quinta-feira, 12 de maio de 2016
As diferenças entre o Método Paulo Freire e o método da Mansão do Caminho
Diante de uma moral estranha, que contamina até algumas pessoas que se consideram "progressistas", de que a "melhor caridade " é aquela feita sob o signo da religião, pouco importando se o resultado obtido é inócuo e precário, comparamos aqui dois projetos educacionais.
Um deles é o Método Paulo Freire, do famoso pedagogo pernambucano, que havia sido implantado entre 1961 e 1964 e foi abortado pela ditadura militar. Era um projeto de alfabetização para adultos que manteve seu princípio laico, mesmo quando a serviço de instituições católicas ligadas à Teologia da Libertação.
Outro é o projeto educacional da Mansão do Caminho, que faz a fama do seu idealizador, o "médium" baiano Divaldo Franco, tido como "o maior filantropo do Brasil" por conta da simbologia religiosa a que está associado, sendo um "espírita" influenciado por valores conservadores da Igreja Católica.
É espantoso que uma boa parcela de brasileiros dê preferência ao projeto de Divaldo Franco e o defina como "revolucionário". Nem mesmo o inócuo resultado de 0,00012% de beneficiados anuais em relação à população do Brasil tira o título de "maior filantropo do Brasil", já que a roupagem religiosa garante tudo, tal a mitologia associada a ritos e dogmas vinculados à fé.
Alguns setores chegam a definir, com os equívocos próprios do reacionarismo ideológico, o Método Paulo Freire como "fábrica de ideologias", "laboratório de guerrilheiros". Enquanto isso, o inócuo método da Mansão do Caminho, que envolve manipulação religiosa - ensina-se, por exemplo, a bobagem das "crianças-índigo" e a imagem antropomorfizada de Deus, defendidas por Divaldo - é tido como "transformador" apenas porque está de acordo com a moral religiosa.
A título de comparação, citemos algumas situações e mostramos a tendência de cada projeto em encarar cada problemática descrita abaixo, para que o leitor verifique qual o projeto que realmente é transformador, se o "menos ruim" da caridade religiosa é melhor do que o "bem melhor" da caridade laica. Vamos lá:
COMPREENSÃO DO MUNDO EM VOLTA
Método Paulo Freire: Compreensão de forma crítica e questionadora. Observação contestatória dos problemas cotidianos, desenvolvimento de uma visão analítica capaz de verificar os detalhes desses problemas, seus aspectos mais prejudiciais e a identificação das formas de romper com as dificuldades que dão origem a esses problemas.
Método Mansão do Caminho: Embora não se veja os problemas cotidianos como positivos, a ideia não é analisá-los de forma crítica e questionadora, mas a aceitação das dificuldades. A ideia é buscar somente o esforço individual para sobreviver a essas dificuldades, condicionando o benefício pessoal aos limites de uma sociedade injusta encarada com resignação.
EXPLORAÇÃO DO SER HUMANO PELA OPRESSÃO DOS DETENTORES DE PODER
Método Paulo Freire: Compreensão do perfil do opressor, da pessoa detentora de algum privilégio de poder que realiza algum abuso desumano contra seu subordinado. Denúncia dessa opressão e de seu praticante, e busca de apoio de outras pessoas para combater a opressão e punir o opressor, mesmo quando há algum risco de represália.
Método Mansão do Caminho: Embora se admita usar as garantias da lei para limitar e punir as ações de um opressor, a ideia não é mobilizar para combatê-la de maneira firme e enérgica, mas antes orar para o opressor "ter condições" de "pensar no outro". Aceita-se a opressão na medida do possível, só reagindo quando ela vai longe demais nos seus efeitos.
MANEIRA DE DESENVOLVER A SOLIDARIEDADE
Método Paulo Freire: Ensinando, através de um programa de ensino de palavras e fonemas, expressões vividas pelo cotidiano de cada comunidade, e, transmitindo, com isso, os problemas cotidianos, estimula-se o senso crítico e o estímulo à ação social que faz as pessoas se mobilizarem para lutarem por melhorias de vida e combater de forma enérgica a opressão e a injustiça.
Método Mansão do Caminho: A solidariedade é feita sem que se faça uma contestação profunda do meio em que se vive, apenas criando ações paliativas, dentro dos padrões religiosos de caridade, de diminuir apenas os efeitos extremos das injustiças sociais, sem que no entanto se lute para afetar o sistema de privilégios e desigualdades existente, pelo menos de maneira profunda e enérgica.
MOBILIZAÇÃO
Método Paulo Freire: Diante do ensinamento combativo da mobilização social - combativo no sentido de enfrentamento dos abusos de poder existentes, que não pode ser entendido erroneamente como "guerrilha" ou "terrorismo" - , busca-se estimular a ação ampla e enérgica, de forma a obter conquistas sociais impondo limites drásticos aos privilégios dos detentores do poder.
Método Mansão do Caminho: A mobilização é apenas assistencialista. Não é feita uma luta para limitar os privilégios dos detentores do poder, até porque eles podem "ajudar" na "superação da miséria". Busca-se apenas uma mobilização dentro dos limites religiosos e até por vias legais e institucionais, mas sem romper com o sistema de privilégios existente, apenas buscando a melhor sobrevivência dentro de seus limites.
PERSPECTIVA DE VIDA
Método Paulo Freire: Buscar a melhoria na qualidade de vida, numa sociedade sem classes.
Método Mansão do Caminho: Sobreviver da melhor forma possível, dentro do limite de uma sociedade de classes.
quarta-feira, 11 de maio de 2016
Governo Michel Temer: República Velha rediviva?
Diante da campanha pelo impachment de Dilma Rousseff, cujo processo aprovado na Câmara dos Deputados foi barrado pela imprevista decisão do presidente interino, Waldir Maranhão (PP-MA), criou uma confusão política sem solução, até o momento da edição deste texto.
Há tempos anuncia-se o fim do governo de Dilma Rousseff, no seu segundo mandato como presidenta da República. Diante de uma crise econômica que, na verdade, é um reflexo da crise do mundo capitalista, Dilma, seu antecessor Lula e o Partido dos Trabalhadores tornaram-se bodes expiatórios de uma série de crises que culminou na campanha do impeachment.
O desejado novo titular, Michel Temer, vice de Dilma nos dois mandatos, revelou-se um político conservador, não bastasse ele ser um patriarca à moda antiga, um marido de uma mulher 43 anos mais jovem com uma relação conjugal típica do século XIX.
Como político do PMDB, o advogado paulista Temer também reflete o perfil asséptico do partido, na verdade o único remanescente da ditadura militar - é o antigo MDB, apenas com a letra P, de "partido", acrescida à sigla - , cujo projeto político não era muito definido, oscilando entre um populismo paliativo e um liberalismo austero.
A ascensão de Temer, antes um "decorativo" vice-presidente cujos eventuais momentos como presidente em exercício se deu desde o governo Fernando Henrique Cardoso, na condição de presidente da Câmara dos Deputados, se dá dentro de uma retomada conservadora da sociedade brasileira, que já tinha frágeis conquistas no âmbito progressista.
