosa se torna mais implícita. Há quem não considere o "movimento espírita" brasileiro como uma religião, mas como um "movimento espiritualista" ou mesmo como "filosofia" e "ciência" e isso cria um verniz "descompromissado" para a Globo passar a perna nos pastores eletrônicos da concorrente.
O "espiritismo" brasileiro é uma religião conservadora, uma reciclagem de dissidências católicas jesuítas que foram passadas para trás pela própria Igreja Católica. Embora os "espíritas" façam de tudo para manter o falso vínculo com Allan Kardec, o "espiritismo" brasileiro deixa claras as suas raízes jesuítas medievais, enquanto o pedagogo francês desenvolveu o Espiritismo original impulsionado por ideais iluministas.
A grande mídia, ultraconservadora, que retomou o poder depois da campanha difamatória que ajudou a tirar Dilma Rousseff do poder, apoia o "espiritismo", que também tem exemplos de reacionarismo explícito, como a entrevista do programa Pinga-Fogo, da TV Tupi de São Paulo, em 1971, em que Chico Xavier diz, com todas as suas palavras, que defendia a ditadura militar (que vivia então sua pior fase) e esculhambava pessoas humildades, como operários e camponeses.
Recentemente, o "médium" Robson Pinheiro criou uma série de livros que não fariam feio se fossem publicados aos poucos, como os velhos folhetins, na revista Veja, famosa pelo seu reacionarismo extremamente doentio. Obras como O Partido: Projeto Criminoso de Poder e A Quadrilha: O Foro de São Paulo, representam a "urubologia do além-túmulo" na medida em que tentam justificar interpretações anti-esquerdistas a supostos planos espirituais.
O próprio João de Deus foi blindado pela revista Veja, já que o tratamento de câncer do suposto médium curandeirista foi capa de uma de suas edições. A escolha de João por usar médicos da Terra para o tratamento foi criticada duramente, mas o "médium" tentou argumentar fazendo a seguinte pergunta: "Barbeiro corta o próprio cabelo?".
Só que a História registra que, em situações bem mais graves, o jovem médico russo Leonid Rogozov, que atuava na Antártica, sofrendo de uma grave apendicite, teve que realizar, nos anos 60, sua própria cirurgia, já que não poderia chamar uma equipe médica que demoraria a chegar ao Polo Sul e também não poderia viajar, porque as variações climáticas poderiam fazer o apêndice se explodir e matar o enfermo.
Então Rogozov só precisou de alguns assistentes de sua equipe para lhe passarem os equipamentos, mas toda a cirurgia foi feita pelo próprio enfermo, numa situação difícil e delicada. A operação foi um grande sucesso e o médico se recuperou em duas semanas, voltando a trabalhar normalmente em seguida. Rogozov só faleceu décadas mais tarde, pelos efeitos naturais da velhice.
Vergonha para João de Deus, que tinha situações mais cômodas para fazer uma auto-cirurgia. Mesmo assim, a desculpa colou. E a Globo usou uma atriz de grande carisma e alta visibilidade, como Camila Pitanga, para fazer a propaganda do "espiritismo" como um meio de neutralizar a influência da Igreja Universal do Reino de Deus.
Daí a comparação de duas capas da mídia associada, como a revista Veja que fornece "pautas" para o Jornal Nacional, numa comunhão de interesses entre as Organizações Globo e o Grupo Abril. Tanto Globo e Abril estão preocupados com a vitória eleitoral do "bispo" Marcelo Crivella para a prefeitura do Rio de Janeiro e resolveram explorar o factoide de 1990, quando Crivella apenas se envolveu numa confusão menor diante das obras de uma igreja da IURD no Rio de Janeiro.
A capa de Veja sugere que Crivella teria cometido um "crime", com aquelas fotos típicas de identificação criminal. e dava como manchete apenas as fotos que o "bispo" havia "escondido há 26 anos" sem dar detalhes sobre o episódio muito mal esclarecido. Pouco tempo atrás, a revista dramatizava o câncer de João de Deus, para evitar desconfianças sobre sua "mediunidade" ao recorrer à medicina terrestre para curar de uma grave doença.
Embora em muitos aspectos "espíritas" e neopentecostais se afinem em interesses, como a condenação ao aborto até em casos de estupro ou doença da gestante e a Escola Sem Partido - cujo programa ideológico aparece nas obras de Emmanuel e é adotado até na Mansão do Caminho de Divaldo Franco - , as duas facções religiosas estabelecem uma competição acirrada para ver quem derruba a Igreja Católica na supremacia da fé no Brasil.
