quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

As Mães de Maio, as Mães de Acari e o verdadeiro ativismo


Enquanto muitos brasileiros confortados veem suposto ativismo nas atividades de Francisco Cândido Xavier, principalmente no que se refere às mães dos entes queridos falecidos, que gerou até filme - As Mães de Chico Xavier de Glauber Filho e Helder Gomes - , outros casos de mães que perderam filhos mostra um quadro bem mais realista de ativismo e luta por direitos humanos.

No caso de Chico Xavier, as mães encaram as tragédias de seus filhos de forma quase sempre comum, geralmente pelo uso de drogas, suicídio ou mortes violentas (acidentais ou criminosas), e são expostas à exploração sensacionalista das "cartas mediúnicas" das quais há dúvidas se foram realmente escritas ou ditadas (os "espíritas" se enrolam quando não conseguem dizer se as psicografias foram escritas ou ditadas por um falecido).

Nada que lembre um ativismo social de verdade, até porque as "psicografias" não trouxeram benefícios reais às famílias, expuseram suas tragédias de forma levianamente prolongada e causou até desavenças familiares sem necessidade.

Quando comparadas com outras tragédias, de cunho político, observa-se uma grande diferença, que são os casos das mães da Praça de Maio (Plaza de Mayo), na Argentina, e as mães das vítimas da Chacina de Acari, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

As Mães de Maio são as mães de desaparecidos de toda forma durante o período da ditadura militar na Argentina, entre 1976 e 1983. Tanto podiam ser os desaparecidos políticos, assassinados e com seus cadáveres escondidos pelas forças da repressão, como as crianças filhas de presos políticos que eram tiradas de suas famílias de origem para serem adotadas por famílias de militares e outros associados ao regime.

O nome se refere a uma das principais praças de Buenos Aires, ponto de partida para manifestações contra o extravio de filhos de prisioneiros políticos e também do desaparecimento de muitos destes durante o chamado "Processo de Reogranização Nacional", como se chamava a ditadura argentina. Os protestos chamaram muita atenção do mundo e renderam livros e documentários.

As Mães de Acari, por sua vez, correspondem às mães de um grupo de jovens, moradores da favela de Acari - situada no entorno entre os cruzamentos da Av. Brasil e da Via Dutra, no bairro homônimo vizinho à Pavuna - , no subúrbio carioca, que haviam sido sequestrados por policiais em 1990 e até hoje desaparecidos.

Foi em 26 de julho de 1990. Onze amigos, dos quais sete menores de idade, estavam passando alguns dias em um sítio no bairro de Suruí, em Magé, na Baixada Fluminense, quando um grupo de homens que se anunciavam como policiais os sequestraram, pedindo dinheiro e joias. Os onze detidos nunca tiveram seus corpos encontrados.

As mães das vítimas passaram a se manifestar pedindo punição aos policiais. Elas também davam depoimentos nas delegacias para dar informações sobre o crime. Algumas dessas mães foram depois assassinadas em circunstâncias misteriosas, dando forte indício de "queima de arquivo", diante desse episódio que ilustra o problema da violência policial crônico nas grandes cidades.

Curiosamente, às Mães de Acari se juntaram a outras Mães de Maio, nome dado porque, em maio de 2006, a violência policial exterminou, em apenas uma semana, mais de 500 jovens pobres da cidade de São Paulo, tidos como "bandidos" apesar de não apresentarem antecedentes criminais.

As Mães de Maio brasileiras visitaram, certa vez, o Rio de Janeiro para se manifestarem ao lado das mães cariocas e, a essas alturas, já não eram mais as mães de maio, mas de todos os meses. Em 2015, cinco jovens trabalhadores e estudantes que comemoravam conquistas nessas áreas foram assassinados por policiais que os teriam aparentemente confundido com "bandidos".

É ilustrativo que, em um dos protestos das Mães de Acari, cartazes protestam contra o "esquecimento", ou seja, contra a impunidade do caso, que prescreveu em 2010 (deixou de ser crime condenável por ter completado duas décadas de ocorrência). No "espiritismo" brasileiro, costuma-se recomendar o "esquecimento", afinal as vítimas é que são "culpadas".

Daí o lado "anjo do inferno" de Chico Xavier, que sempre se voltou para o conformismo, a resignação e ao sofrimento "em silêncio". Era a ideologia do "quanto pior, melhor" aplicada à fé religiosa: aceitar as desgraças com fé e fazendo orações, de preferência calado, "esquecer" e "amar", acreditando numa bonança que geralmente só chegaria após túmulos serem tampados ou as cinzas serem jogadas em algum lugar.

Isso mostra o quanto, no lado das tragédias familiares em episódios políticos - a violência policial é um crime político, porque são homens a serviço do Estado - , o ativismo se encontra fora do âmbito religioso. Além disso, a "caridade" de Chico Xavier fez muito mal às famílias, porque expôs sem necessidade as tragédias pessoais que poderiam terem sido resolvidas na privacidade.

Já as tragédias das Mães de Maio, argentinas e brasileiras, e das Mães de Acari, têm sua razão de serem expostas de forma prolongada, por ser uma violência política e porque elas protestam para chamar a atenção da opinião pública quanto ao Estado repressivo, um problema que poucos percebem e que durante muito tempo significou impunidade para seus responsáveis.

É, portanto, um problema de direitos humanos, que cabe ser mostrado à sociedade. Não tragédias comuns e individuais, como no caso das mães atendidas por Chico Xavier e similares, que poderiam se situar no sossego da privacidade, para que os que estão vivos pudessem seguir com suas vidas particulares com um mínimo de sossego possível.