Era um Brasil que, culturalmente, lutava para manter paradigmas da ditadura militar, como o comercialismo da música brega e do sensacionalismo midiático "popular", através de pastiches de ritmos regionais brasileiros - o "sertanejo", por exemplo, parodia a música caipira - , musas siliconadas e apresentadores de programas policialescos de TV.
Esse mercantilismo populista era empurrado para a aceitação forçada de ativistas de esquerda, sob influência de intelectuais originalmente vinculados ao PSDB, como o jornalista paulistano nascido no Paraná, Pedro Alexandre Sanches - curiosamente, conterrâneo do juiz midiático Sérgio Moro - , travando os debates sobre cultura popular e obrigando o povo pobre a se submeter a paradigmas de pobreza, ignorância e inferioridade social, como morar em favelas e praticar a prostituição.
Embora travestida de "progressista", essa campanha em favor da bregalização cultural - feita com a ajuda de monografias e documentários - defendia uma imagem caricatural do povo pobre, "idealizada" por interesses mercadológicos e até político-ideológicos, usando o entretenimento popularesco para desmobilizar as classes populares sob a desculpa de que a diversão "já é um ativismo" em si, devido ao "mau gosto" e à "provocatividade".
Esse cenário cultural era um complemento ao poderio midiático que, mesmo ameaçado - a Rede Globo, por exemplo, perde audiência e a Veja tem um histórico recente de milhares de exemplares encalhados, influindo na crise empresarial do Grupo Abril, que desfez de boa parte de seu espólio - , aumentou seu poder de influência através de uma campanha difamatória contra Dilma, Lula e o PT.
Havia também o vandalismo na Internet através dos chamados "troleiros", espécie de "cães de guarda" de valores e fenômenos vigentes na mídia, na política e no mercado, que humilhavam pessoas que discordavam desses paradigmas. Juntamente ao zelo por valores retrogrados, os troleiros também defendiam valores racistas e machistas, causando problemas até em gente famosa.
Suas práticas, como divulgar mensagens ofensivas em série, com diferentes pessoas despejando mensagens num mesmo horário combinado, eram conhecidas como cyberbullying, e seus responsáveis acabaram chamando a atenção da polícia, por conta do teor violento dessas postagens. Alguns, mais atrevidos, chegavam mesmo a criar blogues ofensivos contra as vítimas.
A ação dos troleiros - cuja ascensão, ainda no primeiro mandato de Lula, era dissimulada por um falso esquerdismo feito para conquistar a simpatia de jovens mais avançados - impulsionou as passeatas anti-Dilma, que se multiplicaram no país, criando personagens insólitos como Batman do Leblon (que misturava o traje do herói estadunidense com um cocar de índio brasileiro) e mascotes como o Pato da FIESP.
Combinando a ação de troleiros, intelectuais pró-bregalização e jornalistas reacionários, criou-se então um contexto para enfraquecer o governo Dilma Rousseff e afastar o PT do cenário político nacional. através de um processo de inquéritos confuso e precipitado, a Operação Lava-Jato, que revelou o sucesso midiático do jovem juiz Sérgio Moro.
Diante disso, uma histeria anti-PT cresceu e usou como pretexto a crise econômica - na verdade, reflexo de um cenário mundial, combinado com os gastos excessivos do empresariado para a Copa de 2014 e Olimpíadas de 2016 e o confisco do dinheiro pelas elites - para pedir a queda de Dilma.
Com isso, entra em cena o governo de Michel Temer e há muito é anunciado seu programa de governo, com propostas que supostamente não afetarão as conquistas sociais, mas irão impor "muitos sacrifícios", o que significa, por exemplo, um declínio da política salarial e das relações de trabalho, em que os interesses patronais terão maior prioridade sobre o dos trabalhadores.
Investimentos na Educação e na Saúde também podem ser reduzidos, não fosse o suficiente tais setores serem sempre os que menos recebem recursos públicos. Privatizações poderão atingir instituições públicas estruturais, num contexto em que o setor de telefonia, carro-chefe das privatizações dos governos de FHC, demonstram serviço bastante deficitário, ameaçando restringir as conexões de Internet.
Fala-se que o governo de Michel Temer adotará pautas apoiadas pelo político carioca Eduardo Cunha, que perdeu a função de presidente da Câmara dos Deputados e teve suspenso seu mandato de deputado federal pelo hoje decadente Estado do Rio de Janeiro, por decisão do Supremo Tribunal Federal.
Aspectos da terceirização do mercado de trabalho - que promete aumentar empregos com a diminuição de salários, eliminação de encargos e fim das punições e de custos contra os abusos patronais - serão adotados por Temer, mesmo com o afastamento da influência de Cunha, aceito pelo establishment como um agressivo opositor de Dilma Rousseff, mas descartado diante do risco do então presidente da Câmara perder o controle e ir longe demais com sua prepotência política.
Fala-se em retrocesso em relação a muitas conquistas trabalhistas. A Consolidação das Leis de Trabalho, lançada em 1943 por Getúlio Vargas, será prejudicada em muitos pontos. Conquistas progressistas sofrerão recuo. Preços poderão aumentar drasticamente, prejudicando o abastecimento de famílias e indivíduos em geral. A classe média corre o risco de se pauperizar.
Muitos perguntam se o governo de Michel Temer será a República Velha rediviva. A farra política dos decadentes Estados do Rio de Janeiro e São Paulo poderá reproduzir a "política do café-com-leite" de 100 anos atrás. O paulista Temer e o prepotente e neocoronelista PMDB carioca, não mais representado por Cunha, mas dando um jeito para exercer alguma influência forte, mesmo indireta.
O que se sabe é que a crise do governo Dilma Rousseff não acabará. Pode acabar o governo, mas a crise continua, até pelo golpe político que foi feito sob o simulacro da legalidade e da ação do Judiciário.
A farra pelo fim do comando do PT no Governo Federal dará lugar a uma ressaca sócio-política que inevitavelmente criará decepções futuras e deixará a sociedade conservadora à mercê de novos impasses. Até porque a reconquista do poder lhe significará novas cobranças e responsabilidades.
terça-feira, 10 de maio de 2016
Obsessão: "Espíritas" brasileiros já são fascinados e podem virar subjugados
CONFIANTE EM CHICO XAVIER E DIVALDO FRANCO...
A obsessão dos brasileiros pelos deturpadores "espíritas" é séria. Eles não podem ser questionados. A imagem de "bondosos" inebria muita gente e faz com que investigações e análises sérias parem no meio do caminho.
Foi aí que, partindo dos mitos de Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco que, com todo o aparato de "bondade" e "caridade", são na verdade os mais traiçoeiros inimigos internos da Doutrina Espírita - é só ler os livros deles e comprovar - , as crises no "movimento espírita" sempre foram jogadas por baixo dos tapetes e a deturpação sempre foi mantida intata.
