quarta-feira, 13 de julho de 2016

Livro "espírita" supõe explicar a crise vivida no Brasil


Que o "espiritismo" brasileiro é sensacionalista, isto é a mais pura verdade, embora muita gente se recuse a admitir isso. Mas a coisa sucumbiu a atitudes ainda mais absurdas, sobretudo num tempo em que o Brasil ameaça se tornar uma teocracia, com a divulgação do traiçoeiro projeto Escola Sem Partido.

Robson Pinheiro, que teve que interromper o andamento de um livro, 2080, por causa do "urgente" lançamento de O Partido: Um Projeto Criminoso de Poder, atribuído ao "espírito Ângelo Inácio", "parceiro" das obras do badalado autor.

A história parece uma ficção fantasiosa: "espíritos do mal" são responsáveis de manipular tudo e todos para o erro, e aqui a força dos espíritos inferiores é superestimada, como se os espíritos encarnados não tivessem vontade própria ou, se tem, são muito mais frágeis do que normalmente se esperaria delas.

Um dos trechos do livro cita a instrução de um espírito trevoso considerado de "alta hierarquia":

"Entre os encarnados, a técnica para dominá-los sem que o saibam consistirá em falar aquilo que eles querem ouvir, dando-lhes apenas migalhas, porém, prometendo sempre mais... A verdade não importa! Gravem bem em sua memória: é a mentira que querem ouvir. Portanto, mintam! Mintam com convicção e descaradamente, mas sem perderem o ar piedoso e a aura de virtude... Acusem os inimigos de tudo o que fazemos e negamos peremptoriamente. Sejam impiedosos que eles se vergarão à humilhação pública... Nossas técnicas de persuasão em massa continuam as mesmas: pressionar, intimidar, difamar, aniquilar a imagem e a reputação de nossos opositores perante toda a gente... eis o cerne da nossa estratégia de guerrilha: negar sempre, não assumir jamais os ardis a que recorremos; tal deve ser a regra observada rigorosamente por nossos comparsas no mundo físico... Nossas marionetes, recrutaremos entre os mais instruídos - pois, como já foi dito, escolas, universidades e imprensa serão alvos prioritários da estratégia traçada - , como também em meio aos que propagam ideias espiritualizantes... Mesmo homens de bem precisam ser enganados; aliás, eles precisam se converter em nossos maiores aliados!... Dominem o que lhes apraz; a nós não interessa este mundo, a não ser sua aniquilação."

Aparentemente, a obra é ideologicamente "imparcial" e Robson Pinheiro ainda apareceu, numa foto de divulgação do livro, no YouTube, usando uma boina e vestindo camisa vermelha. Muitos perguntam se isso é paródia de Ernesto Che Guevara ou alguma gozação ao PT.

ROBSON PINHEIRO DE BOINA E CAMISA VERMELHA: PARODIANDO CHE GUEVARA E O PT?

Tudo parece mesmo uma coisa surreal e fantástica. "Magos negros" formando artilharia contra Brasília, influenciando as pessoas a praticar corrupções e arbitrariedades, além de induzi-las a falar mentiras de todo tipo. Como se fossem feiticeiros tentando dominar crianças!...

O que chama a atenção é o lado "coxinha" de uma passagem do livro, o que indica que, em que pese o "boné Che Guevara" e a "camisa petista" da foto de divulgação, Robson Pinheiro, na verdade, estaria fazendo oposição ao governo Dilma Rousseff, como sugere a interpretação de uma passeata neste trecho:

"As energias colhidas e armazenadas nas manifestações pacíficas ocorridas na Avenida Paulista, no dia 13 de março de 2016, e em outros locais do país foram empregadas pelos guardiões em tarefas últimas junto ao povo brasileiro... Naquele dia memorável, a nave dos guardiões sobrevoou a Avenida Paulista, absorvendo as energias emanadas da multidão e as armazenando em seu bojo para as usarem oportunamente. Torres de captação das irradiações mentais e emocionais foram erguidas pelos especialistas e pelos técnicos do astral... era possível captar e reter emanações que seriam essenciais, mais tarde, para enfrentarem as milícias das sombras aquarteladas no Congresso Nacional."

Isso é constrangedor. Afinal, as referidas passeatas intuídas por "guardiões" (os tais "benfeitores espirituais"), um "dia memorável" de transmissão de "energias elevadas" - termo que não aparece explícito no trecho em questão - , correspondem, na verdade, ao ápice das manifestações anti-PT que haviam ocorrido desde 2015.

MENSAGENS VINGATIVAS, BAIXARIAS, CLAMORES GOLPISTAS E ATÉ EXIBIÇÃO DE UMA SUÁSTICA NAZISTA ESTIVERAM NAS "PACÍFICAS" MANIFESTAÇÕES "CONTRA A CORRUPÇÃO".

O ridículo disso tudo - dentro de uma perspectiva que classifica o parcial juiz Sérgio Moro, um sujeito que se recusa a prender tucanos (PSDB) corruptos com a mesma agilidade (e pressa) que combate o PT, como um "herói" - é que as "maravilhosas manifestações contra a corrupção" eram na verdade uma coleção de incidentes infelizes.

É necessário lembrar também que esses protestos anti-PT, que Robson Pinheiro descreve como se fossem "vibrações positivas" da população, o que pressupõe um manifesto coletivo de solidariedade e união, foram na verdade manifestações de puro ódio e rancor.

As fotos não deixam mentir. Uma senhora segurando um cartaz dizendo "Por que não mataram todos em 1964?" é de um rancor vingativo descomunal. Manifestantes mostrando os traseiros para o governo Dilma Rousseff e mensagens pedindo intervenção militar para o país (espécie de eufemismo para golpe militar, como era a palavra "revolução" há 42 anos) também foram notados.

Mas o pior disso tudo é que, em algumas dessas manifestações, chegou-se a exibir uma suástica nazista, o que é uma atitude das mais deploráveis, por razões óbvias. Como é que Robson irá atribuir, a esses protestos culminados no 13 de março de 2016, uma "vibração positiva" diante de eventos tão lamentáveis, só para usar uma definição mais "educada"?