Mostrar as tragédias da violência política, portanto, era um serviço de utilidade pública para a sociedade, para denunciar crimes e clamar por justiça. Já mostrar as tragédias "espíritas" só serve para promover o "espiritismo" e seus supostos médiuns, como publicidade ostensiva que agrada muito o já perverso sensacionalismo midiático, sempre se apoiando no pitoresco e sobrenatural.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Mediunidade no Brasil é dominada pelo faz-de-conta

O MELHOR QUE A IDEIA DE MEDIUNIDADE TEM, NO BRASIL, SÃO ILUSTRAÇÕES BONITINHAS COMO ESTA. JÁ A PRÁTICA...

Infelizmente, o que se entende no Brasil como mediunidade é, em sua quase totalidade, uma grande fraude. Quase nada é feito de maneira honesta ou confiável, e dá para perceber o quanto os "espíritas" precisam promover seu "bom-mocismo" para que tais práticas, altamente duvidosas, tenham alguma "credibilidade".

A história do "movimento espírita" revela uma grave sonegação dos seus seguidores aos ensinamentos originais de Allan Kardec. A preferência à mistificação barata de Jean-Baptiste Roustaing marcou o movimento e envolveu até pessoas que depois tentaram renegar as raízes roustanguistas, inclusive Francisco Cândido Xavier.

Diante desse quadro grave, obras "substitutas" tiveram que ser feitas para evitar o cientificismo de Allan Kardec. Nos Domínios da Mediunidade, por exemplo, era um livro lançado em 1955 por Chico Xavier para desviar os brasileiros do conteúdo de O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec, que em muitas passagens inclui dados que desmascarariam os "espíritas" brasileiros.

Só bem mais tarde o "movimento espírita" passou a ter uma tendência dúbia, forjando uma tardia, tendenciosa, oportunista e falsa "fidelidade a Allan Kardec", enquanto se mantinha o habitual igrejismo de raiz roustanguista.

Mas de uma forma ou de outra os simulacros de prática dos ensinamentos kardecianos já norteavam o "movimento espírita" desde há muito tempo, e isso incluiu um pseudo-cientificismo que era adotado para dissimular ideias igrejistas e conceitos moralistas.

A partir dessa atitude dúbia, mascarando o obscurantismo da fé pelo verniz do esclarecimento científico, os "espíritas" forjaram um padrão de mediunidade que envolve um "pacote" de procedimentos que se tornaram clichês, não por serem realmente verídicos, embora se impusessem falsamente como tais, mas porque se popularizaram com o apoio da grande mídia.

Vemos o desconhecimento total do pensamento de Franz Anton Mesmer, cientista alemão que analisou o Magnetismo (base dos primeiros estudos do professor Rivail, antes deste adotar o codinome Allan Kardec), que só chega ao público brasileiro em segunda ou terceira mão, em obras de terceiros que não necessariamente compreendem com honestidade o pensamento mesmeriano.

E aí, com essa ignorância proposital e o desprezo às fontes originais, os "espíritas" criaram uma "mediunidade" de forma improvisada, como crianças que brincam de médico ou de caubói. Sem ter noção de coisa alguma, fez-se algo de qualquer jeito, sem saber. E aí a coisa se complicou, quando tais práticas começaram a se tornar populares e famosas.

E aí, o que vemos? Passes que não passam de um ato ridículo de pessoas sacudindo mãos sobre as cabeças de outras. Psicografias que são mensagens forjadas pelos "médiuns" e que refletem o estilo pessoal deles. Psicopictografias (pinturas mediúnicas) que não passam de paródias grotescas e malfeitas dos estilos de pintores falecidos. Psicofonias que são mero show de falsetes, como nas imitações feitas pelos comediantes. Materializações que na verdade consistem em modelos vestidos de roupa branca usando fotos impressas de personalidades falecidas. Cirurgias espirituais de procedimento duvidoso e feitas de forma irregular e à revelia do conhecimento científico.

E tudo isso é considerado "mediunidade verdadeira". Há, pasmem, artigos considerados "sérios" descrevendo tudo isso como se fosse "prática autêntica". A sisudez dos acadêmicos que endossam essas fraudes, aliada ao poder das instituições "espíritas" e ao estereótipo de "bondade" trazida por "médiuns-estrelas", ou anti-médiuns, como Chico Xavier e Divaldo Franco, acabam fazendo com que a "brincadeira perigosa" se propagasse e consolidasse de maneira muito preocupante.

Escândalos ligados a fraudes de materialização, denunciando práticas de ilusionismo circense, de psicografias que não refletem caraterísticas pessoais dos falecidos, de pinturas "mediúnicas" que indicam contrastes grotescos com os estilos originais dos autores alegados, são efeitos de tantas práticas fraudulentas causadas pelos "espíritas". Ou cirurgias "espirituais" cujos "médiuns" de repente são vítimas de alguma tragédia vinda do nada.

É ingênuo demais acreditar que esses escândalos e confusões acontecem porque opositores do "bondoso espiritismo" reagem com fúria insólita ao "trabalho do bem", até porque seria fútil imaginar que pessoas reagiriam a esses atos assim por nada. Ninguém se enfurece porque fulano é bom. Se enfurece porque, no caso que relatamos, são fenômenos que se tentam legitimar através de práticas que tão claramente mostram fraudes e irregularidades diversas.

No referido processo judicial do caso Humberto de Campos, os juristas se sentiram intimidados diante da figura de "caipira bonzinho" de Chico Xavier. Acharam que a ação judicial era "improcedente" e houve um empate jurídico que favoreceu o anti-médium mineiro, primeira amostra do exemplo de como posar de "bonzinho" pode convencer e seduzir muita gente.