A obsessão dos brasileiros por esses deturpadores perturba-lhes a compreensão real das coisas, como crianças que se recusam a aceitar a verdadeira identidade do Papai Noel. Mesmo quando a "bondade" de Chico Xavier e Divaldo Franco sejam inócuas e ineficazes - Uberaba e o bairro de Pau da Lima, em Salvador, "redutos" dos "médiuns", estão entre as regiões de maior violência no país - , o deslumbramento em torno deles é preocupante.
Isso se chama "fascinação", um tipo de obsessão alertado por Allan Kardec no capítulo 23 de O Livro dos Médiuns, Da Obsessão. No item 239, no último parágrafo, Kardec parece prever o que ocorreria na deturpação "espírita": "As grandes palavras como caridade, humildade e amor a Deus servem-lhe de carta de fiança", se referindo aos espíritos mistificadores.
Textos rebuscados e prolixos que confundem as pessoas, mística religiosa, pregações moralistas, veiculação de ideias contrárias ao pensamento kardeciano, tudo isso é observado no "espiritismo", mas a deturpação, de raiz roustanguista (de Jean-Baptiste Roustaing), é aceita por causa do pretexto de "bondade" e "caridade".
Chega-se mesmo a aceitar a tese de que se pode recuperar as bases kardecianas mantendo os dois maiores deturpadores, Chico e Divaldo, no pedestal, nem que seja por puro enfeite. A obsessão em torno deles é tanta que eles são considerados "intocáveis", mesmo com suas irregularidades gravíssimas que já são perversas por configurarem desonestidade doutrinária. Ser desonesto não é bom.
A fascinação, como tipo de processo obsessivo, é um estágio perigoso. Deixa as pessoas dominadas pela imagem encantadora associada a um ídolo ou ideia religiosa. Não aceitam questionamentos e até os rebatem com desculpas pretensamente racionais.
O risco é quando essa fascinação passa a se transformar em subjugação. As pessoas, no Brasil, geralmente são "fascinadas" por Chico Xavier e Divaldo Franco. Já as instituições, como imprensa, mercado literário, Justiça e meio acadêmico (sobretudo universidades) já são subjugados a eles, se achando totalmente impedidos de mexer em suas imagens badaladas.
Refrescamos as mentes das pessoas, reproduzindo, desta vez, o item 240 do referido capítulo, para mostrar que a subjugação, antes considerada "possessão", consiste num domínio pleno de espíritos levianos em pessoas ou grupos de indivíduos, exercendo uma influência controladora severa e impedindo qualquer ação contrária aos interesses desses espíritos.
Diferente do fascinado, que mantém uma certa autonomia espiritual e apenas é atraído pela sedução da imagem religiosa de algum ídolo ou ideia, o subjugado se torna escravo de suas influências, impedido sequer de cogitar uma ação contrária aos interesses levianos, se mantendo submisso aos seus desígnios e procedimentos.
Nas instituições brasileiras, o que se observa é a subjugação moral. Elas não fazem qualquer tipo de questionamento severo contra os ídolos religiosos, e, quando muito, apenas simulam pesquisas investigativas que apenas reafirmam seus dogmas e mitos, deixando o questionamento morrer na menor complacência com as imagens agradáveis desses ídolos e ideias.
Vamos ao texto, lembrando que Allan Kardec focaliza o trabalho de um médium, mas os alertas escritos podem ser observados em qualquer pessoa, mesmo fora do trabalho mediúnico, envolvendo até mesmo um simples fórum de Internet, só para citar um exemplo cotidiano:
240. A subjugação é um envolvimento que produz a paralisação da vontade da vítima, fazendo-a agir malgrado seu. Esta se encontra, numa palavra, sob um verdadeiro jugo.
A subjugação pode ser moral ou corpórea. No primeiro caso, o subjugado é levado a tomar decisões freqüentemente absurdas e comprometedoras que, por uma espécie de ilusão considera sensatas: é uma espécie de fascinação. No segundo caso, o Espírito age sobre os órgãos materiais, provocando movimentos involuntários. No médium escrevente produz uma necessidade incessante de escrever, mesmo nos momentos mais inoportunos. Vimos subjugados que, na falta de caneta ou lápis, fingiam escrever com o dedo, onde quer que se encontre, mesmo nas ruas, escrevendo em portas e paredes.
A subjugação corpórea vai às vezes mais longe, podendo levar a vítima aos atos mais ridículos. Conhecemos um homem que, não sendo jovem nem belo, dominado por uma obsessão dessa natureza, foi constrangido por uma força irrestível a cair de joelhos diante de uma jovem que não lhe interessava e pedi-la em casamento. De outras vezes sentia nas costas e nas curvas das pernas uma forte pressão que obrigava, apesar de sua resistência, a ajoelhar-se e beijar a terra nos lugares públicos, diante da multidão. Para os seus conhecidos passava por louco(2), mas estamos convencidos de que absolutamente não o era, pois tinha plena consciência do ridículo que praticava contra a própria vontade e sofria com isso horrivelmente.
A obsessão dos brasileiros pelos deturpadores "espíritas" é séria. Eles não podem ser questionados. A imagem de "bondosos" inebria muita gente e faz com que investigações e análises sérias parem no meio do caminho.
Foi aí que, partindo dos mitos de Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco que, com todo o aparato de "bondade" e "caridade", são na verdade os mais traiçoeiros inimigos internos da Doutrina Espírita - é só ler os livros deles e comprovar - , as crises no "movimento espírita" sempre foram jogadas por baixo dos tapetes e a deturpação sempre foi mantida intata.
A obsessão dos brasileiros por esses deturpadores perturba-lhes a compreensão real das coisas, como crianças que se recusam a aceitar a verdadeira identidade do Papai Noel. Mesmo quando a "bondade" de Chico Xavier e Divaldo Franco sejam inócuas e ineficazes - Uberaba e o bairro de Pau da Lima, em Salvador, "redutos" dos "médiuns", estão entre as regiões de maior violência no país - , o deslumbramento em torno deles é preocupante.
Isso se chama "fascinação", um tipo de obsessão alertado por Allan Kardec no capítulo 23 de O Livro dos Médiuns, Da Obsessão. No item 239, no último parágrafo, Kardec parece prever o que ocorreria na deturpação "espírita": "As grandes palavras como caridade, humildade e amor a Deus servem-lhe de carta de fiança", se referindo aos espíritos mistificadores.
Textos rebuscados e prolixos que confundem as pessoas, mística religiosa, pregações moralistas, veiculação de ideias contrárias ao pensamento kardeciano, tudo isso é observado no "espiritismo", mas a deturpação, de raiz roustanguista (de Jean-Baptiste Roustaing), é aceita por causa do pretexto de "bondade" e "caridade".
Chega-se mesmo a aceitar a tese de que se pode recuperar as bases kardecianas mantendo os dois maiores deturpadores, Chico e Divaldo, no pedestal, nem que seja por puro enfeite. A obsessão em torno deles é tanta que eles são considerados "intocáveis", mesmo com suas irregularidades gravíssimas que já são perversas por configurarem desonestidade doutrinária. Ser desonesto não é bom.