O livro O Partido também peca pelo maniqueísmo fácil existente entre políticos e povo. Os políticos seriam a "podridão" do país, o povo a massa sedenta por "bondade e fraternidade". Tudo muito simplório, ignorando que a vida é muito mais complexa e que aquele "memorável treze de março" era na verdade uma podridão muito pior do que erroneamente se atribui ao PT em supostas denúncias que mais parecem rumores e boatos confusos e muito mal explicados.

E todos esses processos "contra a corrupção" deram origem a um governo mais corrupto ainda. E isso é terrível. Afinal, o país na verdade vive uma crise de valores e o que se está em jogo hoje é a plutocracia e outras elites associadas (patriarcado, oligarquias, tecnocracia, aristocracia, empresariado etc) que tentam fazer o Brasil voltar aos padrões de uma sociedade castrada de 1974.

Chama a atenção também o nome de um espírito "representante máximo da justiça divina": Miguel. O nome é uma variante de Michel, nome do presidente interino que está associado a forças muito mais corruptas do que aquelas que supostamente cercaram a presidenta afastada.

Robson Pinheiro também comete a asneira de comparar, no sentido positivo, o 13 de maio de 1888 e o 13 de março de 2016. Se os dois fatos são comparáveis, isso se dá pelo lado negativo: fatos que geraram crises profundas. Não que a escravidão não devesse ser abolida, mas da forma como foi feita, com o Brasil levando mais de seis décadas para eliminar esse triste método de exploração humana, deixou os negros à deriva.

A única coisa realmente comparável que aconteceu foi que, enquanto, em 1888, a plutocracia da época, como os senhores de engenho e os emergentes senhores do café, decidiram derrubar o Império, forçando o afastamento do imperador Dom Pedro II (que saiu do país de forma melancólica), a plutocracia de hoje decidiu mandar afastar a presidenta Dilma Rousseff, em processos de votação de uma maioria de corruptos clamando por este afastamento.

E todos eles clamando "pela Família cristã", o que poderia tranquilizar os "espíritas". Estes falam no impeachment como uma "libertação", quando na verdade vemos o Brasil desgovernado e prisioneiro de seus paradigmas mais antigos.

As pessoas querem retroceder em uma versão mais radical de 1974, com mais machismo, mais mistificação, mais racismo, mais capitalismo, mais escravidão moderna (algo que foi praticado até por uma editora "espírita"), mais poder midiático, para atender aos interesses de pessoas dotadas de maior status social, seja ele político, econômico, acadêmico, lúdico (famosos), tecnocrático e até religioso.

Robson Pinheiro cita Francisco Cândido Xavier indiretamente, descrevendo a "missão" do Brasil em ser "coração do mundo e pátria do Evangelho". Com esse livro "coxinha", Robson condiz com a postura reacionária do "movimento espírita" (do qual ele se envolve de maneira "independente", sem ter vínculo formal à FEB), que defendeu o golpe de 1964 e, em 1971, mostrou Chico Xavier defendendo abertamente a ditadura militar na TV, quando ela estava em sua fase mais cruel.

Diante disso, só se pode esperar de O Partido uma obra reacionária e fantasiosa, cheia de preconceitos moralistas religiosos e uma confusa e maniqueísta abordagem da vida política nacional. Mais uma obra lamentável de uma longuíssima antologia de lamentáveis obras "espíritas".

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Hierarquias em queda


Os fatos que acontecem no Brasil nos últimos anos são reflexo de um desgaste de um sistema de valores que alguns agentes sociais tentam recuperar ou manter na marra, já a partir de um governo interino do presidente em exercício Michel Temer, composto de forma golpista e fraudulenta.

O medo da queda de valores hierárquicos, diante de tantos escândalos de corrupção, ou gafes e crimes cometidos, se reflete pelos surtos histéricos que, a partir da grande imprensa, acontecem, e fazem religiosos de mentalidade medieval recorrerem a "remédios" como o Escola Sem Partido, projeto reacionário criado pelo advogado Miguel Najib e divulgado por gente como o ator Alexandre Frota.

A derrubada de totens e paradigmas assusta muita gente. Tecnocratas, famosos, burocratas, acadêmicos e oligarcas que se julgavam detentores de uma superioridade social inabalável estão com medo de perder privilégios e vantagens.

As transformações sociais vividas no Brasil amedrontam os privilegiados hoje, da mesma forma que em 1964, e é típico do Brasil que tais pessoas tentem forçar o país a dar passos para trás para evitar mudanças naturais.

Tudo que vem desta plutocracia está ruindo: do "funk", que simboliza um modo plutocrático de promover a "cultura" das classes populares, ao "espiritismo", que no fundo é o "catolicismo à paisana" que tanto agrada os barões midiáticos, a partir das Organizações Globo.

Estão caindo aristocratas, políticos, empreiteiros, antropólogos, jornalistas culturais, juristas, socialites, astros do futebol, apresentadores de TV, publicitários, médicos, arquitetos e tantos outros que se dispunham de uma reputação antes inabalável, só porque simbolizam alguma vantagem conquistada.

Até no mercado de trabalho se começa a ver que muitas das contratações de emprego não são feitas por puro preconceito, que vai desde a questão da idade à aparência ou mesmo uma especialização às avessas, quando o mercado prefere contratar gente medíocre do que outra que, mais talentosa, possa ameaçar a estabilidade dos privilegiados de hoje.

Isso desnorteia as pessoas, que ainda têm que encarar a catástrofe da decadência de um Estado e uma capital, ambos chamados Rio de Janeiro, que antes serviam de modelo para a sociedade. A sucessão de notícias funestas que atingem a outrora Cidade Maravilhosa assustam o país e o mundo, praticamente pondo xeque-mate à sua antiga condição de cidade-modelo para o resto do Brasil, onde até pouco tempo atrás qualquer coisa que vinha dessa cidade passava a valer em todo o país.

Diante disso, estouram movimentos obscurantistas aqui e ali. Grupos neofascistas, movimentos pedagógicos ligados a seitas retrógradas (como o Escola Sem Partido, que propõe desqualificar a Educação brasileira), são apenas exemplos de um Brasil apavorado que busca desesperadamente voltar aos parâmetros sociais de 1974.

É uma sociedade em pânico, já demonstrada pelo vandalismo e pela truculência digital das trolagens e cyberbullying da Internet. E mostra o quanto um número considerável de brasileiros, até pela educação ultraconservadora que recebem aqui e ali, de maneira direta ou indireta, estão com medo de ver seus ídolos e totens serem desqualificados por definitivo.

