quinta-feira, 16 de julho de 2015

O Catolicismo progressista de Papa Francisco e os "espíritas"


Mesmo dentro dos seus limites ideológicos, o Catolicismo parece andar um pouco para a frente, em detrimento ao "movimento espírita" que, supostamente tido como "vanguarda" dos movimentos espiritualistas, naufraga num conservadorismo que sempre foi altíssimo, mas hoje sucumbe às últimas consequências.

A impressão que se tem é que a Igreja Católica começava a se livrar dos "bens medievais" e iria mandar tudo para o lixo, até que dissidentes que se "simpatizavam" com a Doutrina Espírita aproveitaram a "velha mobília" se lembrando da influência religiosa vigente no Segundo Império, época do surgimento da Federação "Espírita" Brasileira.

Enquanto o Catolicismo se despia aos poucos de suas vestes medievais e, no Brasil, se expressava a partir de figuras originalmente conservadoras, mas paulatinamente progressistas, como Alceu Amoroso Lima e Dom Hélder Câmara, o "espiritismo" fazia o caminho contrário.

O "movimento espírita" retrocedeu, indo do pouco que assimilou da doutrina de Allan Kardec - pouco mesmo, apenas vagos enunciados da reencarnação e vida espiritual - , para valores herdados do Catolicismo vigente dos tempos de Dom Pedro II, de origem portuguesa e valores ainda medievais, como se observava na mentalidade inquisitória que resistiu até meados do século XIX.

Embora o Catolicismo esteja longe de atingir a plenitude da coerência e do realismo de ideias, nota-se que, através de tentativas realizadas no século XX e reforçadas agora pela figura do Papa Francisco, progressos significativos haviam sido feitos no seu âmbito.

O Concílio II, do Vaticano, permitiu o lançamento da Teologia da Libertação e de uma facção católica socialista, representada por Leonardo Boff e Frei Betto, que foram vítimas do regime militar. Embora nem todos os católicos seguiram essa tendência e houve quem a repudiasse, como se observa na Marcha da Família Unida com Deus pela Liberdade, mudanças não deixaram de ocorrer.

É válido lembrar que a referida marcha, que se iniciou em São Paulo, incluiu vários movimentos religiosos. O historiador Jorge Ferreira, que escreveu a biografia de João Goulart, escreveu o seguinte no livro 1964 - O golpe que derrubou um presidente, juntamente com Ângela de Castro Gomes:

"O que marcou a caminhada foram os grupos religiosos e, claro, as mulheres. Embora a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil não apoiasse oficialmente as Marchas, nada impedia que padres e bispos, por sua própria convicção pessoal, participassem do evento. Mas estiveram presentes também fiéis das igrejas protestantes, rabinos, espíritas kardecistas (sic) e umbandistas".

"Kardecista" é um eufemismo lançado pelo "movimento espírita" para definir seus representantes e seguidores. O termo praticamente nada tem a ver com Allan Kardec, mas com o religiosismo conservador popularizado por Francisco Cândido Xavier.

Esse religiosismo, juntamente com o desconhecimento dos processos mediúnicos e dos estudos sobre a vida espiritual, que fazia os "espíritas" improvisarem um "mundo espiritual" digno de contos-de-fadas e uma prática mediúnica cercada de fraudes que ocultavam a incompetência de supostos médiuns, fez o "espiritismo" se tornar cada vez mais retrógrado.

Pior: nem mesmo a conversão de alguns "médiuns" privilegiados, como Chico Xavier e Divaldo Franco, em dublês de "filósofos" num país sem grandes filósofos - no sentido de pensadores que ultrapassam séculos, como Sócrates, Platão, Rousseau e Hegel - , conseguiu amenizar o problema.

Muito pelo contrário, a conversão de supostos médiuns mais populares em pretensos filósofos só agrava a situação da incompetência mediúnica, em que eles tentam compensar sua existente, mas fraquíssima e limitadíssima mediunidade com arremedos de sabedoria dotados dos mais diversos clichês de falsa humildade e ideias prolixas e pedantes.

Vendo esse quadro, a histeria dos "espíritas" em se autoproclamarem "fiéis a Allan Kardec" soa como uma hipocrisia oportunista, enquanto a cada tempo se afundam numa mesmice doutrinária e num conservadorismo cada vez mais sombrio e choroso, presos nos velhos clichês religiosos que cada vez mais deixam de fazer sentido numa sociedade em transformação.

Os "espíritas" só têm sorte porque o Brasil está tomado de um provincianismo doentio, no qual o exemplo mais aberrante é o Rio de Janeiro, cujo atraso se reflete sobretudo pelo arbítrio político e pela insegurança que as desastrosas operações policiais só pioram fazendo inocentes serem mortos por balas perdidas.

Daí que, nas mídias sociais, Chico Xavier ainda é "rei" com suas mensagens "dóceis" publicadas quase que por automação, mesmo quando elas afirmam como é "lindo" o sofrimento por causa da "garantia" das "recompensas futuras", que guia o masoquismo astral dos chiquistas.

No entanto, o mundo gira e vemos outro Chico, o Papa Francisco, mostrar uma postura progressista que Chico Xavier nunca teve. E olha que o pontífice, no passado, apoiou a ditadura argentina, mas depois teve coragem de rever posições e adota posturas que questionam o capitalismo e defendem causas como a ecologia, o feminismo e outras, de forma inusitada para sua religião.

Mesmo o ateísmo começa a ser respeitado pelos católicos, e o homossexualismo - que Chico Xavier e Emmanuel só "respeitam" para não conflitar com teses conhecidas sobre reencarnação de homens e mulheres - também começa a ser tratado pelo Catolicismo com um respeito que era antes inimaginável.

Um exemplo ilustrativo da postura progressista do Papa Francisco (nascido Jorge Mário Bergoglio) é quando ele visitou a Bolívia e recebeu, do presidente socialista Evo Morales, ligado ao movimento bolivariano fundado pelo venezuelano Hugo Chavez, uma imagem de Jesus pregado num martelo com os pés sobre uma foice.

Católicos chegaram a dizer que o pontífice ficou "ofendido" com o presente, o que fez os chamados "urubus" da grande imprensa brasileira voarem sobre essa "carniça" ideológica. Mas Francisco entendeu que o presente foi uma "arte de protesto", desenhada pelo padre jesuíta Luís Espinal, assassinado por tropas golpistas ligadas ao general Luís Garcia Meza, atualmente preso.

Em entrevista no avião, o papa esclareceu que ficou grato com o presente que recebeu do presidente boliviano e entende o seu sentido de protesto, dando outro exemplo de um Jesus crucificado em um bombardeiro, como manifesto contra as ações belicistas do Imperialismo. Eis um trecho em que Francisco responde a uma repórter que estava entre os vários que o entrevistaram na ocasião.

Aura Vistas Miguel – Santidade, o que sentiu quando viu aquela foice e martelo com Cristo em cima, oferecido pelo presidente Morales? E onde acabou esse objeto?

É curioso, eu não conhecia isso e nem sabia que o padre Espinal era escultor e poeta até. Soube disso nestes dias. Quando o vi, para mim, foi uma surpresa. Segundo, pode-se qualificar como o gênero da arte de protesto.
Por exemplo, em Buenos Aires, há alguns anos, foi exibida uma mostra de um escultor bom, criativo, argentino, que agora está morto. Era arte de protesto, e eu recordo um Cristo crucificado em um bombardeiro que caía. Era uma crítica ao cristianismo aliado com o imperialismo, que bombardeia.
Então, primeiro, eu não sabia; segundo, eu o qualificaria como arte de protesto, que, em alguns casos, pode ser ofensivo. Em alguns casos. E terceiro, este caso concreto: o padre Espinal foi morto no ano de 1980. Era um tempo em que a teologia da libertação tinha muitos ramos. Um desses ramos propunha a análise marxista da realidade. O padre Espinal pertencia a isso. Eu sabia disso, sim, porque, nesses anos, eu era reitor na faculdade de teologia e se falava muito disso, os diversos ramos e os representantes.
No mesmo ano, o geral da Companhia de Jesus [Pe. Pedro Arrupe] mandou uma carta para toda a Companhia sobre a análise marxista da realidade na teologia. Um pouco freando isso e dizendo: isso não está bem, são coisas diferentes, não é justo, não está certo. E, quatro anos depois, em 1984, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou o primeiro documento, pequeninho, uma primeira declaração sobre a teologia da libertação que critica isso. Depois, veio o segundo, que abriu as perspectivas mais cristãs (estou simplificando, hein). Ou seja, façamos a hermenêutica naquela época.
Espinal era um entusiasta dessa análise da realidade marxista e também da teologia usando o marxismo. Daí veio essa obra. As poesias de Espinal também era desse gênero de protesto, mas era a sua vida, era o seu pensamento, era um homem especial, com tanta genialidade humana e que lutava. Ele tinha boa fé. Fazendo uma hermenêutica desse tipo, eu entendo essa obra. Para mim, não foi uma ofensa, mas eu tive que fazer essa hermenêutica, e digo isso a vocês para que não haja opiniões equivocadas.