A fascinação, como tipo de processo obsessivo, é um estágio perigoso. Deixa as pessoas dominadas pela imagem encantadora associada a um ídolo ou ideia religiosa. Não aceitam questionamentos e até os rebatem com desculpas pretensamente racionais.
O risco é quando essa fascinação passa a se transformar em subjugação. As pessoas, no Brasil, geralmente são "fascinadas" por Chico Xavier e Divaldo Franco. Já as instituições, como imprensa, mercado literário, Justiça e meio acadêmico (sobretudo universidades) já são subjugados a eles, se achando totalmente impedidos de mexer em suas imagens badaladas.
Refrescamos as mentes das pessoas, reproduzindo, desta vez, o item 240 do referido capítulo, para mostrar que a subjugação, antes considerada "possessão", consiste num domínio pleno de espíritos levianos em pessoas ou grupos de indivíduos, exercendo uma influência controladora severa e impedindo qualquer ação contrária aos interesses desses espíritos.
Diferente do fascinado, que mantém uma certa autonomia espiritual e apenas é atraído pela sedução da imagem religiosa de algum ídolo ou ideia, o subjugado se torna escravo de suas influências, impedido sequer de cogitar uma ação contrária aos interesses levianos, se mantendo submisso aos seus desígnios e procedimentos.
Nas instituições brasileiras, o que se observa é a subjugação moral. Elas não fazem qualquer tipo de questionamento severo contra os ídolos religiosos, e, quando muito, apenas simulam pesquisas investigativas que apenas reafirmam seus dogmas e mitos, deixando o questionamento morrer na menor complacência com as imagens agradáveis desses ídolos e ideias.
Vamos ao texto, lembrando que Allan Kardec focaliza o trabalho de um médium, mas os alertas escritos podem ser observados em qualquer pessoa, mesmo fora do trabalho mediúnico, envolvendo até mesmo um simples fórum de Internet, só para citar um exemplo cotidiano:
240. A subjugação é um envolvimento que produz a paralisação da vontade da vítima, fazendo-a agir malgrado seu. Esta se encontra, numa palavra, sob um verdadeiro jugo.
A subjugação pode ser moral ou corpórea. No primeiro caso, o subjugado é levado a tomar decisões freqüentemente absurdas e comprometedoras que, por uma espécie de ilusão considera sensatas: é uma espécie de fascinação. No segundo caso, o Espírito age sobre os órgãos materiais, provocando movimentos involuntários. No médium escrevente produz uma necessidade incessante de escrever, mesmo nos momentos mais inoportunos. Vimos subjugados que, na falta de caneta ou lápis, fingiam escrever com o dedo, onde quer que se encontre, mesmo nas ruas, escrevendo em portas e paredes.
A subjugação corpórea vai às vezes mais longe, podendo levar a vítima aos atos mais ridículos. Conhecemos um homem que, não sendo jovem nem belo, dominado por uma obsessão dessa natureza, foi constrangido por uma força irrestível a cair de joelhos diante de uma jovem que não lhe interessava e pedi-la em casamento. De outras vezes sentia nas costas e nas curvas das pernas uma forte pressão que obrigava, apesar de sua resistência, a ajoelhar-se e beijar a terra nos lugares públicos, diante da multidão. Para os seus conhecidos passava por louco(2), mas estamos convencidos de que absolutamente não o era, pois tinha plena consciência do ridículo que praticava contra a própria vontade e sofria com isso horrivelmente.
segunda-feira, 9 de maio de 2016
Desvio de foco do "espiritismo" brasileiro preocupa, e muito
O desvio de foco do "movimento espírita", apelando para o bom-mocismo para abafar as denúncias sobre suas irregularidades preocupa, e muito. O triunfalismo que sentem os dirigentes "espíritas" e a certeza que eles se julgam ter de que prevalecerá a fase "dúbia", que diz jurar "fidelidade" a Allan Kardec mas pratica o igrejismo, é algo que não se deve comemorar, a sim questionar.
A hipocrisia de muitos "espíritas" é tanta que existem até igrejistas "reprovando" o igrejismo, "condenando" a chamada "vaticanização do Espiritismo", da mesma forma que existem "espíritas" que definem sua doutrina como "não sendo uma religião", usando argumentos que só comprovam que o "espiritismo" brasileiro é, sim, uma religião, no sentido lançado pela Igreja Católica.
A hipocrisia é tão intensa que a tendência alimenta seu prestígio alegando "rigoroso respeito" ao pensamento de Allan Kardec, mas apreciando ideias contrárias a ele, trazidas pelos livros de Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco.
É algo que preocupa porque o "espiritismo" vive o mais agudo complexo de superioridade entre os movimentos religiosos. Preocupa, à sua maneira, tanto quanto os esforços de seitas neopentecostais em impor retrocessos legislativos no Congresso Nacional, rasgando a Constituição, ameaçando as conquistas sociais tão arduamente alcançadas e transformando o Estado laico num Estado bíblico.
Diante de tantas contradições, tantas irregularidades observadas à luz da pesquisa investigativa e longe de representar qualquer calúnia ou raiva, o "movimento espírita" reage desviando o foco, falando em "fraternidade" e apelando para as pessoas "mudarem os pensamentos".
Eles acreditam que mais uma "mea culpa", mais um recuo nos moldes dos juristas de 1944 e de muitos jornalistas, críticos ou espíritas autênticos que reagiram contra a deturpação se ajoelharem diante dos maiores deturpadores, Chico Xavier e Divaldo Franco.
Só que hoje se acumulam questionamentos, contestações e divulgação de irregularidades nessas últimas oito décadas, depois que o pastiche chamado Parnaso de Além-Túmulo foi lançado e cujas primeiras reedições já mostravam um caráter estranho de revisões e reparos nos textos, algo muito duvidoso para uma obra tida como "ditada por benfeitores espirituais".
O maior risco é o habitual recuo que as pessoas têm, intimidadas com o pretexto de "bondade" que não pode ser sequer desafiado. Os deturpadores vibram com isso, e sempre gostaram de ver os contestadores baixarem a munição em determinado momento, intimidados com a "bondade" dos ídolos do "movimento espírita".
O "amor-daçar" do "espiritismo" busca um novo triunfo, e os "espíritas", em seus jornais, blogues, programas de TV e outros tentam, com seu exército de palavras, usar a "fraternidade" para desarmar os contestadores, num preocupante bombardeio de desculpas e alegações, que se vê nos fóruns de Internet com a "tropa de choque" dos seguidores de Chico Xavier e Divaldo Franco.
Isso é muito mau. Porque a deturpação da Doutrina Espírita é uma desonestidade que em si invalida a doutrina brasileira, a "bondade" não pode cicatrizar as manchas terríveis deixadas pelos "espíritas", com mais de 130 anos de deturpações, intensificadas depois com a trajetória de Chico Xavier.
Imagine, você, leitor, em sua casa, contratando um encanador para fazer um serviço. Ele faz um trabalho ruim, pois depois o reparo que ele fez dá no estouro de uma tubulação e na enchente que destrói eletrodomésticos, computador, e danifica muitos bens em sua casa.
