sexta-feira, 20 de maio de 2016
"Espiritismo" ignora que sofrimento demais dá prejuízo
Uma discussão familiar tensa, de pais preocupados com o desemprego de filhos adultos, que com todo o sacrifício que fazem, com jogo de cintura, metendo a cara, tendo esperança e muito esforço, perseverança até não restar mais gota de suor, não conseguem trabalho de jeito algum.
Os filhos têm dificuldades acima do suportável, e se esforçam mais e mais por nada. Se esforçam mais e mais de maneira inútil. As portas se fecham e nenhuma janela se abre, ou, quando abre, o primeiro vento a fecha. As oportunidades, quando surgem, lhes escapam das mãos, mesmo com o mais hercúleo esforço. A situação é dramaticamente surreal.
Parece conto de Franz Kafka mas é o Brasil. Um Brasil que se revela injusto, desigual, em que as elites querem proteger suas zonas de conforto e ficam presas a velhos paradigmas. Ficam felizes com a momentânea ilusão de que o governo Michel Temer irá manter esses paradigmas antigos, vários em verdade obsoletos, adiando as mudanças inevitáveis para o país.
Mas este é também o país da Teologia do Sofrimento. Uma corrente católica, medieval, mas que foi popularizada no Brasil no período colonial mas reforçada, sobretudo, pelas "palavras amorosas" de Francisco Cândido Xavier.
Isso mesmo. Foi Chico Xavier que defendeu, até mais do que muito católico, a Teologia do Sofrimento. A ideia de sofrer sem queixumes e sem mostrar sofrimento aos outros, de aguentar a barra até quando ela faz extinguir as forças, a paciência, o bom humor e a esperança. A ideia de aguentar demais as piores coisas achando que na "verdadeira vida" tudo vai melhorar.
Esta é a ideia mais perversa que se pode pregar para uma pessoa. Uma crueldade de querer que a pessoa simplesmente seja sufocada em infortúnios e barreiras intransponíveis, e ainda reprovar qualquer reclamação desta, quando ela não consegue superar suas dificuldades.
"Mude seus pensamentos", "sorria", "perdoe os algozes", "pule os obstáculos", é o que a doutrina dita de "amor e luz", a "religião da bondade" que se autoproclama o "espiritismo", diz, de maneira sádica e moralista. Porque o "espiritismo" acha que as barreiras são sempre pequenas e que os sofredores, quando reclamam, sempre estão com "frescuras".
ALMAS "ESMAGADAS"
Há uma canção, do grupo britânico The Smiths, com letra escrita e cantada pelo famoso Morrissey, intitulada "Please Please Please Let Me Get What I Want", pequena música de menos de dois minutos gravada em 1984. Nela, há um trecho que diz, sabiamente, "Bom tempo para mudança / Veja, a vida que eu tive / Poderia transformar um homem bom em mau".
Criminalizar o desejo humano, a vontade humana, é um procedimento do moralismo religioso. Com o "espiritismo", isso não é diferente. Enquanto os "espíritas" pedem para os sofredores perdoarem os algozes nos seus abusos, não perdoam os sofredores em suas desgraças.
Com todo o apelo de "fraternidade", "evitar maus pensamentos", "se alegrar na vida" e tudo o mais, o "espiritismo" que cobra demais dos infortunados, como se exigisse de um peixe que ele escale uma árvore, tenta, de maneira hipócrita, ainda apelar para as pessoas não pensarem em suicídio.
Diante do sofrimento exagerado, que deixa de ser um aprendizado para ser um processo de "esmagamento" da alma, de "asfixia" existencial da pessoa, o "espiritismo" ignora que sofrimento demais é como um remédio tomado acima da dose, no qual os efeitos curativos deixam de ocorrer, e o que ocorrem são os efeitos colaterais, altamente danosos e, não raro, fatais.
Diante do sofrimento exagerado, a pessoa passa a se tornar preguiçosa, rancorosa, isolacionista, deprimida, casmurra, violenta, cabisbaixa, e pensa em matar alguém ou se matar. O excesso de sofrimento e a imposição exagerada das dificuldades da vida deixam a pessoa acuada, e, evidentemente, pelo instinto do ser vivo, o sufoco exagerado traz uma reação bastante drástica.
Famílias brigam, pessoas ficam agressivas, outras ficam caladas de tão deprimidas, em luto permanente por si mesmas, outros indivíduos se matam, outros cometem homicídios, outros se tornam assaltantes e traficantes de drogas, outros se entregam ao álcool e às drogas, outros praticam corrupção para se aproveitar de um trabalho no qual não tiveram vocação natural para assumir.
O sofrimento exagerado, num contexto em que quem tem demais não quer ceder para quem não tem sequer o necessário, faz com que distorções sociais sérias aconteçam e, com isso, o quadro de violência, corrupção e suicídios que trava o progresso social do país.
Os "espíritas", com seu sutil sadismo, acham que nenhum sofrimento é demais, que a pessoa pode carregar uma bigorna de dez toneladas e, se não consegue, é porque é frouxa e cheia de frescuras. "Aquele peixe é que está de onda, não quer subir em árvore, acha que não tem meios para isso. Que tolice!", diz o alegre "espírita", tomado de sua vaidade travestida de "humildade" e "boas energias".
Os tratamentos espirituais chegam a ser mais perigosos do que passar debaixo de escada ou quebrar o espelho, segundo o folclore popular. Trazem muito azar. Em vez de resolver os problemas, trazem outros muito piores. E não adianta acusar o sofredor de falta de esforço e de boas energias.
As pessoas sofredoras, que reclamam demais da vida, que pedem oportunidades e solução de problemas, não são as pessoas preguiçosas, ranzinzas e desistentes que o moralismo "espírita" tanto fala. Muito pelo contrário.
As pessoas que estão nesta situação de desgraças extremas são as mais bem humoradas, de bem com a vida, dispostas para o esforço possível para vencer qualquer dificuldade, gente que aparentemente "reclama de tudo" para chamar a atenção das pessoas sobre as "sujeiras acumuladas" da vida cotidiana.
As pessoas que parecem "felizes" é que escondem suas neuroses. Dentro do "espiritismo", vemos pessoas com más energias, ranzinzas, egoístas, que cobram demais dos outros - não dinheiro, mas sacrifícios - , mas pedem tolerância para si. Não gostam de ver outras pessoas reclamando, porque isso lembra que tem que resolver este ou aquele problema.
Que egoísmo não pode esconder a pessoa que pede para os outros serem felizes do nada? Que egoísmo perverso, traiçoeiro, está por trás daquele que diz para os outros sofrerem sem queixumes? Que desprezo ao sofrimento alheio pode ser socialmente aceito através de um repertório de palavras moralistas, um exército de frases a reprimir o protesto alheio, enfeitadas com dóceis ideias?
Daí o sofrimento das pessoas que buscam soluções que nunca aparecem e que nem sempre são culpadas pelos obstáculos que surgem nos caminhos. A culpa maior é desse sistema de privilégios, aparências, moralismos e outros vícios que sempre fazem com que quem tem demais se mantenha nos seus abusos e quem não tem o necessário que se vire para obter alguma coisa.
Isso demonstra o fracasso do "espiritismo" brasileiro, que não consegue entender as angústias humanas com isenção, preferindo a fácil, mas desumana, atitude de pedir "fraternidade" e "mudança de pensamento" às pessoas que sofrem demais e que não querem paciência, querem, sim, a solução para seus problemas mais complicados.
quarta-feira, 18 de maio de 2016
O primeiro trote de Chico Xavier com Humberto de Campos
HUMBERTO DE CAMPOS, EM 1909. O ESCRITOR FOI A MAIOR VÍTIMA DO OPORTUNISMO IGREJEIRO DE CHICO XAVIER.
Nem sempre o mel das palavras representa sinceridade e valor transformador. Nem sempre a aparência da bondade de fachada revela a verdadeira generosidade e solidariedade. Em muitos casos, a roupagem religiosa da "bondade" e da "fraternidade" escondem armadilhas perniciosas e traiçoeiras, como os buracos cobertos da mais admirável e verdejante relva.
Francisco Cândido Xavier era um estranho caipira, católico ortodoxo em ideias e rituais, mas tinha apenas o detalhe heterodoxo da paranormalidade, único ponto que fez com que o "médium" fosse excomungado pelos católicos. No entanto, em valores ideológicos, Chico Xavier era tão retrógrado quanto, por exemplo, Gustavo Corção, só ganhava deste a arte de manipular as ideias com dóceis palavras.
A maior obsessão de Chico Xavier foi com Humberto de Campos. Consta-se que foi uma revanche contra comentários irônicos do escritor maranhense, que não gostava de ver a "literatura do além" concorrendo com a literatura dos vivos.
Daí que o anti-médium mineiro resolveu usurpar o escritor, se passando pelo espírito dele em supostas psicografias, que sabemos serem bem mais prolixas, igrejeiras e melancólicas do que o estilo que o escritor nos deixou em vida.
Isso criou sérios problemas, mas num Brasil de leitura precária e com hábitos aberrantes (recentemente as pessoas passaram a "ler" livros para colorir), em que as pessoas não conseguem ver diferença entre Carlos Drummond de Andrade e Machado de Assis, muitos deixam passar as diferenças aberrantes entre a obra de Humberto deixada em vida e o suposto legado espiritual.
A "brincadeira" de Chico Xavier começou com um relato de um suposto sonho, que não se sabe se realmente houve, no qual um suposto Humberto se destacava de uma multidão para falar com o "médium" e, perguntando "Você é o menino do Parnaso?", teria se apresentado e cumprimentado o outro.
Era a desculpa que Chico usou para usurpar o nome de Humberto, dando início a uma farsa que, sabemos, gerou um processo judicial que deu em nada. Afinal, nem todos os juristas conseguem entender a complexidade das coisas. E isso vale até hoje, diante de um Sérgio Moro parcial que só incrimina quem for ligado ao Partido dos Trabalhadores e aliados, pouco importando as leis.
Reproduzimos aqui a primeira mensagem que Chico Xavier e seus colaboradores - deve ter havido revisão de Antônio Wantuil de Freitas, presidente da FEB, e editores associados - publicaram usando o nome de Humberto de Campos, intitulada "Aos Meus Filhos", divulgada em Pedro Leopoldo, no dia 09 de abril de 1935.
Antes de ler o texto, o leitor deve se atentar para algumas informações:
1) Num dos parágrafos ("Convidado pelo Senhor..."), Chico Xavier inseria valores da Teologia do Sofrimento, corrente católica que trata a desgraça humana como "meio de purificação da alma", na mensagem atribuída a Humberto. "Minha primeira dor foi a minha primeira luz" e "Minhas dores são a minha prosperidade" comprovam bem isso.
2) O texto é muito prolixo para a prosa de Humberto, e mesmo o tom paternal, feito para tentar envolver emocionalmente os filhos - a carta não se destina à viúva, Catarina - , não pode ser visto como autenticador da mensagem, pois ele não apresenta a fluência quase cinematográfica da prosa original de Humberto.
3) O tom da mensagem é bastante melancólico, como todas as obras "espirituais" de Humberto de Campos. Isso pode supor, em tese, que Humberto teria se entristecido ao morrer cedo (48 anos), mas isso não vem ao caso, porque simplesmente o estilo de mensagem "espiritual" destoa severamente do estilo pessoal do escritor maranhense, pois a "psicografia" revela uma outra linguagem, bem mais deprimente, pedante e desesperadamente igrejista (há até o apelo para se rezar o Pai Nosso!).