Ninguém percebeu, naquela época, o ano de 1944, que Chico Xavier realmente cometeu uma fraude, se apropriando indevidamente do nome de Humberto de Campos, para fazer sua fraude literária. A esperteza de Xavier foi tal que ele evitou usar o nome de Machado de Assis, por ver que isso seria ir longe demais nos seus pastiches literários.

Lendo os livros do suposto espírito "Humberto de Campos" com as obras que o autor maranhense deixou em vida, nota-se claramente o disparate extremo, grotesco e preocupante, das obras aqui publicadas e da suposta "obra espiritual", em que o saudoso membro da Academia Brasileira de Letras "regressou" escrevendo como se fosse um tristonho e rebuscado padre católico.

Infelizmente, centenas de milhares de famílias acabaram seduzidas por esse ritual de faz-de-conta e muito sensacionalismo que se tornou a "mediunidade" brasileira. E, em vez de repetir o caráter discreto e quase anônimo dos médiuns autênticos que viveram no tempo de Kardec, observa-se o estrelismo associado a Chico Xavier e Divaldo Franco, que foram promovidos a arremedos de "filósofos", falsa atribuição garantida num Brasil que nunca teve grandes filósofos.

Tudo virou um espetáculo circense que ilude e engana as pessoas, mas que é tratado como se fosse uma prática séria e transparente. Infelizmente, praticamente tudo que se conhece popularmente como mediunidade é apenas faz-de-conta, simulacro, fraude, Mas as pessoas deixam passar porque tudo isso é feito sob o pretexto da "caridade".

Daí que o tema mediunidade se torna prejudicado no Brasil. Mediunidade virou uma prática desmoralizada, sem confiabilidade, se o pessoal acredita é porque há credulidade, não confiabilidade. E o desprezo aos ensinamentos de Allan Kardec é notório pelo "movimento espírita", e isso cria uma péssima escola de "médiuns", a partir dos lamentáveis casos de Zíbia Gasparetto, Chico e Divaldo, que espalharam uma prática de simulacro que hoje é tido como "verdade". Mas não é.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Allan Kardec advertiu para a dificuldade de definir o mundo espiritual

O UNIVERSO MATERIAL JÁ É UM MISTÉRIO, QUANTO MAIS O MUNDO ESPIRITUAL.

Os "espíritas" erram feio, quando tentam arriscar no "achismo" o que para eles pode ser o mundo espiritual. Visões especulativas e fantasiosas, trazidas a partir do livro Nosso Lar de Francisco Cândido Xavier, de 1943, se multiplicaram e criaram uma "visão oficial", tida como erroneamente verídica, do mundo espiritual.

A ideia de um campo florido e cheio de árvores, com um grande gramado verde, cercado de prédios imponentes que parecem um grupo de grandes edifícios cercados por um hospital que, esteticamente, mais parece um shopping center, onde pessoas vivem com pijamas brancos e existem até animais considerados dóceis (cães, gatos e pequenos pássaros), tornou-se a ideia corrente de "mundo espiritual" defendida pelos "espíritas".

Só que essa concepção de "mundo espiritual" e "vida espiritual" apresenta diversos equívocos, e isso observa quando se notam que hábitos materiais como a alimentação e o sono são adotados na famosa "colônia espiritual".

A alimentação é usada para renovar as energias do organismo, procurando evitar a fraqueza e a desnutrição. Não se está aqui falando dos excessos alimentares, porque são outra história. Já o sono é um processo de repouso para que o corpo recicle suas funções para retomar as atividades vitais.

Se o espírito não dispõe de um corpo físico, na vida espiritual, por que ele precisará se alimentar ou dormir? No caso da alimentação, há a tese de que espíritos ainda tomados de instintos materialistas tenham que "se alimentar" no além-túmulo, mas até isso é bastante discutível e duvidoso.

A verdade é que não existem estudos sérios sobre o mundo espiritual, e no tempo de Allan Kardec, era impossível até mesmo cogitar ou imaginar como seria a vida no além-túmulo, pois não havia condição alguma de se estabelecer sequer uma suposição com um mínimo de probabilidade.

Infelizmente, nenhum estudo avançou de forma que se definisse como seria o mundo espiritual. A visão especulativa já veio a partir do "velho mundo", com o livro britânico A Vida Além do Véu (The Life Beyond the Veil), lançado por George Vale Owen. O livro mais parece um arremedo de ficção científica trazido por um protestante inglês que afirmava ter "psicografado" a obra.

O livro tornou-se fonte para a elaboração de Nosso Lar, de Chico Xavier. Há uma probabilidade que a elaboração do livro brasileiro tenha contido sugestões do jovem Waldo Vieira, então um pré-adolescente, já que ele era considerado um "médium-prodígio" e eram recíprocas as admirações de Chico e Waldo nessa época, o que influiu em futuras parcerias.

Waldo Vieira era colecionador de revistas em quadrinhos e fã de ficção científica, ingrediente considerado "novo" na obra de Xavier, apesar das "inserções" das viagens à Marte dos livros Cartas de uma Morta, de 1935, atribuído à mãe do "médium", Maria João de Deus, e Novas Mensagens, de 1939, em que foi usado, de forma indevida, o nome de Humberto de Campos como crédito de autoria.

Há quem diga que as pesquisas científicas no sentido de verificar a vida espiritual estão paralisadas ou lentas. Enquanto isso, núcleos "espíritas" em universidades brasileiras diversas servem como reduto de difusão das mistificações do "movimento espírita", com todas as suas fantasias e farsas que buscam um respaldo pretensamente científico para "confirmação", o que compromete ainda mais o verdadeiro trabalho da busca do Conhecimento.