Embora a Rede Record tenha feito crescer a influência dos evangélicos no Brasil, o "espiritismo" é que conta com maior blindagem nos meios jurídicos, entre as celebridades e nos setores de classe média alta da sociedade brasileira.
Os evangélicos detém maior número de fiéis, mas não conseguem esconder vários escândalos. Já os "espíritas", mesmo com baixa popularidade de dois por cento da população brasileira, conseguem se livrar de escândalos e gozam de uma reputação aparentemente inabalável.
O fato dos "espíritas" tentarem cooptar os ateus - vistos como "virgens da crença em Deus" - é uma forma de aglutinar fiéis e concorrer com os neopentecostais na busca pela supremacia religiosa. E Camila Pitanga, pelo seu carisma e popularidade, tornou-se, sem querer, uma garota-propaganda do "espiritismo da Globo" para enfrentar a Igreja Universal e suas novelas bíblicas.
terça-feira, 25 de outubro de 2016
Pioneiro dos 'fakes', Chico Xavier é endeusado nas redes sociais
Pioneiro dos fakes, Chico Xavier só poderia ser idolatrado nas redes sociais. É assustadora a adesão de chiquistas no YouTube e no Facebook, criando redutos de fundamentalismo religioso e deslumbramento cego que atingem níveis preocupantes.
É bom deixar claro que a suposta psicografia de Francisco Cândido Xavier consiste numa fraude por uma simples questão de observação. Afinal, nas suas obras tidas como "mediúnicas", observam-se graves irregularidades que destoam severamente dos aspectos pessoais dos falecidos, desde o estilo de escrita até a caligrafia da assinatura.
Semelhanças não justificam autenticidade, por si. Afinal, se existem cem semelhanças e, no entanto, uma única diferença contradiz a natureza pessoal do alegado espírito, não há como legitimar porque se trata de uma farsa. Como num produto pirata, por exemplo.
Daí que só mesmo o deslumbramento religioso alimentado por uma engenhosa campanha de marketing de Antônio Wantuil de Freitas e, depois, da parceria da FEB com a Rede Globo de Televisão, Chico Xavier pôde estar associado, tendenciosamente, à ideia de "bondade máxima" e "perfeição espiritual", virtudes facilmente questionáveis se observarmos os bastidores de suas atividades.
Tudo isso foi um discurso construído, manipulado, devido ao fato de que o Brasil possui uma emotividade religiosa forte, mesmo que ela se revele abertamente piegas, ultraconservadora e, outrossim, reacionária. Pois os defensores de Chico Xavier nas redes sociais se revelam altamente reacionários.
Isso influi pelo fato de que nas redes sociais o reacionarismo cresceu de forma a fazer campanha contra o governo Dilma Rousseff e permitir o retrógrado governo de Michel Temer que abrirá caminho, provavelmente, a um futuro governante do traiçoeiro PSDB, responsável por grandes desvios de dinheiro público para os cofres tucanos localizados em "paraísos fiscais" no exterior.
Os reacionários das redes sociais, chamados de "midiotas" ("midiota" é um neologismo que mistura as palavras "mídia" e "idiota"), demonstram ser pessoas subservientes com o status quo, seja ele político, acadêmico, econômico, empresarial, lúdico (fama), tecnocrático e midiático.
Eles possuem um perfil conservador que revela valores machistas, racistas e de outros preconceitos sociais. Um exemplo é defender que nerds (tipo de jovens de baixo status social) devem namorar somente mulheres siliconadas. A roupagem moderna da linguagem e do visual, além de um apetite "punk" de reagir às críticas não os faz menos reacionários, em níveis ideológicos medievais.
Vários desses reacionários usam fakes para empastelar fóruns na Internet, desmoralizar petições de abaixo-assinados, humilhar vítimas em seus perfis sociais, haquear e até criar blogues ofensivos. Uns apenas restringem seu reacionarismo a uma ação furiosa de humilhação. Outros já partem para outros crimes, como os de difamação e calúnia, entre outros crimes praticados nas redes digitais.
Os chiquistas ficam apenas na ação furiosa, mas não são raros aqueles que chegam a ameaçar e caluniar os discordantes, ou mesmo usar de ironia com palavras falsamente dóceis. Diante de um internauta que criticou o superficialismo e a pieguice das músicas "espíritas", um fundamentalista disparou: "a música do Kardec (sic) é tão doce".
