BISPO CLODOMIR E SEU MESTRE, EDIR MACEDO
Depois dos Gladiadores do Altar, a Igreja Universal do Reino de Deus lançou mais um apelo. A partir de declarações do bispo Clodomir dos Santos Matos, em declaração dada ao repórter de Veja SP, Henrique Tavares, sem saber na ocasião da função do repórter, atribuiu os terremotos ocorridos no Nepal à "oferenda que as pessoas fazem ao diabo".
Segundo Clodomir, que participou de uma reunião da IURD para "explicar" o ocorrido "sob a ótica da fé", a ocorrência seria um sinal do Apocalipse bíblico, um "sinal dos tempos" que, segundo a tese, seria marcada por inúmeras dores a serem sofridas pela humanidade.
A tese acrescenta que outros "sinais apocalípticos" acontecem, como a fome, as guerras e o "esfriamento do amor ao próximo". Logo a IURD, que aposta num grupo como os Gladiadores do Altar, que usa métodos de organização militar, para resolver a "falta de amor" no planeta.
Clodomir descreve essa tese sobre o "fim do mundo" sem que admitisse que o Nepal se situa numa área de intensa atividade sísmica, localizada entre duas placas tectônicas, a eurasiana e a indiana. Também não foi mencionada qualquer hipótese de ajuda da IURD às vítimas do terremoto, na referida reunião.
CONCORDÂNCIA COM CHICO XAVIER
A hipótese de "castigo divino" também é dita, à sua maneira, pela "profecia" de Chico Xavier, que também corroborava, ao seu modo, a "oferenda ao diabo" que "propiciou" os dois terremotos que ocorreram no Nepal, com muitos mortos.
Nepal faz parte do Hemisfério Norte, que Chico Xavier disse que "seria castigado pela Natureza" se as autoridades dos países envolvidos não resolvessem seus conflitos bélicos e as ocorrências de atividades terroristas em alguns países, como os do Oriente Médio.
Chico Xavier, através do relato de seu sonho de 1969, acreditava que o Hemisfério Norte tornaria uma região "inabitável" por causa das catástrofes que seriam geradas pela Natureza que reagiria à ganância humana e à sua obsessão em promover conflitos e atos terroristas.
Não é muito diferente da Igreja Universal. Afinal, tanto a "profecia" de Chico Xavier quanto o "aviso" do bispo Clodomir seguem a mesma lógica: a humanidade insiste em ser cruel e é castigada pela Natureza por causa disso.
É o moralismo religioso tentando justificar as catástrofes naturais, quando a Ciência tão somente as explica através de falhas geológicas, em se tratando de áreas de formação do solo relativamente recentes. Portanto, longe dos juízos de valor de Chico Xavier e da IURD.
Portanto, nada de culpar os povos porque se comportaram mal. Nada de Sodoma ou Gomorra. Os terremotos ocorreram no Nepal por causa de suas condições geológicas, seu solo tem a estrutura propícia para atividades sísmicas. Só isso. A Ciência não é moralista, é realista. O moralismo religioso é que é fora da lógica, mesmo quando tenta julgar a realidade.
segunda-feira, 18 de maio de 2015
domingo, 17 de maio de 2015
Fred Figner perdeu uma boa oportunidade de pesquisar contatos com espíritos
Que história diferente poderia, em parte, ter tido o Espiritismo no Brasil se o empresário Fred Figner não tivesse entrado no caminho distorcido da Federação "Espírita" Brasileira, então no calor do mais escancarado roustanguismo.
Antes de mais nada, vamos contar a história de Fred Figner. Nascido na cidade tcheca de Milesvko, em 02 de dezembro de 1866, Com 15 anos, em 1882, viajou para os Estados Unidos como passageiro de terceira classe no navio Main e apenas com a grana da travessia.
A chegada aos EUA, no entanto, foi proveitosa, porque no país estava sendo divulgada a novidade lançada cinco anos antes por Thomas Edison, o fonógrafo, primeiro aparelho que gravava e reproduzia sons através de cilindros giratórios.
Ele então adquiriu o aparelho e decidiu, vendo um novo horizonte profissional pela frente, viajar para o Brasil. Desembarcou em Belém do Pará, em 1891, sem entender uma única palavra em português. No entanto, foi lá onde apresentou o fonógrafo ao público, o que se tornou um grande sucesso.
Ele realizou uma excursão de divulgação do novo aparelho em capitais como Manaus, Fortaleza, Natal, João Pessoa, Recife e Salvador e depois fez o mesmo no Rio de Janeiro, quando veio a ideia de usar um sobrado na Rua Uruguaiana para criar a primeira loja de discos e vitrolas, a Casa Edison.
Foi nesta casa a realização da primeira gravação, em 1902, de uma música brasileira, o lundu "Isto é Bom", do compositor baiano Xisto Bahia, interpretada por Manuel Pedro dos Santos, conterrâneo do autor da canção, daí o apelido Bahiano.
A gravação ocorreu já na nova sede da Casa Edison, na Rua do Ouvidor, instalada em 1900, que contava com um novo estúdio de gravação e uma melhor estrutura para comercialização de vitrolas e discos. Figner já havia recebido do cientista judeu Emile Berliner, vindo dos EUA, um exemplar do novo fonógrafo, com cera em vez de cilindro, que permitia uma qualidade melhor do som gravado e reproduzido.
A procura pelos discos da Casa Edison era tanta que, em 1913, Figner criou uma indústria fonográfica na Boulevard 28 de Setembro, em Vila Isabel, denominada Odeon, que mais tarde se transferiu para a Rua São Bento, em São Paulo.
A Odeon foi durante décadas parceira da inglesa EMI, que a absorveu, tornando-se a filial brasileira da companhia estrangeira, até que em 2014, com sua falência, o espólio mundial foi dividido e a parte da EMI no Brasil foi adquirida pela Universal Music, que há havia absorvido a antiga Polygram.
Famoso por sua generosidade e caridade, Figner transformou sua mansão - hoje Mansão Figner - em hospital quando houve a pandemia da gripe espanhola, em 1918, que causou várias mortes, entre elas a do presidente da República, Rodrigues Alves. O próprio Figner contraiu a doença, mas conseguiu se curar.
Figner tinha uma propriedade em Jacarepaguá, próxima ao hoje conhecido bairro de Cidade de Deus (inexistente na época), e decidiu doá-la para servir de abrigo para atores aposentados, que se tornou o Retiro dos Artistas, até hoje em funcionamento. Pela sua contribuição para a cultura brasileira, tornou-se conhecido como "o mais brasileiro dos estrangeiros".
O "ESPIRITISMO DA FEB"
Fred Figner, que abrasileirou seu prenome para Frederico, conheceu o Espiritismo de maneira errada, já que, em contato com Pedro Sayão, irmão da cantora Bidu Sayão e ambos filhos do dirigente "espírita" Antônio Luís Sayão, um dos fundadores da FEB.
A essas alturas a FEB fazia sua propaganda do "espiritismo" através de curas e atividades filantrópicas, na tentativa de compensar o rompimento com as ideias originais de Allan Kardec e a preferência, antes abertamente assumida, por Jean-Baptiste Roustaing.
E aí Fred Figner preferiu participar da cúpula da FEB, o que fez com que, com todo o aparato de caridade que o "espiritismo" trabalhava e trabalha até hoje, o empresário perdesse uma boa oportunidade de conhecer a Doutrina Espírita autêntica e aproveitar de suas possibilidades.
Se Fred Figner tivesse seguido o Espiritismo de Allan Kardec, poderia ter aproveitado suas atividades fonográficas e ter realizado estudos sobre a possibilidade de contato com os espíritos do além, em vez de fazer parte de uma instituição que se diz "espírita" mas nunca realizou qualquer atividade ou estudo que estivessem de acordo com as novidades científicas trazidas pelo professor lionês.
Além disso, Figner ainda colocou no seu testamento a doação dos bens para as instituições atendidas por Chico Xavier, que a essas alturas comemorava a vantagem obtida pelo empate judicial do caso Humberto de Campos e se preparava para se apropriar do carisma da falecida jovem Irma de Castro Rocha, a Meimei.
Com isso Fred Figner perdeu uma boa oportunidade de trazer mais uma transformação histórica, e não pôde, assim, ampliar seu trabalho fonográfico para os estudos realmente espíritas. Se tivesse, talvez pudesse ser conhecido como o precursor da Trans-Comunicação Instrumental (TCI) no Brasil.
sábado, 16 de maio de 2015
Jair Presente e a possível comunicação dos "centros espíritas"
Dialogando aqui com o blogue Obras Psicografadas, buscamos relatar um dos aspectos estranhos envolvendo a suposta psicografia relacionada ao espírito do jovem Jair Presente, caso já analisado por aqui. É o da possível comunicação entre os "centros" de Campinas e Uberaba.
Não existe uma prova sobre isso, mas a hipótese, se não é confirmada, é provável, ou seja, digna de ser um dia provada. A pesquisa acadêmica de Alexandre Caroli Rocha e Alexander Moreira Almeida, em projeto conjunto da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal de Juiz de Fora, intitulada Investigating the Fit and Accuracy of Alleged Mediumistic Writing: A Case Study of Chico Xavier’s Letters” (Investigando o Acerto e Precisão de Suposta Escrita Mediúnica: Um Estudo de Caso de Cartas de Chico Xavier), se dedica ao assunto.
No entanto, os pesquisadores procuram sinalizar para a suposta veracidade das cartas. O núcleo de Saúde e Espiritualidade da Universidade Federal de Juiz de Fora adota uma postura tendenciosa no sentido de ser favorável a Francisco Cândido Xavier e buscar uma sustentação acadêmica com este objetivo, ainda que dotada de falhas metodológicas graves.
Sobre o caso Jair Presente, Obras Psicografadas cita o caso da senhora Wandir Dias, dirigente do Movimento Assistencial Espírita Maria Rosa, situada no bairro do Grameiro, em Campinas. Wandir, vendo que o senhor José Presente, pai de Jair, estava abatido, lhe falou sobre a ideia da vida após a morte e lhe deu o livro Presença de Chico Xavier.
Não existe uma comprovação entre as comunicações entre a conhecida Casa Espírita Maria Rosa e o "centro" de Uberaba onde Chico Xavier trabalhava, e o fato de José Presente ter falecido em 2006, impossibilitando a revelação do diálogo para desfazer certas dúvidas.
A equipe de Alexander Moreira alega que dificilmente Chico Xavier teria entrado em contato com o "centro" de Campinas - que, sabemos, era a cidade onde Jair Presente viveu e morreu, tendo 25 anos incompletos na ocasião do óbito, em fevereiro de 1974 - , mas nada impede que houvesse comunicação entre os "centros" de Campinas e Uberaba, apesar de sua grande distância rodoviária.
Os "centros" vivem dessa aparente solidariedade e integração, sobretudo depois da crise do roustanguismo que forçou a "paz espírita" nos padrões que hoje existem, com um aparente equilíbrio entre FEB e entidades regionais, entre um kardecismo de fachada e uma praxe roustanguista enrustida, sem que o nome de Roustaing seja mencionado, a não ser para supostas críticas.