Da mesma forma, é uma sociedade insegura que precisa de "gente de cima" para "dar exemplo". Ver o desgaste de tantas personalidades do topo das hierarquias sociais, de âmbito político, econômico, técnico, acadêmico, lúdico e religioso, é demais para essas pessoas, que em primeiro momento estão reagindo com indignação, como alguém que é decepcionado pela primeira vez e recusa ver o seu antigo objeto de adoração desmascarado.

A situação só está começando e a crise social em que vive o país só vai aumentar, demonstrando que não há como recuperar antigas estruturas hierárquicas que hoje perdem o sentido, embora elas ainda sejam consideradas de "máximo valor" diante de um país atolado na areia movediça de suas zonas de conforto.

Essa crise acaba sendo necessária para as pessoas reverem seus valores, abandonando estruturas que parecem benéficas e estáveis, mas que influem direta ou indiretamente na série de injustiças e prejuízos humanos, muitos deles graves. É doloroso abandonar totens e paradigmas consagrados mas em profundo desgaste, mas isso é necessário para reinventar um país.

sábado, 9 de julho de 2016

Com o "13 de Março", o "espiritismo" brasileiro deixou a máscara cair


Com os recentes textos exaltando, de forma tardia, as manifestações de 13 de março de 2016, definindo como processos de "libertação" e "regeneração" do Brasil, o "movimento espírita" simplesmente deixou a máscara cair de vez.

Sem poder explicar a postura "dúbia", na qual contraditoriamente bajula Allan Kardec e faz falsa apreciação dos assuntos científicos, mas por outro lado exalta o igrejismo e o mal-disfarçado catolicismo de Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, o "espiritismo" se revelou que nunca foi mais do que uma reciclagem do Catolicismo medieval português.

A exaltação ao 13 de Março, usando como alegação a "conscientização política" dos jovens, pode até parecer uma confusão feita pelos "espíritas" aos protestos em prol do "Fora Collor", se não fosse o caráter ultraconservador que o "espiritismo", sobretudo através de Chico Xavier, demonstrou explicitamente, apoiando o golpe de 1964 e pregando a Teologia do Sofrimento.

A postura "coxinha" assumida pelo "movimento espírita" ao chamar de "regeneração" e atribuir "conscientização política" aos protestos de 13 de março, na verdade, revelam o aspecto sombrio da seita religiosa, através de quem e do que se destina tal apoio.

Em primeiro lugar, a doutrina que tanto fala em "amor" e reprova o ódio e a revolta acabou por dar seu apoio a manifestações que vieram de campanhas rancorosas nas mídias sociais, protestos fantasiados de trajes verde-amarelos e usando bandeiras do Brasil pedindo a volta da ditadura militar, mostrando suásticas nazistas e até mesmo pedindo morte a Dilma Rousseff, Lula e "toda a quadrilha" do PT.

Segundo, é só observar as pessoas e as ideias que estão por trás do "memorável momento" para ver o quanto a ideia de "regeneração" é ridícula. Vamos primeiro citar as pessoas, para se ver quem são os "iluminados" que os "espíritas" andam exaltando com tanto entusiasmo.

Fascistas como Jair Bolsonaro e Marco Feliciano, os manifestantes Renan Santos e Kim Kataguiri (ambos do Movimento Brasil Livre), Marcello Reis (Revoltados On Line), o neo-medieval Olavo de Carvalho e os trogloditas da opinião, Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi, são alguns dos ídolos do "povo" do 13 de Março, assim como uma Rachel Sheherazade que certa vez defendeu a tortura de um jovem ladrão por "justiceiros" e uma ensandecida juíza Janaína Paschoal.

Isso sem falar que a "histórica" manifestação impulsionou os deputados federais, presididos por um Eduardo Cunha (que já renunciou ao cargo) acusado de tantas corrupções, a votarem pelo afastamento de Dilma Rousseff e sua substituição pelo governo retrógrado de Michel Temer. Muitos dos deputados e senadores que participaram das votações ao longo do processo são investigados ou acusados de graves crimes, sobretudo corrupção.

Quanto às ideias, o "maravilhoso" 13 de Março propôs as seguintes causas: proteção aos privilégios dos ricos, precarização do mercado de trabalho, privatização do ensino público, projeto pedagógico que não promovesse o debate entre professores e alunos, entrega de reserva de pré-sal, mediante venda por valor bastante simbólico, às corporações estrangeiras do petróleo etc.

Além disso, a tese de "regeneração" difundida pelos "espíritas" é ridícula. Afinal, eles acreditam que o Brasil irá liderar a comunidade das nações e se tornará o "Coração do Mundo", sendo também a tal "pátria do Evangelho" a dar "lições de sabedoria e solidariedade" para o resto do mundo, com seu projeto "progressista" para a humanidade.

Só que, se tal alegação era impossível de qualquer maneira e sob todos os aspectos, já que esconde intenções teocráticas ("pátria do Evangelho") e propõe uma inconcebível posição de liderança (até por ela ser perigosa, vide exemplos como o Império Romano e a Alemanha nazista, e impossível, diante de um Brasil afundado em crise).

Além do mais, que nação-líder do mundo será um Brasil que retomará, aos olhos do "missionário" governo de Michel Temer, preparando o terreno para um futuro "grande líder" (Aécio Neves?), a postura de país periférico subordinado às diretrizes político-econômicas dos EUA?

Isso soa contraditório, pois o país que os "espíritas" alegam estar destinado a ser o "Coração do Mundo" está sujeito a voltar a ser um capacho dos EUA, o que não é uma postura de liderança, mas de subserviência das mais lamentáveis. A máscara caiu para o "espiritismo" brasileiro.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

A ilusão da invulnerabilidade dos retrógrados

A TERRA MAIS PARECE UM AMBIENTE A SER TOMADO PELO BOLOR.

A onda de retrocessos sociais expressa dois problemas. Um é o consentimento da sociedade moderna para que movimentos retrógrados aconteçam, reivindicando a volta de padrões antiquados de vida social, geralmente focados na Idade Média ou na Antiguidade do Oriente Médio.