Há até o famoso contraste, movido pela ilusão das aparências, entre Chico Xavier cegamente endeusado e o ex-presidente Lula cegamente hostilizado. Iludidos com a aparência do "velhinho frágil" de um e do "proletário robusto" de outro, usam das atribuições artificiais das aparências para adotar sentimentos extremados dotados de muito juízo de valor e inúmeras fantasias.
É só observar as coisas. No YouTube, existem vídeos que mostram Lula como um "grosseirão", como um "cometedor de gafes", como um "líder mafioso" e existe até um vídeo supondo que ele "ameaçou de morte" o juiz Sérgio Moro, da Operação Lava Jato. Um monte de mentiras do mal e calúnias gratuitas, publicadas impunemente no portal de vídeos.
No mesmo portal, Chico Xavier é alvo de "mentiras do bem". Há o vídeo que de forma debiloide usa um sonho de 1969 para confirmar como "profecia" relatos de militares dos EUA que viram naves extra-terrestres anos antes, em 1964 e 1967. Uma "profecia" que "confirma" o que ocorreu antes dela!!
Mas isso é só um detalhe. A "profecia" da "data-limite" cria uma multitude de vídeos no YouTube, uma série de entrevistas que são pura perda de tempo, divagações pseudo-científicas a partir de um sonho comum, que qualquer um tem quando dorme, mas em se tratando de Chico Xavier vale a sua carteirada de ter seu devaneio onírico promovido a "profecia científica", para delírio dos incautos.
São tolices que crescem como bolas de neve, com falsas análises científicas e falsas abordagens filosóficas, criando um engodo discursivo pseudo-intelectualizado que faz com que Chico Xavier tenha uma falsa superioridade em tudo, praticamente sendo promovido a "dono da verdade absoluta" sob a aceitação bovina de seus seguidores.
Isso é muito grave e faz com que as redes sociais, antes tidas como redutos de esclarecimento e revolução social, se reduzirem a antros de fundamentalismo religioso e reacionarismo de toda espécie. Isso é muito nocivo, na medida em que as novas tecnologias se tornam instrumento do mais puro obscurantismo ideológico.
domingo, 23 de outubro de 2016
Dinheiro, leis e influência: o que os conservadores precisam para se manterem
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL (STF), REDE GLOBO E FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL (FMI) - Tudo o que os conservadores precisam para prevalecer na sociedade.
Por que os valores conservadores prevalecem? Por que a plutocracia não conhece infortúnios nem limitações pesadas, o que permite que religiosos que expressam os interesses elitistas sempre recomendem aos sofredores sofrerem mais e aos algozes o fiado moral que só trará sua conta em outras encarnações? Por que as elites retrógradas tentam resistir ao tempo e, quando perdem o poder, o retomam à força, mas favorecidas pelas circunstâncias?
O Brasil vive uma retomada conservadora que era impensável cinco anos atrás. Uma volta ao obscurantismo, que nas eleições para prefeito e vereador no Brasil se destacam com a vitória, no primeiro turno, do empresário João Dória Jr. para a Prefeitura de São Paulo, e de Carlos Bolsonaro, filho do ultradireitista Jair Bolsonaro, para vereador no Rio de Janeiro.
É um processo muito perigoso, porque os retrocessos sociais já estão em jogo, num país que ainda não teve as antigas feridas da ditadura militar cicatrizadas. Um país que até aceitou um cenário político mais progressista, em 2003, mas condicionado com alianças conservadoras, repetindo o hábito de acolher parcialmente o novo sem que haja ruptura com o que é velho e obsoleto.
É um terrível cacoete que existe no Brasil. Sempre que existe uma coisa inovadora, seja ela vinda de fora ou aqui implantada por gente idealista, essa novidade é deturpada de forma que se adeque aos padrões decadentes e obsoletos da tendência mais antiga. Essa tendência não é totalmente superada, sua essência está toda inserida, não necessariamente de maneira explícita, na novidade que é acolhida.
Sempre houve o acordo entre o mofo e o fungicida. O fungicida tem que agir de preferência fora do local do mofo. O cheiro de mofo tem que permanecer, ainda que de forma mais sutil. É um hábito que forças retrógradas de algum setor sempre imponham condições para uma novidade ser introduzida, sacrificando sua essência e seu poder de impacto.