Mas há indícios, como OP mostrou, como uma carta atribuída ao espírito de Jair Presente que teria sido transmitida em 18 de outubro de 1974 na Casa Maria Rosa, se situando entre a terceira e a quarta cartas supostamente psicografadas por Chico Xavier.
A mensagem em Grameiro não teria sido aceita como autêntica pela irmã de Jair. Além disso, uma menção de que Jair teria "ditado" a mensagem obtida em Campinas é relatada na quarta mensagem trazida pelo anti-médium mineiro.
Teria Chico Xavier recebido os jornais de Campinas que noticiaram a morte de Jair Presente, junto a uma cópia das "psicografias" obtidas no "centro" da referida cidade paulista? Muito provavelmente. Até a título de informação sobre o caso.
Consta-se que a mãe de Jair Presente passou a trabalhar no "centro" de Wandir Dias depois da primeira carta "psicografada" por Xavier, o que indicaria uma facilidade para enviar material de Campinas para Uberaba.
Outros aspectos: os amigos de Jair Presente não acreditavam na veracidade das "psicografias" mesmo depois da divulgação da sexta mensagem. Só a impressão deles e a da irmã de Jair Presente, que conviveram com o falecido, dão forte indício do caráter duvidoso das "psicografias".
O que chama a atenção e foi relatado por OP é que o hoje líder da Conscienciologia e ex-parceiro de Chico Xavier, Waldo Vieira, afirmou em uma entrevista que o anti-médium mineiro, após o rompimento da parceria, "passou a receber cartas marcadas".
GÍRIA - Obras Psicografadas chama a atenção pelo fato da primeira mensagem atribuída a Jair Presente não apresentar gírias, enquanto elas se tornaram "abundantes" nas posteriores. A primeira mensagem seguia o mesmo padrão "típico" das mensagens trazidas por Francisco Cândido Xavier.
É provável que vieram queixas de que Jair Presente nunca falava ou escrevia da forma como a primeira mensagem se manifestava. Chico Xavier teria "corrigido" o erro nas mensagens posteriores, mas o que se viu foram mensagens alucinadas que mais pareciam paródias de um hippie chapado, "encharcado" de ácido lisérgico (LSD).
As mensagens que vieram depois da primeira tornaram-se um amontoado grotesco de gírias da moda, mas em vez de se aproximar da veracidade do espírito de Jair Presente, continuavam tão postiças e falsas quanto a primeira mensagem que segue o "padrão Chico Xavier", mesmo pelo motivo extremamente oposto.
Isso porque as mensagens posteriores indicavam até mesmo uma aflição que não existia na primeira mensagem, o que causa uma grande confusão, porque seria esperado que Jair se tornasse mais tranquilo a cada mensagem, e no entanto os textos pareciam mais tensos e a linguagem agressiva e nervosa, que em forma de estereótipo sugeriam mais alguém que ingeriu um "baseado" (droga ilícita).
CONCLUSÃO
Há um forte indício de que material teria sido enviado para Chico Xavier vindo de Campinas. Seria necessário um levantamento de correspondências, mas não se sabe se esse material já foi jogado fora, no decorrer de quatro décadas passadas.
O que podemos inferir é que é bem possível que Chico Xavier teria pedido material que lhe informasse de quem teria sido Jair Presente. Seria da prática dele, conforme os que revelam seus bastidores. E mesmo os chiquistas não deixam de manifestar esse interesse de pesquisa, mesmo quando apelam para a autenticidade das supostas psicografias.
Concluímos então que a hipótese de que Chico Xavier teria recebido jornais e outros documentos sobre Jair Presente e as supostas mensagens trazidas de Campinas, ainda que esteja longe de uma comprovação, sejam altamente prováveis, pela própria natureza correspondente às suas atividades, numa análise investigativa e sem mistificações.
sexta-feira, 15 de maio de 2015
Ficção traz mais lições sobre o futuro do que a "profecia" de Chico Xavier
O ESCRITOR TCHECO FRANZ KAFKA É FAMOSO POR RETRATAR SITUAÇÕES ABSURDAS.
A "profecia" de Francisco Cândido Xavier não é uma previsão segura do futuro da humanidade. Pelo contrário, com seu exagero fatalista, com uma combinação de pedantismo científico com moralismo religioso e dotado de diversos erros de abordagem da sociedade, com sérias falhas referentes à Geologia, Geografia Humana e Sociologia, a "profecia" deixa de ter validade.
Chico Xavier lia livros, mas era um péssimo entendedor de fatos históricos, aspectos geológicos, situações sociológicas. Seria tranquilamente reprovado por gente como Milton Santos, Darcy Ribeiro e Caio Prado Jr., se pudesse ter sido aluno destes.
Só essa incompreensão invalida a "profecia" da "Data-Limite". Mas o moralismo religioso garante veracidade onde não existe. A religião é surreal, mais do que a literatura que se serve da surrealidade, já que o surrealismo artístico é a expressão da denúncia, e não da apologia do surreal.
Ficamos nos lembrando do exemplo do escritor tcheco Franz Kafka, que para alegria de certos setores sádicos do "movimento espírita" - que sempre rogam uma encarnação a mais curta possível para pessoas de caráter diferenciado - , viveu apenas 41 anos, incompletos.
Kafka foi famoso por suas obras literárias que narravam situações absurdas. Sua principal obra, O Processo (Der Prozess), é um lançamento póstumo, a partir de uma obra que Kafka escreveu aos poucos e permaneceu inacabado, apesar dos manuscritos terem sido entregues ao amigo pessoal Max Brod, em 1920.
Brod recebeu a obra com capítulos esparsos, alguns sem ordem definida. Ele então resolveu editar o livro com uma ordem de enredo que ele considerava lógica e lançou o livro no ano seguinte ao da morte do escritor, por insuficiência cardíaca, a um mês de completar 41 anos.
O Processo narra a história de Josef K., um homem que é convidado a depor por um crime que nunca foi revelado e do qual Josef nem sabia do que se tratava. Ao longo do enredo, Josef encara situações que misturam alucinações com percepções reais, enquanto tenta saber qual o crime que ele teria cometido, pergunta que as autoridades e a Polícia simplesmente não lhe respondiam.
Mas Kafka também é conhecido pelo trabalho produzido em vida, A Metamorfose (Die Verwandlung), de 1915. Nela, um jovem caixeiro-viajante (cuirosamente, ofício do pai de Chico Xavier) chamado Gregor Samsa, acordou num dia transformado em um grande inseto, semelhante a uma barata gigante.
Samsa causou um grande susto à sua família, em especial à sua irmã Ana. O jovem, que iria seguir ao seu trabalho, faltou a ele devido à nova condição física que o fazia ter dificuldade para se equilibrar em pé, mas lhe dava habilidade para andar pelas paredes.
A família tentou aceitá-lo. O patrão de Gregor chega em casa para buscar o empregado, mas fica assustado com o seu estado e vai embora. Como a família usava a casa como pensão, ela depois acolheu um grupo de trabalhadores que, ao virem Samsa, sentiram nojo e o ridicularizaram. Num certo momento, a família discute um jeito de se livrar de Samsa, mas ele é encontrado morto.
O "ESPIRITISMO" E SEU SURREALISMO
Muitos do que fazem tratamento espiritual acabam se tornando pessoas com perfil próximo aos de personagens de Franz Kafka. Busca-se um tratamento para resolver um problema na vida e, de repente, não só os problemas continuam (mesmo "amenizados" pelo paliativo placebo dos "passes") como encrencas e empecilhos surgem na vida.
Um pouco Josef K., atraindo a ira de desafetos em situações comezinhas, e um pouco Gregor Samsa, repudiados na vida social e amorosa e boicotados pelo mercado de trabalho, se tornam aqueles que não compartilham da subserviência existencial e religiosa determinada pelo "espiritismo", que só beneficia aqueles que compartilham do seu moralismo e de sua fé nem de longe raciocinada.
Num país em acelerado retrocesso social como o Brasil, em que pessoas diferenciadas se esforçam para deixar sua trabalhosa contribuição na humanidade, são elas as que mais penam e sofrem injustiças e arbítrios severos, isso quando não morrem cedo ou antes de completar sua missão de vida.
Uma doutrina que traz energias favoráveis à reabilitação política de Fernando Collor mas não protegeu Juscelino Kubitschek de sofrer infortúnios, com todo o seu verniz de "bondade" e "caridade" tidas como plenas, faz apologia do sofrimento humano e impede que pessoas com algum potencial possam intervir na transformação da sociedade injusta que prevalece hoje.
A única missão que o "espiritismo" aceita é a paliativa filantropia religiosa, a resignação do sacrifício que criminaliza o prazer e a vontade sem tirar delas um proveito positivo, e as únicas "transformações" que aceitam são as que se situam dentro de seus limites do pragmatismo religioso.
Talvez os "espíritas" possam trazer, à maneira deles, as "explicações" sobre os sofrimentos de Josef K. e Gregor Samsa, dentro de um padrão de julgamentos de valor que supõem encarnações passadas com base nas impressões terrenas de seus líderes e pretensos médiuns.
Talvez Josef K tenha sido uma autoridade do Império dos Habsburgos, que dominaram o território da atual Alemanha no Império Romano-Germânico da Idade Média, que condenasse hereges sem explicar o motivo de tais sentenças. E Gregor Samsa? Algum aristocrata da mesma região que escarneava e violentava pessoas de aparência considerada de padrões estéticos inferiores?
A "maravilhosa" religião que faz a apologia do sofrimento humano, que exalta a subserviência humana em nome de enigmáticos prêmios na vida futura e ainda faz juízo de valor que culpabiliza vítimas de infortúnios, produz e estimula a ocorrência de situações bastante surreais.
E só mesmo autores como Franz Kafka para, através de obras de ficção, denunciar aspectos que servem de condições para compreendermos o sistema de valores que observamos no Brasil de hoje, e que dizem muito mais sobre nosso país do que pretensas profecias falsamente científicas que depois se revelam apenas propagandas de moralismo religioso.
A "profecia" de Francisco Cândido Xavier não é uma previsão segura do futuro da humanidade. Pelo contrário, com seu exagero fatalista, com uma combinação de pedantismo científico com moralismo religioso e dotado de diversos erros de abordagem da sociedade, com sérias falhas referentes à Geologia, Geografia Humana e Sociologia, a "profecia" deixa de ter validade.
Chico Xavier lia livros, mas era um péssimo entendedor de fatos históricos, aspectos geológicos, situações sociológicas. Seria tranquilamente reprovado por gente como Milton Santos, Darcy Ribeiro e Caio Prado Jr., se pudesse ter sido aluno destes.
Só essa incompreensão invalida a "profecia" da "Data-Limite". Mas o moralismo religioso garante veracidade onde não existe. A religião é surreal, mais do que a literatura que se serve da surrealidade, já que o surrealismo artístico é a expressão da denúncia, e não da apologia do surreal.
Ficamos nos lembrando do exemplo do escritor tcheco Franz Kafka, que para alegria de certos setores sádicos do "movimento espírita" - que sempre rogam uma encarnação a mais curta possível para pessoas de caráter diferenciado - , viveu apenas 41 anos, incompletos.