Machistas, racistas, neo-nazistas, patrimonialistas, todas as facções retrógradas da sociedade se rebelam de uma forma ou de outra, em ocorrências que variam da formação do governo de Michel Temer, no Brasil, à chacina cometida numa boate gay em Orlando, na Flórida, passando pela tentativa de destruição de uma cidade síria pelo Estado Islâmico ou o assassinato da parlamentar britânica Jo Cox por um neo-nazista.

A fúria daqueles que sonham com o retorno de sociedades atrasadas, como supostos paraísos austríacos de gente exclusivamente branca, nações teocráticas, sociedades elitistas, cidades escravocratas, estruturas familiares conservadoras, mostra o quadro surreal em que vivemos.

Pois isso é resultante de uma nostalgia doentia que move iniciativas tão extremistas. Sejam os corruptos do Congresso Nacional brasileiro com saudade da "mamata" da ditadura militar, quando a sociedade era castrada e forçada a se resignar com os arbítrios políticos, sejam os membros do Estado Islâmico que acreditam em nações misticamente fortes e autoritárias.

Mesmo o "espiritismo" brasileiro se insere nesse quadro, pois a religião não consegue disfarçar sua herança do Catolicismo medieval português, já que em muitos momentos chega a ser mais católico que a Igreja Católica, com o agravante de que aproveitou diretrizes que os católicos não seguem mais. Defender a Teologia do Sofrimento é uma delas.

As próprias figuras de Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco se inserem nesse quadro, por mais que seus defensores insistam num inexistente futurismo em suas pregações. Isso porque Chico Xavier e Divaldo Franco personificam tipos antiquados de personalidades, lembrando, respectivamente, um caipira da República Velha e um catedrático das velhas escolas dos anos 1920-1940.

O conteúdo religioso deles também é reflexo disso. E as pessoas que os glorificam sentem saudade de uma moral religiosa que assegurasse relações hierárquicas, conservadorismo ideológico sustentado por pretextos moralistas e pela utopia do prêmio póstumo das "bênçãos futuras", uma forma confusa e vaga de definir as "recompensas" prometidas para os sofredores pela religião "espírita".

Há um saudosismo doentio em todos os aspectos, que no entanto garante uma estranha confiabilidade dos seus detentores. Todos parecem empenhados e confiantes em recuperar padrões obsoletos de vida social, que nada dizem para os dias de hoje, mas cujos defensores persistem em resgatá-los e fazer prevalecer até em sociedades futuras.

É como se o passado quisesse ser dono do futuro. É a rebelião do mofo tóxico contra o ar puro. É a recusa de admitir novos tempos e a teimosia em recuperar o irrecuperável, criando uma ilusão de tranquilidade ou, na pior das hipóteses, de triunfalismo da parte de seus defensores ou agentes.

Afinal, existe também a pressão de outra parte da sociedade, que quer reafirmar os novos tempos, e não aceita que antigas desigualdades ou antigos dogmas, mesmo obsoletos, retornem como se fossem atuais, e a intransigência dos retrógrados revela o quanto pessoas desse nível ainda se mantém numa ilusão de invulnerabilidade, como se acreditassem num triunfo futuro.

Esse é o grande problema da humanidade. É um grande risco do futuro ficar refém do passado. E tal coisa é expressa por diversos movimentos sociais, políticos e religiosos que querem que a Terra volte aos estágios medievais ou teocráticos, retomando estruturas arcaicas de sociedades desiguais, misticamente subordinadas e rigidamente hierarquizadas. Cabe pensarmos nesse grave problema.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Retrocessos sociais podem aumentar a violência em todo o Brasil

A MÉDICA GISELE PALHARES, MORTA DIAS ATRÁS EM UM ASSALTO NA LINHA VERMELHA, NO RIO DE JANEIRO.

A chamada "sociedade civil" brasileira está brincando com fogo quando clama pelo resgate de valores "sagrados" ou "estáveis" que na verdade correspondem a retrocessos diversos feitos para salvar privilégios econômicos e sociais e valores hierárquicos.

As passeatas pelo "Fora Dilma" abriram caminho para um governo de moldes ultraconservadores que é o do presidente interino Michel Temer, que causou um cenário político de disparada nos preços dos produtos, aumento de desemprego e propostas que preveem retrocessos sociais de qualquer espécie, sempre em prejuízo às classes populares, maioria no povo brasileiro.

A questão da hierarquia, que é objeto da maior, embora silenciosa, crise que atinge todo o país, fez com que setores da classe média manipulados pelos meios de comunicação - controlados por oligarquias riquíssimas, como é o caso da Rede Globo de Televisão - pedissem o fim de "13 anos de roubalheira" e quisessem tirar Dilma Rousseff do poder.

A crise da hierarquia atinge todos: empregadores, acadêmicos, políticos, profissionais liberais, empresários, celebridades, tecnocratas. Gafes, crimes e outras irregularidades graves envolvem pessoas de algum status quo. E a própria base de apoio dessa sociedade retrógrada, com jovens capazes de fazer cyberbullying na Internet ou exibir símbolos nazistas nas ruas, é uma amostra de como o topo da pirâmide anda cada vez mais apodrecido.

Enquanto isso, o governo Michel Temer planeja uma política de austeridade sócio-econômica que vai entre outras coisas, deixar os pobres mais pobres e os ricos mais ricos. Investimentos à Saúde e Educação serão reduzidos, o mercado de trabalho será desqualificado com o fim de encargos e a desvalorização salarial, os preços já aumentam de forma descontrolada e constante.

Diante desse processo de verdadeira "higienização social" - movido por um mercado de trabalho socialmente preconceituoso e menos inclinado a talentos diferenciados, preferindo adotar critérios de conveniência social, e por um sistema de preços que só serve para afastar certos produtos do alcance de consumidores "socialmente inferiores" - , a sociedade brasileira sofre um grave perigo.

Na medida em que se afasta as classes populares dos benefícios alcançados nos últimos anos, e conforme as autoridades "mais responsáveis", sobretudo do estilo "administrativo" do PMDB carioca, que não resolvem o problema da segurança pública nem fazem políticas de melhorias sociais para as comunidades pobres, as pessoas mais pobres se expõem a infortúnios pesados que, em indivíduos menos pacientes, pode gerar ações vingativas.