O encanador buscava conquistar as pessoas com simpatia, apreço e generosidade. Sempre amigo e "irmão". Mas fez um mau trabalho. Ele será considerado um bom trabalhador por isso? Não. A mesma coisa é com o "movimento espírita", em que nenhum pretexto de "amor, bondade e caridade" tem condições de compensar a deturpação.
Desonrar o legado de Allan Kardec foi crueldade demais para deixar o "espiritismo" brasileiro incólume e isento de qualquer dura crítica. Essa realidade muitos "espíritas", tomados de deslumbramento religioso, não querem enxergar.
domingo, 8 de maio de 2016
"Espíritas" brasileiros expressam aquilo que Erasto e Allan Kardec alertaram
O "movimento espírita" age em desespero. A cada vez mais, publicações "espíritas" tentam jogar a desonestidade doutrinária por baixo do tapete e, no seu roustanguismo enrustido, alegam "fidelidade absoluta" e "respeito rigoroso" por Allan Kardec, mas usando-o na causa própria dos "espíritas" brasileiros.
Tentando dissimular a debilidade doutrinária que faz o "espiritismo" cometer deturpações graves, os veículos "espíritas" agora fazem todo tipo de apelo para a "fraternidade". Sem poder dar conta do recado, fazem todo apelo de "transformação moral", agindo por puro bom-mocismo.
Dessa forma, vemos textos que apelam para "não atirar pedras", "mudar os pensamentos", "ser fraterno com outrem", "dar as mãos nesse momento de crise" e pregar uma "união" que nem os próprios "espíritas" conseguem exercer.
Só a "profecia da data-limite" de Francisco Cândido Xavier, por exemplo, não é consenso dos seguidores do "médium" mineiro. Alguns a defendem de maneira entusiasmada, mas outros seguidores de Chico Xavier desmentem com certa austeridade, e ambos os lados com fortes convicções para suas respectivas posturas.
O que o "espiritismo" quer, com toda essa súplica em prol da "fraternidade" e "caridade", em que se usurpa até as palavras de Kardec mal traduzidas em verdadeiro "catoliquês" (como nas publicações das editoras FEB e IDE), é disfarçar a incompetência doutrinária com bom-mocismo.
Eles deturpam a Doutrina Espírita de forma severa, com ninharias fantasiosas tipo "Jesus pulou dentro do ventre de Maria ao saber que seu primo João Batista estava na barriga de Isabel" e criaram um "paraíso" como Nosso Lar para forçar os sofredores a aceitarem as desgraças da vida, uma cidade fictícia esboçada sem que pesquisas sérias sobre mundo espiritual tivessem apresentado qualquer hipótese.
Em O Livro dos Médiuns, obra kardeciana fundamental, lançada em 1861, portanto, há 155 anos mas com uma atualidade contundente de conceitos e avisos, mostra muitos trechos que alertam para o que se viu no "movimento espírita" brasileiro, que praticamente surgiu sob o comando dos inimigos internos que fazem de tudo para serem conhecidos como "aliados de Allan Kardec".
É um cacoete dos brasileiros perguntar a um mentiroso se ele é mentiroso. "Não sou. Eu falo sempre a verdade", diz sempre o mentiroso. O brasileiro médio acredita e o mentiroso ganha status de honesto, a ponto de qualquer contestação ser vista como "maledicência".
Lendo o referido livro de Kardec, observa-se todo cuidado contra espíritos mistificadores, que se servem de ideias absurdas promovidas como "coisas sublimes", textos empolados despejando falsa sabedoria, argumentos prolixos para forjar erudição, pretextos de "amor e caridade" para distrair e seduzir as pessoas para aceitar ideias levianas.
Os brasileiros, facilmente vulneráveis às seduções do deslumbramento religioso, aceitam com a passividade bovina e com a subordinação mais cômoda, e preferem até mesmo aceitar e legitimar um "espiritismo" que nada faz em prol da Ciência Espírita nem da busca do Conhecimento, e só defende a "bondade", o "amor" e a "caridade".
Só que uma leitura atenta e cuidadosa de O Livro dos Médiuns, na tradução de José Herculano Pires que tem até acesso na Internet, irá simplesmente derrubar o "movimento espírita" porque os argumentos revelam perigos que se identificam justamente com as "coisas maravilhosas" que se vê no "movimento espírita" brasileiro.
Para dar um exemplo a respeito, citamos o item 239, que cita um processo bastante perigoso de obsessão descrito por Allan Kardec, a "fascinação", que equivale ao próprio modo de apreço que os brasileiros têm ao "espiritismo" e seus ídolos (Chico Xavier e Divaldo Franco, sobretudo), e que dá um diagnóstico do caráter pernicioso do "espiritismo" brasileiro:
239. A fascinação tem conseqüências muito mais graves. Trata-se de uma ilusão criada diretamente pelo Espírito no pensamento do médium e que paralisa de certa maneira a sua capacidade de julgar as comunicações. O médium fascinado não se considera enganado. O Espírito consegue inspirar-lhe uma confiança cega, impedindo-o de ver a mistificação e de compreender o absurdo do que escreve, mesmo quando este salta aos olhos de todos. A ilusão pode chegar a ponto de levá-lo a considerar sublime a linguagem mais ridícula. Enganam-se os que pensam que esse tipo de obsessão só pode atingir as pessoas simples, ignorantes e desprovidas de senso. Os homens mais atilados, mais instruídos e inteligentes noutro sentido, não estão mais livres dessa ilusão, o que prova tratar-se de uma aberração produzida por uma causa estranha, cuja influência os subjuga.
Dissemos que as conseqüências da fascinação são muito mais graves. Com efeito, graças a essa ilusão que lhe é conseqüente o Espírito dirige a sua vítima como se faz a um cego, podendo levá-lo a aceitar as doutrinas mais absurdas e as teorias mais falsas como sendo as únicas expressões da verdade. Além disso, pode arrastá-lo a ações ridículas, comprometedoras e até mesmo bastante perigosas.(1)
Compreende-se facilmente toda a diferença entre obsessão simples e a fascinação. Compreende-se também que os Espíritos provocadores de ambas devem ser diferentes quanto ao caráter. Na primeira, o Espírito que se apega ao médium é apenas um importuno pela sua insistência, do qual ele procura livrar-se. Na segunda, é muito diferente, pois para chegar a tais fins o Espírito deve ser esperto, ardiloso e profundamente hipócrita. Porque ele só pode enganar e se impor usando máscara e uma falsa aparência de virtude.
As grandes palavras como caridade, humildade e amor a Deus servem-lhe de carta de fiança. Mas através de tudo isso deixa passar os sinais de sua inferioridade, que só o fascinado não percebe; e por isso mesmo ele teme, mais do que tudo, as pessoas que vêem as coisas com clareza. Sua tática é quase sempre a de inspirar ao seu intérprete afastamento de quem quer que possa abrir-lhe os olhos. Evitando, por esse meio, qualquer contradição, está certo de ter sempre razão.
O último parágrafo corresponde justamente à mais recente reação do "movimento espírita". Sobretudo a primeira frase, que serve para tentar afastar a opinião pública dos que possam abrir-lhe os olhos quanto às irregularidades do "espiritismo" brasileiro.