Kafka foi famoso por suas obras literárias que narravam situações absurdas. Sua principal obra, O Processo (Der Prozess), é um lançamento póstumo, a partir de uma obra que Kafka escreveu aos poucos e permaneceu inacabado, apesar dos manuscritos terem sido entregues ao amigo pessoal Max Brod, em 1920.
Brod recebeu a obra com capítulos esparsos, alguns sem ordem definida. Ele então resolveu editar o livro com uma ordem de enredo que ele considerava lógica e lançou o livro no ano seguinte ao da morte do escritor, por insuficiência cardíaca, a um mês de completar 41 anos.
O Processo narra a história de Josef K., um homem que é convidado a depor por um crime que nunca foi revelado e do qual Josef nem sabia do que se tratava. Ao longo do enredo, Josef encara situações que misturam alucinações com percepções reais, enquanto tenta saber qual o crime que ele teria cometido, pergunta que as autoridades e a Polícia simplesmente não lhe respondiam.
Mas Kafka também é conhecido pelo trabalho produzido em vida, A Metamorfose (Die Verwandlung), de 1915. Nela, um jovem caixeiro-viajante (cuirosamente, ofício do pai de Chico Xavier) chamado Gregor Samsa, acordou num dia transformado em um grande inseto, semelhante a uma barata gigante.
Samsa causou um grande susto à sua família, em especial à sua irmã Ana. O jovem, que iria seguir ao seu trabalho, faltou a ele devido à nova condição física que o fazia ter dificuldade para se equilibrar em pé, mas lhe dava habilidade para andar pelas paredes.
A família tentou aceitá-lo. O patrão de Gregor chega em casa para buscar o empregado, mas fica assustado com o seu estado e vai embora. Como a família usava a casa como pensão, ela depois acolheu um grupo de trabalhadores que, ao virem Samsa, sentiram nojo e o ridicularizaram. Num certo momento, a família discute um jeito de se livrar de Samsa, mas ele é encontrado morto.
O "ESPIRITISMO" E SEU SURREALISMO
Muitos do que fazem tratamento espiritual acabam se tornando pessoas com perfil próximo aos de personagens de Franz Kafka. Busca-se um tratamento para resolver um problema na vida e, de repente, não só os problemas continuam (mesmo "amenizados" pelo paliativo placebo dos "passes") como encrencas e empecilhos surgem na vida.
Um pouco Josef K., atraindo a ira de desafetos em situações comezinhas, e um pouco Gregor Samsa, repudiados na vida social e amorosa e boicotados pelo mercado de trabalho, se tornam aqueles que não compartilham da subserviência existencial e religiosa determinada pelo "espiritismo", que só beneficia aqueles que compartilham do seu moralismo e de sua fé nem de longe raciocinada.
Num país em acelerado retrocesso social como o Brasil, em que pessoas diferenciadas se esforçam para deixar sua trabalhosa contribuição na humanidade, são elas as que mais penam e sofrem injustiças e arbítrios severos, isso quando não morrem cedo ou antes de completar sua missão de vida.
Uma doutrina que traz energias favoráveis à reabilitação política de Fernando Collor mas não protegeu Juscelino Kubitschek de sofrer infortúnios, com todo o seu verniz de "bondade" e "caridade" tidas como plenas, faz apologia do sofrimento humano e impede que pessoas com algum potencial possam intervir na transformação da sociedade injusta que prevalece hoje.
A única missão que o "espiritismo" aceita é a paliativa filantropia religiosa, a resignação do sacrifício que criminaliza o prazer e a vontade sem tirar delas um proveito positivo, e as únicas "transformações" que aceitam são as que se situam dentro de seus limites do pragmatismo religioso.
Talvez os "espíritas" possam trazer, à maneira deles, as "explicações" sobre os sofrimentos de Josef K. e Gregor Samsa, dentro de um padrão de julgamentos de valor que supõem encarnações passadas com base nas impressões terrenas de seus líderes e pretensos médiuns.
Talvez Josef K tenha sido uma autoridade do Império dos Habsburgos, que dominaram o território da atual Alemanha no Império Romano-Germânico da Idade Média, que condenasse hereges sem explicar o motivo de tais sentenças. E Gregor Samsa? Algum aristocrata da mesma região que escarneava e violentava pessoas de aparência considerada de padrões estéticos inferiores?
A "maravilhosa" religião que faz a apologia do sofrimento humano, que exalta a subserviência humana em nome de enigmáticos prêmios na vida futura e ainda faz juízo de valor que culpabiliza vítimas de infortúnios, produz e estimula a ocorrência de situações bastante surreais.
E só mesmo autores como Franz Kafka para, através de obras de ficção, denunciar aspectos que servem de condições para compreendermos o sistema de valores que observamos no Brasil de hoje, e que dizem muito mais sobre nosso país do que pretensas profecias falsamente científicas que depois se revelam apenas propagandas de moralismo religioso.
quinta-feira, 14 de maio de 2015
"Profecia" de Chico Xavier expressa intolerância religiosa
CASAS DESTRUÍDAS PELO RECENTE TERREMOTO QUE ATINGIU O NEPAL, NA ÁSIA.
A "profecia da Data-Limite", que Francisco Cândido Xavier relatou para o jovem Geraldo Lemos Neto, em 1969, que o "velho mundo", ou seja, os países do Hemisfério Norte, será destruído pelas catástrofes naturais, depois da ocorrência de atos terroristas e conflitos bélicos trazidos pela Terceira Guerra Mundial.
Essa "previsão", que os "espíritas" entendem como "alerta urgente" e dotado de relatos próprios de pedantismo supostamente científico, cheio de sérios erros de abordagem geológica e sociológica, na verdade expressa um profundo moralismo religioso, com uma sutil manifestação de intolerância.
Afinal, o que Chico Xavier quis com a destruição do Hemisfério Norte? E por que ele a evocou com sérios erros geológicos, já que países como o Chile - que Xavier acreditava estar protegido de catástrofes - , situados abaixo da linha do Equador, seriam destruídos da mesma forma se ocorressem as catástrofes com a intensidade imaginada pelo anti-médium mineiro?
Eficentemente que pessoas que descrevem a "profecia" tentam enrolar. Alguns alegam que áreas do Hemisfério Sul "seriam também destruídas, sim", e que "haveria tensões" na migração de povos "do Norte" ao Hemisfério Sul, sobretudo Brasil.
A "profecia" é tão confusa que Chico Xavier alegava que o Brasil, tão querido por ele, seria "dividido" em "cinco países diferentes". Mas ele também não deixou claro se essa "divisão" seria real ou simbólica, o que torna o sonho do anti-médium, como todo sonho que ocorre com qualquer um quando dorme, ainda mais confuso.
O que chama a atenção é que os países envolvidos no Hemisfério Norte apresentam predominância de outras religiões ou mesmo do ateísmo. Há pelo menos três grandes nações cristãs: a Grã-Bretanha, protestante, os Estados Unidos, protestante, e Itália, católica, onde se situa o Vaticano. Outros países estão relacionados às crenças orientais ou a religiões judaicas e islâmicas do Oriente Médio.
Mesmo que não consideremos apenas essa predominância, mas também ao fato de que mesmo os países "cristãos" do Hemisfério Norte tenham um expressivo número de ateus - independente deles serem ou não maioria, mas dotados de alguma visibilidade e poder de formar opiniões - , nota-se que a suposta "profecia" de Chico Xavier indica o desejo de surgir uma nova teocracia mundial.
A "profecia" de Chico Xavier sugere não só a ascensão do Brasil como país mais poderoso do mundo, mas como matriz de um "movimento religioso" que, sabemos, é o "espiritismo" de moldes católico-medievais que vigora no nosso país. Xavier alegava que o "espiritismo cristão" iria despertar curiosidade nos povos remanescentes oriundos do Hemisfério Norte "inabitável".
Não é difícil constatar que a "profecia" corrobora o desejo pessoal de Chico Xavier de ver o Brasil transformado em "coração do mundo" e "pátria do Evangelho". Desde o Parnaso de Além-Túmulo, livro de 1932, esse desejo se manifestava, e isso condiz com as ideias trazidas por Geraldo Lemos Neto, embora os chiquistas "puros" recusem atribuir veracidade à "profecia" por acreditarem que ela não foi trazida diretamente pelo "médium".
O que isso significa? Supremacia política, supremacia religiosa. O caso da supremacia política mostrou casos extremamente lamentáveis, como da Alemanha nazista, embora o imperialismo dos EUA tenha provocado casos de igual crueldade como na América Central nos anos 1980 e nas ditaduras militares que se viu principalmente na América do Sul (inclusive Brasil).
Junte-se supremacia política e religiosa e o que temos? Teocracia, governo fundamentado em dogmas religiosos. E qual o maior exemplo que a História registra de uma teocracia? É o Império Romano nos seus últimos anos, e o Império Bizantino que veio do antigo Império Romano do Oriente, berço do Catolicismo que serviu de moldes para o "espiritismo" implantado no Brasil.
E o que isso quer dizer? Uma tentativa de Chico Xavier querer que se repetisse a História. Derrubam-se nações comprometidas com o progresso técnico, intelectual e cultural, como na Antiguidade clássica de Grécia e Roma que viram se perder muito de seu rico acervo, do qual apenas uma parte chegou aos nossos dias, e fez cidades se reduzirem a ruínas.
Com isso, se repetiria a destruição do Hemisfério Norte, provavelmente dizimando pessoas de notável evolução cultural, intelectual e artística que não iriam tirar férias no Brasil a qualquer preço. Embora boa parte de seu patrimônio artístico-cultural possuísse réplicas nos países do Hemisfério Sul, como o Brasil, em certo ponto a perda do acervo original causará danos de difícil reparação.
A destruição teria como alvos principais o arrasamento de nações que se comprometem com religiões tradicionais como a judaica e a islâmica, o que aparentemente eliminaria o dado negativo das manifestações fundamentalistas, como o grupo Estado Islâmico, envolvido com atentados terroristas ocorridos não apenas no Oriente Médio, mas em vários países do Ocidente, como no atentado de janeiro passado contra jornalistas do periódico Charlie Hebdo, em Paris.
No entanto, outros alvos seriam países que, independente da crença religiosa predominante, teriam um significativo número de ateus que, mesmo não sendo maioria em certos países, possuem prestígio e visibilidade suficientes para exercerem forte influência na opinião pública.
A destruição de nações protestantes, como EUA e Grã-Bretanha, seria uma forma de evitar a supremacia das crenças evangélicas, maiores rivais do "espiritismo" brasileiro para a conquista da supremacia religiosa e igualmente surgidas de moldes católicos (uma das primeiras crenças protestantes surgiu para permitir o divórcio do outrora católico monarca inglês Henri VIII).
Há também um dado a considerar. Chico Xavier sempre foi um católico fervoroso, mas por causa de seus hábitos considerados excêntricos - como os contatos diários que tinha com o espírito de um padre que tanto admirava, o jesuíta Manuel da Nóbrega, rebatizado Emmanuel e proclamado "seu mentor" - , havia sido excomungado pela Igreja Católica de Pedro Leopoldo.