Se, da parte de classes mais abastadas, os crimes são feitos para preservar os privilégios que têm ou para se vingar de privilégios perdidos - como os feminicídios conjugais cujos criminosos se vingam da perda dos "troféus sexuais" que suas companheiras lhes representavam, tirando-lhes a vida - , nas classes populares os crimes são feitos por quem geralmente não consegue obter algum benefício, nem mesmo um emprego.

É ilustrativo que em áreas de governos irregulares, como as decadentes cidades do Rio de Janeiro e de Niterói (esta com o agravante de ser uma cidade provinciana que nenhuma cidade provinciana gostaria de ser, com lojas fechando aos montes enquanto o prefeito Rodrigo Neves ganha prêmio por "empreendedorismo"), os assaltos aumentaram drasticamente e ocorrem até à luz do dia.

No Rio de Janeiro, balas perdidas e assaltos diversos já dizimaram várias pessoas, independente das classes sociais. Cinco jovens pobres que comemoraram conquistas de emprego e estudo foram assassinados por policiais, em 2015. Recentemente, uma médica de Nova Iguaçu, Gisela Palhares, de 34 anos, foi assassinada por uma quadrilha de assaltantes, na Linha Vermelha.

Os assaltos podem aumentar diante da situação irremediável a que serão condenados muitos pobres. A desqualificação do mercado de trabalho e a desvalorização dos salários pode, com o fim da auto-estima das classes populares, poder causar revolta naqueles que antes eram esperançosos e, assim, levar muitas pessoas à ação criminosa, pela falta de algum meio de obter renda de maneira honesta para sua sobrevivência.

A violência pode se voltar cada vez mais para as classes mais abastadas, sobretudo porque as políticas de segurança são muito frouxas. Dentro desse quadro caótico de descaso político e administrativo, e do propósito elitista de reverter os avanços obtidos pelos governos de Lula e Dilma Rousseff, a revolta popular pode se voltar justamente contra quem defendeu com tanta urgência o "Fora Dilma".

Não é preciso dizer que cenários políticos como os últimos anos da ditadura militar e os governos de José Sarney, Fernando Collor e os momentos de crise de Fernando Henrique Cardoso foram épocas de muita violência. A falta de ações para garantir não só o emprego e alguma renda, mas qualidade de vida e outros benefícios, até mesmo educacionais, podem transformar o país num território de uma verdadeira guerra civil.

Com a terceirização do emprego que reduzirá os assalariados aos padrões do trabalho informal, projetos como Escola Sem Partido que proibirão os debates sobre problemas sociais e a privatização de serviços essenciais que fará com que eles tenham o caos que se vê hoje na telefonia, cada vez mais cara e incompetente, podem pesar nas contas futuras da sociedade que quer se beneficiar com o atual cenário político.

Sem salários dignos, sem qualidade de vida, sem garantias sociais e sem uma educação que discutisse e esclarecesse os valores morais, as pessoas ficarão mais egoístas, arrivistas, vingativas, reacionárias e preconceituosas, e o Brasil se tornará ainda mais violento, como foi no momento de crise no final da Era Geisel, com um AI-5 revogado de maneira humilhante, sem poder "moralizar" o país pela repressão.

O crime se tornou mais organizado, as elites também passaram a praticar crimes, os reacionários se manifestando de maneira violenta, o desrespeito humano se banalizando, tudo isso foi se consolidando no final da Era Geisel, já que a sociedade "equilibrada" de 1974 deixou suas máscaras caírem.

Não adiantou a Rede Globo reinventar Francisco Cândido Xavier inspirado num documentário sobre Madre Teresa de Calcutá. O mito "filantrópico" de Chico Xavier, feito para adoçar as mentes brasileiras nessa época de crise, só fez resgatar uma religiosidade ultraconservadora que em nada contribuiu para resolver de forma corajosa as injustiças e desigualdades vividas. Muito pelo contrário.

O que vemos é um saudosismo doentio, obsessivo, paranoico e viciado de pessoas que nunca deixaram de sentir saudade da Era Geisel, tentando a todo custo voltar o relógio social para 1974, o que pode, diante de novos contextos que exigem transfomação, criar um quadro ainda mais desastroso, próximo ao de uma catástrofe social. Pois desta vez é a plutocracia e as elites associadas que pagarão o preço caro de quererem retroceder o país.

domingo, 3 de julho de 2016

Brasileiros continuam iludidos com o status quo


O grande problema no Brasil é uma ilusão simplória. As pessoas ainda se apegam a padrões de status quo que fazem com que se estabeleça uma relação de hierarquia que perde cada vez mais o sentido, mas que diante disso resistem de maneira permanente.

O governo de Michel Temer mostra o quanto o status quo mostra suas armadilhas num país marcado pela mediocridade sócio-cultural e pelas desigualdades sócio-econômicas. Temer se reveste de uma roupagem que reúne elegância pessoal e uma equipe de "notáveis" que, pelo menos em parte, se voltam a paradigmas técnicos ou o mito de que um distanciamento numa especialidade garantiria maior objetividade e isenção.

No entanto, esses mitos são derrubados com os inúmeros escândalos que um governo que pareceria retomar a "racionalidade" que ilude muitos que se constrangem quando operários ou ex-militantes estudantis (como Dilma Rousseff) detém o Governo Federal.

Sob a desculpa de atribuir poder a "especialistas", os brasileiros teimam em se apegar ao status quo na atribuição do poder decisivo. Muitas pessoas ainda raciocinam como se ainda vivêssemos sob a ditadura militar. A ideia de alguém, ao mesmo tempo especializado e distanciado, que decide por alguma coisa, alguém ao mesmo tempo "de fora" que se "especializa" a alguma coisa.

No âmbito da cultura, da política, da economia ou da mobilidade urbana, surgem "deuses" que ocupam o Olimpo da adoração coletiva através desses atributos que envolvem desde paradigmas de elegância e etiqueta (como o sisudo Michel Temer) até mitos de austeridade (Roberto Campos), metodismo (Jaime Lerner) e objetividade (Fernando Henrique Cardoso).

Mas tudo isso tem seu preço. O mito de objetividade atinge até mesmo a adoração de uma rede de televisão que se passa por "plural", a Rede Globo de Televisão, juntamente com seus derivados midiáticos (O Globo, Época e Globo News, por exemplo).