No "espiritismo", isso ocorreu. A novidade de Allan Kardec foi praticamente reduzida a uma mera formalidade, quando a deturpação de Jean Baptiste Roustaing recebeu a preferência no "movimento espírita", já que as ideias de Os Quatro Evangelhos condiziam mais com a formação católica dos fundadores "espíritas" brasileiros, que se fundamentou no Catolicismo medieval trazido pelos jesuítas portugueses.
Em outras palavras, o "espiritismo" que se construiu no Brasil quase nada tem da formação iluminista do pedagogo de Lyon e seu cientificismo aberto para debates. Em vez disso, o "espiritismo" brasileiro se limitou a acolher dissidências católicas assim que o Catolicismo mundial adaptou-se às mudanças do tempo, como o crescimento das zonas urbanas e as descobertas tecnológicas.
As mudanças desagradaram os católicos que permaneceram nas suas concepções medievais, sob influência do velho Catolicismo português que foi introduzido no Brasil através da Companhia de Jesus, cujos missionários incluíram a figura do padre Manuel da Nóbrega, que o "movimento espírita" adotou, através de Francisco Cândido Xavier, sob o codinome de Emmanuel.
A frustração em relação ao cancelamento das missões da Companhia de Jesus no Brasil foi compensada quando o "espiritismo", inicialmente com um roustanguismo mais explícito - hoje ele é dissimulado - , passou a acolher espíritos de jesuítas, através do exemplo do "mentor" de Chico Xavier.
Como é de praxe, o "novo" que se condiciona pelos postulados velhos e obsoletos (mas estranhamente considerados "de muita serventia") sempre se impõe como sendo "novo", como uma casa de fachada nova que, escondendo uma construção velha e quase ruinosa, tem que se impor sempre como uma "casa nova".
E isso é que sustentou o "espiritismo", que, mesmo na sua fase recente, a tendência dúbia, que tenta caprichar no aparato de "espiritismo autêntico", bajulando Allan Kardec, usurpando Erasto e adulando personalidades científicas, pratica um igrejismo medieval entusiasmado, em muitos momentos piegas e com um misticismo acima da medida.
E por que o "espiritismo", como outras tendências conservadoras travestidas de "novas", sempre prevalecem e tentam resistir a questionamentos e oposições diversas? Com certeza, não é por méritos naturais, mas por condições que o Brasil tem de fazer prevalecer valores antiquados que, depois de uma fase progressista, voltam com apetite redobrado através do governo retrógrado de Michel Temer.
O que existe são os três pilares que a sociedade conservadora, no Brasil, possui para manter a prevalência de seus mitos, dogmas e práticas. São três recursos que fazem com que mesmo valores aberrantes e práticas escandalosas, quando associados a setores dominantes, são socialmente aceitos. Eles são:
1) DINHEIRO - Com o dinheiro, o poder das classes dominantes se recicla e consegue contornar crises e impasses, sobretudo porque uma boa grana garante prestígio e supremacia, além de garantir a atenuação das condenações criminais diversas. É também sinônimo de sucesso e mérito, bem mais do que as virtudes morais.
2) LEIS - O artifício legal socializa os abusos cometidos pelas classes dominantes, e não apenas as leis do papel, a roupagem legislativa e jurídica que conhecemos, mas também as normas sociais, mesmo as mais implícitas. Ela regula os costumes que fazem com que até quem está no lado de baixo da pirâmide social procure agir da melhor forma possível para favorecer os interesses dominantes e os valores mais conservadores.
3) INFLUÊNCIA - Muitas das "leis" sociais são propagadas, consolidadas e mantidas pela mídia, de forma sutil e até mesmo inconsciente. Isso vem pela própria prática cotidiana, pelo modo conservador de ver o mundo que cria "tradições" que veículos dominantes de comunicação transmitem para o público. É a grande mídia que lança dogmas e totens que a sociedade deve apoiar, e protege ídolos que podem não ter talento nem outros méritos naturais, mas que servem aos interesses estratégicos de entretenimento, política e outros setores das atividades humanas.
Diante disso, foi até fácil a retomada do poder pelas forças conservadoras. No âmbito do dinheiro, as classes dominantes financiaram um ativismo de fachada, feito por grupos pateticamente reacionários como Movimento Brasil Livre e Revoltados On Line, líderes do que o "movimento espírita", de forma constrangedora, definiu como "começo da regeneração da humanidade" e "início do caminho de libertação do Brasil".