O caso do jovem Amauri Pena (de morte tão sinistra que deveria exigir nova investigação) fez os católicos pressionarem pela saída de Chico Xavier de Pedro Leopoldo, e ele decidiu passar o resto de seus dias em Uberaba, no Triângulo Mineiro.
O episódio fez o "movimento espírita" superestimar o conflito de Chico Xavier com padres católicos, sugerindo uma falsa ruptura do "médium" com o Catolicismo e fortalecendo a suposta rivalidade entre católicos e "espíritas". Na verdade, Chico Xavier foi católico até o fim da vida, desses dos mais fervorosos, que rezam terços, colecionam imagens de santos e fazem novenas.
O próprio "espiritismo" trazido pelos livros de Chico Xavier tem um forte apelo católico. A doutrina sempre se serviu de adaptar dogmas e ritos católicos, desde a ideia de "espíritos de luz", copiada dos "santos" católicos, até confessionários e águas-bentas que, no "espiritismo", viraram "auxílio fraterno" e "água fluidificada" (uma redundância, porque a água já é um fluído).
O que se vê nos indícios de intolerância religiosa da "profecia" de Chico Xavier é um misto de rejeição a um mundo racional em discussão, um desejo de "passar a perna" nos "evangélicos" - formas deturpadas de protestantismo crescem muito no Brasil - e um revanchismo contra um Catolicismo que não aceitou suas esquisitices paranormais.
O Hemisfério Norte mostra nações em grave crise, como a França e os EUA, mas que, por sua experiência de séculos, discute seus próprios dramas e dilemas. Com mais uma destruição - a Antiguidade Clássica só recuperaria para valer, mas com dificuldade, sua importância a partir do século XVI - , o "velho mundo" teria sua trajetória mais uma vez interrompida e abalada.
Afinal, o Brasil é um país muito novo que não sofreu ainda os dramas vividos pelos "irmãos do Norte". Só para dar um exemplo, a "sociedade do espetáculo" vista como um grave problema pelos intelectuais mais conceituados da Europa, no Brasil é tratada como se fosse a "salvação da lavoura" por intelectuais locais, visto até como se fosse uma "vanguarda combativa".
Há muito atraso no Brasil. E até mesmo Chico Xavier é um filho desse atraso, ele mesmo um figurão conservador, adepto de um Catolicismo de moldes medievais, e apenas triste com o repúdio que setores católicos tiveram contra ele.
Daí que Chico Xavier acabou transformando o "espiritismo" num neo-catolicismo, se afinando com os interesses e esforços que a Federação "Espírita" Brasileira já fazia neste sentido, antes mesmo de Xavier nascer. Um "espiritismo" que se moldava no Catolicismo medieval português, mas que apenas eliminou os aspectos mais coercitivos e escancarados, tornando-se um "catolicismo sem batina".
E esse desejo de supremacia religiosa às custas do Hemisfério Norte destruído revela que a "profecia" de Chico Xavier, embora falasse em "acolher as mais diversas crenças e ritos" no "ecumênico espiritismo brasileiro", expressava uma sutil intolerância religiosa ou em relação aos ateus e agnósticos.
A ideia de Chico Xavier, com sua "profecia", é afirmar que as nações que tendem a ser "protegidas" da suposta catástrofe seriam aquelas onde predominariam o chamado Cristianismo, o Catolicismo formado pelo Império Romano do Oriente na Idade Média.
A "profecia" tanto sugere destruir tradições religiosas mais antigas quanto a racionalidade contemporânea. Tudo em prol do crescimento do "espiritismo" brasileiro a puxar uma teocracia que pretende impor ao mundo a mediocrização sócio-cultural, política e religiosa, já dominante no Brasil.
A "profecia da Data-Limite", que Francisco Cândido Xavier relatou para o jovem Geraldo Lemos Neto, em 1969, que o "velho mundo", ou seja, os países do Hemisfério Norte, será destruído pelas catástrofes naturais, depois da ocorrência de atos terroristas e conflitos bélicos trazidos pela Terceira Guerra Mundial.
Essa "previsão", que os "espíritas" entendem como "alerta urgente" e dotado de relatos próprios de pedantismo supostamente científico, cheio de sérios erros de abordagem geológica e sociológica, na verdade expressa um profundo moralismo religioso, com uma sutil manifestação de intolerância.
Afinal, o que Chico Xavier quis com a destruição do Hemisfério Norte? E por que ele a evocou com sérios erros geológicos, já que países como o Chile - que Xavier acreditava estar protegido de catástrofes - , situados abaixo da linha do Equador, seriam destruídos da mesma forma se ocorressem as catástrofes com a intensidade imaginada pelo anti-médium mineiro?
Eficentemente que pessoas que descrevem a "profecia" tentam enrolar. Alguns alegam que áreas do Hemisfério Sul "seriam também destruídas, sim", e que "haveria tensões" na migração de povos "do Norte" ao Hemisfério Sul, sobretudo Brasil.
A "profecia" é tão confusa que Chico Xavier alegava que o Brasil, tão querido por ele, seria "dividido" em "cinco países diferentes". Mas ele também não deixou claro se essa "divisão" seria real ou simbólica, o que torna o sonho do anti-médium, como todo sonho que ocorre com qualquer um quando dorme, ainda mais confuso.
O que chama a atenção é que os países envolvidos no Hemisfério Norte apresentam predominância de outras religiões ou mesmo do ateísmo. Há pelo menos três grandes nações cristãs: a Grã-Bretanha, protestante, os Estados Unidos, protestante, e Itália, católica, onde se situa o Vaticano. Outros países estão relacionados às crenças orientais ou a religiões judaicas e islâmicas do Oriente Médio.
Mesmo que não consideremos apenas essa predominância, mas também ao fato de que mesmo os países "cristãos" do Hemisfério Norte tenham um expressivo número de ateus - independente deles serem ou não maioria, mas dotados de alguma visibilidade e poder de formar opiniões - , nota-se que a suposta "profecia" de Chico Xavier indica o desejo de surgir uma nova teocracia mundial.
A "profecia" de Chico Xavier sugere não só a ascensão do Brasil como país mais poderoso do mundo, mas como matriz de um "movimento religioso" que, sabemos, é o "espiritismo" de moldes católico-medievais que vigora no nosso país. Xavier alegava que o "espiritismo cristão" iria despertar curiosidade nos povos remanescentes oriundos do Hemisfério Norte "inabitável".
Não é difícil constatar que a "profecia" corrobora o desejo pessoal de Chico Xavier de ver o Brasil transformado em "coração do mundo" e "pátria do Evangelho". Desde o Parnaso de Além-Túmulo, livro de 1932, esse desejo se manifestava, e isso condiz com as ideias trazidas por Geraldo Lemos Neto, embora os chiquistas "puros" recusem atribuir veracidade à "profecia" por acreditarem que ela não foi trazida diretamente pelo "médium".
O que isso significa? Supremacia política, supremacia religiosa. O caso da supremacia política mostrou casos extremamente lamentáveis, como da Alemanha nazista, embora o imperialismo dos EUA tenha provocado casos de igual crueldade como na América Central nos anos 1980 e nas ditaduras militares que se viu principalmente na América do Sul (inclusive Brasil).
Junte-se supremacia política e religiosa e o que temos? Teocracia, governo fundamentado em dogmas religiosos. E qual o maior exemplo que a História registra de uma teocracia? É o Império Romano nos seus últimos anos, e o Império Bizantino que veio do antigo Império Romano do Oriente, berço do Catolicismo que serviu de moldes para o "espiritismo" implantado no Brasil.
E o que isso quer dizer? Uma tentativa de Chico Xavier querer que se repetisse a História. Derrubam-se nações comprometidas com o progresso técnico, intelectual e cultural, como na Antiguidade clássica de Grécia e Roma que viram se perder muito de seu rico acervo, do qual apenas uma parte chegou aos nossos dias, e fez cidades se reduzirem a ruínas.
Com isso, se repetiria a destruição do Hemisfério Norte, provavelmente dizimando pessoas de notável evolução cultural, intelectual e artística que não iriam tirar férias no Brasil a qualquer preço. Embora boa parte de seu patrimônio artístico-cultural possuísse réplicas nos países do Hemisfério Sul, como o Brasil, em certo ponto a perda do acervo original causará danos de difícil reparação.
A destruição teria como alvos principais o arrasamento de nações que se comprometem com religiões tradicionais como a judaica e a islâmica, o que aparentemente eliminaria o dado negativo das manifestações fundamentalistas, como o grupo Estado Islâmico, envolvido com atentados terroristas ocorridos não apenas no Oriente Médio, mas em vários países do Ocidente, como no atentado de janeiro passado contra jornalistas do periódico Charlie Hebdo, em Paris.
No entanto, outros alvos seriam países que, independente da crença religiosa predominante, teriam um significativo número de ateus que, mesmo não sendo maioria em certos países, possuem prestígio e visibilidade suficientes para exercerem forte influência na opinião pública.
A destruição de nações protestantes, como EUA e Grã-Bretanha, seria uma forma de evitar a supremacia das crenças evangélicas, maiores rivais do "espiritismo" brasileiro para a conquista da supremacia religiosa e igualmente surgidas de moldes católicos (uma das primeiras crenças protestantes surgiu para permitir o divórcio do outrora católico monarca inglês Henri VIII).
Há também um dado a considerar. Chico Xavier sempre foi um católico fervoroso, mas por causa de seus hábitos considerados excêntricos - como os contatos diários que tinha com o espírito de um padre que tanto admirava, o jesuíta Manuel da Nóbrega, rebatizado Emmanuel e proclamado "seu mentor" - , havia sido excomungado pela Igreja Católica de Pedro Leopoldo.
O caso do jovem Amauri Pena (de morte tão sinistra que deveria exigir nova investigação) fez os católicos pressionarem pela saída de Chico Xavier de Pedro Leopoldo, e ele decidiu passar o resto de seus dias em Uberaba, no Triângulo Mineiro.
O episódio fez o "movimento espírita" superestimar o conflito de Chico Xavier com padres católicos, sugerindo uma falsa ruptura do "médium" com o Catolicismo e fortalecendo a suposta rivalidade entre católicos e "espíritas". Na verdade, Chico Xavier foi católico até o fim da vida, desses dos mais fervorosos, que rezam terços, colecionam imagens de santos e fazem novenas.
O próprio "espiritismo" trazido pelos livros de Chico Xavier tem um forte apelo católico. A doutrina sempre se serviu de adaptar dogmas e ritos católicos, desde a ideia de "espíritos de luz", copiada dos "santos" católicos, até confessionários e águas-bentas que, no "espiritismo", viraram "auxílio fraterno" e "água fluidificada" (uma redundância, porque a água já é um fluído).
O que se vê nos indícios de intolerância religiosa da "profecia" de Chico Xavier é um misto de rejeição a um mundo racional em discussão, um desejo de "passar a perna" nos "evangélicos" - formas deturpadas de protestantismo crescem muito no Brasil - e um revanchismo contra um Catolicismo que não aceitou suas esquisitices paranormais.