==========
Aos meus filhos
Meus filhos, venho falar a vocês como alguém que abandonasse a noite de Tirésias, no carro fulgurante de Apolo, subindo aos cumes dourados e perfumados do Hélicon. Tudo é harmonia e beleza na companhia dos numes e dos gênios, mas o pensamento de um cego, em reabrindo os olhos das rutilâncias da luz, é para os que ficaram, lá longe, dentro da noite onde apenas a esperança é uma estrela de luz doce e triste.
Não venho da minha casa subterrânea de São João Batista, como os mortos que os larápios, às vezes, fazem regressar aos tormentos da Terra, por mal de seus pecados. Na derradeira morada do meu corpo ficaram os meus olhos enfermos e as minhas disposições orgânicas. Cá estou como se houvesse sorvido um néctar de juventude no banquete dos deuses.
Entretanto, meus filhos, levanta-se entre nós um rochedo de mistério e de silêncio.
Eu sou eu. Fui o pai de vocês e vocês foram meus filhos. Agora somos irmãos. Nada há de mais belo do que a lei de solidariedade fraterna, delineada pelo Criador na sua glória inacessível. A morte não suprimiu a minha afetividade e ainda possuo o coração de homem para o qual vocês são as melhores criaturas desse mundo.
Dizem que Orfeu, quando tangia as cordas de sua lira, sensibilizava as feras que se agrupavam enternecidas para escutá-lo. As árvores vinham de longe, transportadas na sua harmonia. Os rios sustavam o curso nas suas correntes impetuosas, quedando-se para ouvi-lo. Havia deslumbramento nas paisagens musicalizadas. A morte, meus filhos, cantou para mim, tocando o seu alaúde. Todas as minhas convicções deixaram os seus lugares primitivos para sentir a grandeza do seu canto.
Não posso transmitir esse mistério maravilhoso através dos métodos imperfeitos de que disponho. E, se pudesse, existe agora entre nós o fantasma da dúvida.
Convidado pelo Senhor, eu também estive no banquete da vida. Não nos palácios da popularidade ou da juventude efêmera, mas no átrio pobre e triste do sofrimento onde se conservam temporariamente os mendigos da sua casa. Minha primeira dor foi a minha primeira luz. E quando os infortúnios formaram uma teia imensa de amarguras para o meu destino, senti-me na posse do celeiro de claridades da sabedoria. Minhas dores eram a minha prosperidade. Porém qual o cortesão de Dionísio, vi a dúvida como espada afiadíssima balouçando-se sobre a minha cabeça. Aí na Terra entre a crença e a descrença está sempre ela, a espada de Dâmocles. Isso é uma fatalidade.
Venho até vocês cheio de amorosa ternura e se não me posso individualizar, apresentando-me como o pai carinhoso, não podem vocês garantir a impossibilidade da minha sobrevivência. A dúvida entre nós é como a noite. O amor, entretanto, luariza estas sombras. Um morto, como eu, não pode esperar a certeza ou a negação dos vivos que receberem a sua mensagem para a qual há de prevalecer o argumento dubitativo. E nem pode exigir outra coisa quem no mundo não procederia de outra forma.
Sinto hoje, mais que nunca, a necessidade de me impessoalizar, de ser novamente o filho ignorado de dona Anica, a boa e santa velhinha, que continua sendo para mim a mais santa das mães. Tenho necessidade de me esquecer de mim mesmo. Todavia, antes que se cumpra este meu desejo, volto para falar a vocês paternalmente como no tempo em que destruía o fosfato do cérebro a fim de adquirir combustível para o estômago.
- Meus filhos!... Meus filhos!... Estou vivendo... Não me veem?... Mas, olhem, olhem o meu coração como está batendo ainda por vocês.
Aqui, meus filhos, não me perguntaram se eu havia descido gloriosamente as escadas do Petit Trianon; não fui inquirido a respeito dos meus triunfos literários e não me solicitaram informes sobre o meu fardão acadêmico. Em compensação, fui arguido acerca das causas dos humildes e dos infortunados pelas quais me bati.
Viviam pois com prudência na superfície desse mundo de futilidades e glórias vãs.
Num dos mais delicados poemas de Wilde, as Órcades lamentam a morte de Narciso junto de sua fonte predileta, transformada numa taça de lágrimas.
- Não nos admira - suspiram elas - que tanto tenhas chorado!... Era tao lindo!...
- Era belo Narciso? - perguntou o Iago.
- Quem melhor do que tu poderia sabê-lo, se nos desprezava a todas para estender-se nas relvas da tua margem, baixando os olhos para contemplar, no diamante da tua onda, a sua formosura?
A fonte respondeu:
- Eu adorava Narciso porque, quando me procurava com os olhos, eu via, no espelho das suas pupilas, o reflexo da minha própria beleza.
Em sua generalidade, meus filhos, os homens, quando não são Narciso, enamorados de sua própria formosura, são a fonte de Narciso.
Não venho exortar a vocês como sacerdote; conheço de sobra as fraquezas humanas. Vivam porém a vida do trabalho e da saúde, longe da vaidade corruptora. E, na religião da consciência retilínea, não se esqueçam de rezar. Eu, que era um homem tão perverso e tão triste, estou aprendendo de novo a minha prece, como fazia na infância, ao pé de minha mãe, na Parnaíba.
- Venham, meus filhos!... Ajoelhemos de mãos postas. Não veem que cheguei de tão longe?! Fui mais feliz que o Rico e o Lázaro da parábola, que não puderam voltar;;; Ajoelhemos no templo do Espírito, inclinem vocês a fronte sobre o meu coração. Cabem todos nos meus braços? Cabem, sim...
Vamos rezar com o pensamento em Deus, com a alma no infinito. Pai Nosso... que estais no céu... santificado seja o vosso nome...
Humberto de Campos (sic)
Pedro Leopoldo, 09 de abril de 1935
Nem sempre o mel das palavras representa sinceridade e valor transformador. Nem sempre a aparência da bondade de fachada revela a verdadeira generosidade e solidariedade. Em muitos casos, a roupagem religiosa da "bondade" e da "fraternidade" escondem armadilhas perniciosas e traiçoeiras, como os buracos cobertos da mais admirável e verdejante relva.
Francisco Cândido Xavier era um estranho caipira, católico ortodoxo em ideias e rituais, mas tinha apenas o detalhe heterodoxo da paranormalidade, único ponto que fez com que o "médium" fosse excomungado pelos católicos. No entanto, em valores ideológicos, Chico Xavier era tão retrógrado quanto, por exemplo, Gustavo Corção, só ganhava deste a arte de manipular as ideias com dóceis palavras.
A maior obsessão de Chico Xavier foi com Humberto de Campos. Consta-se que foi uma revanche contra comentários irônicos do escritor maranhense, que não gostava de ver a "literatura do além" concorrendo com a literatura dos vivos.
Daí que o anti-médium mineiro resolveu usurpar o escritor, se passando pelo espírito dele em supostas psicografias, que sabemos serem bem mais prolixas, igrejeiras e melancólicas do que o estilo que o escritor nos deixou em vida.
Isso criou sérios problemas, mas num Brasil de leitura precária e com hábitos aberrantes (recentemente as pessoas passaram a "ler" livros para colorir), em que as pessoas não conseguem ver diferença entre Carlos Drummond de Andrade e Machado de Assis, muitos deixam passar as diferenças aberrantes entre a obra de Humberto deixada em vida e o suposto legado espiritual.
A "brincadeira" de Chico Xavier começou com um relato de um suposto sonho, que não se sabe se realmente houve, no qual um suposto Humberto se destacava de uma multidão para falar com o "médium" e, perguntando "Você é o menino do Parnaso?", teria se apresentado e cumprimentado o outro.
Era a desculpa que Chico usou para usurpar o nome de Humberto, dando início a uma farsa que, sabemos, gerou um processo judicial que deu em nada. Afinal, nem todos os juristas conseguem entender a complexidade das coisas. E isso vale até hoje, diante de um Sérgio Moro parcial que só incrimina quem for ligado ao Partido dos Trabalhadores e aliados, pouco importando as leis.
Reproduzimos aqui a primeira mensagem que Chico Xavier e seus colaboradores - deve ter havido revisão de Antônio Wantuil de Freitas, presidente da FEB, e editores associados - publicaram usando o nome de Humberto de Campos, intitulada "Aos Meus Filhos", divulgada em Pedro Leopoldo, no dia 09 de abril de 1935.
Antes de ler o texto, o leitor deve se atentar para algumas informações:
1) Num dos parágrafos ("Convidado pelo Senhor..."), Chico Xavier inseria valores da Teologia do Sofrimento, corrente católica que trata a desgraça humana como "meio de purificação da alma", na mensagem atribuída a Humberto. "Minha primeira dor foi a minha primeira luz" e "Minhas dores são a minha prosperidade" comprovam bem isso.
2) O texto é muito prolixo para a prosa de Humberto, e mesmo o tom paternal, feito para tentar envolver emocionalmente os filhos - a carta não se destina à viúva, Catarina - , não pode ser visto como autenticador da mensagem, pois ele não apresenta a fluência quase cinematográfica da prosa original de Humberto.
3) O tom da mensagem é bastante melancólico, como todas as obras "espirituais" de Humberto de Campos. Isso pode supor, em tese, que Humberto teria se entristecido ao morrer cedo (48 anos), mas isso não vem ao caso, porque simplesmente o estilo de mensagem "espiritual" destoa severamente do estilo pessoal do escritor maranhense, pois a "psicografia" revela uma outra linguagem, bem mais deprimente, pedante e desesperadamente igrejista (há até o apelo para se rezar o Pai Nosso!).
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Aos meus filhos
Meus filhos, venho falar a vocês como alguém que abandonasse a noite de Tirésias, no carro fulgurante de Apolo, subindo aos cumes dourados e perfumados do Hélicon. Tudo é harmonia e beleza na companhia dos numes e dos gênios, mas o pensamento de um cego, em reabrindo os olhos das rutilâncias da luz, é para os que ficaram, lá longe, dentro da noite onde apenas a esperança é uma estrela de luz doce e triste.
Não venho da minha casa subterrânea de São João Batista, como os mortos que os larápios, às vezes, fazem regressar aos tormentos da Terra, por mal de seus pecados. Na derradeira morada do meu corpo ficaram os meus olhos enfermos e as minhas disposições orgânicas. Cá estou como se houvesse sorvido um néctar de juventude no banquete dos deuses.
Entretanto, meus filhos, levanta-se entre nós um rochedo de mistério e de silêncio.
Eu sou eu. Fui o pai de vocês e vocês foram meus filhos. Agora somos irmãos. Nada há de mais belo do que a lei de solidariedade fraterna, delineada pelo Criador na sua glória inacessível. A morte não suprimiu a minha afetividade e ainda possuo o coração de homem para o qual vocês são as melhores criaturas desse mundo.