O livro pode, em primeira instância, se referir à atividade do médium, mas seus alertas e precauções podem ser adotados também por toda e qualquer pessoa que tiver contato com o "espiritismo" brasileiro. A lógica de Allan Kardec adverte coisas importantes, sobretudo o perigo de inimigos internos que se travestem de "kardecianos fiéis".
sábado, 7 de maio de 2016
A complacência com os deturpadores do Espiritismo
O SABER VOANDO EMBORA, AO LONGE...
O que faz uma mentira perdurar? É a aliança de interesses e a aparente pertinência de sentido que uma mentira traz para um considerável grupo de pessoas. Se a mentira soa vantajosa e carrega, em si, uma série de ideias agradáveis e não apresenta, de forma explícita, graves prejuízos, ela pode durar décadas tendo o status de uma verdade indiscutível.
A deturpação da Doutrina Espírita pode não ter vingado, em primeira instância, nos primórdios da Federação "Espírita" Brasileira, por ser uma ação expressa apenas pela atitude sisuda de dirigentes. Foi preciso criar um astro, praticamente um astro pop, para transformar a deturpação em um fenômeno popular, a partir da figura de um esquisito caipira católico que se afirmava paranormal.
Foi aí que se construiu, a partir da figura de um certo Francisco de Paula Cândido, depois renomeado Francisco Cândido Xavier, o mito Chico Xavier que conhecemos. Mito que, de obstáculo em obstáculo, se agigantou de maneira avassaladora a ponto de criar dificuldades para desconstruir essa imagem mitológica que praticamente ganhou foros de "dona do Brasil".
Pois Chico Xavier, o "dono do Brasil", o "acionista majoritário da verdade", o "vice-Deus" colocado acima de tudo e de todos no território nacional, e o tão festejado "senhor dos mortos", criou uma complacência por parte da opinião pública, devido a seu mito que junta aspectos agradáveis associados à religiosidade e aos paradigmas de humildade vindos do Brasil-colônia.
É bastante surreal que muitos brasileiros creditem o "futurismo espiritualista" a um caipira católico, ultraconservador, com índole de interiorano da República Velha saudoso do Segundo Império, um homem do século XIX em pleno século XX mas que, mesmo morto, é tido como fiador do Brasil do século XXI.
MITOS
É assustadora a ganância que os dirigentes da FEB tiveram para alimentar o mito de Chico Xavier, que, antes de se descobrir a campanha limpa de mitificação do inglês Malcolm Muggeridge - que criou uma Madre Teresa de Calcutá (depois reconhecida como uma megera sisuda e insensível) adocicada e maternal - , era trabalhado de maneira confusa e à mercê de escândalos.
Todos estão acostumados com a imagem "amorosa" de Chico Xavier, do "adorável filantropo", e chegam a criar fantasias em torno dele. mas poucos sabem o quanto o ambicioso Antônio Wantuil de Freitas, o tirânico presidente da FEB, é responsável por boa parte desse mito, quando era trabalhado de maneira confusa.
Outro responsável pelo mito Chico Xavier foi Roberto Marinho, o "dr. Roberto" das Organizações Globo, que abandonou a antiga hostilidade ao anti-médium mineiro e apresentou Malcolm Muggeridge ao "movimento espírita", relançando o mito de Chico numa campanha "limpa", com os mesmos elementos trabalhados por Muggeridge para o mito de Madre Teresa.
As pessoas se acostumam fácil com certas coisas e isso é um perigo. Se impõe algo prejudicial à coletividade e se força sua estabilidade diante de tantos argumentos e pretextos, e nenhuma oposição é manifesta, pelo menos de maneira intensa e eficaz, essa coisa nociva permanece, prevalece e as pessoas vivem satisfeitas diante dessa mazela cotidiana.
A mentira e a mistificação são a mesma coisa. Ficamos séculos acreditando em interpretações medievais da vida de Jesus. em aspectos surreais de passagens da Bíblia (como o Mar Vermelho se dividindo como se fosse uma gelatina cortada ao meio), e isso tem o preço muito caro de ver mentiras e fantasias transformadas em verdades indiscutíveis, em dogmas difíceis de serem contestados.
NEO-OBSCURANTISMO
O "espiritismo", embora não compartilhe de muitos dogmas católicos, cria outros novos. Pior: atribui, equivocadamente, a Chico Xavier, supostos pioneirismos científicos que, na verdade, são atribuições roubadas de feitos científicos sérios, ocorridos bem antes das datas atribuídas, trazidos por renomados pesquisadores como o estadunidense Percival Lowell e o alemão Wolfgang Bargmann.
O "espiritismo" diz valorizar a busca do Conhecimento e as atividades científicas, mas seu sutil obscurantismo faz com que irregularidades na mediunidade ou pontos obscuros na vida de ídolos da doutrina sejam ocultos, traindo a busca do Conhecimento e da verdadeira informação.
Por exemplo, prefere-se lançar livros mistificadores sobre Chico Xavier, sem que encontre respaldo unânime dos próprios seguidores, como a "profecia da data-limite", do que relançar um livro que estuda irregularidades de suas supostas psicografias, como O Enigma Chico Xavier Posto à Clara Luz do Dia, de Attila Paes Barreto.
A própria Ciência Espírita de Allan Kardec nem de longe é apreciada. A recomendação, por exemplo, de que um espírito do além tem que se manifestar por meio de diferentes médiuns estranhos entre si e sem qualquer relação ou vínculo, por distante que seja, é simplesmente ignorada.
Aqui, basta um médium-estrela dizer que incorporou um espírito para as pessoas aceitarem. Tudo no faz-de-conta, recheado de mensagens de "amor e fraternidade". Como a "democracia" no discurso demagógico político, a "fraternidade" integra a demagogia religiosa, o que faz os brasileiros terem ignorado os alertas do espírito Erasto, divulgado por um médium (discretíssimo) na época de Kardec.
Erasto havia dito que os espíritos mistificadores falariam em "coisas boas" para seduzir as pessoas e inserir nelas ideias levianas. Kardec também alertou sobre um dos processos de obsessão espiritual, a fascinação, na qual o espírito leviano também enfatiza ideias como "amor", "caridade" e "fraternidade" para depois manipular as pessoas com dogmas igrejeiros.
Daí que é preocupante a ampla complacência da deturpação da Doutrina Espírita feita pelos festejados Chico Xavier e Divaldo Franco. Protegidos pela sua roupagem religiosa, eles não são investigados nem analisados com isenção, adorados cegamente mesmo sob o pretexto da pretensa isenção. Com eles, deturpar o Espiritismo foi mais fácil do que tirar doce da mão de uma criança.
O que faz uma mentira perdurar? É a aliança de interesses e a aparente pertinência de sentido que uma mentira traz para um considerável grupo de pessoas. Se a mentira soa vantajosa e carrega, em si, uma série de ideias agradáveis e não apresenta, de forma explícita, graves prejuízos, ela pode durar décadas tendo o status de uma verdade indiscutível.