Onde ficou a cruz?

Eu a trago comigo. O presidente Morales quis me dar duas condecorações, a mais importante da Bolívia e a outra é a ordem do padre Espinal, uma nova ordem. Jamais aceitei uma honorificência, não sei, não me sinto bem. Mas ele fez isso com tanto vontade, com boa vontade e com o prazer de me dar um prazer, e eu pensei que isso vem do povo da Bolívia e rezei para saber o que fazer com isso. Se eu as levo ao Vaticano, vão parar no Museu, vão acabar aí, e ninguém jamais vai vê-las. Então, pensei em deixá-las à Nossa Senhora de Copacabana, a mãe da Bolívia, que vão para o santuário, ficarão no santuário. Ao contrário, o Cristo, eu trago comigo.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

"Boa teoria" não é suficiente para confirmar prática mediúnica

FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA, ONDE FICA O NÚCLEO DE ESPIRITUALIDADE E SAÚDE.

O Brasil é marcado pela mediocridade triunfante, pelo pretensiosismo tardio e pelo simulacro de sabedoria. Há canastrões de tudo quanto é tipo, que se julgam "inteligentes", "abertos a tudo" e que cumprem o rigor das leis, se dizem "muito talentosos" e acham que possuem as melhores virtudes.

O nosso país, que tenta criar uma equação que some mediocridade, pretensiosismo e sucesso, tenta criar as mais belas teorias para justificar os piores procedimentos e sustentá-los com intenções supostamente mais nobres.

Isso acontece em vários setores. O "espiritismo" não é diferente. Ele também cria as mais belas teorias e se sustenta nas mais nobres intenções para respaldar suas práticas por vezes omissas e por outras falsas, produzindo mistificação em vez de ciência e "mentiunidade" em vez de mediunidade.

Essa é a grande desvantagem do "movimento espírita" ter deixado de lado a postura abertamente roustanguista. Com Jean-Baptiste Roustaing, os "espíritas" pelo menos se posicionavam em favor da mistificação religiosa e dos métodos duvidosos de mediunidade relacionados ao autor de Os Quatro Evangelhos.

O roustanguismo, durante anos, caiu bem no "espiritismo" de fachada que na verdade era apenas um meio-termo entre um Catolicismo medieval moralista, dogmático e sacramental e as heresias religiosas e ritualísticas clandestinamente praticadas.

De um lado, uma religião oficial de conteúdo ultraconservador e reacionário, de outro ritos improvisados e feitos a partir de habilidades duvidosas e métodos misteriosos. Passando longe das recomendações de Allan Kardec e dos mensageiros agrupados pelo Espírito de Verdade, os "espíritas" estão mais próximos da Idade Média do que podem imaginar.

Mas, diante do Brasil cheio de pretensiosismo, feito para tentar explicar a supremacia da mediocridade e da incompetência em vários setores, da segurança à música popular, os "espíritas" tentam mascarar suas posturas originalmente medievais, influenciadas pela herança do Catolicismo medieval português trazida pelos jesuítas.

Mesmo quando admitem que os jesuítas do passado foram promovidos a patronos, protetores e mentores de "centros espíritas" e supostos médiuns, o "movimento espírita" brasileiro tenta se afirmar, até com certa arrogância, que mantém-se "rigorosamente fiel ao pensamento de Allan Kardec".

USAM ATÉ ERASTO, SEM SABER DO PUXÃO DE ORELHA QUE RECEBERAM

Muitos "espíritas", independente do vínculo que tem com a cúpula da Federação "Espírita" Brasileira, já que existem dissidências tão "espiritólicas" quanto os que estão dentro da instituição, tentam de tudo para dar a impressão de que "mantém toda fidelidade a Kardec".

Eles usam até mesmo, em causa própria, os alertas de Erasto, o discípulo de Paulo de Tarso (o "São Paulo" dos católicos, não o jornalista gaúcho do Pasquim), de que a Doutrina Espírita corre o perigo de ser maculada por oportunistas capazes de distorcer e eliminar a essência do pensamento trazido pelo pedagogo francês. Não sabem o puxão de orelha que Erasto deu a eles.

É como se as raposas que invadiram os galinheiros fingirem apoiar uma mensagem de um fazendeiro alertando sobre o risco das raposas invadirem o abrigo das galinhas para devorá-las. Ou, numa outra metáfora, lobos vestindo peles de cordeiros e tentarem manter o vínculo definitivo ao "novo rebanho".

Há muitos falsos espíritas que fingem reprovar os falsos espíritas. No fundo, são desculpas para mascarar divergências pessoais e alimentar disputas de poder ou vaidades de seus membros. E quantos são os mitificadores e religiosistas que se mascaram de pretensos seguidores do cientificismo kardeciano!

Observa-se, por exemplo, que existem até setores "espíritas" nas faculdades brasileiras. Há setores "espíritas" na Universidade de São Paulo, destacando-se o acadêmico Alexandre Caroli Rocha, que tenta apresentar uma postura "cética" só para dar a impressão de que não aprova automaticamente a desnorteada e fraca mediunidade de Chico Xavier, que só sabia falar com a mãe e com Emmanuel.

Mas o que age de maneira decisiva para manter os dogmas "espíritas" e respaldar o religiosismo histérico de seus membros e, sobretudo, supostos médiuns, com uma roupagem falsamente científica, é o Núcleo de Espiritualidade e Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Através de figurões como Alexander Moreira-Almeida, a classe de pesquisadores "espíritas" procura se apoiar em estudos científicos na área da Medicina, com uma inclinação interdisciplinar à Psicologia, Biologia, Química e Física, entre outras áreas.

Em certos casos, eles tentam apreciar a teoria do Magnetismo do alemão Franz Anton Mesmer, como forma de desenvolver a teoria das práticas mediúnicas. Criam um suporte "científico" que parece verossímil e, à primeira vista, legitimável pela comunidade acadêmica.

MÉTODOS DUVIDOSOS

Os métodos usados pelos acadêmicos "espíritas" contradizem toda a pose de seriedade e todo o discurso de rigorosa racionalidade que não só Alexander Moreira-Almeida como outros como Jorge Cecílio Daher Jr. adotam para tentar dar confiabilidade às suas pesquisas.

Um exemplo é quando os acadêmicos tentaram pesquisar o suposto pioneirismo científico de até seis décadas, atribuídos ao (não assumidamente) fictício André Luiz, em livros como Missionários da Luz, que seus pesquisadores alegam tratar de temas "inexistentes" em bibliografia produzida na época da elaboração da obra "espírita", 1945.

Só que o trabalho acadêmico pesquisou apenas livros produzidos a posteriori, já que as fontes bibliográficas dos anos 1940, que Jorge Daher e seus parceiros julgam "escassa e altamente conflituosa". não foram consultadas.

Os acadêmicos se contentaram em se apoiar nas obras de terceiros para supor que quase não se discutia glândula pineal nos anos 1940 e, quando se discutia, discutia mal. Soa risível a classificação de "conflituosa", porque é da natureza do debate científico haver conflitos entre teses.

O endereço do trabalho acadêmico sobre Missionários da Luz mostra um levantamento bibliográfico que confirma isso: livros escritos de 1977 em diante, alguns relativamente mais recentes (como de 2005 e 2009), sem qualquer crédito a obras dos anos 1940, mesmo se fossem reedições ou reimpressões de datas posteriores.

Daí que confiar no que terceiros descrevem, alegando "inexistência" de trabalhos consistentes sobre a glândula pineal publicados nos anos 1940, é anti-científico, porque é da obrigação deles ter recorrido às fontes originais, como as de Gladstone, Weiekely e Bargmann, que se destacaram com pesquisas sobre glândula pineal na época.

Mesmo obras anteriores puxavam o amplo debate que havia nos bastidores da ciência, e certamente as obras da década de 1940, embora aparentemente "poucas", podem ter sido significativas. O caráter conflituoso poderia revelar não apenas a natureza do debate científico, mas também as possíveis linhas de investigação e pesquisa adotadas.

FINALIDADE DISCUTÍVEL

Uma outra pesquisa adotada pela Universidade Federal de Juiz de Fora consiste em relação às cartas "psicografadas" de Francisco Cândido Xavier, que apontavam uma estranha autenticidade de 98% (certo, 2% teriam sido fraude), através de critérios bastante duvidosos.

Afinal, os estudiosos se dedicaram demais às teorias sobre a ação psíquica no cérebro, além de falhar nos métodos de avaliação da veracidade das supostas mensagens mediúnicas, onde meios mais complicados foram adotados, quando uma avaliação mais simples e direta iria dar num resultado mais realista.