Ela chega mesmo à cultura jovem, quando, contrariando o estigma de rebeldia e engajamento do rock, uma parcela da sociedade aceita que uma rádio sem vocação nem tradição, a Rádio Cidade, do Rio de Janeiro, seja uma "rádio rock" sem ter pessoal especializado no ramo, composto por locutores ligados a FMs de pop dançante ou música popularesca.

É o status quo. Uma rádio que, para o rock, é completamente incompetente e constrangedora, cuja abordagem do gênero não chega a cobrir o básico - a divulgação de bandas seminais chega, em muitos casos, a se reduzir a uma única música e a grade de programação prioriza somente programas de besteirol e de sucessos musicais - , mas cuja defesa extrema, pelo mercado, pela mídia e pela juventude, se dá pelo status quo.

Neste caso, aspectos são considerados: o impecável departamento comercial que aparentemente compensa uma programação completamente desastrada, o bom relacionamento dos donos da Rádio Cidade com os grandes empresários de shows (como Roberto Medina) e até o mito, defendido pelos reacionários produtores da emissora, de que contratar radialistas sem envolvimento com rock traria o "distanciamento necessário para uma atuação mais imparcial".

Aí tem problemas. Atuação "imparcial" é botar programas de besteirol sem relação com o rock - um deles é sobre futebol, esporte cujos adeptos, em maioria esmagadora, não gostam do gênero - , tocar somente os hits e despejar gírias, não bastasse o nome "Rádio Cidade", de tão banal (há até rádios homônimas de perfil evangélico), nada dizem como diferencial para o público roqueiro?

São problemas de status quo, que no âmbito geral são mostrados pelos sucessivos escândalos que atingem o governo Michel Temer, envolvendo o próprio presidente interino, desafiando a opinião pública que costuma divinizar o status quo através de mitos ligados à disciplina, técnica e objetividade que se desgastam de forma avassaladora, ainda que denunciar esse desgaste cause muita irritação na sociedade.

ATÉ O "ESPIRITISMO" SOFRE DESSA ILUSÃO

E ainda não falamos da mobilidade urbana, em que o "padrão Jaime Lerner" estabelece uma superioridade messiânica mesmo quando seu plano para o transporte coletivo esconde empresas de ônibus sob uma pintura padronizada, há demissão em massa de cobradores de ônibus por causa da dupla função do "motorista-cobrador" e obriga as pessoas a fazer baldeação em dois ou três ônibus por causa dos mitos do "sistema integrado" e da supervalorização do Bilhete Único.

Mesmo quando Lerner está associado à ditadura militar, quando o arquiteto paranaense era filiado à ARENA e havia se tornado "prefeito biônico" (nomeado pelos generais) de Curitiba, e pelo fato de, como político, ele ter praticado corrupção, a reputação "divina" ainda continua inabalada.

É o apego ao status quo, que em várias ocasiões faz emergir bordões como "rouba mas faz" e que, no "espiritismo" poderia ter um outro bordão, de significado próximo: "faz fraude mas é bom". Pois o "'rouba mas faz' espírita" faz com que os anti-médiuns Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco tenham uma blindagem social, midiática, política e jurídica de fazer os políticos do PSDB ficarem babando.

Se já é aberrante um político como o senador Aécio Neves, envolvido até a medula em tantos escândalos de corrupção, mas tem a sorte da blindagem da mídia (sobretudo Veja e Rede Globo) e de setores do Judiciário (não fosse a parcialidade do juiz Sérgio Moro, Aécio já estaria na cadeia há um bom tempo), imagine então em "espíritas" que fazem pastiches literários e inserem mistificação barata sob o manto da "caridade".

Chico Xavier nunca passou de um católico paranormal que realizou pastiches literários e outros truques ilusionistas. Não era menos traiçoeiro que Otília Diogo e, pelo que realmente fez, Chico só seria lembrado, entre nós, na melhor das hipóteses, como um verbete pitoresco do Guia dos Curiosos. No entanto, sua reputação cresceu de forma descontrolada, alimentada por interesses mesquinhos da FEB e até da Rede Globo de Televisão, que hoje Chico Xavier é visto como um quase "deus".

Divaldo Franco segue o mesmo caminho, à sua maneira, pois, diferente do mineiro, o baiano é mais sutil nas suas manobras. Adota uma estética de professor dos anos 1920-1940, com uma retórica rebuscada, como nos oradores da República Velha, reunindo valores simbólicos ligados ao moralismo, à etiqueta e padrões hierárquicos.

Ele é um demagogo, um deturpador religioso que em países mais evoluídos, seria desmascarado como um charlatão explorador da fé alheia. Mas Divaldo é beneficiado pela simbologia do status quo que já blinda Chico Xavier em outros aspectos, ligados a estigmas de "velhice" e "bondade".

O status quo da fé religiosa, a exemplo do que ocorre com o ideal dos festejos profanos, vale por uma relativa inversão valorativa em que ideias que nunca seriam apoiadas em condições normais passam a ser defendidas até com um certo fanatismo.

Nos festejos profanos (como nas ditas "baladas" defendidas pelo entretenimento midiático, juntamente com "bailes funk", vaquejadas, micaretas etc), a inversão consiste em adotar práticas de liberdade sexual e instintiva que o discurso moralista usualmente condena em ocasiões comuns.

Na fé religiosa, a ideia condenável é a simbologia de pessoas idosas, frágeis, doentes e humildes, vistos como "escória" pelo discurso elitista. No entanto, esse mesmo discurso admite a valorização destas ideias quando elas se voltam ao âmbito religioso, até porque esse é um setor para o qual se destinam "lavagens de dinheiro" de corruptos ou a doação de objetos considerados obsoletos ou fora de moda pelas pessoas ricas.

Esse cenário de "inferioridade social" aceita pelo imaginário elitista devido ao âmbito religioso é também uma forma das elites reservarem à classe média os meios de diminuir apenas os danos extremos de miséria e pobreza, sem que exigissem dos mais ricos se comprometer a tais tarefas ou abrir mão de seus privilégios exorbitantes. Na sociedade elitista, enquanto os ricos têm um excedente de bens e privilégios, a classe média torna-se fiadora da relativa resolução da pobreza e miséria.

CRISE DE VALORES

A crise que se nota no Brasil não é uma simples crise econômica ou de administração política. Não é uma mera crise de segurança, que faz estourar a violência nas ruas nem no desvio de verbas necessárias para investimentos diversos.