A deturpação da Doutrina Espírita pode não ter vingado, em primeira instância, nos primórdios da Federação "Espírita" Brasileira, por ser uma ação expressa apenas pela atitude sisuda de dirigentes. Foi preciso criar um astro, praticamente um astro pop, para transformar a deturpação em um fenômeno popular, a partir da figura de um esquisito caipira católico que se afirmava paranormal.
Foi aí que se construiu, a partir da figura de um certo Francisco de Paula Cândido, depois renomeado Francisco Cândido Xavier, o mito Chico Xavier que conhecemos. Mito que, de obstáculo em obstáculo, se agigantou de maneira avassaladora a ponto de criar dificuldades para desconstruir essa imagem mitológica que praticamente ganhou foros de "dona do Brasil".
Pois Chico Xavier, o "dono do Brasil", o "acionista majoritário da verdade", o "vice-Deus" colocado acima de tudo e de todos no território nacional, e o tão festejado "senhor dos mortos", criou uma complacência por parte da opinião pública, devido a seu mito que junta aspectos agradáveis associados à religiosidade e aos paradigmas de humildade vindos do Brasil-colônia.
É bastante surreal que muitos brasileiros creditem o "futurismo espiritualista" a um caipira católico, ultraconservador, com índole de interiorano da República Velha saudoso do Segundo Império, um homem do século XIX em pleno século XX mas que, mesmo morto, é tido como fiador do Brasil do século XXI.
MITOS
É assustadora a ganância que os dirigentes da FEB tiveram para alimentar o mito de Chico Xavier, que, antes de se descobrir a campanha limpa de mitificação do inglês Malcolm Muggeridge - que criou uma Madre Teresa de Calcutá (depois reconhecida como uma megera sisuda e insensível) adocicada e maternal - , era trabalhado de maneira confusa e à mercê de escândalos.
Todos estão acostumados com a imagem "amorosa" de Chico Xavier, do "adorável filantropo", e chegam a criar fantasias em torno dele. mas poucos sabem o quanto o ambicioso Antônio Wantuil de Freitas, o tirânico presidente da FEB, é responsável por boa parte desse mito, quando era trabalhado de maneira confusa.
Outro responsável pelo mito Chico Xavier foi Roberto Marinho, o "dr. Roberto" das Organizações Globo, que abandonou a antiga hostilidade ao anti-médium mineiro e apresentou Malcolm Muggeridge ao "movimento espírita", relançando o mito de Chico numa campanha "limpa", com os mesmos elementos trabalhados por Muggeridge para o mito de Madre Teresa.
As pessoas se acostumam fácil com certas coisas e isso é um perigo. Se impõe algo prejudicial à coletividade e se força sua estabilidade diante de tantos argumentos e pretextos, e nenhuma oposição é manifesta, pelo menos de maneira intensa e eficaz, essa coisa nociva permanece, prevalece e as pessoas vivem satisfeitas diante dessa mazela cotidiana.
A mentira e a mistificação são a mesma coisa. Ficamos séculos acreditando em interpretações medievais da vida de Jesus. em aspectos surreais de passagens da Bíblia (como o Mar Vermelho se dividindo como se fosse uma gelatina cortada ao meio), e isso tem o preço muito caro de ver mentiras e fantasias transformadas em verdades indiscutíveis, em dogmas difíceis de serem contestados.
NEO-OBSCURANTISMO
O "espiritismo", embora não compartilhe de muitos dogmas católicos, cria outros novos. Pior: atribui, equivocadamente, a Chico Xavier, supostos pioneirismos científicos que, na verdade, são atribuições roubadas de feitos científicos sérios, ocorridos bem antes das datas atribuídas, trazidos por renomados pesquisadores como o estadunidense Percival Lowell e o alemão Wolfgang Bargmann.
O "espiritismo" diz valorizar a busca do Conhecimento e as atividades científicas, mas seu sutil obscurantismo faz com que irregularidades na mediunidade ou pontos obscuros na vida de ídolos da doutrina sejam ocultos, traindo a busca do Conhecimento e da verdadeira informação.
Por exemplo, prefere-se lançar livros mistificadores sobre Chico Xavier, sem que encontre respaldo unânime dos próprios seguidores, como a "profecia da data-limite", do que relançar um livro que estuda irregularidades de suas supostas psicografias, como O Enigma Chico Xavier Posto à Clara Luz do Dia, de Attila Paes Barreto.
A própria Ciência Espírita de Allan Kardec nem de longe é apreciada. A recomendação, por exemplo, de que um espírito do além tem que se manifestar por meio de diferentes médiuns estranhos entre si e sem qualquer relação ou vínculo, por distante que seja, é simplesmente ignorada.
Aqui, basta um médium-estrela dizer que incorporou um espírito para as pessoas aceitarem. Tudo no faz-de-conta, recheado de mensagens de "amor e fraternidade". Como a "democracia" no discurso demagógico político, a "fraternidade" integra a demagogia religiosa, o que faz os brasileiros terem ignorado os alertas do espírito Erasto, divulgado por um médium (discretíssimo) na época de Kardec.
Erasto havia dito que os espíritos mistificadores falariam em "coisas boas" para seduzir as pessoas e inserir nelas ideias levianas. Kardec também alertou sobre um dos processos de obsessão espiritual, a fascinação, na qual o espírito leviano também enfatiza ideias como "amor", "caridade" e "fraternidade" para depois manipular as pessoas com dogmas igrejeiros.
Daí que é preocupante a ampla complacência da deturpação da Doutrina Espírita feita pelos festejados Chico Xavier e Divaldo Franco. Protegidos pela sua roupagem religiosa, eles não são investigados nem analisados com isenção, adorados cegamente mesmo sob o pretexto da pretensa isenção. Com eles, deturpar o Espiritismo foi mais fácil do que tirar doce da mão de uma criança.
sexta-feira, 6 de maio de 2016
Imprensa brasileira nunca investiga o "espiritismo" brasileiro
Ninguém investiga o "espiritismo" brasileiro. Nem a imprensa. Mesmo um programa como Profissão Repórter, da Rede Globo, que se compromete em fazer jornalismo investigativo e ser uma exceção interna dentro da tendência facciosa e manipuladora dos fatos da famosa emissora, só apreciou, de forma puramente descritiva, as atividades de "centros espíritas".
Sabe-se que o "espiritismo" deturpou os ensinamentos de Allan Kardec, colocou Jean-Baptiste Roustaing debaixo do tapete - o autor de Os Quatro Evangelhos é renegado no discurso, mas seguido na prática - e usa pretextos como "bondade" e "caridade" para camuflar a desonestidade doutrinária.
Há também uma tendência de aumentar, fora do circuito midiático, os questioamentos em torno das atividades mediúnicas, que no Brasil não vão além do faz-de-conta, com mensagens que refletem o estilo pessoal do "médium" e que quase sempre mostram clara propaganda religiosa.
Mas isso ocorre fora da mídia. Dentro dela, ainda há aquela ilusão de "autenticidade", com os "médiuns" fazendo os papéis de dublês de filósofos, profetas, conselheiros sentimentais, filantropos e outras atribuições.