Sabemos que a maioria das "psicografias" de Chico Xavier é fraude, não porque expressamos inveja ou calúnia, como supõem os chiquistas, mas por apontar irregularidades graves em torno das mensagens, sejam cartas ou livros, atribuídas aos autores espirituais.

Isso porque os acadêmicos se preocuparam demais com funções cerebrais, aspectos psicológicos e superestimaram as informações dos falecidos tidas como "complexas" e "de difícil acesso", ignorando que existem recursos de persuasão que se definem como "leitura fria" (cold reading, em inglês).

Na "leitura fria", que nos "centros espíritas" é usada através de uma entrevista em tons fraternais e intimistas dadas por algum tarefeiro, que procura observar discretamente gestos e depoimentos dos entrevistados, observando a forma com que ele assina a lista de presença ou de orações,

Há todo um levantamento de informações dos membros dos "centros espíritas". Até as caligrafias dos papéis de orações para entes queridos, escritas pelos frequentadores, são observadas. A quem dirigem as orações? O entrevistado é apaixonado por alguém? Que perfil é esse entrevistado que quer receber "mensagens" do amigo ou parente falecido?

Tudo é observado. Pesquisa-se de jornais a livros até dados sutis dos parentes que são entrevistados. São aproveitadas até conversas informais que os frequentadores dos "centros espíritas" fazem, no fim de cada doutrinária, com o palestrante que fez aquela exposição agradável. Imagine um exemplo.

Um palestrante encerrou sua exposição e a senhora frequentadora do "centro espírita" adorou tanto a mesma que foi falar com o expositor. Na conversa feita depois que o palestrante se dirigiu à senhora, depois de falar com tanta gente, ela diz algo como:

"Pois é, pena que meu filho Zé não está mais aqui. Sabe como é, ele faleceu em acidente de moto há cinco anos, tadinho, só com 25 anos. E ele, quando era criança, adorava Saltimbancos, que você citou na palestra. Ele era louco por essa peça, cantava as músicas da trilha e viu até aquela adaptação feita pelos Trapalhões. Sei que isso passou quando veio a adolescência, mas sabe, na Universidade Fulano de Tal, ele usou alguns elementos cênicos da peça para o grupo teatral".

Dependendo do caso, gostos e hábitos mais complexos são declarados, sem que o entrevistado saiba. Ou então outros aspectos supostamente inacessíveis. Em outros casos, colhe-se declarações de terceiros, além de farta consulta em escolas, ambientes de trabalho etc.

Isso é ignorado pelos acadêmicos "espíritas", que se acham confiantes de possui uma "boa teoria", sabendo de conhecimentos científicos "terrenos" até ideias de Franz Anton Mesmer. "Bonzinhos", eles são capazes até de ler os livros de Allan Kardec na tradução de Herculano Pires, para darem a impressão de que são os mais exemplares alunos da Ciência Espírita.

Mas a "boa teoria" não é suficiente para confirmar a prática mediúnica. No caso de Chico Xavier, só o fato das mensagens mostrarem sempre apelos religiosos e exibir somente a caligrafia do "médium" já são bastantes para pôr em xeque (e até em xeque-mate) qualquer veracidade em relação à suposta autoria espiritual.

Um "médium" que publicou um Humberto de Campos completamente diferente do que esteve entre nós na Terra não pode ser visto como confiável. Usar a "boa teoria" para respaldar suas práticas duvidosas é inútil diante do caráter duvidoso das atividades de Chico Xavier e seus seguidores. Boa teoria não necessariamente afirma a boa prática.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Seria Chico Xavier o Grande Irmão brasileiro?


O Brasil está vivendo a sua pior crise social. A turbulência de 1964 ainda é pouca para a crise de hoje, apesar de toda a fúria que resultou na queda política de João Goulart e das garantias recentes de que a atual presidenta, Dilma Rousseff, não deixará o poder e que não há indícios de que uma intervenção militar esteja pronta para expulsá-la do Planalto.

O problema é que, hoje, a crise é mais ampliada e diversificada. É uma crise de valores que haviam sido lançados na época do "milagre brasileiro" e que foram consolidados na década de 1990, e que agora começam a perecer dramaticamente, causando inquietação e tensão.

De um lado, valores retrógrados que estabelecem uma relação entre status quo visibilidade e prestígio sócio-econômico e midiático. De outro, a necessidade de substituir esses valores por outros que possam ser socialmente mais positivos e justos.

O machismo, o fanatismo religioso e o fanatismo do futebol, a supremacia midiática, o neoliberalismo econômico, entre tantos outros valores conservadores e de eficácia limitada e apenas atendimento parcial das necessidades humanas, andam decaindo, embora muitos desses valores estejam ainda de pé ou encontrem resistência até na violência digital dos sociopatas da Internet.

O Brasil, embora tenha tido alguns processos, retrocede por conta de elites que dominam a mídia, a indústria do entretenimento, os esportes, a mobilidade urbana, a imprensa, a política e outros setores, que estão no poder e ainda adotam métodos e paradigmas que só tinham sentido na época ditatorial do governo do general Emílio Garrastazu Médici.

O caso preocupante é o declínio das regiões Sul e Sudeste, em especial a decadência vertiginosa do Estado do Rio de Janeiro, já que as duas regiões sofrem hoje um surto de provincianismo e atraso sócio-cultural que antes era algo típico nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

O Rio de Janeiro sofre o pior dos atrasos, principalmente porque é no Estado onde se concentram as personalidades ou mesmo os internautas mais agressivos e dotados de métodos autoritários de agir e intervir na política, na mobilidade urbana, no turismo, no patrimônio histórico, na cultura e na mídia, além das grosserias dos bullies nas mídias sociais da Internet.

O que preocupa é que, sendo as regiões Sul e Sudeste referenciais do que acaba valendo e prevalecendo em todo o território nacional, os retrocessos que atingem sobretudo Rio de Janeiro e São Paulo, considerados os grandes centros do país, podem botar o Brasil todo a perder.

A imprensa ultrarreacionária de São Paulo e o neo-coronelismo político do Rio de Janeiro - expresso no PMDB local, de Eduardo Paes, Eduardo Cunha, Sérgio Cabral Filho, Luiz Fernando Pezão, Carlos Roberto Osório e outros - já causam estragos em outros Estados do país, seja inspirando o reacionarismo dos internautas, seja inspirando políticas antipopulares.

Esses retrocessos ameaçam o Brasil, embora aparentemente não haja uma inquietação popular. Há apenas consciências parciais de que algo de errado está nestas regiões, sem que todavia haja uma preocupação maior, já que a maior parte das pessoas está ocupada com coisas "mais importantes" como "curtir" bebês dublando grandes cantores internacionais no WhatsApp.

APOLOGIA AO SOFRIMENTO

Se deixarmos, o Brasil regredirá ao ponto de se tornar uma teocracia na qual a antiga tradição católica é disputada por duas forças religiosas conflitantes: a "evangélica", manifesta pelos movimentos neopentecostais, e a "espírita", manifesta por tendências vinculadas à FEB ou dissidências que ainda se baseiam no religiosismo difundido por Jean-Baptiste Roustaing.

Seja de um lado ou de outro, seja com Edir Macedo ou Chico Xavier, seja com Silas Malafaia ou Divaldo Franco, o que se vê são "dissidências" do Catolicismo que não trazem muita coisa de transformadora, aliás nada trazem.

Tanto de um lado quanto de outro haverá o projeto de teocracia. Mesmo no "despretensioso" e supostamente moderno "movimento espírita" isso acontece, já que através de Chico Xavier promove um moralismo ultraconservador servido dissolvido na água com açúcar das palavras dóceis.

O que se nota é que o moralismo "espírita", mesmo sob a roupagem de um movimento pretensamente vanguardista e futurista, enfatiza a apologia ao sofrimento humano, chegando mesmo a defender a manutenção dos infortúnios e limitações da vida, recomendando "não queixar e agradecer a Deus pela prova que enfrenta", alegando que as "recompensas" estão na "vida futura". Felicidade é pra depois.

Apesar desse conservadorismo explícito que castra as vidas das pessoas e as faz sofrer tanto, até mesmo sem necessidade - não raro, os infortúnios acontecem acima das capacidades de seu sofredor, que não raro é induzido a "enlouquecer" com o "beatismo espírita" - , Chico Xavier tornou-se uma pretensa unanimidade, adorado de forma tão exaltada quanto surreal.

Se o Brasil se tornar uma teocracia, que é o que se teme que sejam as "maravilhosas profecias" do sonho de Chico Xavier de 1969, ele poderá se tornar uma "divindade" comparável ao Grande Irmão, com um poderio dominador praticamente absoluto e totalitário.

Chico Xavier desenvolve sua idolatria através de contradições. É o "ignorante que se tornou sábio", o "caipira que se tornou profeta", o "fraco que se tornou forte e a prova de tudo", o "velho que trouxe a boa nova" e outras declarações. Mesmo sendo direitista, Chico Xavier chega a ser cortejado por setores das esquerdas que ignoram o quanto o anti-médium apoiou a ditadura militar.