O Hemisfério Norte mostra nações em grave crise, como a França e os EUA, mas que, por sua experiência de séculos, discute seus próprios dramas e dilemas. Com mais uma destruição - a Antiguidade Clássica só recuperaria para valer, mas com dificuldade, sua importância a partir do século XVI - , o "velho mundo" teria sua trajetória mais uma vez interrompida e abalada.
Afinal, o Brasil é um país muito novo que não sofreu ainda os dramas vividos pelos "irmãos do Norte". Só para dar um exemplo, a "sociedade do espetáculo" vista como um grave problema pelos intelectuais mais conceituados da Europa, no Brasil é tratada como se fosse a "salvação da lavoura" por intelectuais locais, visto até como se fosse uma "vanguarda combativa".
Há muito atraso no Brasil. E até mesmo Chico Xavier é um filho desse atraso, ele mesmo um figurão conservador, adepto de um Catolicismo de moldes medievais, e apenas triste com o repúdio que setores católicos tiveram contra ele.
Daí que Chico Xavier acabou transformando o "espiritismo" num neo-catolicismo, se afinando com os interesses e esforços que a Federação "Espírita" Brasileira já fazia neste sentido, antes mesmo de Xavier nascer. Um "espiritismo" que se moldava no Catolicismo medieval português, mas que apenas eliminou os aspectos mais coercitivos e escancarados, tornando-se um "catolicismo sem batina".
E esse desejo de supremacia religiosa às custas do Hemisfério Norte destruído revela que a "profecia" de Chico Xavier, embora falasse em "acolher as mais diversas crenças e ritos" no "ecumênico espiritismo brasileiro", expressava uma sutil intolerância religiosa ou em relação aos ateus e agnósticos.
A ideia de Chico Xavier, com sua "profecia", é afirmar que as nações que tendem a ser "protegidas" da suposta catástrofe seriam aquelas onde predominariam o chamado Cristianismo, o Catolicismo formado pelo Império Romano do Oriente na Idade Média.
A "profecia" tanto sugere destruir tradições religiosas mais antigas quanto a racionalidade contemporânea. Tudo em prol do crescimento do "espiritismo" brasileiro a puxar uma teocracia que pretende impor ao mundo a mediocrização sócio-cultural, política e religiosa, já dominante no Brasil.
quarta-feira, 13 de maio de 2015
"Espiritismo" e a supervalorização da Lei Áurea
A PRINCESA ISABEL E SEU PAI, O IMPERADOR DOM PEDRO II.
Há muito tempo os brasileiros não celebram mais com entusiasmo a Lei Áurea, assinada pela princesa Isabel Cristina de Bragança e Bourbon, filha do imperador Dom Pedro II, o monarca do Segundo Império e o primeiro e único nascido no Brasil.
A Lei Áurea foi assinada em 13 de maio de 1888, e oficialmente foi considerada pelos historiadores como o ponto máximo da luta contra a escravidão, Prevalecia a abordagem da "História dos Acontecimentos", que supervalorizava os feitos de pessoas detentoras de poder e fama.
Tempos depois, quando Marc Bloch desenvolveu a História das Mentalidades, que ampliava o leque da abordagem histórica para personagens anônimos ou para uma ampla diversidade de atividades sociais - até mesmo brincadeiras infantis e um simples trabalho de costureiras também tinham sua História - , a expectativa mudou completamente, juntamente com as circunstâncias.
Isso porque se viu depois que a Lei Áurea se mostrou ineficaz. Ela deixou o povo negro à própria sorte. Se a assinatura da Abolição não indenizou os senhores de engenho, que, irritados, aderiram à causa republicana só para derrubar o Segundo Império e se tornaram artífices da hoje conhecida República Velha, também não deu um projeto de ressocialização dos ex-escravos.
Apenas uma parte dos escravos libertos conseguiu subsídios para alguma prosperidade social. Mas eles eram favorecidos pelas condições em que o esforço individual dessa parcela do povo negro permitiu, porque eles não eram assistidos pelo Governo, antes tivessem sorte, talento e contatos para poderem se tornar economicamente prósperos.
Uma grande maioria, porém, continuou pobre e foi viver no emprego informal, isso quando podia. Muitos negros se tornaram "vagabundos" por verem tantas limitações para o mercado de trabalho que deram origem até aos "malandros" que habitam o imaginário popular. O mercado de trabalho não dava a devida atenção a esses jovens, que sobreviviam às custas de parentes e amigos.
Há também aqueles que se tornaram criminosos, diante da revolta que tiveram contra os senhores de engenho e contra o sistema opressivo em que viveram sob os diversos aspectos. Passaram a se tornar assaltantes e a comandar quadrilhas, dando origem a um histórico criminoso que hoje culmina com o narcotráfico aliado ao comércio internacional de armas e a criminalidade organizada.
A Abolição acabou dando origem às favelas, porque a urbanização excludente indenizava mal as populações desalojadas e a especulação imobiliária já nascente queria instalar estabelecimentos comerciais. Também não havia uma política habitacional para os ex-escravos e isso os prejudicou, forçando-os a improvisar casas rudimentares para terem algum abrigo permanente.
A situação do povo negro demorou para ter melhorias significativas. Se, em pleno 2015, um grupo de alunos é capaz de ficar impune ao humilhar violentamente uma aluna, a jovem Lorena dos Santos Almeida, de uma escola em São Bernardo do Campo, do ABC paulista, então todo o trabalho de emancipação dos negros tornou-se uma tarefa trabalhosa e cruel.
Há casos de racismo e de trabalho escravo no Brasil, coisas que acontecem de maneira clandestina ou enrustida. Nada é claramente assumido, mas as humilhações feitas contra o povo negro e os trabalhos precários empregando negros, índios e outros mestiços, com baixíssimos salários e sem qualquer encargo ou proteção. E já são 127 anos após a "maravilhosa" assinatura da Lei Áurea.
Pior é que esse regime precário não se dá somente a usinas e engenhos localizados em fazendas no interior distante. Até mesmo numa empresa multinacional, como a rede de lanchonetes (que se autodefine como "restaurante") McDonald's, há denúncias de trabalho precário e humilhações sofridas pelos empregados, não bastassem os salários humilhantes.
E temos até mesmo a precarização cultural do "funk", exaltada por uma campanha cheia de coitadismo movida por uma elite de intelectuais paternalistas, acontece, camuflada por uma retórica que, de maneira a mais hipócrita possível, evoca a "alta qualidade" e o "intenso ativismo" do famoso ritmo dançante carioca.
Isso porque, por trás das "maravilhosas" alegações em favor do "funk", há todo um sistema de valores conservador por trás, incluindo exploração machista da imagem da mulher (mascarada pela desculpa de "novo feminismo") e pela estereotipação da imagem do povo negro por um ritmo marcado pela tirania dos empresários-DJs e pela subordinação e subjugação artística dos jovens negros.
Como se vê, 127 anos de Lei Áurea não conseguiram promover a emancipação dos brasileiros negros. Se eles obtiveram conquistas, foi por conta de outras pressões, outros movimentos, não tão diferentes quanto as pressões e movimentos que ocorreram antes da assinatura do documento pela filha de Dom Pedro II.
LEI ÁUREA FOI O EFEITO MENOR DE UMA GRANDE PRESSÃO
A escravidão já era considerada decadente no mundo desenvolvido das primeiras décadas do século XIX. Mas no Brasil era considerada a atividade-motor da economia nacional, tanto que houve uma brutal resistência para sua extinção. Nem mesmo a adesão do estadista José Bonifácio de Andrada e Silva à causa abolicionista, manifesta já em 1823, convenceu as elites brasileiras.
O capitalismo nascente em países como França e Grã-Bretanha fazia com que especialistas, entre estudiosos da Economia e da Política, da Filosofia e do Direito, definissem o caráter de novas relações de trabalho, embora nessa época as indústrias não tivessem um padrão de relações de trabalho menos injusto que a escravidão.
Afinal, crianças e mulheres eram jogadas no mercado de trabalho mediante uma rotina opressiva, com baixa remuneração e sem qualquer proteção ou encargo. Sofreu acidente, fica por isso mesmo. Se a operária engravidava, era posta no olho da rua.
Mesmo assim, a Revolução Industrial pressionava para que países como o Brasil rompessem com o sistema escravista, considerado antiquado. Navios britânicos eram autorizados a bombardear navios negreiros que estavam a caminho do litoral brasileiro.
Até mesmo as elites intelectuais brasileiras expressavam resistência à causa abolicionista. Vários deles, mesmo na Conjuração Mineira (movimento do qual se destacou Tiradentes), mantinham escravos em suas fazendas.
Muita mobilização se fez e destacavam-se três negros emancipados, os jornalistas José do Patrocínio e os irmãos André e Antônio Rebouças, todos se empenhando em produzir textos que argumentassem sobre a necessidade de abolir o trabalho escravo. Muitos debates aconteciam no Parlamento brasileiro, na antiga capital do Império, a cidade do Rio de Janeiro.
A escravidão só pôde ser rompida aos poucos. Em 1850, em 04 de setembro, a Lei Eusébio de Queiroz determinou a proibição do tráfico de escravos para o Brasil. Em 28 de setembro de 1871, a Lei do Ventre Livre determinou que os filhos de escravos nascidos na referida data eram considerados libertos. Exatos 14 anos depois (28 de setembro de 1885), a Lei do Sexagenário tornava livres os escravos com mais de 60 anos de idade.
Fora os festejos da historiografia oficial, a Lei Áurea foi recebida com apatia pelo povo e pelas elites. Ela foi movida mais pelo grau extremo das pressões de décadas, sobretudo dos interesses econômicos da Inglaterra, e foi apenas um efeito menor de uma grande pressão cujas expectativas foram frustradas pelo inócuo documento assinado pela "funcionária de plantão", a princesa Isabel.
"ESPIRITISMO" AINDA GLORIFICA O "13 DE MAIO"
O papel da Lei Áurea é supervalorizado pelo "espiritismo" brasileiro, que surgiu cortejando o Segundo Império e a Igreja Católica, já que ser "espírita", naquela sociedade atrasada, era quase o mesmo que ser "feiticeiro". Daí vermos que o "movimento espírita" sempre se fundamentou em bases católicas, estruturando seu repertório ideológico que vale até hoje.
A Federação "Espírita" Brasileira surgiu patrocinada por iniciativa do imperador Dom Pedro II junto aos fundadores da instituição. O médico e deputado Adolfo Bezerra de Menezes era um militar a serviço do Império e havia participado dos debates em torno da Abolição, num papel bem-intencionado, mas menos significativo.
Ele chegou a escrever um livro com ideias pertinentes, A Escravidão no Brasil e as Medidas que Convém Tomar para Extingui-la sem Dano para a Nação, lançado em 1869, dentro de um contexto em que o Estado de origem do autor, o Ceará, era um dos que primeiro aboliram a escravidão, num hoje considerado insólito pioneirismo do Nordeste em detrimento do "avançado" Sudeste que custou a abolir o regime escravo.
Mas, pensando bem, esse quadro se assemelha muito ao de hoje, quando o Norte e Nordeste são os primeiros a rejeitar a degradação cultural de tendências "populares" como o "forró eletrônico" e a axé-music, que culturalmente escravizavam os gostos do povo pobre, enquanto o "moderno" Sudeste define como "vanguarda" a terceirização cultural do "funk" ("funk carioca" e "funk ostentação").