Dizem que Orfeu, quando tangia as cordas de sua lira, sensibilizava as feras que se agrupavam enternecidas para escutá-lo. As árvores vinham de longe, transportadas na sua harmonia. Os rios sustavam o curso nas suas correntes impetuosas, quedando-se para ouvi-lo. Havia deslumbramento nas paisagens musicalizadas. A morte, meus filhos, cantou para mim, tocando o seu alaúde. Todas as minhas convicções deixaram os seus lugares primitivos para sentir a grandeza do seu canto.
Não posso transmitir esse mistério maravilhoso através dos métodos imperfeitos de que disponho. E, se pudesse, existe agora entre nós o fantasma da dúvida.
Convidado pelo Senhor, eu também estive no banquete da vida. Não nos palácios da popularidade ou da juventude efêmera, mas no átrio pobre e triste do sofrimento onde se conservam temporariamente os mendigos da sua casa. Minha primeira dor foi a minha primeira luz. E quando os infortúnios formaram uma teia imensa de amarguras para o meu destino, senti-me na posse do celeiro de claridades da sabedoria. Minhas dores eram a minha prosperidade. Porém qual o cortesão de Dionísio, vi a dúvida como espada afiadíssima balouçando-se sobre a minha cabeça. Aí na Terra entre a crença e a descrença está sempre ela, a espada de Dâmocles. Isso é uma fatalidade.
Venho até vocês cheio de amorosa ternura e se não me posso individualizar, apresentando-me como o pai carinhoso, não podem vocês garantir a impossibilidade da minha sobrevivência. A dúvida entre nós é como a noite. O amor, entretanto, luariza estas sombras. Um morto, como eu, não pode esperar a certeza ou a negação dos vivos que receberem a sua mensagem para a qual há de prevalecer o argumento dubitativo. E nem pode exigir outra coisa quem no mundo não procederia de outra forma.
Sinto hoje, mais que nunca, a necessidade de me impessoalizar, de ser novamente o filho ignorado de dona Anica, a boa e santa velhinha, que continua sendo para mim a mais santa das mães. Tenho necessidade de me esquecer de mim mesmo. Todavia, antes que se cumpra este meu desejo, volto para falar a vocês paternalmente como no tempo em que destruía o fosfato do cérebro a fim de adquirir combustível para o estômago.
- Meus filhos!... Meus filhos!... Estou vivendo... Não me veem?... Mas, olhem, olhem o meu coração como está batendo ainda por vocês.
Aqui, meus filhos, não me perguntaram se eu havia descido gloriosamente as escadas do Petit Trianon; não fui inquirido a respeito dos meus triunfos literários e não me solicitaram informes sobre o meu fardão acadêmico. Em compensação, fui arguido acerca das causas dos humildes e dos infortunados pelas quais me bati.
Viviam pois com prudência na superfície desse mundo de futilidades e glórias vãs.
Num dos mais delicados poemas de Wilde, as Órcades lamentam a morte de Narciso junto de sua fonte predileta, transformada numa taça de lágrimas.
- Não nos admira - suspiram elas - que tanto tenhas chorado!... Era tao lindo!...
- Era belo Narciso? - perguntou o Iago.
- Quem melhor do que tu poderia sabê-lo, se nos desprezava a todas para estender-se nas relvas da tua margem, baixando os olhos para contemplar, no diamante da tua onda, a sua formosura?
A fonte respondeu:
- Eu adorava Narciso porque, quando me procurava com os olhos, eu via, no espelho das suas pupilas, o reflexo da minha própria beleza.
Em sua generalidade, meus filhos, os homens, quando não são Narciso, enamorados de sua própria formosura, são a fonte de Narciso.
Não venho exortar a vocês como sacerdote; conheço de sobra as fraquezas humanas. Vivam porém a vida do trabalho e da saúde, longe da vaidade corruptora. E, na religião da consciência retilínea, não se esqueçam de rezar. Eu, que era um homem tão perverso e tão triste, estou aprendendo de novo a minha prece, como fazia na infância, ao pé de minha mãe, na Parnaíba.
- Venham, meus filhos!... Ajoelhemos de mãos postas. Não veem que cheguei de tão longe?! Fui mais feliz que o Rico e o Lázaro da parábola, que não puderam voltar;;; Ajoelhemos no templo do Espírito, inclinem vocês a fronte sobre o meu coração. Cabem todos nos meus braços? Cabem, sim...
Vamos rezar com o pensamento em Deus, com a alma no infinito. Pai Nosso... que estais no céu... santificado seja o vosso nome...
Humberto de Campos (sic)
Pedro Leopoldo, 09 de abril de 1935
terça-feira, 17 de maio de 2016
Humberto de Campos Filho foi religiosamente seduzido por Chico Xavier?
HUMBERTO DE CAMPOS FILHO (E), AO LADO DE HEBE CAMARGO E JOSÉ TAVARES DE MIRANDA, NOS BASTIDORES DA TV PAULISTA, EM 1956.
O jornalista, escritor e radialista Humberto de Campos Filho integrou o grupo familiar dos herdeiros do escritor maranhense, nos processos movidos contra Francisco Cândido Xavier e a Federação "Espírita" Brasileira, em 1944, devido ao uso do nome de Humberto de Campos nas supostas psicografias lançadas pelo "médium" mineiro.
Era a viúva do escritor, Dona Catarina Vergolina dos Campos, ou Dona Paquita, e os filhos Henrique de Campos, o mais velho, e Humberto Filho, representados judicialmente pelo advogado Milton Barbosa. A outra filha do escritor, Maria de Lourdes Campos, preferiu apoiar de longe, não se envolvendo no processo.
Embora o enunciado do processo fosse "melindroso" - limitava-se a ação a pedir para que especialistas designados pela Justiça analisassem as obras "psicográficas" para que, no caso de veracidade, os direitos autorais seriam passados para os herdeiros, e, no caso contrário, FEB e Chico Xavier seriam multados a título de indenização - , nota-se que a intenção sinalizava para contestar a autenticidade da suposta obra espiritual.
Na reportagem da Revista da Semana de 08 de julho de 1944, Humberto de Campos Filho parecia bastante cético em relação à obra "psicográfica". como mostra um trecho que reproduzimos da referida reportagem:
(...) Quando lhe (Humberto de Campos Filho) indagamos o que pensa dos famosos livros póstumos editados sob a responsabilidade do médium referido, fez suas as palavras que o irmão (Henrique de Campos) nos havia dito:
- Querem fazer o espírito trabalhar mais do que o corpo. - Gracejo ou evasiva, quem sabe?
- Mas, encarando a questão seriamente - insistimos - acha concebível que aqueles livros tenham sido escritos pelo seu pai?
- Claro que não - é a resposta categórica. Tanto assim que evitamos tocar no assunto e nunca demos a nossa permissão para a publicação desses livros atribuídos a meu pai. Frequentemente apareciam delegações espíritas ou padres católicos e até representantes de outras religiões, todos querendo convertê-lo. Ele a todos recebia e ouvia com a devida consideração, mas era só. Nunca foi espírita.
Humberto adiantou-nos então que a família realmente evita o assunto. Porém, faz notar que tudo que sai publicado nesse gênero é totalmente sem a sua aprovação ou consentimento. Diz mesmo que nunca se dignaram esses editores, ao menos, comunicar a publicação de um novo livro, os quais se elevam ao número de cinco ou seis. Portanto, a família de Humberto de Campos está totalmente alheia a essa "onda" de espiritismo - classificação textual de Humberto Filho.
A QUESTÃO DOS DIREITOS AUTORAIS
- Os direitos autorais de todas as obras de meu pai são exclusivamente da família - adianta-nos o filho do escritor. Humberto de Campos tem publicados 39 volumes, que pertencem aos herdeiros. De toda a sua obra unicamente um livro de histórias infantis - "Histórias Maravilhosas" - foi vendido por ele à Empresa O Malho. Todos os livros de meu pai foram reeditados por José Olympio. Depois, a W. M. Jackson assinou contrato conosco, destinadas a serem vendidas as coleções. Os direitos, portanto, são da nossa família exclusivamente. E o serão ainda por cinquenta anos. Meu pai faleceu há dez anos e a lei diz que a propriedade literária é garantida por sessenta anos. Só em 1994 deixará de ser nossa.
==========
Já no livro Irmão X, Meu Pai, Humberto de Campos Filho adota uma postura diferente. Do ceticismo inicial passou-se para uma complacência com o mito de Chico Xavier e a sua completa dúvida sobre a obra atribuída a Humberto de Campos passou-se a uma condescendência que o autor não consegue explicar no livro, mas que cabe inferirmos algumas pistas.
Primeiro, pelo fato de Humberto Filho não dar detalhes sobre a autenticidade ou não das supostas psicografias, e, segundo, pelo fato de ter sido um ateu (como o pai foi) que depois passou a frequentar os "centros espíritas".
Segue um trecho do referido livro que o filho homônimo de Humberto de Campos escreveu, relatando o encontro dele com Chico Xavier na Comunhão "Espírita" Cristã, em Uberaba, no qual se observavam tanto os clichês da "caridade" religiosa e um clima de fascinação, um perigoso tipo de obsessão alertado por Allan Kardec, marcado por um misto de submissão e deslumbramento:
1957
Um grupo de amigos do Centro que então frequentava aprovou a ideia de que já era tempo de conhecermos Chico Xavier pessoalmente. Da ideia passamos aos fatos. Éramos uns seis turistas, apertados em um Aero Willys, a caminho de Uberaba. Desses passageiros, dois, Lauro Mendonça e Vamiré Soares, já passaram para o lado de lá.
Chegamos a tempo de conseguir entrar na sala superlotada, onde, pouco depois, começaria a sessão, com a presença de Chico. Lá pelas tantas, vozes partidas da mesa, por ele presidida, pediam que Humberto de Campos Filho se aproximasse para falar com o médium. É fácil imaginar minha emoção. Sei que meus olhos estavam inundados pelas lágrimas quando nos abraçamos, comovidamente. De início, foi o Chico que falou, dizendo coisas tocantes e carinosas. À certa altura, era outro alguém... Talvez meu pai?... E o que ouvi teve o efeito de um impulso que me fez disparar uma sucessão de soluços, que pareciam que jamais iriam parar.
No dia seguinte, um sábado, ainda com a impressão de que meu espírito havia tomado um banho de luz, fomos participar da distribuição de mantimentos.
Sem mais nem menos, tive a nítida impressão de que estava em alguma cidade da Galileia, nos primórdios do cristianismo.
Em um enorme galpão, sem paredes laterais, senhoras e moças, alegres e sorridentes, preparavam a sopa que, mais tarde, seria distribuída entre os pobres. Pilhas de cenouras, montes de batatas iam sendo descascadas e levadas para os caldeirões que, a um canto, fumegavam cheirosamente.
Ao cair da tarde, nos incorporamos à caravana, liderada pelo Chico, que ia distribuir sacolas com mantimentos pelos casebres da periferia. Ao lado do Waldo Vieira, caminhamos naquele pôr-do-sol, com a certeza de que uma legião de espíritos luminosos também caminhavam conosco. Lá pelas tantas, Chico entrou numa palhoça, de um só cômodo. Ficamos à porta, com espaço bastante para ver Chico sentar-se na beirada de uma cama estreita e miserável. Nela estendido, um pobre velho, pouco mais que um monte de ossos, sob uma cabeça coberta por uma grande barba e cabelos desgrenhados. O coitado fez menão de erguer-se mas Chico, colocando a mão no seu peito, não deixou. De onde estávamos não era possível ouvir o que ele dizia. Mas o que disse fez o pobre homem se transformar em um enorme sorriso, cheio de gratidão e alegria. E, ao mesmo tempo, sentimos uma onda de perfume, de jasmins colhidos naquele instante, invadir completamente aquela tapera...