É, na verdade, uma crise de valores. Se um hospital é invadido por bandidos para libertar um comparsa, se existe barata na merenda escolar, se um ônibus com pintura padronizada sofre acidente de trânsito com 40 feridos e se até o presidente interino da República é indiciado por corrupção (e até condenado a não concorrer em cargos eletivos por oito anos), isso não é uma crise política ou econômica.

A crise atinge vários sentidos. Cultural, moral, existencial, midiática, urbana, automotiva etc. Uma crise que se apoia no desgaste de reputações. Pois os maiores envolvidos em corrupção e fraudes são justamente pessoas que ainda gozam de prestígio porque simbolizam o status quo político, econômico, administrativo, técnico, acadêmico, midiático e religioso.

De Luciano Huck a Jaime Lerner, de Aécio Neves a Chico Xavier, da Rede Globo à Rádio Cidade, das filiais brasileiras da MC Donald's à Confederação Brasileira de Futebol (CBF), do "funk carioca" ao BRT, tudo isso simboliza o desgaste de decisões e práticas que se respaldavam em uma alegada superioridade de pretensos detentores de superioridade nos âmbitos de status acima citados.

Isso desnorteia gravemente nossa sociedade, que fica confusa e desorientada. Ela não quer ver cair seus totens envolvidos em escândalos gravíssimos. Prefere a ilusão fácil do bordão "quem nunca erra?", ignorando que os erros que seus ídolos de diversos tipos fazem e os que instituições e medidas provocam causam um sério prejuízo de proporções incalculáveis para a população.

É através dessa ilusão do "quem nunca erra?", que mais parece uma sutil apologia a erros graves cometidos por gente "tarimbada" que o Brasil está sofrendo a crise extrema que envergonha o mundo. A complacência ao status quo que permite que os "de cima" cometam erros graves que supostamente "não fazem mal" faz com que tantos prejuízos, irregularidades e escândalos aconteçam. Não será hora de sacrificar e derrubar muitos totens em nome da ética, da coerência e do bom senso?

sexta-feira, 1 de julho de 2016

A decadência da grande imprensa brasileira


Nunca a grande mídia brasileira, sobretudo a imprensa associada, esteve numa decadência avassaladora. Desde que houve uma crise política durante o governo Dilma Rousseff, os jornalistas da grande mídia perderam a cabeça de vez e passaram a publicar até mentiras e meias-verdades para forçar a derrubada do governo e a substituição pelo confuso e retrógrado governo de Michel Temer.

Rede Globo e seus veículos noticiosos associados, como CBN, Globo News, a revista Época e, sobretudo, o jornal O Globo, estabelecem o coro feroz junto à revista Veja - de um reacionarismo ainda mais rabugento, trapaceiro e rancoroso - , a Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo, em que o jornalismo se torna um brinquedo a serviço das vontades pessoais de seus donos, representantes de elites dominantes do país.

Mesmo outros veículos que hesitam entre um falso progressismo e explosões reacionárias doentias, como a Isto É, a TV Bandeirantes e mesmo a rádio baiana Metrópole FM, também se inserem nesse contexto, até porque também seguem o tendenciosismo da exploração da informação.

A Bandeirantes, por exemplo, tem o exemplo do jornalismo policialesco do Brasil Urgente, comandado por José Luiz Datena. Já na Rádio Metrópole, é notório o culto da personalidade que cerca seu dono e principal locutor, Mário Kertèsz, que como prefeito de Salvador havia armado um estarrecedor esquema de corrupção (a origem da Rádio Metrópole teria sido a aquisição das ações devido ao esquema de desvio de dinheiro público).

O jornalismo perdeu a qualidade em todos os sentidos. Os redatores e repórteres se tornaram submissos e passaram a escrever muito mal. Os editores e chefes de redações viraram apenas funcionários de plantão que só estão preocupados em vender um produto. Graças a isso, o jornalismo, quando não sofre erupções reacionárias, segue uma maresia de matérias acríticas e de recusa a abraçar questionamentos e reivindicações sérias.

Dá até para perceber que o redator-chefe é normalmente uma pessoa mal-humorada que só pensa no faturamento do produto jornalístico. Ele vê a notícia como mercadoria e normalmente adota uma linha editorial inofensiva e inócua. Só em casos como a presença, num poder governamental, seja ele federal, estadual ou municipal, de políticos contrários aos interesses do dono de cada veículo midiático, é que a maresia acrítica dá lugar a outro extremo, o criticismo cego e caluniador.

Daí o caso do segundo mandato de Dilma Rousseff, que fez a outrora moderna imprensa brasileira cair para um obscurantismo oposicionista típico de jornalecos e radiocas de regiões rurais interioranas. Literalmente, a máscara caiu e aquela "imprensa cosmopolita" demonstrou ser, na verdade, um reles coronelismo jornalístico.

Durante o governo Lula, quem primeiro revelou seu reacionarismo foi a Folha de São Paulo, controlada pela família Frias (seu atual titular, da família, é Otávio Frias Filho). Jornal que, entre os anos 1980 e 1990, construiu uma imagem de "moderno" e "progressista", passou a fazer uma oposição feroz a Lula que deu impulso a uma linha editorial caluniadora e falaciosa.

A Folha não só deixou a máscara cair como permitiu que seus contestadores fossem para a memória do passado para revelar às novas gerações que o jornal paulista havia emprestado suas viaturas para transportar presos políticos para o DOI-CODI, tenebroso órgão de repressão da ditadura militar.

Diante desse reacionarismo, a Folha também teve seu projeto de modernização, chamado "Projeto Folha", revelado como um processo de "limpeza ideológica" que expulsou vários esquerdistas, em prol de uma linha editorial neoliberal.

Destaca-se também a figura de Pedro Alexandre Sanches, jornalista cultural criado pelo Projeto Folha que, defendendo uma visão mercadológica da cultura brasileira, foi militar tendenciosamente na imprensa de esquerda para nelas tentar impor uma visão que aprendeu nas redações junto a Otávio Frias Filho, abordando a cultura popular de forma ao mesmo tempo caricatural e mercantilista, embora com argumentos falsamente modernistas.