A partir desse jogo de palavras - uma espécie de arremedo cretino das relações do Yin e do Yang chineses - , Chico Xavier tenta penetrar, mesmo postumamente, em espaços de apreciação que vão além dos limites conservadores do "movimento espírita" e de setores heterodoxos do Catolicismo. Até mesmo os ateus e agnósticos tentam ser cooptados e convertidos para o chiquismo.

A preocupante obsessão dos internautas, no Facebook e em outros ambientes de mídias sociais, com Chico Xavier, através de frases reproduzidas com a submissão "bovina" nos perfis de cada indivíduo, ou então compartilhamentos de mensagens publicadas de outras fontes, já sinaliza o totalitarismo que pode vir se não houver um freio a esse fanatismo chiquista.

Ele se usa de um recurso traiçoeiro e sedutor, que é o de explorar estereótipos de bondade, perfeição, humildade, beleza e outras virtudes, e vincular tudo ao mesmo Chico Xavier que plagiava autores literários e usava "leitura fria" (entrevista persuasiva que seduz o entrevistado a dar informações mais detalhadas sobre sua vida e de seus relativos) para colher dados para falsas mediunidades.

Isso é muito perigoso. Ver que as pessoas preferem que tudo dê errado em suas vidas, desde que Chico Xavier seja mantido no seu pedestal, como um semi-deus a reinar absoluto no misticismo espiritualista brasileiro, é muito assustador.

Investigando o que está por trás de Chico Xavier, é estarrecedor que ele seja a única pessoa que pode cometer graves erros e sair totalmente impune por isso. Não só a impunidade jurídica, como a impunidade social, que no Brasil em retrocessos surreais como os de hoje, atinge não só figuras "bondosas" como Chico Xavier, mas gente ainda pior.

Ver que feminicidas e fazendeiros que mandaram matar ativistas rurais já tentam obter a simpatia da opinião pública, insatisfeitos com a já aberrante liberdade legal que possuem, se livrando da prisão com tanta facilidade que voltar a serem presos é que é algo difícil de acontecer.

Eles agora tentam dar a falsa impressão de que se tornaram "pessoas bem legais" e aí vem um feminicida se passando por "bom moço" oferecendo até cafezinho para um homem de bem, que poderia estar namorando, talvez, aquela mulher que o outro havia matado.

O próprio "espiritismo" que permite aceitar essas aberrações, alegando que os algozes de hoje "um dia terão sua vez" - é a tese do "fiado espírita" - , expressa, com isso, um moralismo ultraconservador baseado num julgamento de valor medieval, elemento inteiramente mantido do legado de Jean-Baptiste Roustaing, já que o sobrenome desde virou um "palavrão" entre os "espíritas".

Com a glamourização do sofrimento, simbolizada pelas palavras bonitinhas de Chico Xavier, o Brasil poderá mergulhar ainda mais em retrocessos, fazendo com que a futura Oceânia de George Orwell, mesclada com elementos "moderados" do Mundo Novo de Aldous Huxley, crie uma sociedade escravizada e submissa, sujeita a um regime cada vez mais autoritário e antipopular.

Isso não se dá de uma só vez. Retrocessos acontecem aos poucos e os "espíritas" sempre recomendam o "silêncio das preces" para aguentar os sofrimentos "sem queixumes". Tudo piora de pouco em pouco, até ver o país num novo obscurantismo, numa nova Idade Média, a regressar depois de sucessivos conformismos populares. Pelo jeito, o Grande Irmão poderá ser brasileiro.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Axl Rose é tratado como se fosse o "Chico Xavier do rock"

AXL ROSE É CONSIDERADO "GÊNIO" NUM BRASIL EM QUE A MEDIOCRIZAÇÃO FEZ SER O ÚNICO PAÍS A COMEMORAR O RISÍVEL "DIA MUNDIAL DO ROCK" ANCORADO NUM FESTIVAL NÃO NECESSARIAMENTE ROQUEIRO.

País estranho o Brasil, que procura desenvolver valores hegemônicos a partir de convicções pessoais de gente não necessariamente bem informada ou esclarecida, mas mediante uma mentalidade provinciana que adota valores antiquados e valoriza o que é decadente ou medíocre.

Há muitos exemplos nisso, que criam uma confusão de abordagens e posições que contradizem critérios de coerência e lógica. E, o que é pior, quando alguém se encoraja em questionar alguma coisa, corre o risco de ser desmoralizado por internautas sociopatas, que durante muito tempo lutavam pela supremacia da estupidez sobre a coerência.

A "ditadura da burrice", portanto, permite aberrações diversas, como no caso da mobilidade urbana, em que uma figura surgida e respaldada pela ditadura militar, como o arquiteto Jaime Lerner (espécie de Roberto Campos do transporte coletivo) é visto como "progressista".

Ou então, no âmbito da política, ver que um Fernando Collor pôde ser reabilitado e acolhido como "político moderno" e "simpatizante da esquerda", mesmo tendo um currículo de corrupção e de defesa de medidas antipopulares, como foi no seu breve governo como presidente da República.

Mas mesmo a chamada "cultura rock", associada a um gênero marcado pela rebeldia e pela abrangência de informações, o Brasil vive um quadro surreal em que o rock está associado a jovens conservadores, consumistas e superficiais e é alimentado por um mercado hipócrita, que só se volta para o consumismo, para a alienação e para o conformismo.

Com rádios completamente patéticas como 89 FM (SP) e Rádio Cidade (RJ), que especialistas em rock define como "rádios pop que tocam rock", sem qualquer especialização verdadeira no ramo, e um suporte das grandes redes de televisão (como a Rede Globo) que trabalham uma imagem caricata do público roqueiro, o mercado é ainda manipulado pelas grandes empresas de entretenimento.

Daí que uma verdadeira "cultura fast food" do rock, no Brasil, é feita, transformando jovens "rebeldes" em pessoas ao mesmo tempo conformistas e arrogantes. Eles se contentam com o hit-parade que só cobre os sucessos comerciais de rock e os hits mais manjados dos grandes nomes.

É risível que eles contrariem, em muitos aspectos, do perfil dos roqueiros de quase todos os países do mundo. Imagine os tão "convictos" e "donos da verdade" fãs de rock que ouvem essas FMs comerciais não se interessarem em sair do perímetro dos "grandes sucessos" e endeusar nomes medíocres só por conta da catarse que eles simbolizam?

A GRANDE FARSA DO "DIA MUNDIAL DO ROCK"

No Brasil, efemérides são inventadas apenas para atrair grandes demandas de consumo. Personagens que nunca existiram foram inventados para motivar a idolatria necessária para empurrar multidões para as lojas e torrar muita grana comprando produtos, mesmo que seja para encher de guloseimas os jantares familiares.

George Orwell, em 1984, havia descrito a iniciativa do Partido Interno, partido único de Oceânia e subordinado diretamente ao poder do Grande Irmão, de criar um mito chamado Ogilvy, ou "camarada Ogilvy", um fictício soldado que morreu em combate e que teve que ser reconhecido e adorado como se tivesse sido um personagem que existiu na realidade.

O Dia Mundial do Rock é uma dessas grandes farsas, feitas apenas para encher os cofres de Roberto Medina e outros empresários associados ao mercado "roqueiro", inclusive redes de lanchonetes, vestuário para jovens, materiais esportivos, indústrias de cervejas, postos de gasolina e outros ítens ligados ao consumismo juvenil.

O dia é atribuído ao Live Aid, evento filantrópico realizado em 1985 que, embora tenha grandes nomes do rock, não foi um evento necessariamente roqueiro. Nomes abertamente pop e nada roqueiros, como Madonna, George Michael, Ashford & Simpson, Kool & The Gang, e Patti LaBelle se apresentaram no festival.

É um grande exagero atribuir ao Dia do Rock um evento desses, misto de festival megalomaníaco, filantropia discutível e atrações bastante ecléticas. Além do mais, o resto do mundo não leva o dia 13 de julho a sério no sentido de celebrar o rock, e somente o Brasil é que inventou o dia, por iniciativa justamente da caricatura de rádio de rock 89 FM, que não passa de clone da Jovem Pan FM.

Mas isso faz parte de uma visão incoerente de pessoas arrogantes, teleguiadas pelo que os grandes empresários, a grande mídia, os tecnocratas e os políticos fazem, obrigando jovens a acreditar em certos valores com tamanha cegueira que a primeira contestação alheia cria exércitos de sociopatas que, em conjunto, humilham o discordante com ofensas, ironias e ameaças.

EM TERRA DE CEGO...

A falta de compreensão das pessoas, nesse Brasil afundado no provincianismo - situação que o faz cada vez mais distante de qualquer promessa do país atingir a vanguarda do mundo - , cria, no caso da "cultura rock", aspectos risíveis como superestimar a mediocridade de inexpressivos grupos musicais que desde os anos 80 faziam um rock caricato e cheio de clichês.