==========
No capítulo do livro Nosso Amigo Chico Xavier, de Luciano da Costa e Silva, há uma atribuição de "livrar a culpa" de Humberto de Campos Filho do processo movido contra Chico Xavier e a FEB. Sabe-se que, depois, ele argumentou que o processo não era "uma campanha contra o espiritismo" nem se voltava "contra Chico Xavier, mas contra a FEB". O trecho dava a entender de que era uma iniciativa movida pela estranheza da viúva do escritor:
D. Catharina Vergolina de Campos realmente não gostava de ver o nome do marido propagar-se de tal forma e procurava encontrar falhas nos escritos, descobrindo sempre novas coisas que depunham contra a veracidade do fato. Na verdade, nunca acreditou que as mensagens fossem de seu falecido esposo.
Chama a atenção a postura invertida adotada em 1977 (ano do livro de Luciano) em relação a 1944, quando o mesmo Humberto de Campos Filho, sem expressar detalhadamente suas posições, se limita a aceitar as supostas psicografia de seu pai, do qual teria recebido supostas cartas trazidas por Chico Xavier:
Quanto à psicografia, não se estende muito, dizendo simplesmente que acredita serem as mensagens do espírito de seu pai, por intermédio de Chico Xavier, autênticas.
Em seguida, é narrado o encontro de Chico Xavier com Humberto de Campos Filho, mais de uma década após Ana de Campos Veras, mãe do autor maranhense, ter agradecido o "médium" pelas obras atribuídas ao filho. Vamos ao trecho de Luciano da Costa e Silva:
Esteve (Humberto de Campos Filho) uma única vez com o médium, por volta de 1957, na Comunhão Espírita Cristã, em Uberaba. Naquela sexta-feira após a sessão, embora incógnito, Chico chamou-o pelo nome. Ambos emocionados, abraçaram-se e derramaram lágrimas. Trocaram várias palavras. Humberto diz ser perceptível o fato de que, em alguns momentos, é ele quem fala, em outros, as entidades. O difícil é perceber a passagem de um estado a outro.
Resumiu esse encontro como: "foi uma experiência muito bonita..."
Terminamos este artigo com sua opinião pessoal sobre o médium Chico Xavier, que achamos sintética, simples e tremendamente feliz:
"Chico é um paranormal acima de qualquer nível conhecido, totalmente bem intencionado. Um ser excepcional! Não um indivíduo, um ser excepcional!"
CONCLUSÃO
A fascinação, o tipo de obsessão que se manifesta pelo aparato da emotividade e da comoção, da submissão a algum indivíduo leviano, encarnado ou não e à submissão a este e seus artifícios, tomou Humberto de Campos Filho, que deixou a antiga postura crítica a um deslumbramento em torno de Chico Xavier.
Humberto foi religiosamente seduzido, com as mesmas armadilhas que os contestadores do "movimento espírita" encontram em dado momento: o aparato de "bondade" e "caridade", ações feitas sob uma perspectiva religiosa, a causar deslumbramento nas pessoas e a dar um freio em investigações mais apuradas de irregularidades.
A fascinação, através desses artifícios de "mensagens de amor" e "caridade", torna-se um processo obsessivo muitíssimo perigoso, o que torna Chico Xavier um dos espíritos mais traiçoeiros que passaram no Brasil, um grande ilusionista e hipnotizador de almas, de longe o pior deturpador da Doutrina Espírita do mundo inteiro, e o maior inimigo interno que o legado kardeciano encontrou em sua trajetória.
O jornalista, escritor e radialista Humberto de Campos Filho integrou o grupo familiar dos herdeiros do escritor maranhense, nos processos movidos contra Francisco Cândido Xavier e a Federação "Espírita" Brasileira, em 1944, devido ao uso do nome de Humberto de Campos nas supostas psicografias lançadas pelo "médium" mineiro.
Era a viúva do escritor, Dona Catarina Vergolina dos Campos, ou Dona Paquita, e os filhos Henrique de Campos, o mais velho, e Humberto Filho, representados judicialmente pelo advogado Milton Barbosa. A outra filha do escritor, Maria de Lourdes Campos, preferiu apoiar de longe, não se envolvendo no processo.
Embora o enunciado do processo fosse "melindroso" - limitava-se a ação a pedir para que especialistas designados pela Justiça analisassem as obras "psicográficas" para que, no caso de veracidade, os direitos autorais seriam passados para os herdeiros, e, no caso contrário, FEB e Chico Xavier seriam multados a título de indenização - , nota-se que a intenção sinalizava para contestar a autenticidade da suposta obra espiritual.
Na reportagem da Revista da Semana de 08 de julho de 1944, Humberto de Campos Filho parecia bastante cético em relação à obra "psicográfica". como mostra um trecho que reproduzimos da referida reportagem:
(...) Quando lhe (Humberto de Campos Filho) indagamos o que pensa dos famosos livros póstumos editados sob a responsabilidade do médium referido, fez suas as palavras que o irmão (Henrique de Campos) nos havia dito:
- Querem fazer o espírito trabalhar mais do que o corpo. - Gracejo ou evasiva, quem sabe?
- Mas, encarando a questão seriamente - insistimos - acha concebível que aqueles livros tenham sido escritos pelo seu pai?
- Claro que não - é a resposta categórica. Tanto assim que evitamos tocar no assunto e nunca demos a nossa permissão para a publicação desses livros atribuídos a meu pai. Frequentemente apareciam delegações espíritas ou padres católicos e até representantes de outras religiões, todos querendo convertê-lo. Ele a todos recebia e ouvia com a devida consideração, mas era só. Nunca foi espírita.
Humberto adiantou-nos então que a família realmente evita o assunto. Porém, faz notar que tudo que sai publicado nesse gênero é totalmente sem a sua aprovação ou consentimento. Diz mesmo que nunca se dignaram esses editores, ao menos, comunicar a publicação de um novo livro, os quais se elevam ao número de cinco ou seis. Portanto, a família de Humberto de Campos está totalmente alheia a essa "onda" de espiritismo - classificação textual de Humberto Filho.
A QUESTÃO DOS DIREITOS AUTORAIS
- Os direitos autorais de todas as obras de meu pai são exclusivamente da família - adianta-nos o filho do escritor. Humberto de Campos tem publicados 39 volumes, que pertencem aos herdeiros. De toda a sua obra unicamente um livro de histórias infantis - "Histórias Maravilhosas" - foi vendido por ele à Empresa O Malho. Todos os livros de meu pai foram reeditados por José Olympio. Depois, a W. M. Jackson assinou contrato conosco, destinadas a serem vendidas as coleções. Os direitos, portanto, são da nossa família exclusivamente. E o serão ainda por cinquenta anos. Meu pai faleceu há dez anos e a lei diz que a propriedade literária é garantida por sessenta anos. Só em 1994 deixará de ser nossa.
==========
Já no livro Irmão X, Meu Pai, Humberto de Campos Filho adota uma postura diferente. Do ceticismo inicial passou-se para uma complacência com o mito de Chico Xavier e a sua completa dúvida sobre a obra atribuída a Humberto de Campos passou-se a uma condescendência que o autor não consegue explicar no livro, mas que cabe inferirmos algumas pistas.
Primeiro, pelo fato de Humberto Filho não dar detalhes sobre a autenticidade ou não das supostas psicografias, e, segundo, pelo fato de ter sido um ateu (como o pai foi) que depois passou a frequentar os "centros espíritas".
Segue um trecho do referido livro que o filho homônimo de Humberto de Campos escreveu, relatando o encontro dele com Chico Xavier na Comunhão "Espírita" Cristã, em Uberaba, no qual se observavam tanto os clichês da "caridade" religiosa e um clima de fascinação, um perigoso tipo de obsessão alertado por Allan Kardec, marcado por um misto de submissão e deslumbramento:
1957
Um grupo de amigos do Centro que então frequentava aprovou a ideia de que já era tempo de conhecermos Chico Xavier pessoalmente. Da ideia passamos aos fatos. Éramos uns seis turistas, apertados em um Aero Willys, a caminho de Uberaba. Desses passageiros, dois, Lauro Mendonça e Vamiré Soares, já passaram para o lado de lá.
Chegamos a tempo de conseguir entrar na sala superlotada, onde, pouco depois, começaria a sessão, com a presença de Chico. Lá pelas tantas, vozes partidas da mesa, por ele presidida, pediam que Humberto de Campos Filho se aproximasse para falar com o médium. É fácil imaginar minha emoção. Sei que meus olhos estavam inundados pelas lágrimas quando nos abraçamos, comovidamente. De início, foi o Chico que falou, dizendo coisas tocantes e carinosas. À certa altura, era outro alguém... Talvez meu pai?... E o que ouvi teve o efeito de um impulso que me fez disparar uma sucessão de soluços, que pareciam que jamais iriam parar.
No dia seguinte, um sábado, ainda com a impressão de que meu espírito havia tomado um banho de luz, fomos participar da distribuição de mantimentos.
Sem mais nem menos, tive a nítida impressão de que estava em alguma cidade da Galileia, nos primórdios do cristianismo.
Em um enorme galpão, sem paredes laterais, senhoras e moças, alegres e sorridentes, preparavam a sopa que, mais tarde, seria distribuída entre os pobres. Pilhas de cenouras, montes de batatas iam sendo descascadas e levadas para os caldeirões que, a um canto, fumegavam cheirosamente.
Ao cair da tarde, nos incorporamos à caravana, liderada pelo Chico, que ia distribuir sacolas com mantimentos pelos casebres da periferia. Ao lado do Waldo Vieira, caminhamos naquele pôr-do-sol, com a certeza de que uma legião de espíritos luminosos também caminhavam conosco. Lá pelas tantas, Chico entrou numa palhoça, de um só cômodo. Ficamos à porta, com espaço bastante para ver Chico sentar-se na beirada de uma cama estreita e miserável. Nela estendido, um pobre velho, pouco mais que um monte de ossos, sob uma cabeça coberta por uma grande barba e cabelos desgrenhados. O coitado fez menão de erguer-se mas Chico, colocando a mão no seu peito, não deixou. De onde estávamos não era possível ouvir o que ele dizia. Mas o que disse fez o pobre homem se transformar em um enorme sorriso, cheio de gratidão e alegria. E, ao mesmo tempo, sentimos uma onda de perfume, de jasmins colhidos naquele instante, invadir completamente aquela tapera...
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No capítulo do livro Nosso Amigo Chico Xavier, de Luciano da Costa e Silva, há uma atribuição de "livrar a culpa" de Humberto de Campos Filho do processo movido contra Chico Xavier e a FEB. Sabe-se que, depois, ele argumentou que o processo não era "uma campanha contra o espiritismo" nem se voltava "contra Chico Xavier, mas contra a FEB". O trecho dava a entender de que era uma iniciativa movida pela estranheza da viúva do escritor:
D. Catharina Vergolina de Campos realmente não gostava de ver o nome do marido propagar-se de tal forma e procurava encontrar falhas nos escritos, descobrindo sempre novas coisas que depunham contra a veracidade do fato. Na verdade, nunca acreditou que as mensagens fossem de seu falecido esposo.