É certo que o jornalismo investigativo, na mídia ultraconservadora brasileira, é uma atividade em extinção. O que a revista Veja faz não é jornalismo investigativo, mas um pastiche grosseiro e cheio de erros e fraudes. A Veja é capaz de entrevistar até bandidos se a finalidade é desmoralizar o Partido dos Trabalhadores e seus líderes.
A grande imprensa está desinformando e mesmo antigos jornalistas exemplares, como Augusto Nunes e Ricardo Noblat, hoje vivem de surtos reacionários histéricos, do nível de calouros de faculdade de Jornalismo. Aliás, a Folha de São Paulo havia contratado Kim Kataguiri, um jovem que escreve artigos com a superficialidade, o primarismo e os erros de informação de um estudante de uma escola ruim de ensino fundamental.
Não há como esperar, numa imprensa séria como esta, jornalistas do nível de Carl Bernstein e Bob Woodward, que investigaram os bastidores da campanha de Richard Nixon para a presidência dos EUA, em 1973, revelando um dos maiores escândalos políticos daquele país.
Se no âmbito político a grande imprensa está mais afeita a inverdades e juízos de valor, e, fora disso, tolices como redescrever os movimentos nos shopping centers para as compras de tal efeméride e noticiar o cãozinho que dança e faz pirueta para sua dona, então não há como pensar em imprensa séria no país, a não ser fora da grande mídia, sobretudo na Internet.
A grande mídia distorce os fatos e cria um país de mentira. Cria uma cultura popular caricata e debiloide, sob o apoio do latifúndio. Cria um feminismo maluco, de mulheres-objetos que acham que ser "solteira e feliz" é exibir o corpo "turbinado" o tempo todo. Até nerds, roqueiros, intelectuais e outras "tribos" são abordadas da pior forma caricatural possível.
Então, não há como esperar que acusações de charlatanismo sejam investigadas. Indícios de comprovação aparecem, através de comparação de conteúdo entre as obras reais dos autores já falecidos e a suposta obra espiritual, que claramente apresenta pastiches grosseiros.
Há muitas análises na Internet que, se fosse no Primeiro Mundo, teriam sido lançadas em primeira mão por jornalistas investigativos. Por exemplo, a prática de "leitura fria" nos "centros espíritas", a comunicação entre estas instituições em diferentes lugares, o propagandismo religioso que contamina até mensagens atribuídas a ateus etc.
Sabe-se que a "leitura fria", um dos exemplos de irregularidades no "espiritismo", consiste numa prática derivada do hipnotismo que se manifesta por uma entrevista em caráter "intimista" na qual o entrevistado, emocionalmente envolvido, fornece informações sutis não apenas pelo que é dito, mas da forma como se diz e se reage mediante certas ideias.
Em vez de uma investigação séria, o que se estimula é o conhecido "deixa pra lá", no qual bastam semelhanças vagas entre as "mensagens espirituais" e o que os alegados autores deixaram em vida para dizer que "tudo é legítimo". Cria-se a malandragem de alegar "veracidade" apenas pelas "palavras de amor" expressas em cada mensagem.
No exterior, verdadeiros ídolos religiosos são derrubados pela denúncia de escândalos. Há uma firmeza em relatá-los, investigá-los com isenção, não sucumbir à tentação fácil da complacência, basear-se nos fatos e não na publicidade religiosa. Sim, religião tem seu esquema de marketing.
A Cientologia, por exemplo, que é uma espécie de "espiritismo" mais complexo e engenhoso, no sentido de ser uma seita travestida de "filosofia científica", é investigada pela imprensa, tem livros e documentários lançados investigando as irregularidades e a opinião pública é informada desse lado sombrio.
Os cientologistas até rosnam de raiva, criam seus livros e documentários como "réplicas" e tentam lançar argumentos diversos em sua defesa. Têm os atores Tom Cruise e John Travolta para dar visibilidade positiva à sua doutrina. Mesmo assim, ninguém se intimida com isso.
Aqui, as pessoas se intimidam para não desafiar a "bondade" de certos ídolos religiosos. Livros investigativos até foram publicados, como O Enigma Chico Xavier Posto à Clara Luz do Dia (1944), de Attila Paes Barreto, lançado no calor do processo movido pelos herdeiros de Humberto de Campos.
Só de pensar sobre a necessidade de relançamento deste livro, os "espíritas" se apavoram. Aqui, há o medo de não abalar a reputação de ídolos religiosos como Chico Xavier e Divaldo Franco, graves deturpadores do legado kardeciano, mas pessoas associadas a paradigmas de "amor e bondade".
Enquanto o livro de Attila Paes Barreto permanece no esquecimento, não havendo sequer cópias em sebos - pelo menos nos sebos com páginas na Internet - , bobagens favoráveis a Chico Xavier são lançadas, repetindo o "feito" com Adolfo Bezerra de Menezes, o "dr. Bezerra", do qual se publicam mais fantasias de sua "vida espiritual" do que fatos concretos de sua vida parlamentar.
Chega-se ao ponto do aberrante lançamento de livros como Não Será em 2012 e Data-Limite Segundo Chico Xavier, entre outros que lançam e relançam as supostas profecias de Chico Xavier sobre a tal "data-limite" de 2019.
Para piorar, a hipótese dessas "profecias" não é unanimidade entre os seguidores do "médium" mineiro. O "médium" Ariston Teles, por exemplo, lançou uma suposta psicofonia atribuída a Chico Xavier desmentindo que tenha feito tais "previsões".
E isso é grave. Muito grave. Prefere-se lançar obras fantasiosas, de valor duvidoso, que nem são unânimes entre os adeptos de Chico Xavier. Tudo para fortalecer o mito, mesmo sob o risco de controvérsias internas entre os chiquistas.
Outro dado aberrante é considerar Divaldo Franco "o maior filantropo do Brasil" com a humilhante porcentagem de 0,001% de beneficiados anuais, comparados a dados da população do Brasil. Algo em torno de 2.540 indivíduos por ano. Cerca de 160 mil, em 63 anos de existência da Mansão do Caminho.
Só a título de comparação, o hostilizado Bolsa Família, dos governos Lula e Dilma Rousseff, tem cerca de 13,8 milhões de famílias pobres (não se fala em indivíduos, que devem ser bem mais) beneficiadas em 14 anos.
É pouco mais de um quinto o tempo da Mansão do Caminho e com uma quantidade de beneficiados bem maior. E nem por isso Lula e Dilma são considerados os maiores filantropos do Brasil, mas criminalizados por supostos erros que nunca foram devidamente comprovados, enquanto os de Divaldo Franco, como deturpador da Doutrina Espírita, possuem provas consistentes.
Num país em que a mentira, quando apoiada pela roupagem religiosa, é aceita sob o pretexto da "bondade", as pessoas não cobram transparência, e é por isso que vivemos num clima de preocupante incompreensão das coisas, o que faz com que esse cenário confuso do país tem a sua razão de ser. Enquanto há confusão, a coerência não encontra morada.
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