O poser metal é uma dessas caricaturas, sendo um sub-gênero que reduz o rock pesado dos anos 1970 a clichês mais grosseiros e rasteiros do comportamento roqueiro, uma rebeldia que é forçada devido a tanto exagero e tanto tendenciosismo. Contraditoriamente, o ritmo é marcado por baladas românticas que soam piegas para o contexto roqueiro.

Nos EUA, é verdade que parte da grande imprensa roqueira leva a sério demais o poser metal de nomes como Poison, Ratt, Mötley Crüe, Guns N'Roses e Bon Jovi, se bem que este último tenha virado imitador do comercial mas competente Bryan Adams, cantor canadense que o mercado faz pagar pelos pecados cometidos por Jon Bon Jovi e companhia.

Afinal, na "América" dos Kardashian, do UFC (e suas ring girls, lutadoras ou assistentes de palco), de "boazudas" como Coco Austin e Courtney Stodden, até revistas de heavy metal têm que competir com o mercado do espetáculo, das fofocas e das sub-celebridades alimentado pelo portal TMZ e pela revista People.

Daí o apreço da mídia heavy metal norte-americana pelos farofeiros do rock pesado, que fazem as revistas venderem horrores porque o adolescente médio se empolga com aquele músico de poser de corpo totalmente tatuado que bate na namorada e destrói quarto de hotel, elementos que compensam a incapacidade do músico fazer alguma coisa, pelo menos, próxima do decente e do suportável.

Mas, como o Brasil é uma "terra de cego", os posers viram "reis". E surge então o cacoete de um bando de matutos que se acham "conhecedores do verdadeiro rock" - mas capazes de chorar histericamente quando morrem ídolos como Wando e Waldick Soriano, a ponto de dizerem que, com tais óbitos, a "música morreu" - achar que Guns N'Roses é "sinônimo" de rock clássico.

Axl Rose acaba sendo tratado como se fosse o "Chico Xavier do rock". Como o anti-médium mineiro, recebe uma idolatria exageradamente emocional que supervaloriza as qualidades e subestima os defeitos, embora sabemos que o vocalista do Guns N'Roses é um dos nomes mais medíocres do rock mundial.

Dizer isso não é desaforo. Afinal, a História do Rock registra centenas de bandas, sobretudo as dos anos 1960 e 1970, de qualidade infinitamente superior ao Guns N'Roses, com cantores com voz bem mais empolgante do que o esganiçado Axl. Mas como o Brasil acabou se tornando matuto nos últimos anos, Axl é "rei" dentro de uma fauna de "sertanejos" e "funkeiros".

Só que combater o "funk" e o "sertanejo" com Guns N'Roses soa como se alguém dissesse "Eu não quero o seis! Quero meia-dúzia". Soa como se trocasse a abóbora pelo jerimum, E Axl Rose torna-se um mito surreal próprio do provincianismo dos brasileiros.

A comparação com Chico Xavier chega a ser interessante, porque os plágios de referências que Axl Rose lança através do Guns N'Roses são vistos também como "incorporações", já que, no Brasil, as pessoas não costumam ter discernimento entre a cópia e o original, entre o pastiche e o autêntico.

Seja na bermuda justa copiada do Bruce Dickinson do Iron Maiden, seja em arremedos sonoros muito mal assimilados do Led Zeppelin (principal fonte de cópia do Guns) e do AC/DC, seja pela rebeldia forçada de Axl Rose que oculta posturas reacionárias, já que Axl era machista, por exemplo.

Com sua banda, Axl gravou cover de Charles Manson (sim, o psicopata era um músico frustrado de rock) e ainda fez música fazendo apologia ao feminicídio, como "I Use to Love Her", cujos primeiros versos dizem: "I use to love her / But I have to kill her". Defesa de honra?

Isso sem falar de músicas sofríveis, como "November Rain", que mais parecem vindas do brega dos anos 1970, e que só mesmo uns matutos que, por ouvirem muito "sertanejo", "pagode", "funk" e axé-music ao seu redor, endeusam o primeiro rock que "encontram pela frente" - através da retrógrada mídia televisiva e radiofônica - , consideram "um clássico absoluto" do gênero.

Só mesmo o provincianismo brasileiro para explicar esse comportamento "cordeirinho" dos "roqueiros" brasileiros, que celebram o Dia Mundial do Rock que o resto do mundo ignora, que aceitam conformadamente ouvir uns punhados de hits do gênero e ficam endeusando os Guns N'Roses como "uma das maiores maravilhas do mundo". Eles precisam despertar.

domingo, 12 de julho de 2015

Os Ministérios de 'Nosso Lar' e da Oceânia de '1984'

WINSTON SMITH E ANDRÉ LUIZ EM SUAS "ENCARNAÇÕES" CINEMATOGRÁFICAS, ATRAVÉS DE JOHN HURT E RENATO PRIETO.

É curioso que tanto o "realista", mas no fundo fictício, livro Nosso Lar, de Francisco Cândido Xavier, e 1984, de George Orwell, apresentem ministérios, embora os dois livros caminhem em horizontes ideologicamente opostos.

A obra de Orwell era um dramático questionamento da tirania política e um retrato cruel das relações entre o autoritarismo politico e a submissão humana. A obra de Chico Xavier já é uma apologia à submissão humana e uma certa relativização do poder autoritário, dentro de uma visão um tanto romântica da autoridade e dos "desígnios superiores" mesmo através dos infortúnios.

Pois George Orwell, através do personagem Winston Smith - interpretado no cinema por John Hurt - , fazia as críticas ao autoritarismo do Grande Irmão. Já Chico Xavier, através de André Luiz ("adaptado" de plágios de George Vale Owen com sugestões do menino-prodígio Waldo Vieira?), fazia o contrário, apenas questionando os "excessos" do autoritarismo, mas nunca contestando a servidão e a submissão.

Mas os dois livros, o de 1943 (Nosso Lar) e o de 1948 (1984), têm em comum a divisão de ministérios. O do livro de Chico Xavier mostra cada ministério com doze ministros e equipe de colaboradores. O do livro de George Orwell mostra cada ministério com um líder central, vários departamentos e uma enorme quantidade de funcionários.

Vamos primeiro descrevendo, de acordo com o que dizem os livros, os ministérios respectivos, começando pelo "dócil" livro de Chico Xavier e do fictício personagem André Luiz (nome usado em homenagem a um falecido irmão do anti-médium mineiro). Vamos começar por Nosso Lar:

MINISTÉRIO DA UNIÃO DIVINA - Segundo o livro, o ministério tem como função estabelecer contatos entre a administração da cidade espiritual de Nosso Lar, às vezes conhecida como Colônia Nosso Lar, e os "mundos espirituais superiores".

MINISTÉRIO DA ELEVAÇÃO - Responsável pela realização de preces coletivas e pelos trabalhos de elevação espiritual dos habitantes da colônia.

MINISTÉRIO DO ESCLARECIMENTO - Responsável pelo arquivamento de registros sobre as vidas passadas de cada espírito, e pela autorização ou proibição de acesso aos mesmos.

MINISTÉRIO DA COMUNICAÇÃO - Destinado ao contato entre os habitantes de Nosso Lar com as pessoas encarnadas, pelo menos na Terra. Local onde supostamente André Luiz teria entrado em contato com Chico Xavier para a elaboração dos livros que levam o nome do personagem.

MINISTÉRIO DO AUXÍLIO - Destinado a acolher os espíritos sofredores que se encontram em zonas inferiores, como o Umbral. Através desse ministério, os espíritos são resgatados e internados no hospital em Nosso Lar.

MINISTÉRIO DA REGENERAÇÃO - Responsável por várias tarefas referentes à recuperação moral dos espíritos e da preparação para a volta à vida terrena, através da reencarnação.

Então tá. Tudo muito lindo e maravilhoso. Vamos ver agora o que corresponde cada ministério descrito na Oceânia do livro de George Orwell, partes subordinadas ao Partido Interno comandado pelo Grande Irmão (Big Brother):

MINISTÉRIO DA VERDADE - Seu trabalho, entre outras tarefas, consiste em manipular a memória do passado conforme os interesses do Grande Irmão, falsificando os dados antigos e distorcendo a memória histórica, além de produzir mensagens de propaganda do seu chefe maior.

MINISTÉRIO DO AMOR - Responsável pela captura e repressão aos opositores do regime do Grande Irmão. Trabalha também como administradora de presídios e organizadora dos processos de tortura e assassinato, contando com o Ministério da Verdade para apagar da memória qualquer vestígio dos condenados que deixam de viver no gigantesco país.

MINISTÉRIO DA PAZ - Responsável pela estrutura militar que promove as guerras da Oceânia, ora com a Eurásia, ora com a Lestásia. São guerras feitas sem objetivo de vitória, mas apenas como uma espécie de passatempo militar. O Ministério da Verdade o auxilia na manipulação de dados que façam todos esquecerem antigas rivalidades do país, seja com a Eurásia, seja com a Lestásia.