Chama a atenção a postura invertida adotada em 1977 (ano do livro de Luciano) em relação a 1944, quando o mesmo Humberto de Campos Filho, sem expressar detalhadamente suas posições, se limita a aceitar as supostas psicografia de seu pai, do qual teria recebido supostas cartas trazidas por Chico Xavier:
Quanto à psicografia, não se estende muito, dizendo simplesmente que acredita serem as mensagens do espírito de seu pai, por intermédio de Chico Xavier, autênticas.
Em seguida, é narrado o encontro de Chico Xavier com Humberto de Campos Filho, mais de uma década após Ana de Campos Veras, mãe do autor maranhense, ter agradecido o "médium" pelas obras atribuídas ao filho. Vamos ao trecho de Luciano da Costa e Silva:
Esteve (Humberto de Campos Filho) uma única vez com o médium, por volta de 1957, na Comunhão Espírita Cristã, em Uberaba. Naquela sexta-feira após a sessão, embora incógnito, Chico chamou-o pelo nome. Ambos emocionados, abraçaram-se e derramaram lágrimas. Trocaram várias palavras. Humberto diz ser perceptível o fato de que, em alguns momentos, é ele quem fala, em outros, as entidades. O difícil é perceber a passagem de um estado a outro.
Resumiu esse encontro como: "foi uma experiência muito bonita..."
Terminamos este artigo com sua opinião pessoal sobre o médium Chico Xavier, que achamos sintética, simples e tremendamente feliz:
"Chico é um paranormal acima de qualquer nível conhecido, totalmente bem intencionado. Um ser excepcional! Não um indivíduo, um ser excepcional!"
CONCLUSÃO
A fascinação, o tipo de obsessão que se manifesta pelo aparato da emotividade e da comoção, da submissão a algum indivíduo leviano, encarnado ou não e à submissão a este e seus artifícios, tomou Humberto de Campos Filho, que deixou a antiga postura crítica a um deslumbramento em torno de Chico Xavier.
Humberto foi religiosamente seduzido, com as mesmas armadilhas que os contestadores do "movimento espírita" encontram em dado momento: o aparato de "bondade" e "caridade", ações feitas sob uma perspectiva religiosa, a causar deslumbramento nas pessoas e a dar um freio em investigações mais apuradas de irregularidades.
A fascinação, através desses artifícios de "mensagens de amor" e "caridade", torna-se um processo obsessivo muitíssimo perigoso, o que torna Chico Xavier um dos espíritos mais traiçoeiros que passaram no Brasil, um grande ilusionista e hipnotizador de almas, de longe o pior deturpador da Doutrina Espírita do mundo inteiro, e o maior inimigo interno que o legado kardeciano encontrou em sua trajetória.
segunda-feira, 16 de maio de 2016
Rede Globo manipula as mentes e influi até no "espiritismo"
A influência da Globo se verificou na campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff, até de maneira escancarada. Só o episódio da tentativa do presidente interino da Câmara dos Deputados, Waldir Maranhão, anular o processo de expulsão da presidenta, fez a Globo reagir de maneira hipnotizante.
Jornalistas com semblante tenso e uns com expressões de prantos narravam a anulação do processo de impeachment, fazendo o expectador se envolver emocionalmente na revolta por ver a governante repudiada pela Globo ter tido chances de permanecer no poder.
O clima rancoroso contra Dilma Rousseff, Luís Inácio Lula da Silva e o Partido dos Trabalhadores (PT) em geral é uma campanha midiática comandada pela Globo - embora os textos rancorosos sejam primeiro expressos pela revista Veja, do Grupo Abril - para confundir uma saudável oposição política (ninguém é obrigado a ser petista nem esquerdista) com intolerância e ódio.
Esse é só um exemplo de como uma grande corporação midiática é capaz de manipular as mentes das pessoas, com o agravante de que ela atinge setores sociais que aparentemente se declaram opositores da empresa dos irmãos Marinho.
Recentemente, a Globo fez o "milagre" de transformar um time espanhol em "time carioca", já que o Barcelona, por ter como um dos craques o festejado Neymar, criando um "hábito" de fazer os brasileiros torcerem pelo "Barça" tal como se torce pelo Flamengo, Fluminense, Botafogo ou Vasco.
A Globo influi no gosto musical ruim das pessoas, associado a derivados da música brega, a música comercial lançada nos anos 1960 e hoje hegemônica no mercado. Influi até mesmo no vocabulário popular, difundindo gírias como "balada" e "galera" e substituindo a palavra "freguês" pela "cliente".
Se esse aspecto de manipulação do vocabulário popular - que lembra o processo da "novilíngua" narrado por George Orwell em 1984 - não é reconhecido pela sociedade, a forma de perceber o mundo pelos filtros da Globo pelo menos é tem reconhecimento por parte dela.
A ficção enrustida que é o Jornal Nacional, em que há um roteiro de "notícias bombásticas" combinando com outras "mais leves", diante dos gestos calculados dos apresentadores e do texto escrito para envolver e manipular o telespectador, exprime de maneira clara esse tom controlador, já que o JN dificilmente convence como um noticiário com um mínimo de transparência.
Quatro apresentadores são decisivos para manipular o inconsciente coletivo: William Bonner, Luciano Huck, Fausto Silva e Galvão Bueno. Da gíria "balada" - símbolo do empobrecimento da linguagem brasileira, uma gíria criada pela alta sociedade paulista e que, sem pé nem cabeça, define de um jantar entre amigos a uma apresentação de um DJ - ao fanatismo pela Seleção Brasileira de Futebol, os telespectadores e até parte dos detratores sofrem a hipnótica influência "global".
O vestuário dos personagens da novela das 21 horas em exibição, os ídolos musicais que aparecem no Domingão do Faustão ou no Caldeirão do Huck, as "tribos" culturais que aparecem em Malhação ou no Fantástico, o político que tem que ser o mais odiado pelo povo, e até mesmo a visão de "caridade" e os ídolos religiosos a serem vistos como "unanimidades", tudo tem o dedo da Globo.
CHICO E DIVALDO
Sim, estamos falando do "movimento espírita" que, sob o ponto de vista da Globo, é um instrumento de manipulação das mentes humanas pela fé religiosa bem mais eficaz do que o Catolicismo. Sabe-se que a Rede Globo defende a Igreja Católica.
O "espiritismo" tem como vantagem em relação ao Catolicismo o fato de ser mais informal. As ideias, os dogmas, os mitos e as práticas são quase totalmente os mesmos, a roupagem religiosa do "espiritismo" é puramente católica, diferindo do fato de dispensar batinas, folhagem a ouro, celibatos e outras formalidades católicas.
Travestido de "ciência" ou "filosofia", o "espiritismo" pode atender aos interesses da Rede Globo em evitar a mobilidade social, submetendo as pessoas aos mesmos elementos da fé católica, mas de maneira bem mais sutil e sem perceber que é um padre que está dizendo isso ou aquilo.
Ídolos como Chico Xavier e Divaldo Franco, tidos como "ecumênicos", são instrumentos eficazes nesse processo de manipulação do inconsciente coletivo, e da engenhosidade psicológica da Rede Globo de influenciar até quem não sente simpatia pela emissora.
Da mesma forma que aparentes detratores de Luciano Huck e Fausto Silva falam "balada" ou "galera" e detratores de Galvão Bueno seguem seu fanatismo pelo futebol, sobretudo no Rio de Janeiro, há quem idolatre Chico e Divaldo sem que uma única sombra da manipulação "global" seja notada.
Pior: até ateus e esquerdistas se tornam complacentes com os dois ídolos religiosos, manipulados por paradigmas de "bondade" e "caridade" que correspondem aos valores dominantes transmitidos pela Rede Globo e outras mídias associadas, mesmo não vinculadas empresarialmente às Organizações Globo.
Isso porque são valores "positivos" que não incomodam as elites e exploram paradigmas de mansidão e benevolência que é do interesse da mídia manipuladora fazer prevalecer na sociedade. Uma "caridade" tida como "transformadora" apenas por uma questão de tendenciosismo ideológico, já que seus efeitos são inócuos, sem resultados profundos e não incomodam o sistema de privilégios abusivos existentes.
Vide a manipulação da Globo quanto ao paradigma de "caridade", que aborda de forma pejorativa projetos realmente eficientes como o Método Paulo Freire, que ensina a pessoa a ver o mundo de maneira questionadora, e superestima projetos como o da Mansão do Caminho, de Divaldo, que ensina a ler e escrever mas prefere formar cidadãos mais submissos e dotados da mais conservadora fé religiosa.
O "espiritismo", dessa forma, torna-se um instrumento mais habilidoso para a Rede Globo do que a Igreja Católica, porque introduz a mesma fé religiosa do Catolicismo de modo mais sutil e dissimulada, travestida de "ciência" e "filosofia" e sem que se observe essa manipulação ideológica, sobretudo os concorrentes da Rede Record, desprevenidos do verniz "laico" dessa manobra religiosa.
domingo, 15 de maio de 2016
A terrível ilusão da superioridade religiosa dos "espíritas"
PESSOAS RICAS TÊM ILUSÕES, MAS NADA SE COMPARA AOS "BONDOSOS ESPÍRITAS".
Qual a pior ilusão? A de uma pessoa que quer um (a) namorado (a) por questão de afinidade, que quer o emprego X para trabalhar seus talentos pessoais, que não aceita uma vida qualquer nota, embora abra mão do luxo e do supérfluo?
Nada disso. Essas são apenas reivindicações de uma pessoa que quer qualidade de vida. A vida material já é limitada em cerca de 80 anos, e a vida "qualquer nota", o desperdício de uma encarnação por causa das barreiras intransponíveis e das insólitas e mesquinhas soluções para resolver os problemas da vida.
Aceite o algoz, namore alguém que não ama nem sente interesse algum, nem mesmo afinidade. Sacrifique acima de suas condições. Sofra o pior possível e, mesmo assim, sorria e, de preferência, conte piadas. Abafe suas dores intensas tentando fingir a maior alegria. Se sobrecarregue e, mesmo assim, evite descansos e evite sequer parar para pensar sobre como fazer algo melhor.
A religião "espírita", que professa, de maneira nunca assumida, a Teologia do Sofrimento, tem esse sadismo. Só pelo fato de que, no além-túmulo, vamos deixar todos os bens materiais, não significa que a encarnação é algo qualquer nota e tenha que se viver de qualquer forma ou adiar grandes projetos para a próxima encarnação.
Pelo contrário. O próprio limite temporal faz da encarnação uma preciosidade. Desperdiçá-la acreditando que na próxima encarnação tudo será igual é um grande equívoco, mas os "espíritas" nem estão aí para isso.
Para eles, tanto faz como tanto fez. Você aguenta as desgraças, e só lhe resta ser um boneco das circunstâncias, um capacho do destino e, quando você tem vontade de gritar de dor ou quando o único silêncio possível é o da melancolia e da depressão, você é obrigado a sorrir e contar uma piada para todo mundo sorrir, menos você, que dá um sorriso falso que é mais uma contração muscular.