A glorificação do "13 de maio" torna-se um dado surreal dos "espíritas", embora compreensível pelo contexto de bajulação que a FEB presta até hoje ao Segundo Império brasileiro. A FEB é conhecida por cortejar o poder, quase sempre buscando agradar o Governo Federal vigente para obter subsídios financeiros, só sendo menos generosos com Juscelino Kubitschek e João Goulart.
Segundo a tese da FEB, o "13 de maio" é uma data triunfante, que expressa o mais alto valor da libertação humana e da construção de um país de solidariedade e fraternidade cristãs. Para a federação, a princesa Isabel e seu pai, Dom Pedro II, eram pessoas da mais alta evolução espiritual e da mais elevada missão humanista de promover uma nação mais justa e próspera.
A euforia que superestima os papéis de Isabel e Pedro - na verdade pessoas medianas de boa índole, simpáticas mas sem qualidades excepcionais - na sociedade brasileira permanecia no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de 1938, que Chico Xavier e Antônio Wantuil de Freitas escreveram usando o nome de Humberto de Campos.
Até hoje, textos publicados em periódicos "espíritas" exaltam o papel que pai e filha tiveram no Segundo Império, quando sabemos que, no caso da campanha abolicionista, a participação dos dois foi inexpressiva, sendo resultante do maior empenho dos parlamentares que discutiam a questão nas atividades legislativas.
APOSTAS RISÍVEIS (E CONFUSAS) DE REENCARNAÇÃO
Um dado a ser levado em conta são as apostas feitas para supor quem Dom Pedro II foi em uma encarnação anterior distante e quem a princesa Isabel teria sido posteriormente. Nesse hábito surreal e de valor duvidoso de atribuir reencarnações de personalidades revela confusões e atribuições risíveis.
A confusão se dá em conta de quem havia sido Dom Pedro II na Antiguidade. Consta-se que ele teria sido alguém com o nome de Cassius Longinus, mas três hipóteses conflitantes existem sobre que "Longinus" teria sido Dom Pedro II segundo os "espíritas".
A História registra vários indivíduos chamados Cassius Longinus. Três deles se destacam. Um foi o filósofo grego que viveu entre 213 e 273 da nossa era. Outro foi o senador romano, envolvido no assassinato do imperador Júlio César, que viveu entre 85 e 42 antes de Cristo. E o terceiro foi um centurião Longinus conhecido como Cassius, soldado que pregou Jesus na cruz.
Fontes diferentes se referem a qualquer um desses três como suposta antiga encarnação de Dom Pedro II. Todos eles mostram aspectos muito apropriados para os estereótipos explorados pelos ideólogos do "movimento espírita" brasileiro.
A tese do "Longinus filósofo" sugere uma pretensa sabedoria que os "espíritas" evocam de forma tendenciosa da reputação do filósofo. A do "Longinus senador" indica a de um chefe político "arrependido" e depois voltado para o governo "fraternalista". A do "Longinus centurião" indica a de um antigo servo do poder tirânico que depois se voltou para "missões de caridade".
Mas o que chama a atenção é o que os "espíritas" atribuem como reencarnação da princesa Isabel. Há os que acreditam que ela reencarnou como Irmã Dulce, a sóror baiana que desenvolveu um complexo projeto filantrópico que envolve um hospital e até uma fábrica de produção de pães e bolos visando garantir a assistência aos doentes e a garantia de emprego às classes pobres.
O aspecto risível está para outras fontes, que atribuem a reencarnação da princesa Isabel à presidenta Dilma Rousseff. Os anti-petistas ferrenhos iriam cair em gargalhadas histéricas, pelo fato dos oposicionistas, que aliás defenderam o "Fora Dilma" nas passeatas de ruas, não aceitarem qualquer comparação positiva à petista.
Evidentemente que as comparações relacionadas a Dom Pedro II e a princesa Isabel são improcedentes. A de Dom Pedro II é de caráter duvidoso e confuso, se perdendo entre três diferentes indivíduos que em comum têm apenas o mesmo nome.
Já a de sua filha não tem a menor procedência, porque imaginamos que suas caraterísticas pessoais não corresponderiam às que Irmã Dulce teve em sua vida nem às que Dilma Rousseff se manifesta no cotidiano atual.
Como filha de Dom Pedro II, Isabel teria herdado, por razões biológicas, a voz fina do pai, dado que foi colhido pelo historiador Laurentino Gomes a partir de documentos da época. Portanto, ela não teria se tornado depois Irmã Dulce nem Dilma Rousseff, porque nenhuma das duas foi marcada pelo tipo de voz que provavelmente teria tido a princesa.
Imagina-se que o jeito de falar de Isabel teria sido muitíssimo diferente do que registros deixaram de Irmã Dulce, e se pesquisarmos as nuances individuais, veríamos que a comparação nada tem a ver. E, no caso de Dilma, durona e de voz grave, dificilmente se encaixaria no perfil que provavelmente se supõe ter sido Isabel, naqueles tempos em que o fonógrafo era invenção recente e inacessível.
CONCLUSÃO
A Lei Áurea falhou por não estar acompanhada de um projeto educacional e profissional que colocasse os negros libertos da escravidão no acesso à qualidade de vida. Isso deu origem a uma estrutura social das classes pobres, ao lado de índios e outros mestiços, que geram os problemas atualmente conhecidos de ordem social, cultural, econômica e política.
Se ela é exaltada pelo "movimento espírita", é puramente pela origem da FEB, instituição que surgiu sob a guarida do Segundo Império. Daí a propaganda que faz até hoje dos figurões imperiais, que, longe das figuras medianas que foram em vida, são transformados em "heróis da Pátria" dentro de uma mitologia historiográfica há muito superada, mas ainda vigente no "espiritismo" brasileiro.
A propaganda deu origem a todo um ufanismo que se consagrou sobretudo com Francisco Cândido Xavier, que desejava ver o Brasil como "coração do mundo" e "pátria do Evangelho", estabelecendo conexão entre a mitificação do Segundo Império e a "profecia" da "Data-Limite".
Há muito tempo os brasileiros não celebram mais com entusiasmo a Lei Áurea, assinada pela princesa Isabel Cristina de Bragança e Bourbon, filha do imperador Dom Pedro II, o monarca do Segundo Império e o primeiro e único nascido no Brasil.
A Lei Áurea foi assinada em 13 de maio de 1888, e oficialmente foi considerada pelos historiadores como o ponto máximo da luta contra a escravidão, Prevalecia a abordagem da "História dos Acontecimentos", que supervalorizava os feitos de pessoas detentoras de poder e fama.
Tempos depois, quando Marc Bloch desenvolveu a História das Mentalidades, que ampliava o leque da abordagem histórica para personagens anônimos ou para uma ampla diversidade de atividades sociais - até mesmo brincadeiras infantis e um simples trabalho de costureiras também tinham sua História - , a expectativa mudou completamente, juntamente com as circunstâncias.
Isso porque se viu depois que a Lei Áurea se mostrou ineficaz. Ela deixou o povo negro à própria sorte. Se a assinatura da Abolição não indenizou os senhores de engenho, que, irritados, aderiram à causa republicana só para derrubar o Segundo Império e se tornaram artífices da hoje conhecida República Velha, também não deu um projeto de ressocialização dos ex-escravos.
Apenas uma parte dos escravos libertos conseguiu subsídios para alguma prosperidade social. Mas eles eram favorecidos pelas condições em que o esforço individual dessa parcela do povo negro permitiu, porque eles não eram assistidos pelo Governo, antes tivessem sorte, talento e contatos para poderem se tornar economicamente prósperos.
Uma grande maioria, porém, continuou pobre e foi viver no emprego informal, isso quando podia. Muitos negros se tornaram "vagabundos" por verem tantas limitações para o mercado de trabalho que deram origem até aos "malandros" que habitam o imaginário popular. O mercado de trabalho não dava a devida atenção a esses jovens, que sobreviviam às custas de parentes e amigos.
Há também aqueles que se tornaram criminosos, diante da revolta que tiveram contra os senhores de engenho e contra o sistema opressivo em que viveram sob os diversos aspectos. Passaram a se tornar assaltantes e a comandar quadrilhas, dando origem a um histórico criminoso que hoje culmina com o narcotráfico aliado ao comércio internacional de armas e a criminalidade organizada.
A Abolição acabou dando origem às favelas, porque a urbanização excludente indenizava mal as populações desalojadas e a especulação imobiliária já nascente queria instalar estabelecimentos comerciais. Também não havia uma política habitacional para os ex-escravos e isso os prejudicou, forçando-os a improvisar casas rudimentares para terem algum abrigo permanente.
A situação do povo negro demorou para ter melhorias significativas. Se, em pleno 2015, um grupo de alunos é capaz de ficar impune ao humilhar violentamente uma aluna, a jovem Lorena dos Santos Almeida, de uma escola em São Bernardo do Campo, do ABC paulista, então todo o trabalho de emancipação dos negros tornou-se uma tarefa trabalhosa e cruel.
Há casos de racismo e de trabalho escravo no Brasil, coisas que acontecem de maneira clandestina ou enrustida. Nada é claramente assumido, mas as humilhações feitas contra o povo negro e os trabalhos precários empregando negros, índios e outros mestiços, com baixíssimos salários e sem qualquer encargo ou proteção. E já são 127 anos após a "maravilhosa" assinatura da Lei Áurea.
Pior é que esse regime precário não se dá somente a usinas e engenhos localizados em fazendas no interior distante. Até mesmo numa empresa multinacional, como a rede de lanchonetes (que se autodefine como "restaurante") McDonald's, há denúncias de trabalho precário e humilhações sofridas pelos empregados, não bastassem os salários humilhantes.
E temos até mesmo a precarização cultural do "funk", exaltada por uma campanha cheia de coitadismo movida por uma elite de intelectuais paternalistas, acontece, camuflada por uma retórica que, de maneira a mais hipócrita possível, evoca a "alta qualidade" e o "intenso ativismo" do famoso ritmo dançante carioca.
Isso porque, por trás das "maravilhosas" alegações em favor do "funk", há todo um sistema de valores conservador por trás, incluindo exploração machista da imagem da mulher (mascarada pela desculpa de "novo feminismo") e pela estereotipação da imagem do povo negro por um ritmo marcado pela tirania dos empresários-DJs e pela subordinação e subjugação artística dos jovens negros.
Como se vê, 127 anos de Lei Áurea não conseguiram promover a emancipação dos brasileiros negros. Se eles obtiveram conquistas, foi por conta de outras pressões, outros movimentos, não tão diferentes quanto as pressões e movimentos que ocorreram antes da assinatura do documento pela filha de Dom Pedro II.
LEI ÁUREA FOI O EFEITO MENOR DE UMA GRANDE PRESSÃO
A escravidão já era considerada decadente no mundo desenvolvido das primeiras décadas do século XIX. Mas no Brasil era considerada a atividade-motor da economia nacional, tanto que houve uma brutal resistência para sua extinção. Nem mesmo a adesão do estadista José Bonifácio de Andrada e Silva à causa abolicionista, manifesta já em 1823, convenceu as elites brasileiras.