MINISTÉRIO DA FARTURA - Responsável pela manutenção das desigualdades sociais, pelos relativos controle e manutenção da pobreza, criando uma zona proletária isolada da área "civilizada". Eventualmente trabalha pela restrição de fornecimento de produtos, tem a ajuda do Ministério da Verdade para informar o oposto do que se faz em prejuízo à economia dos habitantes de Oceânia.

Há que se ressaltar que, se a Oceânia tem como chefe o misterioso Grande Irmão, que ninguém tem ideia se é real ou não, apesar de ser um assustador figurão de bigode de semblante agressivo, Nosso Lar tem a figura de Anacleto, o longevo chefe da Governadoria, portanto governador da "colônia".

Situando temporalmente, a Oceânia de 1984 havia tido se formado aproximadamente na década de 1960. O Grande Irmão tinha uma intenção de poder eterno e dominação interminável, mas parecia ter algo entre 20 anos no poder.

Já no Nosso Lar, temporalmente situado em 1939 e situado sobre o céu do Estado do Rio de Janeiro e do antigo Distrito Federal (a cidade do Rio de Janeiro, hoje uma roça dotada de prédios enormes), região que faria parte da Oceânia de Orwell, o governador Anacleto está há muito tempo no poder.

Consta-se que, em 1939, Anacleto celebrava 114 anos de poder. Sendo assim, ele assumiu Nosso Lar em 1825, quando a família real portuguesa visitou o Brasil, o "grito da independência" havia sido dado pelo garanhão Dom Pedro I e Allan Kardec não era assim chamado, sendo apenas o jovem estudante Hippolyte Rivail, interessado pela obra do pedagogo suíço Johann Pestalozzi.

E como poderíamos relacionar os ministérios da Oceânia e de Nosso Lar? Talvez o Ministério da Verdade do primeiro colaborasse com o Ministério do Esclarecimento do segundo quando as vidas passadas são usadas para "justificar" os pesados sofrimentos humanos do presente.

Talvez os funcionários do Ministério da Verdade pudessem ajudar forjando um "passado romano" para cada sofredor, de forma que os piores sofrimentos e os mais irresolúveis infortúnios sejam "explicados" pela tese de que as vítimas teriam sido sempre algum perverso cidadão que viveu no Império Romano.

O Ministério da Paz colaboraria para usar os "irmãozinhos sofredores" do além-túmulo para perturbar a missão terrena dos cidadãos, criando assim uma "massa popular" para ser atendida pelos "bondosos" tarefeiros do Ministério do Auxílio.

O Ministério da Verdade proibiria os espíritos do além-túmulo de entrarem em comunicação com os cidadãos da Terra, fazendo com que o Ministério da Comunicação se tornasse, na verdade, um órgão de propaganda religiosa através de mensagens que os supostos médiuns tiram de suas próprias imaginações e os nomes dos mortos apenas são usados para atribuir tendenciosamente as "autorias".

O Ministério da Fartura, promovendo a pobreza e os retrocessos sociais, poderia assim fazer a parceria com o Ministério do Auxílio na medida em que cria uma multidão de sofredores que faria o referido ministério de Nosso Lar "mostrar serviço".

O Ministério da União Divina poderia, com o Ministério da Paz de Oceânia, destruir as áreas evoluídas para assim obrigar as áreas mais atrasadas a se subordinarem ao religiosismo "espírita" e se virar até as tripas para ter algum progresso social (e olhe lá!).

O Ministério da Regeneração do Nosso Lar pode atuar com o Ministério do Amor de Oceânia no sentido de persuadir docilmente as pessoas a acreditar que dois mais dois é igual a cinco, como O'Brien tentou fazer, "à sua maneira" com Winston Smith, no seu processo de "reajuste espiritual" por ter desobedecido os desígnios do Grande Irmão.

Winston foi exposto ao ataque dos ratos, mas talvez isso seja um "reajuste espiritual", porque o condenado teria sido um antigo romano que se dedicava a tentar matar ratos com os venenos disponíveis na época.

Mas quem sofrer muito no Ministério do Amor e aceitar as "verdades" do Ministério da Verdade, pode ser que tenha uma chance de receber uma promoção, de preferência póstuma ou bem tardia, pelo Ministério da Elevação e assim ficar grato ao Grande Irmão pelas graças dadas a ele na recepção dos seus irmãos na chegada ao Nosso Lar.

sábado, 11 de julho de 2015

Data-Limite, segundo George Orwell


Pouco depois de, segundo os "espíritas", o "mentor" de Francisco Cândido Xavier, o jesuíta Emmanuel ter adiantado as "previsões" que seu subordinado divulgaria em 1986 para Geraldo Lemos Neto, mas que se referiram a um sonho de 1969 tido após a viagem de astronautas da NASA ao solo da Lua, um livro havia divulgado uma concepção de mundo totalitário e sombrio do futuro.

A obra 1984, de George Orwell, escritor britânico nascido na Índia, cuja escolha do número provavelmente era um trocadilho com o ano de sua publicação, 1948, pouco antes do falecimento do autor (que morreria no início de 1950), é vista erroneamente como uma crítica ao socialismo, já que George (pseudônimo de Eric Arthur Blair), havia defendido ideias socialistas com o livro infantil A Revolução dos Bichos. de 1945.

O que Orwell critica é o totalitarismo, e observa-se que ele pode ser feito também em regimes capitalistas. Com uma abordagem bem mais cruel do que Admirável Mundo Novo (Brave New World) de Aldoux Huxley, 1984 mostra um mundo reduzido a três gigantescas nações, Oceânia, Eurásia e Lestásia.

O cenário central de 1984 comprova que as críticas não se dirigem necessariamente ao comunismo russo. Tanto que a Oceânia, que corresponde a esse cenário, engloba os EUA e o Reino Unido, países centrais do capitalismo internacional. O Brasil está inserido no seu território, governado por um misterioso tirano chamado Grande Irmão (Big Brother, no original).

A Eurásia é que correspondia à União Soviética e o restante da Europa (a antiga URSS e a atual União Europeia seriam parte de um mesmo país), além de parte da Ásia. Já a Lestásia corresponderia ao restante da Ásia, ou seja, a China e os países abaixo deste, além do Japão, da Manchúria, Mongólia e Tibete.

A Oceânia englobaria as Américas, as ilhas do Atlântico (inclui Reino Unido), a Austrália e países vizinhos próximos à Ásia e parte meridional da África. Consta-se que a maior parte de seu território coincide com o mundo que "restaria" após a hecatombe imaginada por Chico Xavier.

Há fronteiras não delimitadas entre os três países, o que faz com que eles tenham uma estranha relação de belicosidade. A Oceânia lutaria contra a Lestásia ou a Eurásia, sem que qualquer uma dessas nações vença ou perca, sendo que a Oceânia usaria um dos dois países como aliados no combate ao outro.

ADULTERAÇÃO DA MEMÓRIA

O que a obra destaca é o governo totalitário da Oceânia por parte do poder ilimitado do misterioso Grande Irmão, que pode ver todos os cidadãos, através da chamada teletela - um enorme aparelho de televisão - , mas ninguém pode vê-lo pessoalmente. Eles o veem apenas pela imagem refletida no aparelho, instalado na maioria das casas e outros lugares.

Os cidadãos são obrigados a se submeterem ao poder do Grande Irmão, que conta com colaboradores em quatro ministérios destinados a exercer o seu domínio e o seu projeto ideológico. Os quatro ministérios têm suas denominações correspondentes aos objetivos que lhes são opostos.

Assim, o Ministério da Verdade é comprometido com a mentira a ser difundida pela teletela. O Ministério da Paz se dedica à guerra. O Ministério do Amor é voltado para a tortura e a repressão de quem se opõe ao poder do Grande Irmão e o Ministério da Fartura é voltado para a pobreza e para o desabastecimento de produtos.

O personagem principal, Winston Smith, é um funcionário do Departamento de Documentação do Ministério da Verdade, onde trabalha pelo ideal do "duplipensar", processo de corromper a memória através da distorção da realidade e do falseamento do passado, através da adulteração dos registros históricos, modificando documentos antigos criando novos arquivos com dados falsos e destruindo os originais.

O Grande Irmão, um senhor bigodudo e de aparência agressiva, é capaz de ler os pensamentos dos outros e intervir na intimidade de cada pessoa. É um misterioso ser que "nunca morre" e se manterá eternamente no poder. Os conceitos de amor e solidariedade são eliminados. As famílias têm nos filhos seus próprios espiões, capazes de denunciar e ameaçar seus próprios pais.

O duplipensar é um processo de pensamento tão engenhoso que a mentira e a dissimulação se tornam seus princípios maiores. Ele é um dos principais processos de adulteração da compreensão e da memória, e é conduzido pelas manipulações ideológicas dos programas da teletela.