No âmbito das leis, a corrupção de setores do Supremo Tribunal Federal e do Ministério Público fazem com que o uso da legislação se torne parcial, tendencioso e feito ao sabor das conveniências, nem sempre favorecendo o interesse público e levando ao grau extremo a impunidade que os criminosos de colarinho branco já recebiam nos tempos da ditadura militar.
No âmbito da mídia, a Rede Globo e outros veículos, como Folha de São Paulo e a panfletária revista Veja, servem para influenciar a população no seu reacionarismo, embora até programas policialescos como Cidade Alerta (Record) e Brasil Urgente (Band) incitam o ódio com a glamourização da violência e tabloides como o carioca Meia Hora ofereçam ao público doses de sensacionalismo barato e de todo tipo de valor grotesco e aberrante.
São esses três elementos que sustentam a sociedade conservadora que se enriquece às custas do subdesenvolvimento do Brasil. É essa pequena parcela da população brasileira, beneficiada pelos ventos políticos dos últimos cinco meses, que se sente privilegiada com a postura subalterna e ainda miserável que o Brasil se mantém na comunidade das nações, com graves injustiças sociais que o "sistema" não quer que sejam combatidas de verdade. As elites ganham muito com elas.
Por que os valores conservadores prevalecem? Por que a plutocracia não conhece infortúnios nem limitações pesadas, o que permite que religiosos que expressam os interesses elitistas sempre recomendem aos sofredores sofrerem mais e aos algozes o fiado moral que só trará sua conta em outras encarnações? Por que as elites retrógradas tentam resistir ao tempo e, quando perdem o poder, o retomam à força, mas favorecidas pelas circunstâncias?
O Brasil vive uma retomada conservadora que era impensável cinco anos atrás. Uma volta ao obscurantismo, que nas eleições para prefeito e vereador no Brasil se destacam com a vitória, no primeiro turno, do empresário João Dória Jr. para a Prefeitura de São Paulo, e de Carlos Bolsonaro, filho do ultradireitista Jair Bolsonaro, para vereador no Rio de Janeiro.
É um processo muito perigoso, porque os retrocessos sociais já estão em jogo, num país que ainda não teve as antigas feridas da ditadura militar cicatrizadas. Um país que até aceitou um cenário político mais progressista, em 2003, mas condicionado com alianças conservadoras, repetindo o hábito de acolher parcialmente o novo sem que haja ruptura com o que é velho e obsoleto.
É um terrível cacoete que existe no Brasil. Sempre que existe uma coisa inovadora, seja ela vinda de fora ou aqui implantada por gente idealista, essa novidade é deturpada de forma que se adeque aos padrões decadentes e obsoletos da tendência mais antiga. Essa tendência não é totalmente superada, sua essência está toda inserida, não necessariamente de maneira explícita, na novidade que é acolhida.
Sempre houve o acordo entre o mofo e o fungicida. O fungicida tem que agir de preferência fora do local do mofo. O cheiro de mofo tem que permanecer, ainda que de forma mais sutil. É um hábito que forças retrógradas de algum setor sempre imponham condições para uma novidade ser introduzida, sacrificando sua essência e seu poder de impacto.
No "espiritismo", isso ocorreu. A novidade de Allan Kardec foi praticamente reduzida a uma mera formalidade, quando a deturpação de Jean Baptiste Roustaing recebeu a preferência no "movimento espírita", já que as ideias de Os Quatro Evangelhos condiziam mais com a formação católica dos fundadores "espíritas" brasileiros, que se fundamentou no Catolicismo medieval trazido pelos jesuítas portugueses.
Em outras palavras, o "espiritismo" que se construiu no Brasil quase nada tem da formação iluminista do pedagogo de Lyon e seu cientificismo aberto para debates. Em vez disso, o "espiritismo" brasileiro se limitou a acolher dissidências católicas assim que o Catolicismo mundial adaptou-se às mudanças do tempo, como o crescimento das zonas urbanas e as descobertas tecnológicas.
As mudanças desagradaram os católicos que permaneceram nas suas concepções medievais, sob influência do velho Catolicismo português que foi introduzido no Brasil através da Companhia de Jesus, cujos missionários incluíram a figura do padre Manuel da Nóbrega, que o "movimento espírita" adotou, através de Francisco Cândido Xavier, sob o codinome de Emmanuel.