Isso piorou ainda mais as coisas. E pode trazer uma decepção enorme para quem retornar ao mundo espiritual. Imaginar que, ao morrer, o espírito será acolhido por parentes e amigos próximos, como num desembarque em algum aeroporto, e encontrará um gigantesco gramado cheio de belas flores e árvores, com passarinhos voando, gatinhos e cãezinhos correndo e até crianças brincando, é algo que irá gerar um choque quando se observar a realidade.

O "espiritismo" não pesquisa a vida espiritual, reduz a mediunidade a um faz-de-conta e limita-se a avaliar as reencarnações sob um severo juízo de valor, e, desta forma, a doutrina brasileira é totalmente incapaz de perceber o que realmente é o mundo espiritual, um grande mistério que está longe de revelar noções minimamente realistas. O além-túmulo é ainda um grosso véu para nós.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

"Catolicização" da Doutrina Espírita não é um benefício, mas um mal

SANTUÁRIO DE FÁTIMA, EM PORTUGAL - Catolicismo português forneceu as bases ideológicas do "espiritismo" brasileiro.

A "catolicização" da Doutrina Espírita feita no Brasil é vista por determinadas correntes como um aspecto "positivo". A desculpa é que o "espiritismo" brasileiro surgiu respeitando as tradições religiosas do país e, uma vez influenciado pelo catolicismo, estaria assim mantendo harmonia com os ensinamentos cristãos.

É verdade que, numa doutrina confusa como esta, nem todos admitem essa qualidade. Mesmo alguns igrejistas entusiasmados, mas dissimuladores habilidosos, incluindo certos "cavaleiros da esperança" do "movimento espírita", ou seja, palestrantes que juram "fidelidade absoluta" a Allan Kardec, tentam disfarçar o igrejismo de toda forma.

Eles chegam mesmo a fazer comentários contra a "vaticanização do espiritismo", e juram de pés juntos que não compartilham da ideia de que "existem vários espiritismos" e só acreditam num único, o de Allan Kardec.

Representantes da postura dúbia que hoje norteia (ou desnorteia?) o "movimento espírita", os festejados oradores e escrevinhadores "espíritas" tentam dar a impressão de que professam a mais absoluta fidelidade, o mais rigoroso respeito e a mais exemplar aplicação das lições e dos ensinamentos trazidos pelo pedagogo de Lyon.

No entanto, é conhecido todo o desvirtuamento doutrinário que eles mesmos cometem, e o "respeito rigoroso" vai por água abaixo até mesmo por meio dos "conceituados" Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco.

Afinal, os dois, católicos apaixonados, são os que mais cometeram aberrantes deturpações em relação ao pensamento de Allan Kardec. Analisando o conteúdo dos "pensamentos" de Chico Xavier e Divaldo Franco, eles são os que mais se perdem na rota de fuga que os afasta da Doutrina Espírita.

São eles que disseminaram todo o igrejismo, agravando o que gerações anteriores do "movimento espírita" haviam feito antes da ascensão desses dois anti-médiuns. E só fizeram reafirmar a herança que o "espiritismo" brasileiro assimilou, com gosto, do Catolicismo medieval português.

Pelo menos as primeiras gerações da Federação "Espírita" Brasileira optaram pela "catolicização" por uma questão de sobrevivência, já que o contexto social da época fazia com que a polícia perseguisse os "espíritas" por ver neles uma instituição clandestina, relacionada ao curandeirismo.

A opção católica fez o "espiritismo" brasileiro adaptar muitos procedimentos da religião do Vaticano, e há muitos e muitos exemplos: a "água benta" virou "água fluidificada", o "confessionário" virou "auxílio fraterno", a ideia do "céu e inferno" virou "plano superior e umbral", e a "evangelização" foi adaptada mantendo o mesmo nome. E por aí vai.

Com o passar dos anos, porém, veio a tendência dúbia, em que o igrejismo era dissimulado pelo pedantismo "científico", e aí vemos uma série de contradições e equívocos que o "espiritismo" faz, dizendo uma coisa e fazendo outra, ou às vezes dizendo uma coisa e dizendo outra, dependendo do contexto.

Daí que há alguns que reclamam da "vaticanização espírita", mas exaltam Chico Xavier, beijam a mão até de um José de Paiva Netto - da Legião da Boa Vontade, seita "ecumênica" de base católica e simpatizante do "espiritismo" igrejista - e louvam Madre Teresa de Calcutá. A gente pergunta de que "vaticanização" eles reclamam, já que eles aderem a ela com muito gosto.

PREJUÍZO

Cheios de contradições, o "movimento espírita" que ora condena a "vaticanização", ora acha "saudável" assimilar a influência católica, alega que a "união em Cristo" motiva as atuais posturas adotadas pelos "espíritas", sendo-lhes portanto um benefício, independente de exaltar ou acobertar as sintonias com a Santa Sé.

Mas o problema é que essa postura nada tem de benéfica, pelos diversos aspectos que se nota no "movimento espírita", uma série de contradições, omissões e mesmo farsas que influem nas energias pesadas e atrapalhadas que atingem o cotidiano do "espiritismo" brasileiro e lesam as pessoas, até mesmo de maneira trágica.

A "catolicização" da Doutrina Espírita consiste num mal porque cria-se um outro Catolicismo, mais retrógrado que o original, embora feito sob a promessa de se desenvolver uma "doutrina espiritualista de vanguarda".