Até o significado de duplipensar é contraditório, reduzindo a verdade e o ato de pensar como um processo interminável de dissimulações. Um exemplo é acreditar que a Oceânia está em guerra com a Eurásia ou com a Lestásia, visões que podem mudar constantemente.

Winston sente oposição ao sistema, mas não adota uma postura bastante firme. Limita-se a escrever tudo em um diário mantido em sua casa. Conhece Júlia, aparentemente uma espiã que trabalha no Departamento de Ficção do Ministério da Verdade, que finge ser fiel ao regime do Grande Irmão durante as projeções dos Dois Minutos de Ódio, espécie de pequeno documentário feito para produzir uma catarse violenta nos telespectadores.

Nele, curiosamente, o alvo do ódio se chama Emmanuel. Mas não é o padre jesuíta que, pelo jeito, iria apoiar o Grande Irmão, apenas reprovando seus excessos coercitivos, a invasão à privacidade e a retórica odiosa. Trata-se, portanto, de Emmanuel Goldstein, antigo colaborador do Grande Irmão que se torna seu opositor ferrenho.

Júlia parece inspirar ódio em Winston, até que, ao segui-lo depois que ele visita um antiquário, lhe dá um papel secreto com a mensagem "Eu te amo". Os dois passam a ter um breve romance clandestino, chegando a se hospedarem no antiquário.

Decidem conhecer O'Brien, um funcionário do governo do Grande Irmão que Winston tinha falsa impressão de ser algum opositor do regime. Ele e Júlia o conhecem e O'Brien finge estar solidário a eles, incentivando-os a fazer oposição ao Grande Irmão e oferecendo até enviar dias depois um exemplar do livro de Emmanuel Goldstein.

Quando os dois pareciam confiantes na possibilidade de se mobilizarem contra o Grande Irmão, o próprio O'Brien envia soldados que capturam o casal, quando este estava alojado no antiquário, e o separam.

Winston Smith é mandado para a sala 101, onde são feitas as piores torturas e descobre o sadismo calculista de O'Brien, que faz um terrível diálogo com o prisioneiro, misturando ironias e falsa gentileza. Sobretudo quando O'Brien, através de um duelo argumentativo, tenta convencer Winston a acreditar que a soma de dois mais dois é igual a cinco.

EMPOBRECIMENTO DE VOCABULÁRIO: ALERTA PARA O BRASIL?

A obra é uma crítica ao totalitarismo e Oceânia é uma mistura da agressividade de Stalin e de Hitler. Além do "duplipensar", existe a "novilíngua", que é uma espécie de empobrecimento de vocabulário que, por incrível que pareça, pode ser inferido como uma mensagem indireta para o Brasil.

Afinal, um dos temas subestimados pelos analistas dos problemas da política e da mídia é o chamado "vocabulário do poder", em que um dos poucos teóricos é o jornalista inglês Robert Fisk. A compreensão mais banal que existe no assunto, pelos brasileiros, é a manipulação midiática que tenta fazer com que os protestos contra os abusos do capitalismo sejam vistos como "protestos contra a globalização".

Mas o "vocabulário do poder" age no Brasil de maneira que palavras passem a ter significados múltiplos e vagos, substituindo várias palavras diferentes por apenas uma que "sintetize" seus significados. Em 1984, Syme, personagem que chega a conhecer Winston durante um almoço, é responsável pela "novilíngua", feita com o objetivo de tornar o vocabulário mais precário possível.

É o que vemos no Brasil, quando gírias divulgadas pela mídia oligárquica tornam-se rapidamente palavras correntes e de uso pretensamente universal, corrompendo o sentido de gíria como um jargão especificamente grupal, provisório e temporal e impondo tais palavras como se fossem jargões permanentes acima das ideologias, das "tribos" (grupos sociais) e dos tempos.

Uma gíria normalmente nasce, cresce e morre rapidamente, e se voltam a grupos sociais específicos e restritos no tempo e no espaço. Mas as "gírias midiáticas" que se transmitiu pelas redes de TV brasileiras desde os anos 90 tentaram romper essas noções de tempo e espaço e se tornarem absolutas, empurradas até para a inclusão nos dicionários oficiais.

Assim, uma gíria como "galera", antes privativa de marinheiros e esportistas, passa a ser um substitutivo tendencioso para "grupo", "família", "turma" e "equipe", complicando até mesmo a linguagem. Pois, em vez de "família", a pessoa acaba dizendo "galera lá de casa". Em vez de "equipe", "galera do trabalho", e, em vez de "turma", "galera lá da rua", "galera da escola" etc.

A gíria "balada", restrita a um meio clubber de São Paulo, tornou-se a "gíria totalitária" através de um esforço conjunto entre a Jovem Pan FM, a Rede Globo e o empresário e apresentador Luciano Huck. Com um significado bastante vago que tanto pode equivaler a uma festa com DJs quanto a um simples jantar entre amigos. A JP criou até um programa chamado "Na Balada".

A gíria "balada", difundida pela imprensa ultraconservadora, tornou-se o símbolo do golpismo midiático aplicado aos jovens. E tornou-se gíria dominante, através de um forte lobby publicitário que fez a palavra "balada" ser usada em toda atividade ligada ao entretenimento noturno, empobrecendo o vocabulário. Não se fala mais "festa", "noitada", "gandaia". Tudo virou "balada".

Não por acaso, a palavra "balada" faz trocadilho com um conhecido palavrão, usado como sinônimo mais agressivo de "idiota", no qual apenas há a diferença da conhecida gíria com a outra palavra através da letra "l", usada no lugar do segundo "b" da outra, e "d" no lugar de "c".

O caráter arbitrário dessa gíria, que faria o Grande Irmão da obra de Orwell ficar orgulhoso, se agrava na medida em que a Jovem Pan FM, que popularizou a expressão "balada", hoje se tornou reduto de jornalistas ultrarreacionários, como Reinaldo Azevedo e Rachel Sheherazade, que fazem a rede de rádios ser pejorativamente apelidada de "Klu Klux Pan", em trocadilho com um movimento racista-medieval estadunidense.

"VIGILÂNCIA" PASSOU A SER "ESPIADINHA"

A manipulação midiática, além disso, fez com que o simples ato do Grande Irmão vigiar a privacidade dos cidadãos da Oceânia tivesse seu sentido minimizado quando um holandês, John De Mol, decidiu criar uma estranha competição chamada Big Brother, que virou franquia em vários países, inclusive o Brasil, virando o famoso e controverso Big Brother Brasil.

Assim, o totalitarismo denunciado por George Orwell acaba sendo amenizado, talvez por acidente, pela ideia de reality show em que uma multidão de indivíduos vivem o tempo todo em uma casa durante um certo período visando um prêmio em dinheiro.

A grande mídia brasileira, reacionária, achou isso ótimo, na medida em que o totalitarismo descrito no livro 1984 tivesse seu sentido deturpado para um ingênuo voyeurismo. No lugar da vigilância do Grande Irmão, há apenas a divertidamente maliciosa "espiadinha", sob o comando de outro militante da mídia reacionária, Pedro Bial, um dos fundadores do Instituto Millenium.

Assim, a Jovem Pan FM que popularizou a gíria "balada" pode contar com jornalistas ultrarreacionários que seus ouvintes falarão a referida gíria sem perceber as armadilhas das chamadas "palavras de poder", que além de outras gírias, promoveu os simples fregueses a "clientes", deturpando o sentido restrito da palavra "cliente" que, levianamente, agora acolhe "toda a freguesia".

O Brasil também tem o seu equivalente da "cultura proletária" que o Partido Interno, o partido que domina a Oceânia, determinava, através de departamentos autônomos ligados ao Ministério da Verdade que produziam entretenimento chulo, e arte precária, atrações pornográficas e valores sócio-culturais degradantes, incluindo até mesmo a produção de canções sentimentaloides calculadas por um aparelho metrificador chamado "versificador".

Eram produzidos, na Oceânia, também jornalecos ordinários que continham polícia, esporte e astrologia, filmes de entretenimento pornográfico e noveletas de baixíssimo preço e nível literário ainda inferior. O que não é isso senão o paradigma que a grande mídia determina que seja a "cultura popular" no Brasil?

Empobrecendo e deturpando o nosso vocabulário com pretensos neologismos que só servem aos interesses dos chefões midiáticos, o Grande Irmão do livro de Orwell ficaria mais tranquilo. Não é por acaso que Orwell imaginou o Brasil como país integrante da Oceânia, já que nosso país é marcado pela memória curta e pelas "palavras de poder" que condizem às manipulações dos poderosos de 1984.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Data-Limite, segundo Aldous Huxley


A ficção muitas vezes diz melhor sobre o futuro do que relatos supostamente realistas de movimentos religiosos, mesmo os que se apoiam numa pretensa racionalidade. Aliás, o "realismo" das obras religiosas, como nas de Francisco Cândido Xavier, é muitíssimo mais fictício do que as ficções científicas que trazem mensagens mais realistas, ainda que metafóricas ou subliminares.