O capitalismo nascente em países como França e Grã-Bretanha fazia com que especialistas, entre estudiosos da Economia e da Política, da Filosofia e do Direito, definissem o caráter de novas relações de trabalho, embora nessa época as indústrias não tivessem um padrão de relações de trabalho menos injusto que a escravidão.
Afinal, crianças e mulheres eram jogadas no mercado de trabalho mediante uma rotina opressiva, com baixa remuneração e sem qualquer proteção ou encargo. Sofreu acidente, fica por isso mesmo. Se a operária engravidava, era posta no olho da rua.
Mesmo assim, a Revolução Industrial pressionava para que países como o Brasil rompessem com o sistema escravista, considerado antiquado. Navios britânicos eram autorizados a bombardear navios negreiros que estavam a caminho do litoral brasileiro.
Até mesmo as elites intelectuais brasileiras expressavam resistência à causa abolicionista. Vários deles, mesmo na Conjuração Mineira (movimento do qual se destacou Tiradentes), mantinham escravos em suas fazendas.
Muita mobilização se fez e destacavam-se três negros emancipados, os jornalistas José do Patrocínio e os irmãos André e Antônio Rebouças, todos se empenhando em produzir textos que argumentassem sobre a necessidade de abolir o trabalho escravo. Muitos debates aconteciam no Parlamento brasileiro, na antiga capital do Império, a cidade do Rio de Janeiro.
A escravidão só pôde ser rompida aos poucos. Em 1850, em 04 de setembro, a Lei Eusébio de Queiroz determinou a proibição do tráfico de escravos para o Brasil. Em 28 de setembro de 1871, a Lei do Ventre Livre determinou que os filhos de escravos nascidos na referida data eram considerados libertos. Exatos 14 anos depois (28 de setembro de 1885), a Lei do Sexagenário tornava livres os escravos com mais de 60 anos de idade.
Fora os festejos da historiografia oficial, a Lei Áurea foi recebida com apatia pelo povo e pelas elites. Ela foi movida mais pelo grau extremo das pressões de décadas, sobretudo dos interesses econômicos da Inglaterra, e foi apenas um efeito menor de uma grande pressão cujas expectativas foram frustradas pelo inócuo documento assinado pela "funcionária de plantão", a princesa Isabel.
"ESPIRITISMO" AINDA GLORIFICA O "13 DE MAIO"
O papel da Lei Áurea é supervalorizado pelo "espiritismo" brasileiro, que surgiu cortejando o Segundo Império e a Igreja Católica, já que ser "espírita", naquela sociedade atrasada, era quase o mesmo que ser "feiticeiro". Daí vermos que o "movimento espírita" sempre se fundamentou em bases católicas, estruturando seu repertório ideológico que vale até hoje.
A Federação "Espírita" Brasileira surgiu patrocinada por iniciativa do imperador Dom Pedro II junto aos fundadores da instituição. O médico e deputado Adolfo Bezerra de Menezes era um militar a serviço do Império e havia participado dos debates em torno da Abolição, num papel bem-intencionado, mas menos significativo.
Ele chegou a escrever um livro com ideias pertinentes, A Escravidão no Brasil e as Medidas que Convém Tomar para Extingui-la sem Dano para a Nação, lançado em 1869, dentro de um contexto em que o Estado de origem do autor, o Ceará, era um dos que primeiro aboliram a escravidão, num hoje considerado insólito pioneirismo do Nordeste em detrimento do "avançado" Sudeste que custou a abolir o regime escravo.
Mas, pensando bem, esse quadro se assemelha muito ao de hoje, quando o Norte e Nordeste são os primeiros a rejeitar a degradação cultural de tendências "populares" como o "forró eletrônico" e a axé-music, que culturalmente escravizavam os gostos do povo pobre, enquanto o "moderno" Sudeste define como "vanguarda" a terceirização cultural do "funk" ("funk carioca" e "funk ostentação").
A glorificação do "13 de maio" torna-se um dado surreal dos "espíritas", embora compreensível pelo contexto de bajulação que a FEB presta até hoje ao Segundo Império brasileiro. A FEB é conhecida por cortejar o poder, quase sempre buscando agradar o Governo Federal vigente para obter subsídios financeiros, só sendo menos generosos com Juscelino Kubitschek e João Goulart.
Segundo a tese da FEB, o "13 de maio" é uma data triunfante, que expressa o mais alto valor da libertação humana e da construção de um país de solidariedade e fraternidade cristãs. Para a federação, a princesa Isabel e seu pai, Dom Pedro II, eram pessoas da mais alta evolução espiritual e da mais elevada missão humanista de promover uma nação mais justa e próspera.
A euforia que superestima os papéis de Isabel e Pedro - na verdade pessoas medianas de boa índole, simpáticas mas sem qualidades excepcionais - na sociedade brasileira permanecia no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de 1938, que Chico Xavier e Antônio Wantuil de Freitas escreveram usando o nome de Humberto de Campos.
Até hoje, textos publicados em periódicos "espíritas" exaltam o papel que pai e filha tiveram no Segundo Império, quando sabemos que, no caso da campanha abolicionista, a participação dos dois foi inexpressiva, sendo resultante do maior empenho dos parlamentares que discutiam a questão nas atividades legislativas.
APOSTAS RISÍVEIS (E CONFUSAS) DE REENCARNAÇÃO
Um dado a ser levado em conta são as apostas feitas para supor quem Dom Pedro II foi em uma encarnação anterior distante e quem a princesa Isabel teria sido posteriormente. Nesse hábito surreal e de valor duvidoso de atribuir reencarnações de personalidades revela confusões e atribuições risíveis.
A confusão se dá em conta de quem havia sido Dom Pedro II na Antiguidade. Consta-se que ele teria sido alguém com o nome de Cassius Longinus, mas três hipóteses conflitantes existem sobre que "Longinus" teria sido Dom Pedro II segundo os "espíritas".
A História registra vários indivíduos chamados Cassius Longinus. Três deles se destacam. Um foi o filósofo grego que viveu entre 213 e 273 da nossa era. Outro foi o senador romano, envolvido no assassinato do imperador Júlio César, que viveu entre 85 e 42 antes de Cristo. E o terceiro foi um centurião Longinus conhecido como Cassius, soldado que pregou Jesus na cruz.
Fontes diferentes se referem a qualquer um desses três como suposta antiga encarnação de Dom Pedro II. Todos eles mostram aspectos muito apropriados para os estereótipos explorados pelos ideólogos do "movimento espírita" brasileiro.
A tese do "Longinus filósofo" sugere uma pretensa sabedoria que os "espíritas" evocam de forma tendenciosa da reputação do filósofo. A do "Longinus senador" indica a de um chefe político "arrependido" e depois voltado para o governo "fraternalista". A do "Longinus centurião" indica a de um antigo servo do poder tirânico que depois se voltou para "missões de caridade".
Mas o que chama a atenção é o que os "espíritas" atribuem como reencarnação da princesa Isabel. Há os que acreditam que ela reencarnou como Irmã Dulce, a sóror baiana que desenvolveu um complexo projeto filantrópico que envolve um hospital e até uma fábrica de produção de pães e bolos visando garantir a assistência aos doentes e a garantia de emprego às classes pobres.
O aspecto risível está para outras fontes, que atribuem a reencarnação da princesa Isabel à presidenta Dilma Rousseff. Os anti-petistas ferrenhos iriam cair em gargalhadas histéricas, pelo fato dos oposicionistas, que aliás defenderam o "Fora Dilma" nas passeatas de ruas, não aceitarem qualquer comparação positiva à petista.
Evidentemente que as comparações relacionadas a Dom Pedro II e a princesa Isabel são improcedentes. A de Dom Pedro II é de caráter duvidoso e confuso, se perdendo entre três diferentes indivíduos que em comum têm apenas o mesmo nome.
Já a de sua filha não tem a menor procedência, porque imaginamos que suas caraterísticas pessoais não corresponderiam às que Irmã Dulce teve em sua vida nem às que Dilma Rousseff se manifesta no cotidiano atual.
Como filha de Dom Pedro II, Isabel teria herdado, por razões biológicas, a voz fina do pai, dado que foi colhido pelo historiador Laurentino Gomes a partir de documentos da época. Portanto, ela não teria se tornado depois Irmã Dulce nem Dilma Rousseff, porque nenhuma das duas foi marcada pelo tipo de voz que provavelmente teria tido a princesa.
Imagina-se que o jeito de falar de Isabel teria sido muitíssimo diferente do que registros deixaram de Irmã Dulce, e se pesquisarmos as nuances individuais, veríamos que a comparação nada tem a ver. E, no caso de Dilma, durona e de voz grave, dificilmente se encaixaria no perfil que provavelmente se supõe ter sido Isabel, naqueles tempos em que o fonógrafo era invenção recente e inacessível.
CONCLUSÃO
A Lei Áurea falhou por não estar acompanhada de um projeto educacional e profissional que colocasse os negros libertos da escravidão no acesso à qualidade de vida. Isso deu origem a uma estrutura social das classes pobres, ao lado de índios e outros mestiços, que geram os problemas atualmente conhecidos de ordem social, cultural, econômica e política.
Se ela é exaltada pelo "movimento espírita", é puramente pela origem da FEB, instituição que surgiu sob a guarida do Segundo Império. Daí a propaganda que faz até hoje dos figurões imperiais, que, longe das figuras medianas que foram em vida, são transformados em "heróis da Pátria" dentro de uma mitologia historiográfica há muito superada, mas ainda vigente no "espiritismo" brasileiro.
A propaganda deu origem a todo um ufanismo que se consagrou sobretudo com Francisco Cândido Xavier, que desejava ver o Brasil como "coração do mundo" e "pátria do Evangelho", estabelecendo conexão entre a mitificação do Segundo Império e a "profecia" da "Data-Limite".
terça-feira, 12 de maio de 2015
Chico Xavier não teria feito todos os 418 livros a ele atribuídos
ILUSTRAÇÃO FEITA COMBINANDO A SILHUETA DE FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER COM SUPOSTAS CARTAS PSICOGRAFADAS.
Temos que admitir como verídicas as denúncias dadas por militantes católicos como Gustavo Corção, Alceu Amoroso Lima e Padre Quevedo, de que a psicografia de Chico Xavier seria uma grande farsa, até pela pertinência lógica que tais religiosos apresentam em seus questionamentos.
Verdadeiro popstar do "movimento espírita", Chico Xavier não era um super-homem. Ele nunca foi um speed racer da escrita mediúnica, e muito do que ele colocou no papel atribuído a espíritos falecidos encontra uma preocupante série de irregularidades, cuja gravidade põe em xeque a veracidade atribuída a muitas delas, a começar pelo famoso caso Humberto de Campos.
A verdade é que dificilmente Chico Xavier teria realmente psicografado todos os 418 livros atribuídos à sua atividade supostamente mediúnica. Ele era o astro pop do "espiritismo", tinha seus compromissos de atender pessoas, dar entrevistas, comparecer a eventos, ser homenageado em cerimônias.