Isso cria um engodo que bagunça todo o pensamento sistematizado com muito sacrifício por Allan Kardec. Ele enfrentou opositores, pagou viagens do próprio bolso para realizar estudos, analisou as coisas com muito ceticismo, até obter argumentos lógicos precisos, para tudo se reduzir a um igrejismo festivo feito a partir de deturpadores brasileiros.

A desonestidade doutrinária é a erva daninha que atinge os "espíritas", que se apoiam num malabarismo discursivo e na mania de "bom mocismo" para acobertar os vários tipos de irregularidades que cometem o tempo todo, do "alto clero" da Federação "Espírita" Brasileira aos "centros espíritas" menos conceituados, mas passando também pelos astros palestrantes, por Chico Xavier, Divaldo Franco, praticamente tudo desse "movimento".

O mal de ser uma "alternativa" ao Catolicismo, prometendo ser avançada mas aproveitando o que há de retrógrado no Catolicismo, como um moralismo que o Vaticano não adota mais, absorvendo, via Chico Xavier, a Teologia do Sofrimento que não é consenso em toda a Igreja Católica de hoje e é só defendida por uma minoria de católicos.

Em resumo, a "catolicização" da Doutrina Espírita causou vários prejuízos. Um foi desvalorizar o trabalho de Allan Kardec e desprezar suas ideias científicas. Outro é a confusão doutrinária que o "espiritismo" desenvolveu, cheio de contradições e erros grosseiros. Junto a este, há outro prejuízo, dos mais graves: a desonestidade doutrinária que finge fidelidade a Kardec mas se apoia no igrejismo mais convicto.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

O "espiritismo" condena o aborto, mas é omisso em outros crimes


O "espiritismo" brasileiro é contrário ao aborto. Alega que a prática é contrária à lei da vida e ao princípio de reencarnações, e impede o futuro bebê de iniciar uma nova encarnação e cumprir sua missão de evolução espiritual.

A ideia parece, para muitos, correta, mas há aspectos diversos que devem ser ponderados diante dessa situação. Afinal, o aborto em si não deve ser aprovado, mas há casos em que ele é permitido, sobretudo nos casos em que a gravidez ameaça a saúde da mulher ou ela é resultante de estupro.

No entanto, mesmo nesses casos os "espíritas" parecem insensíveis. Moralistas, eles veem a vida como algo qualquer nota. Dizem que valorizam a vida carnal e a vida espiritual, mas ignoram uma e outra, por vários motivos.

No caso da encarnação, os "espíritas" não conseguem entender o complexo problema das individualidades. Para eles, a vida tem que ser "qualquer nota" e pouco lhes importa se o sujeito tem uma vocação que é impedida de todo jeito de ser exercida, enquanto é empurrada para tarefas que lhe seriam não apenas desagradáveis, mas sem proveito e até perigosas.

Não há individualidade a ser considerada na moral "espírita", até porque esta doutrina costuma divulgar mensagens "espirituais" que dizem rigorosamente a mesma coisa, sendo mais propagandas igrejistas que apenas inventam que foram escritas por espíritos do além.

No caso de gravidez de alto risco, os "espíritas" não percebem este drama. Talvez lhes seja lindo o bebê nascer (no caso de sobreviver a tais ocorrências) e a mãe morrer por causa disso, e o órfão de mãe, não bastasse estar com algumas sequelas sérias (a gravidez de alto risco, se consegue fazer o bebê nascer, geralmente deixa sequelas), só conhecer a genitora postumamente, pelo relato de terceiros, sem poder conviver com ela.

Só porque Francisco Cândido Xavier perdeu a mãe quando criança, isso não quer dizer que dá para ser órfão de mãe seja fácil de aturar, porque nem todo mundo tem a concentração de Chico Xavier, católico paranormal que podia "conversar" com o espírito da mãe.

E no caso do estupro? Como para os "espíritas", pimenta nos olhos dos outros é refresco (ou Pimenta Neves na vida amorosa das outras é refresco), tanto faz a mulher ser estuprada. Ela teria sido uma cidadã do Império Romano, seja na Gália ou na Judeia, sexualmente pervertida e por isso "mereceu" tal provação.

Se ela deixar o bebê nascer e for obrigada a se casar com o estuprador, por exemplo, para a moral "espírita" tanto faz, porque para a doutrina brasileira o que vale não são os interesses humanos, mas as provações, e seus pregadores, sem entender de Ciência Espírita, ainda têm a presunção de supor que estuprador e estuprada teriam sido amantes em outra encarnação e por isso devam ficar juntos e ter o bebê.

A vida é complexa, mas a complexidade não é reconhecida pelos "espíritas". Para eles, o que vale é apenas "ser bonzinho". Aguente as desgraças, sorria, seja sempre grato ao algoz e pronto, é só esperar o além-túmulo para ir para o "paraíso" de Nosso Lar, se as pessoas se comportarem conforme o "sistema" determina.

MICROCEFALIA

A questão do aborto ganhou novo ingrediente. É a questão das doenças cerebrais. Esse é o ponto bastante controverso, que já causa barulho nos meios "espíritas", sobretudo com o problema da microcefalia consequente da infecção do vírus zyka, transmitido pelo mosquito aedes aegypti, em gestantes.

É uma polêmica interminável, pois os religiosos em geral afirmam que abortos nesse caso são inadmissíveis. e os "espíritas" já começam a cogitar se o aborto de fetos microcéfalos ou anencéfalos não seria uma forma de "limpeza social".

Certo. Se a Ciência pode resolver o problema da má formação do cérebro, o que ocorre em casos mais brandos de formação defeituosa (quando elas não afetam o funcionamento do organismo e permitem o trabalho mental com alguma regularidade), tudo bem. Mas se os danos forem muito grandes de forma a transformar o futuro bebê numa pessoa em estado quase vegetativo?