A moralidade "espírita" nem liga para as raízes do sofrimento. Impõe ao outro a "mudança de pensamentos" e a aceitação dos "desígnios do alto". É muito fácil dizer ao sofredor para ele nunca sofrer, porque deixa as demais pessoas aflitas. Difícil é entender o que o sofredor está realmente sofrendo.
É a ilusão "espírita", que, diante do seu processo de deturpação doutrinária, defendendo ideias contrárias ao pensamento original de Allan Kardec, e diante de um moralismo herdado da Teologia do Sofrimento católica, não responde aos problemas morais dos indivíduos.
Entender a vida espiritual como verdadeira é correto, mas desvalorizar a vida material e impedir que a pessoa trabalhe na melhor maneira suas habilidades pessoais, impondo-lhe barreiras pesadas, achando que a vida é só deixar de ter raiva e aceitar qualquer coisa, é um grande desrespeito que se faz ao indivíduo.
E isso também traz uma ilusão pior dos "espíritas", que se gabam de não compartilharem das orgias materiais das aristocracias, embora os astros do "movimento espírita" sempre manifestem regojizo quando vão aos eventos elitistas ganharem prêmios e acumularem tesouros na Terra. Logo eles, tão "espiritualistas". Logo gente como Divaldo Franco, por exemplo!
A indiferença com o sofrimento alheio, a ilusão de que a vida material é só uma relação brutal entre o homem e a matéria, como se o ser humano fosse um troglodita ao qual só lhe resta ser bonzinho e alegre com os outros, mostra um dos aspectos da ilusão da superioridade religiosa dos "espíritas".
Sem realizar um único estudo e sem se respaldar de qualquer dado científico sobre vida espiritual, até porque a Ciência não trouxe até agora qualquer hipótese sequer cogitável (não se fala em provável), os "espíritas" tentam tomar como certo um "paraíso espiritual" que tem concepções materialistas, como se fosse possível compensar a encarnação frustrada pelos prêmios da "vida futura".
Misturando vários clichês religiosos, quase todos da Igreja Católica, o "espiritismo" que jura "fidelidade absoluta" e "respeito rigoroso" a Allan Kardec, mas despreza severamente suas ideias e avisos, os "espíritas" acreditam serem detentores de uma superioridade moral que lhes garante o ingresso seguro nos planos superiores da espiritualidade.
Chegam a esnobar as "exigências" de quem sofre tantas barreiras, achando que estas são sacrifícios "necessários" para a evolução. Com seu moralismo, os "espíritas" confundem desgraças com desafios e exigem do sofredor coisas impossíveis, como quem exige de um peixe para que ele dê um salto olímpico para o alto de uma árvore.
Acham que pedir qualidade de vida é "nadar em dinheiro". Acham que pedir um cônjuge de acordo com a afinidade é "sensualismo". Acham que pedir um emprego de acordo com as vocações é "extravagância". E acham que pedir o fim de sacrifícios pesados demais é "covardia".
Moralismo muito cruel, que faz os "espíritas" estarem mais próximos da plutocracia do Império Romano do que de Jesus de Nazaré. Não por acaso, os tão "iluminados" ídolos "espíritas", como Divaldo Franco e Chico Xavier, reproduzem a "superioridade" dos sacerdotes presunçosos tão rejeitados pelo próprio Jesus.
Jesus havia dito que é mais fácil um camelo entrar na cabeça de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Pois é até mais fácil um rico entrar no reino dos céus do que um "espírita", até pelas ilusões que este contrai, muito piores do que de qualquer aristocrata.
Muitas vezes, basta um rico que comete crimes e luxúrias graves morrer para ele tomar conta de sua situação. Ele está preparado. Sabe que vai largar tudo e, no mundo espiritual, será reduzido a um nada. A morte, em muitos casos, permite ao rico da Terra uma avaliação autocrítica e uma desilusão que, nos contextos atuais, os ricos estão prevenidos da ocorrência.
Pior é o "espírita", tão iludido pela "superioridade espiritual" presumida na Terra, e pelo teatro de "bondades" e pela "dieta açucarada" de "palavras de amor" e "belas declarações" recebidas ou dadas aqui e ali.
Acha o "espírita" que, no além-túmulo, irá receber condecorações e saudações iguais às que recebe na Terra, com corais de anjos, amigos e parentes lhe acolhendo e tudo o mais. Mas mesmo a falsa modéstia de uns, quando dizem que "não haverá isso" e "terão muito o que fazer e por isso voltarão à Terra", também esconde um sabor de vaidade com a doutrina brasileira.
O "espiritismo" se acha acima da lógica, da realidade, do realismo. Se acha acima da coerência. Trata a ideia de "bondade" como se fosse um subproduto da fé religiosa em geral. E se acha triunfalista como se fosse capaz de passar por cima de contestações e investigações diversas, como alguém que pudesse sair vivo de uma violenta avalanche.
Passada a vida na Terra, a "superioridade espírita" se desfaz como pó. E, do contrário do rico, já prevenido da extinção de suas condições sócio-econômicas no além-túmulo, o "espírita" amargará violentas desilusões, por defender uma doutrina deturpadora do pensamento kardeciano, marcada pelo moralismo retrógrado e pela desonestidade intelectual. Despreparado, o "espírita" tente a sofrer muito mais do que imagina. O habitante do "umbral" é justamente ele.
Qual a pior ilusão? A de uma pessoa que quer um (a) namorado (a) por questão de afinidade, que quer o emprego X para trabalhar seus talentos pessoais, que não aceita uma vida qualquer nota, embora abra mão do luxo e do supérfluo?
Nada disso. Essas são apenas reivindicações de uma pessoa que quer qualidade de vida. A vida material já é limitada em cerca de 80 anos, e a vida "qualquer nota", o desperdício de uma encarnação por causa das barreiras intransponíveis e das insólitas e mesquinhas soluções para resolver os problemas da vida.
Aceite o algoz, namore alguém que não ama nem sente interesse algum, nem mesmo afinidade. Sacrifique acima de suas condições. Sofra o pior possível e, mesmo assim, sorria e, de preferência, conte piadas. Abafe suas dores intensas tentando fingir a maior alegria. Se sobrecarregue e, mesmo assim, evite descansos e evite sequer parar para pensar sobre como fazer algo melhor.
A religião "espírita", que professa, de maneira nunca assumida, a Teologia do Sofrimento, tem esse sadismo. Só pelo fato de que, no além-túmulo, vamos deixar todos os bens materiais, não significa que a encarnação é algo qualquer nota e tenha que se viver de qualquer forma ou adiar grandes projetos para a próxima encarnação.
Pelo contrário. O próprio limite temporal faz da encarnação uma preciosidade. Desperdiçá-la acreditando que na próxima encarnação tudo será igual é um grande equívoco, mas os "espíritas" nem estão aí para isso.
Para eles, tanto faz como tanto fez. Você aguenta as desgraças, e só lhe resta ser um boneco das circunstâncias, um capacho do destino e, quando você tem vontade de gritar de dor ou quando o único silêncio possível é o da melancolia e da depressão, você é obrigado a sorrir e contar uma piada para todo mundo sorrir, menos você, que dá um sorriso falso que é mais uma contração muscular.
A moralidade "espírita" nem liga para as raízes do sofrimento. Impõe ao outro a "mudança de pensamentos" e a aceitação dos "desígnios do alto". É muito fácil dizer ao sofredor para ele nunca sofrer, porque deixa as demais pessoas aflitas. Difícil é entender o que o sofredor está realmente sofrendo.
É a ilusão "espírita", que, diante do seu processo de deturpação doutrinária, defendendo ideias contrárias ao pensamento original de Allan Kardec, e diante de um moralismo herdado da Teologia do Sofrimento católica, não responde aos problemas morais dos indivíduos.
Entender a vida espiritual como verdadeira é correto, mas desvalorizar a vida material e impedir que a pessoa trabalhe na melhor maneira suas habilidades pessoais, impondo-lhe barreiras pesadas, achando que a vida é só deixar de ter raiva e aceitar qualquer coisa, é um grande desrespeito que se faz ao indivíduo.
E isso também traz uma ilusão pior dos "espíritas", que se gabam de não compartilharem das orgias materiais das aristocracias, embora os astros do "movimento espírita" sempre manifestem regojizo quando vão aos eventos elitistas ganharem prêmios e acumularem tesouros na Terra. Logo eles, tão "espiritualistas". Logo gente como Divaldo Franco, por exemplo!
A indiferença com o sofrimento alheio, a ilusão de que a vida material é só uma relação brutal entre o homem e a matéria, como se o ser humano fosse um troglodita ao qual só lhe resta ser bonzinho e alegre com os outros, mostra um dos aspectos da ilusão da superioridade religiosa dos "espíritas".
Sem realizar um único estudo e sem se respaldar de qualquer dado científico sobre vida espiritual, até porque a Ciência não trouxe até agora qualquer hipótese sequer cogitável (não se fala em provável), os "espíritas" tentam tomar como certo um "paraíso espiritual" que tem concepções materialistas, como se fosse possível compensar a encarnação frustrada pelos prêmios da "vida futura".
Misturando vários clichês religiosos, quase todos da Igreja Católica, o "espiritismo" que jura "fidelidade absoluta" e "respeito rigoroso" a Allan Kardec, mas despreza severamente suas ideias e avisos, os "espíritas" acreditam serem detentores de uma superioridade moral que lhes garante o ingresso seguro nos planos superiores da espiritualidade.
Chegam a esnobar as "exigências" de quem sofre tantas barreiras, achando que estas são sacrifícios "necessários" para a evolução. Com seu moralismo, os "espíritas" confundem desgraças com desafios e exigem do sofredor coisas impossíveis, como quem exige de um peixe para que ele dê um salto olímpico para o alto de uma árvore.
Acham que pedir qualidade de vida é "nadar em dinheiro". Acham que pedir um cônjuge de acordo com a afinidade é "sensualismo". Acham que pedir um emprego de acordo com as vocações é "extravagância". E acham que pedir o fim de sacrifícios pesados demais é "covardia".
Moralismo muito cruel, que faz os "espíritas" estarem mais próximos da plutocracia do Império Romano do que de Jesus de Nazaré. Não por acaso, os tão "iluminados" ídolos "espíritas", como Divaldo Franco e Chico Xavier, reproduzem a "superioridade" dos sacerdotes presunçosos tão rejeitados pelo próprio Jesus.
Jesus havia dito que é mais fácil um camelo entrar na cabeça de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Pois é até mais fácil um rico entrar no reino dos céus do que um "espírita", até pelas ilusões que este contrai, muito piores do que de qualquer aristocrata.
Muitas vezes, basta um rico que comete crimes e luxúrias graves morrer para ele tomar conta de sua situação. Ele está preparado. Sabe que vai largar tudo e, no mundo espiritual, será reduzido a um nada. A morte, em muitos casos, permite ao rico da Terra uma avaliação autocrítica e uma desilusão que, nos contextos atuais, os ricos estão prevenidos da ocorrência.
Pior é o "espírita", tão iludido pela "superioridade espiritual" presumida na Terra, e pelo teatro de "bondades" e pela "dieta açucarada" de "palavras de amor" e "belas declarações" recebidas ou dadas aqui e ali.