A frustração em relação ao cancelamento das missões da Companhia de Jesus no Brasil foi compensada quando o "espiritismo", inicialmente com um roustanguismo mais explícito - hoje ele é dissimulado - , passou a acolher espíritos de jesuítas, através do exemplo do "mentor" de Chico Xavier.
Como é de praxe, o "novo" que se condiciona pelos postulados velhos e obsoletos (mas estranhamente considerados "de muita serventia") sempre se impõe como sendo "novo", como uma casa de fachada nova que, escondendo uma construção velha e quase ruinosa, tem que se impor sempre como uma "casa nova".
E isso é que sustentou o "espiritismo", que, mesmo na sua fase recente, a tendência dúbia, que tenta caprichar no aparato de "espiritismo autêntico", bajulando Allan Kardec, usurpando Erasto e adulando personalidades científicas, pratica um igrejismo medieval entusiasmado, em muitos momentos piegas e com um misticismo acima da medida.
E por que o "espiritismo", como outras tendências conservadoras travestidas de "novas", sempre prevalecem e tentam resistir a questionamentos e oposições diversas? Com certeza, não é por méritos naturais, mas por condições que o Brasil tem de fazer prevalecer valores antiquados que, depois de uma fase progressista, voltam com apetite redobrado através do governo retrógrado de Michel Temer.
O que existe são os três pilares que a sociedade conservadora, no Brasil, possui para manter a prevalência de seus mitos, dogmas e práticas. São três recursos que fazem com que mesmo valores aberrantes e práticas escandalosas, quando associados a setores dominantes, são socialmente aceitos. Eles são:
1) DINHEIRO - Com o dinheiro, o poder das classes dominantes se recicla e consegue contornar crises e impasses, sobretudo porque uma boa grana garante prestígio e supremacia, além de garantir a atenuação das condenações criminais diversas. É também sinônimo de sucesso e mérito, bem mais do que as virtudes morais.
2) LEIS - O artifício legal socializa os abusos cometidos pelas classes dominantes, e não apenas as leis do papel, a roupagem legislativa e jurídica que conhecemos, mas também as normas sociais, mesmo as mais implícitas. Ela regula os costumes que fazem com que até quem está no lado de baixo da pirâmide social procure agir da melhor forma possível para favorecer os interesses dominantes e os valores mais conservadores.
3) INFLUÊNCIA - Muitas das "leis" sociais são propagadas, consolidadas e mantidas pela mídia, de forma sutil e até mesmo inconsciente. Isso vem pela própria prática cotidiana, pelo modo conservador de ver o mundo que cria "tradições" que veículos dominantes de comunicação transmitem para o público. É a grande mídia que lança dogmas e totens que a sociedade deve apoiar, e protege ídolos que podem não ter talento nem outros méritos naturais, mas que servem aos interesses estratégicos de entretenimento, política e outros setores das atividades humanas.
Diante disso, foi até fácil a retomada do poder pelas forças conservadoras. No âmbito do dinheiro, as classes dominantes financiaram um ativismo de fachada, feito por grupos pateticamente reacionários como Movimento Brasil Livre e Revoltados On Line, líderes do que o "movimento espírita", de forma constrangedora, definiu como "começo da regeneração da humanidade" e "início do caminho de libertação do Brasil".
No âmbito das leis, a corrupção de setores do Supremo Tribunal Federal e do Ministério Público fazem com que o uso da legislação se torne parcial, tendencioso e feito ao sabor das conveniências, nem sempre favorecendo o interesse público e levando ao grau extremo a impunidade que os criminosos de colarinho branco já recebiam nos tempos da ditadura militar.
No âmbito da mídia, a Rede Globo e outros veículos, como Folha de São Paulo e a panfletária revista Veja, servem para influenciar a população no seu reacionarismo, embora até programas policialescos como Cidade Alerta (Record) e Brasil Urgente (Band) incitam o ódio com a glamourização da violência e tabloides como o carioca Meia Hora ofereçam ao público doses de sensacionalismo barato e de todo tipo de valor grotesco e aberrante.
São esses três elementos que sustentam a sociedade conservadora que se enriquece às custas do subdesenvolvimento do Brasil. É essa pequena parcela da população brasileira, beneficiada pelos ventos políticos dos últimos cinco meses, que se sente privilegiada com a postura subalterna e ainda miserável que o Brasil se mantém na comunidade das nações, com graves injustiças sociais que o "sistema" não quer que sejam combatidas de verdade. As elites ganham muito com elas.
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