Não há como fechar essa questão bastante polêmica, mas só em se falar na palavra "aborto", os "espíritas" sentem um grave incômodo, da mesma forma que também surtam quando alguém pronuncia a palavra suicídio.

OMISSÕES

Aborto e suicídio são, em si, práticas reprováveis. Isso é indiscutível. Ninguém vai sair tirando a vida a esmo. Mas quando há motivos que impulsionam a tais práticas, é bom parar para pensar. E os "espíritas" não o fazem, preferindo se apoiar em valores moralistas e não discutir outros aspectos.

Enquanto isso, os "espíritas" se mostram omissos ou complacentes em crimes como o homicídio, que eles a princípio reprovam, mas sempre apelam para o "atenuante" da "Lei de Causa e Efeito", como se o homicida fosse um "justiceiro" a serviço dos "reajustes espirituais". A vítima é que é a "culpada" e seu exterminador alguém que "terá o que merece", mas em outra encarnação. É o fiado "espírita".

Quanto às acusações de que o aborto em casos de microcefalia seriam uma forma de "eugenia", ou seja, ideologia que se baseia num padrão de "pessoas perfeitas" e "raças superiores" no processo de "seleção" da espécie humana.

Mas os "espíritas", tão afeitos à Teologia do Sofrimento de Chico Xavier, não conseguem perceber que a ideia de "sofrer em silêncio e sem queixumes" também é uma forma de "eugenia", porque, nessa ideologia que os "espíritas" tomaram emprestado da Igreja Católica, fala-se para os sofredores aguentarem as desgraças, mas nunca se fala para os remediados "se ferrarem".

Quando muito, fala-se que os privilegiados, por "se entregarem" aos "prazeres mundanos", já "receberam a recompensa", mas irão "perdê-la na outra vida", quando se tornarem as pessoas desgraçadas que os nomes ilustres escondiam entre montes de dinheiro, ouro e outros luxos.

É até hilário que os "espíritas" roguem isso, porque eles, também envaidecidos pelo verniz da suposta humildade, constroem seus tesouros com premiações e homenagens e acreditam que, quando falecerem, serão recebidos solenemente no céu por amigos, autoridades e anjos. Eles são os que deixarão seus nomes "iluminados" apodrecerem em túmulos ou cinzas, tanto quanto os ricos.

QUANTO AO ABORTO?

O aborto, em casos como os de estupro e gravidez de alto risco, é aceitável, até para minimizar traumas. no caso da estuprada, que é vítima de um dramático ato de violência e ameaça à vida (o estuprador geralmente a ameaça de morte) e sente abalos emocionais fortíssimos por causa disso.

Já no caso de, na gravidez de alto risco, o aborto serve para salvar a vida da mãe e apenas faz com que, em certos casos, o bebê deixe de nascer num corpo doentio e fique órfão da genitora. Querer que o bebê nasça a qualquer preço, sacrificando a mãe, não seria também um "aborto às avessas"?

Quanto à microcefalia, o problema é muito, muito complexo. Não há como ter uma postura definida, se os dois problemas apresentam argumentos fortes. É preciso que o debate vá adiante para que assim se observe quais argumentos parecerão mais pertinentes, pois o problema é novo e as polêmicas tornam-se intensas e complicadas.

O que se sabe, no entanto, é que não se resolve o problema do aborto com moralismo religioso. E o "espiritismo", que não valoriza a vida material como oportunidade das pessoas aproveitarem seus potenciais - elas têm que primeiro "sofrer o que mereceram de outras vidas" - , deveria pensar no seu roustanguismo que nunca abortaram de suas mentes e que renasceu com Chico Xavier.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Suposta médium britânica envia mesma "psicografia" a clientes diferentes. Brasil já viu esse "filme"

LILLYANNE - "SINTONIA" COM O "ESPIRITISMO" BRASILEIRO?

Segundo notícia do Daily Record divulgada no Brasil por O Globo, uma "médium" é acusada de enviar uma mesma mensagem para clientes diferentes, através de cartas "psicográficas" atribuídas a pessoas falecidas.

Lillyanne é o nome da "vidente", que é muito conhecida por suas aparições constantes na televisão britânica. Ela foi denunciada por Karen Brannigan, escocesade 47 anos, que havia perdido a mãe em setembro de 2015 e teria recorrido à consulta da "médium" para saber se a falecida enviou alguma mensagem espiritual.

Karen era advertida pelo marido a não cometer tal "loucura", mas ela decidiu fazer a consulta. Teve que pagar o equivalente a R$ 225 para que a suposta médium se comunicasse com a mãe da escocesa. Assim que recebeu a mensagem, percebeu uma grande estranheza.

A mensagem nada tinha de familiar. Ela não viu elemento algum que pudesse lembrar a personalidade da mãe. Diante dessa reação, ela foi procurar alguém que também havia feito uma consulta a Lillyanne, e encontrou uma inglesa de Gloucestershire que apenas se identificou como Sue (nome que, ironicamente, coincide com o verbo da língua inglesa que quer dizer "entrar com processo").

Sue então mostrou a Karen a carta que a inglesa havia recebido atribuída a um ente falecido. Karen ficou surpreendida com a semelhança das cartas, sendo exatamente a mesma mensagem, havendo apenas a diferença de datas.

Diante da denúncia, a filha de Lillyanne (nome artístico da "vidente" Paula Barstow) disse que foi uma "falha administrativa e um "caso isolado". Mesmo assim, as duas lesadas resolveram processá-la por danos morais.

E NO BRASIL?