Acha o "espírita" que, no além-túmulo, irá receber condecorações e saudações iguais às que recebe na Terra, com corais de anjos, amigos e parentes lhe acolhendo e tudo o mais. Mas mesmo a falsa modéstia de uns, quando dizem que "não haverá isso" e "terão muito o que fazer e por isso voltarão à Terra", também esconde um sabor de vaidade com a doutrina brasileira.
O "espiritismo" se acha acima da lógica, da realidade, do realismo. Se acha acima da coerência. Trata a ideia de "bondade" como se fosse um subproduto da fé religiosa em geral. E se acha triunfalista como se fosse capaz de passar por cima de contestações e investigações diversas, como alguém que pudesse sair vivo de uma violenta avalanche.
Passada a vida na Terra, a "superioridade espírita" se desfaz como pó. E, do contrário do rico, já prevenido da extinção de suas condições sócio-econômicas no além-túmulo, o "espírita" amargará violentas desilusões, por defender uma doutrina deturpadora do pensamento kardeciano, marcada pelo moralismo retrógrado e pela desonestidade intelectual. Despreparado, o "espírita" tente a sofrer muito mais do que imagina. O habitante do "umbral" é justamente ele.
sábado, 14 de maio de 2016
O "espiritismo" e a "bondade" vista como subproduto da religião
DURANTE A CRISE DE 1929, POBRES FORMAM FILA PARA PEGAR SOPA GRATUITA EM CHICAGO, EUA.
Os brasileiros ainda veem a ideia de "bondade" como um subproduto do moralismo religioso. Só assim para ver a complacência que eles têm em relação aos deturpadores da Doutrina Espírita, que erram feio ao tentarem representar o legado de Allan Kardec mas são beneficiados pela imunidade pela imagem de "bonzinhos".
Ver que a ideia de "fazer o bem", com todos os aspectos assépticos e insossos do moralismo religioso, e todas as fantasias de "benevolência" que encantam muita gente, está vinculada à mística religiosa, pode parecer uma coisa admirável, mas é algo muito, muito traiçoeiro.
A bondade deixa de ser vista como algo espontâneo ou como uma qualidade laica. Ela deixa de estar acima de ideologias e correntes, porque ela se rebaixa diante do status religioso. E ver que até ateus adotam esse critério é muito preocupante.
É isso que faz com que Divaldo Franco e Francisco Cândido Xavier, os piores deturpadores da Doutrina Espírita e as personificações dos "inimigos internos" alertados nos tempos de Kardec, sejam aceitos de maneira submissa por serem "exemplos de amor e bondade".
Antes que alguém diga que associar a imagem de Divaldo Franco e Chico Xavier a de inimigos internos da Doutrina Espírita sejam fruto de calúnia, intolerância ou perseguição contra o bem, é importante deixar claro que essa constatação tem como base os próprios avisos dados por Allan Kardec e espíritos como Erasto.
Muitos aspectos que tais avisos descreveram como mistificação e enganação se encaixam perfeitamente no que Chico e Divaldo fizeram e este último ainda faz. Parece cruel, mas é a realidade. Os dois já podem ser considerados cruéis, traiçoeiros e perniciosos só pela deturpação que eles fizeram do pensamento kardeciano.
SITUAÇÕES
Isso se observa pelo que eles fazem, transmitindo ideias fantasiosas e absurdas, como iludir as pessoas sobre uma "cidade espiritual" que a Ciência não considera sequer como cogitável, ou a ideia discriminatória das "crianças-índigo" que nunca passou de uma farsa armada por um casal para ganhar dinheiro com esoterismo (e depois se divorciar depois de tanto estrelismo).
Isso pode atingir as pessoas? Sim, pode. O que Chico Xavier fez com as "cartas dos mortos" foi muito perverso e explorador das famílias. Elas foram expostas à ostentação e ao sensacionalismo, prolongando o luto, sendo enganadas sobre a suposta vida espiritual dos entes queridos, e foram usados para a promoção pessoal de um suposto médium tomado de estrelismo.
Imagine uma situação em que uma quadrilha de sequestradores mata um refém e depois telefona para a pessoa, com uma integrante do bando imitando a voz da vítima, digamos, um menino, e com seu falsete alegue que "está bem" e que "aguarda a chegada da família para abraçá-lo".
Compare com a de um suposto médium que, escrevendo da sua mente e com sua caligrafia, uma mensagem supostamente espiritual, imitando o tom pueril de um menino falecido, declarando que "está bem" e que, no futuro, "aguardará o regresso da família para a verdadeira vida".
Seduzidos pela ideia religiosa de "bondade", com seus jargões como "amor", "caridade" e "fraternidade", as pessoas se deixam levar por mistificadores com vozes dóceis, falando de "coisas boas". Pode parecer chocante, mas essas "lindas imagens" de Chico e Divaldo não é mais do que uma armadilha já alertada por Allan Kardec em sua obra.
PALIATIVOS NÃO SÃO REVOLUCIONÁRIOS
A "bondade espírita" é erroneamente vista como "revolucionária", pelo caráter manipulador que a ideia de "caridade" faz às pessoas, associando virtude com fé religiosa, como se a bondade fosse um subproduto do misticismo religioso.
O fato de mostrar instituições "filantrópicas" funcionando, como uma estratégia de marketing, não é necessariamente mostrar resultados "revolucionários". A gafe que representa o título de "maior filantropo do Brasil" para Divaldo Franco, quando o projeto da Mansão do Caminho não chega a ajudar 1% da população de Salvador, quanto mais para o país inteiro, é algo a considerar.
Divaldo Franco perde até para o Bolsa Família, projeto do governo do Partido dos Trabalhadores, nas gestões de Lula e Dilma Rousseff, que, embora altamente criticável e também paliativo, ajuda muito mais do que a Mansão do Caminho. Em 63 anos, a Mansão só ajudou cerca de 160 mil pessoas. Em 13 anos, o Bolsa Família ajudou 13,8 milhões de famílias, um mínimo estimado de 56 milhões de pessoas.
A "revolução da sopinha" é um mito trabalhado pelos "espíritas" para dizer que a caridade paliativa "transforma" a sociedade, junto a projetos educacionais inócuos, que apenas tornam a vida da pessoa "menos ruim", mas longe de ter uma qualidade de vida significativa.
A distribuição de sopa gratuita, que os "espíritas" consideram tão "revolucionário" e "profundamente transformador", é na verdade uma opção emergencial que países em grave crise e em conflitos oferecem para as pessoas. É algo para tornar a vida "menos ruim", mas "menos ruim" não é sinônimo de "bem melhor".
A ideia de preferir o "menos ruim" dos resultados inócuos da caridade religiosa, que ajudam de forma relativa as pessoas sem mexer no sistema de privilégios vigente, do que o "bem melhor" que traz qualidade de vida e redistribuição justa de renda, é uma forma de entender a ideia de bondade apenas como uma qualidade subordinada ao âmbito da religião.
Com isso, o Brasil não melhora porque a bondade é apenas uma qualidade menor. Ela não é uma qualidade acima de correntes ideológicas ou movimentos religiosos, mas antes uma qualidade que se rebaixa à supremacia religiosa, limitando-se a ser um subproduto da fé e do misticismo. E isso não é bom.
Os brasileiros ainda veem a ideia de "bondade" como um subproduto do moralismo religioso. Só assim para ver a complacência que eles têm em relação aos deturpadores da Doutrina Espírita, que erram feio ao tentarem representar o legado de Allan Kardec mas são beneficiados pela imunidade pela imagem de "bonzinhos".
Ver que a ideia de "fazer o bem", com todos os aspectos assépticos e insossos do moralismo religioso, e todas as fantasias de "benevolência" que encantam muita gente, está vinculada à mística religiosa, pode parecer uma coisa admirável, mas é algo muito, muito traiçoeiro.
A bondade deixa de ser vista como algo espontâneo ou como uma qualidade laica. Ela deixa de estar acima de ideologias e correntes, porque ela se rebaixa diante do status religioso. E ver que até ateus adotam esse critério é muito preocupante.
É isso que faz com que Divaldo Franco e Francisco Cândido Xavier, os piores deturpadores da Doutrina Espírita e as personificações dos "inimigos internos" alertados nos tempos de Kardec, sejam aceitos de maneira submissa por serem "exemplos de amor e bondade".
Antes que alguém diga que associar a imagem de Divaldo Franco e Chico Xavier a de inimigos internos da Doutrina Espírita sejam fruto de calúnia, intolerância ou perseguição contra o bem, é importante deixar claro que essa constatação tem como base os próprios avisos dados por Allan Kardec e espíritos como Erasto.
Muitos aspectos que tais avisos descreveram como mistificação e enganação se encaixam perfeitamente no que Chico e Divaldo fizeram e este último ainda faz. Parece cruel, mas é a realidade. Os dois já podem ser considerados cruéis, traiçoeiros e perniciosos só pela deturpação que eles fizeram do pensamento kardeciano.
SITUAÇÕES
Isso se observa pelo que eles fazem, transmitindo ideias fantasiosas e absurdas, como iludir as pessoas sobre uma "cidade espiritual" que a Ciência não considera sequer como cogitável, ou a ideia discriminatória das "crianças-índigo" que nunca passou de uma farsa armada por um casal para ganhar dinheiro com esoterismo (e depois se divorciar depois de tanto estrelismo).
Isso pode atingir as pessoas? Sim, pode. O que Chico Xavier fez com as "cartas dos mortos" foi muito perverso e explorador das famílias. Elas foram expostas à ostentação e ao sensacionalismo, prolongando o luto, sendo enganadas sobre a suposta vida espiritual dos entes queridos, e foram usados para a promoção pessoal de um suposto médium tomado de estrelismo.
Imagine uma situação em que uma quadrilha de sequestradores mata um refém e depois telefona para a pessoa, com uma integrante do bando imitando a voz da vítima, digamos, um menino, e com seu falsete alegue que "está bem" e que "aguarda a chegada da família para abraçá-lo".
Compare com a de um suposto médium que, escrevendo da sua mente e com sua caligrafia, uma mensagem supostamente espiritual, imitando o tom pueril de um menino falecido, declarando que "está bem" e que, no futuro, "aguardará o regresso da família para a verdadeira vida".
Seduzidos pela ideia religiosa de "bondade", com seus jargões como "amor", "caridade" e "fraternidade", as pessoas se deixam levar por mistificadores com vozes dóceis, falando de "coisas boas". Pode parecer chocante, mas essas "lindas imagens" de Chico e Divaldo não é mais do que uma armadilha já alertada por Allan Kardec em sua obra.
PALIATIVOS NÃO SÃO REVOLUCIONÁRIOS
A "bondade espírita" é erroneamente vista como "revolucionária", pelo caráter manipulador que a ideia de "caridade" faz às pessoas, associando virtude com fé religiosa, como se a bondade fosse um subproduto do misticismo religioso.
O fato de mostrar instituições "filantrópicas" funcionando, como uma estratégia de marketing, não é necessariamente mostrar resultados "revolucionários". A gafe que representa o título de "maior filantropo do Brasil" para Divaldo Franco, quando o projeto da Mansão do Caminho não chega a ajudar 1% da população de Salvador, quanto mais para o país inteiro, é algo a considerar.