Dois livros mostram esse realismo, e trazem uma previsão mais sombria do mundo pós-moderno, cada um à sua maneira: Admirável Mundo Novo (Brave New World), do escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963) e 1984, do escritor inglês nascido na Índia George Orwell (1903-1950).

Vamos começar com Admirável Mundo Novo, que Huxley lançou no mesmo ano em que o "visionário" Francisco Cândido Xavier lançou um pastiche de coletânea de poemas, atribuídos tendenciosamente a poetas e personalidades falecidas, o constrangedor livro Parnaso de Além-Túmulo, uma obra "superior" que foi remendada cinco vezes em 23 anos (!).

O ano foi 1932, que os paulistas reconhecem como o ano da Revolta Constitucionalista, celebrada ontem, um movimento de oposição da Getúlio Vargas, então há dois anos no poder. Os constitucionalistas - que chegaram a ter um empresário do jornal O Estado de São Paulo como um de seus militantes - queriam uma nova Constituição Federal e a separação de SP do resto do país.

Seria a primeira "divisão" do Brasil, se levarmos em conta a dúbia argumentação da "profecia" de Chico Xavier? Conciliador, ele não queria o Brasil unido num só? Se bem que a "divisão" descrita em 1969 é risível, porque fala até que os eslavos, após a "catástrofe no Hemisfério Norte", deixariam suas regiões muito frias para viverem (ou morrerem) no calor do Nordeste.

Previsões em previsões, maior realismo está na ficção de Aldous Huxley, que imaginou uma sociedade "racionalista" que, em muitos aspectos, condiz ao Brasil da década de 1990. Digamos que, se George Orwell previu o Brasil da ditadura militar (embora 1984 fosse o ano da agonia do regime), Aldous Huxley previu o Brasil dos anos 1990. Isso em termos aproximados, embora no fundo o Brasil tornou-se uma mistura de um e outro nos últimos 50 anos.

A sociedade "racionalista" do livro de Huxley não possui ética nem valores morais, as pessoas são biologicamente e socialmente pré-condicionadas, há uma padronização de pensamento e desestimula-se o raciocínio questionador, o sistema educacional determinado pelo governo chega ao ponto de inserir nos bebês o desenvolvimento de fobia e pavor em relação aos livros.

As crianças não são geradas por ato sexual. Não existe amor nem estrutura familiar. Exercer o senso crítico era uma atividade proibida e considerada perigosa. As neuroses, dúvidas e inquietações eram dissipadas com o consumo de uma droga, uma espécie de pílula chamada "soma", que supostamente parecia não apresentar efeitos colaterais.

A sociedade descrita no "admirável mundo" era padronizada - Jaime Lerner, Eduardo Paes e Carlos Roberto Osório iriam adorar viver nele - e Huxley imaginou uma divindade denominada "Ford", tanto pela rima aproximada com "God" (Deus, em inglês) quanto pela referências ao fordismo e ao método da reprodução em série simbolizado pelo empresário dos automóveis Henry Ford.

No enredo, há um protagonista descontente com o sistema. Bernard Marx, em Admirável Mundo Novo, antecedeu, neste sentido, o Winston Smith de 1984. E se Smith ia para um antiquário situado em áreas miseráveis na Oceânia (o país central da obra de Orwell, que analisaremos depois), Marx conhece uma "reserva histórica" que, para os padrões de 1932, corresponde a um passado da humanidade.

A sociedade de Admirável Mundo Novo parece "menos cruel" que a de 1984. O Grande Irmão do livro de Orwell é um chefe-divindade da tirânica Oceânia. Ford é a divindade do Mundo Novo. O'Brien é uma espécie de co-chefe da Oceânia e coordenador de prisões, torturas e mortes. Mustafá Mond é uma espécie de chefe e intelectual que, para si, detém uma grande erudição cultural.

Em ambos os livros, observam-se sociedades padronizadas, das quais o pensamento único é lei. Ficamos imaginando, com o Rio de Janeiro afundado no provincianismo de deixar pasmos até pescadores do pantanal, o que seria a sociedade se expandisse a padronização visual já aberrantemente imposta aos ônibus para o âmbito social.

Na padronização de comportamentos e estereótipos do "mundo novo", Maria Júlia Coutinho não seria jornalista, mas uma porta-estandarte de escola de samba. Seria um horror a padronização de comportamentos e condições, uma grande catástrofe de preconceitos e castrações que desmascararia a suposta racionalidade do "padrão Jaime Lerner" se ele ultrapassasse o âmbito dos ônibus (palavra que vem do latim omnibus, "para todos") para o âmbito pessoal.

E ninguém imagina que muitos tecnocratas são retrógrados. Jaime Lerner era "filhote da ditadura", "aluno-modelo" da UFPR do reitor Flávio Suplicy de Lacerda - depois ministro do general Castelo Branco, prometeu criar uma entidade estudantil ligada à ditadura e privatizar as universidades públicas, acendendo a pólvora dos protestos estudantis de 1966-1968 - , político da ARENA, padrinho político do pai do repressivo Beto Richa.

No entanto, Lerner vende uma falsa imagem de "progressista", sendo considerado um "deus" por seus seguidores, diante da divinização de propostas e visões que não são tão socialmente benéficas como se imagina, mas adotam paradigmas "técnicos" que tentam justificar prejuízos como se fossem "sacrifícios necessários", dentro da noção religiosa-medieval de sacrifícios humanos em nome da fé.

A sociedade do Mundo Novo manipula corações e mentes tanto quanto a de Oceânia, mas sem uma violência aparente. Há uma suposta benevolência dos poderosos, uma analogia para a fria "hospitalidade" que se observam nos sisudos e quase autômatos "espíritos superiores" de Nosso Lar, a cidade imaginada por Chico Xavier.

Nosso Lar, o livro, é uma espécie de ficção científica ruim, que tenta, por isso mesmo, se apoiar na pretensão de ser um "relato realista" do que seria o "mundo espiritual". Existem até "estudos" sobre a suposta "cidade espiritual" e só falta ter uma linha nas Ciências Sociais brasileiras para ela, já que existem "espíritas" com setores específicos nas universidades de Juiz de Fora e São Paulo.

Bernard Marx encontra, na "reserva histórica" onde se situam os "selvagens", Linda, que foi oriunda da civilização, mas que foi expulsa dela por ter gerado um filho por vias biológicas, em vez da reprodução em incubadoras e a separação por "castas".

As "castas" são delimitadas em cinco, como grupos sócio-biológicos específicos. Tudo padronizado. Jaime Lerner, Eduardo Paes, Carlos Roberto Osório. Alexandre Sansão e seguidores ficariam com água na boca e adorariam servir ao Mustafá Mond e serem devotos do "deus" Ford.

As castas são Alfa, de cor cinza, Beta, de cor amora, Gama, de cor verde, Delta, de cor cáqui e Ípsilon, de cor preta. Todas dotadas de padrões sociais específicos e comprometidas apenas para o trabalho e a produção. Não existe monogamia, cada um pertence a todos e a vida é tomada a um só padrão de racionalidade e submissão ao poder.

O sexo existe apenas como entretenimento, assim como existe também a "vida noturna" - que a "novilíngua" da Oceânia de George Orwell perdeu de não definir como "balada", façanha só tardiamente feita por Luciano Huck (que o Grande Irmão adoraria tê-lo como colaborador do Ministério da Verdade) - , da qual a "soma" é um alucinógeno estimulante.

As noitadas que se tornaram a obsessão dos jovens brasileiros "médios" correspondem ao tipo de diversão que os "civilizados" do Mundo Novo faziam, e o consumo de "soma" seria uma alegoria do que os jovens pensam nas drogas, supondo nelas a "ausência" de efeitos colaterais.

A sociedade do Mundo Novo, como a da Oceânia, não admite a individualidade - os sociopatas reacionários das "midias sociais" na Internet, com seus exércitos de fakes, "piram" - , e os indivíduos não passam de integrantes de uma coletividade rigidamente planejada.

Em 1958, Aldous Huxley publicou uma coletânea de ensaios Regresso ao Admirável Mundo Novo (Brave New World Revisited), que correspondem à interpretação de muitos aspectos da obra de 1932 em relação às transformações sociais ocorridas depois de então, em especial relacionadas aos efeitos da Segunda Guerra Mundial.

Curiosamente, esse livro de ensaios foi produzido três anos após Chico Xavier lançar a edição "definitiva" de Parnaso de Além-Túmulo, ou seja, em 1955, depois de tantas reparações para um livro que se supunha uma mensagem "acabada".

Mas, em 1958, a produção desse livro de poemas já havia revelado um escândalo de fraudes, trazido pelo estranhamente falecido sobrinho de CX, Amauri Xavier Pena, que denunciou a farsa tomando como ponto de partida a criação da "antologia poética" de 1932. Admirável Brasil Novo.