As irregularidades que foram feitas no "movimento espírita", em que a ciência de Allan Kardec é muitíssimo bajulada no discurso, mas ignorada na prática, faz com que a prática mediúnica seja ainda muito menos confiável.

O episódio britânico é muito presente, quase uma totalidade no Brasil, diferindo apenas pelos "serviços" serem sempre gratuitos - os "espíritas" têm outros meios de arrecadação financeira, como vendas de livros e o próprio lobby que trabalha com a mídia e a alta sociedade - e as mensagens sejam bastante sutis.

Mesmo figuras oficialmente tidas como "conceituadas" e "confiáveis", como Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, apresentam episódios desse tipo. Chico Xavier, sobretudo, já que as mesmas denúncias contra Lillyanne também foram feitas contra o "médium" mineiro, mas como a Justiça no Brasil é frouxa, a impunidade rola solta nesse país, sobretudo quando ela repousa sob o manto da fé religiosa.

O processo de Chico Xavier era bastante sutil. Nos livros "psicográficos", havia plágios e pastiches. Nos plágios, havia o cuidado de não plagiar livros inteiros, mas apenas trechos deles, que também não eram rigorosamente copiados. Eram "reescritos" com trocas de posições entre palavras e parágrafos.

Já nas cartas "mediúnicas", o que se observa é que as mensagens são padronizadas, tendo quase sempre o mesmo apelo religioso, mas não rigorosamente copiadas. Elas variavam no aspecto formal do texto, só seguiam o mesmo roteiro, que mais parece uma adaptação do fictício drama de Nosso Lar em narrativas ligeiras e, no final, o mesmo apelo "fraterno" e "cristão".

Para "preencher" cada mensagem com a respectiva informação pessoal, há relatos de que parceiros de Chico Xavier haviam recorrido à "leitura fria", prática derivada da hipnose e do ilusionismo circense que consistia numa entrevista dada em tom intimista que colhia informações sutis do entrevistado, através de declarações, comentários e até de reações psicológicas de qualquer tipo.

Com Divaldo, identifica-se a mesma coisa, até pelo fato do baiano ser discípulo do mineiro. E tudo isso criou uma escola ruim de mediunidade, que praticamente desmoraliza esse dom, fazendo com que a comunicação com os espíritos do além, no Brasil, fosse vista como um processo duvidoso e sem confiabilidade, em que pesa a credibilidade que a prática tem entre os seguidores do "espiritismo".

Portanto, o episódio de Lillyanne talvez seja eventual em lugares como a Grã-Bretanha. Lá, em que pese obras duvidosas como A Vida Além do Véu (Life Beyond the Veil), de George Vale Owen, suposta psicografia que presumia um "mundo espiritual" em relatos fantásticos - a obra forneceu elementos para Nosso Lar - , há uma preocupação maior em se estudar a mediunidade com seriedade e cautela.

Aqui também existem pessoas preocupadas em estudar de forma séria a mediunidade, mas elas são muito mais raras e não se encontram no meio do "movimento espírita". E sofrem tanto preconceito por parte dos "espíritas", que não confundem autênticos e farsantes e acreditam que todos são "honestos", quando de detratores mais radicais, que duvidam até de um único ponto coerente trazido por Allan Kardec.

Assim, o que se observa é que, se comunicar com as almas do outro mundo é um processo raro e difícil no Primeiro Mundo, no Brasil torna-se praticamente impossível, diante das noções erradas que Chico Xavier e Divaldo Franco trouxeram com seus maus exemplos de mediunidade.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Foi mais fácil derrubar a Era Vargas do que a Era Geisel

PARA MUITOS, O BRASIL QUE FOI GOVERNADO PELO GENERAL ERNESTO GEISEL ERA UM "PARAÍSO" DE "MODERAÇÃO E PRAGMATISMO".

Hoje, com o Brasil em crise, muitos totens originários ou derivados dos tempos do "milagre brasileiro" da Era Médici ou da "abertura gradual" da Era Geisel começam a perecer e a sociedade está com medo de cair um modelo de país para o qual se acostumaram a vivenciar.

No plano econômico, o "senso comum" costuma atribuir ao modelo do "milagre brasileiro" uma "fórmula ideal" de sucesso e desenvolvimento. No âmbito político e sócio-cultural, o "modelo ideal" consiste num cenário em que se mistura a breguice ufanista da Era Médici com a gororoba cultural da Era Geisel.

Enfatizando medidas de cunho econômico, industrial, acadêmico e urbanista "pragmáticos" - nos quais intelectuais da época, como Fernando Henrique Cardoso e Jaime Lerner, ainda são vistos como totens "inabaláveis" - e a "espetacularização" da cultura e do entretenimento através da supremacia do grotesco, o Brasil de hoje se desgasta e as pessoas, com medo, fogem para o WhatsApp.

Foi muito mais fácil derrubar a Era Vargas e seus símbolos e ícones diretos e indiretos. O "espírito do tempo" que prevaleceu entre 1930 e 1964 e, ainda de forma definitiva, 1968, foi fácil de ser derrubado, quando a MPB autêntica atingia o grande público e a televisão apresentava atrações mais inteligentes.

Os ícones dessa época faleceram rapidamente, o legado deles se dissolveu, e o "espírito do tempo" do Brasil moderno que parecia se consolidar entre 1958 e 1963 acabou. Nem mesmo as tentativas de recuperar essa época, na década de 1980, com o fim da ditadura militar, deram certo. Com a Era Collor, nos anos 1990, a Era Geisel, que já era (olha o trocadilho) uma Era Médici repaginada, foi novamente repaginada através do dito "caçador de marajás".