Dificilmente ele se daria conta de tantos livros, mesmo se considerarmos a tese inverídica, mas verossímil, de autorias espirituais. Há o aberrante dado de que Chico Xavier está associado a uma média de 15 livros supostamente psicografados por ano!!
Poucos sabem como é o trabalho de escrever um livro. Uma publicação de cerca de 100 páginas pode levar um mês para ser escrita. É um processo que não é fácil, pois há a responsabilidade de escrever um livro com uma linguagem clara, com boa argumentação e com a máxima correção ortográfica possível.
Se quinze livros são produzidos num mesmo ano, como alguém pode dar conta sozinho - ou com a ajuda de alguns "amigos do além", o que é pouco provável no caso de Chico Xavier, apesar da tese oficialmente contrária - dentro de um período de 365 dias?
Se alguém elabora esses quinze livros sozinho - pela tese oficial, Chico Xavier foi o único na Terra a se responsabilizar sozinho por cada livro, salvo algumas parcerias - , terá que abrir mão de compromissos diversos e se isolar para elaborar todos eles.
Muitos escritores chegam a se isolarem para escreverem uma única obra literária. Escrever livro envolve concentração e, na tese da mediunidade, supõe-se que o médium teria que se retirar para se concentrar e permitir que um espírito lhe venha com um projeto de livro, que não é algo que se conclua num piscar de olhos.
E na música pop? E alguém imaginaria o astro pop Michael Jackson lançando quinze LPs por ano? Sua discografia tinha um grande intervalo entre um LP e outro. Entre o Thriller e o Bad, por exemplo, há um intervalo de cinco anos.
O próprio Chico Xavier deixou vazar que muitos de seus livros são feitos por colaboração de terceiros. Parnaso de Além-Túmulo, até pelas gravíssimas acusações de pastiches e plágios e do aberrante contraste dos poemas apresentados com o estilo original que os supostos autores espirituais fizeram em vida, teria sido obra de Chico Xavier, editores da Federação "Espírita" Brasileira e consultores literários.
As próprias cartas de Chico Xavier ao então presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, indicam isso. Pena que Suely Caldas Schubert só publicou as cartas de Xavier, sem recorrer às respostas dos destinatários, porque talvez pudéssemos ver realmente como eram as negociações para os remendos editoriais de Parnaso de Além-Túmulo.
Consta-se que a psicografia da série Emmanuel - ele teria ditado as palavras para Chico Xavier escrever - foi verídica até meados dos anos 1960, enquanto outros "autores", como Meimei, Humberto de Campos / Irmão X e André Luiz, teriam sido escritos da própria mente do anti-médium, em parceria com outros autores ligados à FEB.
A série Humberto de Campos / Irmão X, ao que tudo indica, foi feita a quatro mãos por Chico e Wantuil. A série André Luiz começou com o plágio de A Vida Além do Véu, do protestante inglês George Vale Owen, através do livro Nosso Lar, e foi adiante nos livros que teriam sido feitos em parceria, assumida ou não, com Waldo Vieira (hoje líder da Conscienciologia / Projeciologia).
Consta-se que Waldo, então adolescente, teria fornecido sugestões de ficção científica que teriam feito parte de Nosso Lar, já que o depois fundador da Conscienciologia era um ávido leitor de histórias em quadrinhos. e depois Waldo teria "elaborado melhor" o personagem André Luiz junto a Chico Xavier.
Chico Xavier teria produzido livros até meados dos anos 1970. Depois, teria se limitado a assinar livros feitos por terceiros, elaborados por editores da FEB. O anti-médium, fisicamente mais frágil, se limitaria a produzir de sua própria mente cartas que eram atribuídas a pessoas mortas.
É até notável que os livros que Chico Xavier "produziu" nas últimas décadas não sejam vistos com muita importância. A publicidade dada a esses livros é ínfima, o que dá forte indício de que ele não tenha escrito uma vírgula sequer nessas obras.
Isso lembra o conto "A Terra Árida", de Luís Fernando Veríssimo (curiosamente vítima de textos apócrifos atribuídos à sua autoria na Internet, sofrendo na carne o que Humberto de Campos passou a sofrer no além-túmulo).
O conto mencionava a trajetória de um suposto sexólogo, Dr. Murray Brown, que seria autor de uma série de livros. No conto, um tradutor tinha a missão de publicar a versão em português das obras do escritor. O tradutor, quando decidiu entrar em contato com o autor, percebe que ele oficialmente havia morrido antes e que os novos trabalhos eram feitos por uma equipe de editores.
Diferenças de detalhes à parte, o que se observa que muito que se atribui à suposta psicografia de Chico Xavier na verdade teria sido, em princípio, escrito pela própria imaginação do anti-médium mineiro, sozinho (ou ditado por Emmanuel) ou em parceria com alguém,
Mas, num certo período, ele, doente, só emprestava seu nome, mediante contratos, a obras produzidas por terceiros que apenas tinham a obrigação de se aproximarem do estilo de mensagem do anti-médium. A hipótese parece absurda para muitos, mas tem mais coerência lógica do que acreditar que um velhinho frágil e cheio de compromissos iria ter tempo para lançar 15 livros por ano.
Temos que admitir como verídicas as denúncias dadas por militantes católicos como Gustavo Corção, Alceu Amoroso Lima e Padre Quevedo, de que a psicografia de Chico Xavier seria uma grande farsa, até pela pertinência lógica que tais religiosos apresentam em seus questionamentos.
Verdadeiro popstar do "movimento espírita", Chico Xavier não era um super-homem. Ele nunca foi um speed racer da escrita mediúnica, e muito do que ele colocou no papel atribuído a espíritos falecidos encontra uma preocupante série de irregularidades, cuja gravidade põe em xeque a veracidade atribuída a muitas delas, a começar pelo famoso caso Humberto de Campos.
A verdade é que dificilmente Chico Xavier teria realmente psicografado todos os 418 livros atribuídos à sua atividade supostamente mediúnica. Ele era o astro pop do "espiritismo", tinha seus compromissos de atender pessoas, dar entrevistas, comparecer a eventos, ser homenageado em cerimônias.
Dificilmente ele se daria conta de tantos livros, mesmo se considerarmos a tese inverídica, mas verossímil, de autorias espirituais. Há o aberrante dado de que Chico Xavier está associado a uma média de 15 livros supostamente psicografados por ano!!
Poucos sabem como é o trabalho de escrever um livro. Uma publicação de cerca de 100 páginas pode levar um mês para ser escrita. É um processo que não é fácil, pois há a responsabilidade de escrever um livro com uma linguagem clara, com boa argumentação e com a máxima correção ortográfica possível.
Se quinze livros são produzidos num mesmo ano, como alguém pode dar conta sozinho - ou com a ajuda de alguns "amigos do além", o que é pouco provável no caso de Chico Xavier, apesar da tese oficialmente contrária - dentro de um período de 365 dias?
Se alguém elabora esses quinze livros sozinho - pela tese oficial, Chico Xavier foi o único na Terra a se responsabilizar sozinho por cada livro, salvo algumas parcerias - , terá que abrir mão de compromissos diversos e se isolar para elaborar todos eles.
Muitos escritores chegam a se isolarem para escreverem uma única obra literária. Escrever livro envolve concentração e, na tese da mediunidade, supõe-se que o médium teria que se retirar para se concentrar e permitir que um espírito lhe venha com um projeto de livro, que não é algo que se conclua num piscar de olhos.
E na música pop? E alguém imaginaria o astro pop Michael Jackson lançando quinze LPs por ano? Sua discografia tinha um grande intervalo entre um LP e outro. Entre o Thriller e o Bad, por exemplo, há um intervalo de cinco anos.
O próprio Chico Xavier deixou vazar que muitos de seus livros são feitos por colaboração de terceiros. Parnaso de Além-Túmulo, até pelas gravíssimas acusações de pastiches e plágios e do aberrante contraste dos poemas apresentados com o estilo original que os supostos autores espirituais fizeram em vida, teria sido obra de Chico Xavier, editores da Federação "Espírita" Brasileira e consultores literários.
As próprias cartas de Chico Xavier ao então presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, indicam isso. Pena que Suely Caldas Schubert só publicou as cartas de Xavier, sem recorrer às respostas dos destinatários, porque talvez pudéssemos ver realmente como eram as negociações para os remendos editoriais de Parnaso de Além-Túmulo.
Consta-se que a psicografia da série Emmanuel - ele teria ditado as palavras para Chico Xavier escrever - foi verídica até meados dos anos 1960, enquanto outros "autores", como Meimei, Humberto de Campos / Irmão X e André Luiz, teriam sido escritos da própria mente do anti-médium, em parceria com outros autores ligados à FEB.
A série Humberto de Campos / Irmão X, ao que tudo indica, foi feita a quatro mãos por Chico e Wantuil. A série André Luiz começou com o plágio de A Vida Além do Véu, do protestante inglês George Vale Owen, através do livro Nosso Lar, e foi adiante nos livros que teriam sido feitos em parceria, assumida ou não, com Waldo Vieira (hoje líder da Conscienciologia / Projeciologia).
Consta-se que Waldo, então adolescente, teria fornecido sugestões de ficção científica que teriam feito parte de Nosso Lar, já que o depois fundador da Conscienciologia era um ávido leitor de histórias em quadrinhos. e depois Waldo teria "elaborado melhor" o personagem André Luiz junto a Chico Xavier.
Chico Xavier teria produzido livros até meados dos anos 1970. Depois, teria se limitado a assinar livros feitos por terceiros, elaborados por editores da FEB. O anti-médium, fisicamente mais frágil, se limitaria a produzir de sua própria mente cartas que eram atribuídas a pessoas mortas.
É até notável que os livros que Chico Xavier "produziu" nas últimas décadas não sejam vistos com muita importância. A publicidade dada a esses livros é ínfima, o que dá forte indício de que ele não tenha escrito uma vírgula sequer nessas obras.
Isso lembra o conto "A Terra Árida", de Luís Fernando Veríssimo (curiosamente vítima de textos apócrifos atribuídos à sua autoria na Internet, sofrendo na carne o que Humberto de Campos passou a sofrer no além-túmulo).
O conto mencionava a trajetória de um suposto sexólogo, Dr. Murray Brown, que seria autor de uma série de livros. No conto, um tradutor tinha a missão de publicar a versão em português das obras do escritor. O tradutor, quando decidiu entrar em contato com o autor, percebe que ele oficialmente havia morrido antes e que os novos trabalhos eram feitos por uma equipe de editores.
Diferenças de detalhes à parte, o que se observa que muito que se atribui à suposta psicografia de Chico Xavier na verdade teria sido, em princípio, escrito pela própria imaginação do anti-médium mineiro, sozinho (ou ditado por Emmanuel) ou em parceria com alguém,
Mas, num certo período, ele, doente, só emprestava seu nome, mediante contratos, a obras produzidas por terceiros que apenas tinham a obrigação de se aproximarem do estilo de mensagem do anti-médium. A hipótese parece absurda para muitos, mas tem mais coerência lógica do que acreditar que um velhinho frágil e cheio de compromissos iria ter tempo para lançar 15 livros por ano.
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