Na Folha, nota-se também que, nos últimos meses, foi contratado para ser colunista na Folha um estudante que, diante da histeria anti-PT, destacou-se como um pretenso ativista através do Movimento Brasil Livre, Kim Kataguiri que, pelo seu péssimo entendimento de História e sua linguagem mediocremente panfletária de sua coluna, é visto com estranheza até por jornalistas da Folha. Kim costuma ser definido pejorativamente como "cidadão de kimta katiguria".

A Veja, no entanto, é campeã de reacionarismo. Com uma linha editorial rancorosa que contagia até seções culturais - as críticas de cinema eram quase sempre feitas sob um cinismo niilista e cegamente iconoclasta - , a revista do Grupo Abril se "consagrou" pelo raivoso reacionarismo de nomes como Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi, que sempre escreveram como se fossem trolls das redes sociais.

O reacionarismo de Veja combate todos os movimentos sociais. Estudantes, trabalhadores, camponeses, tribos indígenas, nada escapa da metralhadora giratória de Veja, que surgiu moderada em 1968, havia sido conservadora nos anos 1980 e, uma década depois, caiu no reacionarismo que se observa hoje.

MENTIRA PUBLICADA NA CAPA DE UMA EDIÇÃO DE VEJA.

A oposição a Dilma Rousseff, Lula e, no conjunto da obra, do Partido dos Trabalhadores, tem na Veja seu veículo mais virulento, em que mentiras e difamações, sobretudo contra os dois governantes, são feitas de maneira impune.

Numa das mentiras que viraram capa, inventou-se que Lula iria pedir asilo à Itália (com base na ideia de que o país europeu é berço da Máfia) para fugir da prisão e, em outra capa, Lula apareceu em foto-montagem vestindo roupa de presidiário. Diante dessa linha editorial, Veja acumula grandes estoques de exemplares encalhados toda semana, com a edição corrente chegando às bancas vendo pilhas da edição anterior que fracassou nas vendas.

O efeito da histeria anti-PT, no entanto, se tornou mais bem-sucedido através da Rede Globo, cujo histórico revela uma coleção de episódios sombrios que vêm desde quando ela era apenas um projeto de concessão de um canal de TV para a Rádio Globo do Rio de Janeiro, em 1957, oito anos antes de sua inauguração, desenvolvida com parceria ilegal com o grupo estadunidense Time-Life.

A Rede Globo foi fortalecida durante a ditadura militar, que ela apoiou, na mesma época em que a progressista TV Excelsior praticamente morreu estrangulada pelas pressões econômicas e burocráticas do regime militar.

Além disso, a Globo é conhecida, fora do âmbito jornalístico, de manipular o comportamento humano. No final dos anos 1970, relançou o mito do "médium" Chico Xavier baseado no que o jornalista da BBC, Malcolm Muggeridge, fez com Madre Teresa de Calcutá.

Culturalmente, a Globo chamou o ex-músico da Jovem Guarda, Michael Sullivan, para fazer um "desmonte" da MPB. Ele era compositor de sucessos de Xuxa Meneghel, apresentadora que representou o processo de sexualização do público infantil além de seu impulso para o consumismo e para a antecipação do estilo de vida adolescente na infância.

Nos anos 2000, a Globo investiu no sucesso do "funk carioca" como um processo de domesticação das populações pobres e de sabotar os debates sobre cultura popular no Brasil. Também nos anos 2000, usou a gíria "balada" para testar seu êxito na dominação das mentes do público jovem através do apresentador Luciano Huck.

Politicamente, a Globo é também conhecida por boicotar a cobertura noticiosa do movimento Diretas Já, em 1983 e 1984, por ignorar o favoritismo de Leonel Brizola para o governo do Estado do Rio de Janeiro e manipulou seus noticiários para influenciar os brasileiros a votarem, em segundo turno, no conservador Fernando Collor para a presidência da República, derrotando o rival Lula.

Normalmente, a Globo faz sua enérgica oposição ao PT e outras forças progressistas de maneira comedida, embora muitas vezes agressiva e eventualmente escancarada. Mas a coisa se intensificou quando, diante da denúncia de blogueiros progressistas de que um dos donos das Organizações Globo, João Roberto Marinho, estaria envolvido na construção ilegal de uma casa triplex em uma área de proteção ambiental, em Paraty, no Sul Fluminense, a empresa reagiu.

Foi aí que a Globo se nivelou a Veja e uma campanha violenta para tirar Dilma Rousseff do poder fez muitos cidadãos convertidos para um neoconservadorismo doentio vestirem a camiseta da Seleção Brasileira de Futebol, ignorando que a CBF tem um grave histórico de corrupção para pedir o fim desta prática no Governo Federal.

Foi diante dessa pressão que se abriu o processo de impeachment de Dilma Rousseff, com votações na Câmara dos Deputados (presididas pelo corrupto Eduardo Cunha) e do Senado Federal, com o respaldo de setores corrompidos do Poder Judiciário - através de figuras de valor ético duvidoso como Sérgio Moro e Gilmar Mendes - e que culminaram no atual governo de Michel Temer.

Esse processo, articulado pelo poder midiático, político e judiciário ligado às elites conservadoras, demonstra caraterísticas de um plano golpista, fato que é reconhecido mundialmente por jornalistas, acadêmicos e cientistas políticos mais conceituados e não necessariamente de esquerda e muito menos vinculados ao PT.

O aspecto risível, no entanto, está em comentaristas da revista Época e da Globo News, entre outros veículos da mídia reacionária, mesmo os não ligados à Globo, tentarem impor sua visão surreal à realidade, tentando desqualificar a visão da imprensa estrangeira, que, comprometida com a honestidade dos fatos, tem conhecimento de causa para perceber que o governo Temer foi instaurado por meio de um golpe político-jurídico.

A imprensa brasileira, que mostra seu grau de desequilíbrio emocional com Reinaldo Azevedo escrevendo artigos rancorosos e usando linguagem jocosa, ou Merval Pereira e Cristiana Lobo, da Globo News, mostrando surtos de raiva ou choro, é que não quer saber da realidade brasileira, até porque ela vai de encontro aos interesses dos grupos empresariais que controlam os meios de Comunicação no Brasil.

É através desse comportamento narcisista de impor suas mentiras pessoais à realidade que salta aos olhos do mundo inteiro que faz com que a imprensa brasileira entre num processo irrecuperável de decadência, com seus principais veículos demonstrando uma atuação cada vez mais desastrosa e vergonhosa diante da tarefa de transmitir informação à sociedade.