A situação até tornou-se piorada. As "boazudas", que se limitavam a ser chacretes ou "musas" de revistas pornográficas de segundo escalão, invadiram páginas de celebridades na Internet e empastelam até o movimento feminista.

"Sertanejos" que nunca passam de caubóis urbanos e que deturpavam a música caipira com arremedos de country e ritmos mexicanos, como se Goiás e os interiores do Paraná, São Paulo e Minas Gerais fossem uma síntese entre o Texas e o norte do México, cresceram tanto que roubaram até os redutos do Clube da Esquina e entraram nas universidades pela porta dos fundos.

O "sambão-joia" que deturpava o sambalanço com pieguice e exaltava o Brasil do "milagre brasileiro" ganhou uma nova geração "collorida" através do "pagode romântico", que cresceu tanto que hoje uma parcela deles faz pastiche de samba, copiando o som de Zeca Pagodinho e Jorge Aragão, e alguns de seus medalhões, com sua canastrice, tentam se passar por "grandes nomes da MPB" às custas de muito luxo, muita pompa, muita pose e pouca música.

A imprensa policialesca, que era escondida em jornais "populares" de segundo escalão ou programas raros de televisão, invadiu a TV no horário diurno, expostas gratuitamente ao público infanto-juvenil, com a truculência moralista de seus apresentadores.

Junte-se a isso a complacência com antigos corruptos que tentam voltar à evidência, como Fernando Collor e, na Bahia, Mário Kertèsz, ou a "síndrome de Estocolmo" que faz muitas pessoas terem medo de verem morrer assassinos ricos brasileiros, mesmo quando eles apresentam históricos de problemas ou descuidos com a saúde.

O Brasil tem o cacoete de se apegar ao velho, ao obsoleto, ou a construir novos edifícios com andaimes velhos e podres. De vez em quando, pessoas que parecem modernistas, vanguardistas, rebeldes ou arrojadas mostram algum obscurantismo moralista, alguma neurose conservadora ou alguma libertinagem mórbida que, autodestrutiva e fútil, nada tem de moderna.

É o Brasil que, no que se diz à espiritualidade, elege como guia uma figura ultraconservadora e medieval como Francisco Cândido Xavier. Isso mesmo. Apegado a velhos estereótipos do "velhinho frágil e humilde", os brasileiros veem Chico Xavier como um guia, quando se sabe que ele, como católico retrógrado e ortodoxo, não poderia representar jamais qualquer tipo de futurismo.

Nota-se que as pessoas se tornaram conservadoras, nos últimos anos. O fato de perdermos pessoas avançadas de forma mais rápida que as retrógradas - mesmo conhecidos homicidas idosos que parte da sociedade treme ao imaginar ver suas fotos em algum obituário de imprensa - influi pelo fato de que as pessoas avançadas são coisa do passado e, embora cultuadas, exercem uma força inócua de serem totens inertes e alvos de adoração, pois já não podem mais contribuir com algo novo.

Hoje, porém, é esse conservadorismo, que está em crise, que mistura moralismo extremo e libertinagem sem controle, esse "espírito do tempo" promíscuo que mistura Revoltados On Line com "mulheres-frutas", Divaldo Franco com Jair Bolsonaro, Luciano Huck com José Luiz Datena, Banheira do Gugu com Instituto Millenium.

É esse conservadorismo em estado de decomposição, cujo fedor é disfarçado desesperadamente com o embalsamento moralista e midiático, que ainda acredita, em vão, num "kardecismo com Chico Xavier", numa "reforma agrária com Darly Alves" e num "feminismo com Pimenta Neves".

A "boa sociedade" que vivia a paz forçada dos seus preconceitos moralistas, do sensacionalismo popularesco e das medidas pragmáticas que trazem mais lucros financeiros do que qualidade de vida, está alarmada com a queda de um "espírito do tempo" que, aparentemente, atravessou incólume períodos de relativas transformações sociais, como o período do general João Figueiredo, o governo Itamar Franco ou a Era Lula.

Nestes governos, o Brasil ameaçava romper com o "espírito do tempo" da Era Geisel, ainda que de maneira parcial, com a ascensão de culturas jovens alternativas (governo Figueiredo), a recuperação da cultura musical brasileira de qualidade (governo Itamar) e a ascensão sócio-econômica das classes populares (Era Lula).

Eram processos parciais e incipientes, mas que traziam o "fantasma da Era Jango" que a sociedade "bem de vida", que praticamente monopoliza o "senso comum" brasileiro, se arrepiar de medo, e que podem pôr em xeque tanto o cenário de enriquecimentos ilícitos das elites quanto o da mediocrização sócio-cultural das classes populares.

Se a sociedade deixa cair no ostracismo nomes menos manjados da Bossa Nova, no entanto, salva com facilidade subcelebridades recentes que ficam "sem aparecer" mais de duas semanas. Canastrões culturais e cafajestes políticos parecem mais resistentes a gafes do que progressistas que são "linchados" sem piedade pela "opinião pública" dominante.

Há um grande alarmismo em ver um modelo "equilibrado" de país, conforme valores legados dos governos dos generais Médici e Geisel e "democraticamente repaginados" pelos governos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, ruir de vez.

Daí as histerias reacionárias, que acontecem de maneira surreal, com jovens "irados" defendendo a volta da ditadura militar e mulheres defendendo valores machistas. Às vezes, as pessoas se tornam patéticas quando evocam desesperadamente seu conservadorismo.

E nós ainda temos que aceitar tudo isso em silêncio, numa prece sem som, sem voz, sem palavras, como se ainda estivéssemos na Era Médici.