Divaldo Franco perde até para o Bolsa Família, projeto do governo do Partido dos Trabalhadores, nas gestões de Lula e Dilma Rousseff, que, embora altamente criticável e também paliativo, ajuda muito mais do que a Mansão do Caminho. Em 63 anos, a Mansão só ajudou cerca de 160 mil pessoas. Em 13 anos, o Bolsa Família ajudou 13,8 milhões de famílias, um mínimo estimado de 56 milhões de pessoas.
A "revolução da sopinha" é um mito trabalhado pelos "espíritas" para dizer que a caridade paliativa "transforma" a sociedade, junto a projetos educacionais inócuos, que apenas tornam a vida da pessoa "menos ruim", mas longe de ter uma qualidade de vida significativa.
A distribuição de sopa gratuita, que os "espíritas" consideram tão "revolucionário" e "profundamente transformador", é na verdade uma opção emergencial que países em grave crise e em conflitos oferecem para as pessoas. É algo para tornar a vida "menos ruim", mas "menos ruim" não é sinônimo de "bem melhor".
A ideia de preferir o "menos ruim" dos resultados inócuos da caridade religiosa, que ajudam de forma relativa as pessoas sem mexer no sistema de privilégios vigente, do que o "bem melhor" que traz qualidade de vida e redistribuição justa de renda, é uma forma de entender a ideia de bondade apenas como uma qualidade subordinada ao âmbito da religião.
Com isso, o Brasil não melhora porque a bondade é apenas uma qualidade menor. Ela não é uma qualidade acima de correntes ideológicas ou movimentos religiosos, mas antes uma qualidade que se rebaixa à supremacia religiosa, limitando-se a ser um subproduto da fé e do misticismo. E isso não é bom.
sexta-feira, 13 de maio de 2016
Eduardo Cunha e o afastamento apenas de gente "incômoda demais"
Há uma semana, o deputado federal Eduardo Cunha teve seu mandato suspenso pelo Supremo Tribunal Federal, além de ter perdido, por essa iniciativa, o cargo de presidente da Câmara dos Deputados, perdendo a chance de ser o suplente de Michel Temer na presidência da República, durante as viagens deste.
O Brasil sempre tem "inocentes" ou "encrenqueiros" úteis para determinadas ocasiões, em que há necessidade de impor ideias ou medidas impopulares ou injustas, criando encrenqueiros de ocasião para criar baderna e, uma vez conquistada a causa retrógrada, eles são tirados do poder e até punidos de certa forma, depois que o estrago foi feito.
Eduardo Cunha, símbolo da decadência do Estado do Rio de Janeiro da decadência cultural do "funk", dos ônibus com pintura padronizada, das "rádios rock" incompetentes e de um povo que ri dos próprios problemas e já nem sente o fedor de fezes de cachorros nas calçadas ou de caminhões de lixo parando até diante de restaurantes, é um exemplo dessa tendência.
Ele foi eleito como símbolo de uma suposta moralidade reivindicada pelos cariocas, nesse cenário de decadência generalizada que atinge o Estado e sua capital. Cunha lançou ou apoiou propostas retrógradas que foram feitas em função de preconceitos moralistas religiosos ou pela ganância dos detentores do poder econômico, propostas conhecidas como "pautas-bombas".
Cunha tornou-se o "encrenqueiro útil", na medida em que se assumiu opositor da presidenta Dilma Rousseff, até comandar, em 17 de abril, a votação pela abertura do processo de impeachment. Assim que cumpriu o ritual, comandando uma votação na qual políticos corruptos deram seu voto ao "sim" (abertura do processo de impeachment), Cunha foi afastado da presidência da Câmara Federal.
É um fenômeno típico no Brasil. Escolhe-se pessoas reacionárias e desordeiras para defender uma causa reacionária e, assim que ela cumpre o papel, é dispensada quando a causa é conquistada e tida como "irreversível". E isso se dá por dois aspectos.
Primeiro, o encrenqueiro da hora agiu apenas em função de afastar os contestadores e qualquer mobilização contra a causa retrógrada em jogo. Era como um "cão-de-guarda" usado para afastar os manifestantes. Estando estes longe, ou então detidos ou mortos, o "cão-de-guarda" pode ser depois sacrificado.
Segundo, o encrenqueiro pode ser, contraditoriamente, a raiz de um futuro problema. Ele não pode ter autonomia plena, já que ele pode, depois, ameaçar os interesses do grupo que o utilizou em dada ocasião, em defesa da causa desejada, por causa de sua arrogância e prepotência que pode fazê-lo ir "longe demais".
Um exemplo dessa segunda hipótese está na política dos EUA, que primeiro apoiaram ou treinaram tiranos e terroristas como Adolf Hitler, Sadam Husseim e Osama Bin Laden. Todos eles foram protegidos do capitalismo dos EUA, conforme registram dados da imprensa das referidas épocas.
No entanto, quando eles passaram a agir por conta própria e desenvolver sua prepotência e projeto pessoal de domínio, os EUA agiram para combatê-los. Os facínoras "úteis" passaram a ser inimigos, e com isso eles foram perseguidos até serem acuados e mortos (Hitler teria se suicidado).
ROUSTAING
No "movimento espírita", o "encrenqueiro útil" foi Jean-Baptiste Roustaing. O primeiro deturpador da Doutrina Espírita havia lançado o duvidoso Os Quatro Evangelhos, livro de três volumes publicado em 1866 na França. A edição da FEB, no Brasil, conta com quatro volumes, devido ao acréscimo de notas e textos do tradutor Guillon Ribeiro.
A preferência por Roustaing era tanta que houve falsas psicografias e falsas psicofonias do espírito de Allan Kardec apelando para a "revelação da revelação" (subtítulo da obra roustanguista), divulgando mensagens que não condizem ao estilo claro e objetivo do pedagogo francês.
O conflito entre os "místicos" e "científicos" nos primórdios do Espiritismo fez com que, no Brasil, a opção mística prevalecesse, devido aos interesses de seus partidários de não fazer afronta com a Igreja Católica, havendo até artifícios para agradar os católicos, com a adaptação de muitos de seus ritos.
Assim, a "água benta" católica, por exemplo, virou "água fluidificada". O "confessionário" virou "auxílio fraterno". "Santos" viraram "espíritos benfeitores" ou "espíritos de luz", enquanto "centros espíritas" se estruturavam como verdadeiras igrejas. A reboque disso tudo, jargões católicos como "seara", "viajor", "caminheiro" e outros eram introduzidos no vocabulário "espírita".
Durante muito tempo, Roustaing era endeusado pelo "movimento espírita". Adolfo Bezerra de Menezes, em seu tempo, preferiu Roustaing a Kardec, contrariando a fama de "Kardec brasileiro" atribuída ao médico cearense. Os Quatro Evangelhos se tornaram item obrigatório de leitura segundo o Estatuto da FEB, que até hoje publica e vende seus volumes.
O roustanguismo durou muito tempo como tendência prevalecente no "movimento espírita". Figuras conhecidas como Yvonne Pereira, Luciano dos Anjos, Guillon Ribeiro ou mesmo Francisco Cândido Xavier, fizeram parte dessa fase. Sim, isso mesmo, Chico Xavier sempre foi roustanguista, embora um tanto envergonhado.
O roustanguismo de Chico Xavier era tão explícito que ele adaptou de forma surpreendente ao contexto brasileiro as lições da obra de Roustaing. Até a Teologia do Sofrimento (que faz apologia do sofrimento como "caminho para a purificação da alma") é influenciada pelo roustanguismo. Até a controversa ideia do "Jesus fluídico" (que acredita que Jesus nunca encarnou) Chico Xavier manifestou um certo interesse.
Xavier apenas descartou os "criptógamos carnudos", ideia muito desagradável (consiste em humanos reencarnarem como insetos, plantas ou mesmo vermes e micróbios), pelos animais domésticos do além. descritos no livro Nosso Lar, de 1943, inspirado em A Vida Além do Véu (The Life Beyond the Veil), do inglês George Vale Owen (provável roustanguista), lançado na FEB no calor do entusiasmo pelo autor de Os Quatro Evangelhos.
RAZÃO POLÍTICA
A crise do roustanguismo se deu por uma razão política. A FEB, com o Pacto Áureo em 1949, criou um seminário no qual só valeram as decisões centralizadas pelo presidente Antônio Wantuil de Freitas ("mentor" terreno de Chico Xavier e primeiro criador de seu mito), que não consultou as federações regionais.
Evidentemente, as causas de Chico Xavier, mineiro, e de Divaldo Franco, baiano, foram depois prejudicadas. Para piorar, um dos braços direitos de Wantuil, Luciano dos Anjos, denunciou que os primeiros trabalhos "psicográficos" de Divaldo Franco plagiavam os de Chico Xavier, que já eram em si pastiches e plágios. Chico e Divaldo quase ficaram brigados. A postura fez com que parte dos "místicos" se voltasse contra a postura centralizadora da FEB.
Dessa forma, o nome de Roustaing, vinculado à cúpula da FEB, passou a ser visto como um "palavrão". O nome de Allan Kardec passou a ser utilizado por interesses políticos, mais como um "partido dos regionalistas".
Até supostas mensagens espirituais de Adolfo Bezerra de Menezes alegando "arrependimento" com o roustanguismo foram divulgadas. O "dr. Bezerra" aparecia falando em "kardequizar", dando a deixa de que a opção por Allan Kardec não era gratuita, pois o termo usado é uma corruptela com "catequizar", o que mantém o propósito igrejeiro dos "místicos" que romperam com a cúpula da FEB.
Roustaing passou a ser um "problema" e foi então oficialmente descartado. Só o "alto clero" da FEB o aprecia, à revelia do público "espírita" que desconhece esse autor. E os dirigentes "espíritas" em geral viram que não precisavam mais de Os Quatro Evangelhos: a essência de seus volumes já havia sido devidamente adaptada à realidade brasileira por Chico Xavier e Divaldo Franco.
A deturpação da Doutrina Espírita, desta forma, sobreviveu sem o autor que causava controvérsia afirmando que humanos poderiam reencarnar até como baratas ou protozoários ou, quem sabe, o vírus da Zyka. Sem esse incômodo, permite-se hoje que se deturpe o pensamento de Allan Kardec em ideias igrejistas, mas finja-se ter "total fidelidade e respeito" ao legado do pedagogo de Lyon.
Daí vemos o surgimento da fase "dúbia" do "movimento espírita", ainda resistente a todo custo, com suas falsas juras de amor a Kardec e com sua falsa rejeição ao igrejismo (entendido como "vaticanização espírita", termo usado para desqualificar o "alto clero" da FEB), enquanto, na prática, adota uma postura abertamente igrejista e catolicizada.
A ideia de decartar uma pessoa "incômoda demais" se reflete no desprezo a Roustaing. Além dele, os "espíritas" criticam também os "peixes pequenos", que levam sozinhos a culpa das irregularidades "espíritas" (tanto na apreciação das ideias kardecianas quanto na suposta prática de mediunidade) que até Chico e Divaldo tanto praticaram, mas das quais saem "completamente inocentados", apesar das muitas provas.
Dessa forma, atribui-se o "mau espiritismo" apenas a "centros espíritas" pequenos, instituições de menor porte, iniciativas de "fundo de quintal", sem o respaldo da FEB nem de federações regionais (sobretudo estas). Os deturpadores de menor status levam a culpa, mas os deturpadores de grande porte (os "peixes grandes") continuam aí, bajulando Kardec e professando o igrejismo.
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